terça-feira, 16 de abril de 2013


        UMA EXPERIÊNCIA DO TEMPO





Para se ir para a guerra que mais me interessa para este mês de Abril e ter a mais extensa experiência do tempo podia-se fazer a viagem sozinho, de avião - a chamada rendição individual - podia ir-se num navio fretado, integrado numa unidade. Era o mais frequente, julgo eu. E antes da largada – passados os alvoroços e os prantos do cais, os aerogramas, as esferográficas e os maços de tabaco do Movimento Nacional Feminino - oficiais e sargentos podiam ser reunidos num salão do navio para ouvir a prédica de um general: aqueles mancebos tinham a honra de pertencer à geração que na História pátria só achava paralelo nas linhagens do pessoal dos Descobrimentos, os desgraçados peões da História que tinham sulcado os mares e passado medos, fomes e escorbuto, levando a fé e o império aos lugares ignotos.

      


E depois saía-se a barra. O olhar dos mancebos deslumbrava-se com a vista de Lisboa, com a cenografia de brancos que parecia ter sido montada durante a noite, de propósito para eles. Por mim, deslumbrei-me, nesse dia, sim senhor, e foi como se nunca tivesse visto o esplendor da minha cidade, de Lisboa, em manhã de outono claro. Nessa altura podíamos disfarçar  uma lágrima.

Toda a conveniente experiência do tempo comporta, de resto, algumas lágrimas.


E passados dez dias de navegação, ao largo de invisíveis e extravagantes costas hostis, em mares chuvosos de peixes voadores, entrava-se numa baía de palmeiras e falésias de terra vermelha, viam-se lindas mulheres a praticar ski aquático e a acenar ao navio agreste e apinhado que se aproximava do porto.


A noite nos restaurantes, bares e cafés de Luanda era muito movimentada e prenunciadora de primeiros calafrios, com as narrativas lúgubres dos que já lá estavam há tempo – ou seja, dos que já tinham alguma experiência do tempo. Emboscadas, ataques, operações, russos, chineses, cubanos, fome, fartura, granadas, morteiros, minas, feridos, helicópteros, evacuações. Mortos.
Nos clubes nocturnos da Ilha, abertos até de manhã, o ambiente era aparentemente distendido. Comia-se, bebia-se, via-se um show de variedades que incluía, já então, transformismo. Dançava-se – se se tivesse com quem. Podia sair-se ao romper do sol directamente para debaixo dos coqueiros, almoçar por ali, e ficar na praia até ao cair da noite seguinte. Toda a guerra que se preze tem as suas oportunidades de boa vida.


Depois, podiam acontecer dois dias e uma noite de excelente comboio, de carruagens antigas e bem europeias onde não faltava o vagão restaurante, atravessando o território a toda a largura, matas e planuras infindáveis, em direcção às terras do fim do mundo, aos quintos do inferno do Leste. Vá lá, vá lá: era um pouco menos mau do que a Guiné.
A cada centena de quilómetros galgados, a cada paragem de estranha designação, o comboio metia homens armados, espécie de milícias, e era dito aos rapazes que daí em diante começava a ser perigoso, daí em diante a realidade poderia tornar-se demasiado forte e a experiência do tempo mais aguçada.


Até que se chegava a um destino provisório. Uma cidade fronteiriça em que do outro lado estava o Congo ex-belga, ou a República do Zaire, ou o Congo-Kinshasa, ou algo assim, visto que mudou algumas vezes de nome.
 Uma chegada pela noite, na indescritível confusão de homens, mulheres e crianças civís belgas e franceses em fuga, atravessando a fronteira aos magotes só com a roupa que tinham no corpo, gente simples, porque só a gente simples é apanhada pelas guerras. Lembro-me de que havia muitas freiras de cara resignada, onde o pânico se disfarçava civilizadamente de serenidade e reconciliação. A noite era agitada pelo constante e longínquo ribombar.


Os civis eram, muitos deles, funcionários da belga Union Miniére e fugiam da riquíssima província congolesa do Katanga, porque as ambições independentistas de Moisés Tchombé se haviam declarado.

                                      


Tchombé, então grande amigo de Portugal e de Salazar, tinha no terreno os seus mercenários e enfrentava as forças talvez não menos mercenárias de Mobutu. Mobutu que, se não estou em erro, acabava de chegar ao poder.


Os jactos da Força Aérea portuguesa silvavam insistentemente sobre os telhados da cidade, logo de manhã muito cedo, com rumo leste, largavam as suas bombas nos territórios estrangeiros em guerra e regressavam. Salazar mandava dizer  na ONU que a não interferência das forças armadas portuguesas no conflito do Katanga era rigorosa, e os mancebos acabados de chegar começavam por aí a perceber alguma coisa de política, tinham a sua primeira lição prática de estratégia e diplomacia. Começavam a conhecer o tempo. E alguma inocência e idealismo perdiam.


Perante o espectáculo das centenas de civis pálidos e desesperados, mas vivos, que continuavam a entrar a fronteira, os mancebos viviam os dias do seu primeiro medo – outra das formas de experimentar o tempo.
Quem estará a sofrer, a viver e a morrer a meia dúzia de quilómetros daqui? Eram coisas que se tinham visto na televisão e no cinema. Eram coisas que nunca se tinham apreciado de tão perto.


É então isto a guerra? É então este o mais profundo sentido do tempo?


Era. A guerra. A guerra de guerrilhas. A guerra política. A guerra de libertação dos povos colonizados. 

    

E viveriam de seguida outra poderosa experiência do tempo. A picada. Naquele teatro de hostilidades a picada era uma categoria de contagem e vivência do tempo e correlativas surpresas. Viaturas militares a escoltar viaturas civis carregadas de material e abastecimentos, vinte, trinta camiões: a chamada coluna. Dias de caminho sob o sol que fere logo às primeiras horas do dia, sob a chuva repentina que se despenha de um céu de cores impossíveis, evidentemente misturadas por um daltónico. E sempre, mais aqui ou mais ali, hoje, amanhã, para o mês que vem, numa qualquer nesga esquecida da eternidade, a iminência da emboscada, o medo.


Aquela concreta picada de que me recordo, onde os mais pesados carros ressaltavam a cada buraco ou se enterravam no piso de areia empapada pela chuva, era um segmento de infinito, fora rasgada no mato pelos séculos, desbravada pelas vidas, dizia-se que vinha do tempo dos primeiros exploradores; dizia-se que começava no Atlântico, à saída do mar de Benguela; dizia-se que atravessava toda a Angola, às vezes disfarçada de asfaltos ou de gravilhas, a maior parte do tempo arenosa, sinuosa,  fervilhante de perigos,  bordejando o  Zambeze; dizia-se que errava Zâmbia dentro, que riscava Moçambique a toda a largura e que acabava num porto do Índico. Mas o mais certo era essa infernal picada ter-se gerado e definido a si própria e ter existido sempre, como a selva que a continha.


Ao longo dessa picada, e nos séculos de antanho, tinham-se amontoado milhões de almas, centenas e centenas de povoações. Por ela, nos séculos, passara todo o tipo de contrabandos e centenas de milhar de cabeças de escravos acorrentados. Àquela picada, desértica no seu trajecto angolano dos anos 60, por causa da guerra, chamavam os zambianos Hell’s Run, caminho do inferno, porque tudo o que havia de violento ou de infame nela tinha ocorrido, guerras tribais, fugas e capturas de escravos, deserções e traições, dramáticas, canibalismos, assassínios, trabalhos de soberania, confrontos militares. Aquela picada era o traço do tempo e da vida esforçada, violenta, dos homens.


Por essa picada podia ir-se dar a uma descomunal e antiga construção fechada na sombra secreta dos arvoredos, invisível por terra ou pelo ar, que não há muito tempo fora uma leprosaria e que naquela segunda metade dos anos 60 abrigava outros hóspedes, cerca de 2.000 homens negros do exército mercenário de Tchombé, prontos e agressivos no combate, passeando aos pares de namorados nas horas pacíficas, mão na mão,  beijando-se apaixonadamente na boca e alimentando-se sobretudo de amendoins cozidos.
Chegava-se naquele tempo de sobressaltos a um destacamento do exército português isoladíssimo no confim da selva, rés-vés à fronteira com o Congo-Kinshasa. O fluxo de fugitivos militares tinha sido grande nos dias precedentes. A confusão ainda era muita. A chuva impressionava.


- Estão cá os mercenários – diz alguém. Só o nome arrepiava um ex-civil. - Está cá o Bob Dénard.
O sanguinário chefe de mercenários, o lendário aventureiro de uma quantidade de golpes de Estado pelo mundo terceiro, o famoso cabo de todas as guerras clandestinas, inconfessáveis – um dos mais duros da vida e da lenda do mundo dos anos 60 - que em tempos atentara, suspeitava-se, contra o próprio general De Gaulle, e que atentara de facto contra um 1º ministro, Pierre Mendés-France. Todos querem espreitar o aventureiro. Janta em sombrio silêncio com os seus ajudantes numa dependência reservada do pequeno destacamento. Tomara o partido de Tchombé. Tinha perdido muitos homens. Acabava de entrar em território português, escorraçado pelo exército de Mobutu. Ninguém podia aproximar-se dele, excepto aquele civil com ar estrangeirado e aquele inspector da PIDE. Ninguém podia saber que ele estava em território nacional. Ninguém podia saber que ele era ele.
Dénard coxeava um pouco, arrastava uma perna. Tinha (dizia-se) há anos uma bala alojada na cabeça. Por tudo e por nada, para pagar fosse o que fosse, aqueles soldados da fortuna puxavam de saquetas de seda cheias de diamantes agenciados no saque às terras e às casas onde entravam – o que fazia parte do seu contrato. As mulheres deles estavam a comer à parte, numa espécie de barracão. Eram negras esculturais, de cabelos finamente entrançados e luxuosamente vestidas à mais espampanante moda africana.


E na manhã seguinte todos tinham desaparecido. Só a chuva e as explosões distantes ficavam.
A chuva caía com força dias inteiros, noites inteiras. O céu fendia-se em festivais de fogo. A terra tremia das bombas e das tempestades sucessivas. Um helicóptero desce entre a chuva e recolhe dois volumes inertes encharcados de sangue.
Era muita realidade para quem apenas um mês antes cirandava pelo Rossio, tomava café e ia ao cinema, e não sabia que outra vida pudesse ser vivida.
A experiência do tempo tem forçosamente que ser também uma experiência do caos.
A picada aprofunda-se no mato, pertence-lhe,  retira dele todos os sentidos. O percurso de dias de picada é uma viagem que o mancebo faz ao seu íntimo e comporta toda a dor e todo o conhecimento de si e do seu “coração das trevas”.



No primeiro jantar no aquartelamento onde passará os próximos dois anos da sua vida, senta-se num recinto coberto por um telhado de zinco e aberto dos lados. A cobertura é apoiada por seis pilares e cada um desses pilares comporta um pequeno nicho com qualquer coisa branca lá cuidadosamente posta. O mancebo afirma o olhar. Quatro santinhos? Quatro nossas senhoras? É bem possível. Não. Quatro caveiras humanas resplandecentes de brancura.
Era mais um passo na sua iniciação às ruínas aventurosas do tempo.


A chuva preside a todos os festejos de guerra, a todas as bebedeiras. Pode desmaiar-se de whisky. Pode ter que se ser reanimado à força de coraminas injectadas directamente na veia.


A experiência do tempo é a experiência da chuva, do álcool e do fogo. O mancebo que tivesse a experiência do fogo inimigo sobre si teria a real experiência do tempo, poderia figurar como testemunha numa equação de Einstein. Trinta segundos sob o fogo inimigo são tudo quanto é preciso para uma experiência da eternidade e da dúvida, são uma peregrinação pelas lonjuras da vida e da morte. A consciência flutua no cheiro do aço quente e da pólvora. Há clarões rápidos. Há estrondos a sufocar os tímpanos. Há grandes árvores partidas e capins que se incendeiam. Há roçagar de folhagens bruscas. Há o sibilar indistinto do espaço. Há muita compreensão de si e dos outros, finalmente, e um esquecido carinho de mãe. Pode haver uma experiência do sangue, do próprio sangue. Pode haver o desespero ou a inutilidade de todo o amor e de toda a ternura. Pode haver um minuto irreparável da existência. Há por certo imprecações e terríveis ofensas sobre cada momento que nunca se soube se era presente ou passado. Teve-se uma visão do Aleph. Cada coisa contém tudo. O universo pode conter-se num único objecto. Percebeu-se no fogo a sombra de Deus. Segue-se um silêncio. O eco de uma injúria. Um jovem pode estar a soluçar em qualquer parte daquilo que deixou de existir e que nunca existiu tanto.


(Este texto pode ser violento, e possivelmente incorrecto… mas, fala-se tão pouco, tão depressa e tão envergonhadamente – ou tão politicamente – destas coisas… da mais profunda e pessoal verdade que pode haver nestas coisas…)


“Esquece, vá, esquece depressa quem és e o que amas e só assim poderás compreender a tua guerra. Esquece. Só assim te será concedido o dom do tempo”.


A chuva castiga a picada tornando-a quase intransitável durante semanas. Mas a logística não pode parar. Avistam-se as pontes partidas por onde é imperioso passar de noite enfiando os rodados de grandes viaturas em placas compridas, estreitas, escorregadias, que vergam  por cima de um rio rápido de crocodilos.
Lençóis de chuva e a fissura explosiva dos céus negros: tudo o que aumenta num homem a experiência do medo.
Por causa de uma mulata, debaixo de chuva, um camionista mata outro à facada na picada do inferno. Tudo se passa diante de um jovem alferes imberbe e humanista que era estudante de Farmácia.
Chuva. Pistas de aterragem que são quase areias movediças, impossibilitando os abastecimentos. Pode passar-se de repente a comer o mínimo dos mínimos. Massa com chouriço preto. Arroz com chouriço preto. Feijão com chouriço preto. Dobrada de lata. Conforme o isolamento e a chuva pode passar-se lentamente pela experiência da fome, espaço incontornável da experiência do tempo. Podem acordar-se muitas madrugadas com caimbras no estômago. Pode sofrer-se de fome sabendo que não se vai comer a sério nos próximos dias, ou semanas. Pode engordar-se de fome, e comendo apenas latas de fruta em calda, porque se enjoou tudo o resto. Até ao dia em que se está gordo e se enjoam as latas de fruta em calda.
Nas duras caminhadas de dias no mato, em patrulhamentos e operações, há a experiência da sede, mais dura do que a da fome.


São quatro horas da manhã e ordeno-te que bebas dois cálices deste bagaço forte, por causa da chuva, e para teres coragem, e aqui tens cinco, dez homens negros, amarrados de pés e mãos com arames, e sou eu que te digo: estes são os teus inimigos, leva-os contigo e mata-os, fá-los desaparecer, e não tenhas pejo nem arrependimento porque já te disse, estes são os teus inimigos e se não os matas hoje a eles matam-te eles a ti amanhã, porque aqui é esta a moral.
Que fazem os meus lá longe, a esta hora da noite de Natal? Que pensam? Pensam em mim? Poderão eles imaginar a minha experiência desta hora?
Os que estão cá longe, os familiares, os amigos, os pais, preferem sempre imaginar que os seus filhos e amigos tiveram a sorte inaudita de ficar a escrever à máquina no ar condicionado de uma qualquer secretaria.


Todas as manhãs no posto médico do destacamento um cabo brutamontes e analfabeto pratica a sua acção psico-social com as populações. Os naturais fazem fila para serem atendidos por um homem que não lhes compreende a fala e cuja fala eles também não compreendem. O cabo brutamontes ouve-lhes a algaraviada das queixas que não entende e fornece invariavelmente todos os dias os mesmos comprimidos aos mesmos pacientes que batem no peito a agradecer.
 - Quanto queres pela vaca? - pergunta o mal encarado soldado.
- Dois conto - responde o negro dono da vaca, a desfazer-se em salamaleques.
- És doido? Dou-te 500 paus.
O dono da vaca recusa sorridente, não vende a sua vaca por preço tão baixo. O soldado, já então embrutecido pelo tempo e pela chuva, manda afastar os companheiros, põe a arma em posição de fogo e despeja uma rajada sobre a vaca.
- Pronto. Finalmente podemos comer um bife -  e vira-se para o dono da vaca: - Vês? Agora, já nem 500 paus ela vale.


Digo estas coisas aqui – e apenas muito parcialmente – por uma questão de moral. Mas talvez não o devesse fazer. A experiência dos limites do tempo não é para ser revelada aos profanos que jamais o poderão compreender.
São duas e meia da manhã e do aquartelamento, um dos mais isolados, fugiu um soldado. Ter-se-à metido para o mato. Há que o procurar antes de dar dele baixa como desertor.
- Aquilo deixou-se dormir na palhota de uma mulher da povoação - arrisca um camarada.
- Ou tinha gente à espera dele e desertou, e vai voltar para França onde já esteve emigrado - sugere outro.
E em França já o desaparecido tivera a melhor experiência possível do tempo, conforme se gabava, ao pernoitar continuadamente na mesma cama com uma mãe e com uma filha.
As povoações em volta são passadas a pente fino por duas secções de atiradores. Quatro da manhã. As portas das palhotas são arrombadas a pontapé e focos de luz são disparados para o interior.
- Aquilo embebedou-se e está para aí caído.
- Aquilo estava bêbedo e apanhado da cabeça e atirou-se mas foi ao Zambeze.
As bermas da pista de aterragem e das picadas em redor são varridas pelos faróis ao máximo de uma Berliet.
Às quatro de todas as madrugadas do mato há um frio mau que se mete no corpo e caustica os ossos.
- Desertou - decreta o comandante da companhia.
Segue a mensagem  cifrada pelo rádio: uma baixa por deserção, soldado fulano de tal.
Ao amanhecer alguém atravessa a pista de aterragem a assobiar. O desertor.
- Então que é feito de si, homem?
- Fui dar uma volta por aí.
Anulada a nota de deserção. Uma guia de marcha. O soldado seguirá na próxima coluna para Luanda, para o serviço de psiquiatria do Hospital Militar.


Por entre os cheiros naturais da chuva, da terra molhada, da mandioca moída, os destinos individuais continuam a perfumar-se de Old Spice.


A chuva não parara em todo o dia. Agora, meia noite e pouco, com o canto da metralha que vem dos lados do mangueiral de baixo, o destacamento agita-se em sombras. É o rescaldo de um domingo de Páscoa. Sombras ofegantes que correm, escorregam, tropeçam, caem. Responder ao fogo inimigo. Um ataque. Não pensar em mais nada. O inimigo está muito perto do arame farpado. Soltam-se as mais formidáveis injúrias. Os dois amigos e companheiros inseparáveis rastejam na lama até ao abrigo da metralhadora pesada.
O morteiro. Espera-se que uma ou duas granadas de morteiro possam salvar a situação. A metralhadora. Quando é que a metralhadora começa a cantar? Não há ar que baste para as necessidades dos mancebos em pânico. Havia meses que esperavam aquele ataque e já duvidavam dele. Domingo de Páscoa. Nunca se sabe, mas desconfia-se sempre. Gritos desgarrados. Ordens. Sombras.
Os dois amigos inseparáveis chapinham no abrigo da
metralhadora. Há cavalos de fogo a galopar nos horizontes negros do céu, por cima da copa das árvores. A primeira fita de munição encravou. Uma explosão para o lado das cozinhas. Choques. Injúrias. O clarão da granada inimiga, mesmo na sua frente, encandeou-os e deixaram de respirar. Nenhum deles acredita poder sobreviver àquela noite. A segunda fita está preparada. As mãos do moço municiador não lhe obedecem. Ordens gritadas. A metralhadora pesada tem de começar a fazer fogo! Entra a segunda fita de balas. Os dois companheiros e amigos insultam-se. O gatilho emperra. O municiador treme. O apontador seu melhor amigo ofende-o. O inimigo parecia ter ganho uma posição de flanco. Pressentem-se na confusão duas frentes de fogo inimigo. Há um grito de dor. Há rajadas que vêm dos lados do campo de futebol. O morteiro ainda não disparou. A chuva é mais forte. Alguém recomenda um very light. As vozes mecânicas do rádio soltam-se e confundem ainda mais os espíritos da noite e do pânico.
Os dois amigos inseparáveis, apontador e municiador da metralhadora pesada Dreyse continuam a insultar-se. Se sobreviverem nunca mais dirigirão a palavra um ao outro. Entra nova fita de munição. A metralhadora dá fogo, meio minuto de fogo. Volta a encravar. O apontador grita, vê a sombra do amigo a soluçar perante a metralhadora encravada. As balas inimigas assobiam em volta. Nenhum deles passará daquela noite. Uma noite que de súbito se pusera imaculadamente branca nos olhos do apontador. Branca e silenciosa. Um vómito de morte varou-lhe o estômago ao ver o amigo paralizado de medo, em pranto convulsivo. Naquele amigo e companheiro de tantas horas de picada começou a ver um inimigo, e quando disparou sobre ele meia fita de balas, tinha o espírito descansado sobre ínfimas e imaculadas partículas do tempo, compreendendo embora que, se sobrevivesse a essa noite, teria de prestar contas a um tribunal de guerra e que tinha a vida desgraçada.


A uma escassa semana da transferência  para zona mais pacífica, os cinco mancebos vão banhar-se na torrente do Zambeze como todos os dias haviam feito ao longo de 15 meses. São soldados experimentados. Despem-se e deixam as roupas e as armas encostadas a uma certa árvore da margem. E mergulham. E nadam, deliciados.


Das moitas em volta surgem três sombras. Um dos soldados que nada na corrente dá por isso e começa a gritar. De nada serve. As três sombras empunham as próprias armas dos soldados, apontam ao rio e disparam, disparam, rajada sobre rajada. E depois, como sempre, o silêncio. Os cadáveres dos cinco soldados são levados na corrente, para todo o sempre desaparecidos. As três sombras confundiram-se com a folhagem, levaram as armas e os camuflados dos cinco soldados.
E ao acordar certa manhã, espreito pela vigia e vejo os oficiais de bordo vestidos de peliça azul-escura. Os Açores.  A chuva, outra chuva. O frio. O regresso.
O tempo, para mim, de regressar a uma Lisboa que em Janeiro e Fevereiro de 1970 esteve deprimente e cinzenta, sem um sol que brilhasse para todos nós, como mais tarde nos disseram que era possível acontecer.



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quinta-feira, 11 de abril de 2013


  POR EXEMPLO, NÃO ME APETECIA NADA IR A   
                                PEQUIM
               

         - Senhor Presidente, tenho a honra de lhe entregar esta carta do presidente da república francesa, em que o general de De Gaulle me encarrega de ser seu intérprete junto do presidente MaoTsé Tung e de Vossa Excelência.
        Palavras de André Malraux, então ministro da Cultura francês ao chegar, em Pequim, à presença do presidente Liu Shao Chi. Mao Tsé Tung estava lá.
                                                                                          

E só mesmo um pateta inconsciente poderia negar, ou mesmo minimizar, a função da leitura prévia numa mística de viagem. Mas não foi só a Malraux que por acaso recorri como leitura prévia para mais esta viagem que não fiz. A mulher de Hemingway, Martha Gelhorn nessa época, apesar de endurecida como repórter de guerra, e muito machona por sinal, deu por paus e por pedras quando lhe deram a beber o vinho de cobra que o exército chinês bebia. Era feito de arroz fermentado e no fundo da garrafa lá estavam duas pequenas serpentes enroscadas. O marido ainda lhe disse para experimentar então o vinho de pássaros, que era uma massa de cucos esmagados e recozidos em álcool, mas ela parece que não foi daí abaixo. E nos quartos dos hotéis onde pernoitavam havia avisos escritos a aconselhar os senhores hóspedes a não esborrachar os percevejos nas paredes para não dar cabo do papel.
- Se verdadeiramente me amas, Ernie, tira-me deste filme da China, pela tua rica saúde - implorou Martha Gelhorn ao marido.

Caravanas de camelos do Tibete continuavam nessa altura a entrar pachorrentamente em Pequim.
        Pequim? Não tenho nada a ver com isso. Nunca lá irei. É demasiado para mim, que olho para o sorriso de um chinês e não posso fazer a mais pequena ideia se ele está a pensar em apunhalar-me se simpatizou comigo.
        As minhas pequenas reminiscências pequinesas estagnaram num tempo histórico terrível que foi o da Grande Marcha para o poder de Mao Tsé Tung. E continuo a ouvir a conversa entre ele e André Malraux cinquenta anos depois dessa Grande Marcha.
        - Quando os pobres se decidem a combater vencem sempre os ricos – dizia Mao a Malraux, recordando a revolução havida no próprio país do escritor.


        Tempos da grande fome de Tchang Che. Nas aldeias havia cabeças cortadas espetadas em varas altas. Os suspeitos de rebelião eram enterrados vivos. (Gente simpática, afável, cordata.) As árvores estavam todas descascadas, as cascas das árvores eram comidas pelo povo faminto em extremo. As camponesas faziam o voto de reencarnarem como cadelas para serem menos infelizes numa outra vida.
        - Não há marxismo abstracto. O marxismo era para ser adaptado às realidades da China – continua Mao.
        Mao Tsé Tung sempre havia tirado partido das suas derrotas. Uma revolução não podia ser um drama passional. O povo não se conquista pelo lado da razão. Perante situações de fome extrema, a vontade de redenção pela igualdade é como a força de um sentimento religioso.


        Durante a Grande (ou Longa) Marcha, quando estavam para chegar às portas de Pequim, os exércitos revolucionários de Mao Tsé Tung tinham feito 50.000 prisioneiros. É o gigantismo da escala e a exacerbação factual desses orientes o que sufoca o meu conceito pequeno e ocidental de realidade. Pequim, a China, são para mim um planeta desconhecido e desinteressante, uma dimensão humana cuja descomunal tragédia não me sensibiliza.
        Mas gosto do pato, sim, o pato à Pequim…
        Ouçam o Mao a falar:
      - É bom ensinar às massas com precisão aquilo que delas recebemos em confusão. O que conquistou mais aldeias foram as declarações de amargura.
        Os camponeses narravam as suas dores. Uma camponesa vai perguntar a um senhor da guerra e grande proprietário rural: “onde está o meu marido?”. “Olha, filha, deve andar aí pelo jardim.” E andava. Ou antes: estava. No jardim. Decapitado. Deitado no chão com a cabeça pousada em cima da barriga. A mulher agarra na cabeça do marido. Os soldados precipitam-se para ela, querem tirar-lhe a cabeça das mãos. Ela defende-a como que possessa de uma força sobrenatural. Até que os soldados se afastam dela. O senhor da guerra que tinha mandado cortar a cabeça ao marido daquela mulher vem, tempos depois, para grande azar dele, a ser capturado pelos revolucionários e submetido a julgamento público e popular. Durante o julgamento, a mulher foi-se ao senhor da guerra e arrancou-lhe os olhos com os próprios dedos.

        Estávamos nos anos 60 e Malraux declarava a Mao Tsé Tung que a juventude ocidental estava profundamente do lado dele. E era capaz de estar. E esse estar deu frutos e dividendos. E lucros. Olhemos para a classe política portuguesa, por exemplo, e contemos os antigos adeptos e sinófilos e ferrenhos e implacáveis revolucionários maoístas desses anos 60 e 70 e compreendamos no que eles se tornaram hoje: presidentes de conselhos de administração ou membros de governos ditos burgueses (o actual ou outro qualquer), pró-capitalistas e o contrário, se for preciso, e muito moderados, e ditos de centro-esquerda ou de centro-direita, tanto faz, conforme convier mais à conjuntura. O que é a vida … o que são as tão temidas e impetuosas revoluções! Talvez por isso é que já não as haja…
        E como manter a paixão revolucionária cinquenta anos depois de uma revolução? Aí está…
        Era preciso fazer desaparecer o pensamento e a cultura que haviam levado a China à situação pré-revolucionária. Era necessário criar o pensamento e a cultura de uma China proletária.
        Durante os tempos de revolução cultural chinesa corria em Lisboa uma anedota. O brincalhão perguntava a um amigo: “sabes como é que se chama a mulher do Mao Tse Tung?” E é claro que o amigo não fazia ideia do nome da senhora. Mas o brincalhão tinha a resposta pronta: “chama-se Mau Maria”.

        

       Malraux saí do Palácio do Povo e resolve ir ver alguns túmulos. Passa o pórtico de mármore e mete pela alameda funerária. Estátuas de corceis e de camelos. Uma tartaruga, símbolo da longevidade, com garotos a cavalo nela. Cigarras, andorinhas e pardais. O grande jardim. Os canteiros. Vermelho e laranja. Os gladíolos. As telhas envernizadas. Um quiosque com a tiara de plumas de pica-peixe que pertenceu à imperatriz. Um túmulo em ruínas, a seguir, porque um bosque sagrado investira contra o túmulo sem todavia o invadir. Dálias.
        Na Cidade Proibida, onde  os imperadores se julgavam no centro do universo, com a linha do meridiano a passar-lhes por baixo do sim-senhor, rodeados de concubinas e eunucos,  o que o imperador mais temia era que o assassinassem numa emboscada saída de cima das árvores. Malraux avista a árvore onde o último dos Ming se enforcou, no dia em que os manchus entraram em Pequim.


    Nos arrabaldes de Pequim – arrabaldes nessas paragens deve significar uns 400 km. – sei eu que se pode apreciar a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Praça de S.Pedro, o Taj Mahal, o Big Ben, a torre de Pisa, as pirâmides do Egipto e… e… as torres gémeas de Nova York. E com um desconto substancial nas dimensões… no esforço visual, quero eu dizer. Podem apreciar-se estas maravilhas apenas por 1/3 do seu tamanho real.



        Mas também para que me serviria a Praça de S. Pedro verdadeira e no seu tamanho real e feita em travertino em vez de esferovite? Quando fizeram essa praça, coitados dos papas e dos artistas renascentistas, ainda não tinham percebido que Roma, Itália, América, China, Japão e Patagónia era tudo o mesmo. Pequim, ao menos, contém o mundo inteiro nos seus arrabaldes. Isto enquanto não o tiver na palma da mão, graças ao seu sistema económico perfeito e global, graças à lógica esclavagista do seu mercado de trabalho e dos seus meios de produção. E sem um Tribunal Constitucional para lhe empatar o serviço.
Essa é que é essa…
         
       

quarta-feira, 10 de abril de 2013




BERLIM, OU O HOMEM DAS ESQUINAS OBLÍQUAS



            Não, também nunca fui a Berlim. E nem posso dizer que não gostasse de lá ir. O que tenho é as minhas exigências como turista.
            Adrian Leverkhün, personagem que os mais lembrados já identificaram como o protagonista do Doutor Fausto,  de Thomas Mann,  não tinha interesse nenhum em viagens feitas com a finalidade receptiva, ver coisas para adquirir cultura. Estou mais ou menos como ele.

          Viajar para adquirir cultura? Mas se conheço tantos viajados sem cultura nenhuma!
         É por isso que acho que tudo se deve passar ao contrário. Faz-se a viagem porque se conhecem coisas, porque se tem informação, porque se adquiriu previamente a cultura implicada nessa viagem. Cultura é justamente tudo aquilo que se deve levar para uma viagem. Caso contrário, acontece o que aconteceu a algumas daquelas pessoas que começaram a viajar logo a seguir ao 25 de Abril, com ordenados da função pública aumentados (oh, que tempos!) e quando a economia portuguesa parecia ser verdade: Roma, Nápoles, Florença e Veneza em cinco dias. Ao sexto dia, o mediano funcionário público de estatuto adquirido, com garantia de pleno emprego vitalício e ordenado aumentado, oh, sim, era uma pessoa viajada.   

        Então e que tal Veneza? “Ui! Uma porcaria velha e mal cheirosa. Detestei.”  
          Ou como o casal de portugueses que numa primavera há muito passada encontrei à porta de um hotel em Génova a deplorar uma Itália que não se renovava urbanisticamente com a necessária rapidez, uma Itália que insistia em se manter histórica e em manter de pé uma data de velhos palácios, “são bonitos, está bem, é como o outro, mas já fizeram a sua época, já não têm serventia para nada”. E Veneza? “Com Veneza nada há a fazer. Em vez de entrarem na modernidade, secarem aqueles canais e fazerem prédios modernos e ruas decentes por onde possam passar carros, não senhor. Veneza, meu amigo, é um caso perdido, nada daquilo já se pode renovar.” 
          Eis um português mediano viajado. Cultíssimo! Não sei se era funcionário público. Cheirou-me a engenheiro.
            Tudo isto para dizer que, bem vistas culturalmente as coisas, Berlim é cidade que não me desperta gulas de maior, não obstante lá se terem passado importantes, belas e desgraçadas coisas. Berlim não está nada parecida com o que culturalmente já foi. Está boa para ser visitada pelo casal português de que falei.     

                                  

            “Este homem é parvo”, pensa o leitor mais viajado, ou o mais ansioso por viajar. “Este homem não sabe o que está a dizer”. E terá a sua razão. Sou parvo. Sei lá o que estou a dizer. E sou pior: sou reaccionário. Entre outras coisas porque se fosse a Berlim teria de levar comigo obrigatoriamente a minha cultura, a minha cultura da cidade, porque a cultura, entre outras (e actualmente muito poucas) vantagens, tem a vantagem de ser uma coisa que se leva para uma viagem sem pesar na mala, sem ocupar espaço físico, sem se pagar pelo excesso.


            “Mas vá lá, seu parvalhão convencido, leve lá então a sua cultura para Berlim”. Está bem, mas se eu levar a minha cultura berlinense para Berlim o mais certo é não gozar muito com a viagem, visto que, como digo, a Berlim da minha cultura já não existe. Porque a Berlim da minha cultura, ou a cultura da minha Berlim, me obriga às visões impossíveis de uma Berlim de entre-guerras que já não há.
            O que é que eu quero dizer com isto? Quero dizer a Berlim expressionista. Já não há Alemanha expressionista. Mas se em vez de Berlim estivesse em causa Munique, poderia contentar-me com uma Munique romântica – que por acaso também já não deve haver, é claro. “Bom, daqui a nada este está-nos a dizer que a Alemanha já não existe só porque não existe na fantasia-retro-pseudo-cultural que é a dele”. Pois, meu amigo, é essa a vantagem de quem não viaja. Deter o tempo de uma cidade em ideais fantasias-retro. Culturais. Ou pseudo.


            A Berlim da minha fantasia é uma Berlim de espectros alongados. Uma cidade onde, por uma ninharia qualquer, um homem pode perder a sua sombra ou deixar de se ver reflectido num espelho. Uma certa Berlim mística e mágica, cenário de combate entre forças obscuras no íntimo de homens aterrorizados que aparecem e desaparecem por esquinas oblíquas, que beberricam em cabarets de fantasmas; uma Berlim arquejante de sobreviventes e desempregados da vida; a excessiva Berlim dos vencidos e humilhados de uma Primeira Guerra; a Berlim de onde brotou uma estética.

            Na noite de S. Silvestre o diabo reserva-me sempre uma surpresa especial. Ele sabe bem como fincar o seu fino espeto no meu peito e com espantosa ironia regalar a vista com o sangue que esguicha do meu coração. E todavia, isto foi escrito por um alemão que viveu muitos anos antes dessa Primeira Guerra. E.T.A. Hoffmann.
            Claro, o expressionismo é o diabo. E o diabo, depois de o ter feito abundantemente na Idade Média, frequentou assiduamente Berlim pelos decénios de 10 e 20. Até se transformar em estética e comunicação. 
       

       O diabo é o autor das linhas interrompidas e das formas distorcidas das cenas onde uma suposta realidade supostamente se desencadeia. Foi mesmo o demónio expressionista quem regulou a luz baça e os densos fumos dos famosos cabarets berlinenses. Foi o diabo que sempre perpetrou as dolorosas derrotas alemãs. Foi o diabo que marcou o compasso das tragédias pessoais dos habitantes da cidade. Foi o diabo que regulou o tráfico em Alexanderplatz ou na Wilhelmstrasse. Era o diabo o enigmático recepcionista que registava viajantes furtivos e culpados nos lobbies dos grandes hotéis dos anos 20. O diabo conduziu os pensamentos abstractos e doentios dos berlinenses do meu sonho cultural. E o diabo hoffmaniano fez mais: esteve presente e chegou a governar Berlim por treze infindáveis anos, a começar em 33 e rematando o seu trabalho em 45.


                                                                         

            O berlinense actual, alimentado pela cultura do mercado e babado com a pós-pós-modernidade da arquitectura, vê os factos e as coisas com muito mais pretensa lucidez, tenho a certeza, do que o berlinense expressionista da minha cultura. Mas esse berlinense expressionista ia mais longe: não via o real tal como era; tinha visões. Para o berlinense expressionista os factos e as coisas nada eram em si mesmos, porque guardavam uma essência oculta que só ele, homem expressionista, podia esmiuçar e manter eternamente secreta. O berlinense expressionista não se contentava com a realidade porque via na evidência do visível uma realidade falsa. O homem berlinense julgava ver das pessoas e dos objectos, para além da forma imediata e perecível, a sua significação eterna: uma expressão e uma latência mágicas, sangrentas. E por isso se desligava da sociedade, da moral e da mesquinhez da lógica e dos remorsos burgueses. E por isso se abandonava, deleitado e deprimido, aos seus impulsos e assim vivia o êxtase maligno do espírito. O berlinense expressionista chamava-se a si mesmo um adolescente apocalíptico e opunha-se aos velhos, aos expoentes do conformismo. Hölderlin reconhecia o tormento, a dilaceração de alma, o paroxismo dos seus compatriotas, os eternos bárbaros, como lhes chamou.

            Pelo cinema, com os estranhos gabinetes dos Drs. Caligari, e pelo teatro, com as formidáveis encenações de Max Reinhardt, o expressionismo foi arte e atingiu expressão e universalismo, e por essas veredas fez subir a cidade aos pináculos do seu significado profundo. Os anos 20 foram uma ameaça apreciada nos palcos, nas telas e nos ecrans. O expressionismo foi uma estética de ameaça. Uma ameaça que se cumpriu. Uma estética que se fez vida demasiado verdadeira.


            A Noite de Cristal é um alto e desgraçado momento de vida do homem expressionista. Outra noite, a dos Facas Longas, dá no momento próprio a cutilada final nas costas do realismo que ainda pudesse subsistir na alma do berlinense, do homem expressionista.


         Depois, o incêndio do Reichstag. Depois, a ascensão de Hitler, de Himmler, de Goebbels. Os pesadelos raciais. As celebrações guerreiras entre as sombras maléficas projectadas pela luz dos archotes de Nuremberg. A iniciática das SS. A guerra. Estalinegrado. Por fim, a queda. O bunker.

  
                                               
                                   

            O espírito e a estética que a cidade inventara desciam sobre os últimos dias de Hitler quando, no bunker dessa Berlim, convocava pateticamente os astrólogos que ainda sobrevivessem entre as chamas e a ruína; quando assassinava o seu cão favorito; quando grotescamente casava com Eva Braun; quando ia ao armário dos venenos privados que tinha no gabinete e ingeria a pastilha de cianeto em gesto coordenado com o disparar da pistola para a própria boca; quando representava enfim o seu papel na peça expressionista que ajudara a conceber. E isso feito alguns poucos metros abaixo da Berlim fantasmática de fogo e escombros, quando não havia já pedra sobre pedra: era o expressionismo vivido que se abatia sobre a cidade real com a força do cumprimento de uma profecia. De uma estética. De uma cultura.


            Que me interessa a Berlim envidraçada, brilhante, financeira, arquitectónica, festivalesca e hiper-racional de hoje, desprovida de tragédia e de cenografias, uma cidade que o diabo já não frequenta e onde as coisas parecem exactamente aquilo que são?
                     


            Como poderia eu levar para Berlim a cultura que tenho de Berlim?
           
                        

terça-feira, 9 de abril de 2013




          UM DIA GOSTAVA DE IR A S.PETERSBURGO
    


        
       Claro que lhe imagino um azul dominante, o primeiro elemento onírico de quem nunca esteve num sítio mas que traçou desse sítio uma topografia, fez dele um desenho, compôs-lhe um enredo, inventou-lhe as dimensões, atribuíu-lhe uma cor, à força de ver a realidade representada em fotografia ou em filme. 

           E é evidente que eu não podia evitar o azul na minha falsa memória de S.Petersburgo, o azul e o ouro do Ermitage, o azul certamente enxovalhado do curso do Neva.
E por falar em Neva, é inevitável pôr em S.Petersburgo, por cima do azul, o branco dos invernos e ver a magnífica carruagem do czar e da czarina a entrar os portões do Palácio desse Inverno, e até imaginar o dia 17 de Fevereiro de 1880, quando a sala de jantar do palácio, por efeito de uma acção anarquista, explodiu dez minutos antes de o czar se sentar à mesa.       

E ver o suporte do poder do czar e da czarina – se ainda não se transformou em condomínio de luxo - a tenebrosa fortaleza de S. Pedro e S. Paulo, onde o czar Pedro, o Grande matou o próprio filho.  

                                                                 

         É imprescindível pormos cor nas cidades que não vimos. E para S.Petersburgo já tenho bem boas cores, os tais azuis e os tais ouros das monarquias sanguinárias, dos revolucionários e dos museus maravilhosos. Tenho o branco do inverno. Falta uma cor, uma importantíssima cor a acrescentar à História da velha Petrogrado. O vermelho. O vermelho do sangue da repressão czarista e o vermelho das primeiras bandeiras (também vermelhas) que contra esse sangue se levantaram.

         Talvez muita gente não saiba que no dia 24 de Outubro de 1917 Lenine andava a fazer uma figura triste nos subúrbios de S.Petersburgo. Tinha rapado a pêra e tinha posto um chinó. Parecia um cómico de província. Mas era a maneira mais expedita de se disfarçar de operário e de se misturar com a multidão, já que tinha a cabeça a prémio.
         Nesse dia, S.Petersburgo formigava de gente na expectativa de um magno acontecimento. Os exércitos imperiais tinham debandado das frentes de guerra e muitos dos soldados tinham vindo a pé para casa. Dezenas de milhar de desertores andrajosos andavam, portanto, pela cidade a mendigar. Os cidadãos circulavam pelas ruas à toa. O quê, e quando, e onde, poderá acontecer alguma coisa?


Mas os teatros funcionavam e os cafés estavam cheios. O levantamento dos operários é que estava iminente. O governo acumulava tropas na cidade, na inútil precaução (como no Barbeiro de Sevilha) de reprimir o levantamento popular.
Lenine hesitava quanto à marcação do dia exacto para a greve geral e consequente sublevação contra a ditadura de Kerenski. Trotzki discordava.

         


Trotzki não precisava das massas trabalhadoras para nada. Entendia que para avançar com a revolução a primeira coisa a fazer não seria atacar directamente o Palácio de Inverno, ou seja, o governo.
A primeira coisa a fazer seria neutralizar a máquina do Estado. E para isso as massas operárias sublevadas só vinham atrapalhar. Sem a máquina do Estado a funcionar não haveria governo. O exército, os junkers e os cossacos fiéis a Kerenski acumulavam-se em pontos-chave e poderiam reprimir as massas amotinadas com a maior das facilidades. O que não podiam era travar a acção dos mil homens discretos, treinados e prontos para tudo que Trotzki tinha a desenvolver manobras invisíveis no terreno, divididos em dez grupos de cem, disfarçados entre a chusma, misturados com o caos que reinava na cidade, a infiltrarem-se nas centrais telefónicas e telegráficas, nos escritórios, nos ministérios, no estado-maior, nas centrais eléctricas, nos gasómetros, nas estações de caminhos de ferro.
Para desencadear a acção revolucionária Trotzki precisava só de um pequeno grupo de homens silenciosos e prontos a intervir nos pontos vitais do funcionamento do Estado. No pensamento de Trotzki, a revolução era tão somente um problema técnico.

     O grupo dos mil homens de Trotzki era composto por operários escolhidos a dedo nas fábricas Putilov,  marinheiros da esquadra do Báltico, soldados dos regimentos letões. E eram engenheiros. Operacionais enquadrados por engenheiros. E o principal cérebro desses técnicos era um xadrezista chamado Antonov-Ovsienko. Desarmados, entravam e saíam dos sítios onde se controlava a máquina do Estado, tomavam nota de tudo, rotinas, itinerários, topografias, horários, asseguravam-se da planta das condutas subterrâneas do gás, da água, da electricidade e dos fios do telefone e do telégrafo. Levaram um mês a treinar, invisíveis. Ninguém lhes passava cartão. Ninguém dava por eles. Quando chegou a hora…

         Mas qual era a hora? Para Lenine, o dia 23 era demasiado cedo e o dia 26 era demasiado tarde. É a 24 de Outubro que Trotzki dá a ordem para desencadear o ataque. Tirando Lenine, os homens do partido bolchevista, reunidos no Smolny para um congresso decisivo, não sabiam de nada.


         E em poucas horas, e praticamente sem mortos, os comandos de Trotzki tinham nas mãos a máquina do Estado russo.
                                                                      
                                                                                

O governo estava reunido no Palácio de Inverno, fortemente guardado, à espera dos acontecimentos. A chatice era que eles não sabiam ao certo o que vinha a ser um acontecimento. A chatice era que os acontecimentos já tinham acontecido e eles não sabiam; a chatice era que já não podiam comunicar com ninguém, dar ordens, desencadear um contra-ataque.
Os acontecimentos aconteceram sem acontecerem como se esperava. A máquina do Estado estava paralizada. Os pontos chave estavam nas mãos dos mil homens de Trotzki e as pontes do rio Neva estavam guardadas. Era impossível entrar na cidade.
         Trotzki entrega a revolução a Lenine já prontinha, numa bandeja.
Lenine já pode tirar a peruca e tornar a deixar crescer a pêra e o bigode. A revolução de Outubro tinha sido muito simples. Agora era só ir prender Kerenski ao Palácio de Inverno.


        Eu, quando calha viajar, faço-o sobretudo para estar nos lugares onde a História aconteceu.
      E diga-se, já agora, que quando mais tarde, com Lenine já mumificado, Trotzki  se zanga com Estaline e tenta a mesma táctica para o arredar do poder, está ultrapassado. Perde. Estaline já lhe conhecia o jogo. Tinha tomado as devidas, e neste caso úteis, precauções contra o tacticismo de Trotzki.


        S.Petersburgo: azul, ouro, branco e vermelho. O Ermitage. O Smolny. As avenidas do rio Neva. O Palácio Maria. O Teatro Marinski. O Palácio Tauride. O Palácio de Inverno. A fortaleza de S. Pedro e S. Paulo – se ainda não for condomínio de luxo. Lugares onde se representaram as as comédias e as tragédias da cidade. Um dia gostava de lá ir.  Mas são demasiadas horas de voo para um velho fumador impaciente.