domingo, 3 de fevereiro de 2013


                                         

                                                 APRENDER A SER


             Nasceu a 19 de Outubro de 1813, vai fazer 200 anos.
          Nasceu, mas ainda não era. Ia aprender a ser. Aprender a ser aquilo que viria a ser.

                                         
                       
        No dia 22 de Junho de 1832, um jovem anónimo, muito sério e metido consigo, faz petição para ser admitido a estudos no Conservatório de Música de Milão, na qualidade de aluno pagante.
Tinha 18 anos. Queria ser admitido no Conservatório de Milão para estudar música (sim, muito simples e despretensiosamente música), e apesar de muito bem saber que era regulamento da Casa só permitir a admissão de rapazes entre os 9 e os 14 anos, e na condição obrigatória de saírem aos 20. Estava difícil, mas o jovem sabia que para ser teria primeiro que aprender a ser.

                             

Em 1880, 50 anos passados sobre este facto, já ele era, era quem era, já ele tinha aprendido tudo, inclusivé a ser quem era. E até já era considerado imortal e há muito que tinha nome, Giuseppe Verdi. Em 1880, digo, o já imortal Verdi, numa carta a alguém, dava a sua versão do acontecido em Junho de 1832, naquele tempo em que queria aprender a ser, aprender a ser, enfim, ele próprio. Queria aprender a ser Giuseppe Verdi, mas não lhe passava pela cabeça fazer essa aprendizagem de si por conta do Estado. Daí a precisão de se propor como aluno pagante, recomendado pelo seu mestre das primeiras notas em Busseto, Ferdinando Provesi.
Oito dias depois da prova de admissão, o professor do Conservatório a quem ele havia sido recomendado, chama-o e diz-lhe:
- Olha, filho, não penses mais no Conservatório. Procura na cidade um mestre particular. Aqui pelo Conservatório não tens futuro nenhum. Cá por mim, aconselhava-te um, um tal Lavigna.
Perguntar-se-à: mas se a idade regulamentada de admissão era impreterível no limite dos 14 anos, como foi possível que o jovem Verdi com 18 anos tenha sido admitido e examinado?
Mas foi. E foi porque um quesito do mesmo regulamento dispunha que, a dar-se o caso de aspirante extraordinariamente dotado poderiam ser consideradas excepções. E Peppino Verdi, aos 18 anos, ainda não era excepção nenhuma.
Consta das actas que Verdi tocou ao piano um capricho de Herz – sabem quem é? Não. Nem eu. Apercebia-se então que, à vista desarmada, a posição das mãos do jovem sobre o teclado era imperfeita. E era impossível de corrigir devido à avançada idade de 18 anos – a música é implacável, amigos. 
Verdi, ainda sem o ser, não fazia prova de nenhum dos méritos extraordinários que permitissem a abertura de uma excepção. O que, por outro lado, era absurdo, visto que o jovem não se apresentara como candidato a estudante de piano. O jovem que ainda não era Verdi queria estudar a sério composição – e embora estivesse intimamente convencido, aos 18 anos, de que era um bom pianista, essa convicção fora-lhe ditada unicamente pelos provincianos critérios de Busseto, a santa terrinha. Um aceitável pianista de província chamado a meças na grande metrópole milanesa… chumbava.
Estava a aprender a ser…
Bom, mas qual foi o juízo dos mestres quanto às composições executadas no exame e que Verdi dissera serem de sua lavra? Foi o juízo do costume nestas coisas:
- É questão de você se aplicar. Se estudar, se tiver paciência e se aprender direitinhas as regras do contraponto, talvez. É o que lhe podemos dizer. Talvez…
 Talvez viesse a ser. Tinha que aprender a ser. Era isso. Acontece-nos a todos, não?


E depois, outra coisa. O aspecto físico. O preconceito. O aspecto físico parece que contava muito para a preconceituosa gente do meio artístico cosmopolita de Milão. E o aspecto físico do rapaz não caíra  bem nos esquisitos examinadores do Conservatório. Ainda não era bem ele, mas já apresentava um rosto impassível, uns lábios finos e contraídos. E dava sinais de uma inteligência fria, adequada a quem aprendesse a ser diplomata, ou politico. Nada que recomendasse quem queria aprender a ser músico, nada que indiciasse no jovem o ardor dos sentimentos que deveriam animar um artista.
E agora, por curiosidade, note-se a descrição dos sinais particulares que do aprendiz Verdi fez um polícia, o polícia que lhe organizou o passaporte: alto, cabelo castanho muito farto, testa ampla, nariz aquilino, barba escura, queixo oval, rosto magro e tez pálida…
Há um despacho decisório oficial. O jovem já tinha 18 anos, não provara como pianista, era estrangeiro – pois, não era lombardo, era parmiggiano fazia muita diferença, estavamos em 1813 e a Itália também ainda não aprendera a ser Itália. Devolva-se a petição e disponha-se em conformidade. E para aprender a ser também é bom que o indivíduo se saiba aguentar nas moínhas da burocracia.
 Verdi arranja de facto em Milão um mestre particular, exactamente o nome que lhe tinham indicado, Vincenzo Lavigna, antigo protegido de Paisiello e maestro concertatore no Scala. Tinha na folha de serviços algumas avé-marias, algumas óperas e operetas de sucesso relativo. E, por curiosidade, mestre Vincenzo Lavigna tinha tido como mestre de composição um certo Saverio Verde. Sim, sim, depois de ter aprendido com um Verde, ao que se chamava Vinha tocava ensinar um Verdi.

                                                

E assim Verdi vai para Milão aprender a ser, subsidiado tanto pelo Montepio e pela sociedade filarmónica de Busseto, como pelo seu futuro sogro, Antonio Barezzi, ao qual pagará logo que possa.

                                                            

Custa os olhos da cara a quem é pobre aprender a ser numa carreira artística. Nessa altura como hoje – mesmo que hoje a exigência nada tenha que se pareça com a desses tempos – em Itália como em qualquer outra parte do mundo.

                                               

(Ouça-se, se houver, para criar ambiente de leitura, um pouco de polifonia. Palestrina, a base do aprender a ser compositor.)
Em Milão, Verdi trabalha dia e noite para aprender a ser Verdi.
Lavigna compreende o furor imaginativo e os sentimentos profundos do seu aluno. Corrigia cuidadosamente as instrumentações ensaiadas por Verdi, mas, indefectível de Paisiello, fazia-o á maneira de Paisiello. Transcrições, música de câmara, sinfónica e coral. Frequentava assiduamente o Scala. Ouvia os grandes da época, o Mercadante, o Donizetti, o Bellini, o Rossini.
Lavigna passa um atestado onde declara a sua satisfação pelos progressos do seu aluno. E, ainda que particularmente, Verdi chega a dirigir uma versão de concerto da Cenerentola, de Rossini.
E a vida corre, medíocre e acanhada, na sua província natal. O seu querido mestre de Busseto, Provesi, morre. Verdi seria o mais indicado para lhe suceder como mestre de capella e organista. Mas Verdi estava fora da terra e os filarmónicos resolveram deixar o lugar em aberto até que Verdi concluísse os estudos.
Lavigna torna a certificar o bom  sucesso do seu aluno. Certifica igualmente a sua boa conduta moral.
Morre-lhe uma irmã.  Com 17 anos.
A dor ensina muito a ser, não nos esqueçamos…
Verdi está a ter demasiada aceitação na capital – dirigira e tocara o baixo contínuo, na capital lombarda, numa execução da Criação, de Haydn. Demasiada aceitação para não provocar ódios e invejas na sua acanhada Busseto – estas coisas não se passam só em Portugal. E para o lugar que continuava em aberto em Busseto à espera dele é nomeado outro, chamado Ferrari. E porque os estudos de Verdi eram numa parte financiados pelo Montepio de Busseto, toda a gente esperava – Verdi incluído – o seu regresso de Milão para assumir na santa terrinha o lugarzinho que lhe devia competir de organista e mestre de capella.
Em Busseto organizam-se facções. Os pró-Verdi, os anti-Verdi. Ferrari, o que ocupava o lugar (provisoriamente, note-se), era bem visto pelos círculos mais conservadores e aristocráticos da terra; Verdi tinha por si as forças menos clericais, os pequenos burgueses e os progressistas. E faz uma visita a Busseto.

                                             

Em Busseto instam com ele para que dirija a banda e a orquestra da terra. Aceita. E averba um enorme êxito. E enquanto está lá por Busseto toca e dirige em academias e salões musicais privados, e sempre com sucesso. Verdi começava a ser. A igreja onde toca Ferrari lá está, às moscas, e o governo da terra delibera que o lugar não seja dado a ninguém em regime definitivo e que seja aberto um concurso.
Verdi tem em mente um projecto de composição bastante ambicioso. Um projecto sério e profissional. Uma ópera.
Entretanto, vaga o posto de organista e mestre de capella em Monza. Abrem um concurso. O concurso efectua-se, mas não aproveitam ninguém, porque nenhum dos candidatos é homem para compor capazmente uma fuga.
Calha que  um dos examinadores que o tinha reprovado no Conservatório de Milão, chamado Basily, é muito lá de casa de mestre Lavigna, e uma tarde, como quem vai de caminho, Lavigna diz a esse Basily que ia fazer dois anos que o seu Verdi estudava proficientemente a arte da fuga. Tivesse ele concorrido a Monza e teria arrasado. E já que calhava em conversa…
- Olha lá, ó Basily, ainda te lembras do tema da fuga lá do concurso de Monza?
- Sim, sim…
- Então escreve-a lá.
- Para quê, homem?
- Cá por causa de umas coisas…
E o Basily escreve o tema. E o Lavigna chama o Verdi.
- Anda cá, rapaz. Toma lá este tema e vai-te sentar ali naquela mesinha a trabalhar nele, vá…
Passa uma hora. Verdi está na soleira da porta da sala onde os outros dois ficaram a conversar.
- Vossa Senhoria dá-me licença?
- Sim, que é que foi?
- Ecco… fatto…
Está feito. Basily examina o trabalho. Fica maravilhado.
- Mas como é? –pergunta o Basily. – Ó rapaz, tu escreveste um canon duplo sobre o meu tema?
- Saiba Vossa Senhoria que sim – responde timidamente o moço, que era bom, e que começava a saber que o era. – É verdade, senhor mestre… com sua licença, achei o seu tema um pouco pobre e resolvi desenvolvê-lo… enriquecê-lo...
Verdi nunca mais vai esquecer aquela figura, o Basily, um dos que o tinham chumbado no exame do Conservatório. “Deixa estar que ficas cá marcado”, pensa. E sessenta anos mais tarde alguns eruditos investigadores musicais atrever-se-iam a dizer que a célebre fuga final do Falstaff,  última ópera de Verdi (“Tutto nel mondo è burla”) não era senão uma reminiscência composicional do tema do Basily e da fuga vingativamente melhorada para apresentar ao professor do Conservatório de Milão que o tinha reprovado.
E agora sim, Verdi vai regressar a Busseto. Verdi começava a ser.
Os estudos com Lavigna são dados por concluídos. O lugar em Monza ainda estava vago.
               
                                                           

O lugar em Monza. Antonio Barezzi, comerciante de Busseto, protector e futuro sogro, valendo-se das suas relações comerciais com confrades de Monza, mete empenhos a favor de Verdi. E o concurso de Monza é repetido. E Verdi ganha.  E é nomeado para o lugar. Mas retarda o momento de se apresentar para tomar posse.
Verdi tem na pasta um libreto de ópera para musicar. E tem a promessa de a poder fazer representar em Milão, no Teatro dos Filodrammatici.


Em Busseto, as guerras motivadas pelo preenchimento do lugar de organista e mestre de capella não cessaram. Chegam a provocar desordens na via pública. Os filarmónicos que tomaram o partido de Verdi na querela, e se sacrificaram comparticipando nos estudos dele em Milão, não o querem deixar sair de Busseto e ir para Monza. Não podem levar à paciência que ele vá exercer aquelas funções noutra cidade. Mas o que apetece a Verdi é sair. O problema é a dívida de gratidão para com Barezzi, seu paladino primeiro naquela guerrilha de Busseto. E Verdi arrepela os cabelos de cada vez que toma consciência do compromisso que contraiu ao aceitar dinheiro das instituições de Busseto.
E o concurso de Busseto também é repetido. E Verdi ganha-o. E casa-se com Margherita, filha do Antonio Barezzi. 

                                                              

16 de Abril de 1836. E continua a trabalhar na sua ópera., Os conflitos de Busseto não acabam e ele está fartinho até aos olhos daquele ambiente. Será que o lugar de mestre de capella em Monza (de que ele não chegou a tomar posse) ainda estará vago?
Não. O lugar fora novamente posto a concurso, em vista da recusa de Verdi em ocupá-lo. E em Busseto, como artista e compositor, ele não vislumbra futuro de qualidade nenhuma. Para além do mais, não se sente com estaleca de compositor de música religiosa. “Estou a queimar a minha juventude no nada”, escreve. Estaria melhor em Monza, sem dúvida, uma cidade grande e mais próxima de Milão.

                     


Ah, o dinheiro… tão importante quando se está a aprender a ser, e mais importante ainda quando se quer realmente ser. Há discussões de dinheiro entre o Montepio de Busseto e o velho Carlo Verdi, o pai. O Montepio quer pagar um ano e seis meses menos do que ficou combinado, visto que o beneficiário da bolsa regressou à base antes do tempo previsto.
Às tantas a ópera está pronta. Julho de 1836. Abre-se uma possibilidade de a fazer estrear em Parma. Mesmo assim, Verdi escreve ao libretista: que tal uma palavra ao Merelli, o todo-poderoso empresário do Scala? 
Há um ponto moral a reter no caminho da aprendizagem de si próprio que Verdi fazia nesta época. Sim, senhor, gostaria de ver a sua ópera representada, porém, não antes de submeter a partitura à consideração dos mestres. Sendo o juízo dos  mestres negativo, ele próprio proibiria a montagem.
Peppino Verdi está um homem, já está quase Verdi, e já é muito orgulhoso. Quer obter reconhecimento e vantagens do seu trabalho, como toda a gente, mas só na condição moral de esse trabalho ter mérito. E assim ele continuaria já depois de ser, e ao longo de toda a vida e carreira. O que faz dessa vida e dessa carreira, independentemente do seu valor artístico, uma questão de moral.

 

A 26 de Março de 1837 nasce-lhe a filha, Virgínia, e a 11 de Julho do ano seguinte, o filho, Icilio Romano.
A 12 de Agosto de 1838 morre-lhe a filha, Virginia.


A 22 de Outubro de 1839 morre-lhe o filho, Icilio Romano, na mesma idade com que morrera a filha, Virginia. Verdi estava para começar os ensaios da sua primeira ópera. 

                                

Mas entretanto…
Entretanto pusera-se a hipótese de a ópera ser mesmo representada no Scala, num dos espectáculos de beneficência que o Merelli promovia com óperas menos conhecidas. Verdi conta com alguns empenhos – não se pode ser nada sem eles – mas duvida do sucesso da empresa.
Há dificuldades com o libreto. Lá vai ele para Busseto retrabalhar o libreto. E num dia desses, em Busseto, lá terá acordado com os azeites, e lá entendeu que a sua dívida à cidade fora mais do que saldada em dois anos e meio de actividade musical. Basta! Não é tarde nem é cedo e vou já daqui direitinho à câmara pedir a demissão deste maldito cargo de organista e mestre de capella. 
Outubro de 1838. 

                            

Agarro em mim e vou mas é para capital procurar vida. Barezzi, uma vez mais, está disposto a financiá-lo. Um dia será reembolsado. E Verdi deixa Busseto em Fevereiro de 1839 com o seu libreto refundido.
E na vida que procura na capital aparece-lhe uma mulher.

                                         
Calma. Uma cantora. Bastante afamada em Milão, por sinal. De seu nome Giuseppina Strepponi. De quem corre o boato de ser amante do empresário Merelli e de já o ter sido do compositor Donizetti. O esperançoso Verdi pede uma entrevista à Dona Strepponi. Na sua ópera há uma bela parte de soprano que lhe poderia interessar. Dona Strepponi recebe-o. Ouve a música. Não desgosta. Ou gosta mesmo. E tanto que gosta que está disposta a cantar a parte de soprano quando a ópera for estreada
Começam os ensaios. Um dos cantores adoece, O estudo da ópera é adiado. Desilusão. Desaire. Faz parte da aprendizagem do ser. Sem desaires não se aprende nada e nunca se chega a ser completamente. Verdi faz as malas. Quer esquecer aquela disparatada aventura operática na capital. Uma partitura sua no templo mais sagrado da música italiana? Oh não. Não era para ele . O seu horizonte profissional mal poderia deixar de ser a tacanhez de Busseto…

                                                                             

Mas uma bela manhã, trus, trus, batem-lhe à porta do quarto. Quem é? Um mandatário do Teatro Scala. Deve ser partida de mau gosto.
- Que é que você quer
- Faça favor de comparecer às três horas no gabinete do senhor Merelli.
- Você está a mangar comigo?
- Não senhor, são as ordens que tenho.
- Não é possível…
- Então você não é o tal músico de Parma que tinha uma ópera para estrear?
- Sou.
- Então, bom dia, amigo, o recado está dado…
A Strepponi tinha gabado ao Merelli as qualidades daquele jóvem que andava a aprender a ser e o Merelli precisava de óperas novas para a temporada regular. Pois sim, um conjunto de circunstâncias coincidentes, sem as quais nada feito com respeito a uma carreira e a um ser.


Mas não pode ser só uma questão de sorte. Ter sorte também custa os olhos da cara. É preciso saber ter sorte. O aspirante a ser qualquer coisa tem de estar preparado para ter sorte.  Nem todos estão.
Merelli quer fazer representar a ópera na próxima temporada. Verdi reconhece a ousadia do empresário  que quer fazer representar, e logo no Scala, a primeira ópera de um jovem compositor completamente desconhecido.
                

Dinheiro. Ainda e sempre. A condição financeira principal era Verdi dividir o seu cachet com Merelli no caso de a ópera ter sucesso e o empresário conseguir vendê-la. Para um principiante, nem era uma proposta desonesta. 
Com a filha e o filho mortos, Verdi sufoca a sua dor e concentra-se no trabalho, porque uma das primeiras condições de um ser humano na via da aprendizagem de si próprio é conhecer a sua dor.
A 17 de Novembro de 1839, a ópera Oberto, Conte di San Bonifaccio sobe à cena no Teatro Alla Scala de Milão. Verdi dirá que não foi um êxito por aí além. Deu 14 récitas ao todo.


Nasceu a 19 de Outubro de 1813, ele, pois é, vai fazer 200 anos.
                                            
                                              
                                                       

terça-feira, 29 de janeiro de 2013


                          A JUSTA LUTA DO PATRONATO POR  MELHORES  
                                  CONDIÇÕES DE VIDA
                                                      (4)


Como poderá um Estado desvitalizado, desacreditado pelos comandantes da finança e tornado fraco, dinamizar meios de ajuda aos pobres? Cá está um ponto a favor da justa luta do patronato.

                                                      

Os pobres, os tesos, os assalariados, ah, esses que não esperem muitas legislações a seu favor. A-ca-bou-se!


A mentalidade (e a realidade, por assim dizer) terceiro-mundista dos povos, é um problema para os mercados. Mas também porque é que os recursos mineiros destes países são sempre explorados por companhias estrangeiras – que pagam as suas concessões de várias maneiras, é bem certo, mas que arrecadam para os respectivos países e patrões proveitos fabulosos? Justamente para darem uma contribuição para a luta do patronato contra os trabalhadores.
Os investimentos e os investidores estrangeiros – patronato -  se puderem escolher (e vão podendo com a graça de Deus) , preferem trabalhar com regimes o menos democráticos possível, senão de todo autoritários. Porquê? Ainda se pergunta? Porque são esses os que melhor sabem lidar com a ingratidão e a revolta dos trabalhadores, a bem ou a mal, e sem grandes remoques de consciência histórica, social ou moral.
Os produtos dos países sub-desenvolvidos… serão os próprios governos a fixar-lhes os preços? Claro que não. Os preços dos produtos dos países sub-desenvolvidos exportadores são fixados por instâncias externas.
Os valores morais, culturais e familiares dos países sub-desenvolvidos, por estas e por outras, são esmagados por quem tem muito de seu. Porque diabo é que as urbanizações nesses países são anárquicas? Porque é que aumenta o número de candidatos à vagabundagem e ao sem-abriguismo? Porque é que campeia a delinquência? Porque é que prolifera a prostituição, designadamente a infantil? Porque é que crescem os sentimentos  de revolta? Porque é que é brutal a repressão?
 A transposição de sistemas de ensino, de formas de entretenimento e  conceitos de cultura  vem no seguimento deste caldinho. Faz tudo parte do mesmo.
A transposição de sistemas e de usos vai criar aos países menos desenvolvidos uma sobrecarga de endividamento em materiais que os países ricos exportam para eles como sinónimos de progresso e de desenvolvimento. E aqui se incluem os armamentos e as bases militares.



Se existem guerras no mundo, deixemos-nos de fantasias, já não será tanto por razões políticas, territoriais, ou mesmo religiosas. Se essas guerras existem é porque há gente influente e poderosa que com toda a justiça precisa de alargar os seus mercados e escoar a sua produção de armas. E para vender as suas armas tem que inventar e incentivar trinta-e-uns e conflitos artificiais (ou esgravatar nas feridas naturais já existentes) de forma desencadear guerras, para as quais são precisas as armas que esse patronato, para sobreviver condignamente, tem de vender a bom preço.
Jean-François Revel, famoso entendido nestas coisas, disse : denunciar o endividamento da América Latina como catástrofe caída do céu é fazer vista grossa acerca do uso que os governos desses países fizeram das gigantescas somas que receberam.
É a globalização aquilo que constrange os estados a conceder prioridade mais alta à economia.
É devido à gula dos governos pelo investimento estrangeiro que a mundialização permite às empresas transferir actividades e custos com um mínimo de inconvenientes. Antes de abrirem uma fábrica em Quadrazais de Cima, o patronato internacional, como moralmente lhe compete. quer saber como é isso da legislação do trabalho em Quadrazais de Cima e como é aplicada.
Os governos, ao quererem atraír a Quadrazais de Cima novas indústrias e novos postos de trabalho, acordam concessões aos patrões de  uma unidade de produção da General Motors ou da Adidas, e para isso desregulam o trabalho, ou fazem-se desentendidos se esse patronato viola as leis existentes, ou pura e simplesmente não aplicam os proteccionismos laborais em vigor no país.
Dizem os entendidos que há um novo direito público a instituir-se, o qual não passará de um Direito Comercial privado, mas de amplitude mundial, reflectindo correlações de forças  e de interesses, interesses que, está bem de ver, não são os dos trabalhadores nem dos candidatos a um emprego. Era o que faltava.
Aquilo a que os mais veteranos de nós na vida estavam habituados, e que lhes pareceu sempre muito normal e muito lógico, foi que a economia e respectivas decisões se subordinassem à política, ao interesse do Estado; a economia era instrumento de uma política e não havia mais conversa. Parecia-nos lógico – mesmo que pudessemos não concordar com a política, e visto que para mudar de modelo económico a primeira coisa a fazer era mudar de política. Por isso havia, e há, apesar de tudo, patrões anti-fascistas e anti-comunistas.
Porém, hoje, as coisas viraram-se de pantanas e é a política que faz de pau mandado da economia. Daí a crise da antiga ideia de Estado – e até de soberania.
Daí que os patrões, muitos deles, os mais avançados de ideias, fossem anti-comunistas e anti-fascistas. Isso cheirava-lhes a intervenção do Estado na liberdade dos negócios – isso mesmo: a liberdade que hoje existe – extrema, total.
Porque se começou a dizer que a hegemonia da política sobre o económico era coisa própria de estados autoritários, de regimes de partido único – partido que era já parte do próprio aparelho de Estado. A Itália, a Alemanha, fascistas e nazis, o Portugal salazarista, a Espanha franquista, a União Soviética comunista: a economia era planificada pela política, segundo objectivos políticos e de Estado a atingir; o Estado intervinha e dizia o que se devia fabricar, vender, consumir. De uma maneira ou de outra, mal ou bem, a missão do Estado era evitar desequilíbrios e arritmias de crescimento e de produção, tendo em vista, repito, mal ou bem, de uma maneira ou de outra – louvável ou perversamente, conforme a ideia de cada um - , o bem comum, o interesse nacional e público.


Alguém se preocupava com a dignidade das condições de vida do patronato? Ninguém
A economia sufocava. Ou seja: o patronato acobardava-se e limitava-se a cumprir os ditames do governo; o patronato era, pelo menos teoricamente, fiscalizado pelos governos – veja-se lá se a Coca Cola entrou em Portugal no tempo de Salazar.
Patrões fiscalizados pelo governo em nome, aí é que está, do colectivo nacional, do interesse dos cidadãos. Pelo menos, repito, teoricamente, e segundo a concepção que cada regime tinha do papel do Estado e do que seriam os interesses do cidadão – os quais, já se vê, teriam de ser coincidentes com os do Estado, senão metia pides e gestapos e coisas assim.
As condições de vida de um patronato fiscalizado pelos estados autoritários, totalitários ou fascistas, ou estalinistas, fortes, repressivos, eram miseráveis, não deixando o patronato ganhar tanto e tão à barba longa como seria de justiça ganhar no caso de esses estados serem democráticos, ditos de direito e de livre iniciativa.
E a livre iniciativa seria a económica e mais nenhuma. A iniciativa que era universal e livre seria sem dúvida mais livre quanto mais dinheiro tivesse o patronato para investir e desenvolver negócios. O social? Bem… 
(Lá vêm as choraminguices com o Estado Providência, o Estado Social…)
O ponto nevrálgico da luta do patronato contra a exploração dos trabalhadores é que as ideias de confiança dos investidores e de Estado social ou de Estado Providência não se podem ver uma à outra.
Governo que queira conquistar ou manter o fogo sagrado da confiança dos investidores deve esquecer e depressa as políticas sociais e/ou culturais.
São coisas que mandam muita despesa e alguém, de uma forma ou de outra e mais dia menos dia, vai ter de as pagar; alguém, ou, por melhor dizer, todos, incluindo o patronato investidor. O que é o cúmulo da injustiça social.
 Políticas sociais e culturais de monta são facadas no lucro do patronato investidor. E quanto a cultura, toda a multinacional ou empresa global que se preze tem as suas verbas já destinadas para o mecenato – para calar a boca aos intelectuais, que não fazem nada que dê dinheiro mas que, se os deixarmos, chateiam muito e costumam ser os mais impiedosos e jurados inimigos do patronato.
A confiança do investidor será reforçada e muito mais efectiva a longo prazo se o Orçamento de Estado estiver sob apertado controle, sem os impostos baixarem – ou se não houver maneira de os iludir. Se estas simples coisas não acontecerem num pequeno país, o grande investidor estrangeiro vai investir para outra freguesia.
E por aqui se pode aferir dos graus de independência e soberania das nações no presente estado global da economia do mundo.
As políticas sociais devem ser reformadas, diz o patronato investidor quando está no limiar – ainda no limiar – da eventualidade de montar uma fábrica de água a ferver em Unhais da Serra. E a reforma das políticas sociais na boca dele, investidor, significa esquecê-las pouco a pouco e mui paulatinamente. Significa esquecer de vez a ideia de que o Estado ainda poderá valer eficazmente aos desvalidos. Significa abandonar a ideia de protecção social.
            Que protecção social fica para o patronato? Isso é que é moral, uns terem tudo e outros não terem nada? Nesta vida ou há moral, ou comem todos, sendo que, não há volta a dar-lhe, uns terão de comer mais do que outros.

                                                                                                

Um Estado com um sistema muito estruturado de protecções sociais faz desconfiar o patronato internacional, que pergunta logo a esse Estado, afinal como é?, amas mais os teus trabalhadores do que amas os meus capitais?


Os capitais do patronato internacional não se dão bem com os direitos dos trabalhadores, são incompatíveis, o gato e o rato, o diabo e a cruz. Os lucros do patronato mundial não suportam a ideia de ser, mesmo que infimamente, repartidos pela mão de obra do país em que vão ser aplicados, ou de onde vão ser esmifrados, em troca de nada, só porque sim, só porque há desempregados e doentes e desgraçados. O patronato chega a considerar os trabalhadores de certos países como privilegiados. E se formos a ver bem as coisas até são…
E para acabar com as ideias atrasadas de política de protecção social ao trabalho, a primeira bola a sair do saco é acabar de vez com o que o patronato mundial chama de rigidez dos mercados de trabalho. Flexibilidade, flexibilidade é que se precisa. E muita mobilidade na mão de obra.
Os trabalhadores ouvem a lenga-lenga e, ainda que a custo, começam a compreender. E às vezes até a concordar. Flexibilidade no mercado de trabalho igual a… trabalho nocturno, trabalho nem que seja ao fim de semana, horários móveis e irregulares, grande pressão sobre a produtividade. E aumento consequente dos sinais de stress.
O patronato é a única realidade que pode tornar possível todas as outras. 
É isso que muito injustamente não há meio de se lhe reconhecer.


Se há quem deva flexibilizar-se, então serão os trabalhadores. A mudança! A mudança! Mas essa mitologia da mudança serve para os hábitos e para os direitos adquiridos pelos trabalhadores. Não serve à lógica patronal. A  lógica patronal é una, e imutável. De tudo o que os trabalhadores têm conquistado com a sua tão cantada luta deverá ser feita tábua rasa, no caso de o país querer mesmo o investimento estrangeiro, se o país precisar como de pão para a boca de mostrar ao Banco Mundial e ao FMI índices razoáveis de crescimento económico, com os prémios e as benesses a serem-lhe acrescentadas lá mais para o futuro.
O patronato só trabalha com o presente e para o presente. Ninguém pode garantir a um patrão capitalista que haja futuro.
Estavamos nós aqui em Portugal na pasmaceira, na santa paz dos sepulcros, sem sabermos da missa que aí vinha a metade. E como síntese crítica da situação, até se dizia em França, nos tempos de De Gaulle, tu dás-me o teu relógio e eu digo-te as horas.
O trabalhador globalizado começa (até que enfim!) a habituar-se à ordem do mundo nesta entrada de novo milénio, começa a habituar-se a sair vencido das suas lutas. E como sabe que a derrota vai ser certa, porque tudo está coberto com o manto da democracia, já sabe que o melhor será nem lutar, porque se lutar ficará à margem, e hoje todos queremos ser integrados num qualquer sistema, numa ordem, seja como for e seja ela qual for. Ninguém, em democracia, quer ser apanhado em falso e apontado como um apocalíptico. E o patronato marca mais pontos na sua luta.
O trabalhador lê ou ouve o discurso dos políticos da sua confiança, os articulistas da sua preferência, os apresentadores de telejornais da sua simpatia, os amigos do café que lhe dizem que isto agora é assim em todó lado, e todos são unânimes no silêncio e no fingir que não estão a viver a sua vida no fio da navalha, e então tudo lhe parece natural, é assim por todó lado, correctíssimo, e… bom, não será por ele, trabalhador, que as coisas vão deixar de ser o que são e de seguir o seu curso. E o curso natural das coisas e da vida é responsabilidade do patronato.
Em democracia e em sociedade de mercado uma qualidade é obrigatória a todo o cidadão: não ser desmancha prazeres do festim da colectividade. Não ser apontado como um trouble maker. O patronato na sua luta conta com muitos cúmplices e cúmplices que podem muito.
Ser um marginal ao sistema de vida laboral e económica instalado no mundo dito livre é não alinhar com uma classe média intoxicada de informação e de desinformação e que com a garantia de alguns mínimos de protecção social já fica satisfeita.





Ser um marginal a este sistema é experimentar uma revolta mais profunda e estar ao lado daqueles a quem a precaridade de trabalho e de vida empurrou para a violência, violência que será brutal, justa  e friamente reprimida, não tenham dúvidas, por não levar em conta os legítimos interesses do patronato.
Pode ser interessante saber que, por exemplo, o Estado da Califórnia, paraíso americano para o exercício de todas as liberdades, aprovou recentemente um orçamento em que uma instituição foi mais beneficiada do que outras, incluindo universidades de renome mundial.
E qual foi a instituição privilegiada no bolo orçamental californiano, qual foi?
Foi a instituição prisional.
            O mínimo dos mínimos  da instituição minimal que se quer seja o Estado é reprimir os marginais, os inconformistas, os inadaptados, os apocalípticos. As despesas orçamentais com os organismos de polícia, por isto e por aquilo,  vem a aumentar em todo o mundo… livre!



Em economia de mercado, qual é a confiança que é mais compensador conquistar, a confiança do povo ou a confiança mercados? Uma pergunta que todos os governantes se põem. Ou se puseram noutros tempos. Uma interrogação histórica; ou uma demanda que já teve a sua História de ser feita, que já teve, para ser problemática, a sua oportunidade histórica. E que já não tem. Para um governante moderno não haverá que hesitar: o que é preciso conquistar já nem só em primeiro lugar, mas também em segundo, em terceiro e em quarto, é a confiança dos mercados.
O governo hábil na conquista da confiança dos mercados, perde a confiança dos povos. E depois? É preciso salvaguardar a confiança dos mercados (do patronato) seja a que preço for.
Mas que figura fará um governo perante a desconfiança empedernida dos seus governados?
Ora… é para o lado que ele se deita melhor…