domingo, 17 de março de 2013


  
      QUEM SE LEMBRA DO ANO DE 2004?


Na vertígem e no aperto em que estamos a viver estes nossos dias é natural o esvaír das memórias  com mais facilidade e rapidez do que nunca, mas ainda me lembro de que  2004 foi mesmo um grande ano para Portugal. Foi um ano de odisseias, e muitas delas, a  maior parte, de tipo moral.


Primeiro, a crise orçamental. Que em 2004 já vinha de trás – porque tudo o que de negativo se passa em Portugal vem sempre de trás. As falências, os despedimentos maciços, a baixa do poder de compra, o aumento do custo de vida, o crédito mal parado, o desemprego que estava a aumentar. Tanta coisa para que nos viessem dizer, a meio do ano, que, bem feitas as contas, e bem consumados os sacrifícios, a melhoria orçamental, a retoma, ainda não era nada que se visse.


Odisseia moral de haver um partido no governo, seja ele qual for, que me permite ter um emprego, para daí a um ano ou dois (ou três ou quatro) vir outro partido para o governo e dizer à boca cheia que eu sou um chupista e um inútil, que tudo o que foi feito estava mal, que o meu lugar, o meu vencimento e as minhas regalias eram um erro crasso, e que, portanto, o passo a seguir seria extinguirem o meu posto de trabalho, porem-me na rua, atirarem comigo para o desemprego, e deixarem-me na expectativa de poder vir outro governo, de outro partido que me permita arranjar outro emprego e recuperar a qualidade de vida que perdi. E tudo isso até ao dia em que o próximo partido do próximo governo vier outra vez dizer que afinal tudo estava mal, eu, inútil e chupista do orçamento,  não tinha nada que ter emprego outra vez, e me extingue outra vez o posto de trabalho, e me atira de novo para o desemprego, deixando-me à espera de… de quê? Da morte? Não sei. Não sei qual é o plano dos governos para a vida dos governados. Mas o que sei é que é assim o jogo. O jogo das alternâncias democráticas, económicas, financeiras,  orçamentais, mesmo quando não há empregos que cheguem para todos…

                                              

Uma das nossas primeiras odisseias morais – nossas, quero eu dizer, do homem comum - é ter de pagar, a prazo, as políticas dos senhores governantes, tanto quando elas são despesistas como quando eles são unhas de fome.
A quantas crises e a quantas retomas não assistimos já desde o fim da ditadura? Mais crises do que retomas, é verdade. Muito mais…
Por falar em retomas, estou a lembrar-me de uma retoma dos anos cavaquistas. Começavam a chegar os fundos europeus e compravam-se casas à beira mar e com piscina, e lamborghinis, e inventavam-se empresas, e punham-se belas raparigas por conta, e faziam-se férias de sonho nas Caraíbas.

                   

   

Mas a base da boa vida era o crédito bancário.
A fisionomia do consumo de cada retoma anuncia logo a sua crise, quer-me parecer.
E quando veio a crise a seguir à retoma cavaquista, o crédito andou – e ainda andava em 2004 – muito mal parado.
        A nossa vida são ciclos, é verdade. E em geral, ao homem da rua, as retomas não compensam os estragos das crises.
Pagar, pagar,pagar. Sacrificar, sacrificar. Estamos a sofrer isso mesmo em 2013…
Mas já em 2004 o número de acções de falência aumentava 40% em relação a 2003.


                                                                     

2044 foi o Euro e foi o Rock in Rio. 


E tudo correu bem – como sempre em Portugal tudo corre bem, salvo o que corre mal - , embora, segundo ouvi dizer, com o Rock in Rio abaixo das expectativas em afluência.
Na sequência de mais um daqueles scores históricos de abstenção eleitoral, que indicam a quem tiver olhos para ver que o povo eleitor não tem causas, não acredita em nada nem em ninguém, e muito menos em si próprio, e está no grau mais baixo da sua auto-estima – já era assim em 1004 -, eis senão quando toda a gente se mobiliza pela selecção nacional de futebol. E quem precisamente dá largos passos para a galvanização e mobilização de um país descrente é um estrangeiro, um brasileiro, o seleccionador nacional.


O jogo com a Espanha é de vida ou de morte. O país acorda, crise?, qual crise?, o país empenha-se, mobiliza-se, porque é o  seleccionador nacional (que é brasileiro) a dizer ao país para por bandeiras nacionais nas janelas e nos carros e o país põe. E o país confia – no seleccionador nacional; que é brasileiro. Há quantos anos, décadas, séculos, o português médio não confiava assim numa figura pública como confiou em 2004?
Eleições? Eleições europeias? São poucos os que lhes ligam alguma coisa, a elas, aos profissionais burocratas do ramo, à Europa…
Em 2004 o povo só queria regozijar-se com os seus futebolistas.
E Portugal vence a Espanha. E não só vence como joga bem, joga como há muitíssimos anos não tinha jogado. Os governantes aparecem na televisão a capitalizar a seu favor aquela vitória – como se fosse deles.
Estamos à míngua de quem nos mobilize para grandes coisas, mas não com palheta de aldrabão de feira, e sim com motivos fortes e com resultados concretos. Era o que estava a fazer a selecção. Em 2004.
Os nossos dirigentes máximos repreendiam-nos em 2004. Não devíamos choramingar nem entrar em lamúrias. Em 2004. Como se não houvesse razão para tal. A verdade é que os nossos governantes e dirigentes aos vários escalões não nos deram em 2004 – e desde há muitíssimos anos para cá que não nos dão - motivos para termos orgulho em nós mesmos. E neles ainda menos.


Em 2004 morre Maria de Lurdes Pintassilgo. Goste-se ou não, uma das raras referências morais da política portuguesa pós-25 de Abril. E mais pobres ficámos.
E Sousa Franco mete-se em escaramuças menores e com gente de baixa extracção e vai morrer tristemente à lota de Matosinhos no meio de uma rixa de bimbos e comadres camarárias.
As mortes desse ano. No ano de 2004 verificou-se um considerável desgaste mitológico no mundo. Falo mais das artes e dos espectáculos, posto que, noutras áreas, como a política, mitos e mitologias é coisa que deixou de haver. Agora nas artes e espectáculos, onde cada vez também os há menos, se começam a desaparecer assim tão rapidamente os que existem, onde iremos nós parar?

     

Por quem eu em 2004 pus luto carregado foi por Marlon Brando e pelo maestro Carlos Kleiber, como já no fim do outro ano tinha posto por Franco Corelli. Mas também andei intimamente de preto por Carlos Paredes, por Nikolai Ghiaurov, por Serge Reggiani.

                  

O país continuou a envelhecer em 2004. A taxa de natalidade do país continuou a baixar. Talvez algum proto-bébé populista e ainda mal formado no ventre de sua mãe se perguntasse: mas valerá mesmo a pena nascer em Portugal?  


      Mas se ainda havia dúvidas, naquele ano odisseico de 2004 elas ficaram dissipadas: o futebol é o fenómeno mais importante e sério que pode acontecer em Portugal. Apesar de tudo o que a gente sabe. Para o melhor e para o pior. Exactamente.
Depois do primeiro jogo, da primeira descrença e da primeira derrota contra a Grécia, como explicar um tão súbito nacionalismo, um tão pronto orgulho de ser português em gente tão fatalista como nós?


Talvez não seja assim tão difícil de perceber. A equipa estava a jogar muito bem, os jogadores estavam a esfalfar-se até ao sacrifício. O país via nos seus futebolistas e treinadores gente muito competente e muito honesta no seu trabalho e, o que é mais raro, a mostrar resultados. É raro, é, sim senhor, acontecer uma coisa destas no nosso país. Resultados? Isso é que era bom… palavras, palavras; cálculos financeiros, estimativas em alta. Que sistematicamente falham.
Em 2004 parecia começar a haver razão para a auto-estima e para o orgulho.


Contra a Inglaterra Portugal joga o jogo mais dramático de toda a competição. Eusébio, que chorara copiosamente após a derrota diante dos ingleses no Mundial de 66, voltava a chorar por uma vitória sobre os mesmos ingleses e o país via-o em lágrimas a beijar a relva do Estádio da Luz.


Alfama ganhava o concurso das marchas. No dia seguinte ao jogo com a Inglaterra, pelas ruas mais populares de Lisboa, voltava a ouvir-se a Amália cantar nas telefonias. E três dias depois, juro-vos, ouvi da minha janela um popular a assobiar o hino nacional.
                                                                      
                                                                                
A mais espantosa qualidade de ser português veio ao de cima nos dias do Euro 2004. Em Junho. A nossa empatia internacionalista, a hospitalidade, a amabilidade e o interesse que sempre foi nosso para com os forasteiros, mais a capacidade de nos momentos festivos nos irmanarmos seja com quem for, gregos, troianos, croatas, búlgaros ou checos. E até com ingleses insolentes, agressivos e atestados de cerveja.

                                                                 

Os ingleses? Pois alguns subsídios para a compreensão da grandeza de uma nação foram acrescentados a quem os quis ver também no Euro 2004. Os ingleses: chegava a ser tocante a ternura da irracionalidade da fé que tinham na sua selecção nacional, mesmo que jogasse mal, mesmo que não se lhes visse a mínima hipótese de vencer.
A fé em si próprio, num povo como num homem, ou é irracional e absoluta e destacada da realidade, ou não é. Não é fé nenhuma. Ou só o é quando sustentada em grandes feitos anteriores, em imensas e profundas tradições culturais próprias.
Quis o cruel destino que a final fosse disputada entre Portugal e Grécia, dois países tradicionalmente colocados na cauda da Europa em termos sociais, económicos e políticos.


         E então, como todos devem estar lembrados, perdemos.


E assim morremos na praia. Depois de termos eliminado os adversários mais temíveis, baqueámos perante a banalidade futebolística dos gregos. Cumpriu-se o fado.
Ganhámos à Espanha, à Inglaterra e à Holanda e no fim da cada um desses jogos festejámos na rua como se tivessemos sido nós os campeões. A nossa pequena e infundada vaidade falou mais alto do que a razão, do que o realismo e do que o sentido das proporções, tão pouco habituados estavamos a ter êxito nalguma coisa. 


Felipão foi besta, foi bestial, e acabou besta outra vez. E nós saímos ainda assim para a rua para festejar não sabíamos bem o quê.
E por vezes parece-me que continuamos a festejar, a festejar  não sei bem o quê, a cada mega manifestação de protesto – ou do mais profundo desgosto de existir…
Talvez acabe por ser normal festejarmos todos os dias as nossas frustrações e as vitórias realmente decisivas e importantes que nunca conseguimos.
Mas pronto, acabámos por ganhar o Europeu. Só que foi como disse na altura uma apresentadora de televisão, ganhámos à nossa maneira.

Há, sim senhor, uma maneira portuguesa de ganhar. Que é perder. Perder e ficar conformado, ou quase contente,  e festejar sempre. E continuar a festejar aqueles que nos têm arruinado a vida. E a votar neles quando é caso disso.
E bruscamente… uma complicadissima crise governativa:  até por aí passou a odisseia portuguesa de 2004. Ao presidente da República coube uma bem dura questão de moral.
Não  sei se toda a gente ainda se lembra do que se passou.
Passou-se que o 1º Ministro foi, disseram, convidado para presidir à Comissão Europeia. Ele a ir daí a abaixo, e das duas uma: ou o presidente lhe aceitava a demissão e empossava um novo 1º ministro indicado pela maioria parlamentar saída das legislativas; ou dissolvia o parlamento e convocava eleições antecipadas. Qualquer das soluções era permitida pela Constituição e seria o momento azado para sabermos quem era e o que na verdade valia politicamente o presidente da república.


Era política a questão. E sendo política podia muito bem dizer-se que não era exclusivamente jurídica, também era moral.
A chatice do momento é que, entretanto, havia coisa de 15 dias, o eleitorado tinha ido às urnas para o Parlamento Europeu e tinha dado um baile à tal maioria parlamentar dois anos antes consagrada. Quer dizer: a expressão manifesta a 13 de Junho nas urnas foi claramente maioritária contra as políticas até então seguidas pelo governo. Tal poderia justificar a convocação de eleições antecipadas. E, a meu ver, moralmente, justificaria mesmo. É a lei que deve servir o Homem, é o povo a fonte de direitos e legitimidades numa democracia, e não o Homem que cegamente terá de se submeter a uma abstracção burocrática.  Achei eu então – hoje, e vividas as atribulações que se vivem, já não acho nada, já espero tudo.

Mas se o presidente pensasse em convocar eleições, o convite ao então 1º ministro –  tão honroso para Portugal, segundo disseram - para ser mais um burocrata em Bruxelas, poderia ser deixado caír, e nessas condições, quando o então 1º ministro aceita o convite de Bruxelas podia-se jurar pelas alminhas que tinha do presidente as garantias todas de que não convocaria eleições antecipadas e procuraria a solução governativa na maioria em vigor, já com dois anos de desgaste político.
Vivia-se um drama, precisamente político. As televisões agarravam nos seus trastes e punham os pés a caminho da rua, a saber as opiniões do populacho.
O país está ao rubro com as vitórias da selecção. O país acredita que Portugal vai ser mesmo campeão Europeu de futebol. O país acredita que Portugal pode estar em vias de ser uma potência relevante no concerto das nações…
E que diz o povo miúdo das ruas à crise governativa?
“Olhe, amigo, primeiro está a selecção. Os políticos que se arranjem”, opina um sujeito.
“Os governantes? Nenhum deles me diz nada. Preocupa-me é a selecção”, diz uma senhora.
“O governo? Isso não me interessa. O que me interessa é Portugal. O que me interessa é a selecção”, diz outra senhora.

“Olhe, minha senhora, sabia que o 1º ministro vai sair do governo?” “Não, não ando a par dessas coisas. O que me interessa é a selecção.”
Anos e anos, horas e horas de debates políticos na televisão, de opiniões de jornalistas, de especialistas,de constitucionalistas, subtilezas de comentadores abalizados, dão nisto – “não ando a par dessas coisas, o que me interessa é a selecção”.


É certo que eles, políticos e comentadores, se divertem muito entre si, mas será que tudo isso fizera menos (oh, muito menos!) pelo país, pela cidadania e pela democracia do que a selecção de futebol?
E por aqui se vê a classe de políticos e comentadores que tínhamos em 2004. Tudo o que afinal eles tinham, até 2004, criado no pagode fora uma crescente indiferença pelo fenómeno político. Mas se calhar era mesmo essa a ideia deles. Para melhor sobreviverem. Em 2004.
E por acaso até se poderia dizer que aquela súbita crise governativa para gáudio de políticos, legisladores e jornalistas só veio foi estragar a festa mais importante que era a festa do futebol e da selecção. E outra coisa não seria de esperar dos nossos políticos de 2004, que não podiam com o protagonismo de outros, não podiam ver uma camisa lavada a um pobre, nem ver ninguém feliz nem que fosse só por causa da bola.
                                                                               
                                                                                     

Os nossos políticos de 2004 eram uns desmancha-prazeres, isso é certo, mas dos nossos prazeres, nunca dos prazeres deles, e tinham que arranjar sempre uma estrangeirinha qualquer para se porem em bicos de pés quando a opinião pública não os queria ver nem pintados.
Por esse drama político, em 2004, se percebia o quanto na democracia portuguesa – tão original que parecia terceiro-mundista – pouco contava a vontade do eleitorado, em comparação com os interesses instalados e a medíocre burocracia jurídico-constitucional.
        Posto perante  o dilema incómodo, inoportuno, o presidente ouvia meio mundo institucional, não queria arriscar-se e empossar um novo governo apoiado pela maioria parlamentar saída das legislativas de há dois anos e que a consulta eleitoral realizada um mês antes, e mais todas as sondagens, diziam já não fazer muito sentido enquanto maioria governante.
E vai daí, o presidente de 2004 levanta da mão e empossa um novo 1º ministro e um novo governo com a obrigatoriedade  – dizia ele - de seguir a mesma política do que o anterior, e contra a qual política, não só o eleitorado se tinha manifestado expressivamente, como o próprio presidente já a havia directa ou indirectamente criticado.
Estava tudo doido? Esteve tudo doido naquele verão quente de 2004? E quem estará, nos dias de 2013, doido varrido?
E quem poderá nos dias de 2013 manter ainda os tais cinco alqueires bem medidos?


Grande desilusão para os incondicionais do presidente de 2004, os ingénuos que tinham votado duas vezes seguidas nesse presidente (dito) de esquerda que acabava por oferecer ao país uma bandeja de respostas de direita.
O presidente de esquerda, e ultra-democrático, que ouvira todas as notabilidades, mas que se esteve nas tintas para os eleitores e não os ouviu. Decepção. Um presidente capaz de tanto 31 de boca na defesa da cidadania, afinal de contas não teria dessa cidadania, senão uma visão burocrática, o votozinho na urna de quatro em quatro anos e era um pau quanto a cidadania… isto em 2004.


Estabilidade!, gritou-se. Mas que estabilidade? A estabilidade de uma má política? Ou a estabilidade de uma boa política, mas feita a pensar em clientelas em que eu não estou incluído?
Ou será que a estabilidade, numa democracia formatada como a nossa, e muitas das vezes ilusória, é um valor absoluto ao qual tudo terá que ser sacrificado, inclusivé a vontade dos eleitores?
Estabilidade de quê e a troco de quê?
Serão as maiorias absolutas situações tipicamente democráticas? Claro que sim, teoricamente, tecnicamente. Mas é estranho que os partidos de governo dêem mostras de já não saberem governar sem ser com maiorias absolutas, quer dizer, numa espécie de ditaduras – só que da maioria – ou seja, ainda mais perigosas. É estranho.
Isto em 2004. Onde é que esses problemas  já vão…
E perante a decisão do presidente de não dissolver o parlamento e convocar as consequentes eleições, é o líder da oposição que desiste. Também ele. Desiste de se opor. Dá a ideia de que os nossos políticos olham para o país, ponderam, pensam, e dizem como o outro: “penso, logo, desisto.” Da maneira como às vezes se estão a ver as coisas, enfim, nem lhes levo a mal por isso. Mas depois também não há cão nem gato nem dirigente de colectividade de bairro ou de vão de escada que não passe o tempo a pedir que cada um assuma as suas responsabilidades.
Foi de morrer a rir, o verão quente e repúblico-bananífero de 2004.
O 1º ministro em funções, depois da estrondosa derrota eleitoral nas eleições europeias, disse ao país que tinha compreendido a mensagem e que iria actuar em conformidade.  E actuou: pisgou-se logo que pôde e quando lhe acenaram com um empregozinho de futuro.


Estando no tempo de 2004, o pessoal ficava banzo com a  facilidade com que os nossos dois últimos 1ºs. ministros tinham saltado fora da carroça quando a coisa não lhes cheirou. 

Parece que ninguém queria nada com a gente. Fugiam de nós, pagode miúdo, a sete pés, ao mesmo tempo que clamavam que só nos queriam salvar dos outros… e assumir as suas responsabilidades…
Eles é que lá sabiam no estado em que isto estava. Lá sabiam, em 2004, que isto nem deveria ter ponta por onde se lhe pegasse por volta de 2013.
Se o governo então nomeado pelo presidente carecia de credibilidade, a decisão do líder da oposição de abandonar também não ajudou o povo a acreditar nos seus maiores. Pois claro que era preferível, sem comparação nenhuma, ter como líder o Felipão.
O Felipão conseguira mobilizar uma nação desmoralizada para um desígnio nacional. E a primeira razão para o ter conseguido foi o não ser político. E se calhar o não ser português.
Uma semana depois de empossado o novo governo, mais de metade de nós não acreditava nele nem no novo 1º ministro nem pintados, e 48% de nós discordávamos da decisão do presidente.    

                                

Mas as manifestações de regozijo com a selecção nacional de futebol pareciam outro 25 de Abril.


Achei eu então que os portugueses tocavam os cumes da vulgaridade e do grotesco quando ganhavam e iam de escantilhão empoleirar-se na estátua do Marquês de Pombal. Porque nem toda a gente sabe ganhar. Na verdade, só os superiores sabem ganhar. Os portugueses aprenderam desde há muito na sua História (História seja do que for) a perder. Ainda não aprenderam a ganhar e a ser belos quando ganham.
Também é verdade que o ganhar só traz chatices e responsabilidades e a responsabilidade é coisa que muito nos enerva. E assim como alguns de nós fazem tristes figuras de novos ricos, nós, como nação, tivemos alguns momentos em que fizemos figura de novos vencedores. Sem o sermos, ainda por cima.
E logo depois viemos a saber que a água das fontes do nosso cada vez mais risonho Portugal, em 2004 não se podia beber por elas, estavam inquinadas, conforme disseram as instituições de defesa do consumidor.
Falta de médicos. Em 2004. Excesso de advogados. (Claro!) Défice de realidade, privilégio à conversa…
Em 2004 previram-se para o Portugal futuro alterações climáticas dantescas, aquecimentos desmesurados. 60/70 dias por ano com temperaturas à volta dos 35º. Erosão acelerada das zonas costeiras. Diminuição da pluviosidade. Pois, é o que faz o tabaco…
Pelas estatísticas, os portugueses ainda vivos em 2004 desunharam-se a consumir ansiolíticos, soníferos, anti-depressivos, e recorreram em grande a iogas, xiatsus, reikis, aromoterapias, thalassoterapias, cromoterapias, musicoterapias, gatoterapias. O stress. O stress foi a causa principal do número de baixas médicas no mundo do trabalho português. Em 2004.
O Tribunal de Contas saiu-se então com os números da Porto 2001 Capital da Cultura. De tombar. Milhões gastos a mais e sem benefícios relevantes para a cidade. Quem é que responde por isto? Eu? O leitor? Ninguém?
Ninguém respondeu. Em 2004. Mas quem pagou e pagará tudo? Ah, isso sim, eu, o leitor… e depois não querem que sejamos populistas… eu, o leitor… em 2013…
         E Portugal tem coisas assim: a organização do Europeu de Futebol foi reconhecidamente impecável. Nem grandes desacatos hooliganescos nem atentados à bomba. E nem grandes aparatos visíveis de segurança, Os críticos mais pirrónicos poderiam, em 2004, ter perguntado: mas qual foi ao certo a participação estrictamente portuguesa nos aspectos de planeamento e organização de uma prova da UEFA? Como alguns perguntarão ainda qual a parte estrictamente portuguesa na organização e planeamento dos Descobrimentos. Será que foram mesmo portugueses que estiveram à frente dos aspectos logísticos do Euro? Chegamos a duvidar. Mas se calhar foram mesmo. E se foram, isso confirma que os portugueses são mesmo assim: capazes de tudo.

Tiraram-se milhões de imperiais durante os dias quentíssimos de Junho de 2004.

O excelso herói do big brother, o célebre Zé Maria, que dava sinais de perturbação mental, quis à viva força atirar-se da ponte e saíu nu para a rua…
Na Justiça tratava-se do caso Universidade Moderna. Todos absolvidos, menos um – mas mesmo esse com pena reduzida. Todos os notáveis de todos os processos em prisão preventiva foram libertados.
O pessoal da pedofilia – tirando o  Bibi - todo cá fora. Podia até haver carradas de razão jurídica para ser assim, mas como eram todos gente importante, o pessoal mais miúdo desconfiou, já se vê.


No verão de 2004 o lamacento caso Casa Pia, com cassetes propaladamente roubadas e depois transcritas e depois publicadas num jornal, aprofundou seriamente a crise já de si grave do regime democrático português – crise tão intensa e profunda que quase dava para perguntar se o regime em que vivíamos ainda se poderia chamar com propriedade de democrático só porque umas quantas formalidades se iam cumprindo sob o crescente desinteresse do pagode.
Houve juízes de turno que mandaram pessoas para a cadeia num dia, para que no dia seguinte outro juíz de turno despachasse que essas mesmas pessoas deviam continuar em liberdade…
         E Portugal continuou a arder. Em 2004. Coisa impensável e absolutamente inesperada.


O governo admitiu a falta de meios humanos e materiais para fazer face à vaga de incêndios. Portugal não tinha meios para acorrer eficazmente a incêndios florestais. Portugal não tinha meios para isto, Portugal não tinha meios para aquilo. Qualquer dia não muito distante Portugal não teria meios para ser Portugal.


                                                                                                                             
Pois bem… é triste dizê-lo, mas depois da sétima visita/avaliação da troika, hoje, 2013, parece que esse dia chegou.

sexta-feira, 15 de março de 2013



   
O VERDI WAGNERIANO 
OS COMPLEXOS DE PARIS

                 

Estamos em ano de Verdi, não é?


Pode dizer-se que desde a  aventura do “Don Carlôs”  Verdi não perdia uma ocasião para casquinar  a propósito da música francesa, a música, os músicos, os críticos, e, antes de todos, a organização da Grande Opera.


Estamos fartos de o saber, Verdi era homem que fazia gala do seu tempo, do tempo que vivia, e, embora moderadamente, procurava estar ao par do que ia acontecendo por esse mundo, na maquinaria agrícola, é verdade, na política e na guerra, sim, mas também na sua profissão, na composição musical. Em 1865 (antes do Don Carlo, portanto) está ele em Paris. E vai a um concerto popular. E leva um objectivo definido. Quer ouvir a abertura do wagneriano Tannhäuser. É preciso conhecer um pouco de tudo e não saber nada do todo.  A condessa Maffei mandara-lhe as boas festas. E quisera logo saber o que Verdi achava desse tal Wagner. E Verdi manda-lhe dizer o que achava. Que ele era louco.


                                                                        

Nesse ano de 1865 Verdi passeia longamente por Paris. Bem vistas as coisas, até gostava da cidade. Gostava da cidade e não se sentia com o mais pequeno apetite para o trabalho.

                

Via o mais que podia de Paris, em especial a parte que  se estava a construir. Mas depois teria que deitar mãos ao trabalho. Já sabia o que ia fazer. O Don Carlo.

                                               

Desde 1850 que pensava naquele Don Carlo. Dois libretistas franceses tinham-lhe proposto aquela história, tirada do drama de Schiller, e nessa altura recusara. Quinze anos depois voltava à ideia. A Opera de Paris queria dele uma coisa em grande.
Temos então que o assunto e os passos da intriga estavam na mente de Verdi há muito tempo. Ou mais propriamente a estrutura dramatúrgica, o traçado histórico das personagens. E tudo circulava entre a realidade do quadro político e pessoal conhecido e a lenda dos actos que medeiam os grandes gestos públicos, as grandes datas.

O infante Don Carlos seria assim um tipo meio amalucado, e o rei seu pai, Felipe II, chegaria ao extremo de o mandar encarcerar numa torre do Alcázar de Madrid, em Janeiro de 1568, para seis meses depois (supostamente) o mandar envenenar. O que daria escândalo político e traria reputação de crueldade inaudita ao grande rei. E quando a princesa Isabel de Valois (raínha de Espanha depois do casamento com Felipe) morre, cai sobre Felipe II a suspeita de também ter mandado assassinar a mulher, e isso em função de outro boato, o qual seria uma ligação amorosa entre ela e o príncipe Don Carlos, seu enteado.


O rei volta a casar. Desta vez com Ana de Áustria. E piora ainda mais a sua histórica reputação, posto que Ana de Áustria, também ela, teria estado na calha para casar com o príncipe Don Carlos. Daí as cruentas famas de um Felipe II brutal e desapiedado assassino da própria mulher e do próprio filho a entrar na lenda da História.


Verdi não se contentou com essa visão simplista. E por isso procurou o que poderia haver por detrás da crónica sangrenta.
Não terá sido (não foi) Schiller a fonte primeira de Verdi no acesso a esta questão política, e passional, com tão colossais potencialidades ficcionais.


A coisa vinha da juventude. Já em Busseto o assunto provocara o criativo Verdi e levara-o à leitura da tragédia Fillipo, de um dramaturgo italiano das suas preferências, Vittorio Alfieri. Alfieri, um liberal, um nacionalista, um anti-clerical, um herói das ideias republicanas, um livre pensador, com o qual não nos parecerá hoje nada de mais Verdi ter-se identificado.  A tragédia Fillipo servira a Alfieri para denunciar o culto do medo que os poderes impunham ao povo, servindo-se literariamente da corte de Felipe II, chamando ao palácio real de Madrid um templo, chamando Deus ao rei, e deixando aos cortesãos a culpa de serem os ministros oficiantes desse culto de terrores.
Foi o Felipe II de Alfieri, pode dizer-se, a complexidade humana da personagem, que despertou as simpatias – e a curiosidade – de Verdi, aquele excruciante debate íntimo entre o dever de Estado e a sensibilidade de pai, e um pai sobre o qual recaía o político dever de sacrificar o filho, fosse por questão de moral política, fosse por questão de moral pessoal, e sugerindo desde logo a Verdi a música para os pensamentos mais tremendos que muitos anos mais tarde seriam colocados por ele na boca do celebrado monarca – ah, e se Deus, para além de todos os outros, me desse também o poder de ler nos corações dos homens, põe Verdi por música na boca do rei.

                               

Ah, esse, sim, o poder… o poder que é absoluto na vontade de um rei dito de direito divino, mas que mesmo assim será sempre humanamente relativizado, e limitado.
Já na tragédia de Alfieri Felipe II nota a eventualidade de uma partilha de sentimentos a que por condição estaria obrigado um rei que se fazia equivaler a Deus. Ele pode condenar o filho ao suplício, mas acentua que é o dever de Estado que lhe impõe tal decisão, e nunca o seu foro íntimo de pai, e assim excluindo de si a culpa terrível que o faria ir direitinho para as profundas do inferno, pesasse embora a sua sufocante religiosidade.   
Em Alfieri, Verdi leu um Felipe II como personagem atormentada e ambígua, todo ele dúvidas, e todo ele, por isso mesmo, virtualidades dramáticas. Felipe II era protagonista de um dilema que se coloca aos homens excepcionais. Não admira então que na ópera que Verdi acabará por escrever a figura de Felipe II, pela desmesura humana e pelo contraste psicológico, se erga com foros de principalidade, a roubar ao protagonista justamente o protagonismo. Felipe é o soberano que comanda com mão de aço a fatalidade da maior parte do mundo então acabadinho de conhecer, e no entanto um homem com um coração sensível aos afectos, provavelmente o fragilíssimo monarca mais poderoso da terra.


Verdi identificou-se com Felipe. Como músico, também ele pautava a sua vida pelo rigor (por vezes rabugento) e pela intransigência no essencial, capaz de, naquilo que de mais forte e verdadeiro lhe brotava da alma, a música, deixar transparecer o verdadeiro carácter, a ternura, a indestrutível confiança nos valores humanísticos, a compaixão, a solidariedade.
Interessante saber (julgo eu) que no tempo em que Don Carlo é concebido Verdi teria a mesma idade atribuível a Felipe II na época em que decorre a acção. 51 anos. Idade difícil (como todas), e mais um ponto de identificação que pesou seguramente na construção músico-dramática da personagem.
Como Verdi na propriedade de Sant’Agata, algo isolado do mundo, também reza a mitologia que Felipe passava pela vida em reclusões voluntárias, devido à grande fé e à carga de poder que lhe pesava. E todavia rodeado de cortesãos que não deixavam de intrigar, eventualmente predispondo o monarca contra o filho, fazendo dele réu de heresias e de rebeliões secionistas – isto para nada dizer da candente questão dos alegados amores com a madrasta.
(Sobre a verdadeira história da curta vida do príncipe Don Carlos aconselha-se a leitura de um dos próximos números deste blog. A não perder!)


Fico a saber que a tragédia de Schiller aparece a público depois da obra de Alfieri. Chega às mãos de Verdi em 1840, andava ele por  Milão e era amigo chegado de Andrea Maffei, precisamente o tradutor italiano de Schiller. Também não parecem restar dúvidas de ter sido o mesmo Andrea Maffei a entusiasmar Verdi no universo schilleriano, tanto dele se serviu em toda a obra.
A respeito do espanholismo verdiano...


                                                       

Parece que a Espanha era o país estrangeiro entre todos que mais interessava o chamado cisne de Busseto. Pelos contrastes – pela possível musicalidade dos contrastes. Pela força telúrica dos dramas da identidade hispânica. Ou pela interacção existencial e política dos conflitos: opulenta e beata nobreza de espada por um lado, povo deixado à miséria e aos deslizes heréticos por outro. Ou pelo orgulho. Ou pela força da paisagem, quer humana quer geofísica. Pela adustez monumental do carácter? Enfim, por tudo e mais alguma coisa…
Quando de visita a Madrid, Verdi dedicou algum do tempo livre a estudar o Escorial. E veio de lá com impressões muito vivas, se bem que não demasiado agradáveis.


Do Escorial não gostei. É uma peça de mármore maciça, severa, feita à imagem austera de quem a mandou construir e habitou.
Ao tempo da acção da ópera Don Carlo, Isabel de Valois tinha 13 anos – se fosse hoje, Felipe II estaria entalado como pedófilo - régio pedófilo, mas mesmo assim…


Aporrinhada pelo tédio e pela severidade religiosa do ambiente, a pobre deve ter vivido na corte espanhola em permanente crise depressiva. Não seria para menos. Mesmo que os biógrafos possam sustentar que a chegada de Isabel à corte de Madrid terá iluminado de alguma alegria e de breve felicidade a vida do rei.
Outra questão interessante, penso eu, é o trabalho de Verdi com a personagem do cardeal Grande Inquisidor. Quis que ele fosse muito velho – andaria pelos 90 anos. Quis que ele fosse cego. Não sei se Verdi o quis assim, de imponente estatura, mas o certo é que todos os grandes inquisidores que eu vi até hoje eram de imponente estatura – como geralmente são de alta estatura os baixos de voz. Impressiona ver no palco aquele cardeal nonagenário, cego, seguido por dois sicários, apoiado a uma inamistosa bengala, passo cambalante, a entrar nos aposentos privados do rei às tantas da madrugada e recusando sentar-se.

              

Nem em Alfieri, nem em Schiller esta personagem existia. Foi Verdi que a inventou. E com felicidade. O efeito teatral da eminência parda, de um poder mais alto que o poder absoluto, a impor a sua moral é assustador. Acho-a uma das mais geniais invenções da História da ópera. E também a mais engenhosa e artística das vinganças pessoais do autor – vamos lá a ver, a arte também serve para isso...


A invenção da personagem do cardeal Grande Inquisidor foi um momento glorioso de ajuste de contas do compositor com um dos seus fantasmas, em vista da pouquíssima simpatia que nutria pelos padres.
Em Verdi, o Grande Inquisidor, ainda que podendo ir ao arrepio da verdade histórica, não convive com o rei, não se condói com os dilemas pessoais, não pactua com o poder político e respectivas conveniências, e menos ainda pactua com o pretenso laxismo da corte. É um fanático fundamentalista. Por isso Verdi o terá feito cego. Tem um conceito rígido do papel da Igreja face ao Estado e do papel do Estado face à Igreja. Por isso Verdi o terá feito muito velho.
                                          
                                      
Verdi nunca bebera os ares por um certo padre lá da terra, Don Andrea Pettorelli, o pároco, o primeiro a levantar a lebre de que Verdi, viúvo recente, tinha metido lá em casa uma amásia e vivia com ela das portas para dentro, Giuseppina Streponi, essa mesma, coitada, era ela.
Em 1865, no limiar da composição de Don Carlo, o padre Don Andrea Pettorelli estava reformado. Mas vivia ainda em Busseto, muito perto de Verdi. E estava já muito velho. E estava cego.


Outra invenção de Verdi foi a cena do Auto-de-Fé.


A última queima de herejes da época (foram 24 deles) tivera lugar a 9 de Março de 1561, pouco depois do casamento de Felipe e Isabel de Valois. Mas é por imperativos dramatúrgicos que Verdi  a transfere para um dia de 1568, ano da prisão de Don Carlos e ano da morte de Isabel. 


Verdi precisava de uma grande cena pública de confrontação entre concepções de vida, entre Reforma e Contra-Reforma, entre o poder régio e o seu contrapoder. E, enfim, entre pai e filho.
Depois da estreia em Paris houve quem dissesse que pela primeira vez na sua carreira Verdi teria subordinado a inspiração musical aos elementos poéticos e dramatúrgicos do libreto. Podia ter sido isso a empanar o sucesso dessa estreia. E também que, do ponto de vista formal, a obra teria ficado num mezzo del cammin entre o que já de Verdi era conhecido (os números fechados, as árias) e o que, a partir dali, seria possível adivinhar na sua produção futura.


Quando de Verdi são de esperar romanzas de efeito, bonitos duetos, cenas de conjunto em melodia imediata e comunicativa, bom, nada disso aparece, e o público admira-se. O público parisiense ainda esperava pelo Verdi da Traviata, do Rigoletto, do Baile de Máscaras, e esse Verdi estava em subtil processo de transformação, metamorfose, de resto já ensaiadas pouco antes, nas revisões de Simon Boccanegra e Macbeth.
Mas, independente do juízo parisiense, a carreira de Don Carlo prossegue. Fora de Itália, primeiro, em Londres, Covent Garden (com trechos bisados e 50.000 libras de receita).
Encarreguei o Escudier de me dizer sinceramente se a produção de Londres tinha sido ou não um sucesso, um real sucesso. Se tivesse sido… que diriam os de Paris quando soubessem que em Londres se montava uma ópera em quarenta dias quando eles levavam quatro meses?
 Estreia italiana acontece pela mão do afamado chefe de orquestra Angelo Mariani. A 27 de Outubro de 1867, em Bolonha. O  êxito é estrondoso. Verdi prima pela ausência. Seguir-se-ia o Scala. E depois, Roma, Nápoles Florença e por aí fora. Novas versões vão surgindo, cortes aqui, cortes ali, em quatro actos, em cinco actos, Milão, 1884, Modena 1886, e sendo todas essas modifcações mais ou menos abençoadas pelo autor. A estreia infausta de Paris é que não lhe saía da cabeça.


A questão é que… enfim… em Paris ensaia-se durante oito meses. E para obter o quê? Uma execução fria, sem alma, sem sangue. Antes disseram que os meus ritmos eram fáceis, que a minha orquestração era sumária. Com o Don Carlo disseram que me tinha germanizado. Só de pensar nos ensaios do Don Carlôs fico com arrepios pelo corpo todo. Não, a minha natureza é a de um urso. Não me dou nada bem com os veludos das grandes capitais europeias                                         

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Que os compositores franceses fossem os únicos homens de génio, ele dava isso de barato, talvez fossem. Que os cantores franceses fossem os melhores do mundo… seriam (ainda que, segundo Verdi, tivessem que aprender a sério a colocar a voz), e tudo isso estava certo. Mas que na Grande Opera se executasse bem a música, oh não, isso é que Verdi não levava à paciência…
Já não era pelo trabalhão de escrever uma ópera. Já nem era por se intimidar com o juízo do público, que não se intimidava nada.
O problema é a certeza que tenho de em Paris não ser capaz de fazer soar a minha música como eu quero. Há muitos conhecedores e muito entendidos, e cada um julga segundo os próprios gostos e conhecimentos, e segundo um sistema, e sem levar em consideração a personalidade do autor.
Disse-se que um jovem Verdi estivera para vir trabalhar em Portugal como maestro do S. Carlos. Por sorte inaudita dele não veio. Veio Angelo Frondoni. Que teria sido de Verdi se caísse na asneira de vir apodrecer artisticamente ali para os lados do Chiado? Não teria com toda a certeza sido Verdi.


Apesar de se perfilar como figura de topo no mundo lírico internacional do tempo e expoente  máximo da italianidade musical e cívica, Verdi começa a ser acusado de cultivar tendências de estrangeirismo – embora se saiba ser vêzo conhecido dos italianos denunciar em arte como estrangeiro aquilo que não lhes agrade por aí além. E cada nova ópera de Verdi começa então a custar a entrar no imediato favor do público. Mas a bem dizer era só questão de tempo. À medida da multiplicação das récitas a paixão popular desencadeava-se e a partir daí o público só esperava que o que ele fizesse a seguir se enquadrasse no mesmo género. A maioria não podia admitir que Verdi se renovasse na sua escrita a cada nova ópera.
A cada nova ópera, bradam os críticos transalpinos aqui del-rei que Verdi está imbuído de wagnerismo.
Mas também já em 1851, por alturas do Rigoletto – e não pode haver ópera mais italiana do que o Rigoletto – os mais marretas dos críticos tinham dito que Verdi suava germanismo musical por todos os poros.
Os críticos? Mas que críticos? Ora aí está: os franceses.
E por aqui se pode avaliar da real importância da crítica que é contemporânea aos dias em que as obras são publicadas. Mas isso seria uma outra, e longa, conversa…


Dez anos antes de Don Carlo, é preciso dizê-lo, os críticos e musicólogos italianos, também eles, já tinham examinado à lupa a partitura de Simon Boccanegra e descoberto nela vestígios suspeitos, quer dizer, indícios comprometedores do uso que Verdi faria do sistema do “famoso Wagner, aquele que está a subverter a música dos nossos dias”.
Pois bem, sou obrigado a confessar-me. Sou um wagneriano quase perfeito,  ironizava ele.
Mas a verdade é que nas imediações cronológicas da estreia e subsequente desenvolvimento da carreira de Don Carlo, por 1868, em Junho, acontece a primeira representação absoluta de Mestres Cantores, no teatro da corte da Baviera. Wagner asssiste no camarote do rei. E no fim da récita manda às urtigas a etiqueta e tem o atrevimento de se levantar e falar ao público: a obra que tinham acabado de ver e ouvir era a mais orgulhosa afirmação da supremacia musical alemã.


Depois da estreia de Don Carlo no Scala, o governo de Vittorio
Emmanuelle II distinguiu Verdi com a comenda da Coroa de Itália.
Emilio Broglio é o ministro encarregado da tutela cultural, o mesmo que, em carta enviada a Rossini, e depois tornada pública, declarara a falência da arte musical italiana. Depois de Rossini, escreveu ele, há bem, portanto, os seus quarenta anos, pergunto o que produzimos nós de bom e música? Quatro óperas de Meyerbeer?
É este ministro Broglio quem envia a condecoração a Verdi. Verdi acusa a recepção. E escreve ao ministro:
Muito bem. Cá recebi a comenda instituída como honraria para os que pelas letras, pelas armas ou pela arte prestigiaram a Itália. Contudo, e como V. Exa. sentenciou, que de há 40 anos para cá nem uma ópera se fez em Itália, não percebo bem a razão por que me condecoram. Deve ter havido um engano na morada. E é por isso que devolvo o pacote ao remetente.


quarta-feira, 13 de março de 2013







A economia política liberal foi um dos melhores exemplos de utopias que podemos citar. Imaginavamos uma sociedade em que tudo seria reduzido a tipos comerciais, sob a lei da mais completa concorrência; reconhecemos hoje em dia que essa sociedade ideal seria tão difícil, de realizar quanto a de Platão; mas grandes ministros modernos deveram a sua glória aos esforços que fizeram para introduzir alguma coisa dessa liberdade comercial na legislação industrial.

                                        GEORGES SOREL - 1908