sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


                                   










                                                                   


                                REGRESSO E RECOMEÇO



Noutro dia recordei os meses de Janeiro e Fevereiro de 1970.  Lisboa foi uma cidade húmida, cinzenta, persistentemente chuvosa e de aragens cortantes nesses dois meses. Chegara eu ao cais de Alcântara no meado de Dezembro, o pior tempo que Lisboa teve para acolher aquele herói bronzeado e meio envergonhado que chegava dos trópicos, que ainda duas semanas antes gozara a plena saison das praias da Ilha de Luanda e comera boas bacalhauzadas debaixo dos coqueiros de outra ilha, a do Mussulo.

                                                    

                                                                                                                                                               

Era o tempo de regressar. Eram os prousteanos passos a caminho do tempo reencontrado. Era o tempo de mudar de água de colónia. Era tempo de chegar, rever pai e mãe, e reparar que se sobreviveu.
A desmobilização. A libertação para todo o sempre dos vínculos bélicos. As despedidas finais dos companheiros, testemunhas do meu medo e da minha insuspeitável coragem.




Regressar de vez a casa, ao torrão, à Baixa de Lisboa iluminada para o Natal, ao Rossio, ao Chiado, à Brasileira, ao S. Luís, ao S. Jorge, ao Tivoli, ao Império, ao Monte Carlo - à roupa civil, à leveza de uns sapatos finos e macios, à cabeça descoberta. E tudo isso para sempre. A parte até aí mais dramática da minha existência estava cumprida, as minhas contas com a sociedade e com a pátria estavam reguladas. Para sempre. A primeira noite dormida em casa depois de anos. Parece pouca coisa. Mas não é. E no entanto, julgava poder ter sido mais feliz nesse momento do que realmente fui.

                                                                      

O acordar na manhã de chuva, às seis e meia, o sair para a rua, loucamente, sem destino, só para ver gente normal que não se preocupava com emboscadas, que cumpria o fadário de uma outra vida real, menos real, mas  que na altura me pareceu ainda mais real do que aquela que acabava de viver, urgências de emprego, ripanços de fim de semana, horários, patrões, chefes, a Lisboa cinzentíssima, o Metro, o autocarro, as horas, o guarda-chuva, o almoço, correr, parar, esperar. O ordenado ao fim do mês. Tudo também magicamente visto e vivido  (o Aleph, de novo) nessa minha primeira manhã de chuva, depois da guerra.


            

Dentro em pouco, mais ou menos um mês, regressaria à minha natural e triste condição de pequeno-burguês. Voltaria a essa realidade sempre adiável  de mexer eternamente nos mesmos papeis, de celebrar todos os dias de toda a vida os mesmos rituais profanos, de acordar todos os dias à mesma hora para cumprir as mesmas tarefas, aborrecer-me todos os dias com os mesmos problemas, até ao fim da vida útil, e casar e ter filhos, e daí a pouco ser avô, e viver a situação cheia de todos os limites e pré-determinações, eu, arribado às velhas plagas destes reinos, e vindo de uma vida sem muitos limites, ou onde todos os limites poderiam ser ultrapassados e em que havia homens que tinham como soberano ideal de vida matar-me: eu, numa situação que era em si própria um limite.

                                               

Não gostei nada dessa antevisão do meu futuro feita numa nova manhã de chuva, a  ver os outros apanhar autocarros. Tinham-me obrigado a arriscar a vida para isto, e por isto?
De maneira que me achei, no regresso e no recomeço, pouco feliz. Regresso a onde e recomeço de quê?
Não, de facto: daí em diante ninguém me queria matar. Mas não me animava a grande vontade de reiniciar uma existência; de lançar bases estranhamente sólidas de vida, projectos pessoais, prazos, opções, liberdades. Liberdades de quê e para quê? Viver? Como? Com todas as horas marcadas, previamente destinadas e sem pinga de aventura, com todas as promoções profissionais pré-definidas, com todo o formato dos dias antecipadamente destinado até à hora de uma aposentação, sem companheirismo e sem risco?
Ia fazer 27 anos.
Lisboa era uma cidade com grande número de filhos seus em armas, mas não era, lagarto, lagarto, lagarto, nenhuma Berlim devastada. Ninguém gostava de trazer a lume as incidências da guerra de África. À superfície, era como se nada estivesse a acontecer - como, de resto, já se passava em Luanda. E os que tinham visto alguns horrores também, já se sabe, não se alambazavam na conversa - talvez ninguém os acreditasse. O espectro de uma guerra podia (quando muito) sentir-se, ouvir-se, nos cais de embarque, Alcântara, Rocha do Conde de Óbidos; em Santa Apolónia, no Campo das Cebolas. Estava presente na lágrima da mãe, na conformação da saudade da namorada. No silêncio. Na carta. Na mensagem de Natal dos soldadinhos que a televisão passava, as dedicatórias, e adeus-até-ao-meu-regresso.

                                                                                 Que fazer de uma vida depois a ter livrado da perspectiva da morte?
Com 27 anos ainda estava a tempo de fazer da vida o que quisesse. Um triunfo, uma derrota ou um empate. Como na guerra.
Mas as vontades fortes de fazer da vida pessoal coisa bonita e que se visse, e que me tinham alimentado a alma por três anos e onze meses, e me tinham feito ansiar pela hora incomensuravelmente feliz do regresso... como que se haviam esfumado. Fim da tropa igual a fim dos sonhos acalentados para a não-tropa. Desmobilização igual a embate com a outra realidade, o emprego, o salário, a rotina.
E de súbito, à chuva da manhã nova dos autocarros e dos assalariados felizes, deixara de me apetecer fazer, pensar. Deixara de me apetecer sonhar .
Apetecia-me, sim, sem dúvida, um começo, ou um recomeço. Apetecia-me reencontrar na cidade a minha sombra perdida, e daí partir para onde ainda não tivera tempo de partir. E chegar, possivelmente. Chegar onde? Muitas vezes, a tragédia mais íntima, ou o simples desconsolo, estão no chegar. É bom, muitas vezes, partir. Nem sempre chegar é tão compensador como quando se pensou ao partir. Há uma vaguíssima decepção de chegar, mesmo aos lugares e aos estados mais sonhados. Estava de facto no tempo de chegar a qualquer lado, de mim e dos outros, a qualquer estado. Mas deixara de me apetecer.
E então, para, exactamente, não chegar,  pus-me a vaguear.
Não parava em casa. Cinema todas as noites. 





           

Cafés ao longo do dia - os belos e aconchegados cafés do inverno de Lisboa, que ainda existiam e onde ainda vagamente se podia viver alguma coisa. Lá deveriam ainda parar os amigos que há quatro anos lá tinha deixado. A Brasileira ao fim das tardes.

                                                                                     

 

 O Gelo, às vezes. A Nacional. Uma caneca e um bife na Trindade. A Ceuta, talvez, lá mais para a noite. O Império, geralmente ao sábado. O Monte Carlo depois de jantar. Umas gambas no Ribadouro – maus hábitos a erradicar. O Palladium depois de almoço, às vezes. Ou a Bijou, ou a Veneza, ou a Paulistana, ou a Mourisca. E não encontrava ninguém, nenhuma vida, nenhum pensamento, nenhum passado. Quando não se encontra um passado dificilmente se vislumbra um futuro.
Nenhum dos amigos e companheiros da minha pretérita vida civil comparecia nos cafés para a cavaqueira. Já duvidava se os teria de facto conhecido antes das lides da tropa e da guerra. Lisboa era uma cidade cheia de desconhecidos. Quatro anos é pouco tempo ou é tempo demasiado.
Sem Salazar, Lisboa quase parecia a mesma. Quase. A PIDE chamava-se DGS. Quase...
Eis que estava subliminarmente convocada uma manifestação contra a guerra colonial. Resolvi que devia aparecer. Resolvi que tinha imensa autoridade para aparecer.
E apareci. Ainda estava fresco em mim o frémito do risco. Apareci saudoso de certos primeiros de Maio de cassetetadas e jactos de água azul no Rossio. Apareci e caminhei. Cartazes. Palavras. Conversas daqui e conversas dali. A situação do país. Os preços.  A vida. A guerra. A política não estava a ganhar a guerra. Ninguém poderia restituir a ninguém o dom do tempo.
Tomo conhecimento da prisão de alguns vultos da vida portuguesa.  António Maria Cardoso. Caxias. Não me tinha esquecido. 


                   

Os desconhecidos companheiros da caminhada protestatária vaticinavam o iminente aparecimento do capitão Maltez e seus cães. Naquela esquina ali. Não, na outra. Ou só lá mais abaixo. E apareceu - deve ter aparecido, nunca conheci o senhor. Ele ou alguém por ele. Ladridos. Rua do Ouro, esquina com a Rua de S. Nicolau. Carga de polícia de choque. Embates metálicos. Correrias. Recuos. Na aflição, acoitei-me numa loja de ferragens que estava a acabar de correr os taipais. Tinha-me saltado o chumbo recém colocado num dente.
Passado um tempo voltei atrás. Aquele braço da manifestação tinha-se dispersado. Rossio. A massa dos manifestantes, afinal, reforçara-se na rectaguarda. Uma mole compacta de gente caminhava adiante de mim, mas ao dobrar a esquina do Rossio, de repente, vi avançar um grupo jeitoso de polícias, uma frente deles, chanfalho desembainhado. Alguém me tinha deixado na vanguarda da manifestação. Confusão. Corpos. Sons de choque. Uma chinfalhada que me assenta em cheio nos costados e me faz perder o equilíbrio e o fôlego. Não era a dor. Era a desonra. Que raio de herói de guerra era eu?
Apareço no Martim Moniz. Fazia parte da minha moral de ex-combatente protestar contra a situação de combatente. Redimia-me da minha eventual responsabilidade na guerra.
No Martim Moniz encontro um ex-camarada de quartel. Conhecia-o mal. Não lhe sabia da qualidade dos amigos. Apresentou-me uns cavalheiros. E nessa roda, olhando para as correrias que vinham da Praça da Figueira, desato a língua e ponho-me a falar mal do regime, já não salazarista, já marcelista. Escoado um quarto de hora de faladura, reparo que os ditos cavalheiros, bem mais velhos do que eu, me tinham deixado falar, só ouviam o meu testemunho de ex-combatente enquanto me fitavam. Numa qualquer distracção, esse meu ex-camarada da tropa puxa-me o braço…
- Tu não me abras mais essa puta dessa boca, estes homens são todos da situação e um deles até é amigo pessoal do Barbieri Cardoso…
- Mas então... ouve lá… para que andam aqui no meio da maralha?  
- Podem andar, caralho... observam, só... observam…
Voltei para casa. À noite, no telejornal, nem a mais leve referência à manifestação.
Até que, semanas depois, finalmente, encontro nos Restauradores um  amigo da noite antiga dos pequenos poetas e pensadores de café (coisa  que hoje já nem deve existir), uma referência, enfim, do meu passado civil.
Tinha-se formado em Filosofia: um acontecimento. Era professor de liceu: segundo acontecimento. Tinha casado:terceiro acontecimento. Era pai de um pimpolho: outro acontecimento. Uma vida cheia de acontecimentos. Era natural o ter deixado de aparecer à malta. Crescera, fizera-se um homem. E eu não. Actualmente a malta até já nem existia, a vida de café era uma esterilidade completa, nada se resolvia no café.  Mostrava as dentolas, de desdém. E reparei que era ruivo. 
- Então e tu, homem... lá estiveste nas áfricas... que tal é aquilo, chato, não? Pois é... se relermos o Marx com atenção ainda acabamos por concluir que esta guerra tem mesmo que se fazer, pá.
Deve vir desse encontro a minha aversão aos académicos capazes de provar uma coisa e o seu contrário na pequena frase de um certo pensador, os que tudo governam de cátedra e de compêndio sem nada saberem das vidas. Vidas.
- Então e que é feito de fulano e de sicrano, tenho andado por aí e não tenho visto ninguém.
Ele também não sabia. Fizera-se homem. Casara. Era pai. Tomara juízo. Percebera que até o Marx se podia ler  de modo a desresponsabilizar o ex-pessoal intelectual dos cafés. Todos tinham desaparecido, pelo menos dos cafés e das noites. Os próprios cafés iam desaparecer, estavam a desaparecer, tinham que desaparecer. Lisboa teria um dia que se modernizar e tornar uma cidade progressista.
- É pá, ouve, tens de compreender... isto mudou muito... as pessoas têm a sua vida...
E nesse momento pensei muito depressa que tinha de arranjar para mim uma vida.
E podia começar por arranjar uma namorada.
Outro encontro com um outro ex-camarada de tropa. No falecido café Monte Carlo. Também este estava casado.
- Esta é a Cinita, a minha mulher. Tens que lá ir a casa jantar um dia destes. Aqui a Cinita faz um bacalhau que é cá uma coisa. Temos que combinar.
E fui. Eu ia onde fosse preciso. Estavam mais uns amigos e amigas do casal. Mostrou-me as duas salas da casa que tinha transformado em museu de temática africana e guerreira. Havia máscaras, lanças, zagaias, peles, bengalas, granadas de mão, espoletas de granadas de morteiro, boa quantidade de munições, muita escultura em madeira, utensílios agrícolas, punhais, catanas, peças de fardamento muito gastas, galões de ouro esfarelado, livros de etnografia e manuais de guerrilha e contra-guerrilha. Chama-me de parte. Os olhos dele brilham de orgulho.
- Mandei embalsamar a cabeça de uma preta velha, uma feiticeira que era informadora dos turras e que me foi dada por um porreiraço da PIDE assim que a acabou de cortar.
E desse jantar saí pelo menos já com uma namorada apalavrada.

 

           Lisboa continuava por esses dias feia, cinzenta, húmida, sempre a chover miudinho. E eu continuava a vaguear. Sempre os mesmos itinerários, as mesmas impuras nostalgias. 
           (Não me lembro se já então se ouvia o Lisboa Menina e Moça. Ou o Homem na Cidade, do Carlos do Carmo, mas é um bom momento para os que me lêem ouvirem. Essas e outras.)



                                                                   

 

           Chegar ao Rossio, subir o Chiado, Brasileira, descer o Chiado, passar pelos Restauradores, o Palladium, as ruas interiores, Portas de Santo Antão, Solmar, Avenida da Liberdade, a Veneza, o Lisboa, entrar, olhar, sair, esplanada do Parque. Procurava alguém. Quem? Não sabia ao certo. Fontes Pereira de Melo, a Mourisca, o Monumental, Saldanha, um café no Sequeira, lanchar na Colombo, descer, Alameda, um café no Império (oh, o império), descer Almirante Reis, Praça da Figueira, Rossio, nova vista de olhos pelo Nicola, subir o Chiado, Brasileira.



  

Um pequeno Sísifo.


                                                                  

O quadro do Almada Negreiros com o Fernando Pessoa à mesa do café-restaurante Irmãos Unidos ia a leilão. Era arrematado por uma figura do grande capital, não me lembro já se algum dos Mellos, se o Vinhas, se o Jorge de Brito. Mil contos. Exorbitância. Quase escândalo. "Estão a ver como este país continua sempre na mão dos mesmos? Isto tem que virar!", vociferavam alguns, o populacho. Mil contos por um simples quadro que nem representava muito competentemente a realidade tal como a víamos? Um absurdo no contexto do acanhamento da nossa vidinha nacional. E um sintoma, também, de que algo estava a mudar. Ou quem sabe se tudo não estaria a mudar sem a gente perceber. Ou muito mais tarde perceberíamos que nada de importante  tinha mudado realmente. Perceberiamos que quem muda somos nós…
Parecia-me, em todo o caso, que se respirava uma atmosfera, ainda que muito rarefeita, de fim. Qualquer coisa se aproximava do fim. Ou seria apenas uma ilusão segredada pelo nosso desejo de que qualquer coisa mudasse para (como dizia o outro) ficar tudo na mesma e podermos respirar.
Chegara à vida a tempo de ver a última emissão (se não estou em erro) do Zip Zip, o programa de televisão que nos dizia que qualquer coisa de novo poderia ainda acontecer no país.
O Festival Gulbenkian, que vinha maravilhando os melómanos de Lisboa ia para uns poucos de anos, chegava também ao seu fim.

                                         

O tempo do marcelismo transmitia-me uma sensação de fim. Embora não fosse tão evidente para mim essa outra e complementar sensação  de surgimento de um novo tempo. A charneira. Apercebia em mim uma sensação de banalidade. Na minha vida pessoal também um tempo acabara e nenhuma outra etapa me apetecia recomeçar, nenhuma ideia nova, nenhum trabalho velho.
Já ia para dois meses o meu tempo de inactividade e vagabundagem. Mais hoje mais amanhã teria de regressar ao trabalho civil e recomeçar a vidinha de entrar às nove, saír ao meio dia, entrar às duas e sair às seis. E talvez casar. E ter filhos. E ter netos. Liberdade.
Liberdade? Para quê? Para aplicar em quê?
Não se punha o caso de procurar emprego porque emprego já eu tinha. Era só apresentar-me. Era só convocar em mim a vontade de fazer alguma coisa de inútil - fora a guerra inútil, seguir-se-ia dentro de momentos o trabalhinho inútil da subsistência e do escritório, bom dia chefe, até amanhâ, meus senhores, se Deus quiser, chefe, já posso marcar as minhas férias?, é que lá a patroa já marcou as dela. 
E mudei de marca de água de colónia, sim, alguma coisa de importante eu teria de fazer na vida. Comecei a pôr uma que já não deve existir e que era boa e se chamava Yardley. Mas como para tudo na vida deve haver uma transição, depois do Old Spice militaríssimo ainda tinha chegado a salpicar-me de Sir e de Atkinsons.

                           

                                                                                    
 Convidaram-me para fazer parte de um grupo de teatro amador e comecei a ir aos ensaios, à noite.
Mudei mais duas vezes de namorada - ou acumulei mais duas namoradas, não sei bem. Olhei algumas vezes para o Diário de Notícias. Oferta de emprego. Boa. Possibilidades de mudança. Boas. Vendedor. A oferta de trabalho de vendedor era considerável.


                                                                       
                                                                                 

Subir o Chiado: Brasileira. Descer o Chiado. Rossio: Suiça. Praça da Figueira: Confeitaria Nacional. Subir a Avenida: matinée no S. Jorge. Alexandre Herculano: a Paraíso, a Coimbra. Segunda matinée no Mundial. Saldanha: Monte Carlo. Praça de Londres: a Mexicana, a Capri. Avenida dos Estados Unidos: o Luanda. Jantar: casa. À noite: ensaio no grupo de teatro.
                                                  
                                                  

Ai aquele mês de Março e 1970! Sete horas de uma manhã de chuva. Levantar depressa. Barba, banho. Pequeno almoço. Vestir, depressa. Pôr: uma gravata. Autocarro. Gente. Caras grisalhas. Corpos automáticos. Gestos mecânicos. Vinte e cinco minutos de viagem. O escritório.
Brusca sensação. Como se nada me tivesse acontecido. Como se tivesse regressado ao mesmo lugar de onde saíra às seis da tarde do dia anterior. Caras e olhares. Conhecidos/desconhecidos, mas como se os conhecesse intima e diariamente ia para vinte anos.
Nada tinha acontecido comigo? Nem tiros, nem fomes, nem farturas, nem mortos, nem feridos, nem sangue, nem cheiros, nem lágrimas, nem paisagens, nem inimigos, nem amigos, nem oceanos, nem bebedeiras, nem distâncias?
Não. Pois não. As leis implacáveis do quotidiano. Tinha caído todo junto no meu real destino. A minha vida afinal verdadeira explodia em circunspecções de amanuense.
Destinaram-me como adereço de vida uma secretária, uma máquina de calcular e, em volta, três, quatro, cinco máscaras mudas e semi-cerradas, fingidamente sérias, de fato e gravata, e que já não se chamavam camaradas de armas ou companheiros de sorte, mas sim colegas, testemunhas do meu futuro imperdoável. Afinal,  eu nunca tinha sido um soldado, um combatente, um herói (quanto mais não fosse por ter sobrevivido inteiro); afinal, eu nunca tinha sentido medo, nunca na minha vida tinha tido coragem. Um burocrata: era essa a escrita de Deus na folha de assentos da minha muito relativa eternidade.
Ao meio dia não soube onde ir almoçar nem com quem. Mais uma vez: todos tinham a sua vida e o seu formato pré-determinado. Às duas horas voltei a sentar-me no destino que me fora reservado há muito pela vida, pelo contexto social e de classe - e sem que eu o soubesse de ciência muito certa. Calcular os custos industriais de uma marca conhecida de vinhos ordinários. E por vezes, nessa tarefa, conseguia dormitar. Às seis, a liberdade provisória. Umas horas que me eram concedidas para que eu inventasse os novos heroísmos de vida de que fosse capaz. Ensaios no grupo de teatro à noite. Fiquei a saber que a peça não poderia ir avante. A Censura não o permitiria. Afinal, o Salazar tinha caído da cadeira para quê? O Salazar tinha caído da cadeira para nada? Era inútil tudo o que de melhorzito podia ainda acontecer no país? Era.
            Dia seguinte. Nove horas. Escritório. Cálculos: tanto disto, tanto daquilo, água, combustível, preço dos homens, aguardentes vínicas, barros espanhóis, sangues de boi. Quanto deveria custar o litro daquela zurrapa. E todos os dias, no recomeço do meu destino, depois do almoço, às duas, comecei a ser acometido de uma mágica sonolência de Brunhilde que me obrigava a ir à casa de banho pelo menos vinte minutos e passar pelas brasas. Todos os dias. Nunca me acontecera. Nunca me voltaria a acontecer. O chefe já começava a reparar. Mas devia ser da entrada da primavera.
A vida refloria das cinzas do inverno. Era Abril.
O meu passado de heroísmos sossegados também não merecia aquele presente. O meu sacrifício pela pátria não merecia o futuro que aquele presente começava a tornar inevitável. O vencimento não era atraente - e que fosse! Boa ou má, útil ou inútil, esmagadora ou insignificante, eu tinha feito uma guerra, tinha passado três anos e onze meses em trabalhos de armas e em dureza de vida, entre fomes e farturas, entre tragédias e algumas comédias. E estava de corpo intacto. E o meu corpo intacto pedia-me outro destino, outro recomeço. Tinha 27 anos. E agora já era Maio.




        
Outro recomeço. Ou uma incógnita que fosse arriscada e estimulante. Do meu local de trabalho, com janelas rasgadas sobre o Mar da Palha, podia ver o novo sol, a minha vista podia dar-se a correrias pela paisagem e pela esperança. Tinha alguma vocação para viver e para não me deixar morrer num sarcófago de papeis e de ridículos rituais. Eu às janelas da secção e os outros a trabalhar.
- Está a gostar da paisagem? - era a voz do chefe da contabilidade.
- Estou, sinceramente, estou – respondi: a férrea disciplina de uns meses atrás, afinal, ensinara-me o prazer de uma luminosa indisciplina.
- Mas ainda não me acabou aqueles cálculos urgentes que lhe dei ontem de manhã…
- Nem vou acabar, senhor...  
(Sei lá já o nome do homem.)
Ele levanta a cabeça, mas eu já ia a caminho do departamento de pessoal. Que saudades eu tinha do risco, da aventura!
Que me fizessem as contas. Que me entregassem uma carta a dizer que eu tinha saído de minha livre e única vontade. Era tudo.
- Quanto é que lhe dão lá no emprego para onde vai?
- Nada.
- Como?  - eu não ia para emprego nenhum.  - Tenha cuidado com o que vai fazer, olhe bem para o seu futuro.

                                                  

Respaldado no dinheiro mal ganho, com dois terços do vencimento de guerra acumulados no banco pela família, decidira passar um ano sem trabalhar, sem dizer bom dia chefe, boa tarde patrão, até amanhã, meus senhores. Nunca mais na minha vida voltaria a pôr os pés naquele local de Lisboa onde ficava o escritório. Mais difícil ainda: nunca mais na minha vida voltaria a ser empregado de escritório. Não sabia o que queria. Mas sabia bem o que não queria. E quanto ao mais, ficaria à espera.


Acabava de me convencer de que para a guerra colonial portuguesa eu não metera prego nem estopa, não tivera responsabilidade alguma. Hurra. Evoé. Nunca nenhum dos criminosos daquela guerra, a minha guerra, se os houvesse, seria alguma vez julgado. E muito menos condenado. Nunca nenhum criminoso político, quer dizer, moral, seria alguma vez julgado e condenado no país do benigno clima e dos costumes brandíssimos – viria a sabê-lo mais tarde. A minha vida ia de facto recomeçar. Era só esperar. Não sabia se pouco se muito. Esperar. Talvez houvesse no arco do tempo uma qualquer madrugada…
E até hoje, o diabo seja surdo, cego e mudo, tenho conseguido respeitar as magnas decisões que tomei aos 27 anos. Abençoada guerra no meu destino pessoal, posso dizer - outros infelizmente não poderão. Fiquei à espera de qualquer coisa que mudasse realmente qualquer coisa. Era o ano de 1970 e tudo parecia longe, muito longe…

                        
Alguma coisa resultou dessa espera – e sempre foi numa madrugada. Alguma coisa aconteceu. Alguma coisa. A princípio aconteceu muito, demasiado. E depois pouco, pouco, cada vez menos. Nunca acontece tudo. É o que vale, às vezes…








quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013


                           

A MINHA ÓPERA FAVORITA


Já, vida fora, tive várias, como é evidente, até a Bohème já foi minha favorita, e uma das primeiras, e Rigoletto, e Tosca, enquanto ia ficando mais fino, e depois foi mais Valquíria, e ainda depois foi a dúvida Bodas/D.João que ainda hoje permanece, e foi Tristão, e hoje é esta. Achei-a a mais moral de todas. Digo eu, claro. Uma ópera que esteve por um tris para não ser aquilo que foi, ou como hoje a conhecemos. E esteve para não ser aquilo que veio a ser por uma questão de moral. E moral política.
Desaparecido Meyerbeer, e com Wagner ainda em fase de afirmação internacional do seu génio, tocava a Verdi a liderança do mercado mundial da ópera. E Verdi não deixa de ter em mente o futuro do melodrama. O que não quer dizer que renegue o passado. Acaba de se safar da aventura político-parlamentar de Turim. Está aborrecido com a política, mas não pode deixar de prestar atenção ao mundo que o rodeia. Em Busseto querem-no outra vez candidato ao parlamento.
                                          

- Não posso aceitar. Perde-se muito tempo. Discute-se demasiado. O mais que posso fazer é recomendar-vos um sucessor. Sim, um homem frontal e sincero, e de formação liberal.
                                                                               
                                                        

E o interessante é que por entre as amarguras da sua hostilidade pessoal à vida política, vai maturando a sua ópera política entre todas, o D. Carlos.
Os tempos iam agitados pela Europa. Karl Marx publicara  O Capital em 1866.  D. Carlos vai subir à cena, em Paris, em 1867.
       E as nuvens de uma grande tempestade política continuam a pairar sobre a península itálica. A capital transfere-se para Florença, daí resultando forte agitação de massas no Piemonte. Verdi diz a isso:
            - Aos torineses falta o verdadeiro amor pátrio, e as mais belas e espirituais intenções desvanecem-se neles logo que os interesses materiais entram em jogo.
            O povo vai sendo incitado pelos partidos a uma nova guerra contra a Áustria. A Áustria mantém o Veneto na sua posse e em Abril de 66 a Itália alia-se à Prússia na estratégia de retirar aos austríacos a hegemonia sobre a Confederação dos Estados Germânicos. A guerra está aí a rebentar. Verdi vai confiando os seus pensamentos aos amigos mais chegados.
                                                            
                                                                     

            - A todo o momento estou à espera de ouvir troar o canhão. Não me admirava se uma manhã destas uma bala viesse fazer ricochete nas paredes do meu quarto. Mas enfim, a guerra terá de se fazer. Essa coisa do Congresso é uma plaisanterie…



                                  
            Abandonar Itália? É uma primeira intenção. Porque vive numa zona sempre exposta aos combates. Mas falta-lhe ânimo para tanto. Deixar a Itália, muito bem. E ir para onde?  E fazer o quê?
            Para já, vai respeitando a encomenda parisiense e vai compondo o D. Carlos. Acabara o terceiro acto. Começava o quarto. Acabado o quarto acto, a ópera era de considerar concluída. O quinto fazia-se por si. E depressa. Oito, quinze dias de trabalho bastavam. O libretto é francês, mas tenho quase a certeza de que Verdi o pensa musicalmente em italiano; e pensará, claro, fazê-lo representar mais dia menos dia em italiano e em Itália. Em fins de Junho entregará o original e logo depois partirá para Paris para começar os ensaios.
            - Sabe que voltei a escrever ao Escudier… a pedir-lhe que transmitisse ao Senhor Perrin a minha vontade de continuar em Itália para além do tempo combinado. Se eu for imediatamente para Paris, duvido que me seja possível acabar a ópera. Falo sério. Não sou capaz de trabalhar em Paris.

                               

            Só sabe compor quando esta na sua casa de Sant’Agata. È fatto cosi. Em Sant’Agata trabalha muito, os temas vão-lhe ocorrendo,  as situações dramáticas vão ganhando consistência musical. Está concentrado. Mas nem por isso o D. Carlos progride rapidamente.
            A 18 de Junho o exército italiano entra em combate, e a 24 sofre a famosa derrota na batalha de Custozza, um acontecimento que marca a História contemporânea de Itália e que serve de fundo ao famoso filme de Luchino Visconti Senso.


                                    

            Mas Verdi também não quer ficar em Sant’Agata. Génova? É uma hipótese. Ele gosta da cidade.
            - Entre tantas batalhas, tanto fogo e tanta agitação, esta ópera, ou vai sair melhor do que as outras, ou será uma coisa intragável… 
            A mulher, a Strepponi, desabafa com as amigas:
            - Ai, amigas, não me falem em Sant’Agata. Se ao menos eu arranjasse por lá uma família com quem pudesse trocar meia dúzia de palavras… oh, mas o meu Verdi tem aquele carácter de ferro… gosta do campo mesmo no inverno… aquelas planuras geladas, aquelas árvores nuas como esqueletos. Ele sabe criar prazeres, ocupações, cada estação do ano tem o seu interesse para ele…


            Eu faço ideia. Ela, Giuseppina Strepponi, uma citadina, uma cantora lírica habituada ao cosmopolitismo milanês, ali metida. Indo para Génova seria um alívio para ela, ali mesmo defronte do mar, a poder decorar a casinha ao seu gosto. Ah, os boatos que corriam…
            - A Áustria cede Veneza ao imperador dos franceses. É o que leio nos jornais. Estás a ouvir, Giuseppina? Se eu mandar dizer isto ao Escudier ele bem pode fazer uma ideia do meu estado de espírito. Como é possível? O Escudier é sensível a estas questões da pátria e da honra. Ele que se ponha no meu lugar.
            A questão de moral de Verdi era de uma simplicidade atroz: tinha um contrato de trabalho para respeitar na capital de um império que daí a dias poderia vir a aceitar a oferta feita por outro império de um pedaço de território da sua pátria. Da sua amada Itália! E sem que os italianos tivessem metido para aí prego ou estopa.
            - E agora diz-me lá Giuseppina… que fará o imperador francês com o Veneto? Devolve-o a nós? Fica com ele? Que ganham os austríacos com isso? E entretanto, Paris acende as luminárias! E o Escudier vai ter de dizer ao Senhor Perrin que eu não estou capaz de escrever uma nota…
           Franz Joseph, imperador dos austríacos e Napoleão III, pela França, negoceiam a paz.

                                                          

            Giuseppina Streponni escreve cartas:
            O meu Verdi anda de um humor muito negro. Mas também nenhum italiano que se preze pode andar bem disposto, e ainda menos os que se vêem obrigados a ir à capital dos fanfarrões. E da maneira como anda o meu Verdi não me surpreenderia nada que mandasse tudo para o diabo, o contrato, o Perrin, a Opera, a Paris e tudo o mais. E se fosse meter outra vez em Sant’Agata.
            E Verdi pede directamente a Monsieur Perrin a desvinculação do contrato com a Opera. Monsieur Perrin recusa.  O contrato para montar o D. Carlos é para ser cumprido.


                                                            

            O exército italiano averba nova derrota. Em Lisse. A 20 de Junho. A neura de Verdi adensa-se. O humor de Verdi é cada vez mais fúnebre.
            - Fiz os possíveis e os impossíveis para anular o contrato com a Opera. Não consegui. Agora imaginem-me lá vocês um italiano como eu, que tanto ama a sua terra, a trabalhar como um doido em Paris.


                                                           

            De facto, vai a Paris num pé e vem noutro. O tempo à justa para passar as partes dos solistas. Mas ainda não acabou o trabalho de composição da ópera. Ver-se-ia se nos Pirinéus, num lugar de nascentes de água fresca, num apartamento de hotel, se conseguia terminar a partitura.
            Consegue. D. Carlos fica pronto.
        Aos primeiros dias de Setembro Verdi está em Paris. Ensaios de conjunto. A Opera (la grande bottega) é uma máquina imponente e pêrra. Nada funciona bem e depressa. Passa-se o Setembro e passa-se o Outubro. A paz com a Áustria é assinada em Viena. A Itália sente-se humilhada. Em Paris, as cosias com o D. Carlos não há meio de andarem. Entrava Dezembro. Quando estreará o D. Carlos? Não se arrisca uma previsão.

                                  

Em Itália rebentam os tumultos. Teatros fechados. Verdi sabe disso e sente-se mal por estar em Paris, no bem-bom, trabalhando que nem um condenado, sim, mas moralmente desfeito. Ensaios e mais ensaios. E o D. Carlos sem atar nem desatar. Suspensões. Adiamentos. Incompetências. Doenças deste  e daquele, verdadeiras e falsas. Más vontades, ui!
Dona Strepponi já deve ter feito algumas amigas em Paris. Deve estar a dirigir-se a elas quando a ouço daqui dizer:
- Pois se for da vontade de Deus… e das tartarugas da Opera… o D. Carlo… ou o Don Carlôs, se as minhas amiguinhas quiserem… subirá à cena lá para os fins de Janeiro. Mas digo-vos que é um castigo para todos os pecados cometidos por um compositor ter que montar uma ópera neste vosso teatro de tramóias e maquinismos feitos de mármore e de chumbo… oh, amigas, o que eu quero é ir depressa para Génova, tratar da mobília do nosso apartamento, da decoração e tudo o mais. Já não posso é ouvir mais discussões sobre se o Faure pode fazer assim, ou se a Sass pode fazer assado. Dio Santo, che noia
1867 – outro ano maldito para Verdi. Outro annus horribilis. Para lá dos acontecimentos políticos e militares, para lá dos aborrecimentos com os ensaios na Opera, a 14 desse mês de Janeiro morre o velho Carlo Giuseppe, o pai, 82 anos. Um pouco mais tarde, o querido amigo e libretista Piave ficará paralítico. Está à conversa, ao serão, com a mulher:
- Foi um ano tão maldito como o de 1840. Não achas? Desgraças e mortes. Não vejo o dia de deixar este grande país…
- O maior país do mundo…
- Está bem, não contesto isso. Mas o que quero é chegar a casa…
- Tem calma. A estreia afinal está para quando?
- Fins de Fevereiro…
- Oh, filho… só de pensar que no dia a seguir à estreia todos os nossos baús estarão fechados e prontos a seguir viagem…
- Pois é. O pior é se em fins de Fevereiro o D. Carlos ainda não está em condições de ir a cena…
- Tens um pressentimento?
- Não sei…
E  não estava.
Sai Fevereiro, entra Março. Dia 9: ensaio geral. Dia 11: estreia.


                                                



Grande solenidade. Presente o tout Paris, imperador, imperatriz, ministros, embaixadores, gente da política, das artes, das letras e das ciências. Cantam a Sass, o Faure, o Obin, o Morére e o David. Heinl, o chefe de orquestra, não tem temperamento para aquelas vidas verdianas. Slancio, é o que é. É o que ele não tem. É alemão. A orquestra também não é grande espingarda, nem se recomenda pela precisão. A execução em geral é frouxa. A banda interna é dirigida às três pancadas (e consideravelmente desafinada) por Adolphe de Sax – o inventor do saxofone…
Tantos meses de esforço, tensões, irritações, que vão desaguar num morigerado sucesso, um sucesso de circunstância. Inspiração grande do autor, sim, sem dúvida, e grande nobreza de escrita, e no entanto muito pouco calor.
Qual é o real valor deste D. Carlos se apreciado no dia seguinte ao da estreia? Pois está  instaurada a polémica. As discussões, públicas e privadas, sobem de tom. Critica-se a direcção da Opera, o primeiro teatro lírico de França, e por uma razão magnificamente medíocre: já que se tinha de encomendar um trabalho inédito para a grande Exposição Universal (a inaugurar daí a dias), porquê escolher um estrangeiro?
- Que me dizes?
- Pouco me importam as opiniões, sabe-lo bem. O trabalho está feito. O contrato está cumprido. Não teve o sucesso que eu próprio esperava, mas não tenho tempo para pensar nisso. 
– O que vale é que vamos já amanhã à noite para Génova…
- Ora é isso mesmo o que mais importa…
Cerca de dez anos antes. Saint Saëns, um decidido anti-verdiano, já tinha escrito um artigo acerca das Vésperas Sicilianas aconselhando Verdi a compor óperas sobre as batalhas de Pavia e Watterloo. E desta vez criticava os seus compatriotas com responsabilidades na matéria por abandonarem os jovens compositores franceses e aplaudirem um estrangeiro.
Críticas. O Moniteur: Clarétie diz de Verdi que tem 80.000 libras de renda, que o seu nome é um dos símbolos da liberdade da pátria, que foi um parlamentar respeitado, que é costume ser levado em triunfo nos teatros, abraçado por todos, aclamado por todos, louvado por todos, e pergunta-se que mais quererá ele da vida. Théophile Gautier diz que a música de D. Carlos, ainda que possa não ter agradado ao público, sem dúvida que o surpreendeu, porque a força dominadora que lhe fundamentava o génio aparecia em toda sua simplicidade, a mesma simplicidade que o havia tornado universal, mas agora alicerçada num desenvolvimento maior dos meios harmónicos e de novas formas melódicas.
Também houve quem dissesse que para o êxito muito mediano de D. Carlos pesou o facto de a imperatriz Eugénia ser uma declarada wagneriana e deveras hostil ao italianismo musical, e sendo além disso mulher muito devota e muito pouco progressista. Terá ido aos arames, a imperatriz, na cena  entre Filipe II e o Grande Inquisidor, e quando o rei brada tais toi, prêtre! E diz quem viu claramente visto que nessa altura a imperatriz virou pudicamente as costas à cena. A multidão irada invade o cárcere onde está o infante D. Carlos e a imperatriz fica fula...

                                                                                         

Bom, mas nem por isso a imperatriz deixou de convidar Verdi para o castelo de Compiégne, mostrando-lhe que era conhecedora do trabalho dele, e até das obras que nunca tinham subido à cena parisiense.
              Verdi partia para Génova mas deixava estipulados os cortes a fazer nas subsequentes representações, o 2º acto, a ária do soprano, o dueto de barítono e baixo, a cena da revolta depois da morte de Posa. Já iria a pensar no seu D. Carlos cantado em italiano.
            Verdi partia para Génova, está bem, mas antes bem tinha calcorreado os relojoeiros mais finos dos Grands Boulevards e da Étoile, porque não se esquecia da sua Peppina Strepponi. Vá, tome lá para si, sua tola, este relógio numa bracelete de ouro esmaltado com as suas iniciais gravadas, que tal…
            Chegada a Génova Dona Strepponi parte para a tarefa de mobilar e decorar o novo apartamento.


Mas Verdi vai a Sant’Agata. 


                                                                    

A revolução industrial fazia-se sentir. Chegava a idade das máquinas. Inaugurava-se o mundo moderno. E como Verdi era um músico invulgarmente curioso pelas verdades da vida, com a civilização das máquinas sente-se no seu elemento, ainda que continuando a plantar as suas árvores e a tratar dos seus jardins. O D. Carlos? Como? Não era nada com ele. Escreve a um amigo em Londres. Manda vir livros de agricultura. Anda a cismar num modo novo de irrigação artificial das suas propriedades e sabe que há em Inglaterra umas máquinas catitas para isso, umas máquinas cujas chaminés medirão os seus bons quinze metros de altura. Também precisa de uma máquina para extrair água da ribeira que passa perto, e de uma conduta subterrânea que calcula terá uns seis metros de profundidade e 25 metros de comprimento – não contando com o poço de sete metros de fundo
- Ai rapazes… todo o meu santo dia é passado lá em baixo, a estimular e a dirigir os operários. Se me disserem que o meu D. Carlo não vale realmente um pataco… ai, amigos, sinceramente… não me aquece nem me arrefece. O que não queria era que me contestassem a minha habilidade como mestre de obras. Isso é que eu vos levaria mesmo a mal…
Precisava de passar uns dias sossegados e esquecer tudo o que de desagradável se passara em Paris.
Teria Verdi chegado a folhear algum exemplar do recentemente publicado O Capital?
Não se sabe.   

           









terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


          RAIO SOBRE A CÚPULA DE S. PEDRO

Pedofilia? 
Suspeita de escândalos financeiros? 
Suspeita de lavagem de dinheiro? 
Conflitos de poder? 
Tráfico de influências?


Aconteceu ontem.
Existe de facto alguma coisa para além do cognoscível e do racionalizável?
Deus?
Cuidado com o que se diz.
E mais cuidado ainda com o que se pensa.
À força de não se acreditar em nada pode começar a acreditar-se em tudo.

domingo, 10 de fevereiro de 2013


            





         O VENTO






  É o vento que cobre a memória.
           Não vês esses pilares desvendados, essas escavações?
         Não vês essas cidades, esses banhos, esses teatros romanos, esses poços árabes, essas pedras fenícias, todas essas ruínas que os arqueólogos pensam inventar?
         Alguém enterrou essas ruínas. Quem? Ninguém. Nenhum homem, nenhum músico, nenhum deus. Cobriram-se com o manto do tempo e dormiram.
         Foi o vento que baixou e levantou sobre elas o tempo e a poeira.
         É o vento que nos cobre a memória.