quarta-feira, 25 de outubro de 2017


              DIPLOMACIA SALAZARISTA

                    CAPÍTULO 4

 

 
      Lins fica a saber que a situação de impasse nas negociações descambara mesmo em crise diplomática. Mas as autoridades brasileiras pareciam contentar-se com pouco.
Para o governo brasileiro a ida do general Delgado para o Brasil, a despeito das condições impostas pela diplomacia salazarista, era um sucesso para a diplomacia brasileira, e o conselho que os círculos políticos da Guanabara davam ao embaixador Lins era que ele se minimizasse pessoalmente, transigisse, e proclamasse que a ida de Delgado para o Brasil era uma vitória pessoal também para ele. Que não era, já se vê, pelo menos para o conceito que ele tinha. Ou se era, ele não a aceitava.
 
 
Haveria uma esperança. Que era a intentona da Sé. Se saísse vitoriosa o governo cairia e o tormentoso caso Delgado ficaria resolvido por si mesmo, e então sim, seria uma vitória para todos.
 
 
Em fins de Fevereiro, os implicados no planeado golpe da Sé fazem saber que são contrários à partida de Delgado para o Brasil antes da revolta vitoriosa de Março.
Mas o golpe da Sé falha.
Os dias 11 e 12 de Março nascem e morrem e o tão competentemente planeado e rigorosamente aprazado golpe da Sé nem chega a ver a luz desses dias. Na noite de 11 para 12 de Março Delgado deixa-se adormecer sentado a uma secretária, à espera da hora de saltar para a rua e encabeçar a revolta. E o sol nasce. E ele acorda. E não se passa nada.
 
 
Pois não. Nem novas nem mandados, e nesse mesmo dia 12 de Março Delgado fica ciente de que os conspiradores da Revolta da Sé (havia membros do clero envolvidos) ou estavam em fuga ou tinham ido de cana.
 
             
 
       Há quem diga que o golpe fora minuciosamente preparado, que contava com a adesão de várias unidades militares estratégicas e com alianças ao mais alto nível da hierarquia militar (Craveiro Lopes?), mas que tudo fora tragicamente desmantelado pelos serviços secretos da Legião, postos de sobreaviso para detectarem movimentos suspeitos de civis justamente nas imediações da Sé de Lisboa – o pároco estava na conspiração; alguns conjurados frequentavam os claustros.
 
 
       No dia 14 de Abril, Álvaro Lins entrega a Marcelo Mathias uma nota comunicando a chegada de um embaixador extraordinário, encarregado pessoalmente pelo presidente Kubitschek de uma importante missão diplomática.
No dia 15 chega a Lisboa esse enviado de Kubitschek, o embaixador Mendes Vianna, secretário geral do Itamaraty. Missão: desembargar o problema do asilo de Delgado.
 
 
Ainda no Brasil, pouco antes da partida para Lisboa, instado pela imprensa sobre a solução para o caso Delgado, o enviado de Kubitschek declarara: “a solução sou eu próprio.”
 
 
No aeroporto de Lisboa, o embaixador Mendes Vianna faz declarações. Vem cooperar com o embaixador Álvaro Lins (seu querido amigo) e com o governo português em ordem a uma resolução rápida do caso Delgado - que de resto a todos colocara em difícil posição. Havia contudo a preservar um valor essencial, que era o amor entre Portugal e Brasil. E para tanto, o que Mendes Vianna mais desejava era uma compreensão total das autoridades portuguesas, no que aliás confiava, por mor da amizade entre os dois países. Havia pormenores pendentes que no seu entender seriam facilmente resolvidos.
Três meses era tempo demais para conclusão do caso Delgado – assim pensava Carlos Lacerda, por então afamado misto de homem político e jornalista do Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro.
 
 
Arribado a Lisboa dois dias depois do embaixador Mendes Vianna, Lacerda declarava vir em serviço do seu jornal e como intérprete das expectativas de largo sector da opinião pública brasileira, impaciente por uma solução rápida do caso que satisfizesse os interesses dos dois países irmãos. Lacerda prometia ficar em Lisboa até que o incómodo impasse diplomático tivesse um desfecho feliz.
A imprensa nacional (censurada) não se esquecia de dizer que as conversações entre o embaixador extraordinário de Kubitschek e o Ministério dos Negócios Estrangeiros português iam decorrendo cordialmente – como se quisessem dar a entender que o contrário seria previsível.
 
 
Entretanto, o embaixador Mendes Vianna e o jornalista Carlos Lacerda iam apresentando cumprimentos ao admissível homem forte do caso pela parte portuguesa, Pedro Teotónio Pereira, ministro da Presidência, e, no intervalo dos trabalhos, iam passeando por Sintra, pela casa de Camilo, pelo castelo de Guimarães…
 
 
E finalmente, a 21 de Abril, eis a nota do Ministério dos Estrangeiros português a dar por finda a crise diplomática. “Inspirando-se na indissolúvel amizade que une Portugal e Brasil”, etc..
Foi naturalmente em segredo que Delgado seguiu da embaixada do Brasil para o aeroporto, embarcando num avião da Panair, desapercebido da maioria das pessoas que estavam por ali. Quem o veio buscar a Lisboa (também da parte de Kubitschek) foi o director do Diário de Notícias do Rio, João Ribeiro Dantas.
 
 
Na embaixada, Mendes Viana teria chamado o general para lhe acenar com as manifestações triunfais que o esperavam à chegada ao Rio e lhe comunicar que podia sair livremente e pelo seu pé da embaixada direitinho ao aeroporto e que os documentos lhe seriam entregues lá mesmo, no aeroporto. E aí o general poderia ter feito ao embaixador o gesto do Zé Povinho (digo eu), retorquindo que nessas condições preferiria ficar onde estava e que não eram as hipotéticas manifestações no Rio que o demoviam.
 
 
Pois, mas Salazar estava em pulgas para ver Delgado a milhas. O jornalista João Ribeiro Dantas, telefona às pressas ao ministro Teotónio Pereira. E, sim, Pedro Teotónio tem ordens “de cima” para despachar o assunto em três tempos.
 
 
E assim, Delgado recebe os documentos na própria embaixada. Segundo umas versões é levado ao aeroporto de automóvel (alugado) pelo João Ribeiro Dantas. Segundo outras, é acompanhado ao avião pelo 2º secretário da embaixada.
 
 
Salazar podia - provisoriamente - respirar de alívio.
Em todo o caso, e bem vistas as coisas, a solução do problema não terá sido uma absoluta derrota para Álvaro Lins. É verdade que essa solução não foi conseguida por ele em exclusivo, e como talvez competisse a um embaixador. Foi preciso mandar vir reforços, e reforços de peso, alguém mandatado pelo próprio presidente brasileiro para desatar definitivamente os impasses.
Mas também não deixa de ser verdade que o general não regressou a casa como queria o governo português; que o general requereu os documentos a partir da embaixada e os recebeu na embaixada, como queria o embaixador Lins. Sendo também verdade que não houve reconhecimento formal do asilo, como queria Lins; que não houve salvo-conduto, como queria Lins; e que Lins não teve a honra e o prazer de ser ele a conduzir Delgado ao avião para o Rio de Janeiro. Feitas as contas…
 
 
O que Lins pode não ter levado à paciência foram as cedências, ao que parece pequenas, do Brasil – ainda assim, cedências feitas por uma democracia a uma ditadura. E aqui deve ter entrado também, e com força, alguma concessão do presidente Kubitschek a Salazar.
Digo isto porque a segunda metade do memorial Missão em Portugal é toda ela feita de artigos que Lins escreveu em diversos jornais brasileiros, já depois de deixar o posto em Lisboa – substituído, ironias da vida política, pelo seu execrado Negrão de Lima – a arrasar o eu ex-amigo Juscelino. E porquê?
 
 

        Primeiro, um discurso proferido em S. Paulo. No essencial diz que a concessão do asilo a Delgado foi para ele como que uma questão de moral – além de um dever de diplomata. O asilo a Delgado valorizara, na opinião dele, e de uma maneira geral, as missões diplomáticas latino-americanas em Lisboa. E a evidência de tal eram os oito casos de asilo concedidos por embaixadas latino-americanas em Lisboa (Argentina, Venezuela, Cuba, Uruguai e Colômbia) depois do caso Delgado – muitos desses asilos, estou em crer, concedidos a implicados no abortado golpe da Sé. No caso da embaixada da Colômbia (asilo ao advogado Sebastião Ribeiro) houve mesmo uma crise diplomática com o governo português, obrigando o embaixador a resignar do cargo para não se submeter às intimações da diplomacia salazarista.
 
                               

           A maior irritação de Lins com o seu ex-amigo presidente terá radicado na carta pessoal que consta Salazar ter escrito a Juscelino Kubitschek, senhor presidente muito prezaria que nos desse a subida honra de ser co-anfitrião nas festas comemorativas do Infante D. Henrique, a ter lugar em Agosto do ano que vem, o que eu veria como o modo mais satisfatório para que todas as nossas crises diplomáticas fossem esquecidas.
E Kubitschek aceitou. Ao parecer de Álvaro Lins mal.
 
 
É que, se Kubitschek estivesse presente em Lisboa na qualidade de convidado, ainda vá que não vá, era de mau gosto, mas enfim. Agora como co-anfitrião era demais. O presidente de um país democrático co-anfitrião de uma cerimónia promovida por uma velha ditadura era de arrepiar os cabelos a Álvaro Lins.
 
                        

 
        Não era uma honraria, não senhor. Se visitante convidado, Kubitschek receberia as honras da casa; como co-anfitrião faria também ele as honras da casa. E mais grave e inconcebível, como figura subalterna do verdadeiro anfitrião: o inútil mazombo do Américo Tomás. Nas cerimónias, nas recepções aos embaixadores estrangeiros, a Kubitschek caberia sempre o segundo lugar do protocolo.
 

 
Juscelino Kubitschek (por então o fundador de Brasília) homologaria com a sua presença a ditadura portuguesa. No contexto da pretendida comunidade luso-brasileira, Kubitschek alinhava num acto colonial, “será como apresentar a comunidade luso-brasileira, mas com sede e centro exclusivos em Lisboa, como se fossemos Madagáscar em Paris, ou Austrália em Londres”.
 
 
Nunca se sabe, mas parece evidente, o quanto a cedência de Kubitschek ao governo de Salazar funcionou, no caso Delgado, como moeda de troca para as concessões que o governo português acabou por fazer na solução da crise.
 
 
Por fim, Álvaro Lins devolve a Portugal a Grã Cruz da Ordem de Cristo com que fora agraciado em 1957. Outra questão de moral. Nada fizera em termos de serviços à ditadura portuguesa que o fizessem merecer a condecoração, e não esquecia o tratamento dado pela mesma ditadura portuguesa à embaixada do Brasil no caso Delgado, como se ela fosse “a delegação em Lisboa de alguma das suas províncias ultramarinas, em vez da representação diplomática de um país independente na plenitude da sua soberania”.
Voltando ao nosso assunto principal, terminadas as negociações, o embaixador Mendes Vianna recebe a imprensa portuguesa no Hotel Condestável. Encontrara em Lisboa um clima de compreensão, e declarava o caso resolvido em negociação leal e de maneira honrosa para as duas partes.
Delgado chegava entretanto ao Rio, recebido pelo chefe do protocolo do Itamaraty e muito cumprimentado por cerca de mil portugueses que o esperavam.
 
 
Hospedado no Hotel Gloria, não se considerava um asilado político, até por não ter saído de Portugal ao abrigo de qualquer salvo-conduto. Pois não, tinha embarcado com um visto normal. Nada então o impedia de fazer política no Brasil, quer dizer, de conspirar contra Salazar. Criticava asperamente o governo português, isso sim, e esperava que a mulher se lhe juntasse em breve.
 
 
O Senado Federal também esperava qualquer coisa dele. Que soubesse corresponder à hospitalidade brasileira, e embora o estatuto do general desse que pensar às autoridades. Turista? Emigrante? Asilado? Refugiado político?
Nos projectos mais imediatos e banais havia uma visita a S. Paulo, havia a necessidade de alugar um apartamento, e havia a urgência de partir para a vida à procura de emprego – a esse respeito já havia convites para redactor de jornais. Era escolher entre o Diário de Notícias carioca e o Estado de S. Paulo.
 
 
       A talhe de foice: Galvão partiria para Buenos Aires em Maio – ignorando eu de todo as démarches diplomáticas entre a embaixada da Argentina e o governo português.
Salazar deixara-o partir? Estranho. Vamos arrepender-nos mil vezes (disse Salazar), esse é muito mais perigoso do que o Delgado.
 
 
Galvão queria o Brasil, mas o Brasil não o deixava lá entrar. Pressão de Salazar? Não me admirava, depois de perceber a influência do ditador sobre a democracia brasileira. E nem em sonhos Salazar queria saber de Galvão e Delgado juntos a conspirar contra ele. Nem que fosse lá longe, em Copacabana... 
Mais tarde, Galvão deixava Buenos Aires, onde não se sentia a gosto, e ia-se radicar por algum tempo na Venezuela.
 
 
Depois há o assalto ao Santa Maria.
 
 
Depois, a 4 de Fevereiro de 61, o MPLA assalta a Casa de Reclusão Militar de Luanda e é o rebentar da guerra em Angola.
 
 
Tudo isso estava nos projectos de Delgado e Galvão, sim, mas não da forma que eles, ambos colonialistas históricos, tinham previsto.

 


2 comentários:

  1. Interessante viagem aos bastidores da política salazarista...Vejam-se semelhanças (e diferenças, claro) com os actuais. Obrigada, amigo Joel.

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  2. Ah...Santa Liberdade, de escrever e ler!

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