segunda-feira, 3 de junho de 2013

     AGORA HÁ UM DEUS QUE DANÇA EM MIM


                            


Na noite de 27 de Novembro de 1881, Friedrich Nietzsche, sempre de viagem, sempre em busca do sul – e provável e consequentemente do sol – e do imoralismo, da liberdade e da vontade de ser, está em Génova, está no Teatro Paganini e assiste pela primeira vez na sua vida à ópera Carmen,de Bizet. E tem uma revelação.
No dia seguinte, escreve a um amigo músico chamado Peter Gast, que está em Veneza.


Hurra! Amigo! Tive ontem a revelação de mais uma bela obra. Uma ópera de George Bizet (quem é, sabes-me dizer?). Carmen. É espiritual e é forte. É mesmo emocionante. Ouve-se como se se lesse a novela de Mérimée. Aqui está um talento musical verdadeiro que não se desorientou com o Wagner, e que, pelo contrário, é um digno discípulo de Berlioz. Sempre tive fé em que uma coisa deste género pudesse acontecer. Os franceses são os melhores no domínio da música dramática, eu bem tinha suspeitado disso.
Peter Gast, o tal amigo, responde-lhe na volta do correio. Bizet já morreu. Há seis anos. E ainda novo. Foi aluno de Halèvy. A Carmen é representada muitas vezes, mas, se queres que te diga, nunca a vi. Nietzsche fica muito impressionado por saber que Bizet morreu. Volta a assistir à Carmen. Carmen! Mas que personagem apaixonada e fascinante! Esta Carmen, esta obra meridional por excelência vale bem uma viagem a Espanha.
      Ah, sim! Agora me lembro. Há de facto uma novela de Mérimée chamada Carmen. E reparo que tanto a ideia como o desenvolvimento trágico da novela subsistem na ópera – aliás, o libretto é verdadeiramente bom.
    E Nietzsche fica persuadido de que a Carmen é e melhor ópera que alguma vez se compôs. Compra uma partitura, uma redução para canto e piano. E começa a anotá-la à margem. E depois de anotada, envia a partitura ao tal amigo, Peter Gast. Confia na humanidade e na musicalidade do outro, mas não descarta a possibilidade de, ao enviar-lhe as notas à margem da partitura da Carmen, lhe estar a dar ocasião a que se ria à sua custa.
Recebi a tua partitura e apreciei devidamente as tuas notas à margem. Fiquei espantado. Com a música, sim, mas mais ainda com as tuas notas, o que me convenceu de vez de que tu és mais musical do que eu, que sou músico.
Peter Gast esquecia que Nietzsche também era músico, e músico preparado, alguns pontos acima do simples diletante. De qualquer dos modos, e por uma questão de curiosidade, será bom dizer que esta partitura da Carmen (versão italiana) anotada por Nietzsche ainda é “viva”, digamos, e está conservada nos arquivos Goethe-Schiller em Weimar.
No fim do prelúdio: anotação de Nietzsche à margem: o tema da morte, o destino, a liberdade. Quase um leit-motif wagneriano e a essência mais profunda da personagem Carmen: amor, fatalismo, liberdade, morte…
Depois disto, Nietzsche escreveria o panfleto famoso intitulado O Caso Wagner – não esquecer: Wagner, a primeira paixão, grande paixão musical de Nietzsche, e que acabou em ruptura radical. E ao Wagner outrora idolatrado e seus valores musicais, morais  e filosóficos, Nietzsche contraporia a Carmen,de Bizet. Recusava o princípio filosófico e moral do drama wagneriano e, sem por isso ter regressado a uma apologia da música pura, encontra em Carmen o paradigma do drama musical. Clareza de instrumentação e respeito absoluto pelas mais absolutas leis da escrita musical. Rica. Precisa. Construtiva. Organizada. Com princípio, meio e fim. Opõe-se, portanto, à ideia wagneriana da música infinita.

    Wagner ofendeu-me mortalmente – quero que o saiba. Ofendeu-me aquele lento mas imparável regresso que fez ao cristianismo e à Igreja. Foi para mim um insulto pessoal: toda a minha juventude e aspirações me pareceram contaminadas só porque dei comigo a venerar um espírito capaz de tal coisa” – carta de Nistezsche a Malvida von Meysenburg. 22 de Fevereiro de 1883.
A troca de venerações de Wagner por Bizet da parte de Nietzsche, para lá de todas as razões aduzidas por este, também significa uma escolha moral final: a opção pelos valores do sul contra os do norte. De resto, uma escolha já mais ou menos assumida ainda antes do encontro pessoal de Nietzsche com Wagner. A Grécia. A luz que incide sobre o Parténon, oposta aos nevoeiros morais e climáticos da sua Prússia natal.


Nietzsche vai realmente ao ponto de renunciar á nacionalidade prussiana, vindo a morrer, em 1900, como apátrida.
O ataque que desencadeia contra a estética e a moral wagnerianas é afinal de contas o ataque contra a Alemanha e os alemães. Uma Alemanha que Nietzsche – e por acaso, acho eu, partindo de valores prussianos - considera cada vez mais preguiçosa e decadente e já sem instinto para as coisas do espírito. E Wagner, à medida que envelheceu, foi-se tornando, foi ficando, para Nietzsche, cada vez mais germanizado. E logo em 1876, por ocasião do primeiro festival de Bayreuth, Nietzsche, profundamente perturbado, se deu conta disso. Que se passa aqui?, exclamou. Traduziram Wagner em alemão? A arte alemã! O mestre alemão! A cerveja alemã! Mas o que é isto?
Dizem os comentadores mais desencarnados que, fosse em Wagner fosse em Bizet, o que Nietzsche mais ardentemente admirava era o seu próprio estilo filosófico.

Estilo filosófico. Nietzsche, ao invés da maioria dos seus mais ilustres confrades, não é (ou raramente é) sistemático. O seu estilo predilecto de pensar e escrever é o aforismo. Quando se pensa que o mundo, o cosmos, é uma entidade ordenada e governada por um princípio único, o pensador, ao interpretá-lo, sente-se coagido à forma sistemática, condensa-o num livro numa obra monumental, incontornável. Hegel, Kant. Spinoza. Por aí.
Opostamente, é sempre possível entender o mundo como um caos que escapa a qualquer princípio ordenador. Pode pensar-se num filósofo que não tenha em si todas as palavras mágicas para dele comunicar a essência e o devir, quando a sua consciência cósmica seja somente traduzível em ideias rápidas e palavras penetrantes. É aqui que estamos com Nietzsche e com a expressão que lhe é mais cara, o aforismo. O aforismo nitzscheano pode transmitir com vantajosa e seca clareza alguns lampejos da verdade da vida sem pretender ter dito a última e definitiva palavra.
Em 1886, em Monte Carlo, Nietzsche assiste a um Parsifal.


Deixando de lado o que não interessa agora para o caso, escreve, ou seja: a quê ou a quem uma música destas possa servir, e vendo as coisas do ponto de vista puramente estético, eu pergunto se Wagner alguma vez fez melhor do que isto.
Para Nietzsche, como já para Schopenhauer, a música podia ser uma evidência de negação da própria vida. Sim, sim, Schopenhauer afirmara que a arte é o mais excelente meio de escapar aos tormentos da vontade, o meio engendrado pela vontade de se negar a si mesma e achar refúgio nos ideais platónicos que são os paradigmas da arte.
Talvez esteja aqui (e na antítese descabida entre Carmen e Parsifal) o fulcro da excessiva e injusta luta anti-wagneriana que Nietzsche meteria na cabeça empreender – e para a qual, seja dito, Wagner sempre se esteve nas tintas. Mas era a questão central, para Nietzsche, da civilização e do conceito dionisíaco de vida.


Escreve ele à margem da sua partitura da Carmen: A seguidilla. Talvez seja o número que mais admiro nesta obra. Inclusivamente como texto. Limita-se a descrever a realidade. Sem o mais leve toque de moralismo.
Estava ali a imagem do sul e do imoralismo. Um imoralismo pleno de alegria de vida num mundo de ciganos e contrabandistas, mulheres relativamente fáceis, gente marginal à ordem apolínea, sem dúvida (digo eu), gente que não experimentava sentimentos de culpa ou de remorso. Nem ressentimento nem má consciência. Eram felizes só porque amavam a liberdade.
(Realmente, que tem tudo isto a ver com a cosmogonia germânica e com o mundo das sombras da consciência nacional que Wagner interpretou?)
Para o Nietzsche da época da Orígem da Tragédia, 1872, a união das artes, ou as imagens míticas representadas no palco, eram necessárias para suportar a força destrutiva da música pura, que de outra forma destruiria o principium individuationis de tempo, espaço e causalidade, conduzindo à aniquilação do indivíduo.
Oh, e como tudo isto hoje nos parece bizarro, quase louco! E daí…
Nietzsche foi considerado por muito tempo e por muito boa gente um filósofo-artista. Filósofo-artista pela imediato motivo do que se possa esperar de um e de outro, de um filósofo e de um artista: do filósofo, o real, e a razão; do artista, o imaginário, a fantasia. Ao filósofo a descrição do mundo e da verdade e a reserva de pensar nos limites da razão. Ao artista a loucura, a liberdade de inventar, o direito à concepção do mundo diferente do que ele é, a criação de uma realidade original que não se limita a imitar a natureza. 
O que será do filósofo que confunda e misture reflexão racional e imaginação poética? O que será? É Nietzsche. Foi nisso que deu o pensamento de Nietzsche, apercebido como literatura e engenho poético, todavia de lógica duvidosa. Diz ele assim: o grau da força de vontade mede-se precisamente pelo nível até onde se pode dispensar o sentido das coisas, até onde se possa viver num mundo desprovido de sentido, porque cada um pode organizar o seu pequeno fragmento de sentido.
Ainda ele a falar: Se um filósofo pudesse ser nihilista, sê-lo-ia porque encontrava o Nada por detrás de todos os ideais do Homem – ou o Nada, ou, ainda mais, a nulidade, o absurdo, a doença, a lassidão, enquanto bebia a taça vazia da sua vida.

Filósofo-artista. Duas faces de uma reflexão: o filósofo e a noção de verdade, ou, vá lá, de veracidade; o artista acrescentando uma significação alargada e a ideia de uma ilusão vital, um valor que se deve ter por verdadeiro. Estas duas linhas apresentam-se, segundo os críticos, na filosofia nietzschiana. São mesmo o seu núcleo central.
Ontem à noite (22 de Março de 1883 – carta a Peter Gast), ouvi Carmen uma vez mais – foi talvez a 20ª representação do ano. Sala cheia, como sempre, porque esta é a ópera das óperas.
Mas no tema que fecha o Prelúdio do I acto da ópera, Nietzsche anota: Um epigrama sobre a paixão, o que de melhor se escreveu sobre este tema, depois de Stendhal no seu ensaio sobre o amor.
Epigrama da paixão. Nietzsche não pedia às artes o desvendamento, para dizer assim, de uma dimensão metafísica. O que lhes pedia era a força e a precisão de uma definição psicológica, uma capacidade e uma vontade de, por duas ou três palavras, em duas ou três notas, estabelecer elementos complexos, tão complexos como as paixões humanas. O amor, claro…

E Stendhal era para Nietzsche o último dos grandes psicólogos franceses. E Nietzsche põe Bizet ao lado de Stendhal contra o cinismo e a hipocrisia dos alemães.


Stendhal… Bizet: a ligeireza, numa parte, e noutra a  profundidade psicológica; Alemanha: falsa profundidade e duvidosa interioridade moral. 
Os alemães alguma vez na vida produziram um livro que fosse com alguma profundidade? Eles nem sequer têm a mais pequena ideia acerca do que seja que faça um livro ser profundo!
(Pela vossa rica saúde, não venham agora pedir satisfações a mim! Isto foi o que o Nietzsche disse. Ele lá sabia. La´teria as razões dele para detestar tanto a sua pátria. Não é nada comigo…)
Um filósofo de espírito livre. E a este respeito Nietzsche chama à conversa o próprio Stendhal e transcreve-o fielmente (o livro onde o faz tem por título Para Lá de Bem e de Mal): para ser um bom filósofo é preciso ser-se seco, claro e sem ilusões. Um banqueiro que fez fortuna tem em parte o carácter que se requer para fazer descobertas em filosofia, ou seja: a capacidade de ver claro aquilo que é.
A secura. No preâmbulo ao seu ensaio sobre o amor, Stendhal anota: Faço todos os esforços para ser seco. Quero impor o silêncio ao meu coração que julga ter muito a dizer. Temo de não ter escrito senão um suspiro quando julguei ter sublinhado uma verdade.
Ora as palavras de Stendhal chocam-se violentamente, na opinião de Nietzsche, com o gosto germânico, que glorifica os seus sistemas e que, por outro lado, tende a apreciar a realidade, quer ele dizer, a falsificar a realidade por meio de umas lentes morais.


A celebérrima ária do toreador. Coragem, heroísmo, fatalidade – ou fatalismo, se se preferir. Estou farto de ouvir isto cantado nas ruas. Esta música já está no sangue dos genoveses. E no meu também.



Agora me lembrei… tenho a impressão, falo de cor… ainda não fui confirmar, mas tenho a impressão de que Verdi por esta altura também passava temporadas em Génova. Ter-se-ão encontrado os dois? Na ópera. A almoçar. Nunca ninguém falou nisso. Lá por poderem ter tomado uma bica ao balcão da mesma baiuca genovesa não significa… mas, tanto quanto sei, não há escrita uma palavra  de Nietzsche a respeito do mestre italiano. Quanto mais não fosse para deitar abaixo o outro, o alemão, o Wagner, claro…
Mas falando de heroísmo,coragem e fatalismo… antes do Toreador temos que falar da protagonista mesma, Carmen. A breve e perigosa felicidade de uma alegria fatalista – definição de Nietzsche, de que gosto, por acaso. Coragem de viver e de morrer segundo uma moral que lhe é própria, uma moral cigana. Livre perante os homens. Fatalista perante o destino. Erotismo e sedução como forças da natureza. Diz ele: Eros, como o terão pressentido os antigos – sedutor, jogador, demoníaco, irresistível. O que vimos em cena como Carmen é uma autêntica feiticeira.


A atracção pelo sul.


Em 1876 Nietzsche passa um ano em Sorrento. A partir de 1880, Nietzsche deixa mesmo a Alemanha e instala-se no sul. Génova, Roma, Veneza, Messina. O sul é o vício. Até o vício da liberdade de pensar e de viver. Os sentidos.


Loucura e sexo em Nietzsche? A sífilis?
Parece impossível de afirmar seja o que for acerca, por exemplo, da falada bissexualidade de Nietzsche. E menos ainda quanto à sua vontade de morrer de amor…
Lou Salomé? Pouco se sabe. Duvida-se que tenha sido para ela o amante inesquecível, o homem da vida…
A sífilis. Talvez. Um médico garantiu que a posterior loucura e a morte de Nietzsche foram devidas à sífilis. Parece impossível de pensar. A vida sexual de Nietzsche? Mistério. Há quem diga que ele nunca se concedeu ao menos a oportunidade de ser contaminado pela sífilis. Mas o que sabem os académicos e doutos historiadores da vida sexual verdadeira e secreta de um homem, seja ele qual for, Nietzsche ou o Zé da Esquina? O que se passava era que, na época, a sífilis como causa real ou imaginária – ou moral! – de várias doenças, cegueira, loucura, enfim, e outras graves indignidades, veio ocupar o lugar de outra coisa, outra prática que até então era voz corrente e mitificada, e moralmente condenada por causadora de doenças trágicas e pouco nobres. (É uma parte picante esta, eu sei.) E essa coisa terrífica que cegava, entorpecia, enlouquecia e matava, antes de se acusar a sífilis como doença pecaminosa sexualmente transmissível, era, pasmemos nós, hoje, a masturbação. E conforme um livro escrito pelo famoso barítono Dietrich Fischer-Dieskau, Wagner acusava Nietzsche de praticar intensamente a masturbação… ia a escrever a arte da masturbação, mas contive-me a tempo…
Pois a sífilis, para os finais do século XIX substituía com toda a competência – até porque era um perigo real – o mito da masturbação como prática ou doença imoral causadora dos estados mais horripilantes.
Todas as épocas, a seu modo, é evidente, e pelos seus meios, devem ter criado mitologias clínicas e doenças moralmente condenáveis sempre que uma crise do espírito humano se acentuava. (Hoje temos a  SIDA, que nos apanha a dois vergonhosos carrinhos, o da sexualidade vadia e o do vício da droga, como se sabe.)
Mas se a masturbação era uma balela das hipocrisias moralistas, a verdade, como disse, é que a sífilis matava mesmo. Que se fartava. E a sífilis no tempo de Nietzsche era uma doença do sul, contraída na má vida dos instintos à solta a que o sul e a sua luz e o seu calor convidavam. Uma doença do exercício da liberdade individual e da breve e perigosa felicidade de uma alegria fatalista.
Em Nietzsche, a sífilis, como causa mítica da loucura e da morte tinha por finalidade demonstrar a dimensão a que Nietzsche cumprira a sua filosofia, levara à letra o que escrevera, caminhando sempre para além de Bem e de Mal, em desprezo da moral tradicional, frequentado bordéis mal afamados só para ilustrar na sua vida uma concepção dela mesma, vida, contraindo um dia, voluntariamente, com uma jovem prostituta por certo meridional, a terrível doença.


Nada explica a loucura de Nietzsche. A menos que se possa enlouquecer de dor, de solidão intelectual.
Mas é verdade que chegou a tocar piano numa casa de meninas – que teria ele tocado? A Carmen? Ou os Nibelungos? Mas não se provou que, lá por ter tocado piano numa casa de passe, se tenha enrolado com alguma das raparigas. Pois se ele até também se disse que Nietzsche morreu virgem…
Na conhecida cena das cartas (da Carmen), Nietzsche apercebe algo mais e mais comprometedor do que erotismo ou ânsia de liberdade. Há a contradição fundamental de Carmen.  Carmen sabe que a morte é certa. Resiste-lhe, está bem, mas não desiste de a desafiar, de provocar o destino. Sabe que é impossível escapar-lhe. A sentença está inscrita no coração de Carmen. Carmen quer correr atrás do seu novo amante. Sabe que arrisca a vida, sabe que D. José lhas prometeu, mas vai a Sevilha, vai à corrida. Não é mulher para tremer de medo e evitar um confronto. Está mesmo disposta a enfrentar D. José, dir-se-ia que deseja esse momento, está disposta a falar-lhe, conversar com o seu trágico destino, sabendo que atingiu o fundo e não tem meios para negociar mais com a sua paixão pela vida, e por inerente consequência, com a sua morte. E aqui, Carmen agiganta-se à craveira de D. Giovanni perante a estátua do Comendador. A coragem da liberdade. Coragem e liberdade humanas que defrontam a força (ou a inércia) da moral e o desastre do castigo. Que pagam, enfim, o preço da sua vida e da sua liberdade.
Para Nietzsche, como para o seu antigo (e depois também renegado) mestre Schopenhauer, a música era toda a essência da vida. Da vida, do mundo, do ser verdadeiro (afectivo) da realidade. E do mundo, enquanto vontade. A música é a cópia imediata de toda a vontade que o mundo representa, disse Schopenhauer. E o mundo, como vontade, é afectividade. Exprime o que há de metafísico no mundo físico. Exprime tudo o que possamos conceber sob o conceito de vontade. Já se disse: a música também pode ser a manifestação da negação da vida.


No decorrer do dueto final da ópera, Nietzsche, nas suas notas à margem da partitura, atribui alguns pensamentos a Carmen. Oh, como o coração me bate… como me sinto calma perante o meu pensamento único… o da morte.
É esta minha febre de paixão que me prepara para morrer.

Vontade, e liberdade, podem conter destruição. Os gestos valem por aquilo a que resistem. É a ficção do Eu que suporta  um gesto.
Zarathustra: o gesto imóvel determina um modo dionisíaco de esquecimento do Eu, de se manter nos confins da própria pele mas deslocando-se no ar, enfrentando o vento, a recusa do Homem de se confrontar com o peso. Pensar é vacilar, correr o risco de cair. Se me torno pesado, estou perdido.
Eu não seria capaz de acreditar senão num deus que se me revelasse a dançar, porque quando consegui ver o meu diabo, reparei que era grave, minucioso, profundo,solene, pesado – o próprio espírito do peso pelo qual todas as coisas caem.
Dionisos contra Apolo. Dionisos contra o próprio Cristo crucificado.
       
                                                        

Será preciso dançar para poder pensar livremente.
Aprendi a andar e agora ponho-me a correr.
Aprendi a voar e já não preciso que me empurrem, ou que me levem para poder mudar de lugar.
Agora sinto-me leve, agora posso voar, agora sinto-me pairar ao cimo de mim mesmo.
Agora há um deus que dança em mim.





1 comentário:

  1. Excelente. E lembro-me muito bem deste programa! Só falta é a voz, infelizmente...

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