quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013







                                O PAPA?

       E que me importa a mim do papa?
    O que me rala verdadeiramente a mim (que não sou católico, que sou agnóstico tendência ateu, mas que, bolas!, também tenho uma alma imortal, perdida, seja, mas alma quand même) é  a constante dessacralização da vida em favor do que chamaram de correcção política, ou correcção dos costumes.
     Hipocrisia por hipocrisia prefiro aquela que tem mais sumptuosas e seculares tradições.
       Que me importa a mim o papa?
    Pode, por mim, ser branco, preto, amarelo, italiano, alemão ou abexim. Que me importa isso?
      Importa que não havia saída para o Doutor Ratzinger nas vestes de Bento XVI, e sendo o ambiente vaticano aquilo que é hoje – e que talvez tenha sido sempre, mas só agora, por via da correcção, os sacros desvarios estão a vir à luz.
Não, não havia saída para o Doutor Ratzinger: ou morria de repente, como o seu falecido colega João Paulo I; ou resignava às boas, ainda que fosse esse o cenário menos comum e menos esperado de há seiscentos anos para cá.
Não sei se foi melhor assim se não foi. O que eu, alma extraviada mas alma, digo, é que este é mais um grande passo da iconoclastia, e dado pelos próprio ícones. Digo que a dessacralização da vida ganhou novos alentos com a resignação a que provavelmente obrigaram o Doutor Ratzinger enquanto beatíssimo padre, enquanto santidade, enquanto sucessor de Pedro, o popular pescador, enquanto infalível vigário de Cristo nesta desgraçada terra.
Até por aqui se vê como a marcha da dessacralização da vida é irreparável: o papa pode ser um homem como os outros, um Doutor Ratzinger, intelectual avelhentado.
E mais um valor sagrado da vida cai em fanicos.
Os valores ditos sagrados, indiscutíveis, porque sim, da vida de cada dia vão deixando de o ser: o emprego – e respectivo salário, que pode ser pago ou não pago de um dia para o outro; a casa onde vivemos a maior parte da nossa vida – e de onde podemos ser corridos de um dia para o outro; a boa educação que nos deram (e até a má) – que passou a ser vista como démodé, atitude fascista (no mínimo reaccionária); a família constituída – que se desfaz com facilidade; a mãe – que hoje se pode assassinar sem medo dos infernos, tal como o pai, tal como o próprio filho, e sem que o chão se abra aos pés do assassino; a mulher – em quem se pode bater, ou até matar, sem se ser fulminado por um raio vindo do Altíssimo; a vida privada – constantemente escrutinada pelos grandes irmãos omnipresentes, omniscientes; as dívidas – que se podem contraír, mesmo sabendo que nunca se poderão pagar; a palavra – que os ventos cada vez levam mais depressa para longe, muito longe…
E mais? Oh, sim, muito mais…
Se eu considerar como valor sagrado, e hoje banalizado, o sexo… será que me levam muito a mal?
E se eu disser o casamento? Também me levam a mal e me chamam fascista?
O papa? Que me importa a mim da cor do papa…











                           AGUENTAR?

      Aguentar. Pois. Ou como diziam os mais antigos: aguentar e cara alegre.
       Sou dos raros que compreendeu o certeiro e espirituoso dito do banqueiro.
       Se o povo aguenta? Claro que aguenta. Estou com ele. Ou seja, estou com ele, banqueiro quando diz uma verdade. E estou com ele povo, enquanto aguento.
     Os povos aguentam. Ainda não tinham percebido? É essa, de resto, a missão deles.
       Leio, ou ouço dizer: O GOVERNO ESTÁ A CONDUZIR O PAÍS PARA O ABISMO.
       E pergunto a mim mesmo em que consiste exactamente o abismo para um país soberano. E a primeira resposta que me ocorre é que o abismo consiste na capacidade inesgotável do povo desse país para aguentar os actos dos seus maiores.
    Leio, ou ouço dizer: A SITUAÇÃO PODE TORNAR-SE EXPLOSIVA.
     Se é explosiva pode explodir, está para explodir, explodir é a sua condição natural. E pergunto: o que é explodir (politicamente) em Portugal?
Será organizar sierras maestras por esse desolado interior? Acredito eu nisso? Não – quanto mais não seja (que é) porque a revolução está fora de moda, não é politicamente correcta.
Será formar células para iniciar a guerrilha urbana? Acredito nisso? Não – e por acrescentadas razões de incorrecção política.
Será montar atentados aos governantes responsáveis? E eu acredito nisso? Ora adeus! Claro que não. E desde logo porque não temos responsáveis. Responsáveis é aquela espécie de coisa em que o país não pode ser competitivo no mercado das exportações. Assim como não se arranja petróleo por esses subsolos de Deus, também à superfície não conseguimos produzir responsáveis.
Leio, ou ouço dizer: A SITUAÇÃO PARECE UMA PANELA DE PRESSÃO QUE QUANDO REBENTAR NÃO SE SABE O QUE PODERÁ DAR.
O que pode dar? Cacos. Estilhaços. Prejuízos.
O que pode dar já está há algum tempo a dar. Tragédias pessoais. Suicídios. Silenciosos desesperos. Crises cardíacas. Criminalidade aumentada. Manifestações indignadas sobre manifestações indignadas. Greves de protesto sobre greves de protesto. Despejo de velhotas. Fome, fome, fome. Incumprimento por parte das empresas e do Estado para com os assalariados. Incumprimento por parte dos assalariados para com os bancos e os senhorios. Depressões assassinas. Escalada da zanga entre benfiquistas e portistas e concomitantes zaragatas nos estádios. Alguns vidros partidos em dependências bancárias. Alguns ministros vaiados – ocasionalmente, e mesmo no limite, apedrejados. Aumento exponencial da mendicidade. Ódio e más palavras de café sobre a classe politica.  
Aguentar é isso.




                         A DEMOCRACIA?

      A democracia não existe sem partidos – ouço dizer.  Ao mesmo tempo, neste ambiente português, quando se fala em reforma do sistema político quer significar-se que a salvação da democracia passa ao lado dos partidos, fica fora dos partidos, porque os partidos, quais eucaliptos sequiosos, sugaram para si a democracia e não deixaram pinga para o pessoal. Logo, se a salvação da nossa democracia depende de uma reforma do sistema partidário, é porque é devido ao sistema partidário que a democracia corre perigo. Logo, pode ser factível uma democracia sem partidos, ou com menos sistema partidário.
       Não é dos gregos antigos que estou a falar. O que digo é que a democracia terá sido reinventada para que fosse possível ao cidadão votar de tantos em tantos anos nas mesmas pessoas e nas mesmas organizações partidárias, e por forma a que um número cada vez mais reduzido de cidadãos pudesse ganhar o máximo de dinheiro possível.
       




                            O GARANTE?

       Bem, da democracia portuguesa talvez não haja muito mais de interessante a saber para além de saber quem paga as campanhas eleitorais. É aí que reside o poder efectivo.
Quem paga as campanhas eleitorais às forças partidárias (as quais, por uma questão de boa educação, não podem ir contra os interesses de quem lhes dá o rico dinheirinho para sobreviver), está bem, mas também importaria saber quem compra o árbitro.
A vida não se resume ao futebol, amigos, nem ao Pinto da Costa, nem ao lampião do Vieira. Fora do futebol também há quem compre os árbitros.
O árbitro da vida institucional é o garante! Quem paga a campanha eleitoral desse, sim, desse, do garante, o P.R., que não arrebanha militantes ajuramentados nem recebe dinheiro de quotas mensais. Quem lhe paga o luxo dispendiosíssimo de uma campanha eleitoral com todos os matadores?
O garante? O garante de quê? O que é que ele garante a não ser o curso sossegado da própria vidinha?
E o garante, e por ser isso mesmo, é o árbitro, é a última instância moral supostamente acima dos partidos-clubes. 
E eu acredito até nisso, que ele esteja acima dos partidos-clubes, não pode é estar acima dele próprio e dos seus interesses, nem dos interesse de quem lhe pagou para garantir. Garantir o quê? A Constituição? Sim, até pode ser. Mas antes disso há que garantir a prossecução dos interesses de quem lhas pagou, a elas, às campanhas eleitorais.
A ele e só a ele cabe pôr e dispôr, dar e tirar, vontade soberana e última nos negócios da pólis.
Será que ele é homem suficientemente macho para destratar os benfeitores que lhe garantiram ser o garante?
Será que ele é homem suficientemente macho para mandar vender chuchas àqueles que lhe arranjaram quem lhe arranjasse o dinheiro para a campanha eleitoral?
Será que ele é homem suficientemente macho para desatender aos negócios de quem lhe pagou as almoçaradas da caríssima campanha eleitoral e para se pôr a pensar na vida dos descamisados que não almoçam e aos quais não deve um tusto?
Dir-me-ão: ai deve, deve. Foram esses que votaram nele. Pois votaram. E porquê? Porque a tal foram induzidos pela campanha eleitoral. E quem pagou essa campanha?
É complicado, não? Pois é. Mas o verdadeiro poder político já não existe. Ou existe um poder económico-financeiro travestido de poder político, só porque pode comprar o árbitro do jogo político.
E o verdadeiro poder político em democracia (parlamentar, representativa, etc.) está nas mãos dos que pagam a campanha do garante da Constituição – uma abstracção como outra qualquer, essa, que dá para isto e para aquilo e para o seu contrário, já se percebeu. E garantida pelo garante que deve incomensuráveis favores a alguém, é certo, não se sabe é a quem, só se sabe que não é pessoal de pé descalço.
Ou mais: o verdadeiro poder em democracia está nas mãos dos que compraram o árbitro da mesma democracia, sim senhor, e mais dos que puseram o candidato a garante-árbitro em contacto com os que dariam o dinheirinho vivo para a campanha que levaria o garante-árbitro a garantir e a arbitrar.
A garantir o quê? Que o chamado status quo não deixasse de ser aquilo que sempre foi, porque aquilo que sempre foi é bom e garante certas e valiosíssimas coisas aos garantes.
 Cá para mim, o delito maior dos garantes e dos indispensáveis à democracia que são os partidos é roubarem-nos a cada dia que passa mais um niquinho daquela esperança que alguns dizem que nunca morre, mas que, pelo contrário, por força dos garantes e dos indispensáveis, vai morrendo aos poucos dentro de nós a cada dia que passa.
Reaccionário, eu?


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


                                   










                                                                   


                                REGRESSO E RECOMEÇO



Noutro dia recordei os meses de Janeiro e Fevereiro de 1970.  Lisboa foi uma cidade húmida, cinzenta, persistentemente chuvosa e de aragens cortantes nesses dois meses. Chegara eu ao cais de Alcântara no meado de Dezembro, o pior tempo que Lisboa teve para acolher aquele herói bronzeado e meio envergonhado que chegava dos trópicos, que ainda duas semanas antes gozara a plena saison das praias da Ilha de Luanda e comera boas bacalhauzadas debaixo dos coqueiros de outra ilha, a do Mussulo.

                                                    

                                                                                                                                                               

Era o tempo de regressar. Eram os prousteanos passos a caminho do tempo reencontrado. Era o tempo de mudar de água de colónia. Era tempo de chegar, rever pai e mãe, e reparar que se sobreviveu.
A desmobilização. A libertação para todo o sempre dos vínculos bélicos. As despedidas finais dos companheiros, testemunhas do meu medo e da minha insuspeitável coragem.




Regressar de vez a casa, ao torrão, à Baixa de Lisboa iluminada para o Natal, ao Rossio, ao Chiado, à Brasileira, ao S. Luís, ao S. Jorge, ao Tivoli, ao Império, ao Monte Carlo - à roupa civil, à leveza de uns sapatos finos e macios, à cabeça descoberta. E tudo isso para sempre. A parte até aí mais dramática da minha existência estava cumprida, as minhas contas com a sociedade e com a pátria estavam reguladas. Para sempre. A primeira noite dormida em casa depois de anos. Parece pouca coisa. Mas não é. E no entanto, julgava poder ter sido mais feliz nesse momento do que realmente fui.

                                                                      

O acordar na manhã de chuva, às seis e meia, o sair para a rua, loucamente, sem destino, só para ver gente normal que não se preocupava com emboscadas, que cumpria o fadário de uma outra vida real, menos real, mas  que na altura me pareceu ainda mais real do que aquela que acabava de viver, urgências de emprego, ripanços de fim de semana, horários, patrões, chefes, a Lisboa cinzentíssima, o Metro, o autocarro, as horas, o guarda-chuva, o almoço, correr, parar, esperar. O ordenado ao fim do mês. Tudo também magicamente visto e vivido  (o Aleph, de novo) nessa minha primeira manhã de chuva, depois da guerra.


            

Dentro em pouco, mais ou menos um mês, regressaria à minha natural e triste condição de pequeno-burguês. Voltaria a essa realidade sempre adiável  de mexer eternamente nos mesmos papeis, de celebrar todos os dias de toda a vida os mesmos rituais profanos, de acordar todos os dias à mesma hora para cumprir as mesmas tarefas, aborrecer-me todos os dias com os mesmos problemas, até ao fim da vida útil, e casar e ter filhos, e daí a pouco ser avô, e viver a situação cheia de todos os limites e pré-determinações, eu, arribado às velhas plagas destes reinos, e vindo de uma vida sem muitos limites, ou onde todos os limites poderiam ser ultrapassados e em que havia homens que tinham como soberano ideal de vida matar-me: eu, numa situação que era em si própria um limite.

                                               

Não gostei nada dessa antevisão do meu futuro feita numa nova manhã de chuva, a  ver os outros apanhar autocarros. Tinham-me obrigado a arriscar a vida para isto, e por isto?
De maneira que me achei, no regresso e no recomeço, pouco feliz. Regresso a onde e recomeço de quê?
Não, de facto: daí em diante ninguém me queria matar. Mas não me animava a grande vontade de reiniciar uma existência; de lançar bases estranhamente sólidas de vida, projectos pessoais, prazos, opções, liberdades. Liberdades de quê e para quê? Viver? Como? Com todas as horas marcadas, previamente destinadas e sem pinga de aventura, com todas as promoções profissionais pré-definidas, com todo o formato dos dias antecipadamente destinado até à hora de uma aposentação, sem companheirismo e sem risco?
Ia fazer 27 anos.
Lisboa era uma cidade com grande número de filhos seus em armas, mas não era, lagarto, lagarto, lagarto, nenhuma Berlim devastada. Ninguém gostava de trazer a lume as incidências da guerra de África. À superfície, era como se nada estivesse a acontecer - como, de resto, já se passava em Luanda. E os que tinham visto alguns horrores também, já se sabe, não se alambazavam na conversa - talvez ninguém os acreditasse. O espectro de uma guerra podia (quando muito) sentir-se, ouvir-se, nos cais de embarque, Alcântara, Rocha do Conde de Óbidos; em Santa Apolónia, no Campo das Cebolas. Estava presente na lágrima da mãe, na conformação da saudade da namorada. No silêncio. Na carta. Na mensagem de Natal dos soldadinhos que a televisão passava, as dedicatórias, e adeus-até-ao-meu-regresso.

                                                                                 Que fazer de uma vida depois a ter livrado da perspectiva da morte?
Com 27 anos ainda estava a tempo de fazer da vida o que quisesse. Um triunfo, uma derrota ou um empate. Como na guerra.
Mas as vontades fortes de fazer da vida pessoal coisa bonita e que se visse, e que me tinham alimentado a alma por três anos e onze meses, e me tinham feito ansiar pela hora incomensuravelmente feliz do regresso... como que se haviam esfumado. Fim da tropa igual a fim dos sonhos acalentados para a não-tropa. Desmobilização igual a embate com a outra realidade, o emprego, o salário, a rotina.
E de súbito, à chuva da manhã nova dos autocarros e dos assalariados felizes, deixara de me apetecer fazer, pensar. Deixara de me apetecer sonhar .
Apetecia-me, sim, sem dúvida, um começo, ou um recomeço. Apetecia-me reencontrar na cidade a minha sombra perdida, e daí partir para onde ainda não tivera tempo de partir. E chegar, possivelmente. Chegar onde? Muitas vezes, a tragédia mais íntima, ou o simples desconsolo, estão no chegar. É bom, muitas vezes, partir. Nem sempre chegar é tão compensador como quando se pensou ao partir. Há uma vaguíssima decepção de chegar, mesmo aos lugares e aos estados mais sonhados. Estava de facto no tempo de chegar a qualquer lado, de mim e dos outros, a qualquer estado. Mas deixara de me apetecer.
E então, para, exactamente, não chegar,  pus-me a vaguear.
Não parava em casa. Cinema todas as noites. 





           

Cafés ao longo do dia - os belos e aconchegados cafés do inverno de Lisboa, que ainda existiam e onde ainda vagamente se podia viver alguma coisa. Lá deveriam ainda parar os amigos que há quatro anos lá tinha deixado. A Brasileira ao fim das tardes.

                                                                                     

 

 O Gelo, às vezes. A Nacional. Uma caneca e um bife na Trindade. A Ceuta, talvez, lá mais para a noite. O Império, geralmente ao sábado. O Monte Carlo depois de jantar. Umas gambas no Ribadouro – maus hábitos a erradicar. O Palladium depois de almoço, às vezes. Ou a Bijou, ou a Veneza, ou a Paulistana, ou a Mourisca. E não encontrava ninguém, nenhuma vida, nenhum pensamento, nenhum passado. Quando não se encontra um passado dificilmente se vislumbra um futuro.
Nenhum dos amigos e companheiros da minha pretérita vida civil comparecia nos cafés para a cavaqueira. Já duvidava se os teria de facto conhecido antes das lides da tropa e da guerra. Lisboa era uma cidade cheia de desconhecidos. Quatro anos é pouco tempo ou é tempo demasiado.
Sem Salazar, Lisboa quase parecia a mesma. Quase. A PIDE chamava-se DGS. Quase...
Eis que estava subliminarmente convocada uma manifestação contra a guerra colonial. Resolvi que devia aparecer. Resolvi que tinha imensa autoridade para aparecer.
E apareci. Ainda estava fresco em mim o frémito do risco. Apareci saudoso de certos primeiros de Maio de cassetetadas e jactos de água azul no Rossio. Apareci e caminhei. Cartazes. Palavras. Conversas daqui e conversas dali. A situação do país. Os preços.  A vida. A guerra. A política não estava a ganhar a guerra. Ninguém poderia restituir a ninguém o dom do tempo.
Tomo conhecimento da prisão de alguns vultos da vida portuguesa.  António Maria Cardoso. Caxias. Não me tinha esquecido. 


                   

Os desconhecidos companheiros da caminhada protestatária vaticinavam o iminente aparecimento do capitão Maltez e seus cães. Naquela esquina ali. Não, na outra. Ou só lá mais abaixo. E apareceu - deve ter aparecido, nunca conheci o senhor. Ele ou alguém por ele. Ladridos. Rua do Ouro, esquina com a Rua de S. Nicolau. Carga de polícia de choque. Embates metálicos. Correrias. Recuos. Na aflição, acoitei-me numa loja de ferragens que estava a acabar de correr os taipais. Tinha-me saltado o chumbo recém colocado num dente.
Passado um tempo voltei atrás. Aquele braço da manifestação tinha-se dispersado. Rossio. A massa dos manifestantes, afinal, reforçara-se na rectaguarda. Uma mole compacta de gente caminhava adiante de mim, mas ao dobrar a esquina do Rossio, de repente, vi avançar um grupo jeitoso de polícias, uma frente deles, chanfalho desembainhado. Alguém me tinha deixado na vanguarda da manifestação. Confusão. Corpos. Sons de choque. Uma chinfalhada que me assenta em cheio nos costados e me faz perder o equilíbrio e o fôlego. Não era a dor. Era a desonra. Que raio de herói de guerra era eu?
Apareço no Martim Moniz. Fazia parte da minha moral de ex-combatente protestar contra a situação de combatente. Redimia-me da minha eventual responsabilidade na guerra.
No Martim Moniz encontro um ex-camarada de quartel. Conhecia-o mal. Não lhe sabia da qualidade dos amigos. Apresentou-me uns cavalheiros. E nessa roda, olhando para as correrias que vinham da Praça da Figueira, desato a língua e ponho-me a falar mal do regime, já não salazarista, já marcelista. Escoado um quarto de hora de faladura, reparo que os ditos cavalheiros, bem mais velhos do que eu, me tinham deixado falar, só ouviam o meu testemunho de ex-combatente enquanto me fitavam. Numa qualquer distracção, esse meu ex-camarada da tropa puxa-me o braço…
- Tu não me abras mais essa puta dessa boca, estes homens são todos da situação e um deles até é amigo pessoal do Barbieri Cardoso…
- Mas então... ouve lá… para que andam aqui no meio da maralha?  
- Podem andar, caralho... observam, só... observam…
Voltei para casa. À noite, no telejornal, nem a mais leve referência à manifestação.
Até que, semanas depois, finalmente, encontro nos Restauradores um  amigo da noite antiga dos pequenos poetas e pensadores de café (coisa  que hoje já nem deve existir), uma referência, enfim, do meu passado civil.
Tinha-se formado em Filosofia: um acontecimento. Era professor de liceu: segundo acontecimento. Tinha casado:terceiro acontecimento. Era pai de um pimpolho: outro acontecimento. Uma vida cheia de acontecimentos. Era natural o ter deixado de aparecer à malta. Crescera, fizera-se um homem. E eu não. Actualmente a malta até já nem existia, a vida de café era uma esterilidade completa, nada se resolvia no café.  Mostrava as dentolas, de desdém. E reparei que era ruivo. 
- Então e tu, homem... lá estiveste nas áfricas... que tal é aquilo, chato, não? Pois é... se relermos o Marx com atenção ainda acabamos por concluir que esta guerra tem mesmo que se fazer, pá.
Deve vir desse encontro a minha aversão aos académicos capazes de provar uma coisa e o seu contrário na pequena frase de um certo pensador, os que tudo governam de cátedra e de compêndio sem nada saberem das vidas. Vidas.
- Então e que é feito de fulano e de sicrano, tenho andado por aí e não tenho visto ninguém.
Ele também não sabia. Fizera-se homem. Casara. Era pai. Tomara juízo. Percebera que até o Marx se podia ler  de modo a desresponsabilizar o ex-pessoal intelectual dos cafés. Todos tinham desaparecido, pelo menos dos cafés e das noites. Os próprios cafés iam desaparecer, estavam a desaparecer, tinham que desaparecer. Lisboa teria um dia que se modernizar e tornar uma cidade progressista.
- É pá, ouve, tens de compreender... isto mudou muito... as pessoas têm a sua vida...
E nesse momento pensei muito depressa que tinha de arranjar para mim uma vida.
E podia começar por arranjar uma namorada.
Outro encontro com um outro ex-camarada de tropa. No falecido café Monte Carlo. Também este estava casado.
- Esta é a Cinita, a minha mulher. Tens que lá ir a casa jantar um dia destes. Aqui a Cinita faz um bacalhau que é cá uma coisa. Temos que combinar.
E fui. Eu ia onde fosse preciso. Estavam mais uns amigos e amigas do casal. Mostrou-me as duas salas da casa que tinha transformado em museu de temática africana e guerreira. Havia máscaras, lanças, zagaias, peles, bengalas, granadas de mão, espoletas de granadas de morteiro, boa quantidade de munições, muita escultura em madeira, utensílios agrícolas, punhais, catanas, peças de fardamento muito gastas, galões de ouro esfarelado, livros de etnografia e manuais de guerrilha e contra-guerrilha. Chama-me de parte. Os olhos dele brilham de orgulho.
- Mandei embalsamar a cabeça de uma preta velha, uma feiticeira que era informadora dos turras e que me foi dada por um porreiraço da PIDE assim que a acabou de cortar.
E desse jantar saí pelo menos já com uma namorada apalavrada.

 

           Lisboa continuava por esses dias feia, cinzenta, húmida, sempre a chover miudinho. E eu continuava a vaguear. Sempre os mesmos itinerários, as mesmas impuras nostalgias. 
           (Não me lembro se já então se ouvia o Lisboa Menina e Moça. Ou o Homem na Cidade, do Carlos do Carmo, mas é um bom momento para os que me lêem ouvirem. Essas e outras.)



                                                                   

 

           Chegar ao Rossio, subir o Chiado, Brasileira, descer o Chiado, passar pelos Restauradores, o Palladium, as ruas interiores, Portas de Santo Antão, Solmar, Avenida da Liberdade, a Veneza, o Lisboa, entrar, olhar, sair, esplanada do Parque. Procurava alguém. Quem? Não sabia ao certo. Fontes Pereira de Melo, a Mourisca, o Monumental, Saldanha, um café no Sequeira, lanchar na Colombo, descer, Alameda, um café no Império (oh, o império), descer Almirante Reis, Praça da Figueira, Rossio, nova vista de olhos pelo Nicola, subir o Chiado, Brasileira.



  

Um pequeno Sísifo.


                                                                  

O quadro do Almada Negreiros com o Fernando Pessoa à mesa do café-restaurante Irmãos Unidos ia a leilão. Era arrematado por uma figura do grande capital, não me lembro já se algum dos Mellos, se o Vinhas, se o Jorge de Brito. Mil contos. Exorbitância. Quase escândalo. "Estão a ver como este país continua sempre na mão dos mesmos? Isto tem que virar!", vociferavam alguns, o populacho. Mil contos por um simples quadro que nem representava muito competentemente a realidade tal como a víamos? Um absurdo no contexto do acanhamento da nossa vidinha nacional. E um sintoma, também, de que algo estava a mudar. Ou quem sabe se tudo não estaria a mudar sem a gente perceber. Ou muito mais tarde perceberíamos que nada de importante  tinha mudado realmente. Perceberiamos que quem muda somos nós…
Parecia-me, em todo o caso, que se respirava uma atmosfera, ainda que muito rarefeita, de fim. Qualquer coisa se aproximava do fim. Ou seria apenas uma ilusão segredada pelo nosso desejo de que qualquer coisa mudasse para (como dizia o outro) ficar tudo na mesma e podermos respirar.
Chegara à vida a tempo de ver a última emissão (se não estou em erro) do Zip Zip, o programa de televisão que nos dizia que qualquer coisa de novo poderia ainda acontecer no país.
O Festival Gulbenkian, que vinha maravilhando os melómanos de Lisboa ia para uns poucos de anos, chegava também ao seu fim.

                                         

O tempo do marcelismo transmitia-me uma sensação de fim. Embora não fosse tão evidente para mim essa outra e complementar sensação  de surgimento de um novo tempo. A charneira. Apercebia em mim uma sensação de banalidade. Na minha vida pessoal também um tempo acabara e nenhuma outra etapa me apetecia recomeçar, nenhuma ideia nova, nenhum trabalho velho.
Já ia para dois meses o meu tempo de inactividade e vagabundagem. Mais hoje mais amanhã teria de regressar ao trabalho civil e recomeçar a vidinha de entrar às nove, saír ao meio dia, entrar às duas e sair às seis. E talvez casar. E ter filhos. E ter netos. Liberdade.
Liberdade? Para quê? Para aplicar em quê?
Não se punha o caso de procurar emprego porque emprego já eu tinha. Era só apresentar-me. Era só convocar em mim a vontade de fazer alguma coisa de inútil - fora a guerra inútil, seguir-se-ia dentro de momentos o trabalhinho inútil da subsistência e do escritório, bom dia chefe, até amanhâ, meus senhores, se Deus quiser, chefe, já posso marcar as minhas férias?, é que lá a patroa já marcou as dela. 
E mudei de marca de água de colónia, sim, alguma coisa de importante eu teria de fazer na vida. Comecei a pôr uma que já não deve existir e que era boa e se chamava Yardley. Mas como para tudo na vida deve haver uma transição, depois do Old Spice militaríssimo ainda tinha chegado a salpicar-me de Sir e de Atkinsons.

                           

                                                                                    
 Convidaram-me para fazer parte de um grupo de teatro amador e comecei a ir aos ensaios, à noite.
Mudei mais duas vezes de namorada - ou acumulei mais duas namoradas, não sei bem. Olhei algumas vezes para o Diário de Notícias. Oferta de emprego. Boa. Possibilidades de mudança. Boas. Vendedor. A oferta de trabalho de vendedor era considerável.


                                                                       
                                                                                 

Subir o Chiado: Brasileira. Descer o Chiado. Rossio: Suiça. Praça da Figueira: Confeitaria Nacional. Subir a Avenida: matinée no S. Jorge. Alexandre Herculano: a Paraíso, a Coimbra. Segunda matinée no Mundial. Saldanha: Monte Carlo. Praça de Londres: a Mexicana, a Capri. Avenida dos Estados Unidos: o Luanda. Jantar: casa. À noite: ensaio no grupo de teatro.
                                                  
                                                  

Ai aquele mês de Março e 1970! Sete horas de uma manhã de chuva. Levantar depressa. Barba, banho. Pequeno almoço. Vestir, depressa. Pôr: uma gravata. Autocarro. Gente. Caras grisalhas. Corpos automáticos. Gestos mecânicos. Vinte e cinco minutos de viagem. O escritório.
Brusca sensação. Como se nada me tivesse acontecido. Como se tivesse regressado ao mesmo lugar de onde saíra às seis da tarde do dia anterior. Caras e olhares. Conhecidos/desconhecidos, mas como se os conhecesse intima e diariamente ia para vinte anos.
Nada tinha acontecido comigo? Nem tiros, nem fomes, nem farturas, nem mortos, nem feridos, nem sangue, nem cheiros, nem lágrimas, nem paisagens, nem inimigos, nem amigos, nem oceanos, nem bebedeiras, nem distâncias?
Não. Pois não. As leis implacáveis do quotidiano. Tinha caído todo junto no meu real destino. A minha vida afinal verdadeira explodia em circunspecções de amanuense.
Destinaram-me como adereço de vida uma secretária, uma máquina de calcular e, em volta, três, quatro, cinco máscaras mudas e semi-cerradas, fingidamente sérias, de fato e gravata, e que já não se chamavam camaradas de armas ou companheiros de sorte, mas sim colegas, testemunhas do meu futuro imperdoável. Afinal,  eu nunca tinha sido um soldado, um combatente, um herói (quanto mais não fosse por ter sobrevivido inteiro); afinal, eu nunca tinha sentido medo, nunca na minha vida tinha tido coragem. Um burocrata: era essa a escrita de Deus na folha de assentos da minha muito relativa eternidade.
Ao meio dia não soube onde ir almoçar nem com quem. Mais uma vez: todos tinham a sua vida e o seu formato pré-determinado. Às duas horas voltei a sentar-me no destino que me fora reservado há muito pela vida, pelo contexto social e de classe - e sem que eu o soubesse de ciência muito certa. Calcular os custos industriais de uma marca conhecida de vinhos ordinários. E por vezes, nessa tarefa, conseguia dormitar. Às seis, a liberdade provisória. Umas horas que me eram concedidas para que eu inventasse os novos heroísmos de vida de que fosse capaz. Ensaios no grupo de teatro à noite. Fiquei a saber que a peça não poderia ir avante. A Censura não o permitiria. Afinal, o Salazar tinha caído da cadeira para quê? O Salazar tinha caído da cadeira para nada? Era inútil tudo o que de melhorzito podia ainda acontecer no país? Era.
            Dia seguinte. Nove horas. Escritório. Cálculos: tanto disto, tanto daquilo, água, combustível, preço dos homens, aguardentes vínicas, barros espanhóis, sangues de boi. Quanto deveria custar o litro daquela zurrapa. E todos os dias, no recomeço do meu destino, depois do almoço, às duas, comecei a ser acometido de uma mágica sonolência de Brunhilde que me obrigava a ir à casa de banho pelo menos vinte minutos e passar pelas brasas. Todos os dias. Nunca me acontecera. Nunca me voltaria a acontecer. O chefe já começava a reparar. Mas devia ser da entrada da primavera.
A vida refloria das cinzas do inverno. Era Abril.
O meu passado de heroísmos sossegados também não merecia aquele presente. O meu sacrifício pela pátria não merecia o futuro que aquele presente começava a tornar inevitável. O vencimento não era atraente - e que fosse! Boa ou má, útil ou inútil, esmagadora ou insignificante, eu tinha feito uma guerra, tinha passado três anos e onze meses em trabalhos de armas e em dureza de vida, entre fomes e farturas, entre tragédias e algumas comédias. E estava de corpo intacto. E o meu corpo intacto pedia-me outro destino, outro recomeço. Tinha 27 anos. E agora já era Maio.




        
Outro recomeço. Ou uma incógnita que fosse arriscada e estimulante. Do meu local de trabalho, com janelas rasgadas sobre o Mar da Palha, podia ver o novo sol, a minha vista podia dar-se a correrias pela paisagem e pela esperança. Tinha alguma vocação para viver e para não me deixar morrer num sarcófago de papeis e de ridículos rituais. Eu às janelas da secção e os outros a trabalhar.
- Está a gostar da paisagem? - era a voz do chefe da contabilidade.
- Estou, sinceramente, estou – respondi: a férrea disciplina de uns meses atrás, afinal, ensinara-me o prazer de uma luminosa indisciplina.
- Mas ainda não me acabou aqueles cálculos urgentes que lhe dei ontem de manhã…
- Nem vou acabar, senhor...  
(Sei lá já o nome do homem.)
Ele levanta a cabeça, mas eu já ia a caminho do departamento de pessoal. Que saudades eu tinha do risco, da aventura!
Que me fizessem as contas. Que me entregassem uma carta a dizer que eu tinha saído de minha livre e única vontade. Era tudo.
- Quanto é que lhe dão lá no emprego para onde vai?
- Nada.
- Como?  - eu não ia para emprego nenhum.  - Tenha cuidado com o que vai fazer, olhe bem para o seu futuro.

                                                  

Respaldado no dinheiro mal ganho, com dois terços do vencimento de guerra acumulados no banco pela família, decidira passar um ano sem trabalhar, sem dizer bom dia chefe, boa tarde patrão, até amanhã, meus senhores. Nunca mais na minha vida voltaria a pôr os pés naquele local de Lisboa onde ficava o escritório. Mais difícil ainda: nunca mais na minha vida voltaria a ser empregado de escritório. Não sabia o que queria. Mas sabia bem o que não queria. E quanto ao mais, ficaria à espera.


Acabava de me convencer de que para a guerra colonial portuguesa eu não metera prego nem estopa, não tivera responsabilidade alguma. Hurra. Evoé. Nunca nenhum dos criminosos daquela guerra, a minha guerra, se os houvesse, seria alguma vez julgado. E muito menos condenado. Nunca nenhum criminoso político, quer dizer, moral, seria alguma vez julgado e condenado no país do benigno clima e dos costumes brandíssimos – viria a sabê-lo mais tarde. A minha vida ia de facto recomeçar. Era só esperar. Não sabia se pouco se muito. Esperar. Talvez houvesse no arco do tempo uma qualquer madrugada…
E até hoje, o diabo seja surdo, cego e mudo, tenho conseguido respeitar as magnas decisões que tomei aos 27 anos. Abençoada guerra no meu destino pessoal, posso dizer - outros infelizmente não poderão. Fiquei à espera de qualquer coisa que mudasse realmente qualquer coisa. Era o ano de 1970 e tudo parecia longe, muito longe…

                        
Alguma coisa resultou dessa espera – e sempre foi numa madrugada. Alguma coisa aconteceu. Alguma coisa. A princípio aconteceu muito, demasiado. E depois pouco, pouco, cada vez menos. Nunca acontece tudo. É o que vale, às vezes…