segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


      

      A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR  MELHORES   
                            CONDIÇÕES DE VIDA
                                                                     (3)



  
O quê? Eu aumentar o salário dos meus trabalhadores?
Se aumento os salários, o pessoal vai-me amolecer, vai-me trabalhar menos, vai exigir mais tempo para gastar o aumento, começa a pensar em coisas e em grandezas, vai baixar a qualidade da produtividade, porque o trabalhador vai estar a pensar no que vai poder comprar com o dinheiro do aumento. E além disso, já sei que vai fazer uma data de despesas inúteis, vai estafar o dinheiro todo enquanto o diabo esfrega um olho e vai adquirir vícios.  O melhor é aumentar o preço dos produtos de primeira necessidade. Assim já o trabalhador não fará despesas desnecessárias.
Uma reunião de ricos em Davos, na Suiça. Há um patrão multinaconal que declara:
- Quer seja um indivíduo isolado, uma nação ou uma empresa, o que importa mais para sobreviver neste mundo é ser mais competitivo do que o vizinho.

                                                                                                                                                      

A lei das sociedades humanas pode consubstanciar-se, em certas épocas, numa só palavra. Hoje, aqui, a esta hora, a palavra que em tons sacros dá forma a nosso planeta e à nossa vida é… competitividade.
Se a competitividade em si mesma já foi um meio para obter um desiderato, hoje em dia, cuidado, ela já é um fim em si mesma. Ela e o conceito cultural que exprime. É o objectivo de patrões em busca de melhoria de vida. Pode ser finalidade de Estado. É obrigação do indivíduo.
Absolutamente necessário é reformar os sistemas educativos das nações, todas elas, EUA, França, Inlaterra, Portugal, Chipre, Birmânia, Alemanha, Burkina Faso, Timor Leste, Rússia.
Mas reformar em que sentido?
No sentido de construir um Homem preparado para se integrar sem esforço e com alta rentabildade nos sistemas competitivos da sociedade em que vive. Lutar pelo seu bife seja à custa do que for e de quem for. É isto o desenvolvimento. Desenvolvimento, cultura, investigação: tudo concorre para o mesmo.
O princípio da competitividade contempla formulações guerreiras. Há uma guerra mundial. Está neste momento a decorrer. Essa guerra (sem contar com as guerras de tiros e sangue do oriente médio) é financeira e económica, antes de mais. Neste momento. Mas com componentes tecnológicas, industriais. Estão de facto todos contra todos, mas é preciso que ninguém se deixe matar. E também é bom que ninguém seja neutral. É absolutamente preciso sobreviver. E para sobreviver não há outro meio senão ser mais e mais competitivo. A opinião pública, saturada deste discurso, começa a acreditar que é mesmo verdade.
Competitividade é sistema de vida instalado no planeta inteiro desde o começo dos anos 80. Nada lhe escapa. É uma espécie de graça divina: ou se tem ou não se tem. Os que a têm são salvos (cá está a teologia). Os que não a têm, os que não são competitivos, estão condenados.
Os não competitivos desaparecerão em breve sufocados em fumos de enxofre, em pranto e ranger de dentes.
O vencedor leva tudo – the winner take it all. Uma máxima de catecismo existencial moderno, actualizado.
Leio num antigo número do Monde Diplomatique, que, por exemplo, no ténis, o 45º jogador do ranking  pode ser quase tão bom como um  dos primeiros. Mas nem que dispute a meia-final (um dos melhores, portanto) de um afamado torneio conseguirá um único contrato publicitário para uma marca de alpergatas. Vai tudo direitinho para o vencedor. Os patrões só se sentem quentinhos e a melhorar as suas condições de vida de braço dado com os vencedores, e tudo é posto à mão de semear do vencedor, alpergatas, raquetes, bolas, bonés, roupa de baixo, lingerie
As grandes empresas e os grandes grupos económicos de esfera de acção mundializada não tem o menor pejo de saquear o meio ambiente que pertence à comunidade nem de provocar com as suas actividades verdadeiros desastres ecológicos, desde que esses desastres contribuam para a melhoria das condições de vida do patronato degradadas pela democracia e pelas manias socialistas.
Também não se ralam muito com a criminalidade financeira que disparou por todo o belo mundo capitalista – hoje já não há, é verdade, praticamente outro mundo -, desde o momento em que tal seja proveitoso na reciclagem dos mais impuros dinheiros e contribua para o pãozinho de cada dia dos nossos patrões.
A concorrência mundial é o que domina e determina a quantidade e qualidade do trabalho e do salário. A lei do trabalho é a competitividade das empresas. Mais nenhuma. Se o patronato vence na competição, muito bem, há trabalho, o patronato melhora de vida; se o patronato acumular azares sobre azares, nada de excepcionalmente grave para o patronato, que procura logo outro lugar onde investir. Fecha-se a loja e acabou-se o trabalho. O patrão não pode empobrecer por causa disso e a vida continua.

                                                                                                

Seja qual for o aumento da produtividade do trabalho, os salários baixarão na proporção da quantidade disponível de trabalhadores candidatos a um emprego que vai rareando.
A abundância criada pela globalização das massas trabalhadoras acabará sempre em proveito do patronato anónimo.
Os níveis de rendimento e de riqueza marcam muito as diferenças e os antagonismos Norte/Sul. Mas deste conflito estão excluídos os grupos dirigentes do patronato. É claro. Os homens tem de se defender.
Os bens essenciais podem aumentar na ordem dos 30%, enquanto os salários podem subir qualquer  coisa como  7%.
Para quem trabalha aqui, em Portugal, há dois pesos e duas medidas. Uns vivem a pelintrice de não terem para mandar cantar um cego, enquanto outros, os quadros e administradores, alinham os seus rendimentos pela Europa rica, porque isso se inscreve nos imponderáveis da luta do patronato por melhores condições de vida.
Neste  país o custo de vida está ao nível de Paris, Londres, Bruxelas, Madrid  e o povinho ri alegremente julgando-se a vencer o patronato e  procurando imitar os seus patrões, mesmo comprando aos dolorosos bochechos os bens de luxo que os patrões ainda podem pagar a pronto.
Segundo o Banco Mundial, o fosso médio de rendimento por cabeça entre países ricos e países pobres era de 1 para 11 em 1870. Em 1960 esse fosso era de 1 para 38. E era de 1 para 52 nas contas de 1985.
A tendência – que aliás, podemos verificar no dia-a-dia do nosso quotidiano – é para o empobrecimento geral das classes médias trabalhadoras, e uma tendência que, segundo os estudos do Banco Mundial, se vai acentuar, e assim porque o patronato está finalmente a conseguir algumas significativas vitórias na sua justa e centenária luta contra os trabalhadores madraços.
Perceba-se que no quadro amplo da luta do patronato contra os trabalhadores, como é óbvio,  nada se faz em função dos trabalhadores; são os trabalhadores a serem obrigados a deixar o seu destino pessoal à mercê de uma abstracção altamente manipulável por quem pode: o mercado, a economia; economia mundializada, toda ela altos e baixos imprevisíveis e de durações limitadas.
Porque a verdade, meus amigos e irmãos, é que os nossos patrões são geniais, e ninguém poderá pôr cobro à competitividade. A competitividade nasce na negociata internacional, precede o crescimento, permite e comanda o emprego. Toda a regulamentação, toda a medida proteccionista estará em contravenção com a lei fundamental (a do mercado e da competitividade), e só a defesa dos legítimos interesses dos patrões  poderá, se for caso disso,  servir de pretexto para a infracção a essa lei suprema.
Países inteiros serão esmagados por esta lógica, com especial gravidade os do Sul, os do Sudoeste asiático e os da África sub-sahariana.
Aquilo são tudo regiões sem dinamismo nenhum e onde o patronato ainda sofre horrores…
E as transferências de centros de produção de grandes empresas para  o estrangeiro continuará a ser uma estratégia muito eficaz se se trata de aumentar as respectivas quotas de mercado num mundo competitivo, e bem assim de lhes minimizar os eventuais prejuízos.
O capital – isto é, o patronato – é mais móvel e dinâmico no desenvolvimento das suas justas lutas do que o trabalho. E quem é que tem a culpa disso? Querem ver que também é o patronato?
O patronato submete-se menos facilmente à pressão dos impostos, das necessidades, das mais duras realidades, do que o trabalho. Aproveita as migalhas que o àvaro destino lhe deixa. Por isso o patronato, na sua justa luta, pode mais facilmente castigar os trabalhadores do que o contrário, aumentando-lhes os impostos, minimizando-lhes os serviços sociais, reduzindo o investimento público nas áreas que a esses trabalhadores fazem mais jeito, a saúde, a velhice, a habitação, a educação…
Cada um  usa as armas que pode
O patronato é prudente. O mercado financeiro mundial está arranjado para fazer sobressair mais e mais as diferenças entre os que ganham e os que perdem.
E é claro que o desenvolvimento unicamente baseado nas leis da concorrência de mercado não é sistema que possa reduzir desigualdades de qualidade nenhuma, nem entre os sexos, nem entre os grupos étnicos, e muito menos entre os ricos e os pobres.

                                                                 

domingo, 27 de janeiro de 2013


       A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES
          CONDIÇÕES DE VIDA
                                                      (2)
Os estados autoritários pretensamente providenciavam as coisas em matéria laboral e económica. O social. Daí a figura do Estado Providência. Porque protegia os cidadãos do perigo de um patronato à solta, de um liberalismo sem regras. Porque protegia o emprego. Porque subsidiava os preços – sem deixar funcionar o mercado, intervindo sobre mercado, portanto. E porque o objectivo era político, e o objectivo político primeiro era assegurar a paz social. Isto teoricamente. Já se disse. Nem os trabalhadores podiam andar ao alto e ser sujeitos a regimes de trabalho intensivos. Nem os patrões podiam andar à rédea solta, a declarar falências por dá cá aquela palha, a despedir colectivamente quando lhes apetecesse. Em teoria, claro. E assim dito grosso modo.


Mas vem a II Guerra. Vem e vai. Ganham os aliados. Os aliados eram as democracias do Ocidente, onde o mercado era já então livre quanto o pudesse ser naquelas circunstâncias extremas, onde os patrões investiam no que lhes apetecia e onde, apesar de tudo, os trabalhadores eram protegidos por leis mais eficazes até, e mais civilmente democráticas, do que as dos estados autoritários. E por ser assim, muita gente acreditou na democracia. E ainda hoje, apesar de tudo, acredita. E ainda bem.
Depois das vitória dos Aliados na Guerra, estavam por outro lado
criadas as condições para a queda da preponderância da política no governo das nações e criadas as condições para o ascenso da economia.
Era preciso reconstruir os países devastados pela guerra, além do mais. Mas isso, sendo o princípio dele, marcava o fim do Estado Providência. Era preciso trabalhar-se muito e ganhar-se pouco, isto para os trabalhadores. Era preciso especular com os capitais para se ganhar o máximo – isto para os patrões.
Era a luta insana do patronato pelo seu pão de cada dia – até me chegam as lágrimas aos olhos.
E os governantes de alta estatura política, intelectual e moral foram desaparecendo. E o lugar deles foi sendo ocupado por gente de gerações novas que o económico tentava, porque se apresentava como ideia nova, modelo moderno de governo dos povos. O discurso económico passou a ser o discurso da vanguarda político-ideológica.
E a política passa a depender da economia, das prioridades económicas. E por conseguinte, da iniciativa do patronato. E desde logo, porquê? Por causa de um acto básico em democracia: as eleições.
Para ganhar eleições é preciso dinheiro. Muito dinheiro.
Para montar uma máquina partidária eficiente e atraír militantes é preciso dinheiro. Muito dinheiro.
E a actividade política em si mesma, pode gerar moral e pode gerar paixões, admito, mas não gera dinheiro. É preciso ir buscar o dinheiro onde o há para manter vitoriosa uma máquina eleitoral partidária.
O mais dinheiro que haja para uma campanha eleitoral, o mais certo se tem a vitória.
O que faz um partido com uma vitória eleitoral? Para que lhe serve? Para ter uma maioria parlamentar e para formar governo. O que faz esse governo? Pela ordem naturalíssima das coisas, tenderá a cumular de atenções as pessoas e empresas que deram dinheiro ao partido que o apoia e lhe permitiu ganhar eleições. É humano.
As campanhas eleitorais, hoje por hoje, pouco passam de campanhas publicitárias de promoção de um produto. Vende-se ao eleitorado – ainda que não directamente a dinheiro – a imagem de um ou vários homens políticos.
Quanto custam os tempos de antena, a produção de spots, os outdoors, os hoteis, as caravanas que correm o país a levar a mensagem? E quem paga isso? As quotizações dos militantes? Nem por brincadeira.
Quem paga isso são empresas e empresários. É o patronato. E seja esse partido de direita ou de esquerda – esquerda relativa, bem entendido.
E será que os patrões na sua justa luta por melhores condições de vida ao entrar com milhares e milhares para a campanha eleitoral de um partido ou de um candidato andam a dormir na forma e vão dispender o seu rico dinheirinho com um homem ou uma organização que não lhes dê certas garantias e que mais tarde os venha a pôr em causa?


Os patrões, na sua justa luta por melhores condições de vida, quando pagam uma campanha eleitoral estão a fazer um investimento – que é político e que se transformará mais tarde em económico. E não é retintamente publicitário esse investimento porque nenhum partido se descai a dizer publicamente quais as empresas e os capitalistas que o financiaram, quais os mecenas que tornaram possível a sua  vitória.
O patronato paga a caríssima, milionária,  campanha eleitoral de um partido e faz um investimento a prazo. Quer ir buscar o capital empatado com juros.  Altos juros.
Fica então subentendido que os actos e o discurso do governo do partido  vencedor – ou mesmo os do perdedor, que passa a ser oposição – nunca poderão voltar-se contra os interesses de quem lhe financiou a campanha. E esses interesses não são certamente os dos trabalhadores. São certamente os do patronato. Na sua luta. Justa. Por melhores condições de vida. Também têm direito. E têm direito a gostar tanto de lagosta como os operários.
Por isso, o financiamento por parte do patronato de uma campanha eleitoral partidária é mais uma arma na luta desse mesmo patronato contra… contra quem? Contra os seus concorrentes no mercado, é verdade. E também contra os trabalhadores, a sua maior dor de cabeça.
Os futuros actos do governo beneficiarão preferencialmente aqueles que o pagam e só por acidente ou por uma questão de salvaguardar as aparências, beneficiarão aquela entidade que é o inimigo natural dos interesses daqueles que pagam campanhas eleitorais.

Isto assim, simplista, e bruto parece… parece isso mesmo… parece aquilo que realmente é, simplista. Por mais edulcorados que sejam os discursos, a realidade é simples, não anda muito longe disto. Anda até muito perto.
Basta perguntar porque é que os partidos comunistas, com  todo o poder mobilizador que tiveram, nunca, em democracia, ganharam eleições? É óbvio. Porque nenhum capitalista digno desse nome, nenhum patrão honrado,  vai armar-se em parvo e financiar um partido comunista, um partido que jura a pés juntos defender até à morte os interesses dos trabalhadores.

Claro que os partidos comunistas – ou de esquerda marxizóide – podem, em democracia aberta, defender quanto quiserem os trabalhadores. Simplesmente, essa defesa não passará do nível do discurso.
(E também resta saber se os partidos comunistas quando tiveram todo o revolucionário e absoluto poder nalguns países defenderam na realidade assim tão acirradamemte os reais interesses dos trabalhadores quanto o fazem moralmente nas democracias onde não têm assento nos postos de decisão.)

Mas enfim, o Estado tem que deixar de perseguir o interesse colectivo, até pela simplória razão de que deixou de haver interesse colectivo. Todo o homem competitivo é um ser individual que por sua conta e risco trata da sua própria prosperidade.  E se o Estado quer ser um factor de competitividade tem que ignorar todos os que não querem ou não podem ser competitivos. E o interesse colectivo passou a ser o interesse do colectivo das grandes empresas à escala mundial, dos grandes patrões em busca de melhores condições de trabalho e de vida.
Pois é. Também eu pergunto o mesmo. Como é que ainda há políticos que têm a distinta lata de, muito acaloradamente e sem rir, nos vir falar de democracia?
Mas creiam que é pela razão de o Estado estar a mudar de natureza que os governos e as oposições apresentam crescentemente ao nosso voto políticos de uma extracção intelectual pouco menos que básica. É por estarem assim as coisas ao nível do Estado que os debates eleitorais e parlamentares têm o rasteiro nível que hoje têm. Tudo em prol da justa luta do patronato…
Os governos nacionais, só para obter investimento estrangeiro, estão capazes de vender a alma a todos os demónios que lhes aparecerem e não se coíbem de arriscar a destruição do tecido social dos seus países.
E nas tintas se as reduções drásticas de verbas afectadas ao bem comum criem mais profundas clivagens sociais, renovem as trágicas situações individuais de desemprego ou alarguem as franjas nacionais da pobreza. É tudo para o bem. É tudo em prol da justa luta do patronato contra os trabalhadores.
E porque, vamos lá com Deus, se não houvesse patronato saudável, bem vestido, bem calçado e bem alimentado não seriam precisos trabalhadores para andarem ó tio ó tio, ai que não tenho dinheiro para me vestir, nem para me calçar, nem para me alimentar.
Podia-se viver num mundo sem o patronato em luta contra os trabalhadores? Poder podia.  Mas não era a mesma coisa…






     A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR MELHORES
          CONDIÇÕES DE VIDA
                                  (1)



Sempre muito se falou na justa luta dos desgraçados, dos operários, dos camponeses, dos empregados, dos proletários, em suma. Ninguém fala, nem dá vivas, à luta insana e secular do patronato contra os trabalhadores.  Porque o patronato, depois de séculos e séculos de luta sem quartel , ainda não se conseguiu ver livre dos trabalhadores.
- Portanto, o senhor paga o queijo…
- Pago o queijo? Mas qual queijo? Eu não comi queijo.
- Se não comeu foi porque não quis, o queijo estava na mesa.
- Mas então eu vou ter que pagar um queijo que não comi?
- Se não comeu foi porque não quis, o queijo estava na mesa, portanto tem que o pagar.
E o mundo está mais ou menos assim… assim, como esta história de queijo…
A fabulosa queda do muro de Berlim, tão entusiasticamente saudada pelo mundo e pela juventude -  diria mais, pelos trabalhadores, os tais proletários de todo o mundo que pouco se chegaram a unir -  foi o primeiro passo moral dado na cavalgada do patronato para o o poder  e a discricionaridade totais.
A queda do Muro queria também dizer que estavam por terra todas as ilusões. A queda do Muro foi o desencanto global quanto ao socialismo como sistema de vida mais justo.  E esse sistema salvífico –mas que afinal parece que proporcionava um salvação falsificada -  compreendia a estatização da economia, a centralização, a planificação que ordenava que os bens produzidos pela colectividade eram propriedade da totalidade dos cidadãos, que os bens, muitos ou poucos que houvesse, eram para distribuir por todos conforme as suas necessidades. E foram aos milhões os que acreditaram e deram a vida para que esta esperança nobre e grandiosa sorrisse aos homens.
A queda do Muro autenticou, a impossiblidade de uma utopia. Ninguém queria mais aqueles princípios.
Alguém pode ter dito que distribuindo tudo por todos, ficavam  todos pobres na mesma.
E todos queriam ser ricos.


A partir da queda do Muro tudo passava a ser permitido. E foi. E está a ser. E que cada um se salvasse como pudesse.



E pensar que houve um tempo  em que muitos de nós acreditavam que o socialismo era um sistema viável e vantajoso que poderia assegurar o bem estar material e até, pasme-se, a liberdade.
Quem acredita hoje nisso?
Mas também houve no passado tempos em que muita gente acreditava que o capitalismo privado e a economia de mercado eram sistemas imperfeitos de vida colectiva, económica; um sistema, além do mais, humana e socialmente injusto que não garantia o bem estar geral e empanava as liberdades.
 E hoje? Quem acredita também nesta?
Hoje dificilmente se arranja quem não ache o capitalismo privado e a economia de mercado o sistema único e o único eficiente para assegurar essas duas premissas básicas, o bem estar colectivo e a liberdade. Foi isto que pensou uma das cabeças mais importantes da economia contemporânea, Milton Friedman.
Foi o mercado a fé que veio ocupar o sentimento e a moral das massas que se confrontaram com a queda em fanicos do seu ideal de toda a vida. Afinal, o que era bom era o contrário de tudo aquilo em que haviam acreditado uma vida inteira.
O que era preciso eram reformas. Não revoluções.
O Consenso de Washington. Os países pobres poderiam tornar-se ricos. Como?
Disciplina fiscal. Taxas de câmbio competitivas. Liberalização dos comércios. Investimento – se possível estrangeiro. Privatizações. Desregulamentações.  Ai daquele que duvidasse da eficácia da mézinha e pensasse em resistir a estas ordenações superiores e abstractas.
Em Washington chega-se a um consenso para uma nova moral orçamental – ou seja, uma disciplina férrea nas contas estatais, ou seja, uma redução rigorosa das despesas públicas; ou seja, a liberalização absoluta das trocas comerciais, das regras dos mercados financeiros e da passagem das instituições criadas para servir o bem geral e público para as mãos de particulares; ou seja, uma reforma da fiscalidade. A nova ordem económico-financeira, vai, em termos filosóficos, criar um pensamento universal único.
O Consenso de Washington marcou as fronteiras: uma coisa é a economia do desenvolvimento; outra coisa é a economia ortodoxa.
Naquele dia 15 de Agosto de 1971 muita coisa vai começar no mundo e na vida das nações e dos homens, muitas transformações. Richard Nixon, então na presidência, proclama urbi et orbi  que os EUA acabam de suspender a convertibilidade do dólar em ouro.
É o fim de um sistema de vida monetária que começara no imediato pós-guerra. O capitalismo vai ser outro. Vai reformular-se a liberdade de manobra monetária, vai desregulamentar-se o mundo financeiro, a liberalização vai, enfim, alastrar, invadir as nações, as casas e as famílias.
Ajustamento estrutural!, gritou Washington aos países em vias de desenvolvimento. Toca a desmantelar as estruturas proteccionistas da economia – sobretudo as economias fortemente endividadas. Toca a reduzir os défices orçamentais e comerciais. É preciso saber, e depressinha, que empresas privatizar.
 As reformas liberais, dizem,  resultaram nalguns países e foram positivas e estabilizaram os preços e deram algum crescimento às economias. Os hospitais de alguns desses países é que começavam a sentir a falta de medicamentos. E as bolsas, primeiro eufóricas, também se começaram a tornar perigosas.
A década de 90 foi uma época de crises económicas e financeiras. Já ninguém se lembra?  Crises e retomas. Valorizações e desvalorizações. Nomeadamente entre 1994 e 1999. Crises que atravessaram fronteiras nacionais. Crises que perturbaram  os sistemas financeiros de alguns países, causaram falências, anularam os ganhos económicos anteriores feitos à custa de duras reformas e a provocar conflitos sociais.
À entrada do milénio já se ouviam  vozes preocupadas com a viabilidade das democracias nos países que se sujeitaram às reformas liberais. Irónico, não?
Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial serão os novos tribunais de um universo financeiro sem leis. Através deles, o modelo liberal de vida económica vai ser imposto à Ásia, à América Latina. E à Europa. Se não for a bem vai a mal. Se o capital investe milhões nessas regiões do mundo, resulta justo e moral que as queira configurar aos seus interesses. E mais do que isso, à sua maneira de viver a vida e apreciar as coisas.
A missão principal do FMI passa a ser a da abertura dos mercados nacionais, na escala do planeta, ao investimento e à apropriação dos bens humanos e naturais por parte dos países mais ricos, sem a mínima restrição à circulação das mercadorias, dos serviços e dos fundos. É a mundialização liberal.
O repertório de ajustamentos estruturais do FMI, receita de equilíbrio das contas dos estados mais depauperados, não é muito variado. Consta no essencial de: desvalorização da moeda nacional, se a houver; restrições severas nos orçamentos de Estado; despedimentos maciços; subida das taxas de juro; controle apertado dos salários; crédito restrito; corte de subsídios; aumento de tarifas nos bens de interesse e necessidade geral, água, electricidade, transportes; reforço de exportações; privatização de empresas públicas. O velho e conservador liberalismo, herança de um velho mundo com velhas regras e antiquíssima moral, vai passar a chamar-se neo-liberalismo. Vai ser agressivo. Vai varrer tudo à sua frente. Até os fossilizados mundos e as inteligentes e salvíficas ideologias que ficam do outro lado da Cortina de Ferro.
O neo-liberalismo vai ser tão militante que até lhe vão poder chamar neo-totalitarismo de fôlego global.
O primeiro valor moral, até então indiscutível, a caír ferido de morte é a capacidade de intervenção económica do Estado. E depois, a desregulamentação da economia mundial. E por consequência, a progressiva aniquilação da influência dos sindicatos – que só fazem sentido com uma economia e com uma relação de trabalho assente em claras regras de convivência com o capital, claro está. Mas se o capital abandona as regras, fatalmente que o trabalho se desmoraliza. Ou se amoraliza. O que conta é o dinheiro, a capacidade económica. Os sindicatos eram uma reserva moral de compensação de forças antagónicas. Mas quando unilateralmente uma dessas forças deita fora as suas regras de convivência, a outra esbraceja no escuro da selva. E perde-se.
Estado? Mas qual estado! A ordem será doravante o privado, a privatização. Tudo deve ter um proprietário. Todo o homem precisa de um patrão objectivo e concreto para cujo interesse está condenado a trabalhar, que é como quem diz que todo o escravo não o é se não tiver um dono.
O destino da instituição Estado é ser um Estado mínimo, uma regressão ao minimal. E esta regressão ao minimal limita-lhe a acção ao mínimo, é evidente.
Os estados perderam toda a força de se oporem aos mercados, ao mercado. Perderam a vontade de o fazer, antes de mais. E também deram de mão aos meios para tal. Limitaram-se a consagrar as directivas de política económica – e da outra, claro está, por consequência – que lhes são ditadas pelos organismos económicos à escala mundial.
Por isso os políticos favoreceram nas últimas décadas a liberdade de circulação de capitais, a voga das privatizações e a transferência de centros de decisão – mesmo no tocante à saúde pública, à educação, ao ambiente e à cultura – da esfera governamental e do interesse do público nacional em geral para as mãos do capital privado e internacionalizado.
São os dirigentes das empresas privadas e de raio de acção mundial que comandam a economia das democracias através da imposição das medidas  políticas convenientes.

domingo, 25 de novembro de 2012



MUDAR A VIDA

        
         

      Sim, eu disse “mudar a vida”. Não disse “mudar de vida”. Parece a mesma coisa, mas pode não ser.
        Este assunto foi-me sugerido há anos, há uns bons anos, ao rever um filme de um cineasta que admiro: Woody Allen. O filme chama-se Another Woman  - Uma Outra Mulher, literalmente, em português.
         A protagonista é professora de Filosofia em Nova York, mulher na casa dos 50 anos. Faz anos de casada e vai jantar fora com o marido e com um casal amigo. Ainda antes de começarem a jantar, uma senhora de uma mesa vizinha dirige-se-lhe: desculpe incomodar, eu fui sua aluna há 20 anos, em Vermont, com certeza que não se lembra de mim…
         Mas a professora tinha uma ideia daquela cara. 
       - Sabe, a senhora mudou a minha vida. 
       – Eu? Mudei a sua vida? 
    –Sim, a senhora era uma inspiração para mim, para todas as mulheres do departamento de Filosofia. Lembro-me das suas aulas. Lembro-me de uma conferência sua sobre ética e responsabilidade moral. As suas ideias ainda hoje me inspiram. 
   A professora ouve a antiga aluna com expressão embaraçada. Acho natural. Pense o ouvinte com que cara ficaria se lhe dissessem uma coisa parecida. 
    - Só lhe queria dizer isto, já a tinha visto neste restaurante mas nunca tinha tido coragem para lhe falar, para lhe dizer como mudou a minha vida.
   Oh, como um professor podia concorrer para uma mudança de vida! Noutros tempos? Ainda hoje? Seja como for, nunca eu tive essa sorte. Se alguns professores me mudaram a vida foi no sentido de nunca mais os frequentar. 
A do filme era uma professora de Filosofia. Noutro dia ouvi dizer que não há alunos nas faculdades de Letras, que o ensino das Humanidades está pela hora da morte. Sendo a música dos tempos aquela que indubitavelmente é, tais licenciaturas serão passaportes para o desemprego.
       Seja como for, quanto mais consciência se tiver da vida que se vive menos bem se suportam as realidades que nos são impostas, e menos a sério se levarão os políticos, os jornalistas, os magistrados, os professores, os dirigentes, a propaganda. Os governos não podem permitir ao cidadão uma consciência excessiva – ou seja, verdadeira, rigorosa – da realidade. Para tanto usam os media. Os poderes sabem o quanto um estudo de Filosofia pode mudar o pensamento de um cidadão, pode despertar uma consciência individual.
         A Filosofia ensina a pensar, o que é coisa posta fora de moda, porque há que consumir e acreditar no que se vê na televisão. E se o pensar ficou fora de moda por alguma razão superiormente determinada foi. Pensar pode ser um perigo. Até para as instituições. Um perigo para a credibilidade das hierarquias decisórias. Disciplina que ensine a pensar é um incómodo para os poderes. Se ensina a pensar, até pode ensinar a falar, a escrever. É factor de desenvolvimento mental. Desmascara as pesporrências, coisa proibida em Portugal. E não só… o que é pior…
       A Filosofia pode até, calcule-se, ensinar a viver. Se ensina a pensar, a falar e a escrever, ensina seguramente a viver. Sim, penso que é tudo o mesmo, cumprido com maior ou menor habilidade.
     O actor e realizador americano Denis Hopper – suponho que já falecido – numa entrevista que lhe ouvi há anos, dizia a todo o momento, a propósito de um filme, de um livro, de uma personalidade que conhecera e o impressionara, que tinham sido encontros e experiências que lhe haviam mudado a maneira de encarar a vida. Que lhe tinham mudado a vida. E pode perguntar-se: para que serve a arte (e a cultura) senão para mudar a vida das pessoas?
        Pois é, a vida de cada um pode não estar condenada à mediocridade a que cada um se acomodou.
        Quantas vezes dizemos a nós mesmos, e aos outros “ah, isto não é vida!”, ou “isto não é vida para mim!”? E dos que o dizem há os que vão imediatamente à procura de uma vida, de uma mudança. Da mesma forma que há aqueles que, como eu, preferem não procurar e, sem objectivamente procurar, encontrar. Ou como dizia, parece-me, o Picasso, “eu não procuro, encontro”.
        Há os que ficam à espera que a vida deles mude, sem procurarem e sem disponibilidade para encontrar. Em geral, esperam muito tempo. E a vida não muda. Justamente porque estão mais dispostos a procurar do que a encontrar. Mas as portas da nossa vida, a interior como a material, deveriam estar permanentemente abertas. Assim como as janelas do nosso espírito. De outra maneira a vida não muda. Ou demora mais. E com infinitamente menos compensações.
     Mudar a vida. Pode ser uma banalidade que se diz como qualquer outra, que se diz e nunca se faz, não acontece. Uma fórmula. Porque também podemos pensar que num arco de 70, 80 anos de duração de uma vida, ela realmente pouco muda. Não crescemos assim tanto como isso. Mas o mudar até pode não passar – o que não acho pouco – de um retorno às origens  aos valores fundacionais da nossa personalidade.
     Conhecer uma pessoa. Ver um filme. Contemplar um quadro. Ler um livro. Viver uma experiência insólita – e sendo que o viver uma experiência se pode conter numa leitura, no visionamento de um filme, num quadro, num contacto pessoal.  Os afluentes da mudança de vida oferecem-se-nos ao longo da existência. A vida mesma é a maior oportunidade que nos é dada de a mudar. E de mudarmos com ela.
      Para que teria servido a grande literatura se não nos tivesse dado pistas novas sobre o nosso viver?
     E o cinema? Houve filmes que mudaram a minha vida. Dois, três, talvez quatro, em épocas diversas. 
  Romances houve lidos na casa dos 20 que me acompanharam à cabeceira por mais de 20 outros anos, que formaram muito da minha personalidade, e aos quais ainda regresso de quando em vez. Dois, três, quatro, cinco filmes houve que me indicaram alguns caminhos possíveis, e diferentes, de vida, da vida a que o chato destino me teria compelido se não tivesse visto aqueles filmes. Caminhos que eu evitei percorrer.
      Livros que se lêem, filmes que se vêem, pessoas que se conhecem e que contribuem para que nunca mais sejamos os mesmos que fomos antes de os ler, de os ver, de as conhecer.
     Vida é experiência constante. Mudar a vida pode responder a uma necessidade de mudar de experiências, de as procurar novas, outras. Ou de as reviver, velhas.
     Quanto mais curta e jovem é uma vida mais probabilidades tem, naturalmente, de mudar. Até chegarmos a uma certa época em que pouco ou nada poderemos mudar a nossa vida.
      Mas quanto a isso, de vida… vamos lá a ver.. que vida?
      Pois com certeza que há a vida exterior. Há a vida interior. Há a vida física, concreta. Há a vida íntima, reservada, às vezes secreta. Há o sonho, que faz parte da vida mais íntima. Há aquela vida, aquela estranha, misteriosa vida, a vida sexual. Há a vida profissional. Todas elas imbricadas numa só. Há muita vida para viver, e várias vidas à espera de mudar.
    Por vezes, quando sentimos que alguma coisa mudou na nossa vida interior, podemos experimentar o impulso de ir, como disse, à procura dos instrumentos que lhe possam mudar o exterior. E sem garantia de que esse exterior possa mudar um dia, em tempo útil. Mas logo que na nossa vida interior sentimos o clique, metade do caminho da mudança pode estar andado. Pode nem ser para uma vida materialmente melhor. Pode ser só para uma experiência diferente.
     Uma vida diferente pode logo – sem o ser objectivamente – ser melhor do que a que a que tínhamos. Pelo menos até ao próximo clique, quando sentimos algo cá dentro a pedir-nos mais. Partimos para outra, como se diz popularmente, e pode não ser má coisa.
      Não temos só uma, não, temos várias. Vidas. E em verdade vos digo, irmãos, que mal de nós  se só tivermos uma vida para viver. Essa é chata e triste, de certeza. E as vidas que temos em nós mudam e dão lugar a outras. Ou ficam na mesma – se é que se pode dizer que alguma coisa à face da terra e no imparável rolar do tempo fica na mesma.
     Chegados à tal certa idade, depois das diversas mudanças que se operaram em nós e na nossa vida, podemos concluir que essa vida, afinal, pouco mudou. Ou que nunca na nossa vida houve mudanças essenciais. Talvez por não termos aproveitado ao máximo as ocasiões que a própria nossa vida e destino nos ofereceram para mudar alguma coisa. E quando assim é, chegados a certa idade, verificamos com algum desconsolo que a grande e épica vida que foi a nossa, e que foi única, ficou de súbito mais pequena, muito mais pequena.
    De entre as experiências artísticas talvez a música, arte abstracta, sons que sempre sonhamos tornar concretos ao sabor da nossa disposição íntima e dos nossos sentimentos, talvez a música, digo, seja a que menos ensejos nos proporcione de mudar a nossa vida. A audição da grande música pode criar-nos a tendência fácil de nos comprazermos com aquilo que somos, que fazemos, que pensamos, imutável.
       Posso dizer com a mais absoluta das certezas que a minha vida mudou radicalmente numa noite de Março de 1962, a noite em que pela primeira vez na minha vida chata e pré-formatada e burguêsmente destinada, assisti a uma ópera. Coliseu. Simão Boccanegra, com Tito Gobbi no papel titular.
      Num quadro de realidade mais crua e concreta, evidentemente que a minha vida não mudou nada nessa noite, nem nas noites, muitas, que se seguiram. A  minha vida mudou, e de forma radical, dentro de mim. Foi o corte com o destino que se operou. Tinha 18 anos. Uma boa idade para mudar a vida, sem dúvida. Tinha 18 anos e tinha descoberto uma coisa. Uma coisa transcendente ao meu real imediato. Tinha descoberto uma nova aventura para viver, para lá do futebol e das miúdas, e queria com a máxima força viver essa aventura. E a parte mais importante da minha vida que se seguiu a essa noite foi justamente passada a viver aquela aventura de música e drama antigo, aquele excesso emocional e estético, aquele gesto, aquela luz, aquela celebração, aquela tragédia.
        Na verdade, o que então pensei foi que gostaria de ter uma actividade ou profissão que me levasse a viver a aventura o mais por dentro possível, como participante da cerimónia. Não sabia como nem a fazer o quê, mas fiquei a saber que não descansaria enquanto não achasse maneira de mudar a minha vida naquele sentido.
      Mas mesmo vivendo a aventura por fora, só como ouvinte e espectador, a experiência seria muito forte e transfiguradora, e a minha vida tinha mudado. Foi a minha primeira mudança de vida – escolhida por mim, bem entendido. Nunca mais fui o mesmo. Era como se tivesse descoberto em mim a existência secreta de outra pessoa. Uma espécie maravilhosa de salvação da alma.
      Até que chega o dia em que a minha vida muda mesmo naquele sentido. E a minha vida real tornou-se irreal. Maravilhosamente irreal na sua realidade. 
     Temos muitas vidas. Muitas vidas para transformar noutras vidas. Muitas vidas para dar uso e sentido à nossa vida, a única.
     Ai de quem tenha só uma vida, repito. Ter só uma vida é prisão, é dependência, é ideia fixa, é mania. Quem tem só uma vida vai chatear-se de morte a pensar exclusivamente naquela vida. Na SUA vida – o protagonista de si próprio.
    Mas também haverá que pensar e mudar as vidas que não são a nossa. Sim, também, quando somos o encontro de alguém; a experiência que alguém achou em nós e lhe mudou a vida – sermos a modos que a professora do filme do Woody Allen.
    As vidas que não são a nossa, mas que no contexto dos outros, do quotidiano, no contacto com os outros, são vidas que criamos, uma vida de outros criada em nós. O encontro, a experiência, a troca, sempre. E inventamos em nós e para nós as vidas dos outros. Imaginamos cenas, roupas, móveis, tudo o que se passa com outros; e ponderamos, e criticamos, e aconselhamos as atitudes e as decisões dos outros como se fossem as nossas, as vidas que outros nos contam como suas. Solidarizamo-nos. Repudiamos. Entusiasmamo-nos. Desesperamos. Vidas que, dependendo das afeições ou da proximidade que temos deles, e com eles, passam a ser parte da nossa própria  vida, e a ser uma alegria ou uma ralação para nós.
       As vidas dos outros, sim, mudadas ou por mudar, vêm ter connosco, com a nossa vida, e muitas mais vezes do que nos possamos dar conta. E passam a ser também responsabilidade nossa, vida nossa, que muitas das vezes até achamos que valia a pena mudarem um pouco.
      “Meta-se na sua vida”, dizem-nos nos nossos mais inglórios momentos de impertinência. Mas não somos nós que temos de nos meter na nossa vida. É a nossa vida vida que tem de meter-se em nós. E às vezes não se mete. Às vezes é a vida dos outros que se mete mais em nós do que a nossa.
      E desde logo porque a minha vida não sou eu. Era o que faltava. Eu sou eu e a minha vida é a minha vida. Eu não me posso mudar muito, mas à minha vida posso. Quantas vezes uma tarefa, uma obrigação, nos leva a dizer “ai eu não tenho vida para isto”. Lá está a independência. Eu tenho que poder mandar na minha vida, e não é a minha vida que tem que mandar em mim – embora muitas vezes o seja.  Quer dizer, eu tenho vida, a vida que se foi criando e que eu criei em mim, para mim, e que pode ou não permitir-me fazer isto ou aquilo em vez daquilo ou daqueloutro. Eu tenho-me a mim. Tenho o meu ser. Não tenho, em absoluto, a minha vida, ou a vida que gostaria, ou precisaria, de ter. E ter para quê? Para ser mais completa e agradavelmente eu.
      Muitas vezes não tenho é tempo. Tempo para ter vida. E se não tenho tempo não tenho vida. Porque vida é tempo. E tempo limitado. E condicionado. E contado. Vida é tempo, e vida é talento e/ou inépcia. A minha vida é o espaço e é o tempo e é a acção que me concedo (ou os outros me concedem, ou a vida mesma me concede) de ser eu. Mas a minha vida não sou eu. Mal de mim, se fosse. Era uma limitação demasiada.
      A minha vida não sou eu, mas se não tiver vida não posso ser eu. A minha vida apenas me pode conceder que eu seja eu.
     A minha vida, pois, é um meio. Um meio para ser eu. Não, a minha vida não é um fim. Embora o seja, porque eu sou eu para quê, afinal de contas? Ora essa, eu sou eu para viver a minha vida, a minha vida que não sou eu mas que é minha, e que, tendo embora muitas, fora desta não tenho outra.
      Um outro filme. E por sinal também de Woody Allen. Ana e Suas Irmãs. Um filme visto uma vez, duas, e que revisto em certa idade mudou a minha vida, e mudou no sentido de lhe esbater os contornos perfeitos, ideais, optimísticos. Uma banalidade, também, mas muito poderosa.
    Woody Allen é produtor de televisão. É um hipocondríaco desastrado e inábil. Um dia, sente uma tontura, sente ter perdido a audição no ouvido direito. Segundos depois de se ter queixado ao médico já não tinha a certeza de ser no direito ou no esquerdo. Exames feitos. Perda de sensibilidade para decibéis altos. Bem, lá por causa disso, deixo de ir à ópera. Tonturas? Zumbidos? Sim, agora que o médico falava disso, sim, oh sim, tonturas, zumbidos. Novos testes. 
     - Qual é a pior das hipóteses, doutor? 
     - Um tumor cerebral.
    Woody Allen vive em pânico antes dos novos testes. Ouve campainhas a tocar. Pergunta à secretária se também ouve campainhas a tocar. Sim, ouve. Há dois telefones a tocar ao mesmo tempo no gabinete.
    Raio X. Uma zona cinzenta a aparecer na radiografia que o médico confessa não ter esperado encontrar. Recomenda-se um TAC ao cérebro. Woody Allen sai desfeito do hospital. Tenta concentrar-se, auto-encorajar-se. Tem calma, ele não disse que tu tinhas alguma coisa, só não gostou da mancha na radiografia, tem calma, pá, estás em Nova York, a tua cidade, cheia de gente, de trânsito, de montras, de restaurantes, tu não podes desaparecer assim, tu sempre foste a médicos e as notícias foram sempre boas.
    O médico dispõe as chapas. Mostra-lhe o tumor. Só para lhe dizer que a operação ao cérebro não iria resolver nada. Woody Allen sente-se a contas com a eternidade.
   No plano seguinte, o espectador percebe que a primeira versão da cena era uma projecção do imaginário de Woody Allen a preparar-se para o pior. Na segunda versão, o médico dispõe as chapas e diz que está tudo bem, não há motivo para alarme, ele não tem nada no cérebro.
    Woody Allen sai do hospital do Monte Sinai aos pulos de alegria. Era como se tivesse adquirido uma nova vida. O resultado favorável dos exames mudara-lhe a vida.
     Woody Allen dá pulos de alegria ao sair do hospital. Mas, de repente, pára. E pensa. E deprime-se.
     Pensa: estamos presos por um fio; as coisas, tudo, de um momento para o outro podem perder o sentido. Mas ele não estava a morrer com um tumor no cérebro! Pois não, não estava. Por agora. Não vou morrer hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã. Mas um dia estarei nessa situação. E essa situação, real e inevitável, é alguma coisa que ao longo da vida vamos escondendo no fundo da nossa mente.
      E depois há uma parte com piada em que ele confessa à secretária que, na perspectiva do tumor, tinha comprado uma caçadeira para pôr termo à vida e evitar os sofrimentos do cancro. O problema eram os pais. Quer dizer, para evitar aos pais o desgosto do seu suicídio teria de os abater primeiro. E também a umas tias que lhe eram muito afeiçoadas: teria de as matar para lhes poupar o desgosto do seu suicídio. Seria um banho de sangue: outro problema que o tumor no cérebro lhe colocava.
      E em verdade vos digo, caros ouvintes (sou eu a falar agora): este filme (genial todo ele, de resto) e esta sequência, mudaram a minha vida. É verdade. Nunca mais pensei como pensava – ou não pensava, despreocupadamente. Passei a pensar como a personagem do Woody Allen. Um dia estarei naquela situação.
     E mais fortemente pensei assim depois de passar dos 50. E a vida nunca mais teve o mesmo sabor. Outros sabores teve. Não o mesmo. A minha vida tinha mudado. Mas depois disso, as hipóteses de a mudar foram encurtando até ao zero. E nunca mais me deu o mesmo prazer o acto de viver a minha vida. A minha vida estava a circular-me ao lado. Eu passava a ser só eu. Não sei se era o meu eu que ultrapassava a vida, se, pelo contrário, a minha vida, nas suas inevitabilidade e finitude, me ultrapassava a mim, fora da minha vontade de mudança, fora do meu desejo de permanência.
      Há uma idade para se ter um primeiro conhecimento da morte
     Serei eu a determinar a minha vida, a fazer a minha vida… ou a fazer pela vida, como se costuma dizer? Em parte, sim, claro, é óbvio. Toda a gente sabe que sim, vida, futuro, destino – tal como fui eu a realizar o meu passado. Eu? Ou os outros mais do que eu? Os outros, o mundo, a geografia, a genética, a economia, a política, a família, essas entidades a fazerem a minha vida tanto, ou muito mais, do que eu a fiz? Claro que sim. Mas que vida? A exterior e visível? A interior?
    Ser por ser, eu sou mais a minha vida interior do que a exterior. Sou. Mais as minhas tendências, os meus gostos, as minhas paixões, o meu clube. Sou mais isso do que os meus repetidos actos quotidianos, a maior parte deles automáticos e sugeridos por vontades que me são exteriores.
     A nossa vida social, pública, pode ser uma anti-vida. Pode ser mais a vida dos outros do que a nossa. Tenho que me vestir assim ou assado, tenho que ir ali e acolá. Tenho que dizer isto assim-assim. Tenho que calar aquilo. O ponto em que a minha vida possa ser eu é aquele ponto interior que há em mim e faz de mim o que eu sou.
     O que mais verdadeiramente eu sou – e a minha vida é – pode não ser aquilo que os outros mais facilmente apreendem de mim. E agora até me lembrei de alguns serial killers, ou pedófilos, ou terroristas. Quem são eles? Que vida verdadeira e interior é a deles? Nasceram criminosos, ou mudaram por qualquer apelo, experiência, livro, filme, encontro? Esse apelo estava neles, na vida interior deles, ou chegou-lhes da vida que corre paralela, mas exterior a eles?
      Mudar a vida. Bem, mudar a vida pode ser a simplística fórmula de exprimir o quanto uma coisa, facto, história ou pessoa me impressionou.  Pode ser mais do que isso, claro. E mais do que isso é a fatalidade do real. Pode ser. Porque também, tal como as vidas, há realidades ilusórias. Por paradoxal que pareça. Até há realidades fictícias, quero eu dizer, uma realidade interpretada por ela mesma, nela mesma, a viver por ela mesma, realidade.
      Uma vida real e fictícia, sim acontece, na realidade como na ficção. Um mundo que pode não existir mas que nos sentimos a vivê-lo. A espaços. A espasmos. Em capítulos. E em zonas distintas da consciência, se as há. Em sombras e claridades. Como toda nossa vida, não?
     E agora saltam-me aos olhos umas palavras do Dalai Lama: os homens perdem a saúde para  juntar dinheiro, e perdem dinheiro para recuperar a saúde. Pensam ansiosamente no futuro e esquecem o presente, e de tal modo que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se fossem morrer. E morrem como se nunca tivessem vivido.