terça-feira, 22 de novembro de 2016


SHAKESPEARE 400 –

            SIR LAURENCE OLIVIER, OU OS BRINQUEDOS          

                                 ESQUECIDOS




Representar é como um primeiro gole de cerveja que furtivamente se experimenta na infância, o gosto que nunca mais se esquece, tal é a impressão que ele deixa no palato – opinião de Sir Laurence Olivier. Nenhum outro gole de cerveja terá jamais o mesmo sabor forte. Terá outro sabor. Diferente. Jamais um que se compare.
Muita gente encara o trabalho do actor, a representação propriamente dita, a encarnação em público de outra pessoa, um jogo de miúdos feito por adultos com barba na cara e idade para ter juízo. Olivier diz que não é exactamente isso, muito embora, e bem entendido, também não deixe de o ser. Olivier diz que representar é uma grande arte e que quando sai bem leva o actor para fora de si mesmo nos haustos de uma satisfação suprema.
 
 
A criança, claro. A representação começa com a criança a clamar “olhem para mim, olhem para mim, vejam o que eu faço, as minhas habilidades, que diabo, eu estou aqui, vocês têm que reparar em mim!” Uma vez captadas as atenções da família, a criança tem a primeira noção da sua importância no mundo. Depois, depende da criança, dos talentos natos que tenha, para divertir, para chatear, para meter os outros na sua fantasia. E quem estiver com atenção poderá desde logo profetizar para aquela criança um destino no show-business, ou não. E se sim, como actor ou como director de cena.
 
 
Pelos olhos de um actor vê-se uma engraçada colecção de brinquedos esquecidos – disse Laurence Olivier.
 
 
Quem aprecia o actor como a criança de calças compridas também é dos que olham para uma paisagem de Turner e não a acha muito parecida com a paisagem real; ou é dos que comparam Van Gogh com as pinturas que os filhos fazem no jardim escola; ou é dos que ouvem Beethoven e acham tudo aquilo uma cacofonia.
 
 
Olivier confessa que representou toda a sua vida. A vida de adulto e a vida de antes de ser adulto. E representar, se lhe acrescentou horas de suma alegria, também lhas trouxe de algum desgosto. De todo o modo, foi actividade que o levou a lugares onde qualquer outra profissão não o teria levado. O ofício de representar, de viver a vida de outra pessoa, ofereceu-lhe o mundo, deu-lhe amigos, camaradagens, fraternidades para a vida. Salvou-o de um nine-to-five job, ou seja, de um emprego de rotinas. Ensinou-lhe a auto-disciplina e o sentido de observação. E também, pelo que diz, o ensinou a compreender e a amar o Homem, ou mais latamente o género humano, e até porque, para ele, uma das faculdades obrigatoriamente mais presentes na compleição de um actor é a da compreensão.
 
 
O actor deve, antes de tudo o mais, compreender, disse Laurence Olivier numa conferência de 1947 na escola de teatro do Old Vic. Compreender seja pela intuição, seja pela observação, seja pelas duas conjugadas. Há muitas dimensões na arte de representar, mas nenhuma delas é boa, ou sequer interessante, a não ser que se relacionem com a aparência, com a total ilusão da verdade. Da diferença entre a verdade objectiva e imediata e a ilusão da verdade é tudo quanto um actor terá de aprender, e uma vida inteira não chega para aprender tudo quanto há a aprender sobre isso.
E tem graça que uma das coisas que eu recomendo – certamente em vão – a pessoas amigas com filhos ainda pequenos, para os ajudar a crescer e a desemburrarem-se, é pô-los logo que possível a fazer teatro. Dói-me ver pessoas que se apoquentam quando em público, ou para as quais, inclusivamente, é um quebra-cabeças o serem alvo dos olhares, o terem de atravessar um café cheio de gente. Custa-me compreender aqueles que têm dificuldade em falar até numa roda de amigos. E nem aprecio aquelas pessoas sem disciplina de vida, ou cuja vida se resume às medíocres emoções do seu empregozinho.
 
 
Além do já dito, a representação de outras pessoas deu a Laurence Olivier – falo pela boca do próprio – a possibilidade de ter grandes carros, belas casas, belas férias, dias luminosos – e dias enevoados, claro está. Representar a vida de outras pessoas levou-o ao contacto com reis e rainhas, presidentes, celebridades. Talvez não fosse o mais importante – digo eu.
As barreiras sociais quebram-se para um grande actor. O grande actor – o grande artista - não é de nenhuma classe social, na medida em que no seu trabalho quotidiano de actor se habitua a representá-las todas, e tão bem (ou melhor) do que o fazem as pessoas reais, pobres ou ricos, médicos, cardeais, cabeças coroadas, taxistas ou políticos.
 
 
Diz ele: seja qual for o nosso background, se nos decidimos seriamente pela actividade de actor ela permite-nos viver na roda dos deuses.
 
 
 E, evidentemente, Laurence Olivier (ou o Lord Olivier of Brighton; ou o Barão Olivier) não se esquece de dizer que foi na vida um felizardo com muita sorte, sem desprezo, já se vê, pelo enorme talento que tinha.
 
Uma vez provado e saboreado, o vício da representação infiltra-se nas veias, nas unhas, nos poros, mistura-se no sangue e nem nada nem ninguém tem poder para remover esse vírus do corpo e da alma do actor, sejam quais forem os lances de esplendor, ciúme, inveja, alegria, tristeza ou miséria que o actor possa viver.
 
 
A actividade do actor pode, diga-se também, destruir um ser humano de diversas maneiras, as mais comuns delas sendo as drogas, o álcool, o sucesso ou o fracasso. Porque pode transformar grande egos em egos ainda maiores, quer dizer, transformar seres encantadores em verdadeiros monstros. Ser actor tem o perigo de levar o próprio a acreditar na sua própria publicidade. Ou, chegado a certo grau de prestígio, levá-lo a viver sentado sobre a pilha de jornais que lhe falam das glórias passadas.
Ser actor leva o indivíduo a menosprezar tudo o mais, a desistir de qualquer outro interesse que tivesse tido. Pode levá-lo a envenenar as suas relações pessoais. Pode destruir casamentos, famílias.
 
 
Mal o indivíduo decidiu levar o seu trabalho de actor a sério, acreditar nele, e viver as suas representações, deixa de ter hipótese de retorno a uma vida anterior. Só lhe resta estar de mente aberta e disposto a correr atrás de quaisquer ideias novas que alguém lhe sugira.
É possível ao actor viver intensamente um dia inteiro sem sequer se levantar da cama.
 
 
Pode o actor passar o dia deitado na cama a sonhar com o que fez de bom e de bonito na noite de ontem que isso pouco conta, é apenas uma sensação confortável. O que realmente conta para o actor é o que ele irá fazer amanhã.
Amanhã continuará a aprender. A aprender o ofício.
 
 
Aprender o ofício é deixar-se fascinar com os mais insignificantes aspectos da vida do palco. Perceber a respiração da vida de um teatro. Ter 18 anos e ser segundo assistente do director de cena numa grande companhia teatral serve para aprender o ofício muito depressa. Olivier aprendeu muito depressa trabalhando na companhia de Noël Coward. Teve sorte aí, também, reconhece. Percebeu que até o mais canastrão dos actores tem qualquer coisa a ensinar a um jovem talento.
 
 
Isto, já se vê, era noutros tempos, quando ainda havia aquela consciência da própria ignorância, ponto de partida para as mais sólidas sabedorias. E nada disto se aplica aos tempos hodiernos, onde cada jovem já sabe tudo porque aprendeu tudo na Internet, ou não aprendeu nada mas já sabe, mesmo que não saiba, e aos vinte anos já se pode considerar um génio – génio incompreendido, convém, para se auto-justificar com a ignorância, a inveja e a incompreensão dos outros na hora do falhanço.
O maior dos canastrões pode ensinar muito ao jovem actor talentoso: como não respirar; como não inflectir; como não se mover no palco. A sede de aprendizagem de todos os aspectos relacionados com a actividade teatral faria de Laurence Olivier não só o imenso actor que foi mas também o director de companhias, o empresário teatral que também foi.
 
 
Mas Olivier nunca se considerou um bom director ou um bom empresário de teatro – ou pelo menos um empresário de sucesso. Questão de moral. Como era por demais corajoso, foi sempre, enquanto empresário, mais aventureiro do que prudente. O que se reflectiu no box office. E também foi sempre por demais ambicioso (questão de moral) e, ainda que de lotação esgotada, as bilheteiras dele nunca cobriam tamanha ambição artística.
 
 
Sucessos artísticos muitos. Fracassos financeiros bastantes. Nunca nenhum sponsor lhe avançou dinheiro sem reservas e muitas das iniciativas empresariais de Olivier foram financiadas do próprio bolso.
Verdade, aparência, ilusão. Representar é o trabalho de mostrar uma personalidade a uma audiência.
 
 
Sempre se disse que há dois tipos principais de actores: os, por assim dizer, totais, tout court, vamos lá; e os característicos. Mas todo aquele que é respeitado na profissão pensa de si mesmo que é um actor versátil, ou seja, capaz de representar seja que personalidade for, em que tempo for, em que situação for.
 
 
O actor será um consumado utilizador das suas mãos, dos seus pés, da sua cara. Mas há um conhecimento e uma compreensão que sobrelevam toda a técnica, todo o talento: a compreensão e o conhecimentos da vida, da vida verdadeira. Deste pressuposto de sede de conhecimento e compreensão arranca Laurence Olivier para uma experiência que eu diria pouco comum, e extrema, mesmo entre os actores mais afamados.
 
 
Olivier viveu fascinado por cirurgiões. Porque os viu como intérpretes da mais dramática das artes; porque lhes apreciou a teatralidade evidente no respectivo teatro operatório, e expressa no supremo drama de pugnar pela vida de alguém que foi visitado pela asa sombria da morte.
Nos últimos anos, uma série de doenças levou-me ao bloco operatório e á sujeição ao bisturi dos cirurgiões, e quanto mais eu conheci do meu corpo, na doença como na saúde, mais impressionado fiquei.
 
 
Mas Olivier tinha um amigo cirurgião a quem um dia pediu licença para assistir a uma das operações. O cirurgião opôs algumas reticências, pensando que logo que Olivier assistisse ao primeiro golpe de bisturi e visse jorrar o primeiro sangue cairia redondo no chão e a equipa cirúrgica teria de deixar por momentos o paciente a operar para atender a celebridade teatral que estava ali a mais e que desfalecera. Mas Olivier teve artes de persuadir o médico. Sentia as pernas mais firmes do que as de um marinheiro em alto mar.
 
 
De forma que Laurence Olivier foi autorizado a assistir ao acto. Com condições: desta vez o palco é meu – diz-lhe o médico – se você cair todo junto, estimo muito as suas melhoras mas não conte connosco, ninguém da minha equipa lhe vai ligar, porque no meio de uma operação não temos tempo para acudir aos desmaios de um estranho ao serviço. Se você se sentir mal, faça-nos o favor de desaparecer do bloco operatório. Não chateie. Você não foi para aqui chamado e se veio cá ter, a responsabilidade é inteiramente sua.
Mas tudo correu bem. Feita a primeira incisão no corpo do paciente, Olivier concentrou-se de tal modo no que via, nos procedimentos, nos gestos, nos sons, nos aspectos das coisas, que nem tempo teve para se sentir mal disposto. Pelo menos, é o que ele diz.
 
 
Olivier pensava que os actores deveriam conhecer melhor o próprio corpo. Pensava que nas estantes lá de casa, ao lado de Shakespeare, todo o actor deveria ter pelo menos um tratado de anatomia. Para saberem como lhes funcionava o motor.
Que não se ficasse a pensar que este gosto de assistir a operações tivesse algo de mórbido ou de macabro. Olivier desejava compreender cada vez mais acerca de si mesmo, do que dele ficava por debaixo das pinturas de cena.
 
 
Tinha sido um tipo atlético de actor, desde sempre frequentador de piscinas e ginásios, e antes disso estar como hoje na moda até para os mais raquíticos ou obesos. Era um homem cheio de força de vontade e cheio de vontade de viver a vida, que nunca desistia de lutar, na profissão como na vida verdadeira. De lutar, a certa altura, contra as doenças. E quando foi chegada a ocasião de lhe ser removido um rim, Laurence Olivier perguntou se a operação não poderia ser realizada apenas sob anestesia local, e de forma a que lhe fosse possível, com a ajuda de um espelho, assistir àquela violenta intervenção no próprio corpo.
Não lhe foi concedido. E ele teve muita pena.
Estar de boa saúde, fisicamente apto e pronto, é uma das prioridades da vida de um actor.
 
 
O corpo é o principal instrumento de trabalho. Deve ser treinado, tratado e afinado para tocar o mais frequentemente possível. O actor terá de saber dominar o seu corpo. O corpo é uma máquina de excepcional complexidade e para o domínio absoluto dessa máquina é preciso compreender-lhe o funcionamento. Por isso ele opinava que da preparação profissional do actor deveriam constar alguns meses de estudos médicos.
Antes de um espectáculo, a questão de moral do actor é estar tão preparado e agressivo como um boxeur, tão equilibrado como um matador de toiros, tão ágil como um bailarino. Por algumas horas durante a récita terá de proferir longas falas e nelas atingir as mais altas tensões emocionais. Em Hamlet, por exemplo, são quatro horas que exigem do actor o mais alto nível energético, e, para cúmulo, terá de rematar a sua actuação com um duelo à espada…
Shakespeare é, como ele diz, um dos que obriga o actor a ganhar duramente o seu pãozinho de cada dia.
 
 
Ou então… bem, isto era antigamente… hoje talvez ainda seja assim, não sei… ou pode ser que a moral agora seja outra…
E se se fala do corpo do actor porque não se há-de falar da mente, tão preparada e ágil e pronta ela deve estar quanto o corpo. Todos os dias, como exercício, o actor deve recitar um discurso, uma tirada, um longo poema. Para ninguém. Só para si mesmo. Como exercício, repito. Ou porque não dizer um papel inteiro para a parede? Sybil Thorndike, lendária actriz britânica, tinha como disciplina profissional memorizar e declamar um novo soneto todas as manhãs.
Se se visa o sucesso ter-se-á que se sujeitar ao sacrifício. Os objectivos a atingir terão de ser colocados bem alto e a vida toda será dedicada a tarefa de os atingir com a perseverança de um cão de caça, levando tudo à frente, a bem ou a mal, às boas ou à cotovelada a quem se intrometer no caminho. Não é uma boa lição de moral a da ambição artística…
 
 
Uma vida de glamour e dissipação é um grande obstáculo ao sucesso de um actor.
Muitos grandes talentos feneceram por ceder às facilidades mundanas da popularidade e das solicitações de vária ordem tão frequentes na vida artística. Outros baquearam ao peso das críticas. Olivier diz que a crítica é coisa natural e necessária, e que o actor a deve encarar com um sorriso, aceitá-la e sorrir. Foi aquela a vida que escolheu, não foi? Então que se lhe sujeite aos condicionalismos. Que se sujeite a pagar o preço da sua ambição. Pois é. É essa a moral da profissão.
 
 
E contudo, o crítico, nem por ter visto mais espectáculos do que o actor, sabe mais da profissão do que o próprio actor.
E cuidado com os cumprimentos e com as lisonjas, muito cuidado. Tudo isso pode mudar de sentido de um dia para o outro.

Eu fui magoado, achincalhado, exaltado e endeusado. Perante tudo isso eu ri e resfoleguei de ira. Estive nos cornos da lua e nas profundezas do desespero. Mas no fim de contas fui eu que tive sempre que me reerguer pelos meus meios. Tive de ouvir e de acreditar, mas quando o tempo chega eu e só eu sou sabedor da minha verdade.

Representar é basicamente um trabalho onde pouco ou nada entra o sentido de humor, e é isso que leva os actores a sofrer.
 
 
Com toda  a casta de novos meios de comunicação artística e de divulgação do trabalho do actor, cinema, vídeo, televisão, e não obstante tê-los aproveitado todos, tê-los usado muito e gostado, para Laurence Olivier, como é óbvio, o meio realmente, essencialmente, humano de expressão emocional e de comunicação artística é o teatro, o palco. Nenhum dos outros meios permite ao actor e ao espectador estarem. Estarem ali.
No cinema e na televisão um trabalho artístico, uma vez editado, nunca mais muda. O momento, por mais mágico, foi captado pela câmara e ali fica, inalterado, intocado, para sempre. E não há cheiro no celulóide. Não se desprende adrenalina de um ecran de televisão. O momento mais verdadeiro da mentira artística foi-se. E não voltará nunca.
 
 
E se o filme é o meio de expressão por excelência do realizador e a televisão uma oportunidade para o escritor, o argumentista, o palco é o meio de expressão absoluto para o actor. Uma vez em cena é o actor o comandante das operações. Ele define ritmos, ele marca andamentos. Nem autor nem encenador, no momento da representação, podem fazer alguma coisa. E o público não tem escolha. Ou antes, tem: ou assiste e acredita; ou não, e vai-se embora. É o excitante da profissão. É a magia da administração do tempo. É a questão de moral.
 
 
Começar por respirar a atmosfera quente e carregada do palco, sentir a expectativa da assistência que espera a próxima acção, o próximo gesto, a próxima tirada do actor. Guardar uma pausa. Colocar a voz para atingir o pico máximo da potência. Nunca dar demasiado, esperando sentir que o público queira sempre mais. Esboçar um gesto e suspendê-lo, sabendo que um milhar de olhos acompanharam esse gesto. Ouvir o riso que percorre a plateia como uma onda gigante e certificar-se de que essa reacção foi causada por ele, actor; ou saber que lágrimas estarão lá, prontas a brotar, aguardando o momento em que o actor as provoque. Aperceber-se do sentido dos olhares da assistência e fazer com que os pensamentos próprios sejam também os do público. Temer esse público. Excitar esse púbico. Amar esse público. Conter esse público na palma da mão. Afagá-lo. Seduzi-lo. Sem ele, o actor não existe. Sem ele, o actor é um pobre homem só numa casa cheia de memórias e um espelho. Sem ele o actor não é nada.
 
 
O público é de longe mais inteligente do que o que o actor possa pensar dele. E além de tudo o mais é esse público que lhe paga as contas e lhe dá de comer todos os dias.
Seja o público do actor composto por um indivíduo ou por milhares deles deve ser tratado com respeito. Não há que reduzir a intensidade de uma actuação só porque se representa num teatro mais pequeno. Nunca se deve baixar o nível da própria actuação sejam quais forem as circunstâncias, quanto mais não seja pela moral da própria profissão, e porque essa profissão é das mais antigas e das mais compensadoras. É bom evocar a condição dos bobos de corte, que não se atreviam a trabalhar descuidadamente quando a cabeça deles estava sempre em jogo.
         Tu nem sabes da fortuna que tens de, segundo a tua vontade, poderes chorar em cena. Eu nunca fui capaz de o fazer em toda a vida. Do que fui capaz foi de fazer o público acreditar que o fazia. E isso é tudo o que importa. É ou não é?
 
 

Laurence Olivier está velho e doente. 48 anos passados sobre a sua primeira incursão em Hamlet ainda pensa nesses dias de 1937 e o calor dessas noites ainda vive dentro dele. Quem nunca caminhou entre a esquerda e a direita de um palco pode admirar-se com o que eu chamo de calor do palco e com a recordação que passados tantos anos ainda guardo desse tempo. É alguma coisa que paira no ar, que me entra no nariz, combinação de um cheio a electricidade, a cola, a óleo rançoso de pintura, a perfumes. Quem tem essa experiência uma vez na vida guardá-la-á para sempre e ela chamará por ele sempre e sempre, como um canto de sereia.




Memórias são memórias. Outra coisa é a necessidade de acção que apela ao tempo presente de um actor. Já velho e muito doente, Laurence Olivier ainda sentia os fortíssimos chamamentos da acção, da representação. A cada manhã, ao acordar, a primeira ideia que o assaltava era mandar às malvas os médicos, os termómetros, as pessoas que o vigiavam como se ele fosse uma panela de pressão de antes da guerra, que o obrigavam sentar na cadeira de repouso e a entreter-se com os próprios pensamentos. Ele não devia estar naquela situação, ele pertencia às tábuas, aos cheiros do palco. Ele ainda devia estar em luta com o velho inimigo-amigo, o público, persuadindo-o a tomar como verdadeiro o que ele dizia e o que ele fazia em cena. Ele devia continuar a voar muito alto e muito longe, para junto dos deuses, cada membro da congregação pensando que, sendo Hamlet, ele se lhes dirigia pessoalmente.

Eu fui feito para actuar, para representar, e não é fácil ser posto fora de campo, condenado às velhas recordações, às velhas amizades. Um actor deve actuar.

E não se pode esquecer a velha ideia de Laurence Olivier: pelos olhos de um actor vê-se uma engraçada colecção de brinquedos esquecidos.




 

 

 

 

 

 

 

 

1 comentário:

  1. Não entendo a falta de comentários e de consequente interesse por esta maravilhosa série de textos dedicados pelo Joel a Shakespeare, o seu teatro e os seus actores...Ou será que hoje só interessam actores de novelas e sit-coms? Não acredito... De qualquer forma, um obrigada por esta recuperação primorosa da memória de tempos gloriosos do teatro e da arte, em geral. Hoje é tudo cinzento, formtado, SEM PAIXÂO!!!

    ResponderEliminar