terça-feira, 21 de maio de 2013


                                                      A TRAIÇÃO DO POETA




Em 1945 o exército americano rompe as linhas alemãs e chega ao norte de Itália. Naturalmente, na Itália fascista há muitas contas a ajustar e são feitos prisioneiros pelo exército libertador e pelas organizações de resistência. Entre esses prisioneiros está um poeta. Não um qualquer poetastro menos que menor, mas um dos maiores nomes da poesia mundial de todos os tempos. Ezra Pound.
Toda a  América destilava ódio contra Pound. Pound era acusado de alta traição à sua pátria. Era ele uma das mais importantes personalidades a capturar pelo exército libertador americano que ocupava a Itália.
Pound era considerado traidor e, como tal,  couberam-lhe condições de detenção especialmente aviltantes. Semanas numa cela totalmente às escuras, alimentado apenas a pão e água. Depois, numa cela de condenado à morte. Por fim, a jaula. Uma gaiola com barras de ferro, abandonada no meio do descampado, à mercê do frio, da chuva ou do calor; à mercê dos populares que se entretinham a insultá-lo, a cuspir-lhe, a atirar-lhe para cima toda a sorte de imundícies. Depois, ainda, meses de isolamento noutra cela de segredo.


Ezra Pound, o grande poeta, sofre, evidentemente, vários colapsos mentais, até ao dia em que é metido noutra jaula gradeada e recambiado para os Estados Unidos. Não, não se tratava de qualquer chefe militar particularmente sanguinário. Tratava-se de um dos maiores  da poesia universal.
Mas... o que terá feito Ezra Pound, um poeta,  para merecer um tratamento destes?
Ezra Pound tinha expresso opiniões pessoais por meio de uma série de alocuções feitas através da Rádio Roma.
A liberdade não é um direito. É um dever.
Alocuções que zurziam a hipocrisia capitalista americana e inglesa, apontando o dedo ao que chamava de usurocracia.
A liberdade de palavra não passa de uma válvula de escape. Deixai que as gentes falem e nada acontecerá.
Usurocracia, no dizer de Pound, como causa da corrupção espiritual dos homens e da ruína moral dos estados.
O dinheiro não tem o menor interesse se não significar alguma coisa mais do que esterilidade, e desde a pré-história que a diferença entre o dinheiro  e o metal sempre confundiu os homens.   
Usurocracia que, nas palavras de Pound, está nas orígens da instauração da sociedade de consumo e na redução de toda a Arte ao estatuto de mera mercadoria.



Aliás, um tema mais ou menos incorrecto, ou maldito, na ideia dos bem pensantes modernos, visto que, digo eu, compromete de alguma forma todo o florescente sistema bancário na barbárie humana do consumo desenvolvida à escala do planeta. Um tema de flagrante actualidade...
Filósofos e moralistas nunca conseguiram estabelecer uma percentagem justa de juro. Santo António, Santo Ambrósio, S. Tomás de Aquino  trabalharam na matéria. O conceito de juro já existia antes da cunhagem de moedas metálicas.
O crédito existe desde que existe a luz. Os bancos tiram proveito dos juros, principalmente do dinheiro que criam a partir do nada.
Foram 125 (ou 180) palestras versando temas literários, políticos, eruditos ou artísticos e económicos, no ar mais ou menos entre Dezembro de 1941 e Julho de 1943.
Justifica-se mais um juro sobre um empréstimo de sementes, ou de ovelhas, do que sobre um empréstimo de metal não reprodutor e não reproduzível.
Diria eu  que todo o moralista pode ser politicamente incorrecto. Pode ser. Deve ser. Para um lado ou para o outro do centro de gravidade da moral do bem pensar. É da ordem anti-natural das coisas.
Adicionar legenda
Nem todo o poder de compra é fruto do trabalho. Os incapazes vivem com esse poder de compra que não provém do trabalho. Mas o poder aquisitivo suplementar não cria nada. Faz apodrecer todas as coisas. Não cria nada que torne a vida mais digna de ser vivida.
Para Ezra Pound, a política deveria ser a expressão objectiva de uma moral, de toda a moral, talvez; ou o elemento de substituição da paixão religiosa no espírito humano, uma variante da Arte, se se pode dizer.
A grande perversão, a grande decadência é quando a pintura se faz para ser vendida, quando o pintor decide que quer viver bem e comer bem.  Chega a riqueza e é o fim. Ninguém consegue resistir ao luxo.


A ética, segundo Pound, era a base da acção política, não sendo permitido ao artista - depositário de uma profunda qualidade moral de vida - eximir-se a intervir na arena política.
E vós, porque combateis? Pela democracia? Que entendeis por democracia?
O Homem devia combater, sim, contra a injustiça. Mas muitos homens combatem pela sua ambição. Há homens que combatem pela sobrevivência racial. Duvido que tenhais pensado muito nisso, na sobrevivência racial. Agora todos os ingleses e americanos da  minha geração sabem que devemos encarar o problema de sermos escravos ou de sermos livres.
Acreditava que o mundo vinha acumulando histeria, e desde há muito que o sentido das liberdades se vinha perdendo no Homem, dando azo a que se acumulassem igualmente, em aceleração de eficiência, os factores tiranizantes.
Haverá sempre uma corrupção da ideia, feita pelos meios de comunicação. Corrupção da ideia. Corrupção da linguagem. Destruição do sentido da  terminologia. Corrupções que degradam o Homem ao estado animal e os transforma em seres incapazes de comunicar com os outros.
Mas nunca restaram dúvidas de que, de facto, Ezra Pound se deixara fascinar, e muito, por Mussolini e pelo corporativismo, e mais ainda do que isso pelo anti-capitalismo e pelo anti-materialismo que julgava surpreender no cerne da doutrina e da moral fascistas.

                                                 

Começarão os legisladores americanos ou os financeiros a estudar uma  solução fascista ou corporativista? Não. Não concebo que a América possa ter um fascismo antes de muitos anos de preparação.
Pois fora das teorias e fora do labor propriamente literário, Pound interessou-se muito ao longo da vida pelas questões económicas, em especial pelos sistemas monetários, questões básicas, na sua opinião, a toda a ordem social.



Até um humilde camponês compreende  que os juros sobre as dívidas não são uma base sólida para a moeda e para a sua capacidade produtiva.Todos os que morreram em Dunquerque morreram pelo ouro. Os que  morreram em Dakar morreram pelo ouro. Quem faz hoje todo o possível para que a guerra continue?
Vedes alguém obscurecer a luz divina com o corpanzil e com as banhas? Sim. Roosevelt e Churchill, quando empurram ingleses e americanos para  a guerra. Os ingleses, diz-se, têm cabeça de madeira, e os americanos cabeça de  cabaça. É fácil meter qualquer coisa na cabeça dos americanos, mas é  impossível conservá-la nessa cabeça durante mais de dez minutos.
Ezra Pound nasceu em Outubro de 1885, no Idaho, e publicou o seu primeiro livro de poesia em 1908, em Veneza.
A civilização interessa-me desde os 12 anos, quando vi Veneza pela primeira vez. Gosto de Veneza.


Vive alguns anos em Londres e muitos anos em Paris, antes de se fixar em Itália, em Rapallo. Na América, entrara na universidade aos 15 anos, pelo que diz para fugir à Academia Militar.
A América quis e fez a diplomacia do dólar. Mas nem sempre nós, americanos, inventamos as nossas novidades.
Afirmava ter vindo à Europa para se cultivar, para descobrir o que se tinha escrito e quais eram os melhores desses escritos em todas as línguas que pudesse compreender. Tentava assim descobrir a verdade, fosse ela qual fosse, descobrindo, através da verdade, a vida mesma.
O meu trabalho é escrever, e uma épica é um contentor de História.
Descobri também que na cabeça dos homens não há distinção entre    comercial e mercantil. Na mentalidade ocidental não é muito clara  a  diferença entre comércio e usura. Vivemos no meio de traficantes.


                                                                                                                                            
 
A continuação da guerra é desejada a todo o transe por Roosevelt,escondido atrás do seu teatro de polichinelos, gesticulando, a divertir as crianças e a enviar rapazes para as trincheiras. A herança americana deve ser defendida no continente americano. Roosevelt, ao arrastar a América para a guerra, não pensa em defender essa herança. Há momentos em que uma nação deve combater. Mas em 39 os Estados  Unidos não estavam nessa situação. Ninguém ameaçava os Estados Unidos de extinção. Só o cretino e deficiente meio hipnotizado que vive na Casa Branca podia ter enviado cartas dignas de instrução primária a  Mussolini e a Hitler e ameaçar reduzir o Japão à fome. O mundo sentiu todo o fedor da sua propaganda.
Por estas e por outras se pode perceber um pouco o modo como os americanos vencedores puderam tratar Ezra Pound.
Não quero que os meus compatriotas entre os 20 e os 40 anos sejam  mandados para o matadouro para favorecer o tráfico de droga e outros tráficos dos judeus britânicos de Singapura e de Xangai. Não é esse o meu conceito de patriotismo.
O Antigo Testamento é um conjunto de crónicas, salmos, profecias e eclesiastes que registam os feitos desagradáveis de uma raça de bárbaros.
O Talmud é tudo o que há de mesquinho. É um código de vinganças orientado para a destruição de todas as ordens não farisaicas, e a sua leitura só devia ser permitida a estudiosos de psicopatologia.


Em 1913, ou 1914, Ezra Pound esteve ligado ao grande poeta  William Buttler Yeats, Prémio Nobel de Literatura, um dos mais célebres ocultistas britânicos e membro destacado da ordem de Golden Dawn.
 

Todos os sistemas parlamentares são superficiais. Devia haver algo de mais profundo, uma realidade, uma convicção. Não pode haver apenas demagogia e mentira.
Pound chega a ser secretário de Yeats, com o qual diz ter constantemente divergido, pelo menos em matérias de poética.
Os actuais parlamentares são de tal modo ignorantes que houve quem  julgasse útil dar-lhes instrução parlamentar. Também acho que os parlamentares deveriam ser submetidos a um exame das matérias sobre as quais se pensa que vão ser chamados a votar. Um sistema como o dos mandarins chineses.
A proximidade de Yeats pode indiciar alguma participação, ou mesmo filiação, de Ezra Pound, em sociedades secretas, quem sabe se na própria Golden Dawn – donde, não ser de admirar aquela simpatia fascista, e racista.
A representação política através da actividade e das profissões era melhor solução. Isso conduziria a um Estado de facto eficiente.
Para além da sua monumental obra de poeta e ensaísta, Pound chega a compor duas óperas: O Testamento de François Villon  (em 1923, com ajudas do compositor Georges Antheil), e Cavalcanti (de 1932).
 Desde cedo se deixara influenciar pela poesia dos trovadores provençais, os cátaros - e, como se vê, isto anda tudo ligado - e daí o seu ideal de união expressiva de palavra e de música. Monodia trovadoresca e notações rítmicas que reproduzissem as assimetrias da palavra poética, usando nas suas óperas os estranhos compassos de 7/16 e de 19/32, em harmonias minimais e recorrendo a uma espécie de...
Pontilhismo instrumental. E também escrevi um Tratado de Harmonia. Mas, naturalmente, a música pode servir para compreendermos a métrica verdadeira.
Um jornal é uma máquina de destruir recordações públicas; existe simplesmente para apagar as memórias de ontem.
A raça anglo-saxónica está ameaçada pelos Rotschild. Os meus pobres compatriotas continuam a ser governados por hebreus e pela pior escória do judaísmo.


Que importam ao cadáver os pregos do caixão? Podem ser de ametista ou de platina, como podem ser pregos vulgares comprados numa loja de ferragens.
Acabada a guerra, veio o ajuste de contas. Metido numa jaula, sujeito a todas as humilhações, Ezra Pound é mandado para a América.  Na América movem-lhe um processo político. Mas os juízes consideram-no praticamente inimputável, mentalmente inapto para ser julgado. Ele não estava a pensar segundo os cânones aceites. Tinha que ser louco. Mandam-no então enclausurar num asilo de loucos, o hospital psiquiátrico de Saint Elisabeth, em Washington. Ali vai passar 14 anos.

O ocidente funda-se na propriedade da terra. A nossa civilização deriva do solo e da responsabilidade primordial e total do homem que produz a partir do solo.
Responsabilidade. Aí está. Responsabilidade pessoal, profissional e política.
Na altura não tive consciência do meu crime. Ofereceram-me, em Roma, duas vezes por semana, um microfone. Garantiram-me a possibilidade de dizer tudo o que não violentasse a minha consciência ou a minha qualidade de cidadão americano. Posso ter passado por um estado de loucura. Mas nunca tive a noção de cometer actos de traição à minha pátria.


Aos microfones da Rádio Roma, entre 41 e 43, Ezra Pound disse o que entendeu dizer e nunca sentiu pressões para parar.
Sou completamente a favor da responsabilidade. Da responsabilidade pessoal.
Sentia muito, isso sim, a loucura dos tempos. Fizera, segundo diz, tudo o que pudesse ter estado  ao seu alcance para impedir a guerra, e depois disso via a Itália e os Estados Unidos envolvidos em guerra. De qualquer modo, nunca incitara os soldados à rebeldia.
E desafio quem quer que seja em todo o mundo a provar que foi maltratado por mim em função da sua raça, cor ou religião.
Há pressões dos meios intelectuais americanos para o libertar, para o tirar do manicómio de  Saint Elisabeth.
Disse Aristóteles: o dinheiro não provém da natureza mas do costume. O dinheiro não existe por si mesmo na natureza: é um fenómeno social.
Todavia, a intolerância democrática americana faz toda a contra-pressão, por meio de sonoras campanhas contra a possibilidade de libertação do traidor. Enfim... do poeta...
Há truques para obter juros de um dinheiro que não representa  absolutamente nada. Dinheiro que é a sombra de um  sonho nebuloso baseado na credulidade dos homens, na sua boa fé e na sua preguiça. 
 Para além das línguas ocidentais mais correntes, dominava o provençal, o chinês, o árabe, o latim e o grego, e neles também se exprimiu na sua obra magna, os Cantos.
Na clausura do manicómio de Saint Elisabeth, traduziu Confúcio.
Nenhum filósofo foi tão consciente como ele (Confúcio) das bases éticas necessárias à organização dos estados.
 


 
         Ernest Hemingway, um dos muitos enormes escritores universais que ficaram a dever grande parte das suas carreiras a Ezra Pound - outros foram, por exemplo, Scott Fitzgerald, Wyndham Lewis, T.S. Eliot, e nem mais nem menos do que James  Joyce - Hemingway, dizia eu, encabeçou, em 1958, um movimento de escritores que consegue finalmente obter a libertação de Ezra Pound do asilo de alienados.

                 
                               

Saído do manicómio, Ezra Pound abandona imediatamente os Estados Unidos e volta para Itália. Morre em 1972... onde havia de ser... em Veneza....

Está sepultado no cemitério da ilha de San Michele.
O destino de Ezra Pound foi  o destino dos que não seguem, respeitosos e obedientes, a corrente; foi o destino dos que se desalinham dos sentidos convenientes e dos fluxos dominantes que os  bem instalados inventam para a vida do seu tempo. Já há poucas personalidades assim. Cada vez menos. Olha-se, mão em pala, para o horizonte e nada se vê. Mas ainda haverá algumas personalidades dessas - quero crer, preciso urgentemente  de crer.



Que a erva cresça do meu corpo,
         Que eu ouça as raízes falar juntas,
         O ar é novo em minha folha,
         Os ramos bifurcados agitam-se com o vento.
                                          
                                         
                           



          

4 comentários:

  1. Belíssima homenagem a um homem extraordinário, entre nós só conhecido de muito poucos... também acho que precisamos de acreditar que ainda existem figuras assim, mas as dúvidas são cada vez maiores.

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  2. Ezra Pound desafiou corajosamente o grande poder do Século XX: o judaísmo oligárquico e apátrida euro-americano e ocidental. O qual se veste hipócritamente de "democracia", mas apenas para mais fácilmente atingir os seus fins inconfessáveis e esmagar implacávelmente quem o denuncie.

    Ezra Pound, porém, revelou-se demasiado ingénuo ao deixar a sua voz ser capturada por malandros da bestialidade de um Mussolini.

    Mas os "democratas" euro-americanos, por sua vez, não têm o menor pejo em continuar a tolerar a captura dos bons sentimentos anti-fascistas e a invocar a nobre memória das inocentes vítimas do Holocausto para suportarem um Estado criminoso e visceralmente malévolo, de uma perfídia moral nunca antes atingida pela Civilização, como é esse cancro diplomático e militar que há 75 anos faz pouco do Direito Internacional e que dá pelo beatífico nome de Israel.

    Quem prendeu e enjaulou Ezra Pound em nome da Liberdade e da Democracia, que se envergonhe aos pés da sua memória de Homem livre e liberto das correntes da servidão social, intelectual e moral.

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