terça-feira, 5 de março de 2013






              A MORAL DE BAYREUTH 

                       – A REALIDADE

         Wagner foi o que foi preciso ser. Wagner foi o deus dos deuses, Wotan. Wagner foi o safado Alberich. Wagner foi o luminoso Loge e foi a terrena Erda. Wagner foi Siegfried, o herói. Foi gigante, foi anão, foi profeta, foi mágico, foi incendiário. Wagner foi o que foi preciso ser a cada momento. Assim as circunstâncias se lhe apresentassem, assim ele intimamente se metamorfoseava num demiurgo realizador dos prodígios ou num anão sórdido, desprezível e interesseiro.


         Quando assombrado pelo gigantismo do seu ideal, Wagner tomava a lança do deus, e depois admitia que lhe faltava um templo, porque um deus precisa de um tempo para ser incensado. Um templo que comemora um ideal, mas que é, em si, uma realidade material, prática, dispendiosa. E quando posto perante tal realidade, Wagner não hesita, arroja de si a lança e todos os artefactos da divindade, diminui a sua estatura moral natural e aparece como Alberich. E parte em demanda do ouro redentor. Mas uma coisa era certa: para que um deus tenha um templo e funde uma religião cabe mais aos seus fiéis juntar o necessário para erigir esse templo do que ao fundador da sua própria religião.
         Wagner não conhecia Bayreuth. Mas sabia-a uma pequena e provinciana cidade que tinha todo o interesse em ajudá-lo, quer dizer, ajudar-se a si mesma ajudando-o a desenvolver nas suas colinas verdes e saturadas de energia mística uma indústria cultural, por forma a atrair forasteiros e a fazer crescer a pacata economia do burgo. Uma indústria cultural cuja sede deveria ser entendida e frequentada como um santuário.
         Ficava longe de Munique o bastante para se considerar independente, mas não tão longe que impedisse a Wagner uma visita ao seu régio protector, Ludwig, quando, e se, fosse caso disso.
          Quando, em tempos idos, Wagner dissera que para cumprir em cheio a obra da sua vida precisava da protecção de um soberano, tomara os poderes de Erda, a deusa da terra, e fora profeta: dois anos volvidos sobre essa declaração e eis que sobe ao trono da Baviera quem pode, e quer, acorrer ao financiamento das visões wagnerianas, o príncipe Ludwig, feito rei por morte de seu tio Maximiliano II.


         Mas era de capital importância seduzir a pequena Bayreuth e as suas forças vivas e os seus comerciantes, e revelar áqueles provincianos uma faceta simples e bonacheirona do grande génio da música alemã. Havia que fazer visitas extenuantes, interesseiras e protocolares. Havia que suportar com estoicismo a conversa emoliente dos pequenos burgueses.
O  banqueiro Feustel já apoiara o projecto. Bom seria agora varrer da memória dos bayreuthianos a suspeição de imoralidade, oportunismo, revolucionarismo e trapaça que maculava a aura do génio da música alemã.
Fixar residência a cidade e viver sossegadamente, e fazer-lhes ver que o que corria pelas bocas do mundo a se respeito nada mais eram do que boatos postos a circular pelos seus inimigos.
E que tal endereçar uma carta ao pobre chefe da banda local tratando-o de “ilustre colega”?

Em Berlim, Wagner foi recebido principescamente, criando-se logo na capital do império um círculo wagneriano disposto a providenciar uma orquestra de cem músicos. Aliás, círculos wagnerianos que alastrariam por esse mundo, em França, na Rússia, na Holanda, na Bélgica, na Suécia, em Inglaterra, no Egipto e nos Estados Unidos. E arranjou-se logo um arquitecto para riscar o projecto do teatro. A mulher do ministro real da Prússia encarrega-se pessoalmente da tarefa de recolher fundos. Havia muito dinheiro para arrancar aos wagnerianos de toda a Europa. Mas também era verdade que o dinheirinho sonante tardava a chegar.
Viagens. Würzburg, Frankfurt, Darmstadt, Strasburg, Colónia, Dusseldorf, Hannover, Bremen, Magdeburg, Leipzig. E banquetes, reuniões, recepções, galas, concertos, homenagens. Discursos.
Musico algum na velha Alemanha fora até então alvo de tão públicas e luzidas celebrações, tirante o caso, talvez, de Meyerbeer, ou de Mendelssohn. Para arranjar dinheiro, o mestre até compõe uma marcha festiva para a Exposição Universal de Filadélfia. E além de dinheiro precisa de novos artistas. E continua a caminhar sobre a realidade de olhos postos no ideal. Qual deus Wotan, Wagner vê-se na necessidade de sujar as mãos no vil metal e traficar com os nibelungos e os anões se quer levantar para a sua arte uma residência condigna – ou uma fortaleza inexpugnável; ou uma casa de culto; ou o seu pessoal Walhalla…



                                                                                       

             A realidade investe contra os ideais de Wagner: o proprietário do terreno escolhido para a construção do teatro põe os pés à parede e recusa-se a vender o terreno à câmara. Wagner atira-se ao ar:
- O quê? Edificar o meu teatro onde alguém teve o arrojo de se opor à minha vontade? Nunca!
Princípios.
Mas a mulher, Cosima, encarrega-se da parte diplomática.  E obtém resultados.
Os contratempos da realidade económica, política, pessoal, levantam-se aqui e ali. E aplanam-se acolá. De forma que em 1872 já é possível pensar na cerimónia de lançamento da primeira pedra. Uma inauguração muito simbólica. Seria a primeira pedra de um edifício destinado a ser marco indispensável ao renascimento espiritual da Alemanha. Sim, não era um edifício qualquer. E também marcava uma vitória sobre a tentativa de silenciar economicamente um génio a pretexto daquilo a que se usa chamar de progresso social. Já ia a caminho uma carta para o príncipe de Bismarck em petição de apoios de toda a ordem.

          


Em nome do município, o próprio burgomestre acabara de comprar um terreno. As más línguas espalhavam que não o fizera para beneficio  da cidade, que o fizera para favorecer um negócio privado. E no dia do lançamento da primeira pedra a agitação nas ruas da pequena Bayreutth era inusitada.
Chegaram orquestras de de Viena e de Budapeste, coristas de Leipzig e de Magdeburg; e subscritores; e bastantes jornalistas. As pensões e casas particulares esgotavam. A comida escasseava. Era o dia 22 de Maio, o mestre completava nesse exacto dia cinquenta e nove anos. Caía uma chuva diluviana.    
Mas a celebração musical acontecera no dia anterior. Com a tutelar, titânica e redentora Nona Sinfonia de Beethoven. Quatrocentos artistas sob a batuta do próprio Wagner.


A 22, sob a chuva desmobilizadora Wagner pega num martelo, aplica uma pancada, e ritualmente proclama, emocionado:
- Sê bendita, ó pedra! Sê durável e sê firme! 
Há nomeado um conselho de administração, que reúne no dia seguinte com os delegados dos círculos wagnerianos. Feustel, o riquíssimo banqueiro, preside. Os outros são Adolph Gross, Theodor Mencker, Emil Heckel, Friedrich Schoen. E o próprio Wagner. A realidade crua do projecto é discutida. É bom que se proceda rapidamente, e por isso é decidido o início da construção. Até se marca a estreia do grande festival. 1874. E estipula-se a quem futuramente pertencerão os lugares. Aos protectores e aos subscritores, primeiramente. Mas ainda sobravam quinhentos. Wagner considerava-se presente a uma reunião de amigos e protectores, e em volta de uma ideia imaterial (vamos dizer assim), nunca para discutir um qualquer negócio profano. Diz ele que o patrocínio nunca por nunca se poderá fundamentar no espírito leonino de maximização especulativa. O espírito original do projecto nunca por nunca poderá ser desvirtuado.
- Portanto, meus senhores, é de minha vontade que esses quinhentos lugares fiquem reservados para os artistas pobres.
Na imprensa vienense alguém levanta uma questão de moral particularmente interessante. Wagner é mesmo um homem de sorte. Indispõe-se com a realeza e surge um rei a oferecer-lhe o seu amor. Escreve virulências contra os judeus e muitas das musicais intelectualidades hebraicas se contam entre os subscritores do projecto. Esfalfa-se a dizer mal dos pátrios chefes de orquestra e estes fundam círculos wagnerianos e angariam contingentes instrumentais para tocar em Bayreuth. Cantores que sempre disse abominar, lambem-lhe as botas. Acusava os conservatórios germânicos de serem uma vergonha para o mundo e os alunos desses conservatórios quotizavam-se e ofereciam-lhe dinheiro.


                                                          

Quer dizer, Wagner e o seu ideal iam triunfando em toda a linha sobre a crua realidade.


 Mas essa realidade não deixava de se encorpar sobre a cabeça de Wagner e sobre a integridade do projecto. Os círculos wagnerianos davam magníficos jantares, mas, quanto a dinheiro vivo, estavam todos conversados. O conselho de administração andava de péssimo humor. Os artistas que o mestre via e ouvia por toda a Alemanha, e que pretendia afeiçoar aos seus ideais interpretativos, não lhe serviam. As obras estavam quase a parar por falta de fundos. Ninguém quer avançar no escuro. A menos que Wagner se comprometa a dirigir alguns concertos em cidades mais ou menos importantes. Ele não achava muita piada à ideia, mas não teria outro remédio. A realidade gritava-lhe que, no fim das contas, deveria ser ele a prover o mais do financiamento do seu ideal.
Ele rege concertos, ele discursa às plateias burguesas e às carteiras mais recheadas, ele vai a Berlim ver o marechal Moltke, ele vai ao encontro de professores universitários, ele avista-se com financeiros, ele beija a mão a príncipes de sangue.  Assim angaria mais mais dias ou três dezenas de subscritores de peso.

                    


Mas os concertos que dirige não dão resultados financeiros satisfatórios. Em todo o caso, Nietzsche anda por aí a dizer que Wagner está na moda e que finalmente lhe é reconhecida importância. E na verdade Wagner não hesita um segundo em explorar o snobismo dos notáveis, contanto que lhe dêem dinheiro, porque se não houver dinheiro em abundância é escusado pensar mais em arte e em ideal. E o dinheiro sempre fora a mais calamitosa obsessão dele.
Mais dez subscritores em Colónia. Vem um certo interesse de Viena. E de Londres. Tudo isso é muito bonito, mas a necessidade aperta. Pode ser que lá mais para o verão de 1873 a cobertura do teatro esteja pronta.
Pau de fileira em Agosto de 1873. Discursos. Música. Operários a recitar versos escritos pelo próprio Wagner. Banda militar que toca uma marcha de acção de graças. Mas se não há dinheiro, rapazes, não há palhaços, e as obras podem parar em Outubro.
No dia 31 de Outubro de 1873 Wagner convoca os círculos wagnerianos. Eram duzentos. Só quinze compareceram à chamada do mestre.
Um apelo ao povo alemão. Todo o bom alemão tinha o estricto dever de contribuir. Mesmo os mais pobres deveriam comprometer-se com alguma coisita para a ajuda. Era um apelo-proclamação. Foi distribuído. Todos os livreiros alemães o receberam. Nem um respondeu. A subscrição nacional em prol do grande templo da arte alemã rendeu seis taleres.
O círculo wagneriano de Manheim apela: todos os teatros alemães dariam uma récita, uma, de beneficência, a favor da obra de Bayreuth. Oitenta circulares enviadas. Respostas? Três. Negativas.
A realidade continuava a estender o seu manto cinzento sobre o ideal de Bayreuth.
E dívidas. Claro, dívidas. Wagner era um mestre nessa matéria.
Não havia alternativa às dívidas se quisesse realizar capital. O endividamento teria de ser a base operacional para a impossível questão de moral que Bayreuth constituía para Wagner. Bayreuth teria de financiar Bayreuth se nenhum poder régio interviesse, e depressa.
E pagar as dívidas? É a parte chata até para os estados soberanos metidos a iniciativas de duvidosa utilidade no retorno dos investimentos (como a saúde, a educação, a cultura, a segurança social), quanto mais para particulares, ainda por cima artistas…
Vendiam-se quotas de mecenato. Pois era, e garantias a dar a um conselho de administração formado por banqueiros, e burocratas de moral mais restritiva, muito mais, do que a do mestre? Garantia podia ser o rei Ludwig…


Oh, Wagner, o criador, confundia-se com as suas criaturas. 


Tanto era Wotan na nobreza dos perfumes de um ideal elevado, como não se ralava nada de ser o seboso anão Alberich e ir buscar o dinheiro onde quer que ele estivesse, ou entre os seios das filhas do Reno, ou nos cofres da coroa da Baviera.
Mas às finanças bávaras também não lhes soprava vento de feição.

- Não, não e não – diz o rei.        
E Wagner resmunga:
- Dava a ideia disso, não dava? Mas não, na verdade ele nunca compreendeu a minha arte.       
E ordena que se tapem com tabiques todas as aberturas de estrutura já construida do teatro. Não era por nada, era só para que as corujas não fossem lá fazer os ninhos.
O recurso seria Berlim. Oferecer o empreendimento a Berlim. E Berlim responde politicamente: as coisas de Wagner são assunto bávaro. Nem pensar em cometer a mais pequena ingerência nos negócios do Estado da Baviera.
E como num passe de  mágica. Ludwig adiante o dinheiro em falta, com as contrapartidas já sabidas.
Inauguração marcada para o ano de 1876.


Bayreuth, em termos práticos é um edifício de planta rectangular, em tijolo vermelho e sem muitas pretensões arquitectónicas. Entre 1344 e 1500 lugares, em anfiteatro. Excelente visibilidade. Acústica que num primeiro momento terá defraudado as melhores expectativas. Nove camarotes de fundo de sala, atrás da plateia, chamados dos príncipes e reservados às cabeças coroadas e ouras individualidades convidadas por Wagner. Orquestra invisível e praticamente coberta, organizada em degraus que descem dos violinos (os mais elevados) às tubas, tímpanos e trombones, seis degraus abaixo, e no sentido contrário ao habitual das salas de concerto – o “golfo místico”, como foi chamado, ou “abismo místico”. Nada de foyers para o grosso do público. Foyers só para os notáveis. Mas então… onde se passam os intervalos? Passam-se ao ar livre e campestre. Omessa! E se chove? Se chove passam-se nos restaurantes e cafés que se estabeleceram nas redondezas logo em 1876.
Wagner estava quase a caminhar sobre o arco-íris a caminho da moradia divina, do seu Walhalla. Wagner como o deus Wotan que criara, estava quase a poder declarar urbi et orbi:


- Resplandece, morada gloriosa, resplandece ao crepúsculo, tanto quanto exposta aos dardos do sol e à claridade da manhã. Daqui te saúdo, salva de todos os horrores.
Wagner, de ponto em branco vestido, está na estação e espera o rei Ludwig. É o rei o convidado especial para o ensaio geral do ciclo do Anel do Nibelungo. Já deu a uma da madrugada e o comboio real não há meio de chegar.
Mas o rei sempre aparece. Agitado, doente. Não parece excessivamente entusiasmado com um evento que outrora também seria para ele um ideal.


Ao evento acorrem nomes ilustres da Europa cultural. Num só dia quinhentas pessoas deixaram cartões na salva colocada no vestíbulo de Wahnfried. Elogia-se a tenacidade de um homem. Reis e príncipes e sábios reunidos para homenagear um só homem? Caso nunca visto. E, mais difícil ainda, para homenagear um artista. Onde e que já se tinha visto? Nunca.
No último momento todos pareciam ter compreendido que não estava ali um simples artista. No último momento, finalmente, compreendia-se que a homenagem era prestada mesmo ao templo sagrado da arte alemã.

(Entre a principesca chusma encontra-se um wagneriano de longa data, D. Pedro, imperador do Brasil.)

                                                                  


O pior vai ser o déficit de exploração do grandioso templo da arte alemã, que monta a mais de 120 mil marcos, e com o qual Wagner não está em condições de se haver. O Estado bávaro? Mais uma vez Wagner é avisado de que a régia tesouraria, por via de diversas obras públicas (entre elas alguns castelos inúteis), não está em boa condição. Anunciar o festival do ano seguinte? É uma ideia. Mas alguém terá de o pagar. Quem?
Feustel, o presidente do conselho de administração, comunica-lhe:
- Mestre, compete-lhe  solver todos os défices da empresa. De toda a maneira, o empreendimento é seu, o teatro é seu, a honra é toda sua…
- Ai é a mim que compete?
- Certamente, mestre. Os príncipes, os subscritores e os protectores de Bayreuth não estão dispostos a deixar pingar dos reais bolsos nem mais um cêntimo…
- Ah ele é isso? Pois meus amigos, se esse débito não for regularizado sem mim, acabo por passar o teatro a um desses empresários que praí andam e ele que se avenha, que eu, doente como ando, não estou para me incomodar com mais nada.
- E os lucros que a propaganda do ciclo do Anel estão a ajudar a conseguir por esse mundo?
- Calma aí. Antes de tudo, a cobertura do défice é obrigação de Munique. Ou de Berlim. Tanto se me dá uma como outra. O que posso fazer é repetir o ciclo do Anel à minha custa. Ou então… olhe, Feustel, ou então entrego o teatro inteiro à corte de Munique. É isso. E na corte ele ficará até que a divida para com o rei seja liquidada. Se assim não puder ser, é como lhe digo, pisarei a pés todos os meus ideais, sim, e entrego-o a um empresário.


                                                                           
 

É a realidade que pode levar um idealista, nem que ele se chame Richard Wagner, a essa coisa tão feia que se chama prostituição.
Que a Tetralogia, na mão de um vulgar empresário de teatros, se prostituísse por esse mundo fora já ele dava de barato. Era a evidência da sua renúncia. Bayreuth era um paradigma moral e assim teria de ser defendido, nem que fosse à custa de imorais concessões.


Wagner já estava noutra.
Qual outra? O Parsifal. E esse ninguém teria coragem de o roubar ao teatro de Bayreuth fosse a que preço fosse. Dizia ele.









quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013


   

   
       

     OS CÍNICOS

Se bem historiadas estas coisas da democracia, e genericamente da política, não é possível passar ao lado dos que tiveram da ciência política uma visão cínica. Cínica e realista, pois então. Cínica, realista e pessimista, se se quiser ir mais longe.

                                                            

 A Mosca, a Pareto, a Sorel – não falando do velho Maquiavel, de que estes acabam por ser subsidiários – não escapou a fatalidade das desigualdades. A desigualdade teria de ser a regra de um governo. Democracia? Pura ilusão; ou pior: mistificação. Impossível o funcionamento de uma democracia. Será sempre o poderio de uma minoria a impor-se à vontade das massas. E o resto é conversa. E cada vez acredito mais nestes rapazes… está à vista…
A História do Homem e das comunidades não seria então outra senão a História da luta pelo poder entre as elites. Há dúvidas?
Talvez o mais notável destes neo-maquiavelistas seja o italiano Wilfred Pareto. Esse colocou em cima da mesa uma quantidade de constantes psicológicas que determinariam as doutrinas e as teorias mais correntes da ciência política. A essas constantes psicológicas chama ele de resíduos, ou derivações. Eram resíduos ou derivações tudo o que movia a História. Pareciam-se com instintos. Não pertenciam às categorias do racional, eram um eterno pano de fundo de muitas derivações.
Pareto fartava-se de rir quando lhe vinham com a conversa da luta de classes. Não, filhos, o que há é uma incansável circulação de elites, e a História não passa da substituição interminável de umas elites por outras. E digo-vos mais, filhos: a natureza ou o carácter de uma dada sociedade terá de ser encontrada no carácter da sua elite – e disto, digo eu, disto, quem é português sabe de sobra. 
E Pareto vai por aí fora, separando necessariamente a elite governamental da elite não-governamental, claro está… mas sempre elite.
Ezra Pound, nas desaforadas diatribes dos tempos italianos e fascistas, disparou contra o parlamentarismo aos microfones da Rádio Roma. Dizia ele: todos os sistemas de eleições parlamentares são superficiais. Ou talvez não sejam totalmente superficiais, mas devia haver algo de mais profundo, uma convicção, uma realidade. Não pode haver apenas demagogia e mentira.


E já agora, deixem-me citar o homem que Ezra Pound muito admirava no tempo em que escreveu o que anteriormente citei, esse mesmo: Mussolini. Mussolini prefaciando Maquiavel.
As revoluções dos séculos XVII e XVIII procuraram resolver o conflito que está na base de toda a organização social pública, ao considerarem o poder como uma encarnação da livre vontade do povo. Pura ficção. Pura ilusão.
Continuo a citar Mussolini: Quando muito, o povo poderá delegar, mas nunca exercer qualquer soberania. Os sistemas representativos pertencem mais à mecânica do que à moral. Mesmo nos países em que esses mecanismos, depois de séculos e séculos de funcionamento, se tornam quase perfeitos, surgem horas solenes em que o povo deixa de ser consultado (…) ordenam-lhe que aceite sem mais explicações uma revolução, que aceite uma paz, que marche contra a incógnita de uma guerra. E por aqui se vê que a soberania graciosamente concedida ao povo lhe é retirada precisamente nos momentos em que ele mais poderia desejá-la.
Ainda dentro do mesmo registo. Depois do estrondoso triunfo dos nazis em eleições livres, em 32/33, Goebbels escreveu no diário: a vitória é nossa. É muito menos do que poderiamos esperar. Mas o que significam os números daqui para o futuro? Somos senhores do Reich e da Prússia. Todos os outros partidos foram derrotados.
Que Deus Nosso Senhor me valha, mas a sensação – apenas a sensação, é claro – que me assalta assim que chega a noite de um domingo eleitoral português e fico a saber que tal ou tal partido conseguiu uma maioria absoluta é de que a democracia portuguesa irá passar mais 4 anos a dar passos à rectaguarda. Porque me parece difícil que um recém-eleito 1º ministro, mesmo medular democrata, no recôndito da sua consciência não pense, por um momento que seja, como Goebbels: que significam os números daqui para o futuro – e este futuro são 4 anos -, sou senhor de Portugal, os outros partidos foram derrotados. E é a partir desse dia que o nóvel 1º ministro…
Sim, é a partir desse dia que o nóvel 1º ministro sente poder permitir-se fazer o contrário de tudo o que disse e prometeu em campanha eleitoral – que me seja relevado o exagero, se o houver.
Pelos 4 anos que se seguem os números deixam de significar, os outros foram derrotados, ele é senhor do país, e se disse que nunca aumentaria os impostos, por exemplo, depois da maioria absoluta está deserto por aumentá-los. Depois de uma maioria absoluta, os números deixam de significar, e mesmo perante o protesto das palavras dos outros, dos que desta vez perderam a eleição, mas que da próxima a ganharão e reflectirão também um pouco como Goebbels e farão exactamente o mesmo que fez o nóvel e imaginário 1ºministro de que acabei de falar.
E a fragilidade da democracia foi muito patente naqueles anos 30 do século XX, quando os nazis chegaram ao poder por via e por meios formalmente democráticos – e contando com uma conjuntura peculiar, eu sei – e o mesmo Goebbels podia permitir-se escrever: vamos introduzir-nos no Reichstag para, no arsenal  da democracia nos fornecermos das suas próprias armas. Vamos ser deputados e vamos paralizar o regime de Weimar com o apoio de Weimar. Quem é eleito para o parlamento só fica inibido se quiser ser mesmo um parlamentar. Mas se, com ousadia, quiser continuar a luta implacável contra o aviltamento da vida pública, não será um parlamentar, será um revolucionário. Mussolini também era membro do parlamento e pouco depois marchou sobre Roma à frente dos seus camisas negras…
A melhor das democracias, e com as corrupções conceptuais e de sentido que ao longo da vida lhe têm sido feitas, transporta em si armadilhas capazes de fazer dela um para-fascismo sem ser preciso uma ditadura militar e sem deixar de se lhe chamar democracia. 


É uma realidade que estamos desgraçadamente a viver
Nos tempos que correm seria intolerável a existência de uma censura daquelas claras, assumidas, fascistas – claro que existe censura, mas é democrática e disfarçada de outras coisas.
Ditadura militar? Os militares inseriram-se de tal jeito no nivelamento por baixo da sociedade e da permissividade democráticas que fizeram esquecer até aos mais velhos a sua autoridade moral de outras eras. As tropas nacionais profissionalizaram-se. A mística do oficial pronto a sacrificar a vida ao serviço da pátria perdeu-se tanto quanto a mística da própria pátria.
E pelo aumento brutal das despesas militares, os próprios militares ficaram tão enfeudados quanto os políticos ao grande poder económico. As novas gerações de oficiais não me cheira a que estejam muito viradas para golpes e putschs. Além do mais porque não é preciso. Além do mais porque seria europeisticamente intolerável.
A democracia presente, ainda que por ínvios modos, tem no seu arsenal de fogos de artifício políticos todos os meios necessários para se parecer com uma ditadura sem formalmente a ser.
Acho que estavam errados os que diziam que o fascismo era o último recurso do capital para operar a máxima exploração sobre o trabalho. Não acho que o fosse. Uma democracia liberalmente asseada, parlamentar, representativa, faz muito bem esse serviço – faz muito melhor, acho eu – e sem violências físicas; e sem que o capital fique mal visto.
Além do mais, as polícias especiais e de choque, e os métodos de recolha de informação pessoal de cada cidadão continuam a existir, muito mais refinados e eficazes, e a vida política é mais complexa e há fenómenos novos a que não vale a pena chamar de fascismo porque, podendo até sê-lo na operacionalidade, não podem, em teoria, ser chamados de tal. 
Mao Tsé Tung, acabado de chegar ao poder revolucionário, denuncia a liberdade em abstracto das democracias ditas burguesas.  Admite que acaba de instaurar uma ditadura. Acentua a necessidade de instaurar uma ditadura, chamando-lhe paradoxalmente a ditadura da democracia.
                                                                                                                            

Para Mao Tsé Tung, os reaccionários não teriam direito a nada e só o povo teria o direito de voto – voto em quem, pode perguntar-se. Seria assim uma democracia para o povo e uma ditadura para os reaccionários. E restava saber quem seria o juíz que estipulava se eu era reaccionário se eu era povo.      Mao seguia a cartilha de outros seus mestres. Lenine – falar de liberdade e igualdade enquanto as classes não forem abolidas é um logro. E a pergunta a pôr é a seguinte: a liberdade é para que classe? Com que finalidade?
E Lenine disse mais – oh, muito mais: quanto mais uma república é democrática mais brutal e cínica é a tirania do capitalismo. Os EUA são uma das repúblicas mais democráticas do mundo e em nenhuma outra nação o poder de um punhado de milionários sobre toda a sociedade se revela tão brutalmente e com métodos de corrupção tão descarados como nesse país…
E quem tenha estado atento às últimas vicissitudes (económico-financeiras, nomeadamente) da vida americana é capaz de não achar o julgamento de Lenine tão disparatado como isso…
E quem for isento e tiver espírito de observação, ou pelo menos quem neste momento estiver a contas com dívidas à banca por empréstimos para adquirir bens supérfluos que lhe foram induzidos como essenciais pela publicidade do capital multinacional, deve ponderar muito bem as palavras de Lenine – cujo regime político alternativo ao que vivemos, também tenho que o dizer (e embora por outros motivos) não era flor que se cheirasse.                                            
Quando, há 40 anos, ouvíamos falar de democracia… pergunto: em que estaríamos, revirando os olhos de cobiça, a pensar?


Em que é que aqueles que nos falavam de democracia e de liberdade estariam a pensar? Seria o mesmo que nós? Seria em liberdade para o homem comum assalariado?

                       


Na verdade, quando, faz agora 40 anos, nos falaram de democracia e de liberdade, queriam efectivamente dizer-nos que essa democracia e essa liberdade para o homem comum assalariado consistia em votar de 4 em 4 anos, porque a liberdade era para os grandes negócios (os maiores possíveis), e para o mercado, e muito menos para quem vivesse de um salário?

                     

Quem vive de um salário, tem a democrática liberdade de votar todos os 4 anos. Tem de sofrer os aumentos de preços de custo de vida, para fazer funcionar majoradamente os lucros do capital. Claro. Tem de sofrer a ditadura de outros. A ditadura de quem manda fixar os preços, a ditadura de quem manda fazer as leis de trabalho e da habitação. E quem manda fazer tais leis sim, vive em democracia pleníssima, pode ganhar o dinheiro que quiser – aliás, deve ganhar o máximo de dinheiro que possa… para fazer funcionar melhor os mercados, ou, perdão, a democracia…


Continuo a  citar Lenine, sem contudo, repito, dizer que o regime alternativo que ele propunha fosse flor que se cheirasse. E citando Lenine, digo: o mecanisno da democracia capitalista observa-se por toda a parte nos pormenores da legislação eleitoral, no funcionamento das instituições representativas, na organização capitalista da imprensa, na restrição sobre restrição que paira sobre a democracia, restrições que, somadas, eliminaram os pobres da participação activa nessa mesma democracia.
Mas já Karl Marx o dizia: autoriza-se os oprimidos a decidir periodicamente, para um certo número de anos, qual será de entre os representantes da classe dominante aquele que os representará e os calcará aos pés no parlamento.

            

A democracia formal e representativa arrisca-se a ser a forma ideal de governo para grandes industriais, grandes comerciantes, grandes intermediários, banqueiros e outros agiotas – veja-se o lucro dos nossos bancos e recorde-se o problema do paralelo endividamento familiar.

                         
                      
O grande problema disto tudo é que a esse sistema, quer seja a bem quer seja a mal, não poderemos opor o sistema comunista, ou fascista, porque desse modo se não morriamos do mal morreriamos da cura e nem tinhamos alternativa de lhe preferir uma democracia bem burguesa e bem representativa, porque iriamos logo no dia seguinte parar ao goulag. Ou a um qualquer Tarrafal. Aí está um insolúvel problema político de todas as eras desde que se começou a pensar nestas coisas, e desde, sobretudo, que se começou a agir.


Vejamos: era a ideologia o que noutros tempos mantinha em respeito o ávido e agressivo poder económico. E mantinha-o em respeito porque subordinado ao poder político, coisa com que o grande capital mundial não atinava nem por nada.
Mas verdade seja dita que esse poder político que subordinava a si o poder económico, não deixando de ser político só por acaso se legitimava pelo sufrágio universal. Ora aí está: eram as ditaduras fortemente ideológicas, fascistas e comunistas. E bem visto, nem Hitler, por mais que se diga em seu desabono, foi meigo para com o poder económico.
É claro que em fascismo os grandes capitalistas enriqueciam à barba longa e em comunismo não.
Os capitalistas em fascismo enriqueciam, mas não mandavam no Estado. Como não havia eleições livres ninguém lhes pedia dinheiro para pagar campanhas eleitorais e eles não tinham por onde mandar.


Ora aí é que bate o ponto… um dos pontos…
A generalização da democracia no pós II Guerra abre todas as portas à finança – precisa muito dela, é certo – e a breve trecho deixa-se reduzir a joguete nas mãos do poder económico-financeiro.

                                  
E quanto mais os dirigentes democráticos se mediatizaram, se mediocrizaram e perderam prestígio, mais a democracia foi usada em proveito do poder económico-financeiro.


Ou o contrário. Quer dizer: quanto mais o poder económico-financeiro puxava os cordelinhos do poder político em democracia, mais os dirigentes políticos se reduziam à insignificância, até caírem no espectáculo de mediocridade a que assistimos hoje, e fortemente financiados nas suas campanhas, claro está, pelo poder económico-financeiro. O que é legal, legalíssimo, sim senhor, mas que não sei se será politicamente muito moral.



O poder económico em democracia tem a estricta obrigação de promover… diga-se melhor, de vender, ao eleitorado, as caras político-partidárias que lhe convenham. Ou ainda ingenuamente pensamos que os favores financeiros não se pagam politicamente? Cá por mim, há muito que a cada acto eleitoral, e ao ver as caras dos candidatos aos vários altos cargos me habituei a perguntar qual será o grupo económico, ou grupos, que estão por detrás deste? Quem serão os capitalistas que pagam a campanha daquele? No caso das autárquicas até acho que a cada acto eleitoral em vez de nomes políticos no que acabo sempre por votar é em empreiteiros…
Mas serão só os homens políticos tomados individualmente? É óbvio que não. E os partidos? Quem os paga? A quotização dos militantes – cada vez menos, ainda por cima? Não brinquemos com coisas sérias – ou pelo menos sérias para nós…
E será pelos lindos olhos de um candidato a qualquer coisa que o poder económico lhe financia campanhas milionárias? Com certeza que não. Então, se não, é em troca de quê? De favores.
Favores que nem serão favores, porque favor foi o que o capitalista fez ao político ao pagar-lhe a campanha que o atirou para o poder e lhe permitiu realizar os sonhos de mando de toda uma vida.
Que o atirou para o poder? Que poder?
Claro que o poder económico sustenta financeiramente o funcionamento da política e quer uma contrapartida, uma contrapartida em facilidades políticas para desenvolver os seus negócios e lhe permita naturalmente ser cada vez mais poder económico, ou seja, desenvolver-se, crescer, lucrar ainda mais.
E lá vêm os impostos. Leoninos para quem trabalha. Suaves para quem emprega. E assim porque é preciso desenvolver a economia nacional e os capitalistas só desenvolvem a economia nacional na condição de aumentarem os lucros próprios. Claro como água.
E até se poderia questionar o que significa isso de desenvolver a economia, porque esse desenvolvimento da economia beneficia incomparavelmente mais quem emprega do que quem trabalha.
E quanto mais forte vai ficando o poder económico, mais débil e dependente fica o poder político. Claro como água.
Porque há coisas que só um poder politicamente investido e tornado indiscutível e promotor de obediências cívicas, porque legitimado pelo sufrágio universal, pode fazer. Como por exemplo travar os sindicatos e as reivindicações. Aumentar os impostos – nem seria preciso dizê-lo. Alterar a favor do patronato as leis laborais. Deixar rédea livre aos grandes negócios…
E como deixaram de existir na vida valores que se sobrepusessem ao valor do dinheiro, há até multinacionais com volumes de negócios que ultrapassam o PIB de muitos países.
E é capaz de não ser ficção descabelada pensar que a gloriosa e grega invenção da democracia será gerida no futuro por empórios financeiros à escala mundial e por multinacionais industriais. Tudo se encaminha para aí…


E já agora… não deixa de ser edificante reparar na quantidade de antigos esquerdistas, aplauditores extremados e agressivos dos marxs, dos lenines, dos stalines e dos maos, que perceberam tudo em devido tempo e se bandearam mui prestes para os lados da democracia mais capitalista que se pudesse arranjar. E de maneira tão radical que depressa atingiram os mais altos lugares de comando do regime da democracia burguesa que poucos anos antes tinham combatido. Ou não teriam de facto combatido e os primórdios da vida política deles não passaram de uma representação com vista a uma carreira no futuro?

                      

              É a tal coisa: abaixo o capital… para a gente lhe chegar melhor…

                          

E bem eu gostaria de ouvir um desses políticos outrora maoistas e estalinistas e agora asseadíssimos e importantíssimos democratas e liberais falar com franqueza da evolução fulminante e subtilíssima do seu pensamento político-ideológico; ou então, no caso de serem extraordinariamente honestos, poderem publicamente admitir que na realidade sempre tinham aspirado ao poder, ao poleiro e que já na Faculdade tinham percebido que a melhor forma de chegar ao mais alto poleiro seria para eles começar por desacreditar esse poleiro.
Custa-me a perceber é como pode a democracia confiar, em termos pessoais e políticos, em alguém que um dia – ou em muitos dias da sua jovem vida – abraçou, seguiu e praticou, e muitas vezes sádica e violentamente, até à tortura física - os dizeres do Livro Vermelho de Mao.
Diz-se tão mal da classe política, coitadinha. É moda dizer mal dos políticos. E uma moda que não há meio de passar. E é fácil dizer mal dos políticos. E eu não fujo a essa regra, a essa moda. Claro. Não tenho, de facto, grande consideração pessoal por eles, políticos, mas acabo por admirar aqueles que sempre disseram ao que vinham e assim se mantiveram. Os que disseram logo de entrada o que eram, democratas burgueses, liberais, capitalistas, sociais-democratas, democratas-cristãos, socialistas, comunistas, trotzkistas, maoístas… tenho, nesse aspecto, admiração e até respeito por esses.
Por quem eu não consigo ter um pingo de respeito, desculpem, é pelos que se disseram politicamente uma coisa e de um ano para o outro, do fundo do coração, se disseram outra oposta, e que por sinal era mais vantajosa a todos os títulos do que a primeira. 
É. É o mundo político dos cínicos que me dói. É a dita hipocrisia política que me confunde. E nem sequer o talento da comédia que têm me dá para admirar esses.