sexta-feira, 14 de junho de 2013

                                     CAVE MUSICAM




Sim, mais do que qualquer outro acto, a música exprime a realidade de uma vontade de potência. Cave Musicam. então. Cuidado com a música.
Disse-o Nietzsche.
Cuidado com a música, disse ele, Nietzsche. Mas também disse que sem a música a vida teria sido um erro.
Cuidado com a música porque Nietzsche a compara a Circe, reconhece-lhe um poder equívoco, perigoso, uma espécie de bruxedo. Carmen. Bruxedo, ou feitiço, ou encantamento. Cuidado com a música, cave musicam, ela pode perverter o ouvinte. A música é a noite; a noite é feita com música.
A vida destinada por Deus aos homens não teria sentido algum – ou menos ainda do que aquele que possa ter – se lhe faltasse a música. Seria uma Criação falhada. Da mesma forma como, sem o Amor (assim, com maiúscula), a Graça, Deus não seria Deus, seria também Ele um conceito falhado.
Que quer o meu corpo da música?, pergunta-se Nietzsche.
Desde que não tem alma, o meu corpo aspira ao aligeiramento, como se todas as funções animais devessem ser aceleradas por ritmos leves e atrevidos, turbulentos; como o bronze e o chumbo da vida devessem esquecer o seu peso graças ao ouro e à ternura das melodias.
A minha melancolia quer repousar nos segredos e nos abismos da perfeição. Aí está porque tenho necessidade de música.
Era um músico, e ao que dizem menos mau, Nietzsche. Compôs. Dizem que era quase um virtuoso do piano. Quase! – não sei bem o que seja; ou se é ou se não é. E diziam-no um talentoso improvisador. Na música, o seu estilo, o seu temperamento, parece que era suave, distante quanto se possa conceber do som wagneriano. Porque a música teria por missão substituir a metafísica. É ela a transparente pulsação do mundo. Mas, ainda assim, cuidado com ela.



Como músico, consideravam-no um bom amador. Bom amador porém insuficientemente preparado para suportar comparações com compositores consagrados, está bem de ver. Mas dizem que não se importava de ser metido a meças com um deles, Schumann, o qual criticou. O qual, até, parodiou, a propósito da Abertura de Manfredo, compondo uma peça a que chamou Manfredo-Meditação.
E… bem, foi gozado pelos profissionais, nomeadamente um, de peso, Hans von Bülow – como se sabe, chefe de orquestra, wagneriano dos quatro costados, marido de Cosima e por inerência desse “cargo”, por algum tempo, genro de Lizst.
Será que é em boa consciência que você não cessa de desprezar as regras elementares da composição, da sintaxe, da harmonia?, conversa de Hans von Bülow, a quem Nietzsche submeteu essa peça, Manfredo-Meditação. Não me interessam para agora, continua von Bülow,  as coordenadas filosóficas ou psicológicas que a sua música possa ter. Estou a falar no plano puramente musical, e no plano exclusivamente musical esta obra é um crime de ordem moral.
Isto foi escrito em carta. Mandada em Julho de 1874.
No mundo interior de Nietzsche pressentia-se – pelo que dizem os seus exegetas, está claro -  a ideia de qualquer coisa que tivesse sido irremediavelmente perdida.  (Aliás, um sentimento caro ao germanismo, dá a ideia.) Só a arte seria capaz de suportar os abismos e extraír das ruínas eternas toda a grandeza.
As ideias de civilização e de cultura estavam, evidentemente, no centro  da meditação filosófica de Nietzsche. O tão discutido Super-Homem do seu ideal não era a priori  um guerreiro conquistador, era, antes de tudo, um pensador, um artista, destruidor e criador a um tempo. O que suporá que ao pensamento atribuísse ele o dom da destruição, compensada pelo artista e pelo seu dom de criação.
O artista devia imaginar, imaginar para lá dele próprio; o filósofo deveria reduzir-se a pensar nos limites da razão. E se, como disse Nietzsche Deus está morto, compete ao indivíduo na sua contemporaneidade ou afundar-se no absurdo e na morte, ou tomar o lugar do seu Criador, redefinindo a essência do Homem como categoria artística.


Diz ele: O Homem é o animal ao qual um carácter peculiar não foi ainda atribuído. Ou seja, talvez: o Homem é um dado histórico, de circunstância; o Homem não terá de natural em si nenhuma eternidade, estando por isso em contínuo devir.
A  fé em Deus, na opinião dele, é tão somente a expressão de um espírito de vingança contra o tempo e a respectiva irreversibilidade. A crença na existência de um outro mundo, de uma outra, eterna,  vida, céu e inferno, e, digo eu, mais modernamente a crença na existência de vida noutros planetas, na existência de criaturas outras no espaço (o que significaria talvez um projecto para o Homem, para a Criação), é também a dolorosa, profunda insatisfação do Homem pelo mundo presente. Os homens preferem pensar numa salvação que lhes chegue por efeito de uma causalidade exterior, em lugar de conferirem ao mundo e à vida uma significação a partir de si próprios.
A morte de Deus, em Nietzsche, terá sido a razão da descoberta do poder artístico do Homem. Um poder desnecessário se Deus não estivesse morto.
Poder e função artística do Homem que lhe revela a dimensão apolínea. Dimensão apolínea que tem a vocação de, digamos, enfeitar mentirosamente as aparências. Ao passo que o traço dionisíaco da música mesma se identifica com as finalidades da filosofia.
Nietzsche, sobretudo depois da ruptura com o wagnerismo, deixa de acreditar numa música que aprendeu a enganar quase com a mesma elegância das artes plásticas. Cuidado com a música. Cave musicam.
Os critérios de valor obrigatoriamente repousarão no poder artístico do Homem tornado igual a um deus.


A música (cuidado com ela), inscreve-a Nietzsche numa genealogia. O corpo. O ouvido,  desde antiquíssimos tempos um órgão em conotação com o medo, com a noite, com a sombra.  O músico como um predador pré-histórico. Cuidado.
A noite e a música. Relação íntima. Nietzsche escreveu-o na sua obra Aurora.


Foi na noite e nas penumbras de uma escura caverna, de uma medonha floresta, que o ouvido, o tal órgão do medo, se desenvolveu rápida e poderosamente no corpo do Homem. Vivia-se então no mundo uma idade de trevas e de medo, a mais longa idade humana.
Com o nascer do dia, o ouvido é menos necessário. Há a vista,  evidentemente. Decorrerá daqui a natureza intrinsecamente nocturna da música, arte das sombras, arte da noite.
O corpo, a música, a inteligência. Orelhas pequenas: sinal de inteligência mais viva. Afirma Nietzsche. Que por acaso parece que as tinha bem pequenas. A matéria inteligível do mundo, o barulho, o ruído, os sons, e por fim a música. A orelha: arquitectura complexa de um dos cinco pórticos dos sentidos, pelos quais o real se infiltrava até ao ventre para permanecer na carne.
Freud era um nitzscheano. Fiquei a saber.
Freud mesmo chegou a falar do primitivo homem em relação com o mundo sensível somente pelos seus atributos olfactivos e auditivos.
Nas densas folhagens, nas altas ervas, nos mundos silvestres, por entre as mais luxuriantes vegetações, subsidiário de uma lógica vegetal de vida, o animal que ainda não é um homem ouve e cheira os perigos. Espia, escuta, aumenta a acuidade auditiva. A hominização está em curso.O futuro que se classificaria de superior para este mamífero, para este primitivo animal, cumpria-se.
Nesta conformidade das coisas, o músico procede, descende, do predador avisado, ciente da necessidade de previsão do perigo, artilhado contra os riscos do viver.
Seja ele devorador, seja ele devorado, destruidor ele próprio ou ele próprio destruído, caçador ou caçado, a diferença entre essas antinómicas condições de vida realizava-se pelo órgão auditivo. E já nesta época tenebrosa da História humana possuir um ouvido musical equivalia à sobrevivência.
Quem ouve melhor, melhor preparado está para conjurar os perigos, passar ao lado deles. Em suma, continuar a viver.
Claro que, mais tarde, surgem os filósofos. E atribuem-se os filósofos a divina tarefa de construir uma ordem intelectual, de forma a obterem uma significação para as coisas.
Os filósofos espiritualizaram o mundo e a vida. Desencarnaram-nos. Desmaterializaram-nos.

                 

Oh, mas que brilhantes dizeres. Não confundam as coisas, por amor de quem lá têm. Tais dizeres não são meus – ou antes: os dizeres são meus, mas as substâncias não me pertencem. Pertencem a Nietzsche. Eu apenas sirvo de ponte.


Mesmo que Nietzsche não goste, quem mais expressivamente do que Wagner, e, depois, de Chopin, escreveu música para noite? A noite é mesmo um elemento constitutivo primordial do Tristão. O Tristão é da mais perigosa música nocturna que alguma vez se concebeu. Cuidado com ela.
Chegados à vida humana, os filósofos, enfim,  tudo o que para eles sugeria por demais no Homem o animal que fareja, que pressente a presa, que lhe segue a pista, que escancara as narinas frementes, tudo o que lembrasse no humano o animal,  aquela cabeça erecta, aquele olhar fixo, estas orelhas irrequietas em  movimento de escuta, tudo isso é desconsiderado. A categoria máxima dos sentidos do Homem espiritualizado desloca-se para o olhar, a visão.
A visão é mais digna. O olhar coloca à distância de si um mundo que se tornou demasiado presente.
O olhar, faculdade doravante mais desenvolvida no corpo do Homem, circunscreve mais competentemente a realidade, quer dizer, o perigo. Quanto melhor se vê, menos necessidade há de ouvir.
O Homem quase despreza o ouvido excessivo do cego. O mundo espiritualizado, ou seja, idealizado, posto à distância pelo olhar, pôs os homens surdos e pô-los mais constante e obsessivamente a comemorar os conceitos, as ideias e as imagens. O esquecimento do mundo real reflecte a evidência de um único sentido posto alerta.
O símbolo está a tomar cada vez mais o lugar da realidade. Já Nietzsche o compreendia no século XIX. E quanto mais o mundo verdadeiro é feio e terrificante, mas a música o transfigura e dele propõe uma idealizada imagem sonora.
A noite. A noite em relação íntima com o medo, com a música. Cave musicam. Cuidado com a música!
Acabam as mitologias ancestrais. A música dos pássaros – a despeito de Olivier Messiaen – deixa de se ouvir. Mas de noite, nos campos, é possível ouvir a música dos insectos. A noite pode ser uma música de insectos. A noite. À noite. Regresso do ouvido, dos ruídos da nossa História primeva, a escuta do predador, a tensão muscular do animal em perigo.
Porque no concerto, a música teatraliza, espectaculariza a catarse para o esconjuro da noite, da penumbra.
O Homem imitou a natureza para melhor se apoderar dela. Usou-a como modelo com a finalidade última de a vencer.
O Homem usou culturalmente o barulho criando outra coisa, o som; e ainda outra: a música.
Concepções, composições, estruturas, repetições, séries, cadências, ritmos, métricas, improvisos, memória. É a música culta, a música erudita, que contudo conhece o trajecto das suas genealogias a partir da pré-história. E do homem das cavernas se chega a Verése, a Xenakis. E o ruído permanece no interior do som culto, dá-lhe materialidade, consistência.


Os ruídos selvagens, naturais, constituem matéria de obras primas incansavelmente elaboradas. Trilos de pássaros podem transformar-se em corais de Bach. Violências telúricas originais podem oferecer-nos a Sagração da Primavera. Webern pode reproduzir-nos talvez, uma rítimica dos ventos.
Mas toda a música que ouvimos descende da chuva…
A música pode derivar do coaxar das rãs no pântano, do gemido dos búfalos na pradaria, do rugido dos velhos leões saciados, do sibilar da serpente no deserto, das torrentes bucólicas, do trovão, do ciclone, das vagas oceânicas, do galope de cem cavalos soltos, do estalido do degelo das neves. Do automóvel. Do avião. Do bombardeamento… da bebedeira de um homem…
O futuro da música, já Nietzsche o visonava, seria cada vez mais intelectual, ou intelectualizado. O ouvido contemporâneo embota-se, talvez, na multiplicação dos exercícios sonoros que pretendem prover de razão o ruído. O Homem ficou sedento de sentido para a música que ouve – até, se calhar, ao ponto da falta dele, sentido. O Homem moderno prefere descobrir o sentido a gozar o efeito do som.


E o ouvido vai-se tornando mais espêsso. Degrada-se. Eu diria que se torna um tanto masoquista: prefere ser agredido; boceja de tédio se for acariciado.
A intelectualização pretendida para a música da nossa contemporaneidade representa a descoberta de mundos novos, é possível, mas evoca o terrível, o misterioso.
O que é que eu peço encarecidamente à música?, pergunta-se Nietzsche.


Que ela seja de bom humor. Que seja profunda como uma tarde outono. E desenvolta. E terna. Uma rapariga doce, cheia de abjecção e de graça.
Não posso admitir que um alemão seja capaz de conhecer o que é a música,  palavras textuais de Nietzsche.
A música? Uma alegria serena, mesmo no sofrimento, mesmo no cadinho dos enigmas dolorosos da vida e das humanas paixões. Bom humor soalheiro. Ligeireza.
Mozart. Sim! É nele que o sério, e a gravidade, e a profundidade respiram a doçura em lugar do terror.
Mozart, claro.
                                                                                     
                                                                                 

Conservar o bom humor quando se está envolvido em trabalhos e cuidados tenebrosos, cansativos, exigentes, não é coisa leve. Mas o que existirá de mais indispensável ao Homem do que o humor?, Nietzsche dixit. Arrancada ao prefácio do Crepúsculo dos Ídolos –não digo dos deuses para não confundir mais as coisas, nem as pessoas, tão pouco os estados de espírito.
                                        
                              

Mozart. Evidentemente. Mas cuidado, em todo o caso, cuidado com a  música, cuidado com o bruxedo da música, Cave musicam. A noite. O ouvido. A música. O medo. O perigo.

1 comentário:

  1. Sim, a música é a única das artes que ainda se mantém subversiva neste mundo em que tudo se transforma em objecto de consumo...Mas ela escapa perigosamente...Por isso me é tão essencial.

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