sexta-feira, 12 de julho de 2013

   
                UM CIGARRO PARA O MOMENTO HISTÓRICO

                   

Desde novo que me habituei a não dar esmolas.
Porquê? Ora porquê… influências, leituras, companhias…
Dar esmolas, julgava pensar eu, em novo (influenciado por teorias, claro está), era para velhos piedosos e tementes a Deus. Eu não era velho. Não era muito piedoso. E tinha perdido o medo de Deus.
Dar esmolas era para hipócritas caritativos. Era para a dona Gertrudes Tomás e a sua beneficente árvore de natal do cinema S. Jorge. Era para os conservadores ideológicos – o mundo era mau e não havia maneira de o mudar. Era para os reaccionários – sempre haveria ricos e pobres por mais voltas que se dessem. Era para os fascistas – o homem era mau como as cobras e não se podia transformar em bom. Era para os serventuários do capital através da religião, da padralhada, esses, sim, que pela esmola limpavam a folha negra da má consciência que tinham com respeito aos males do mundo e à exploração do homem pelo homem.



(Já podem ver os caminhos por onde eu andava e as más companhias de que me rodeava – pessoais, presenciais e literárias.)


Um cidadão consciente, de esquerda, não dava esmolas. E acabou-se. Nem se discutia, tão óbvio era. Um cidadão consciente, de esquerda, acreditava na já muito próxima revolução social e no cântico dos amanhãs. Nasceria o dia em que deixaria de haver ricos e pobres e em que todos teriam o suficiente para viver dignamente e toda a caridade fosse desnecessária. 
E enquanto esse dia não chegava…
Enquanto esse dia não chegava era bom que se fossem criando as condições para ele chegar. Era bom que se fosse trabalhando o momento histórico mais propício para ele chegar.
Enquanto esse dia não chegava também não seria obrigação do cidadão comum acorrer aos males sociais. Ao Estado o encargo de minorar o sofrimento dos desvalidos.


Já terá nascido esse dia? Há quarenta anos palpitou-se que sim. Hoje? Hoje palpita-se que esse dia sim, despontou vai para quarenta anos e que passou a correr. Esse dia palpitou-se que tinha nascido há quarenta anos e a caminho do socialismo. Mas pode ter sido um erro de percepção e ele pode nem ter nascido, ou pode ter sido um nado-morto (como um humano). Ou se nasceu, a caminho do socialismo, esse caminho bifurcou-se, criou dúvidas e dissidências, e ficámos todos parados na encruzilhada dos caminhos. À espera… de Godot…

                               

Ou talvez nem sequer tenha nascido, o dia. Nem há quarenta anos nem nunca. Mas ainda se ficou a espera de que nascesse. Ainda alguém está à espera de que ele nasça, ensolarado…
Enquanto esse dia não nascesse, pensava eu (como muitos outros), a missão de um cidadão consciente e cheio de leituras proibidas consistia em ajudar a criar as condições para que esse tal dia pudesse nascer. E sendo assim, quantos mais andassem a pedir esmola melhor para as condições (objectivas, subjectivas), mais depressa esse dia nasceria, precipitada a sua nascença pela revolta dos pobres de pedir.


Por acaso, por essa altura (estamos nos começos dos anos 60) trabalhava eu numa firma de uma zona operária, o Poço do Bispo, que despedia fluentemente pessoal indiferenciado, na maioria morador nas barracas do chamado bairro chinês, que ficava por ali. Essa firma tinha a interessante particularidade de ser uma pequena empresa societária de outra muito maior, e gerida por jovens (trinta e tantos anos) de esquerda - um dos quais viria mesmo a ser filado pela PIDE no escritório, na frente do pessoal.

              

E calhou um dia, num almoço, perguntar eu, asno ideológico chapado apesar das leituras e das companhias,  porque é que pessoas ligadas ao Partido (só havia um, ao tempo, e clandestino), lídimas defensoras da classe operária, cavaleiros imaculados das justiças sociais, gente esclarecida, etc., etc., cometia a vileza de pôr na rua, sem ponderoso e aparente motivo, desgraçados cujo trabalho era carregar e descarregar pipas de vinho, cuja vida decorria em condições de pobreza, e quando a maior parte deles, ao ser despedido e sem idade para arranjar facilmente outro trabalho, estava condenada à miséria mais negra.


Os meus interlocutores, quadros da pequena empresa, clandestinos militantes do Partido, entreolharam-se, sorriram de entendimentos, deixaram-me com a cara de quem perdeu uma ocasião para ficar calado, ou de quem acabou de fazer uma figura triste.


Mas explicaram-me, e muito sucintamente (a minha cultura de esquerda não lhes parecia grande espingarda), que não faziam mais do que interpretar a linha do Partido. Se faziam o que faziam, despedir pessoal, era porque o momento histórico assim o impunha. O momento histórico recomendava a criação de condições para uma mudança radical do estado das coisas. O regime salazarista estava a dar as últimas. A hora era de promover os descontentamentos nas classes mais desfavorecidas da população e assim apressar os desfechos eventualmente revolucionários.

        

Sim, devo ter balbuciado, mas entretanto… entretanto era assim mesmo. O momento histórico determinava os procedimentos. A miséria. A fome. A criação das condições objectivas e subjectivas. Terá que reler com atenção o seu Marx, o seu Lenine, homem! Quanto pior melhor para o progresso das ideias revolucionárias. O que está na ordem do dia é a consciencialização de classe das massas trabalhadoras, por natureza acomodadas nem que seja à miséria e à fome, e à espera de serem despertadas para a grande causa dos oprimidos. A hora está a chegar.
E viu-se o que foi, e a que horas chegou a hora. Se é que chegou.
Tanto me palpita que ela já chegou e já se foi, como me palpita que ela ainda não chegou; como me palpita que essa hora ainda chegará; como me palpita que essa hora nunca chegará.
Chegado ou não o dia, e a hora, a força da realidade diz-me que a instituição da esmola de rua não se extinguiu – antes se refinou noutras modalidades mais sofisticadas de esmola.


Ficámos parados na encruzilhada dos caminhos, do socialismo, do parlamentarismo, da democracia, do liberalismo… ó chefe oriente-me aí um euro para comer uma sopa… olhe, ó senhor, compre-me ali um bolo de arroz… olhe, faz favor, podia-me dar cinquenta cêntimos para telefonar à minha irmã… ó chefe, faltam-me só vinte cêntimos para apanhar aquele autocarro…
Sem falar dos romenos e das romenas com filhos falsos nos braços. Sem falar nos drogados evidentes a pedir para a dose – a sua respeitável forma de subsistência. Sem contar com os estropiados pelo chão a estender para nós uma latinha.
Em que momento histórico estaremos?
Se me incomodam os espectáculos de miséria? Claro que incomodam. Se me impressiona a pobreza extrema? Claro que impressiona. Se me toca a penúria escondida? Evidentemente que toca. Mas a minha arcaica consciência de esquerda permanece, e com ela a resistência, que se tornou instintiva, e a renitência em alimentar hábitos de pedincha, os profissionais da esmola que podem tirar umas boas centenas de euros por dia sem trabalhar (contam-me casos) e com bom corpo para isso – pois, alguns bom corpo para trabalhar podem ter, podem é não ter onde aplicar esse corpo…


E surpreendo-me a não dar esmola, a não corresponder aos pedidos de cigarros que tornam proibitivo o acto de fumar até no meio da rua, pedidos que vão aumentando na razão do aumento brutal dos impostos sobre os cigarros – a vida não está fácil para um fumador inveterado…


Não sei se no meu inconsciente dei, fui dando, algumas voltas acerca do tema do momento histórico.


Enquanto os jovens turcos de esquerda da gestão de pequenas empresas de 1963 podiam despedir a torto e a direito a fim de criar condições para  a revolta das massas populares, eu, em 2013, não dou esmola nem forneço cigarros a fim de criar condições… para quê? Enquanto os jovens e impiedosos gestores de esquerda de 1963 tinham as cartilhas do Partido para interpretar, e para os orientarem quanto à identificação dos momentos históricos e das tarefas correspondentes, eu, sem partido nem cartilhas, corro riscos tremendos de me desorientar na História e de nunca chegar a saber ao certo em que momento estou e que tarefas o momento me impõe enquanto cidadão consciente. De esquerda? Sei lá. A idade dá cabo de tanta coisa…
 E vai daí, até me dá para pensar já não no momento histórico da minha classe social, da minha consciência de esquerda ou de direita. Dá-me para pensar no momento histórico que está na cabeça dos credores internacionais de Portugal. Vai-se a ver e a tarefa deles no momento histórico é a de apertar até rebentar com os periféricos do sul da Europa, fazer-lhes a vida financeira o mais negra que puderem, desorientá-los de tal modo que lhes crie um sentimento de revolta contra a ordem do mundo. E depois? E depois, nada. É isso.

  

Temo que possa acontecer com o Portugal estrangulado pela dívida soberana o que acontecia aos pobres trabalhadores braçais do Poço do Bispo de 1963, que se devem ter conformado com o seu destino, que não se transformaram em revolucionários, que por terem sido condenados ao desemprego e à miséria sonharam ainda com mais força com o impossível, isto é, ascenderem à condição de burgueses. E que foram baixando de estatuto profissional aceitando qualquer trabalho que lhes dessem mesmo que escandalosamente pago, e só para proverem ao sustento da família. E que começaram (ou continuaram) a beber até à cirrose fatal. E que de desespero em desespero podem ter matado a mulher e os filhos e terem-se matado a eles próprios logo a seguir…
Isso enquanto, pela dita usura do tempo, as tarefas prosseguidas pelos gestores de esquerda de 1963 iam deixando pelo caminho as colorações avermelhadas da hipótese de revolução social e ganhando as tonalidades cinza de um acto canalha.


Não sei se pelos trabalhos insanos e obscuros do meu inconsciente, e sempre com a questão do momento histórico em presença, entrei há tempos numa fase de oferecer cigarros a quem mos pedisse na rua. Um cigarro é um cigarro, um pequeno vício que mata, e que por isso mesmo acrescenta valor à vida enquanto a há. Um cigarro pode acrescentar algum sentido a um momento absurdamente histórico de uma vida. Um cigarro é algo que não se deve negar nem ao criminoso condenado ao patíbulo.
Sim, mas continua a repugnar-me o acto de dar esmola.


Confesso que não sei dar esmola. Quanto? Cinco cêntimos? Dez cêntimos? Chega a ser ofensivo para quem recebe. Um euro? É uma enormidade como esmola. Cinquenta cêntimos? Qual será a medida certa considerando o momento histórico?


“Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes”, mais ou menos isto: disse (citando Simone de Beauvoir) a presidenta da Assembleia da República, a luxuosa reformada aos 40 anos. Foi ontem ou anteontem e vem mesmo a calhar para a conversa do momento histórico.
A presidenta reformada não sabe quem foi Simone de Beauvoir? Não posso crer. Com certeza que sabe, porque, não sendo embora nenhuma luminária intelectual, também não iria ter a infausta ideia de citar alguém que no momento histórico não fosse politicamente correcto citar.
A presidenta conhece o momento histórico em que Simone de Beauvoir escreveu a frase? Bom, isso é que já não sei. Se não conhece, cometeu uma gaffe imperdoável para a segunda figura do Estado só por querer armar ao fino intelectual e sair-lhe uma bojarda das grossas. Se conhece, pior um pouco, como resulta óbvio para quem conheça.
A presidenta conhece o actual momento histórico português? Mal feito fora que não conhecesse (mas também já não se podem ter certezas a esse respeito, é verdade). Mal feito fora que não soubesse que uma das realidades que marcam o presente português é a férrea animosidade das camadas populares (e trabalhadoras) contra a classe política representada pelos seus deputados à Assembleia da República e respectivos, e insultuosos, privilégios.
Ora a presidenta reformada de luxo com 40 anos profere a frase da Beauvoir quando o público das galerias da Assembleia se manifesta, larga balões e atira cartões amarelos e vermelhos para as bancadas gritando “demissão!, demissão!”.
Ora o momento histórico em que Simone de Beauvoir escreve a tirada era o da ocupação nazi da França e consequentes iniquidades. Logo, os carrascos a que a Beauvoir se refere só podiam ser as tropas nazis.


Logo… a segunda figura do Estado português, citando a frase alto e bom som, faz a analogia espúria entre os manifestantes (funcionários públicos na sua maioria) e o ocupante nazi da França de 1940. Sim, chama nazis aos representantes do povo português que severamente criticam as incompetências, vigarices e privilégios de uma classe política autista e divorciada das aspirações populares.
É demais. Não?
Já não bastava a classe política viver à grande e a exibir incompetências à nossa custa como também se dá ao desplante de nos insultar?  
Sabendo a presidenta do contexto em que Simone de Beauvoir escreveu aquilo… das duas, uma: ou é mesmo para desacatar o eleitorado; ou não entende nada dos tais momentos históricos. E depois grita explicações aos jornalistas que a interpelam, explicações que alguma coisa relevam do atraso mental, ou do vício pacóvio que os nossos lamentáveis políticos têm ao fazerem de nós ainda mais estúpidos do que já mostramos ser ao elegê-los.


Mas o caso passa impune – quem poderia repreender a presidenta da A.R.?, só o P.R., se por um bambúrrio da sorte soubesse quem foi Simone de Beauvoir, nome que nem deve constar dos manuais de Economia e Finanças. 
O caso passa impune e imune às críticas jornalísticas. Que eu tenha visto, só Rodrigo Guedes de Carvalho, no noticiário da SIC, apontou de cenho enrugado a gravidade da gaffe. Que eu tenha notado, mais nenhum dos jovens e acerados comentadores do nosso jornalismo televisivo notou o despautério. Não me resta a menor dúvida: ignoram completamente o momento histórico a que a frase da Beauvoir se aplicava; assim como, baralhados nas  intrigas da nossa baixa política, ignoram sequer quem possa ter sido essa tal senhora Simone de Beauvoir – que também é capaz de não comparecer nos manuais de jornalismo em vigor nas universidades.
Bom, tanta conversa, mas do que eu queria mesmo falar era das elegíacas propostas de solução política para a crise que o momento histórico segredou ao presidente da República, o ínclito e inimputável político que com um simples discurso contamina a própria reputação de infalível e homem sem sombra de dúvidas e cria uma crise em cima da anterior. E também ele, afinal, faz cair a Bolsa. E também ele, afinal, faz aumentar as taxas de juro.
 O momento histórico.


Mas ainda haverá momentos históricos?
Ou até isso já acabou, na medida em que deixou de condicionar comportamentos ideológicos e já tudo vale em qualquer momento, e nenhum momento é ou deixa de ser histórico porque a própria História pode hoje ou amanhã deixar de ter validade histórica - quer dizer, deixar de fazer sentido?
E, em suma, o que é que uma coisa tem a ver com a outra?
E que coisa?
E que outra?
 

 

  

3 comentários:

  1. ( Pai. Não lhes perdoes que eles sabem o que fazem - J. Saramago - in "Ano da morte de Ricardo Reis. )

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  2. Não fora a Pide, a guerra, os analfabrutos, a cinzenta vida de miséria para tantos...
    quase teríamos saudade dos 50/60. Que "esperava" e "preparava". Visto agora as esperanças nos são assassinadas, todos os dias.
    Vamos "para as Desertas"? que os camelos descobriram a água...
    Lamentável. Não chegaremos a ver o julgamento da História.

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