quarta-feira, 25 de outubro de 2017


              DIPLOMACIA SALAZARISTA

                    CAPÍTULO 4

 

 
      Lins fica a saber que a situação de impasse nas negociações descambara mesmo em crise diplomática. Mas as autoridades brasileiras pareciam contentar-se com pouco.
Para o governo brasileiro a ida do general Delgado para o Brasil, a despeito das condições impostas pela diplomacia salazarista, era um sucesso para a diplomacia brasileira, e o conselho que os círculos políticos da Guanabara davam ao embaixador Lins era que ele se minimizasse pessoalmente, transigisse, e proclamasse que a ida de Delgado para o Brasil era uma vitória pessoal também para ele. Que não era, já se vê, pelo menos para o conceito que ele tinha. Ou se era, ele não a aceitava.
 
 
Haveria uma esperança. Que era a intentona da Sé. Se saísse vitoriosa o governo cairia e o tormentoso caso Delgado ficaria resolvido por si mesmo, e então sim, seria uma vitória para todos.
 
 
Em fins de Fevereiro, os implicados no planeado golpe da Sé fazem saber que são contrários à partida de Delgado para o Brasil antes da revolta vitoriosa de Março.
Mas o golpe da Sé falha.
Os dias 11 e 12 de Março nascem e morrem e o tão competentemente planeado e rigorosamente aprazado golpe da Sé nem chega a ver a luz desses dias. Na noite de 11 para 12 de Março Delgado deixa-se adormecer sentado a uma secretária, à espera da hora de saltar para a rua e encabeçar a revolta. E o sol nasce. E ele acorda. E não se passa nada.
 
 
Pois não. Nem novas nem mandados, e nesse mesmo dia 12 de Março Delgado fica ciente de que os conspiradores da Revolta da Sé (havia membros do clero envolvidos) ou estavam em fuga ou tinham ido de cana.
 
             
 
       Há quem diga que o golpe fora minuciosamente preparado, que contava com a adesão de várias unidades militares estratégicas e com alianças ao mais alto nível da hierarquia militar (Craveiro Lopes?), mas que tudo fora tragicamente desmantelado pelos serviços secretos da Legião, postos de sobreaviso para detectarem movimentos suspeitos de civis justamente nas imediações da Sé de Lisboa – o pároco estava na conspiração; alguns conjurados frequentavam os claustros.
 
 
       No dia 14 de Abril, Álvaro Lins entrega a Marcelo Mathias uma nota comunicando a chegada de um embaixador extraordinário, encarregado pessoalmente pelo presidente Kubitschek de uma importante missão diplomática.
No dia 15 chega a Lisboa esse enviado de Kubitschek, o embaixador Mendes Vianna, secretário geral do Itamaraty. Missão: desembargar o problema do asilo de Delgado.
 
 
Ainda no Brasil, pouco antes da partida para Lisboa, instado pela imprensa sobre a solução para o caso Delgado, o enviado de Kubitschek declarara: “a solução sou eu próprio.”
 
 
No aeroporto de Lisboa, o embaixador Mendes Vianna faz declarações. Vem cooperar com o embaixador Álvaro Lins (seu querido amigo) e com o governo português em ordem a uma resolução rápida do caso Delgado - que de resto a todos colocara em difícil posição. Havia contudo a preservar um valor essencial, que era o amor entre Portugal e Brasil. E para tanto, o que Mendes Vianna mais desejava era uma compreensão total das autoridades portuguesas, no que aliás confiava, por mor da amizade entre os dois países. Havia pormenores pendentes que no seu entender seriam facilmente resolvidos.
Três meses era tempo demais para conclusão do caso Delgado – assim pensava Carlos Lacerda, por então afamado misto de homem político e jornalista do Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro.
 
 
Arribado a Lisboa dois dias depois do embaixador Mendes Vianna, Lacerda declarava vir em serviço do seu jornal e como intérprete das expectativas de largo sector da opinião pública brasileira, impaciente por uma solução rápida do caso que satisfizesse os interesses dos dois países irmãos. Lacerda prometia ficar em Lisboa até que o incómodo impasse diplomático tivesse um desfecho feliz.
A imprensa nacional (censurada) não se esquecia de dizer que as conversações entre o embaixador extraordinário de Kubitschek e o Ministério dos Negócios Estrangeiros português iam decorrendo cordialmente – como se quisessem dar a entender que o contrário seria previsível.
 
 
Entretanto, o embaixador Mendes Vianna e o jornalista Carlos Lacerda iam apresentando cumprimentos ao admissível homem forte do caso pela parte portuguesa, Pedro Teotónio Pereira, ministro da Presidência, e, no intervalo dos trabalhos, iam passeando por Sintra, pela casa de Camilo, pelo castelo de Guimarães…
 
 
E finalmente, a 21 de Abril, eis a nota do Ministério dos Estrangeiros português a dar por finda a crise diplomática. “Inspirando-se na indissolúvel amizade que une Portugal e Brasil”, etc..
Foi naturalmente em segredo que Delgado seguiu da embaixada do Brasil para o aeroporto, embarcando num avião da Panair, desapercebido da maioria das pessoas que estavam por ali. Quem o veio buscar a Lisboa (também da parte de Kubitschek) foi o director do Diário de Notícias do Rio, João Ribeiro Dantas.
 
 
Na embaixada, Mendes Viana teria chamado o general para lhe acenar com as manifestações triunfais que o esperavam à chegada ao Rio e lhe comunicar que podia sair livremente e pelo seu pé da embaixada direitinho ao aeroporto e que os documentos lhe seriam entregues lá mesmo, no aeroporto. E aí o general poderia ter feito ao embaixador o gesto do Zé Povinho (digo eu), retorquindo que nessas condições preferiria ficar onde estava e que não eram as hipotéticas manifestações no Rio que o demoviam.
 
 
Pois, mas Salazar estava em pulgas para ver Delgado a milhas. O jornalista João Ribeiro Dantas, telefona às pressas ao ministro Teotónio Pereira. E, sim, Pedro Teotónio tem ordens “de cima” para despachar o assunto em três tempos.
 
 
E assim, Delgado recebe os documentos na própria embaixada. Segundo umas versões é levado ao aeroporto de automóvel (alugado) pelo João Ribeiro Dantas. Segundo outras, é acompanhado ao avião pelo 2º secretário da embaixada.
 
 
Salazar podia - provisoriamente - respirar de alívio.
Em todo o caso, e bem vistas as coisas, a solução do problema não terá sido uma absoluta derrota para Álvaro Lins. É verdade que essa solução não foi conseguida por ele em exclusivo, e como talvez competisse a um embaixador. Foi preciso mandar vir reforços, e reforços de peso, alguém mandatado pelo próprio presidente brasileiro para desatar definitivamente os impasses.
Mas também não deixa de ser verdade que o general não regressou a casa como queria o governo português; que o general requereu os documentos a partir da embaixada e os recebeu na embaixada, como queria o embaixador Lins. Sendo também verdade que não houve reconhecimento formal do asilo, como queria Lins; que não houve salvo-conduto, como queria Lins; e que Lins não teve a honra e o prazer de ser ele a conduzir Delgado ao avião para o Rio de Janeiro. Feitas as contas…
 
 
O que Lins pode não ter levado à paciência foram as cedências, ao que parece pequenas, do Brasil – ainda assim, cedências feitas por uma democracia a uma ditadura. E aqui deve ter entrado também, e com força, alguma concessão do presidente Kubitschek a Salazar.
Digo isto porque a segunda metade do memorial Missão em Portugal é toda ela feita de artigos que Lins escreveu em diversos jornais brasileiros, já depois de deixar o posto em Lisboa – substituído, ironias da vida política, pelo seu execrado Negrão de Lima – a arrasar o eu ex-amigo Juscelino. E porquê?
 
 

        Primeiro, um discurso proferido em S. Paulo. No essencial diz que a concessão do asilo a Delgado foi para ele como que uma questão de moral – além de um dever de diplomata. O asilo a Delgado valorizara, na opinião dele, e de uma maneira geral, as missões diplomáticas latino-americanas em Lisboa. E a evidência de tal eram os oito casos de asilo concedidos por embaixadas latino-americanas em Lisboa (Argentina, Venezuela, Cuba, Uruguai e Colômbia) depois do caso Delgado – muitos desses asilos, estou em crer, concedidos a implicados no abortado golpe da Sé. No caso da embaixada da Colômbia (asilo ao advogado Sebastião Ribeiro) houve mesmo uma crise diplomática com o governo português, obrigando o embaixador a resignar do cargo para não se submeter às intimações da diplomacia salazarista.
 
                               

           A maior irritação de Lins com o seu ex-amigo presidente terá radicado na carta pessoal que consta Salazar ter escrito a Juscelino Kubitschek, senhor presidente muito prezaria que nos desse a subida honra de ser co-anfitrião nas festas comemorativas do Infante D. Henrique, a ter lugar em Agosto do ano que vem, o que eu veria como o modo mais satisfatório para que todas as nossas crises diplomáticas fossem esquecidas.
E Kubitschek aceitou. Ao parecer de Álvaro Lins mal.
 
 
É que, se Kubitschek estivesse presente em Lisboa na qualidade de convidado, ainda vá que não vá, era de mau gosto, mas enfim. Agora como co-anfitrião era demais. O presidente de um país democrático co-anfitrião de uma cerimónia promovida por uma velha ditadura era de arrepiar os cabelos a Álvaro Lins.
 
                        

 
        Não era uma honraria, não senhor. Se visitante convidado, Kubitschek receberia as honras da casa; como co-anfitrião faria também ele as honras da casa. E mais grave e inconcebível, como figura subalterna do verdadeiro anfitrião: o inútil mazombo do Américo Tomás. Nas cerimónias, nas recepções aos embaixadores estrangeiros, a Kubitschek caberia sempre o segundo lugar do protocolo.
 

 
Juscelino Kubitschek (por então o fundador de Brasília) homologaria com a sua presença a ditadura portuguesa. No contexto da pretendida comunidade luso-brasileira, Kubitschek alinhava num acto colonial, “será como apresentar a comunidade luso-brasileira, mas com sede e centro exclusivos em Lisboa, como se fossemos Madagáscar em Paris, ou Austrália em Londres”.
 
 
Nunca se sabe, mas parece evidente, o quanto a cedência de Kubitschek ao governo de Salazar funcionou, no caso Delgado, como moeda de troca para as concessões que o governo português acabou por fazer na solução da crise.
 
 
Por fim, Álvaro Lins devolve a Portugal a Grã Cruz da Ordem de Cristo com que fora agraciado em 1957. Outra questão de moral. Nada fizera em termos de serviços à ditadura portuguesa que o fizessem merecer a condecoração, e não esquecia o tratamento dado pela mesma ditadura portuguesa à embaixada do Brasil no caso Delgado, como se ela fosse “a delegação em Lisboa de alguma das suas províncias ultramarinas, em vez da representação diplomática de um país independente na plenitude da sua soberania”.
Voltando ao nosso assunto principal, terminadas as negociações, o embaixador Mendes Vianna recebe a imprensa portuguesa no Hotel Condestável. Encontrara em Lisboa um clima de compreensão, e declarava o caso resolvido em negociação leal e de maneira honrosa para as duas partes.
Delgado chegava entretanto ao Rio, recebido pelo chefe do protocolo do Itamaraty e muito cumprimentado por cerca de mil portugueses que o esperavam.
 
 
Hospedado no Hotel Gloria, não se considerava um asilado político, até por não ter saído de Portugal ao abrigo de qualquer salvo-conduto. Pois não, tinha embarcado com um visto normal. Nada então o impedia de fazer política no Brasil, quer dizer, de conspirar contra Salazar. Criticava asperamente o governo português, isso sim, e esperava que a mulher se lhe juntasse em breve.
 
 
O Senado Federal também esperava qualquer coisa dele. Que soubesse corresponder à hospitalidade brasileira, e embora o estatuto do general desse que pensar às autoridades. Turista? Emigrante? Asilado? Refugiado político?
Nos projectos mais imediatos e banais havia uma visita a S. Paulo, havia a necessidade de alugar um apartamento, e havia a urgência de partir para a vida à procura de emprego – a esse respeito já havia convites para redactor de jornais. Era escolher entre o Diário de Notícias carioca e o Estado de S. Paulo.
 
 
       A talhe de foice: Galvão partiria para Buenos Aires em Maio – ignorando eu de todo as démarches diplomáticas entre a embaixada da Argentina e o governo português.
Salazar deixara-o partir? Estranho. Vamos arrepender-nos mil vezes (disse Salazar), esse é muito mais perigoso do que o Delgado.
 
 
Galvão queria o Brasil, mas o Brasil não o deixava lá entrar. Pressão de Salazar? Não me admirava, depois de perceber a influência do ditador sobre a democracia brasileira. E nem em sonhos Salazar queria saber de Galvão e Delgado juntos a conspirar contra ele. Nem que fosse lá longe, em Copacabana... 
Mais tarde, Galvão deixava Buenos Aires, onde não se sentia a gosto, e ia-se radicar por algum tempo na Venezuela.
 
 
Depois há o assalto ao Santa Maria.
 
 
Depois, a 4 de Fevereiro de 61, o MPLA assalta a Casa de Reclusão Militar de Luanda e é o rebentar da guerra em Angola.
 
 
Tudo isso estava nos projectos de Delgado e Galvão, sim, mas não da forma que eles, ambos colonialistas históricos, tinham previsto.

 


sábado, 21 de outubro de 2017


              DIPLOMACIA SALAZARISTA

                        CAPÍTULO 3

 


A 16 de Fevereiro desse ano de 1959, nova bomba na política portuguesa: Henrique Galvão pedia asilo na embaixada da Argentina. A conselho de Delgado? É muito possível.
 
                                                                                          
 
       Tinha fugido estrepitosamente do Hospital de Santa Maria e desaparecido. Estaria já no estrangeiro? Estaria já no Algarve em trânsito para o Norte de África? Não. Estava escondido num apartamento no centro de Lisboa.
Ernesto Mairal, embaixador da Argentina que tão interessado se mostrara no caso Delgado, mal sabia o que o destino havia reservado para ele, um sujeito alto, disfarçado e posteriormente identificado, a bater-lhe à porta a pedir asilo – anos aventurosos da vida portuguesa que, graças à censura, passavam quase  completamente ao lado da vida do comum dos cidadãos.
 
 
       Mairal concedeu o asilo a Galvão. A primeira pessoa com quem queria falar era, naturalmente, com o seu colega brasileiro. E logo a seguir, e também muito naturalmente, com o ministro Marcelo Mathias.
       Henrique Galvão era um criminoso comum condenado a 16 anos de prisão por um tribunal regular – que nada tinha de regular pois era o Tribunal Plenário, instância implacável da justiça especialíssima para os presos políticos. E, conspirador contra a segurança do Estado e redactor de papéis subversivos, Galvão era criminoso de delito comum só porque, oficialmente, fora abolida em Portugal a figura do “crime político”.
 
                                                                                
 
       Vossa Excelência, senhor embaixador, (Mathias para o embaixador argentino) não pode dar asilo a esse homem. Vossa Excelência não pode ter esse homem em casa nem por um minuto. O capitão Galvão é um evadido das prisões.
       Quer dizer, preso por ter cão e preso por não ter cão. Para a diplomacia salazarista, a um homem saído de sua casa sem nada que se lhe aponte de criminoso não é de reconhecer o asilo, precisamente por nada pender na justiça contra ele; a outro homem, perseguido e com largas contas a ajustar por actividades subversivas, também não era de reconhecer o asilo, precisamente por ter contas a ajustar com a polícia do regime.
 
 
       O caso do asilo de Galvão era mais uma facada no prestígio internacional do regime português. Restaria ao governo, no caso Galvão, e no máximo das suas prerrogativas, pedir à Argentina a extradição do asilado enquanto criminoso de delito comum, porém obrigando-se a produzir prova de que Galvão era de facto culpado de crimes comuns.
       A verdade era que a intenção de Galvão, depois de escapar aos pides que o guardavam no Hospital de Santa Maria, era mesmo pedir asilo à embaixada do Brasil. Desaconselhado, entretanto, por alguém. Já lá estava um (ele não sabia?), Delgado, e a embaixada estava cercada pela PIDE – quem sabe se cercada à espera de que aparecesse outro a pedir asilo. Galvão, já agora…
 
                                                                                           
 
       Ora Lins aceita receber Galvão na sua embaixada depois de conversar com o colega argentino. Não era legalmente forçoso que um asilado seguisse para o país cuja embaixada lhe tivesse concedido asilo. Lins assegura ao embaixador Mairal que o Brasil receberá Galvão como asilado político.
 
 
       No noticiário brasileiro corria que Lins havia caído em desgraça junto do presidente Juscelino Kubitschek e que fora salvo de ser demitido pelo caso Delgado. Mantê-lo no posto era questão de honra para o governo brasileiro. Lins ria-se, sobranceiro – mal sabia para o que estava guardado. Duvidava da verdade da notícia. Mas ia tomando conhecimento que uma campanha contra ele estava aberta e a ganhar força no Brasil.
 
                                                                                     
 
       Chegado o dia 18 de Fevereiro, a informação que chega à embaixada brasileira dá como certa uma cambalhota de 180º na posição da diplomacia salazarista a respeito do caso Galvão. Em suma, solução para Galvão (reconhecimento do asilo e perspectiva de um salvo-conduto), e ponto morto para o caso Delgado.
       Mas havia, claro, divisão de opiniões no governo de Salazar. O eventual salvo-conduto outorgado a Galvão pretendia um efeito moral negativo tanto sobre a pessoa de Delgado como sobre a embaixada brasileira, assim colocada em posição ingrata – vexatória, segundo Lins. A alma danada deste estratagema da diplomacia salazarista? O ministro da Presidência, Teotónio Pereira.
 
                                                                                    
 
       Uma outra vertente do caso Galvão tinha sido a firmeza da Argentina ao aludir à possibilidade de retirar o apoio dado a Portugal na ONU acerca do problema de Goa se não se chegasse a um acordo com o governo português.
 
 
      Porque, já se vê, não havia opinião pública portuguesa com influência na política e na imprensa de Buenos Aires como a havia, e bem actuante politicamente (os ricos comendadores), no Rio de Janeiro.
 
 
       Amistoso com a Argentina, inamistoso com o Brasil – lamentava-se Lins, sem querer admitir o óbvio, que era a hostilidade do governo português não se dirigir ao Brasil - país irmão! – e sim a ele próprio, embaixador, amigo dileto de oposicionistas. A haver, como tudo anunciava, uma crise diplomática entre Portugal e Brasil era certo e sabido que a embaixada brasileira levaria com o ónus da interferência nos assuntos internos portugueses, acolhendo um perigoso cabecilha subversivo e assim tomando partido da oposição contra o governo. Logo, lá estaria o embaixador a ser declarado persona non grata.
 
 
       Teotónio Pereira, numa entrevista a um jornal de Lisboa, reafirmava que Delgado era senhor de circular livremente pelo país ou de ausentar-se se assim o entendesse, e sem que o governo lhe levantasse dificuldades.
       Lins vai a uma audiência com o ministro Mathias. Tem na ideia encaminhar por escrito em documento diplomático o passaporte de Delgado, mais todos os requerimentos necessários para o general sair do país.
       Marcelo Mathias estava inconsolável (cheio de ciúmes) com a intromissão de Teotónio na área dele. Por inábil na expressão. Por má qualidade na forma. E Lins começa a sentir o dedo de Chateaubriand no caso. Suspeita de que o governo português já teria enviado ao Itamaraty uma proposta razoável de solução do impasse, passando por cima da via oficial, que era a embaixada, que era ele.
 
                                                                            
 
       Erico Veríssimo visita Portugal.
 
                      

          
       Lins dá uma luzida recepção na embaixada e para ela convida intelectuais e outras personalidades, a maioria esquerdófilos. Veríssimo profere uma conferência no Teatro D. Maria II, declara-se contra a censura e disparam os tumultuosos vivas ao Brasil e à república brasileira.
 
            
 
       Mas a imprensa brasileira dá sinais de preocupação com o arrastamento do caso Delgado, instando a uma solução rápida e a qualquer preço, e as autoridades portuguesas começam a cantar vitória.
       Lins mantinha-se na sua. Inamovível. Desejava mais do que ninguém uma solução rápida, mas nunca a qualquer preço. Já era mais do que evidente o resultado da vinda a Lisboa de Assis Chateaubriand. A opinião de Chateaubriand chocava com a de Lins, e disso mesmo dera ele, Chateaubriand, notícia, sem dúvida alguma, a Teotónio Pereira e a Marcelo Mathias – quando não ao próprio Salazar; e Salazar andava aborrecido com o Brasil; e o presidente do Brasil andava raladíssimo com esse aborrecimento do ditador.
 
                                                          

       Iniciativa pessoal de Chateaubriand ao vir a Lisboa? Visita relâmpago a Lisboa por sua alta recriação? Hum… era de desconfiar. Chateaubriand não se teria dado à maçada de vir a Lisboa intervir num caso que não lhe dizia respeito sem a cobertura do Itamaraty.
       Mas como, no ver de Lins, o ministro Negrão de Lima era uma nulidade, a conclusão a que se chegava era ser o próprio Chateaubriand a fazer o Itamaraty mudar de orientação. Lins estaria então mais isolado do que nunca.
       Recado de Negrão de Lima por intermédio de um amigo de visita a Lisboa: diga lá ao Álvaro Lins que pense na nossa responsabilidade histórica se houver uma ruptura de relações diplomáticas entre o Brasil e Portugal.
 
                                                                                            
 
       Lins chega ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Leva consigo o passaporte do general e os requerimentos precisos para se ausentar, acompanhados de uma nota diplomática. Mathias recebe-o. Numa primeira e informal abordagem, Mathias recusa dar andamento à papelada enquanto o general permanecer na embaixada. Com a conversa do costume. Delgado teria primeiro que regressar a sua casa, etc., etc..
 
 
       Já se passara um mês. Tinha havido o pronunciamento público de Teotónio Pereira, blá blá blá, que Delgado podia circular livremente, que Delgado podia, querendo, sair do país, e patati patatá. Então, com tanta liberdade, porque é que Delgado não pode requerer os documentos precisos a partir de um local qualquer, a embaixada do Brasil, por exemplo? Não pode. Mas porquê? Porque não pode. E era na base do pronunciamento de Teotónio Pereira que Delgado solicitava ao embaixador a apresentação a Mathias dos ditos requerimentos, incluindo o passaporte – o que faço pelo alto intermédio de Vossa Excelência, Senhor Ministro, solicitando-lhe a gentileza de os encaminhar às autoridades competentes para os devidos fins…
 
                                                                               
 
Mathias vê o que Lins lhe apresenta e fica sem jeito. Principalmente com a nota diplomática formal. Embaixador, não me entregue esta nota. Não é necessário. Tenho uma proposta a fazer ao governo brasileiro por seu intermédio. Há uma fórmula para resolver o caso rapidamente e a contento de todos. Ei-la:
       1 – O general renunciaria ao asilo na embaixada.
       2 – O general regressaria sem ninguém saber à sua residência.
       3 – Da residência, o general encaminharia o passaporte e os requerimentos às autoridades competentes.
       4 – Na residência aguardaria o deferimento dos requerimentos e a actualização do passaporte.
       5 – Seguiria de sua casa directamente para o aeroporto e nessa mesma noite viajaria para o Brasil.
       6 – Tanto na saída da embaixada para casa como na ida para o aeroporto, o general poderia fazer-se rodear da família e dos amigos, excepto se esses amigos fossem membros da embaixada do Brasil.
       E isto sem ninguém saber…
 
                                                                           
 
      Decepção!, escreve Álvaro Lins. A diferença relativamente a propostas anteriores residia num único e secundário item, que era Delgado ter que esperar umas horas, uma tarde, se tanto, pela decisão das autoridades quanto ao visto e ao despacho dos requerimentos. Tudo o mais permanecia inalterável – renúncia ao asilo, regresso a casa, condições quanto ao local de onde deveriam remetidos os papéis…
       É nessa altura que Lins teima na entrega formal da nota diplomática. Que não, e que não. Não me entregue isto pela sua rica saúde, embaixador. Fale com o Itamaraty antes de me entregar esta nota e aguarde a decisão do seu governo, por favor.
       Quer o meu caro ministro que eu transmita ao meu governo uma proposta de solução sorrateira e meio clandestina? Não, ministro, o general Delgado só poderá sair da minha embaixada em condições de perfeita clareza e dignidade.
 
                                                                
 
       Lins não duraria muito tempo no posto de embaixador em Lisboa. Lins deixara de ser parte da solução e passara a ser parte do problema. E para ele, das duas, uma: ou o caso Delgado se resolvia com o reconhecimento do asilo e o fornecimento de um salvo-conduto pelo governo português – e aí sim, com as condições estipuladas pelo governo para a saída dele da embaixada; ou o caso Delgado se resolvia pela concessão do visto no passaporte em situação de asilado reconhecida pelo governo brasileiro e não pelo governo português – com o asilado a não poder sair nem por um minuto das vistas do pessoal da embaixada enquanto autoridade asilante, responsável pela sua segurança. A escolha da modalidade ficava para Marcelo Mathias.
       Permita-me a franqueza, caro ministro, não aceitarei de modo algum uma solução imposta unilateralmente, igual a uma desonra ou a uma desmoralização para o Brasil.
 
                                                                    
 
       Lins vai para o gabinete preparar um protocolo, a enviar de modo informal numa primeira fase, tanto para Mathias como para o seu ministro, o detestado Negrão de Lima. Quer deixar claro à posteridade que não fora excessiva e indevidamente exigente, nem dera mostras de má vontade nas negociações com o governo português. E que, ao contrário, fora compreensivo e estava preparado para as possíveis transigências. Se o caso Delgado viesse um dia a ser resolvido, não o seria por uma traição dele ou por um recuo da embaixada.
       Resumindo o protocolo (e aqui também a conversa de sempre): o governo do Brasil dispensaria o salvo-conduto; o general requereria os documentos a partir da embaixada; um funcionário da embaixada receberia os documentos depois de competentemente despachados; 72 horas passadas e o general embarcaria para o Brasil com a embaixada a providenciar o transporte e um membro da embaixada a acompanhá-lo ao aeroporto, onde o general embarcaria na própria pista de aterragem; o protocolo seria mantido em sigilo por ambas as partes até à partida do avião, só então se seguindo um comunicado conjunto à imprensa de Lisboa e do Rio de Janeiro.
 
                                                                                          
 
       Mas o diabo é que o ministro Negrão de Lima se declarara pronto para uma composição com o governo português no caso Delgado. Isto no dia 26 de Fevereiro. Uma composição que aceitaria a proposta portuguesa, essa mesma, a que Mathias apresentara ao embaixador Lins, e que o embaixador Lins recusara categoricamente. E o governo português sabe que o governo brasileiro está disposto a uma composição com base na proposta portuguesa. O embaixador Lins é que não sabe. Não, não sabe da viragem do seu governo aceitando uma proposta que ele tão energicamente recusara – ou antes, é o último a saber. E é o último a saber que no meio daquele caldinho é ele o único irredutível na recusa da proposta portuguesa.
       E como é que Lins vem a saber da aceitação pelo seu governo da proposta portuguesa contra o seu parecer? Quem lho comunica? Marcelo Mathias. Era o cúmulo. Ou seja, o Itamaraty relutava em dar instruções directas ao seu embaixador em Lisboa. Preferia transmitir as suas orientações ao embaixador de Portugal no Rio de Janeiro para este as fazer chegar ao ministro dos Negócios Estrangeiros português sem passar pelo embaixador brasileiro em Lisboa. Era o cúmulo!
 
                                                                                    
 
       Sem dúvida que Lins ficou pior do que estragado com tal situação. E só por isso se percebe porque tão abruptamente no diário cessa de fazer referências ao caso Delgado – e me deixa com boca de lacaio, sem informação que dele partisse.
 
 
       Mas ainda cita Alexandre Herculano: isto dá vontade de morrer!
       E tão amigo que ele era de Juscelino! E tantos favores políticos Juscelino lhe devia!
       Mas Negrão de Lima era um incapaz para as mais altas funções de Estado e o senhor Juscelino Kubitschek de Oliveira não era o Brasil – fraca consolação, digo.
 
                                                            
 
Se aquele Diário viesse a ser publicado algum dia, bem como a correspondência entre o embaixador Lins e o Itamaraty, a opinião pública brasileira ficaria estarrecida (sic) com a grosseira obstinação do governo português em relação ao governo brasileiro.




NÃO PERCA A CONCLUSÃO DESTE PALPITANTE FOLHETIM DIPLOMÁTICO

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