segunda-feira, 22 de abril de 2013



           O PASSEIO DE SHAKESPEARE PELO CARMO E                                         
                              PELA TRINDADE




                                     



CENA I
Quarto de dormir de Marcelo (Marcellus) Caetano. Quatro da manhã.
Toca o telefone. Marcelo atende.
- Senhor presidente?
- Sim.
- Fala Silva Pais. A revolução está na rua. O caso desta vez é muito grave. Ocuparam as estações de rádio, a RTP e tomaram o Quartel General.
– Então e agora?
– Estamos a avaliar a extensão do movimento. Aconselho-o a sair de casa com a máxima urgência. A rádio está a dar marchas militares e canções revolucionárias.
– Vou para Monsanto?
– Não, é melhor para o Carmo, senhor presidente. A GNR está fixe.
– Está bem. Os ministros civis que se mantenham nos seus gabinetes.   



CENA II
5.30 da madrugada do dia 25 de Abril de 1974.
Um Opel Manta, verde, com quatro passageiros entra discretamente no Quartel do Carmo pela porta de armas de Cavalaria. Dele saem o presidente do conselho, Marcelo Caetano, o seu adjunto militar e dois inspectores da PIDE. Recebe-os o comandante geral da Guarda, general Adriano Pires. Recebe-os com cortesia, mas à paisana.




CENA III
Gabinete do comandante e saleta no quartel do Carmo.
Marcelo Caetano e quem o acompanha instalam-se no gabinete do comandante e numa sala contígua. Para descansar e guardar os tarecos têm quartos da messe de oficiais.
O telefone.
- Estou. Fala Marcelo Caetano. Passe-me o senhor presidente da república.
– O senhor  presidente não está.
– Onde está?
– Não posso dizer a V.Exa. Tenho ordens.
 – Mas sabe onde ele está?
– Sei, mas não posso revelar.
– Então, se o vir, diga-lhe que eu estou no Quartel do Carmo.
Esta agora… (pensa Marcelo) não é a mim que compete comandar a repressão contra inssurreições militares, ora essa… o Andrade e Silva, o heróico vencedor das Caldas, que trate disso…
No interior do Quartel do Carmo – para meu grande espanto, confesso – moravam à volta de 20 famílias, mulheres, filhos, pais, genros, noras e netos; famílias de oficiais, sargentos e praças, incluindo a família do comandante geral e 2º comandante. E é claro que este facto faz do Quartel do Carmo um alvo não puramente militar, um alvo também civil, o que estaria  fora dos planos dos tácticos do MFA.
A GNR era uma carta fora do baralho do MFA. Era contada, aliás, como força inimiga, como a polícia, como a Legião ou (ambiguamente) a PIDE. Ninguém se lembrara de que o chefe do governo lá se poderia acolher e fazer do Carmo um objectivo cimeiro das movimentações militares do dia.
Conclusão: os homens do MFA não sabiam História.


Alguém no interior do quartel, porém, sabia do que se iria passar, mas, quanto a providências operacionais, nenhumas parecem ter sido tomadas, o que indicia uma tácita indiferença pelos destinos do regime e uma tácita neutralidade.
Não previram foi aquela encomenda que de madrugada lhes caía nos braços a perturbar a santa paz das 20 famílias – encomenda que era nem menos do que o presidente do conselho, Marcelo Caetano. E Marcelo Caetano fita, pensativo, o general Adriano Pires, comandante do quartel. Mas porque é que este homem, um general, numa situação destas, com o seu chefe de governo dentro da unidade, anda à paisana?, pensa Marcelo.


Estando à civil talvez lhe transmita uma mensagem. E a mensagem pode ser: alheamento perante o problema político-militar em que me envolveram, embora tenha feito parte do grupo de generais que no dia 14 de Março passado lhe prestou vassalagem; desacordo e desagrado quanto ao facto de não ter sido consultado sobre a vinda para aqui do presidente do conselho; a pouca vontade de envolver as tropas sob o meu comando na defesa de uma situação política obviamente decadente e de um regime há muito agonizante. E além disso, tenho cá a minha mulher, o meu filho, a minha nora e o meu neto… -  pensa o general Adriano Pires, comandante do quartel
- Que horas são? - diz o comandante da GNR ao oficial de dia.
- Já passa das oito, meu general.
– Bem, nosso tenente, acompanhe o presidente do conselho aos quartos da messe para ele fazer a barba.
         Entra um dos acompanhantes de Marcelo.
- Senhor presidente, os senhores ministros refugiados no Terreiro do Paço fugiram. Abriram um buraco na parede e foram a toque de caixa para Lanceiros 2…
– Então e quem comanda agora a defesa?
– Talvez ainda seja o general Andrade e Silva, o heróico vencedor das Caldas.
– Pois eu quero que seja o ministro Silva Cunha a reorganizar a resistência lá de Lanceiros.
O oficial de dia à unidade acaba de falar em voz baixa com o general comandante.
- Senhor presidente, - diz o general comandante. Acabo de receber a informação de que o meu chefe de estado maior está a telefonar para todos os batalhões. Estão todos prontos a saír.
– Então que esperam para se pôr em acção?
A porta abre-se e entra o coronel Ferrari. A meio da sala derrapa, trava.
– Está aqui o coronel Ferrari, o meu chefe de estado maior.
Marcelo olha para Ferrari (vermelho), o chefe do estado maior da Guarda, e pensa: também estou bem servido com este… o homem é uma figura caricata… olha para isto… parece um palhaço… mas onde eu me vim meter
- Senhor presidente – aceleração de Ferrari -, foi dada ordem ao 2º Esquadrão de Cavalaria para avançar para o Terreiro do Paço.
– E então?
– O esquadrão avançou.
– E depois?
– E depois nada, senhor presidente.
O almirante Henrique Tenreiro apareceu na saleta. Vinha lívido.
- Senhor presidente, estávamos muito quentinhos ali no Terreiro do Paço… quentinhos mas desamparados… íamos ser abarbatados pela multidão que a coberto dos soldados revoltosos já estava a entrar  no edifício. Mas eu conhecia uma saída. Fomos parar à Rua do Arsenal, metêmo-nos num carro e fugimos de escantilhão para a Ajuda.
         Marcelo recebe uma comunicação.
- Como? Uma fragata no Tejo pronta a bombardear o Terreiro do Paço? Não me diga uma dessas. Eles que não disparem!
Há uma chamada para Marcelo, que pega no telefone.
- Senhor general Santos Costa? Fala Marcelo Caetano. Diga. Unidades do Exército e da Força Aérea prontas, disse? Não. Não quero. Diga ao senhor general Kaúlza de Arriaga que não quero um banho de sangue… aguardem ordens minhas…
Marcelo não larga o estupor do telefone.
- Sim, fala Marcelo Caetano… essa fragata do Terreiro do Paço… sim, pois que faça fogo sobre os revoltosos… sim…
- Está lá? Daqui Marcelo Caetano.. não senhor… essa fragata do Terreiro do Paço… o que eu disse foi para que fizessem fogo para o ar… para o ar… não quero um banho… não, sim, esse já tomei, o que eu não quero é um banho… que horas são isto?
- Já passa das dez -  responde um adjunto.
Ouve-se, de fora, uma voz, alta e exaltada:
- Ó senhor inspector, mas de que é que se está à espera  para sufocar esta rebelião?
– Está tudo nas mãos do senhor presidente do conselho.
Entra o ministro Rui Patrício, visivelmente transtornado.
Marcelo pensa: olha o  Patrício… só me faltava este…
- Quero um comprimido. Acordei cheio de dores de cabeça! – grita Patrício.
– Bom dia, senhor ministro Rui Patrício
– Bom dia senhor presidente… acordei cheio de dores de cabeça…
- O caso não é para menos, senhor ministro. Porque veio?
– Vim por iniciativa própria.
– Pois veio meter-se em boa.
– Esse comprimido que pedi quando é que aparece?
– O senhor está muito agitado, senhor ministro, não berre... 
– Pois estou, senhor presidente, e agora sou eu que lhe digo… o caso não é para menos…


CENA IV
         Aposentos privados do general comandante.
Se ele se sentiu caído numa ratoeira ao vir para aqui a culpa é toda dele e dos conselheiros dele – à janela, o comandante-chefe da GNR continua a reflectir com os seus botões na dramática situação que espera poder viver nesse dia. Porque não houve planos de recolha do governo em caso de emergência?


CENA V
Saleta de CENA III.
 Marcelo Caetano está de mãos na cabeça: mas porque não me disseram que o esquadrão tinha saído daqui e que este quartel era só uma companhia de comando e serviços? E ainda por cima com famílias cá dentro, mulheres e crianças?
Pois, ao não lhe dizerem nada disso é como se o tivessem entregue ao carrasco, fazendo dele o bode expiatório do ódio popular ao regime – regime que a nível do inconsciente colectivo, se se pode dizer assim, não era bem dele, era mais, e ainda, o regime de Salazar.
Que sorte será a minha no dia de hoje?, continua a pensar Marcelo. Chegarei vivo ao fim do dia de hoje? Serão estes homens da GNR capazes de impedir que o populacho, sabendo que eu cá estou, invada o quartel e exija a minha cabeça?
 (Sim, digo eu agora, como se Shakespeare redivivo tivesse resolvido ir beber umas canecas e comer uns percebes à Trindade e, passando pelo Carmo, inspirado pelas arquivoltas do convento, tivesse congeminado uma tragédia política das dele. )
Marcelo Caetano senta-se no sofá, bebe um copo de água e acende um cigarro.
Quanto tempo terei mais de vida? Quanto tempo mais de poder? Não terei mais poder. Terei? Se tiver… exijo… exijo que a Guarda ponha todo o seu potencial ao serviço da minha defesa… que abandone os quartéis, que enfrente a revolta e a esmague. Mas talvez eu não tenha mais poder…
  

CENA VI
         Aposentos privados do general comandante.
O general está com alguns oficiais e dois agentes da PIDE. Anda de um lado para o outro.
- Ao mandarem o homem para aqui, os senhores estão a ver o berbicacho levado de seiscentos diabos que nos criaram. A presença dele torna a unidade um objectivo militar para o movimento revolucionário. A qualquer momento se pode desencadear um ataque e eu só penso na minha mulher, no meu filho, na minha nora, no meu genro e no meu neto vocifera o comandante do Quartel.
 Os oficiais do estado-maior da Guarda ali reunidos declamam:
- Também nós, meu general, não queremos sacrificar-nos, e muito menos sacrificar as nossas mulheres, os nossos filhos, as nossas noras, os nossos genros e os nossos netos na defesa de um regime que há muito deu o que tinha a dar e de um homem que está politicamente arrumado.
Alguém faz soar a nota num lamiré.
Os oficiais começam a entoar um coro, em pianíssimo expressivo, uníssono, andante moderato e molto cantabile:
       “Nós temos a nossa vidinha para viver!
Nós temos a nossa vidinha para tratar
Depois de os revoltosos
Tomarem o poder…”


CENA VII
Tudo reunido na messe de oficiais.
- Diga a informação que tem.
– Está uma coluna avançar para cá e a apontar os canhões aqui para a zona do Carmo e da Trindade
– Ai valha-me Nossa Senhora!
– Tenha calma, senhor ministro.
– Mas como posso ter calma, estou cheio de dores de cabeça!
– Tem mais alguma coisa a comunicar, senhor general?
– Saiba V.Exa. que sim.
– Fale, homem!
– Em cima dos carros dos revoltosos vêm civis armados.
– Ai, minha mãezinha! Quero ir para a minha mãe!
– Cale-se senhor ministro!
– Ai Jesus!
- Senhor presidente, daqui da janela estou a ver um formigueiro humano a juntar-se. Vêm atrás dos blindados. Vêm em cima dos blindados.
– Mas estão a juntar-se onde?
– Aqui mesmo no largo… nas ruas adjacentes…
- Senhor general, é preciso romper o cerco.
– Isso só a poder de fogo, senhor presidente. 
- Então, meu general, dou ordem de fogo?
– Será um crime hediondo… um crime contra a humanidade… um crime inútil.
– Defender-me a mim e ao regime é inútil?
– Senhor presidente, o povo parece muito excitado.
– Vão invadir o quartel, vão pedir-vos a minha cabeça.
– Não sei, senhor presidente. O povo está agitado pela iminência da queda do regime.
– Mas eu sei de fonte segura que há oficiais seus com ordens para conter os revoltosos e que quando lá chegam se passam para o lado deles… que estou eu aqui a fazer, então?
– Dilema shakespeareano, senhor presidente… autêntico dilema shakespeareano…
         Entra um oficial:
- Meu general, o povo já está a distribuir comida pelos soldados revoltosos.
– Saberão eles que nós estamos aqui?
– Sim, senhor ministro, sabem, têm um homem cá dentro.
– Um homem? Quem?
- Pois é, senhor general, caímos numa ratoeira. Este quartel não tem defesa. Quando cá cheguei, de madrugada, tinha sido fácil montar um perímetro defensivo. Teria sido fácil mandar sair algumas das unidades de Lisboa. Não se fez isso. Os seus brilhantes oficiais, no meio de uma revolução, e comigo cá dentro, não se lembraram disso. Muito bem. Em que esparrela eu vim cair. “A Guarda está fixe com o governo.” Está-se a ver.
- E eu, que vai ser de mim, meu Deus, com estas dores de cabeça?
– Cale-se senhor ministro!
- Podíamos ter feito o que V.Exa. diz, podíamos – declara o general. - Mas seria sempre uma missão simbólica. Que poderíamos nós fazer para impedir os blindados de avançar? Haveria mortos e feridos… muito sangue…




CENA VIII 
Exterior. Ruas.
Tropas em movimento. Em face da realidade do cerco, as forças no interior do quartel tomam posições defensivas, colocam-se nos pontos chave, na proximidade de gabinetes de comando, junto das portas que deitam para o largo do Carmo.
- É pá, seja qual for a missão, pá, não vamos abrir fogo contra camaradas nossos - dizem os oficiais entre si ao conduzir os soldados aos seus postos.
Estranhamente, ninguém saíra em tempo para o exterior, de modo a assegurar um primeiro anel defensivo – elevador de Santa Justa. Trindade. Rua do Duque, Largo Bordalo Pinheiro, etc. Marcelo Caetano reparou nisso. E criticou. E as forças da Guarda Republicana dos diversos quartéis de Lisboa convergiam para a zona do Carmo e da Trindade, mas não mexiam uma palha contra as forças sitiantes. Arrancavam. Chegavam. Alapavam. E não actuavam. E esperavam. Dava-se uma ilusão de força, mas a ninguém passava pela cabeça fazer fogo. Ou seja, as ordens para entrarem em acção eram transmitidas pelo rádio por algum comando governamental. Essas ordens eram recebidas pelos oficiais no terreno e imediatamente ignoradas. O destino do regime era cair. Todos pareciam conformes quanto a isso. E para que o regime caísse sem fogo nem sangue era importante ganhar tempo. Ganhar tempo para quê? Alguém, algures, havia de saber.
Muita gente não compreendeu  - mesmo gente do regime – porque estava Marcelo Caetano ali, no Carmo, e porque se deixara sitiar com tanta probabilidade de poder cair nas mãos dos revoltosos, e até por se saber que na noite do falhado golpe das Caldas ele se tinha acoitado na Base Aérea de Monsanto, unidade muito mais segura.
A ideia  que dá é de que a vitória do 25 de Abril parecia já ter sido decidida por alguma entidade - material ou espiritual. Daí, talvez, o chefe da PIDE ter aconselhado o presidente do conselho a refugiar-se no Carmo com o argumento de que a Guarda Republicana estava fixe com o regime.
Na verdade, Marcelo Caetano, grande entendido em História, devia saber ser o Carmo o refúgio dos chefes do governo e dos notáveis acossados desde os anos agitados do fim da monarquia e da inauguração da república. Em 1908, António José de Almeida lá esteve, recluso. Já no 5 de Outubro o Carmo esteve cercado e foi convidado à rendição. Estava lá Teixeira de Sousa, o último 1ºministro da monarquia. Em Maio de 1915 foi a vez de Pimenta de Castro e Machado Santos lá se esconderem. Em 1919 foi José Relvas. Em 1925 foi Teixeira Gomes. Em 1926 foi Mendes Cabeçadas. Em 1931 foi lá parar o governo todo. Em 1959 toca a vez a Salazar. E em 61 foi de novo Salazar.


CENA IX
         Saleta.
Marcelo e o general comandante.
- Faça favor de entrar, senhor almirante – diz Marcelo.
Tenreiro dirige-se ao general comandante.
– Túneis, general, túneis! – grita Tenreiro.
- Túneis? Que túneis?
– Sim, que conversa é essa?
– Há túneis, eu sei que há, que ligam o Carmo ao Rossio e a outros antigos conventos - diz Tenreiro. - Vamos descobri-los. Quero ir-me embora daqui. Se o povaréu me apanha… e o senhor presidente fugiria também… se quisesse…
– Não conheço a existência desses túneis.
– Não conhece, senhor general?
         - Juro por tudo quanto há de mais sagrado que não.
         Toca o telefone.
         - Está lá?
         - Estou. Fala Marcelo Caetano.
- Daqui fala Silva Pais. Uma brigada nossa irá buscar V.Exa.. Há uma passagem secreta entre o quartel  e a Rua do Carmo. V.Exa. encontrar-se-à com os inspectores Cardoso, Mortágua e Abílio Pires nesse ponto.



CENA X
         Gabinete com vista para um pátio do quartel e traseiras de prédios.
Marcelo com agentes da PIDE.
- Lamento, senhor presidente, a saída de V. Exa. por helicóptero terá de ser posta de parte… tecnicamente impossível descerem aqui no quartel… pronto, paciência…
- E os túneis do Tenreiro?
– Estamos à procura deles. Ainda não foram encontrados.
– Não há mesmo outra saída?
– Só se se tentasse pelas traseiras das  casas… ali…  que dão para a Rua do Carmo…
- O quê, tenho que subir por aquela escadita de madeira e passar pela janela de um prédio? E vou sair ao telhado?
– Afirmativo, senhor presidente.
– Não rapazes, não contem comigo. Hei-de sair daqui pela porta por onde entrei.


CENA XI
         Saleta.
Toca o telefone. Marcelo atende.
- Está lá? Fala o inspector Óscar Cardoso da DGS. Tenho dois carros na Rua do Carmo. Prontos. Estivemos à espera de V.Exa. no sítio combinado mas V. Exa….
– Não é preciso, vão à vossa vida, rapazes, que eu já estou a tratar de tudo com o general Spínola… vão à vossa vida…
Entra o comandante do quartel.
- Senhor presidente, eles estão a fazer-nos ultimatos. Estão a ser apoiados pelo povo…  
- Por essa chusma!
– Ameaçam que vão disparar sobre o quartel. As nossas mulheres, filhos, noras, genros e netos tremem de medo. Eles ocupam posições nos telhados, nos terraços, em postura ofensiva…
- Ai valha-nos Deus!
- E querem, está visto, que o senhor general lhes entregue a minha pessoa.
– Sem dúvida, senhor presidente… oh, sim, sem dúvida…  
– E o que será de mim se o senhor me entregar?
– Não faço ideia.
– E o senhor está disposto a entregar-me à canalha?
– Não, senhor presidente, oh, não, que ideia…
- Que me diz você? Meios aéreos a sobrevoar aqui o Rossio e o Carmo - grita o almirante Tenreiro ao telefone. - Ou duas companhias blindadas e um heli-canhão?
- Senhor presidente, tenho a dizer-lhe… a Legião rendeu-se – informa o general comandante.
– Olha que ricos defensores eu tinha afinal. Eu e o regime. Sim senhor. Bonito serviço. Dei ordens precisas ao general comandante da Legião e afinal… rendem-se ao primeiro grupo de soldadesca insurrecta que lhes aparece lá na Penha de França.
- Senhor presidente, o grande problema é o povo aglomerado ali no largo.
- Sim, o povinho triunfante veio em passeata até aqui ao Carmo e à Trindade para nos ver cair. E ocupam-me o largo sem a menor resistência, senhor general. Eu estou pasmado, senhor general!  Eu estou para a minha vida com a inércia do seu comando e dos seus homens, pasmado…
– É a vida, senhor presidente, um regime vai, outro vem.
- Ai é?
- Pois é, senhor presidente.
– E eu sei de uma força vossa que veio pela Rua D. Pedro V  para apanhar os revoltosos entre dois fogos. Sei que chegaram, pararam e retiraram. Quem os mandou retirar?
– Sabe-se lá, senhor presidente…
- Ai ele é isso?
- Pois é senhor presidente…



CENA XII
         Instalações privadas do comandante do quartel.
Entra o general. A filha corre para ele.
- Ò paizinho, eles vão assaltar o quartel, paizinho!
– Não, filha, não vão. Não podem. As portas estão fechadas.
– Mas ó papá, eles vão rebentar com as portas
- Não vão nada.
– Sim, paizinho, vão… já se ouviu dizer que eles iam bombardear o quartel!
O general arrepela os cabelos, dá punhadas na cabeça. Grita.
- Oh, mas porque é que este homem se veio aqui meter? Porque é que este homem veio estragar a minha vida e a vida da minha mulher e do meu filho e da minha nora e do meu genro e do meu neto?
Entra um oficial. Fica pesaroso ante o estado lastimoso do seu general.
- Ele que se entregue, meu general, queremos lá saber dele para alguma coisa, o alvo é ele e não nós, e por isso não achamos justo, meu general…
- Ó paizinho, eles já estão a entrar pela porta de Cavalaria!
Ouvem-se tiros.
- Fogo! Estão a fazer fogo sobre o quartel!
Entra a mulher do general. Lavada em lágrimas.
- Estamos a esconder as nossas coisas mais valiosas. O povo vai assaltar o quartel. Estamos todos transidos de medo na sala das tintas. Somos vinte.


CENA XIII
         Saleta.
- Senhor presidente, o povo já está a gritar por vitória e a dar vivas à liberdade. Estão a gritar “abaixo o fascismo”
– Ai minha mãezinha!
– Ó Rui Patrício tenha termos! Porte-se com a dignidade própria do seu… então, que novas me traz agora, senhor general?
– Bem, senhor presidente, as nossas forças não querem tomar a iniciativa de abrir fogo…
- Ai não? Que ricas forças o senhor comanda. Os túneis?
– Não foram encontrados.
– Estou a ouvir daqui os insultos da populaça!
– Se os meus homens avançarem, o povo arranca as pedras da calçada, atira-lhes com elas e os pobres ainda levam roda de assassinos…
- E depois?
– Será um crime.
- Mandem o heli-canhão varrer essa escumalha! – grita Tenreiro.
– O posto de comando deles exige que lhes entreguemos V. Exa. Fizeram-nos outro ultimato Podem arrasar o quartel.
– Ai podem?
– Podem. Por causa de V.Exa. Não acho justo.  E a minha mulher e o meu filho e a minha nora e o meu genro e o meu neto?
- Bom. O governo está disposto a encetar negociações. O governo está aberto a quaisquer propostas!
- Eles têm a certeza de que V.Exa. está cá. Temos dez minutos para nos rendermos.
– E  senhor general vai-se render?
– Não.
– Ah.
– Ninguém respondeu ao ultimato, mas se eles encostam um blindado ao portão partem tudo e entram por aí dentro…
Entra um oficial da Guarda. Bate a pala.
- Meu general… está a ouvir o fogo?
– Estou.
– É a HK 21. Estão a atingir as janelas de cima e o telhado.
– Que tal, senhor presidente?
– Meu general, o fogo deles está a atingir a cozinha. O pessoal está em pânico. Que fazemos?
O general sai da saleta...



CENA XIV
… e no corredor encontra a mulher em pânico.
- Adriano, Adriano… estão a metralhar a nossa casa! Na cozinha só por sorte não mataram alguém… fazes favor de te veres livre desse Marcelo Caetano imediatamente ou ainda morremos todos por causa dele!
Um outro oficial pede licença para falar.
– Diga. Que foi agora?
– Meu general, foi atingida a mesa de trabalho do capitão Coelho.
– Adriano, Adriano, vamos morrer aqui todos hoje! – grita a mulher do general.
O general vira costas. E diz:
 – Não me rendo. O quartel não se rende.
- Oh, Adriano! – grita a mulher.

                                


CENA XV
         Gabinete do general comandante.
- Faça favor de entrar senhor ministro do Interior…
- Era só para dizer aos seus homens que aguentem mais um pouco e não abram fogo. Já estamos em contacto com o general Spínola.
– Que horas são?
– 16.15.
Entra um oficial esbaforido.
– Meu general, há mais fogo. Eles estão nas varandas da companhia de seguros a fazer fogo de G3. Todos fazem fogo. É uma fuzilaria infernal
– Estou a ouvir. Que será de mim, da minha mulher, do meu filho, da minha nora, do meu genro e do meu neto?


CENA XVI
         Na saleta.
Marcelo fuma um cigarro.
- Mas ó meus senhores, eu vou-me entregar, e entregar o poder a quem? Dizem-me que é um capitãozito de merda que comanda os rebeldes lá em baixo… eu vou-me entregar a um capitão? Se é o general Spínola o cabeça da revolta porque não aparece?
– Senhor presidente, o general Spínola disse que não foi, não é, nem nunca será alguém que pegue em armas contra o seu governo.
– Então quem é que os comanda? Eu só entrego o poder a um oficial general.
         Entra o general comandante e logo a seguir apresenta-se um oficial da Guarda.
- Meu general…
- Diga, homem…
- O fogo atingiu os portões e só por milagre não acertou nos homens que estão nos postos de defesa…
O general vira-se para Marcelo.
– Se acertasse, o senhor presidente do conselho ficaria com uma responsabilidade moral muito pesada em cima dos ombros…
- Eu? Ora essa…
- V. Exa. claro… porque, meus senhores, tudo isto coloca uma grande questão de moral…
- Dizem-me que há senhoras aflitas em correrias pelo quartel…
- Efectivamente, senhor presidente…
         O general parece ter tomado uma decisão. Fala à parte com os seus oficiais.
- Bem, meus senhores, vamos responder ao fogo!
– As consequências serão incalculáveis, meu general.
– Pois serão.
– Será uma tragédia, meu general.
– Pois será.
- Esse ladrão do Shakespeare anda por aí.
- Pois anda.
- Deve estar ali na Trindade… nas canecas…
- É o mais certo.
         Saem.
Entra um oficial desconhecido. Marcelo levanta-se do sofá.
- Quem é o senhor?
– Sou o major Velasco, delegado do MFA, e estou aqui para dizer a V.Exa. que V.Exa. vai desencadear uma tragédia.
– O simples facto de eu existir pode desencadear uma tragédia, já vi.
– Saiba V. Exa. que sim.
 – Ó senhor, vá-se embora. Desampare-me a loja. E tenha calma. Mas olhe, fico a saber que afinal temos o inimigo dentro da praça…


         Entra o Ferrari, o apalhaçado chefe do estado maior da GNR. Trava. Cumprimenta. Diz:
- Na minha qualidade de chefe do estado maior da GNR, quero dizer a V.Exa que a sua presença está a comprometer a segurança de quantos vivem neste quartel.
Marcelo vira-se para os ministros presentes.
- Não sei se os senhores estão a ver a questão por este lado… os insurrectos querem despachar-se porque não podem prolongar as manobras militares por mais de um dia. Se o fizerem, Madrid intervirá ao abrigo do Pacto Ibérico…
Torna a entrar o general comandante.
- Senhor presidente, a situação é extremamente melindrosa. O comandante dos revoltosos mandou abrir fogo de Panhard sobre o quartel. Só não aconteceu nada porque houve um equívoco na ordem de fogo e ninguém disparou. Mas se tivessem disparado…
- Se…
- A granada teria deixado o quartel e o convento em escombros e teríamos morrido todos…
- Mas não morremos.
Entra um ajudante de campo. Cumprimenta. Diz:
– Estão aqui os doutores Feytor Pinto e Nuno Távora com uma mensagem para o senhor presidente do conselho.
– Que façam o favor de entrar.
Entram os doutores.
Senhor Presidente, lá fora foi dado alto ao fogo – diz um oficial da Guarda.
Falam os doutores:
- Senhor presidente, o senhor general Spínola diz que nos arriscamos a um banho de sangue. Cabe ao governo encontrar uma solução. O general Spínola diz-se disposto a tomar conta da situação.
– É ele o chefe?
– O senhor general reitera que não é, nunca foi, nem nunca será. Apenas segue os acontecimentos.
– Rendo-me, porém, na condição de o poder não cair na rua.
– Temos de comunicar ao general Spínola. O comandante dos revoltosos deu-nos dez minutos.
- Passe-me esse telefone…


         O telefone é-lhe passado.
- General? Daqui Marcelo Caetano. Tenho de reconhecer que estou vencido. Ouço daqui a multidão ululante. Se tenho de capitular que não seja perante um capitão, que seja perante alguém responsável que mantenha a ordem pública e tranquilize o país. Peço-lhe que venha aqui quanto antes. Obrigado, general. Olhe, telefonista… faz favor… sim, minha senhora… faça favor de pedir que me tragam uma garrafa de Água Castelo e um pacote de bolachas de água e sal. Obrigado.
-  Senhor presidente…
- Diga.
– Os militares lá fora já não conseguem conter o povo. Já romperam os cordões de segurança.
– Hum, hum… justiça popular…vão entrar por aqui dentro e chacinar-nos… afinal não era um exercício de retórica… o poder pode mesmo cair na rua…
Entra um oficial
- Quem é você?
- Apresenta-se o capitão de Cavalaria Salgueiro Maia, comandante das forças sitiantes.
– Olha! Perfilado e em continência… ora toma!, afinal são uns cavalheiros – anima-se o ministro Patrício.
- Cale-se, Patrício!
Marcelo olha com severidade o recém-chegado.
– Que está o senhor aqui a fazer?
– Tenho ordens para fazer um ultimato: ou V. Exa. se rende, ou serei obrigado a arrasar o quartel a tiro de canhão.
– De facto, já não tenho forças para resistir. Mas não concebo sair daqui com vida deixando o país entregue a uma máscara que não sei que rostos encobre… e já que o general Spínola me garantiu não estar dentro da conspiração…
– Arrasarei o quartel.
– O senhor não arrasa coisa nenhuma. O general Spínola está a chegar. Ouça, meu jovem… já sei que não governo. Só espero que me tratem com a dignidade com que sempre vivi. Vá lá para fora e acalme mas é essa populaça.
– Estão tomadas medidas para evitar atentados contra a integridade física de V. Exa.. Será metido numa viatura blindada e ficará às ordens do movimento.  
– Espere lá. Diga-me uma coisa… que vão vocês fazer com o ultramar?
– Evitaremos que o ultramar se transforme numa outra Índia.
– Não é com um golpe de Estado que se resolve o problema do ultramar.




CENA XVII
         Exterior. Porta de armas do quartel do Carmo.
Multidão em gritos e vaias. O capitão Maia é abordado por um camarada ansioso.
- Então, ó Maia, como é que foi?
– Ele acha que somos uns garotos.


CENA XVIII
         Na saleta.
- Estão a ouvir, srs. ministros? Estão a ouvir o regougar dos díscolos na rua? Pois aqui solenemente vos juro que não me apanharão com vida. Se o Spínola não me vier buscar, estou resolvido a dar um tiro na cabeça.
– Ai que horror, senhor presidente!
– Que é isso, Rui Patrício… a chorar que nem um bebé? Senhores ministros, então? A chorar quem umas madalenas? E você Pedro Feytor Pinto… tudo a chorar… em vez de me darem ânimo querem-mo quebrar? 



CENA XIX
         Um corredor do quartel do Carmo.
 O general Spínola e comitiva caminham direitos à saleta onde está Marcelo.
- Olha o estado a que estes gajos deixaram chegar isto – resmunga Spínola.
Entram na saleta.


CENA XX
         Saleta.
Spínola cumprimenta Marcelo.
- Boa tarde, senhor presidente.
– Senhor general, faça favor de se sentar.
– O estado em que V. Exa me entrega o país. Tudo isto poderia ter sido evitado.
– Pois podia, senhor general, isso podia…
- Se V. Exa. me tivesse dado ouvidos…
– A si?
– Sim. A mim. Mas agora é tarde para V.Exa. reconhecer a razão que me assistia.
– O que teria evitado isto era o senhor e o Costa Gomes terem ido expor a situação ao presidente da república quando vos pedi para o fazerem. Mas o momento não é para recriminações. Quais são os seus projectos a meu respeito?                               
                                       

CENA XXI
         Exterior. Noite. Largo do Carmo. Multidão furiosa.
         A porta de armas abre-se e sai uma Chaimite. Consta-se entre o povo que Marcelo Caetano e os ministros presentes no Quartel do Carmo lá seguiam enfiados. Era mentira. Era uma manobra de diversão. Marcelo e os ministros sairiam noutra Chaimite um poco mais tarde. Mas a primeira Chaimite, provavelmente vazia, rompe sob as arruaças e os insultos do povaréu apinhado no Largo do Carmo.



CENA XXII
         Parada do quartel. Noite.
Uma figura das grandes do mais ultra salazarismo, que se fizera de morto e ficara esquecido no interior do quartel, deambula por ali. Ouve um barulho. Esconde-se. Torna a aparecer. Torna a esconder-se. Torna a aparecer. Ninguém se lembrara dele. Nem os revoltosos - partindo do princípio de que sabiam que ele lá estava. É o almirante Henrique Tenreiro.
Fizera-se prudentemente desaparecer da circulação pouco antes do anoitecer, sabendo embora que o quartel estava de prevenção rigorosa e que não podia permanecer lá dentro ninguém estranho à unidade.
Mas está cheio de fraqueza. E por isso entra numa sala, agarra num telefone e pede de jantar.


CENA XXIII
         Messe de oficiais.
As alheiras não lhes estão a cair bem. Ainda estão entre o assustado e o aliviado.
O general comandante recebe um recado do seu oficial às ordens
- Ele quer jantar? – admira-se o general comandante, mal refeito do susto da tarde. - Mandem-lhe ao quarto uma sandes e uma garrafa de água, e é um pau. E amanhã que se ponha na alheta que eu não me quero comprometer mais com essa gente, nem eu, nem a minha mulher, nem o meu filho, nem a minha nora, nem o meu genro, nem o meu neto. Andex, andex…


CENA XXIV
No dia seguinte. Manhã cedo.
Com o furor revolucionário a despontar por toda a cidade, o almirante Tenreiro, uma das mais odiadas figuras do salazarismo, sai do quartel do Carmo por uma porta lateral.
Desce tranquilamente a Calçada do Carmo sem que ninguém o reconheça. Assobia uma canção posta em voga na noite anterior.
E mais uma vez desaparece.
Pode ser que  venha  a aparecer no Brasil.
Pode ser que ainda seja preso às ordens do MFA?



CENA XXV
         Cervejaria da Trindade.
Will Shakespeare está abancado com dois ou três compinchas – Burbage, talvez, Christopher Marlowe, é mais do que certo; Francis Bacon, é muito possível. Está muito bêbedo, mas ainda manda vir mais uma rodada.

                          



(Devo a informação objectiva em que se baseou este texto ao livro Para Além do Portão, do major da GNR  e historiador militar Nuno Andrade – a quem presto a grande e devida homenagem. Editora Guerra e Paz.)

quinta-feira, 18 de abril de 2013


   


         NEM SÓ CAPITÃES HOUVE EM ABRIL

        

É de mau gosto falar em Abril?
Pode ser. Pode ser de mau gosto de falar em algo de belo em tempos de sordidez financeira…
Capitães. Porque quando digo capitães não digo generais, nem coroneis, nem parlamentares, nem chefes de partido, nem autarcas. Quando digo capitães digo coragem, juventude, generosidade, aventura, romantismo revolucionário…
E por falar em Abril… haverá ainda alguma coisa de inconfessável à volta dos acontecimentos do 25 de Abril de tão grata memória para a maioria de nós?
Apareceu escrito (já ninguém se lembra; já ninguém se quer lembrar) que sem uma garantia de não intervenção dada pelos EUA não teria havido 25 de Abril algum. E acho que muita gente pensa há muito tempo: o 25 de Abril, apesar de tudo, tendo sido muito bem cantado, foi pouco ou mal contado, e ainda (trinta e muitos anos passados) há seguramente muita coisa por saber a respeito dele, e há muita gente que já duvida dele, da coragem, da juventude, da generosidade, da aventura e do romantismo revolucionário dele. E também há tempos li em qualquer parte que havia documentos que seriam para vir a público, mas só no século XXI. Pois bem, ele aí está, o século XXI…

Durante muito e muito tempo foi imoral retirar o heroísmo e a generosidade ao 25 de Abril chamando-lhe vulgar golpe de Estado militar desencadeado por razões corporativas…
E quantas mais razões corporativo-militares não haveria hoje, e mais ponderosas (mesmo para militares), para se fazer um pronunciamento, um putsch, um golpe, ou até uma (pequena) revolução? Quantas? 
Pois, eu sei, já não há guerra colonial. As guerras agora são outras. São os tempos. É o tal século XXI…
Mas quantos vinte e cincos de Abril verdadeiramente houve na noite de 24?

                                                                        

À data de 24 de Abril de 1974, a PIDE (por então chamada de DGS), contava com 2162 funcionários, estando 500 deles destacados em Angola e Moçambique. Contava ainda com cerca de 20 mil informadores e para ela também trabalhavam 80 mil legionários, que por sua vez beneficiavam da colaboração de 600 informadores e 200 elementos de uma chamada Força Automóvel de Choque. Nenhum deles pareceu ter-se apercebido de que na noite desse dia ia haver em Portugal um golpe de Estado de uma latitude que mudaria para sempre o país.
(E isto até já me faz lembrar o 11 de Setembro de Nova York. Onde estava a CIA, a NSA, o FBI?)
E desses tantos pides que existiam a 24 de Abril, a revolução, ou o golpe de Estado, já não sei, estranhamente não conseguiu prender mais  de 927.
Quantos vinte e cincos de Abril houve verdadeiramente na noite de 24 para 25?
Que andou a PIDE-DGS a fazer nos meses que precederam o 25 de Abril – e ainda por cima depois do ameaço frustrado do golpe das Caldas? A PIDE, que tudo sabia e que em tudo se infiltrava, seria, afinal de contas, um fantasma ridículo, um tigre de papel?

A PIDE escusou-se a intervir numa conspiração que, para além dos quartéis do país, das ilhas e das colónias, tivera muitas reuniões preparatórias efectuadas não propriamente nas brenhas de uma serra transmontana, mas aqui perto, em casas particulares de Oeiras e Cascais.
A PIDE ignorava piedosamente uma série de movimentações  tramadas por um grupo de funcionários do Estado de médio escalão – os capitães? 
Marcelo Caetano sim, era sabedor das maquinações dos militares. E na ideia de alguns dos capitães de Abril – alguns – pode ter estado a intenção de dar força a Marcelo Caetano na tomada de  medidas necessárias à questão ultramarina. A PIDE teria ordens para não incomodar os militares golpistas mais moderados, chegando a passar-lhes informações sobre quem estava a ser vigiado e quais os telefones que estavam sob escuta. E na hora, a PIDE não incomodou ninguém.
O poder era para caír à rua, ou era para, sofregamente, se conservar nos gabinetes? Primeira questão da nossa moral revolucionária.
A patética preocupação de Marcelo Caetano no quartel do Carmo de que o poder não caísse na rua e a passagem formal desse poder a Spínola, faziam – fariam! – parte dos planos de uma marcação de cena que a PIDE conhecia de gingeira?
Mas a verdade foi que o poder caiu mesmo na rua, e andou algumas vezes bem pelas ruas da amargura.


E essa queda do poder na rua ninguém, por mais optimista ou pessimista (conforme o quadrante ideológico), poderia ter alguma vez sonhado em país de tão brandos costumes – estamos hoje a ver ainda melhor o quão brandos esses costumes são...
25 de Abril? Quantos vinte e cincos de Abril houve antes de nascer o próprio dia 25 de Abril?
Mas nós, que eramos politicamente ingénuos e não estavamos preparados para que acontecesse algum dia alguma coisa de forte na nossa santa terrinha, acreditámos e embarcámos na efabulação mais heróica e generosa da nossa mítica liberdade. Para um povo submetido por 50 anos a uma ditadura, fazerem para ele uma revolução era uma alta questão de moral.
Também ocorre perguntar com um larguíssimo sorriso nos lábios porque é que, na noite de 24 para 25, não estavam no país os nossos mais famosos revolucionários profissionais?


Acho estranho que não soubessem; ou acho estranho que, sabendo-o, não tivessem vindo de escantilhão por aí abaixo e não aparecessem no dia próprio no seu lugar próprio, à cabeça das massas.
Mas afinal ninguém sabia? Nem os defensores nem os inimigos jurados da ditadura sabiam do que se ia passar em Portugal na noite de 24 para 25 de Abril de 1974? Ainda dá para acreditar nisso no dia de hoje?
Os nossos lendários revolucionários profissionais de tantos anos deviam saber de alguma coisa, e deveriam ter chegado pela calada da noite e clandestinamente logo no dia 22 ou 23. Era seu dever sabê-lo. E se não sabiam eram afinal o quê? Revolucionários de água doce? Ou outra qualquer inconfessável coisa? Ou só sabiam que uma bernarda vinha aí, e de efeitos imprevisíveis, e que por isso não valia a pena arriscarem-se a vir de véspera?


E a PIDE? Teria as suas instruções de não intervenção e estaria combinado que as transformações não passariam de uma formal transmissão de poder sem alterações na profunda moral desse poder? E por isso ficou quieta? E quando deu por ela assobiou-lhe às botas, e percebeu que o melhor que tinha a fazer era ou defender-se a tiro ou dar à sola, mesmo sujeitando-se de passagem ao enxovalho de ficar em cuecas no Chiado, a ser apalpada por populares subitamente corajosos.
Houve quem dissesse que os planos operacionais do 25 de Abril não eram assim grande espingarda e contavam com adesões e cumplicidades instáveis que no momento, e como sempre acontece numa revolução ou num golpe de força, poderiam falhar.
Se a guarnição de Lisboa não tivesse sido compincha e tivesse efectivamente actuado contra os militares revoltosos do 25 de Abril tudo teria ido mais uma vez por água abaixo. Houve quem dissesse. Foi uma sorte tudo ter corrido tão bem e sem resistências de maior.
Mas… porque não houve resistências? Porque é que a guarnição militar de Lisboa não actuou?
Nem só capitães houve em Abril. Um movimento revolucionário de esquerda, planeado por jovens capitães mais ou menos de esquerda, aparece pela primeira vez a público liderado por sete oficiais  generais, quatro deles descaradamente de direita?
Como compreender (e acreditar) em tanta coisa quando se sabe que o brigadeiro Jaime Silvério Marques foi mandado prender pelos capitães revolucionários no próprio dia 25 de Abril por ser um militar da ditadura, sendo seguidamente solto, ainda a tempo de aparecer em público, na televisão, como um dos chefes do golpe que derrubava um regime do qual ele fora defensor ao ponto de ter sido preso poucas horas antes?
O programa do movimento revolucionário a que a Junta de Salvação Nacional dos generais vai dar manifesto público é arduamente negociado já nos andamentos da operação, no próprio dia 25 de Abril – ou talvez na madrugada de 24 para 25.
Costa Gomes, no próprio dia 25 de Abril vai a uma consulta no Hospital Militar – podiam perfeitamente ter adiado a revolução, sim , desde que ele apresentasse atestado médico.


E Spinola, cabeça mais visível e mediática da reviravolta, faz depender a sua participação de certas condições políticas. Spínola negoceia duramente o programa político dos revolucionários e emenda-o mais a seu modo.
Costa Gomes, chegado da consulta no Hospital Militar, e ainda antes de ir aviar a receita, também pega no programa e lhe dá uns toques da sua lavra.
Spinola e Costa Gomes. Ambos temem certamente uma evolução do regime, da ditadura para a democracia, que não seja orgânica e natural e aperreada entre as paredes do poder. Porque se a evolução não é natural e controlada – e naturalmente pacífica – será a questão candente do Ultramar a ressentir-se e a solução já demasiado atrasada desse problema poderá continuar adiada ou começar a levar voltas indesejáveis.

E de facto a evolução do regime político não terá sido aquela que os generais mais experientes queriam e a solução do problema ultramarino foi aquela que foi – e ainda não sei, na minha visão curta de homem comum, se, dadas as circunstâncias, a transição do regime e a solução do problema ultramarino poderiam ter sido outras.
Nem só capitães houve em Abril.
A primeira decisão dos generais da Junta é fazer desaparecer Américo Tomás e Marcelo Caetano, mandando-os para a Madeira. Teoricamente sob prisão, mas permitindo que, livres como dois passarões, daí a dias batessem as asas, impunes, para o Brasil.
Que diabo de revolução era aquela?
Não era nenhuma.
Já tudo devia estar combinado há tempo. Nessa altura havia quem não quisesse que tudo fosse além de um palaciano golpe de Estado. Só daí a umas horas começariam a acontecer coisas propriamente revolucionárias – indisciplinadas, descontroladas, indesejáveis para os que não eram capitães.
Mas a libertação de Tomás e Caetano poderia querer dizer então que o regime contra o qual o golpe fora dado e contra o qual a revolução sairia brevemente à rua não era assim tão sinistro, ou que a revolução não se achava assim tão convicta da sua moral, dado que os dois principais responsáveis vivos do odiado regime eram calmamente postos a salvo pelos mais notórios chefes revolucionários, cujas caras o povo via na televisão – e que não eram nada capitães, porque nem só capitães houve em Abril.
            É que hoje (a rapaziada nova por uns motivos e os mais velhos por outros) já não se fala em revoluções. Hoje já ninguém pensa em revoluções. Hoje está tudo devidamente acomodado (acomodado até ao desemprego e à miséria) e todo o pessoal começou a ganhar juizinho e a trabalhar (se o deixarem) para a bucha e para o imposto automóvel. Mas naquele tempo sim, falava-se, ainda, e muito, de revoluções. E uma revolução, nesse tempo, tinha a sua moral. Uma revolução era, primeiro que nada,  uma questão de moral.
Os que tinham alinhado e se tinham comprometido mais ou menos com o antigo regime tiveram nesses dias, a 25, 26, 27 e por aí fora, uma ávida preocupação primeira: limpar a folha, arranjar alibis, explicações; nunca na vida tinham pertencido à Legião ou a Mocidade Portuguesa, todos desde sempre tinham odiado de morte o Salazar e o Marcelo; ou mais: eram todos anti-fascistas desde pequeninos e se ninguém nunca se tinha apercebido de tal fora por isto e por aquilo e assim e assado.
Esses tinham andado demasiados anos a ouvir dizer que os candeeiros de Lisboa eram poucos para enforcar os colaboracionistas quando a situação virasse. O cagaço era muito. Ouvia-se falar muito nos comunistas. E nesses dias primeiros ainda não era completamente conhecida a melancólica tolerância nacional, nem o poder imobilista das burocracias, dos brandos costumes, nem as necessárias cumplicidades revolucionárias.
Nos papeis difundidos pelas estruturas militares revolucionárias logo em Maio de 74, estranha-se que o  país e as Forças Armadas abarrotem de democratas da primeira  hora, e pergunta-se: com tanto democrata nas Forças Armadas e nas instituições nacionais, como fora possível ao fascismo ter existido e sobreviver por 48 anos… e sem fascistas?
Fosse como fosse era preciso um governo. Provisório. E arranjou-se. Mas nele, revolucionários viam-se poucos.
Para presidir ao governo provisório, os revolucionários nomeiam um nome famoso da advocacia, dizia-se que conotado com as grandes famílias capitalistas – as tais dez famílias que concentravam nas mãos o capital financeiro e que, dependentes embora do capital internacional, controlavam a vida económica do país.
Os comunistas são incluídos na governação como presumível autoridade moral dissuasora de desmandos cívicos e agitações laborais.
E no Conselho de Estado o movimento revolucionário está em minoria. A maioria são homens do presidente da Junta, o grande general Spínola.
E como não havia só capitães em Abril, Spinola começa a chamar a si plenos poderes. Ao alto nível das decisões políticas, o golpe de Estado anti fascista ia de vento em pôpa. Mas, pelo andar daquela carruagem, começava a dar a ideia de que seria preciso fazer outro golpe de Estado… contra o ícone maior do primeiro golpe de Estado, o general Spinola.
Logo após as movimentações golpistas, Spinola quis a tropa confinada a quarteis. A política para os políticos – políticos civis que ele desprezava objectivamente (mandava chamar o 1º ministro Palma Carlos como quem manda chamar o 1º sargento da companhia; e ao ministro Raul Rego chamava o nosso cabo Rego).
A política para os políticos. E para os partidos. Mas que é dos políticos? Que é dos partidos que obrigatoriamente são o esteio de uma democracia civilizada? Spinola, por acaso, nas suas concepções de democracia, nem parecia morrer de amores pelo sistema partidário. Inclinava-se, pelo menos em primeiras núpcias, para a existência de uma espécie de associações de opinião. E partidos organizados havia um, e logo o mais temido pelas hostes conservadoras – e antes de mais pelo próprio Spínola. O Partido Comunista.

 

A revolução propriamente dita estava à porta, mas cedo na revolução portuguesa os partidos mais representativos da esquerda se desavieram, deixando Spínola nas suas sete quintas.
O PC instrumentalizava claramente o movimento militar revolucionário. Esse PC de quem então começou a constar que devorava as tais criancinhas ao pequeno almoço e que mandava dar injecções letais atrás da orelha dos velhotes, o que, como contra- informação, de momento, era mais eficaz para consumo da opinião pública analfabeta e despolitizada do que dizer que o PC era estalinista e queria arrastar Portugal para a órbita da União Soviética.
Mas até calhava bem: entre o programa do PCP e o programa do MFA existiam flagrantes coincidências, ainda que nesse entretanto, ingenuamente, os militares, mesmo os activos revolucionários, continuassem a reclamar para si o mais rigoroso apartidarismo.
A extrema esquerda de rua, inimiga figadal do chamado revisionismo, ou social-fascismo, do PCP, influenciava por outro lado o sector mais radical dos militares revolucionários.
O PS procurava aflitivamente o seu espaço de existir e influenciar, na rua, nos sindicatos, nos órgãos populares e de empresa, e para isso a melhor estratégia ainda seria deixar-se caluniar como partido burguês reaccionário por atacar um PCP fortemente organizado e mobilizado que lhe fazia concorrência séria nesses domínios.
Mas claro que o PCP, a milhas de ser ingénuo, não era incondicionalmente que dava os seus ámens aos militares de Abril.


O PCP estava-se nas tintas para o que tivesse ficado combinado nos pressupostos morais do golpe. Tinha há muitíssimos anos o seu próprio projecto de país e de descolonização para cumprir e a esse projecto se subordinava tacticamente.
Mas tudo o que o PCP viesse a fazer de estranho ou errado iria comprometer os militares revolucionários e até empatar o curso da própria revolução. E uma das coisas erradas do PC foi o triunfalismo da sua propaganda e a arrogância de amador dos seus militantes mais de base, nas ruas, nos sindicatos, nos locais de trabalho.
Então e a revolução? Quando é que arranca a revolução? O que virá a ser essa revolução?
Nessa altura, como sempre, como hoje, no país como no Sporting, a situação económica  era de desastre iminente. “Há dinheiro para duas semanas”, dizem os financeiros do governo. Daí a duas semanas não haveria dinheiro para salários e o primeiro responsável pela fome inevitável seria o MFA, a revolução.

E nesse quadro de catástrofe económica, alguém diz: “não há dinheiro nos cofres do Estado? Pois bem, que se vá buscar o dinheiro onde ele está. E onde é que ele está? Está nas mãos dos capitalistas.” Aí estava uma pontada de revolução. Quem assim falava era Vasco Gonçalves.
E claro que depois de o capital se reorganizar, toda a dificuldade de tipo económico por que se passasse, desemprego, salários em atraso, insegurança, descapitalização, falta de produtividade, dificuldades cambiais, aumento de preços, iria a débito da revolução. Mesmo que essa revolução ainda não existisse de facto.
Revolução? Onde estava? O que era? Como era? 


Pois. Revolução era a democracia directa. Era a ocupação de casas devolutas, como foi logo a 29 de Abril, moradores de bairros de lata a ocuparem habitações ainda inacabadas de bairros sociais. Eram as comissões de moradores. Era a monstra manifestação de Lisboa no 1º de Maio. Era, a 5 de Maio, os populares esquerdistas impedirem a partida de contingentes militares para o Ultramar, “nem mais um militar para as colónias”. Eram as greves no Metropolitano, na Carris e nos Correios e a greve do pão – a 30 de Maio. Eram as greves na J.J. Gonçalves, na Toyota, nas margarinas, na Ciba, na Wicander, na Lisnave, na Sandoz, na Pfizer. Eram as greves dos pescadores, da companhia das águas e da marinha mercante. Revolução era “a terra a quem a trabalha” e a expropriação dos latifúndios. Revolução e democracia era ganhá-las ingenuamente pelas armas e pela militância e perdê-las pelas complexidades da economia. Como hoje, falando de democracia.
Revolução era o boicote económico do capital internacional. Era o Banco Mundial a cancelar negociações para um empréstimo de 400.000 contos – revolução também era ninguém poder prever o que aconteceria ao país no século XXI, quando a democracia estivesse mais do que consolidada...
Revolução era a fixação de um salário mínimo nacional de 3.300$ (contra os 6.000$ que os sindicatos reivindicavam) e que viria a beneficiar, tal era a nossa miséria, 50% da população trabalhadora (65% dela no sector público e 95% dela no sector ferroviário). Revolução eram as grandes manifestações contra a guerra colonial; revolução e séria, era, ainda em Maio, o começo dos saneamentos, principal reivindicação dos trabalhadores relativamente a todo o administrador que fosse fascista, incompetente ou arrogante.


Revolução eram os patrões trémulos de medo a provocarem falências fraudulentas ou a arruinarem deliberadamente as empresas levantando os seus lucros e fundos de maneio e indo pô-los a salvo no estrangeiro…


Nenhum dos capitães tinha contado com isso durante a preparação do golpe, mas revolução era a democracia instalada nos quarteis; eram as reivindicações das praças: aumento de pré, direito a trajar à civil, transportes de borla, direito de poder calçar sapatos. Revolução eram as infiltrações de elementos esquerdistas nas casernas; era o incitamento à deserção armada dos soldados; era o convite feito a esses soldados de abandonarem os quarteis e virem para as ruas confraternizar com o povo.
Revolução era a inquietação nos comandos militares: nove oficiais generais da Marinha e 32 do Exército e da Força Aérea saneados.

                        

Revolução era o general Galvão de Melo a perguntar se era aquela a liberdade com que o povo sonhara.

                                           

Revolução era Spínola a querer impor ao país o estado de sítio.
Oh, como eramos felizes na nossa permanente desgraça nacional ao viver esse tempo de capitães, de coragem, de juventude, de generosidade, de aventura, de romantismo revolucionário…
E, oh, como tudo isso era transitório, e como tudo isso passou…


Oh, como toda a mística e todo o carisma desses homens desapareceu para nunca mais voltar…
                                       
                        

Oh, como toda a fé que acalentavamos nas ideologias salvadoras passou…


Oh, e como nós nos estamos a passar…