quinta-feira, 18 de abril de 2013


   


         NEM SÓ CAPITÃES HOUVE EM ABRIL

        

É de mau gosto falar em Abril?
Pode ser. Pode ser de mau gosto de falar em algo de belo em tempos de sordidez financeira…
Capitães. Porque quando digo capitães não digo generais, nem coroneis, nem parlamentares, nem chefes de partido, nem autarcas. Quando digo capitães digo coragem, juventude, generosidade, aventura, romantismo revolucionário…
E por falar em Abril… haverá ainda alguma coisa de inconfessável à volta dos acontecimentos do 25 de Abril de tão grata memória para a maioria de nós?
Apareceu escrito (já ninguém se lembra; já ninguém se quer lembrar) que sem uma garantia de não intervenção dada pelos EUA não teria havido 25 de Abril algum. E acho que muita gente pensa há muito tempo: o 25 de Abril, apesar de tudo, tendo sido muito bem cantado, foi pouco ou mal contado, e ainda (trinta e muitos anos passados) há seguramente muita coisa por saber a respeito dele, e há muita gente que já duvida dele, da coragem, da juventude, da generosidade, da aventura e do romantismo revolucionário dele. E também há tempos li em qualquer parte que havia documentos que seriam para vir a público, mas só no século XXI. Pois bem, ele aí está, o século XXI…

Durante muito e muito tempo foi imoral retirar o heroísmo e a generosidade ao 25 de Abril chamando-lhe vulgar golpe de Estado militar desencadeado por razões corporativas…
E quantas mais razões corporativo-militares não haveria hoje, e mais ponderosas (mesmo para militares), para se fazer um pronunciamento, um putsch, um golpe, ou até uma (pequena) revolução? Quantas? 
Pois, eu sei, já não há guerra colonial. As guerras agora são outras. São os tempos. É o tal século XXI…
Mas quantos vinte e cincos de Abril verdadeiramente houve na noite de 24?

                                                                        

À data de 24 de Abril de 1974, a PIDE (por então chamada de DGS), contava com 2162 funcionários, estando 500 deles destacados em Angola e Moçambique. Contava ainda com cerca de 20 mil informadores e para ela também trabalhavam 80 mil legionários, que por sua vez beneficiavam da colaboração de 600 informadores e 200 elementos de uma chamada Força Automóvel de Choque. Nenhum deles pareceu ter-se apercebido de que na noite desse dia ia haver em Portugal um golpe de Estado de uma latitude que mudaria para sempre o país.
(E isto até já me faz lembrar o 11 de Setembro de Nova York. Onde estava a CIA, a NSA, o FBI?)
E desses tantos pides que existiam a 24 de Abril, a revolução, ou o golpe de Estado, já não sei, estranhamente não conseguiu prender mais  de 927.
Quantos vinte e cincos de Abril houve verdadeiramente na noite de 24 para 25?
Que andou a PIDE-DGS a fazer nos meses que precederam o 25 de Abril – e ainda por cima depois do ameaço frustrado do golpe das Caldas? A PIDE, que tudo sabia e que em tudo se infiltrava, seria, afinal de contas, um fantasma ridículo, um tigre de papel?

A PIDE escusou-se a intervir numa conspiração que, para além dos quartéis do país, das ilhas e das colónias, tivera muitas reuniões preparatórias efectuadas não propriamente nas brenhas de uma serra transmontana, mas aqui perto, em casas particulares de Oeiras e Cascais.
A PIDE ignorava piedosamente uma série de movimentações  tramadas por um grupo de funcionários do Estado de médio escalão – os capitães? 
Marcelo Caetano sim, era sabedor das maquinações dos militares. E na ideia de alguns dos capitães de Abril – alguns – pode ter estado a intenção de dar força a Marcelo Caetano na tomada de  medidas necessárias à questão ultramarina. A PIDE teria ordens para não incomodar os militares golpistas mais moderados, chegando a passar-lhes informações sobre quem estava a ser vigiado e quais os telefones que estavam sob escuta. E na hora, a PIDE não incomodou ninguém.
O poder era para caír à rua, ou era para, sofregamente, se conservar nos gabinetes? Primeira questão da nossa moral revolucionária.
A patética preocupação de Marcelo Caetano no quartel do Carmo de que o poder não caísse na rua e a passagem formal desse poder a Spínola, faziam – fariam! – parte dos planos de uma marcação de cena que a PIDE conhecia de gingeira?
Mas a verdade foi que o poder caiu mesmo na rua, e andou algumas vezes bem pelas ruas da amargura.


E essa queda do poder na rua ninguém, por mais optimista ou pessimista (conforme o quadrante ideológico), poderia ter alguma vez sonhado em país de tão brandos costumes – estamos hoje a ver ainda melhor o quão brandos esses costumes são...
25 de Abril? Quantos vinte e cincos de Abril houve antes de nascer o próprio dia 25 de Abril?
Mas nós, que eramos politicamente ingénuos e não estavamos preparados para que acontecesse algum dia alguma coisa de forte na nossa santa terrinha, acreditámos e embarcámos na efabulação mais heróica e generosa da nossa mítica liberdade. Para um povo submetido por 50 anos a uma ditadura, fazerem para ele uma revolução era uma alta questão de moral.
Também ocorre perguntar com um larguíssimo sorriso nos lábios porque é que, na noite de 24 para 25, não estavam no país os nossos mais famosos revolucionários profissionais?


Acho estranho que não soubessem; ou acho estranho que, sabendo-o, não tivessem vindo de escantilhão por aí abaixo e não aparecessem no dia próprio no seu lugar próprio, à cabeça das massas.
Mas afinal ninguém sabia? Nem os defensores nem os inimigos jurados da ditadura sabiam do que se ia passar em Portugal na noite de 24 para 25 de Abril de 1974? Ainda dá para acreditar nisso no dia de hoje?
Os nossos lendários revolucionários profissionais de tantos anos deviam saber de alguma coisa, e deveriam ter chegado pela calada da noite e clandestinamente logo no dia 22 ou 23. Era seu dever sabê-lo. E se não sabiam eram afinal o quê? Revolucionários de água doce? Ou outra qualquer inconfessável coisa? Ou só sabiam que uma bernarda vinha aí, e de efeitos imprevisíveis, e que por isso não valia a pena arriscarem-se a vir de véspera?


E a PIDE? Teria as suas instruções de não intervenção e estaria combinado que as transformações não passariam de uma formal transmissão de poder sem alterações na profunda moral desse poder? E por isso ficou quieta? E quando deu por ela assobiou-lhe às botas, e percebeu que o melhor que tinha a fazer era ou defender-se a tiro ou dar à sola, mesmo sujeitando-se de passagem ao enxovalho de ficar em cuecas no Chiado, a ser apalpada por populares subitamente corajosos.
Houve quem dissesse que os planos operacionais do 25 de Abril não eram assim grande espingarda e contavam com adesões e cumplicidades instáveis que no momento, e como sempre acontece numa revolução ou num golpe de força, poderiam falhar.
Se a guarnição de Lisboa não tivesse sido compincha e tivesse efectivamente actuado contra os militares revoltosos do 25 de Abril tudo teria ido mais uma vez por água abaixo. Houve quem dissesse. Foi uma sorte tudo ter corrido tão bem e sem resistências de maior.
Mas… porque não houve resistências? Porque é que a guarnição militar de Lisboa não actuou?
Nem só capitães houve em Abril. Um movimento revolucionário de esquerda, planeado por jovens capitães mais ou menos de esquerda, aparece pela primeira vez a público liderado por sete oficiais  generais, quatro deles descaradamente de direita?
Como compreender (e acreditar) em tanta coisa quando se sabe que o brigadeiro Jaime Silvério Marques foi mandado prender pelos capitães revolucionários no próprio dia 25 de Abril por ser um militar da ditadura, sendo seguidamente solto, ainda a tempo de aparecer em público, na televisão, como um dos chefes do golpe que derrubava um regime do qual ele fora defensor ao ponto de ter sido preso poucas horas antes?
O programa do movimento revolucionário a que a Junta de Salvação Nacional dos generais vai dar manifesto público é arduamente negociado já nos andamentos da operação, no próprio dia 25 de Abril – ou talvez na madrugada de 24 para 25.
Costa Gomes, no próprio dia 25 de Abril vai a uma consulta no Hospital Militar – podiam perfeitamente ter adiado a revolução, sim , desde que ele apresentasse atestado médico.


E Spinola, cabeça mais visível e mediática da reviravolta, faz depender a sua participação de certas condições políticas. Spínola negoceia duramente o programa político dos revolucionários e emenda-o mais a seu modo.
Costa Gomes, chegado da consulta no Hospital Militar, e ainda antes de ir aviar a receita, também pega no programa e lhe dá uns toques da sua lavra.
Spinola e Costa Gomes. Ambos temem certamente uma evolução do regime, da ditadura para a democracia, que não seja orgânica e natural e aperreada entre as paredes do poder. Porque se a evolução não é natural e controlada – e naturalmente pacífica – será a questão candente do Ultramar a ressentir-se e a solução já demasiado atrasada desse problema poderá continuar adiada ou começar a levar voltas indesejáveis.

E de facto a evolução do regime político não terá sido aquela que os generais mais experientes queriam e a solução do problema ultramarino foi aquela que foi – e ainda não sei, na minha visão curta de homem comum, se, dadas as circunstâncias, a transição do regime e a solução do problema ultramarino poderiam ter sido outras.
Nem só capitães houve em Abril.
A primeira decisão dos generais da Junta é fazer desaparecer Américo Tomás e Marcelo Caetano, mandando-os para a Madeira. Teoricamente sob prisão, mas permitindo que, livres como dois passarões, daí a dias batessem as asas, impunes, para o Brasil.
Que diabo de revolução era aquela?
Não era nenhuma.
Já tudo devia estar combinado há tempo. Nessa altura havia quem não quisesse que tudo fosse além de um palaciano golpe de Estado. Só daí a umas horas começariam a acontecer coisas propriamente revolucionárias – indisciplinadas, descontroladas, indesejáveis para os que não eram capitães.
Mas a libertação de Tomás e Caetano poderia querer dizer então que o regime contra o qual o golpe fora dado e contra o qual a revolução sairia brevemente à rua não era assim tão sinistro, ou que a revolução não se achava assim tão convicta da sua moral, dado que os dois principais responsáveis vivos do odiado regime eram calmamente postos a salvo pelos mais notórios chefes revolucionários, cujas caras o povo via na televisão – e que não eram nada capitães, porque nem só capitães houve em Abril.
            É que hoje (a rapaziada nova por uns motivos e os mais velhos por outros) já não se fala em revoluções. Hoje já ninguém pensa em revoluções. Hoje está tudo devidamente acomodado (acomodado até ao desemprego e à miséria) e todo o pessoal começou a ganhar juizinho e a trabalhar (se o deixarem) para a bucha e para o imposto automóvel. Mas naquele tempo sim, falava-se, ainda, e muito, de revoluções. E uma revolução, nesse tempo, tinha a sua moral. Uma revolução era, primeiro que nada,  uma questão de moral.
Os que tinham alinhado e se tinham comprometido mais ou menos com o antigo regime tiveram nesses dias, a 25, 26, 27 e por aí fora, uma ávida preocupação primeira: limpar a folha, arranjar alibis, explicações; nunca na vida tinham pertencido à Legião ou a Mocidade Portuguesa, todos desde sempre tinham odiado de morte o Salazar e o Marcelo; ou mais: eram todos anti-fascistas desde pequeninos e se ninguém nunca se tinha apercebido de tal fora por isto e por aquilo e assim e assado.
Esses tinham andado demasiados anos a ouvir dizer que os candeeiros de Lisboa eram poucos para enforcar os colaboracionistas quando a situação virasse. O cagaço era muito. Ouvia-se falar muito nos comunistas. E nesses dias primeiros ainda não era completamente conhecida a melancólica tolerância nacional, nem o poder imobilista das burocracias, dos brandos costumes, nem as necessárias cumplicidades revolucionárias.
Nos papeis difundidos pelas estruturas militares revolucionárias logo em Maio de 74, estranha-se que o  país e as Forças Armadas abarrotem de democratas da primeira  hora, e pergunta-se: com tanto democrata nas Forças Armadas e nas instituições nacionais, como fora possível ao fascismo ter existido e sobreviver por 48 anos… e sem fascistas?
Fosse como fosse era preciso um governo. Provisório. E arranjou-se. Mas nele, revolucionários viam-se poucos.
Para presidir ao governo provisório, os revolucionários nomeiam um nome famoso da advocacia, dizia-se que conotado com as grandes famílias capitalistas – as tais dez famílias que concentravam nas mãos o capital financeiro e que, dependentes embora do capital internacional, controlavam a vida económica do país.
Os comunistas são incluídos na governação como presumível autoridade moral dissuasora de desmandos cívicos e agitações laborais.
E no Conselho de Estado o movimento revolucionário está em minoria. A maioria são homens do presidente da Junta, o grande general Spínola.
E como não havia só capitães em Abril, Spinola começa a chamar a si plenos poderes. Ao alto nível das decisões políticas, o golpe de Estado anti fascista ia de vento em pôpa. Mas, pelo andar daquela carruagem, começava a dar a ideia de que seria preciso fazer outro golpe de Estado… contra o ícone maior do primeiro golpe de Estado, o general Spinola.
Logo após as movimentações golpistas, Spinola quis a tropa confinada a quarteis. A política para os políticos – políticos civis que ele desprezava objectivamente (mandava chamar o 1º ministro Palma Carlos como quem manda chamar o 1º sargento da companhia; e ao ministro Raul Rego chamava o nosso cabo Rego).
A política para os políticos. E para os partidos. Mas que é dos políticos? Que é dos partidos que obrigatoriamente são o esteio de uma democracia civilizada? Spinola, por acaso, nas suas concepções de democracia, nem parecia morrer de amores pelo sistema partidário. Inclinava-se, pelo menos em primeiras núpcias, para a existência de uma espécie de associações de opinião. E partidos organizados havia um, e logo o mais temido pelas hostes conservadoras – e antes de mais pelo próprio Spínola. O Partido Comunista.

 

A revolução propriamente dita estava à porta, mas cedo na revolução portuguesa os partidos mais representativos da esquerda se desavieram, deixando Spínola nas suas sete quintas.
O PC instrumentalizava claramente o movimento militar revolucionário. Esse PC de quem então começou a constar que devorava as tais criancinhas ao pequeno almoço e que mandava dar injecções letais atrás da orelha dos velhotes, o que, como contra- informação, de momento, era mais eficaz para consumo da opinião pública analfabeta e despolitizada do que dizer que o PC era estalinista e queria arrastar Portugal para a órbita da União Soviética.
Mas até calhava bem: entre o programa do PCP e o programa do MFA existiam flagrantes coincidências, ainda que nesse entretanto, ingenuamente, os militares, mesmo os activos revolucionários, continuassem a reclamar para si o mais rigoroso apartidarismo.
A extrema esquerda de rua, inimiga figadal do chamado revisionismo, ou social-fascismo, do PCP, influenciava por outro lado o sector mais radical dos militares revolucionários.
O PS procurava aflitivamente o seu espaço de existir e influenciar, na rua, nos sindicatos, nos órgãos populares e de empresa, e para isso a melhor estratégia ainda seria deixar-se caluniar como partido burguês reaccionário por atacar um PCP fortemente organizado e mobilizado que lhe fazia concorrência séria nesses domínios.
Mas claro que o PCP, a milhas de ser ingénuo, não era incondicionalmente que dava os seus ámens aos militares de Abril.


O PCP estava-se nas tintas para o que tivesse ficado combinado nos pressupostos morais do golpe. Tinha há muitíssimos anos o seu próprio projecto de país e de descolonização para cumprir e a esse projecto se subordinava tacticamente.
Mas tudo o que o PCP viesse a fazer de estranho ou errado iria comprometer os militares revolucionários e até empatar o curso da própria revolução. E uma das coisas erradas do PC foi o triunfalismo da sua propaganda e a arrogância de amador dos seus militantes mais de base, nas ruas, nos sindicatos, nos locais de trabalho.
Então e a revolução? Quando é que arranca a revolução? O que virá a ser essa revolução?
Nessa altura, como sempre, como hoje, no país como no Sporting, a situação económica  era de desastre iminente. “Há dinheiro para duas semanas”, dizem os financeiros do governo. Daí a duas semanas não haveria dinheiro para salários e o primeiro responsável pela fome inevitável seria o MFA, a revolução.

E nesse quadro de catástrofe económica, alguém diz: “não há dinheiro nos cofres do Estado? Pois bem, que se vá buscar o dinheiro onde ele está. E onde é que ele está? Está nas mãos dos capitalistas.” Aí estava uma pontada de revolução. Quem assim falava era Vasco Gonçalves.
E claro que depois de o capital se reorganizar, toda a dificuldade de tipo económico por que se passasse, desemprego, salários em atraso, insegurança, descapitalização, falta de produtividade, dificuldades cambiais, aumento de preços, iria a débito da revolução. Mesmo que essa revolução ainda não existisse de facto.
Revolução? Onde estava? O que era? Como era? 


Pois. Revolução era a democracia directa. Era a ocupação de casas devolutas, como foi logo a 29 de Abril, moradores de bairros de lata a ocuparem habitações ainda inacabadas de bairros sociais. Eram as comissões de moradores. Era a monstra manifestação de Lisboa no 1º de Maio. Era, a 5 de Maio, os populares esquerdistas impedirem a partida de contingentes militares para o Ultramar, “nem mais um militar para as colónias”. Eram as greves no Metropolitano, na Carris e nos Correios e a greve do pão – a 30 de Maio. Eram as greves na J.J. Gonçalves, na Toyota, nas margarinas, na Ciba, na Wicander, na Lisnave, na Sandoz, na Pfizer. Eram as greves dos pescadores, da companhia das águas e da marinha mercante. Revolução era “a terra a quem a trabalha” e a expropriação dos latifúndios. Revolução e democracia era ganhá-las ingenuamente pelas armas e pela militância e perdê-las pelas complexidades da economia. Como hoje, falando de democracia.
Revolução era o boicote económico do capital internacional. Era o Banco Mundial a cancelar negociações para um empréstimo de 400.000 contos – revolução também era ninguém poder prever o que aconteceria ao país no século XXI, quando a democracia estivesse mais do que consolidada...
Revolução era a fixação de um salário mínimo nacional de 3.300$ (contra os 6.000$ que os sindicatos reivindicavam) e que viria a beneficiar, tal era a nossa miséria, 50% da população trabalhadora (65% dela no sector público e 95% dela no sector ferroviário). Revolução eram as grandes manifestações contra a guerra colonial; revolução e séria, era, ainda em Maio, o começo dos saneamentos, principal reivindicação dos trabalhadores relativamente a todo o administrador que fosse fascista, incompetente ou arrogante.


Revolução eram os patrões trémulos de medo a provocarem falências fraudulentas ou a arruinarem deliberadamente as empresas levantando os seus lucros e fundos de maneio e indo pô-los a salvo no estrangeiro…


Nenhum dos capitães tinha contado com isso durante a preparação do golpe, mas revolução era a democracia instalada nos quarteis; eram as reivindicações das praças: aumento de pré, direito a trajar à civil, transportes de borla, direito de poder calçar sapatos. Revolução eram as infiltrações de elementos esquerdistas nas casernas; era o incitamento à deserção armada dos soldados; era o convite feito a esses soldados de abandonarem os quarteis e virem para as ruas confraternizar com o povo.
Revolução era a inquietação nos comandos militares: nove oficiais generais da Marinha e 32 do Exército e da Força Aérea saneados.

                        

Revolução era o general Galvão de Melo a perguntar se era aquela a liberdade com que o povo sonhara.

                                           

Revolução era Spínola a querer impor ao país o estado de sítio.
Oh, como eramos felizes na nossa permanente desgraça nacional ao viver esse tempo de capitães, de coragem, de juventude, de generosidade, de aventura, de romantismo revolucionário…
E, oh, como tudo isso era transitório, e como tudo isso passou…


Oh, como toda a mística e todo o carisma desses homens desapareceu para nunca mais voltar…
                                       
                        

Oh, como toda a fé que acalentavamos nas ideologias salvadoras passou…


Oh, e como nós nos estamos a passar…


terça-feira, 16 de abril de 2013


        UMA EXPERIÊNCIA DO TEMPO





Para se ir para a guerra que mais me interessa para este mês de Abril e ter a mais extensa experiência do tempo podia-se fazer a viagem sozinho, de avião - a chamada rendição individual - podia ir-se num navio fretado, integrado numa unidade. Era o mais frequente, julgo eu. E antes da largada – passados os alvoroços e os prantos do cais, os aerogramas, as esferográficas e os maços de tabaco do Movimento Nacional Feminino - oficiais e sargentos podiam ser reunidos num salão do navio para ouvir a prédica de um general: aqueles mancebos tinham a honra de pertencer à geração que na História pátria só achava paralelo nas linhagens do pessoal dos Descobrimentos, os desgraçados peões da História que tinham sulcado os mares e passado medos, fomes e escorbuto, levando a fé e o império aos lugares ignotos.

      


E depois saía-se a barra. O olhar dos mancebos deslumbrava-se com a vista de Lisboa, com a cenografia de brancos que parecia ter sido montada durante a noite, de propósito para eles. Por mim, deslumbrei-me, nesse dia, sim senhor, e foi como se nunca tivesse visto o esplendor da minha cidade, de Lisboa, em manhã de outono claro. Nessa altura podíamos disfarçar  uma lágrima.

Toda a conveniente experiência do tempo comporta, de resto, algumas lágrimas.


E passados dez dias de navegação, ao largo de invisíveis e extravagantes costas hostis, em mares chuvosos de peixes voadores, entrava-se numa baía de palmeiras e falésias de terra vermelha, viam-se lindas mulheres a praticar ski aquático e a acenar ao navio agreste e apinhado que se aproximava do porto.


A noite nos restaurantes, bares e cafés de Luanda era muito movimentada e prenunciadora de primeiros calafrios, com as narrativas lúgubres dos que já lá estavam há tempo – ou seja, dos que já tinham alguma experiência do tempo. Emboscadas, ataques, operações, russos, chineses, cubanos, fome, fartura, granadas, morteiros, minas, feridos, helicópteros, evacuações. Mortos.
Nos clubes nocturnos da Ilha, abertos até de manhã, o ambiente era aparentemente distendido. Comia-se, bebia-se, via-se um show de variedades que incluía, já então, transformismo. Dançava-se – se se tivesse com quem. Podia sair-se ao romper do sol directamente para debaixo dos coqueiros, almoçar por ali, e ficar na praia até ao cair da noite seguinte. Toda a guerra que se preze tem as suas oportunidades de boa vida.


Depois, podiam acontecer dois dias e uma noite de excelente comboio, de carruagens antigas e bem europeias onde não faltava o vagão restaurante, atravessando o território a toda a largura, matas e planuras infindáveis, em direcção às terras do fim do mundo, aos quintos do inferno do Leste. Vá lá, vá lá: era um pouco menos mau do que a Guiné.
A cada centena de quilómetros galgados, a cada paragem de estranha designação, o comboio metia homens armados, espécie de milícias, e era dito aos rapazes que daí em diante começava a ser perigoso, daí em diante a realidade poderia tornar-se demasiado forte e a experiência do tempo mais aguçada.


Até que se chegava a um destino provisório. Uma cidade fronteiriça em que do outro lado estava o Congo ex-belga, ou a República do Zaire, ou o Congo-Kinshasa, ou algo assim, visto que mudou algumas vezes de nome.
 Uma chegada pela noite, na indescritível confusão de homens, mulheres e crianças civís belgas e franceses em fuga, atravessando a fronteira aos magotes só com a roupa que tinham no corpo, gente simples, porque só a gente simples é apanhada pelas guerras. Lembro-me de que havia muitas freiras de cara resignada, onde o pânico se disfarçava civilizadamente de serenidade e reconciliação. A noite era agitada pelo constante e longínquo ribombar.


Os civis eram, muitos deles, funcionários da belga Union Miniére e fugiam da riquíssima província congolesa do Katanga, porque as ambições independentistas de Moisés Tchombé se haviam declarado.

                                      


Tchombé, então grande amigo de Portugal e de Salazar, tinha no terreno os seus mercenários e enfrentava as forças talvez não menos mercenárias de Mobutu. Mobutu que, se não estou em erro, acabava de chegar ao poder.


Os jactos da Força Aérea portuguesa silvavam insistentemente sobre os telhados da cidade, logo de manhã muito cedo, com rumo leste, largavam as suas bombas nos territórios estrangeiros em guerra e regressavam. Salazar mandava dizer  na ONU que a não interferência das forças armadas portuguesas no conflito do Katanga era rigorosa, e os mancebos acabados de chegar começavam por aí a perceber alguma coisa de política, tinham a sua primeira lição prática de estratégia e diplomacia. Começavam a conhecer o tempo. E alguma inocência e idealismo perdiam.


Perante o espectáculo das centenas de civis pálidos e desesperados, mas vivos, que continuavam a entrar a fronteira, os mancebos viviam os dias do seu primeiro medo – outra das formas de experimentar o tempo.
Quem estará a sofrer, a viver e a morrer a meia dúzia de quilómetros daqui? Eram coisas que se tinham visto na televisão e no cinema. Eram coisas que nunca se tinham apreciado de tão perto.


É então isto a guerra? É então este o mais profundo sentido do tempo?


Era. A guerra. A guerra de guerrilhas. A guerra política. A guerra de libertação dos povos colonizados. 

    

E viveriam de seguida outra poderosa experiência do tempo. A picada. Naquele teatro de hostilidades a picada era uma categoria de contagem e vivência do tempo e correlativas surpresas. Viaturas militares a escoltar viaturas civis carregadas de material e abastecimentos, vinte, trinta camiões: a chamada coluna. Dias de caminho sob o sol que fere logo às primeiras horas do dia, sob a chuva repentina que se despenha de um céu de cores impossíveis, evidentemente misturadas por um daltónico. E sempre, mais aqui ou mais ali, hoje, amanhã, para o mês que vem, numa qualquer nesga esquecida da eternidade, a iminência da emboscada, o medo.


Aquela concreta picada de que me recordo, onde os mais pesados carros ressaltavam a cada buraco ou se enterravam no piso de areia empapada pela chuva, era um segmento de infinito, fora rasgada no mato pelos séculos, desbravada pelas vidas, dizia-se que vinha do tempo dos primeiros exploradores; dizia-se que começava no Atlântico, à saída do mar de Benguela; dizia-se que atravessava toda a Angola, às vezes disfarçada de asfaltos ou de gravilhas, a maior parte do tempo arenosa, sinuosa,  fervilhante de perigos,  bordejando o  Zambeze; dizia-se que errava Zâmbia dentro, que riscava Moçambique a toda a largura e que acabava num porto do Índico. Mas o mais certo era essa infernal picada ter-se gerado e definido a si própria e ter existido sempre, como a selva que a continha.


Ao longo dessa picada, e nos séculos de antanho, tinham-se amontoado milhões de almas, centenas e centenas de povoações. Por ela, nos séculos, passara todo o tipo de contrabandos e centenas de milhar de cabeças de escravos acorrentados. Àquela picada, desértica no seu trajecto angolano dos anos 60, por causa da guerra, chamavam os zambianos Hell’s Run, caminho do inferno, porque tudo o que havia de violento ou de infame nela tinha ocorrido, guerras tribais, fugas e capturas de escravos, deserções e traições, dramáticas, canibalismos, assassínios, trabalhos de soberania, confrontos militares. Aquela picada era o traço do tempo e da vida esforçada, violenta, dos homens.


Por essa picada podia ir-se dar a uma descomunal e antiga construção fechada na sombra secreta dos arvoredos, invisível por terra ou pelo ar, que não há muito tempo fora uma leprosaria e que naquela segunda metade dos anos 60 abrigava outros hóspedes, cerca de 2.000 homens negros do exército mercenário de Tchombé, prontos e agressivos no combate, passeando aos pares de namorados nas horas pacíficas, mão na mão,  beijando-se apaixonadamente na boca e alimentando-se sobretudo de amendoins cozidos.
Chegava-se naquele tempo de sobressaltos a um destacamento do exército português isoladíssimo no confim da selva, rés-vés à fronteira com o Congo-Kinshasa. O fluxo de fugitivos militares tinha sido grande nos dias precedentes. A confusão ainda era muita. A chuva impressionava.


- Estão cá os mercenários – diz alguém. Só o nome arrepiava um ex-civil. - Está cá o Bob Dénard.
O sanguinário chefe de mercenários, o lendário aventureiro de uma quantidade de golpes de Estado pelo mundo terceiro, o famoso cabo de todas as guerras clandestinas, inconfessáveis – um dos mais duros da vida e da lenda do mundo dos anos 60 - que em tempos atentara, suspeitava-se, contra o próprio general De Gaulle, e que atentara de facto contra um 1º ministro, Pierre Mendés-France. Todos querem espreitar o aventureiro. Janta em sombrio silêncio com os seus ajudantes numa dependência reservada do pequeno destacamento. Tomara o partido de Tchombé. Tinha perdido muitos homens. Acabava de entrar em território português, escorraçado pelo exército de Mobutu. Ninguém podia aproximar-se dele, excepto aquele civil com ar estrangeirado e aquele inspector da PIDE. Ninguém podia saber que ele estava em território nacional. Ninguém podia saber que ele era ele.
Dénard coxeava um pouco, arrastava uma perna. Tinha (dizia-se) há anos uma bala alojada na cabeça. Por tudo e por nada, para pagar fosse o que fosse, aqueles soldados da fortuna puxavam de saquetas de seda cheias de diamantes agenciados no saque às terras e às casas onde entravam – o que fazia parte do seu contrato. As mulheres deles estavam a comer à parte, numa espécie de barracão. Eram negras esculturais, de cabelos finamente entrançados e luxuosamente vestidas à mais espampanante moda africana.


E na manhã seguinte todos tinham desaparecido. Só a chuva e as explosões distantes ficavam.
A chuva caía com força dias inteiros, noites inteiras. O céu fendia-se em festivais de fogo. A terra tremia das bombas e das tempestades sucessivas. Um helicóptero desce entre a chuva e recolhe dois volumes inertes encharcados de sangue.
Era muita realidade para quem apenas um mês antes cirandava pelo Rossio, tomava café e ia ao cinema, e não sabia que outra vida pudesse ser vivida.
A experiência do tempo tem forçosamente que ser também uma experiência do caos.
A picada aprofunda-se no mato, pertence-lhe,  retira dele todos os sentidos. O percurso de dias de picada é uma viagem que o mancebo faz ao seu íntimo e comporta toda a dor e todo o conhecimento de si e do seu “coração das trevas”.



No primeiro jantar no aquartelamento onde passará os próximos dois anos da sua vida, senta-se num recinto coberto por um telhado de zinco e aberto dos lados. A cobertura é apoiada por seis pilares e cada um desses pilares comporta um pequeno nicho com qualquer coisa branca lá cuidadosamente posta. O mancebo afirma o olhar. Quatro santinhos? Quatro nossas senhoras? É bem possível. Não. Quatro caveiras humanas resplandecentes de brancura.
Era mais um passo na sua iniciação às ruínas aventurosas do tempo.


A chuva preside a todos os festejos de guerra, a todas as bebedeiras. Pode desmaiar-se de whisky. Pode ter que se ser reanimado à força de coraminas injectadas directamente na veia.


A experiência do tempo é a experiência da chuva, do álcool e do fogo. O mancebo que tivesse a experiência do fogo inimigo sobre si teria a real experiência do tempo, poderia figurar como testemunha numa equação de Einstein. Trinta segundos sob o fogo inimigo são tudo quanto é preciso para uma experiência da eternidade e da dúvida, são uma peregrinação pelas lonjuras da vida e da morte. A consciência flutua no cheiro do aço quente e da pólvora. Há clarões rápidos. Há estrondos a sufocar os tímpanos. Há grandes árvores partidas e capins que se incendeiam. Há roçagar de folhagens bruscas. Há o sibilar indistinto do espaço. Há muita compreensão de si e dos outros, finalmente, e um esquecido carinho de mãe. Pode haver uma experiência do sangue, do próprio sangue. Pode haver o desespero ou a inutilidade de todo o amor e de toda a ternura. Pode haver um minuto irreparável da existência. Há por certo imprecações e terríveis ofensas sobre cada momento que nunca se soube se era presente ou passado. Teve-se uma visão do Aleph. Cada coisa contém tudo. O universo pode conter-se num único objecto. Percebeu-se no fogo a sombra de Deus. Segue-se um silêncio. O eco de uma injúria. Um jovem pode estar a soluçar em qualquer parte daquilo que deixou de existir e que nunca existiu tanto.


(Este texto pode ser violento, e possivelmente incorrecto… mas, fala-se tão pouco, tão depressa e tão envergonhadamente – ou tão politicamente – destas coisas… da mais profunda e pessoal verdade que pode haver nestas coisas…)


“Esquece, vá, esquece depressa quem és e o que amas e só assim poderás compreender a tua guerra. Esquece. Só assim te será concedido o dom do tempo”.


A chuva castiga a picada tornando-a quase intransitável durante semanas. Mas a logística não pode parar. Avistam-se as pontes partidas por onde é imperioso passar de noite enfiando os rodados de grandes viaturas em placas compridas, estreitas, escorregadias, que vergam  por cima de um rio rápido de crocodilos.
Lençóis de chuva e a fissura explosiva dos céus negros: tudo o que aumenta num homem a experiência do medo.
Por causa de uma mulata, debaixo de chuva, um camionista mata outro à facada na picada do inferno. Tudo se passa diante de um jovem alferes imberbe e humanista que era estudante de Farmácia.
Chuva. Pistas de aterragem que são quase areias movediças, impossibilitando os abastecimentos. Pode passar-se de repente a comer o mínimo dos mínimos. Massa com chouriço preto. Arroz com chouriço preto. Feijão com chouriço preto. Dobrada de lata. Conforme o isolamento e a chuva pode passar-se lentamente pela experiência da fome, espaço incontornável da experiência do tempo. Podem acordar-se muitas madrugadas com caimbras no estômago. Pode sofrer-se de fome sabendo que não se vai comer a sério nos próximos dias, ou semanas. Pode engordar-se de fome, e comendo apenas latas de fruta em calda, porque se enjoou tudo o resto. Até ao dia em que se está gordo e se enjoam as latas de fruta em calda.
Nas duras caminhadas de dias no mato, em patrulhamentos e operações, há a experiência da sede, mais dura do que a da fome.


São quatro horas da manhã e ordeno-te que bebas dois cálices deste bagaço forte, por causa da chuva, e para teres coragem, e aqui tens cinco, dez homens negros, amarrados de pés e mãos com arames, e sou eu que te digo: estes são os teus inimigos, leva-os contigo e mata-os, fá-los desaparecer, e não tenhas pejo nem arrependimento porque já te disse, estes são os teus inimigos e se não os matas hoje a eles matam-te eles a ti amanhã, porque aqui é esta a moral.
Que fazem os meus lá longe, a esta hora da noite de Natal? Que pensam? Pensam em mim? Poderão eles imaginar a minha experiência desta hora?
Os que estão cá longe, os familiares, os amigos, os pais, preferem sempre imaginar que os seus filhos e amigos tiveram a sorte inaudita de ficar a escrever à máquina no ar condicionado de uma qualquer secretaria.


Todas as manhãs no posto médico do destacamento um cabo brutamontes e analfabeto pratica a sua acção psico-social com as populações. Os naturais fazem fila para serem atendidos por um homem que não lhes compreende a fala e cuja fala eles também não compreendem. O cabo brutamontes ouve-lhes a algaraviada das queixas que não entende e fornece invariavelmente todos os dias os mesmos comprimidos aos mesmos pacientes que batem no peito a agradecer.
 - Quanto queres pela vaca? - pergunta o mal encarado soldado.
- Dois conto - responde o negro dono da vaca, a desfazer-se em salamaleques.
- És doido? Dou-te 500 paus.
O dono da vaca recusa sorridente, não vende a sua vaca por preço tão baixo. O soldado, já então embrutecido pelo tempo e pela chuva, manda afastar os companheiros, põe a arma em posição de fogo e despeja uma rajada sobre a vaca.
- Pronto. Finalmente podemos comer um bife -  e vira-se para o dono da vaca: - Vês? Agora, já nem 500 paus ela vale.


Digo estas coisas aqui – e apenas muito parcialmente – por uma questão de moral. Mas talvez não o devesse fazer. A experiência dos limites do tempo não é para ser revelada aos profanos que jamais o poderão compreender.
São duas e meia da manhã e do aquartelamento, um dos mais isolados, fugiu um soldado. Ter-se-à metido para o mato. Há que o procurar antes de dar dele baixa como desertor.
- Aquilo deixou-se dormir na palhota de uma mulher da povoação - arrisca um camarada.
- Ou tinha gente à espera dele e desertou, e vai voltar para França onde já esteve emigrado - sugere outro.
E em França já o desaparecido tivera a melhor experiência possível do tempo, conforme se gabava, ao pernoitar continuadamente na mesma cama com uma mãe e com uma filha.
As povoações em volta são passadas a pente fino por duas secções de atiradores. Quatro da manhã. As portas das palhotas são arrombadas a pontapé e focos de luz são disparados para o interior.
- Aquilo embebedou-se e está para aí caído.
- Aquilo estava bêbedo e apanhado da cabeça e atirou-se mas foi ao Zambeze.
As bermas da pista de aterragem e das picadas em redor são varridas pelos faróis ao máximo de uma Berliet.
Às quatro de todas as madrugadas do mato há um frio mau que se mete no corpo e caustica os ossos.
- Desertou - decreta o comandante da companhia.
Segue a mensagem  cifrada pelo rádio: uma baixa por deserção, soldado fulano de tal.
Ao amanhecer alguém atravessa a pista de aterragem a assobiar. O desertor.
- Então que é feito de si, homem?
- Fui dar uma volta por aí.
Anulada a nota de deserção. Uma guia de marcha. O soldado seguirá na próxima coluna para Luanda, para o serviço de psiquiatria do Hospital Militar.


Por entre os cheiros naturais da chuva, da terra molhada, da mandioca moída, os destinos individuais continuam a perfumar-se de Old Spice.


A chuva não parara em todo o dia. Agora, meia noite e pouco, com o canto da metralha que vem dos lados do mangueiral de baixo, o destacamento agita-se em sombras. É o rescaldo de um domingo de Páscoa. Sombras ofegantes que correm, escorregam, tropeçam, caem. Responder ao fogo inimigo. Um ataque. Não pensar em mais nada. O inimigo está muito perto do arame farpado. Soltam-se as mais formidáveis injúrias. Os dois amigos e companheiros inseparáveis rastejam na lama até ao abrigo da metralhadora pesada.
O morteiro. Espera-se que uma ou duas granadas de morteiro possam salvar a situação. A metralhadora. Quando é que a metralhadora começa a cantar? Não há ar que baste para as necessidades dos mancebos em pânico. Havia meses que esperavam aquele ataque e já duvidavam dele. Domingo de Páscoa. Nunca se sabe, mas desconfia-se sempre. Gritos desgarrados. Ordens. Sombras.
Os dois amigos inseparáveis chapinham no abrigo da
metralhadora. Há cavalos de fogo a galopar nos horizontes negros do céu, por cima da copa das árvores. A primeira fita de munição encravou. Uma explosão para o lado das cozinhas. Choques. Injúrias. O clarão da granada inimiga, mesmo na sua frente, encandeou-os e deixaram de respirar. Nenhum deles acredita poder sobreviver àquela noite. A segunda fita está preparada. As mãos do moço municiador não lhe obedecem. Ordens gritadas. A metralhadora pesada tem de começar a fazer fogo! Entra a segunda fita de balas. Os dois companheiros e amigos insultam-se. O gatilho emperra. O municiador treme. O apontador seu melhor amigo ofende-o. O inimigo parecia ter ganho uma posição de flanco. Pressentem-se na confusão duas frentes de fogo inimigo. Há um grito de dor. Há rajadas que vêm dos lados do campo de futebol. O morteiro ainda não disparou. A chuva é mais forte. Alguém recomenda um very light. As vozes mecânicas do rádio soltam-se e confundem ainda mais os espíritos da noite e do pânico.
Os dois amigos inseparáveis, apontador e municiador da metralhadora pesada Dreyse continuam a insultar-se. Se sobreviverem nunca mais dirigirão a palavra um ao outro. Entra nova fita de munição. A metralhadora dá fogo, meio minuto de fogo. Volta a encravar. O apontador grita, vê a sombra do amigo a soluçar perante a metralhadora encravada. As balas inimigas assobiam em volta. Nenhum deles passará daquela noite. Uma noite que de súbito se pusera imaculadamente branca nos olhos do apontador. Branca e silenciosa. Um vómito de morte varou-lhe o estômago ao ver o amigo paralizado de medo, em pranto convulsivo. Naquele amigo e companheiro de tantas horas de picada começou a ver um inimigo, e quando disparou sobre ele meia fita de balas, tinha o espírito descansado sobre ínfimas e imaculadas partículas do tempo, compreendendo embora que, se sobrevivesse a essa noite, teria de prestar contas a um tribunal de guerra e que tinha a vida desgraçada.


A uma escassa semana da transferência  para zona mais pacífica, os cinco mancebos vão banhar-se na torrente do Zambeze como todos os dias haviam feito ao longo de 15 meses. São soldados experimentados. Despem-se e deixam as roupas e as armas encostadas a uma certa árvore da margem. E mergulham. E nadam, deliciados.


Das moitas em volta surgem três sombras. Um dos soldados que nada na corrente dá por isso e começa a gritar. De nada serve. As três sombras empunham as próprias armas dos soldados, apontam ao rio e disparam, disparam, rajada sobre rajada. E depois, como sempre, o silêncio. Os cadáveres dos cinco soldados são levados na corrente, para todo o sempre desaparecidos. As três sombras confundiram-se com a folhagem, levaram as armas e os camuflados dos cinco soldados.
E ao acordar certa manhã, espreito pela vigia e vejo os oficiais de bordo vestidos de peliça azul-escura. Os Açores.  A chuva, outra chuva. O frio. O regresso.
O tempo, para mim, de regressar a uma Lisboa que em Janeiro e Fevereiro de 1970 esteve deprimente e cinzenta, sem um sol que brilhasse para todos nós, como mais tarde nos disseram que era possível acontecer.



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quinta-feira, 11 de abril de 2013


  POR EXEMPLO, NÃO ME APETECIA NADA IR A   
                                PEQUIM
               

         - Senhor Presidente, tenho a honra de lhe entregar esta carta do presidente da república francesa, em que o general de De Gaulle me encarrega de ser seu intérprete junto do presidente MaoTsé Tung e de Vossa Excelência.
        Palavras de André Malraux, então ministro da Cultura francês ao chegar, em Pequim, à presença do presidente Liu Shao Chi. Mao Tsé Tung estava lá.
                                                                                          

E só mesmo um pateta inconsciente poderia negar, ou mesmo minimizar, a função da leitura prévia numa mística de viagem. Mas não foi só a Malraux que por acaso recorri como leitura prévia para mais esta viagem que não fiz. A mulher de Hemingway, Martha Gelhorn nessa época, apesar de endurecida como repórter de guerra, e muito machona por sinal, deu por paus e por pedras quando lhe deram a beber o vinho de cobra que o exército chinês bebia. Era feito de arroz fermentado e no fundo da garrafa lá estavam duas pequenas serpentes enroscadas. O marido ainda lhe disse para experimentar então o vinho de pássaros, que era uma massa de cucos esmagados e recozidos em álcool, mas ela parece que não foi daí abaixo. E nos quartos dos hotéis onde pernoitavam havia avisos escritos a aconselhar os senhores hóspedes a não esborrachar os percevejos nas paredes para não dar cabo do papel.
- Se verdadeiramente me amas, Ernie, tira-me deste filme da China, pela tua rica saúde - implorou Martha Gelhorn ao marido.

Caravanas de camelos do Tibete continuavam nessa altura a entrar pachorrentamente em Pequim.
        Pequim? Não tenho nada a ver com isso. Nunca lá irei. É demasiado para mim, que olho para o sorriso de um chinês e não posso fazer a mais pequena ideia se ele está a pensar em apunhalar-me se simpatizou comigo.
        As minhas pequenas reminiscências pequinesas estagnaram num tempo histórico terrível que foi o da Grande Marcha para o poder de Mao Tsé Tung. E continuo a ouvir a conversa entre ele e André Malraux cinquenta anos depois dessa Grande Marcha.
        - Quando os pobres se decidem a combater vencem sempre os ricos – dizia Mao a Malraux, recordando a revolução havida no próprio país do escritor.


        Tempos da grande fome de Tchang Che. Nas aldeias havia cabeças cortadas espetadas em varas altas. Os suspeitos de rebelião eram enterrados vivos. (Gente simpática, afável, cordata.) As árvores estavam todas descascadas, as cascas das árvores eram comidas pelo povo faminto em extremo. As camponesas faziam o voto de reencarnarem como cadelas para serem menos infelizes numa outra vida.
        - Não há marxismo abstracto. O marxismo era para ser adaptado às realidades da China – continua Mao.
        Mao Tsé Tung sempre havia tirado partido das suas derrotas. Uma revolução não podia ser um drama passional. O povo não se conquista pelo lado da razão. Perante situações de fome extrema, a vontade de redenção pela igualdade é como a força de um sentimento religioso.


        Durante a Grande (ou Longa) Marcha, quando estavam para chegar às portas de Pequim, os exércitos revolucionários de Mao Tsé Tung tinham feito 50.000 prisioneiros. É o gigantismo da escala e a exacerbação factual desses orientes o que sufoca o meu conceito pequeno e ocidental de realidade. Pequim, a China, são para mim um planeta desconhecido e desinteressante, uma dimensão humana cuja descomunal tragédia não me sensibiliza.
        Mas gosto do pato, sim, o pato à Pequim…
        Ouçam o Mao a falar:
      - É bom ensinar às massas com precisão aquilo que delas recebemos em confusão. O que conquistou mais aldeias foram as declarações de amargura.
        Os camponeses narravam as suas dores. Uma camponesa vai perguntar a um senhor da guerra e grande proprietário rural: “onde está o meu marido?”. “Olha, filha, deve andar aí pelo jardim.” E andava. Ou antes: estava. No jardim. Decapitado. Deitado no chão com a cabeça pousada em cima da barriga. A mulher agarra na cabeça do marido. Os soldados precipitam-se para ela, querem tirar-lhe a cabeça das mãos. Ela defende-a como que possessa de uma força sobrenatural. Até que os soldados se afastam dela. O senhor da guerra que tinha mandado cortar a cabeça ao marido daquela mulher vem, tempos depois, para grande azar dele, a ser capturado pelos revolucionários e submetido a julgamento público e popular. Durante o julgamento, a mulher foi-se ao senhor da guerra e arrancou-lhe os olhos com os próprios dedos.

        Estávamos nos anos 60 e Malraux declarava a Mao Tsé Tung que a juventude ocidental estava profundamente do lado dele. E era capaz de estar. E esse estar deu frutos e dividendos. E lucros. Olhemos para a classe política portuguesa, por exemplo, e contemos os antigos adeptos e sinófilos e ferrenhos e implacáveis revolucionários maoístas desses anos 60 e 70 e compreendamos no que eles se tornaram hoje: presidentes de conselhos de administração ou membros de governos ditos burgueses (o actual ou outro qualquer), pró-capitalistas e o contrário, se for preciso, e muito moderados, e ditos de centro-esquerda ou de centro-direita, tanto faz, conforme convier mais à conjuntura. O que é a vida … o que são as tão temidas e impetuosas revoluções! Talvez por isso é que já não as haja…
        E como manter a paixão revolucionária cinquenta anos depois de uma revolução? Aí está…
        Era preciso fazer desaparecer o pensamento e a cultura que haviam levado a China à situação pré-revolucionária. Era necessário criar o pensamento e a cultura de uma China proletária.
        Durante os tempos de revolução cultural chinesa corria em Lisboa uma anedota. O brincalhão perguntava a um amigo: “sabes como é que se chama a mulher do Mao Tse Tung?” E é claro que o amigo não fazia ideia do nome da senhora. Mas o brincalhão tinha a resposta pronta: “chama-se Mau Maria”.

        

       Malraux saí do Palácio do Povo e resolve ir ver alguns túmulos. Passa o pórtico de mármore e mete pela alameda funerária. Estátuas de corceis e de camelos. Uma tartaruga, símbolo da longevidade, com garotos a cavalo nela. Cigarras, andorinhas e pardais. O grande jardim. Os canteiros. Vermelho e laranja. Os gladíolos. As telhas envernizadas. Um quiosque com a tiara de plumas de pica-peixe que pertenceu à imperatriz. Um túmulo em ruínas, a seguir, porque um bosque sagrado investira contra o túmulo sem todavia o invadir. Dálias.
        Na Cidade Proibida, onde  os imperadores se julgavam no centro do universo, com a linha do meridiano a passar-lhes por baixo do sim-senhor, rodeados de concubinas e eunucos,  o que o imperador mais temia era que o assassinassem numa emboscada saída de cima das árvores. Malraux avista a árvore onde o último dos Ming se enforcou, no dia em que os manchus entraram em Pequim.


    Nos arrabaldes de Pequim – arrabaldes nessas paragens deve significar uns 400 km. – sei eu que se pode apreciar a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, a Praça de S.Pedro, o Taj Mahal, o Big Ben, a torre de Pisa, as pirâmides do Egipto e… e… as torres gémeas de Nova York. E com um desconto substancial nas dimensões… no esforço visual, quero eu dizer. Podem apreciar-se estas maravilhas apenas por 1/3 do seu tamanho real.



        Mas também para que me serviria a Praça de S. Pedro verdadeira e no seu tamanho real e feita em travertino em vez de esferovite? Quando fizeram essa praça, coitados dos papas e dos artistas renascentistas, ainda não tinham percebido que Roma, Itália, América, China, Japão e Patagónia era tudo o mesmo. Pequim, ao menos, contém o mundo inteiro nos seus arrabaldes. Isto enquanto não o tiver na palma da mão, graças ao seu sistema económico perfeito e global, graças à lógica esclavagista do seu mercado de trabalho e dos seus meios de produção. E sem um Tribunal Constitucional para lhe empatar o serviço.
Essa é que é essa…