domingo, 24 de março de 2013



A NOVA ORDEM GLOBAL DO  

                        ÓPIO

 

Sabendo o que sabemos da presente conjuntura do mundo e da vida, ou, enfim, do dinheiro e suas aventuras, não percebo toda a espanto-indignação ao sabermos que a troika quer ir às economias dos pobres cipriotas. O capital é danado de ganacioso. E de invejoso de alguma camisita lavada de um pobre…

 

Vamo-nos deixar de histórias da carochinha quanto às maravilhas inebriantes da globalização e deste mundo novo, minhas senhoras e meus senhores. As maravilhas da globalização são maravilhosas, e propagandeadas como maravilhosas, pela liberalidade e impunidade que os estados garantem às várias redes do crime a operar globalmente.

        O Monde Diplomatique, no ano 2000, escrevia: ao permitir que o capital flua sem controlo de um extremo a outro do mundo, a globalização e o abandono da soberania juntaram-se para promover o crescimento explosivo de um mercado financeiro fora da lei. É um sistema coeso, intimamente ligado à expansão do capitalismo moderno e baseado na associação de três parceiros: governos, multinacionais e máfias.

Pois é, a nova ordem está aí a rebentar – ou já aí está. E pelo andar dessa carruagem nada garante que essa nova ordem seja melhor para o cidadão comum do que a velha. Porque há jornalistas internacionais que se dedicam à investigação, que descobrem coisas escondidas que nunca são desmentidas, que publicam livros com  os resultados dessas investigações e que nos põem a alma e a cidadania num inferno.

A guerra do Kosovo existiu, ou teve como causa, diferendos relativos ao tráfico de droga. Onde é que cabe na cabeça de alguém que uma guerra e os consequentes morticínios e genocídios possa acontecer em razão de um fenómeno que para nós, cidadãos portugueses despreocupados (e menos, e pior informados, tenho a certeza disso, do que quaisquer outros) entendemos como próprio de marginais inclassificáveis, e só com importância real quando temos filhos adolescentes, quer dizer, uma importância situada, reduzida ao nosso pequeno mundo pessoal e familiar… sim, onde é que cabe na cabeça de alguém que o que move os drogados do Casal Ventoso ou da Curraleira, possa dar lugar a uma guerra de contornos europeus - ou, quem sabe, um dia, mundial.

                                                                                                 

É que, com os lucros do tráfico de droga, vêm por acréscimo os lucros do contrabando de armas. Uma coisa está intimamente ligada à outra. E se uma coisa se liga com a outra, para haver lucro no contrabando de armas tem que haver guerras, e para haver guerras, pensavamos nós, teriam de se reunir poderosas razões de alta política e haver lesão de interesses dos povos. Mas parece que não. Parece que as razões da alta politica e do interesse dos povos são invocadas como biombo para as verdadeiras razões de uma guerra moderna, e que serão, ou poderão ser, afinal de contas, os interesses dos poderosos grupos económicos privados.
Na guerra do Kosovo, pelo que tomo conhecimento no livro acabadinho de ler do conhecido jornalista internacional Daniel Estulin,  Os Senhores da Sombra (editado pela Europa-América), um papel determinante caberia a Albânia, país dominado por grupos organizados do crime, que lá cultivam, processam e armazenam uma enorme percentagem das drogas a comercializar na Europa ocidental. Seria o lucro desse negócio a financiar os rebeldes do Kosovo.    
                                                       
                                             

Lê-se no livro de Daniel Estulin (há quem diga que trabalha para os serviços secretos russos, não sei): pondo de lado os contos de fadas populares, a guerra do Vietnam foi sobre drogas. Os franceses foram expulsos e o consequente vazio foi imediatamente preenchido pela CIA, que assumiu o comércio da droga, o processamento e a distribuição. Nesta simples perspectiva pouco fica para visões idealistas da guerra do Vietnam como o conflito entre o Bem e o Mal, a Velha Glória contra a Foice e o Martelo, etc.


Talvez seja exagero. Digo eu. Mas diz ele ainda que as forças armadas são alimentadas, e bem, a dinheiro. Compete-lhes assegurar os recursos e manter operacionais os mercados. Guerra e drogas podem formar um par indivisível.


Pois, o Afeganistão. A ideia mestra, no dizer de alguns jornalistas internacionais, é uma ocupação para proteger a zona mais lucrativa de tráfico de drogas deste mundo.


     E se me dissessem que a principal actividade da CIA está relacionada com os negócios da droga eu não acreditava. Mas quando leio a transcrição da exposição que um tal senhor Michael Ruppert enviou ao congresso dos EUA fico na dúvida.


Fui detective de narcóticos na polícia de Los Angeles e posso garantir sem dúvida alguma, e com provas, que a agência (CIA) trafica drogas neste país há muito tempo.

A CIA traficou drogas durante a época do famoso caso Irão-Contras? Sim. Segundo um escrito do personagem principal do caso, o coronel Oliver North, de Julho de 1985, 14 milhões de dólares para adquirir armas para os contras da Nicarágua tinham vindo do negócio das drogas.
                                                            Ou mais: ao longo dos 50 anos da sua existência, a CIA não deixou de traficar drogas. Designadamente, como já se disse,  nos tempos da guerra do Vietnam.
A CIA seria responsável pelos principais movimentos da droga por esse mundo, tanto quanto pelas operações de branqueamento dos lucros. De cada vez que a CIA entra em acção num cenário critico por esse mundo de Deus acontece uma explosão de heroína na região.


Se o Iraque nunca foi uma entidade de primeira plana nos assuntos da droga, é hoje uma zona fulcral de escoamento da heroína afegã – diz o Conselho Internacional para o Controlo dos Narcóticos.
Ingenuamente, perguntaram a John Gotti Jor., um dos grandes patrões da Mafia americana, se afinal negociava ou não com narcóticos, ao que ele replicou: não, de maneira nenhuma, ninguém consegue nesse ramo fazer concorrência ao governo.
Num relatório de um Inspector Geral da CIA, pode ler-se que o governo do EUA teria facilitado o tráfico de drogas. A CIA e o Departamento de Justiça produziram um memorando permitindo à CIA ajudar os aliados dos EUA a traficarem drogas sem dar satisfações – e, suponho eu, com vista ao seu auto-financiamento.
Coitada também da CIA… como se dos serviços secretos desse mundo fosse só ela a ter as culpas todas do cartório. E o MI 6 inglês? E a Mossad israelita? E a DGSE francesa? E o FSB russo?


O Monde Diplomatique fala dos serviços de informação dos EUA, de bancos, e multinacionais como actores na rede global de lavagem de dinheiro.

   

Cartéis, especulação com informações, balanços fraudulentos, subtracção de fundos públicos, espionagem, chantagens – é este o mundo global, a nova ordem, que nos passa debaixo do nariz, a nós, cidadãos normais tapadinhos de todo; um mundo global (e ainda por cima, ou por isso mesmo, em severíssima crise financeira) de que os televisões e os jornais não falam, ou falam muito pouco, e pela rama, e de modo um tanto selectivo – presumivelmente estão orientados para isso…
Nenhuma das actividades fraudulentas e imorais de que falei poderiam existir, e acontecer, sem os governos fecharem piedosamente os olhos.


Um mundo e uma globalização subterraneamente governados por gangsters o sistema em que vivemos? Não vejo onde está a dúvida. Basta mesmo olhar para o que se tem passado à nossa escala pequena e pelintra.


                                                               

O lucro global gerado pelo tráfico de drogas pode ascender aos 700.000 milhões de dólares/ano, incluindo ópio, heroína, cocaína, marijuana, morfina, crack e outros. Demasiado dinheiro para ficar debaixo do colchão. Demasiado dinheiro para não interferir nos circuitos mundiais do dinheiro e no mercado dos capitais.
Demasiado dinheiro para não constituir componente essencial do sistema financeiro à escala global, pela liquidez rápida que proporciona e que se canaliza para as diversas bolhas financeiras, em acções e investimentos.
A questão seria saber como é que 700.000 milhões de dólares podem circular no sistema bancário internacional passando ao lado da vigilância das autoridades nacionais, as mesmas que não nos perdoam um cêntimo de IRS.
Já houve tempos em que não, mas hoje em dia negociar com estupefacientes é ilícito, e os lucros do negócio são ilegais. Ora antes que o dinheiro desses lucros possa ser usado legalmente ele tem que desaparecer, ser escondido, e depois legalizado, que o mesmo é dizer reciclado em operações financeiras legais.

Por exemplo, uma empresa pode pedir de empréstimo a um barão da droga uma enorme quantia a uma taxa de juro inferior, desde que se comprometa a branquear esse dinheiro sujo, ganhando com isso milhões. 100 mil milhões de dólares ilegais, portanto inúteis, emprestados a 5% a uma grande multinacional, transformam-se em dinheiro legal, limpo, e em cash.
Relatório do FMI de 2001 – A produção e branqueamento do dinheiro da droga é fundamental, porque estabelece canais para o fluxo de outros lucros provenientes do crime.
Segundo o Foreign Office, a lavagem de dinheiro processa 1,5 biliões de dólares, o que representa entre 2 e 5% do PIB global – quer dizer, superior ao PIB de todas as economias do mundo, deixando de fora as cinco maiores.


Para quem não saiba, o ópio cultiva-se aqui e ali pelo mundo. Na América da Sul, no Laos; na Birmânia, na Tailândia; no Afeganistão, no Paquistão, na Ásia Central. Os campos de papoilas florescem numa faixa de 7.250 km de montanhas desde o sul da Ásia, desde a Turquia, passando pelo Paquistão. E o ópio é tratado por tribos das montanhas.
Para quem não saiba, a  planta dá uma flor, sim, a papoila, justamente, e depois, uma semana depois, as pétalas da flor caem, e fica uma vagem que segrega a goma de onde se extrai o ópio bruto. A goma do ópio é mandada para a refinaria e na refinaria se transforma, por processos químicos, em morfina e heroína.

Os cultivadores das tribos da montanha  são pagos em barras de ouro de um quilo cada, cunhadas pelo Crédit Suisse. Mas as barras de ouro de peso normal são comercializadas em Hong Kong pelos grandes comerciantes de ópio bruto, ou da resultante heroína, já processada por metade.
O ópio em bruto vem pela Turquia, chega, por exemplo, à Córsega, e processa-se e transforma-se na Europa. Mas no Médio Oriente há espaços muito lucrativos de refinação de heroína. Na Europa, as refinarias são referenciadas ali para o sul de França, entre Marselha e Monte Carlo, e dizem até as más línguas, não se sabe se com verdade, que a própria família dominante do Mónaco pode estar envolvida no ramo - aliás, segundo leio, o Mónaco é o centro mundial por excelência no processamento do ópio – o que dificilmente seria possível sem o conhecimento dos Grimaldi. 

                                                                

E para não fugir ao âmbito das teorias de conspiração, infelizmente muitas delas com boas pernas para andar, consta em certos meios que a princesa Grace não foi vítima de desastre nenhum, foi mas foi assassinada, e porque o marido, o príncipe Rainier, crendo-se intocável por aquela malandragem do ópio, se tornara demasiado ganancioso no que respeitava aos lucros da indústria clandestina. Foi a mulher que pagou aquelas favas. E um indício bem robusto disso é o caso de o automóvel onde ela seguia, um Rover, continuar a estar sob custódia da polícia francesa.


Ainda no capítulo da conspiração fala-se da destruição global da procura. 
Para destruir uma economia destrói-se a procura – nós, portugueses, ainda nos vamos torna catedráticos nessa matéria. 
E promove-se uma transferência de riqueza. Alguns perdem as casas, as acções, o dinheiro das poupanças, mas atrás desses virão outros que comprarão tudo por meia dúzia de patacos.

A questão do uso de drogas como garantia de vantagens económicas pode remontar aos negócios da companhia inglesa das Índias Orientais, através do contrabando de ópio da Índia para a China. E estou a falar de fins do século XVII em diante, e  pelos seus bons 300 anos, com milhares de milhões de lucros para as elites inglesas.

                        

No século XX, os negócios com drogas foram declarados ilegais. Significa isso que os proventos desse negócio, para serem efectivos, teriam de ser reintegrados na circulação legal dos dinheiros. Teriam portanto de ser, como hoje se diz, branqueados, lavados. Era bagatela que podia montar aos 700.000 milhões de dólares/ano.
Aliás, olha-se para a História e constata-se a ascensão do Ocidente entre 1500 e 1900. No centro dessa ascensão, de uma maneira ou de outra, é perceptível o rasto do comércio da droga, e sendo o ópio a primeira das drogas viciantes a desempenhar o papel principal.
Os europeus produziram e forneceram ópio às populações que pretendiam subjugar. Até começar a render lucros que beneficiavam antes de mais as instituições que favoreciam o negócio, companhias inglesa e holandesa das ìndias, o governo colonial britânico da India.
Império britânico, negócios do ópio e ascensão do capitalismo foram desenvolvidos a par e passo. E o decaír do império britânico acompanha a queda do comércio do ópio. Esquisito, não é?
Talvez nem tivesse havido império britânico sem o ópio. Os lucros do ópio e respectiva exportação pagavam todos os débitos e proporcionavam abundantes rendimentos.


É que, para os ingleses, o negócio do ópio não era uma questão de moral. Sim, questão de moral seria ganhar mais ou menos dinheiro num negócio. O ópio para os ingleses do séculos XVII e XVIII era também um instrumento da política nacional; era o suporte das finanças públicas. O comércio do ópio era louvado pelas grandes cabeças economistas liberais, Adam Smith, Stuart Mill, Thomas Malthus.

        

           O mundo podia envenenar-se de ópio, mas o império de Sua Majestade com ele fabricava nobres e estadistas de grande lustro.

Hoje, os milhões da droga circulam imaculadamente pela economia mundial e ajudam decisivamente os mercados financeiros de Wall Street. Não há razão discernível para abolir o comércio das drogas. E quanto mais ilegal melhor.
Mas como é possível que grandes e respeitabilíssimas instituições bancárias de relêvo planetário participem nos negócios da droga?
No seu livro, Daniel Estulin esboça, esboça, apenas, acho eu, um princípio de explicação, que reside no financiar aquisições legítimas de empresas registadas e licenciadas para actuarem como importadoras de produtos químicos. Caso do Hong Kong & Shanghai Bank através de uma empresa esquisitamente chamada de Tejapaibal.
 A empresa Tejapaibal importa para Hong Kong os produtos químicos precisos para processar o ópio bruto e transformá-lo em heroína através de várias manipulações e sem dispensar o anidrido acéptico – que por acaso também serve para fazer película de fotografia e cinema e aspirinas. E lá calha que os mais importantes mercados mundiais de anidrido acéptico estejam no Afeganistão. Será que no Afeganistão as correntes de ar são fortes e eles se constipam muito?

         
Outra instituição é o Bank of Nova Scotia, de Toronto, Canadá. Negociantes de ouro e líderes do mercado do ouro em Toronto, e banco preferencial das empresas mineiras canadianas e trabalhar em países do dito Terceiro Mundo.  
Vamos lá a pôr os pezinhos na terra: negócio é negócio; aqui não há moral, a não ser a do lucro máximo; o crime financeiro é um mercado florescente, e muito bem organizado, que tem a oferta e a procura como base ideológico-moral de sustentação.
Bom, a cumplicidade entre os grandes negócios e o liberalismo político-económico do laissez faire governamental concorrem decisivamente para o crime em larga escala do branqueamento e reciclagem de lucros fabulosos e ilícitos.
As grandes multinacionais precisam do apoio dos governos, precisam como pão para a boca da neutralidade das instâncias reguladoras. De contrário, não se aumentam os lucros – e os lucros, diversamente dos salários, têm de aumentar constantemente. De contrário, não se consolidam posições de mercado; não se resiste à concorrência e não se esmaga essa concorrência. Se os políticos se fingem de mortos por alguma razão é: é porque sem o apoio e os financiamentos das multinacionais não se mantinham no poder. É nesta aliança de interesses que se baseia a nova ordem, o maravilhoso mundo novo,  e que assentam as bases do capitalismo moderno. 
Empresas e instituições como o Hong Kong & Shanghai Bank, o Bank Of Nova Scotia, o Royal Bank of Scotland, o Chase Manhattan Bank, o Citybank, a General Electric podem obter 40 milhões de lucros adicionais que provenham do negócio da droga, o que multiplicaria por 20 o lucro das empresas, gerando um aumento líquido do valor da empresa na ordem dos 800 milhões de dólares.
Em fins de Junho de 99, a Associated Press informava que Richard Grasso, presidente da Bolsa de Nova York, viajava para a Colômbia a fim de se encontrar, na selva, com um representante de Raul Reyes, chefe das FARC, e principal agente narco-terrorista colombiano. Qual o objectivo da estranha viagem do presidente da Bolsa de Nova York à selva colombiana? Transmitir uma mensagem de cooperação e discutir o investimento estrangeiro e o papel das empresas americanas na Colômbia.  E que tem a Colômbia que interesse aos americanos? 

Ora… dinheiro. E que dinheiro? Dinheiro da droga. Para cima de um bilião de dólares acumulados. Wall Street baba-se de ganância sempre que pensa poder canalizar aquele dinheiro através dos seus respeitáveis mercados financeiros.
As mais poderosas empresas do mundo podem ter beneficiado – indirectamente? – dos lucros da droga. E é assustador ler que o terrorismo internacional e os mercados financeiros teriam por último escopo assegurar a permanência do capitalismo à escala global. Coitado dele, capitalismo, tão vilipendiado que tem sido, e que tão desesperado deve andar ao verificar que a sua lógica de funcionamento é desmascarada a cada um dos dias actuais e posta em causa como primeira responsável pelas dramáticas condições mundiais. E também pode ser assustador saber o quanto os negócios da droga contribuem para a subsistência desse sistema capitalista.

Deve ser a última calúnia que se inventa contra o pobre desgraçado do sistema capitalista, tão incompreendido, e tão vítima da ingratidão dos negativistas. E até nem estou a ser por demais irónico. Quanto do nosso bem-estar material se deve ao facto de vivermos em sistema capitalista? Quanto da prosperidade de tantas famílias se deve ao capitalismo? Quantas fortunas vertiginosas são devidas ao sistema capitalista?
Pois não, não passa pela cabeça de ninguém viver noutro sistema de vida. Socialismo? Comunismo? Não se sabe ao certo. E o que se sabe, pelo que se sabe, não encorajou ninguém, e até provocou uma crise ideológico-moral que deixou campo aberto justamente ao capitalismo, e na sua forma mais agressiva.

Viver em capitalismo sob controlo e regulação reais de uma entidade moral superior, o Estado, é uma coisa. Viver em capitalismo quando o Estado se torna demasiado cúmplice e se demite, e demitindo-se permite a lei da selva na vida quotidiana do cidadão comum, é outra. E a diferença entre as duas é como do dia para a noite.
Leio que do século XV ao século XX todo o funcionamento das nações, dos estados, foi assegurado pelo comércio dos estupefacientes, do ópio, em concreto. Directamente ou indirectamente. Tanto faz. E se por milénios o ópio serviu fins medicinais, a certa altura da História descobre-se que a substância cria dependências. É quando começa a dar lucros.
Ironias desta vida.
Fala-se hoje dos narco-estados, a Colômbia, o Afeganistão. Segundo o livro de que me sirvo, o primeiro de todos os narco-estados da História tinha a capital em Londres.
Toda essa história das campanhas contra a droga sempre me cheirou a esturro e hipocrisia, sempre de deu a sensação de que alguém andava a enganar alguém. Cheirou-me como cheirou a qualquer pessoa que tivesse reflectido ligeiramente sobre o assunto. Se os governos, as polícias, os exércitos quisessem acabar mesmo com a droga há quanto tempo não o teriam feito?


Mas como é que se pode acabar com um negócio que proporciona lucros das mil e uma noites?
                                               
                                                                       
                                                                           
Ninguém vai acabar com a droga enquanto ela der as fabulosas e rápidas fortunas que dá a ganhar a tanta gente por todo o mundo. É uma questão de moral. Uma certa e específica moral. A  moral que passou, pelos que vemos e ouvimos todos os dias, a reger o mundo em que vivemos,
E para os governos acabarem com a droga competir-lhes-ia promulgar leis que obrigassem os fabricantes de uma coisa que se chama anidrido aséptico – produto indispensável ao fabrico de heroína – a manter registos rigorosos, por forma a saber-se quem compra o produto, para quê, para quem e para onde. Claro que, havendo tanta gente poderosa a lucrar com o negócio, esse governo não teria longa vida. 
Ai do 1º ministro de um governo que tomasse tais medidas legislativas. Seria assassinado no dia seguinte.



quinta-feira, 21 de março de 2013








A MORAL DE BAYREUTH – A RELIGIÃO

       Um ideal que sobrevive e vence a prova da realidade à custa de tantos precalços pode tornar-se uma religião.


       Pode ser uma questão de tempo. E o tempo, como se sabe, não tem moral.
     E é assim que três anos depois da ascensão de Hitler ao poder de chanceler do Reich, Carl Gustav Jung, o psicanalista, jornadeava pelos subterrâneos da mentalidade alemã: sempre estivemos convencidos de que o mundo moderno era um mundo racional, fundado em pressupostos económicos e políticos, mas neste momento, ano da Graça de 1936, é bom que o esqueçamos. Wotan é novamente uma hipótese no nosso quotidiano, já que mais pelas fantásticas profundezas do carácter de Wotan do que pelos quadros da razão poderemos explicar este nacional-socialismo.
A 23 de Julho de 1933, ano da subida de Hitler ao poder, o Festival de Bayreuth culmina com uma produção da mais absolutamente espiritual das óperas de Wagner. O Parsifal. Desmaiado o último acorde, Hitler tem diante de si os microfones de todas as estações de rádio alemãs. E profere um discurso. E anuncia os seus planos para a criação de uma igreja unificada do Reich.
E a 21 de Setembro, depois de realizado um sínodo, tal igreja é oficialmente instituída. O primeiro bispo do Reich, Ludwig Miller, um proeminente nazi.
Pouco tempo depois, um jornal protestante e liberal, comenta o acontecimento em tom satírico: cantando o hino que inicia o serviço religioso, o pastor teria subido ao púlpito e convidado os não-arianos a abandonar o templo sem que ninguém se mexesse. O pastor terá então repetido “convidam-se todos os presentes não-arianos a abandonar imediatamente esta igreja.” E todos continuaram imóveis. E o pastor terá insistido, “todos os não-arianos, por favor, queiram retirar-se”. E então, ó maravilha, Cristo ter-se-á desprendido da cruz, terá descido do altar, caminhado pela nave e abandonado a igreja.

Seja dito muito de passagem que o problema religioso da Alemanha no séc. XIX foi complexo e alguns chamaram-lhe Kulturkampf. Luta cultural. Os prussianos perseguiram com algum afinco a igreja católica, sobretudo Bismarck, que defendia a separação entre Igreja e Estado, como acontecia com os cultos protestantes. Foram dez anos de luta cultural, entre 1870 e 1880, enquanto um outro culto, e uma outra igreja pregavam outros evangelhos. A religião alemã, pode dizer-se, nascera na Baviera com o rei Ludwig, e era designada em termos mais gerais, e mais politicamente correctos,  por Kultur.
Na Alemanha do norte Bismarck organizava a guerra, e do mesmo passo Ludwig, rei da Baviera (a que muitos chamavam louco), protegia acirradamente as artes. No cumprimento do ideal goetheano de uma nação que vive pelo espírito e pela cultura. A Prússia construía fábricas, desenvolvia a indústria do armamento, temperava o aço guerreiro. Na Baviera instaurava-se a magia como projecto de Estado, construíam-se castelos de conto de fadas, revelavam-se grutas místicas, erguia-se um templo sagrado da arte e da alta cultura, Bayreuth.

                                           


                                                                            

                                                                   
                                                                                          
                       

 

Bem no fundo, Ludwig, mais do que os eventos e obras culturais, patrocinava um espírito que redundaria em religião oficiosa do Estado bávaro, quando as óperas de Wagner,cantadas no ponto de energia mística que era a colina de Bayreuth, derivavam para uma qualidade de ritual, ou de liturgia, ou de festival sacro, ressoando na austeridade a bem dizer claustral do recinto sob condicionalismos severos e muitas reservas postas ao aplauso, que seria a finalidade simples do simples espectáculo profano. Pois sim, mas Bayreuth não era uma banal casa de espectáculos. Bayreuth queria-se um santuário, uma meca, um destino de peregrinação, o lugar magnético onde tempo e espaço se transfiguravam numa e a mesma coisa - nas palavras da personagem Gurnemanz, de Parsifal.


Ser wagneriano era ser adepto de uma seita; se wagneriano era ser iniciado nos mistérios da vida e da morte subjacentes à música e à palavra poética; ser wagneriano era ser religioso ao mais alto grau de devoção, espiritualidade e proselitismo; era ser um certo e apócrifo tipo de cristão
     
                                    

A cultura é um credo. Wagner é o profeta da religião alemã e também um dos seus deuses. Wagner recebia no templo de Bayreuth os apóstolos de uma fé. A arte wagneriana era o ápice da supremacia espiritual germânica, arte esotérica, ocultismo, sectarismo, heresia pagã envolta num entendimento muito sui generis da mensagem cristã. Uma moral em si mesma, sim.   
Mas o que viria a ser, por estes tempos, a verdadeira Alemanha? Seria o progresso material e a industrialização prussianas, uma cultura de caminhos de ferro, de artilharia, e aço e de fogo, e do sangue vertido pelos seus inimigos? Seria o transporte espiritual, a intelectualização, a comunhão herética, a celebração estético-religiosa do sobrenatural humanizado, a iniciação, o ideal em vias de concretização que se apercebia na Baviera?
Impossível sabê-lo. Houve quem dissesse que a morte misteriosa do translúcido rei Ludwig fora obra dos agentes secretos prussianos às ordens de Bismarck.
Quem poderá acreditar que o rei Ludwig patrocinasse conscientemente a música de Wagner tendo a percepção final de todos os aproveitamentos espirituais, políticos e sociais que dela pudessem vir a se feitos? Patrocinando Wagner, estaria o rei Ludwig consciente de ajuda a criar uma ideologia política, ou mesmo uma forma ritual e pagã a desembocar a breve trecho numa religião?
Se calhar nem Ludwig nem o próprio Wagner alguma vez sonharam com semelhante coisa. Sobretudo se pensarmos na extensão turbulenta dos aproveitamentos político-ideológicos que lhes foram póstumos.


E não tinha também Nietzsche repudiado os políticos e as políticas e não fora ele também arrebanhado na voragem do pensamento nazi a propósito do seu Übermensch?

                                                      
    
                                

O certo é que estes titãs mexeram nas profundezas da consciência do seu tempo, assombraram-se com todos os videntes, frequentaram todas as profetizas, todos os nibelheims, todos os walhallas da memória, e puseram frontalmente ao seu tempo todas as questões mais altamente morais, elevando-se aos patamares insólitos, aos cumes do religioso, interpretando tempo e espaço, seccionando-os, sobrepondo-os, reconstituindo a arquitectura mental e moral de um povo, instigando-o do ideal para a realização concreta, do espírito para a matéria, do limbo para a vida. E com todas as consequências que se conhecem.

     
                                                             

Após a premiére de 1876, demoraria seis anos a reabertura do Festival de Bayreuth. Viria a acontecer em 1882. O que significa que Wagner, morto em Fevereiro de 1883, apenas por duas vezes na vida conseguiria presenciar a transmutação do seu ideal em realidade visível, concreta, artística. Em 1882 aconteceria o lançamento de Parsifal.


                                              

Martin Plüdermann, amigo chegado de Wagner, escreveu um belo dia uma carta a um nacionalista anti-semita dando conta dos seus receios de que a natureza pessoal da viúva do mestre, e sua continuadora, Cosima, começava a manifestar-se – e pior ainda, de influência predominantemente francesa – ao anunciar sem margem para dúvidas, segundo os fundamentalistas da religião wagneriana, o abastardamento da pureza e da doutrina primeiras do projecto, enquanto templo dos mais sagrados valores alemães. Essa carta era datada de 25 de Fevereiro de 1896.

No dia da morte de Wagner, em Veneza (13 de Fevereiro de 1883), Cosima colocava um ponto final nos seus diários íntimos e lançava-se na gestão da herança espiritual do marido, na orientação do festival, e com um propósito nítido de perpetuação.  Não, em todo o caso, em modos que satisfizessem o conservadorismo dos velhos fiéis, que logo quiseram usar contra ela as sociedades Richard Wagner e os círculos de Bayreuth entretanto constituídos.


                   
                                                                           
                                                                                                                           
Cosima acaba por se retirar da direcção do festival em 1906, embora a sua presença junto do filho, Siegfried, fosse constante, e por muito que este pretendesse que actuava fora do conselho da matriarca.
E até ao eclodir da Primeira Guerra as tradições, os maneirismos, aquilo que se poderia chamar de uma interpretação fiel, ou literal, dos desejos do grande homem, permaneceriam sem margem para inovações-
Só no festival de 1924, Siegfried Wagner se permitiria, e com todas as cautelas, arriscar alguma inovação: cenários tridimensionais e modernização do sistema de luzes. Mas sem se arriscar a crispações e contestação vindas dos lados da velha guarda.


Entretanto, fora de Bayreuth, Adolphe Appia, por exemplo, experimenta alguma coisa de novo no universo cenográfico wagneriano: Otto Klemperer monta na berlinense Kroll Opera um Navio Fantasma em roupagens expressionistas – Siegfried Wagner e os tradicionalistas tomam conhecimento e desfalecem de horror com tais aventuras.

Em 1930 tem lugar a última montagem do festival sob a orientação do filho do mestre. Um Tannhäuser com certas emancipações do evangelho wagneriano. Um Tannhäuser desde logo dirigido por Toscanini, a mais cintilante das estrelas mundiais da batuta daquele tempo e o primeiro estrangeiro a reger em Bayreuth – e ainda por cima um estrangeiro que é um denodado anti-fascista com simpatias sionistas.

                                                                             

E é com Toscanini em Bayreuth que o regime de star-system internacionalista se instala para sempre no templo sagrado, em desafio frontal à tradição germânica e nacionalista.
                                                      
Sei a natureza de todas as coisas, o que elas foram, o que elas são e o que virão a ser no mundo eterno. E tudo o que existe se encaminha para o seu fim e estão a nascer para os deuses os dias sombrios – fala da deusa da terra, Erda.
Bom, mas Siegfried Wagner, nem por ser filho de quem era contava com as simpatias do anti-democrático círculo de Bayreuth, um grupo ultra-nacionalista que se auto arvorava em guardião indiscutível da tradição e da religião wagneriana. E foi mesmo esse círculo de Bayreuth o inefável autor da ideia de fazer cantar Deutschland Über Alles no fnal de uma récita de Mestres Cantores, em 1924, o que enfureceu Siegfried Wagner, adepto da separação o mais rigorosa possível entre arte e política, e, talvez mais do que isso, muito interessado em promover internacionalmente o festival, e assim angariar clientelas no mercado externo para ajudar nos défices – mercados, exportações, competitividade, sempre a mesma conversa…

                                    

O projecto de Bayreuth estava marcado pelo destino para ser um bastião do nazismo quando o wagneriano e aristocrata inglês Houston Stewart Chamberlain, ideólogo nazi, se naturalizou alemão e se casou com uma herdeira de Wagner, apressando-se a receber Hitler em Wahnfried – a casa da família Wagner -, corria o ano de 1923, e ainda Hitler não era quem viria a ser.


E ligas, e círculos, e grupos, e sociedades, umas mais e outras menos secretas, proliferaram por aqueles anos, auto-investidas de uma missão transcendente e quase sagrada, tendo todos ou quase todos esses grupos e sociedades Bayreuth e seus germânicos valores como referência. A Richard Wagner Gesellschaft, fundada em 1926, adoptaria inclusivamente nos seus estatutos aquilo a que chamaram de parágrafo ariano.


Com o advento do III Reich, Bayreuth cai nas mãos administrativas de Winifred, a mulher inglesa de Siegfried, nazi convicta, racista encarniçada, e o festival torna-se um feudo da ideologia do Estado, sob a protecção do próprio Hitler.


 Nessa conformidade, para além de centro magnífico de propaganda, Bayreuth assume-se como lugar de culto da nova religião emergente, pois que a ideologia nazi, e respectivas liturgias, por demasiadas vezes tomou foros de religião, matéria de fé, e ali se fez encenar, a pretexto de comemorar aquele que adoptara como um dos seus profetas maiores, esse mesmo Richard Wagner.
E por aqui se vê que nem Bayreuth com todos os seus pressupostos fundacionais cultural e artisticamente altíssimos deixou de ser lugar de encenação de um poder de Estado. Afinal, e apesar de tudo, Bayreuth também não deixava de ser um teatro de ópera.


Mas seria sob Hitler que Bayreuth viria a cumprir um dos grandes ideais do próprio Wagner, quando, por ordens superiores, lá se praticaram preços políticos. Quer dizer, preços populares. Entre os 15 e os 30 marcos. Por forma a possibilitar a todo o povo o acesso ao santuário da religião alemã. Muito embora, por outro lado, um ideal inviabilizasse outro ideal do mestre, um mestre que – em termos ideais, claro, também não queria ser um músico de Estado, nem queria o seu teatro como mais uma ópera de Estado. Durante os anos de Hitler o povo poderia acorrer a Bayreuth para ver o Parsifal ou os Mestres Cantores, porém, para que tal fosse possível, Bayreuth obrigava-se à trivial condição de teatro de Estado, subsídio-dependente do orçamento nazi.


Wagner e Nistzsche, ao sol meridional de Sorrento, e quando ainda se davam bem, conversaram longamente a respeito de Parsifal, o drama sacro que era a última contribuição do mestre para a liturgia da religião alemã. E Nietzsche impressionava-se. Tudo no amigo músico era sentimento cristão. Tudo era arrependimento, comunhão, redenção.


Wagner parecia a Nietzsche um homem visceralmente desonesto, um vigarista e um comediante. E porque já em 1876, à vista dos lugares vazios do seu teatro, Wagner havia dito:
- Não, os alemães não querem saber de deuses pagãos. Nem tão pouco de heróis. O que os alemães querem de facto é qualquer coisa de cristão.
Os mercados, pois é…
Donde, o misticismo parsifaliano poder muito bem advir dos considerandos de ordem prática e materialona, ou de uma corriqueira operação de marketing oitocentista feita pelo mago de Bayreuth, esse romântico desesperado que (segundo Nietzsche) acabava vencido aos pés da cruz de Cristo.



Wagner tornava-se piedoso. Wagner conhecia os caminhos compósitos da religião, ou da heresia, que fundara, em sensualidade, dinheiro, nacionalismo, magia e redenção, oportunismo, incesto, adultério, jogo de poder, vigarice de deuses, esperteza saloia de anões, violência de gigantes, forças telúricas e pagãs…
O que é que lhe faltava?
Ora, faltava-lhe uma confecção devidamente doseada de cristianismo. Eis o Parsifal. O Parsifal onde tudo se fundia, reinterpretava e interpenetrava. Um Parsifal que, vistas bem as coisas, não deixava de ser uma traição a ideais antigos.

Um sentido forte de regeneração: era o que obsecava Wagner. Regeneração para os homens, para as coisas e para as ideias. Para as nações, acima de tudo. E ainda mais acima de tudo para a nação alemã. E Parsifal é o ácume regenerador na obra do mestre.

                                                      

A que fenómeno seria devida a decadência das raças? À ingestão de carne em lugar dos primitivos vegetais. O visionário contemplava então uma Humanidade que ao comer carne caminhava para a catástrofe. E quem viria a redimir essa Humanidade de tal catástrofe? O Cristianismo. Não há arte elevada sem a componente religiosa.
A Arte, sublime que seja, não poderá alcançar a revelação sem o fundamento de uma simbologia religiosa. Só assim o povo a poderá entender.
E que Deus era redentor mais do que criador. E que só na música o Cristianismo acharia a plenitude do seu conteúdo.
Wagner como encarnação de Fausto?

           

Houve quem assim pensasse nas várias capelas culturais alemãs e europeias. Até houve quem visse no Navio Fantasma uma recorrência, ou uma variante, dos acidentes de Fausto. Wagner engrandecia-se a uma condição que sobrepujava a condição do simples músico – ainda que tocado de génio, ainda que acedendo aos fulgores do feiticeiro, do mestre alquimista. O que ia bem à natureza esotérica e secreta de uma Alemanha permanentemente embaraçada na tragédia dos espectros de um passado medievo e mágico  tutelado pelos Hohenstauffen, por Frederico Barbarossa, o imperador iniciado.
Wagner operava as as impossíveis fusões e transfigurações de valores humanos, religiosos e artísticos, criava entidades espirituais e carnais dotadas de milagrosa unidade no cadinho dos seus contrários.


Wagner fundara, em suma, uma religião, a pretexto, e sob os auspícios da cultura. Uma religião que, alguns decénios após a sua morte, se apresentava ao mundo como a religião alemã; ou pelo menos, como via de redenção da alma germânica, ou seja, redenção da ferida sangrenta, eterna e sagrada de Amfortas. 

E dotada tal religião de ingredientes bastantes de pan-arianismo. E apontando tal religião para um conteúdo doutrinário assente na sanguínea superioridade germânica sobre o concerto das nações. E inspiradora, tal religião, de causas extremadas, noites de cristal e outros extermínios.
Embora, e será esse o caso perturbador, Wagner tivesse sido um revolucionário avesso a instituições governamentais, burocracias de poder, ou tópicos morais de uma ordem retintamente político-institucional.
Por música, Wagner, o heresiarca, recuperava elementos nucleares de uma tradição germânica esotérica, mística – assunto que talvez hoje em dia já não interesse a ninguém, e todavia interessante de abordar com mais demora.    


Pegando em elementos da tradição ocultista universal, Wagner manipulou-os genialmente e acrescentou-lhes a competente veia germânica. Desdenhoso em tempos do nacionalismo, acabaria por instituí-lo na sua arte como fenómeno cultural, espiritual, ou, enfim, religioso. Wagner forneceu todos os alibis necessários para fazer derivar o ideal cultural e espiritual germânico para um programa político de acção espiritualizado, religiosificado – se assim de pode dizer, e consumado em doze anos sangrentos da História da sua grande e belicosa pátria.               

                                                  
  
Quase todos os movimentos modernos de tipo místico e esotérico se entrelaçam, e nasceram, desenvolveram-se, ou tiveram a mais poderosa expressão na Alemanha do tempo wagneriano e décadas seguintes, até à queda do Reich. A ordem de Golden Dawn (britânica, mas com traços alemães), Allistair Crowley, William Butler Yeats; Edward Bulwer-Lytton e o seu neo-rosacrucianismo; Madame Blavatsky; a Sociedade Thule; a Sociedade do Vril; os teosofistas, os ariosofistas, os antroposofistas; Stefan George, Drexler, Dietrich Eckart, Rudolph Steiner, Sebotendorff; o Ordo Nuovi Templi, ou Ordem dos Novos Templários; magias brancas e magias negra.


E não nos esqueçamos do jovem médium austríaco, que ao ouvir o Rienzi (ou o Lohengrin) no teatrinho da sua insignificante cidade de Braunau entendeu dar um novo rumo e um novo sentido à sua vida e transformá-la por completo. Transformar a vida dele e transformar a vida dos cidadãos da Europa inteira, do mundo inteiro – chamava-se Adolf Hitler.


E não nos esqueçamos, já que falamos de religião alemã, de Rudolph Hess, mago ocultista e aviador, ele e a sua solitária e secreta viagem a Inglaterra, em 1941, a fim de tratar a paz no seio das sociedades secretas que haviam ajudado a desencadear a guerra. 
Não nos esqueçamos do nazismo oculto de uma americana e de um rei inglês também chegado a sociedades secretas e obrigado a abdicar, supostamente por razões sentimentais.


São aspectos da religião alemã, só muito recentemente conhecidos da mesma magia e da mesma metáfora a que Wagner deu sonoridade e profecia e conferiu sentido estético e cultural, e que ainda hoje, se formos a ver, e se o soubermos interpretar, reverberam pelo mundo a partir da basílica de Bayreuth. Com menos aura sagrada, é verdade, e não obstante todo o branqueamento político e toda a cultural e democrática correcção, e toda a reformulação estética que têm sido levados a cabo desde o pós-guerra - pelos familiares do mestre primeiro que ninguém, os netos, Wieland e Wolfgang Wagner.
É a questão estética. Que sairá num dos próximos números deste blog.