sexta-feira, 26 de abril de 2013


              A MORAL DE BAYREUTH – A ESTÉTICA

        


         Terminara a II Guerra Mundial. Para um tão singular empreendimento artístico como o Festival de Bayreuth outra guerra estaria para começar, uma guerra democrática, vamos lá, de sobrevivência moral, de redenção dos horrores, de recuperação de prestígios. Impunha-se uma profunda revisão estética – para não falar da inevitável actualização dos compromissos políticos. Impunha-se a tarefa de revalorizar aos olhos do mundo da cultura a intemporalidade de Wagner, e por consequência da missão do festival.
         A Europa não seria mais a mesma. E Bayreuth ainda significava uma legitimação dos pesadelos à mais excelsa escala espiritual e cultural.
Bayreuth fora parte de uma poética do nazismo. Reabilitar Bayreuth poderia ser também reabilitar a cultura alemã tão negregada naqueles tempos, tão conformada aos valores do racismo militante, do militarismo e do genocídio. E uma reabilitação da cultura alemã passaria sem a mais pequena sombra de dúvida por uma reabilitação de Wagner – da obra, que não do homem.
Empresa de ciclópicos contornos, quando tantos atribuíam a Wagner, à sua música e ao poderoso pensamento que lhe dava forma, boa quota parte da paternidade moral e cultural do nazismo agressivo e devastadoramente anti-semita.

Bayreuth, já se vê, era um teatro especial. Mais do que um teatro, era uma instituição e um templo do espírito germânico, e com uma estética específica e bem evocadora dos fastos hitlerianos. E tudo isso num mundo comunicacional, cultural e artístico em que os judeus nunca tinham deixado de pontificar moralmente, e agora com posição reforçada. Bayreuth era uma catedral onde, se não era permitido mudar de religião, haveria ao menos que tentar o (como agora se diz) branqueamento dessa religião reformando-lhe as liturgias.

Recuperar Wagner para a memória do mundo era recuperar a validade da sua música para os valores do pós-guerra, do parlamentarismo, da democracia representativa, do Plano Marshall, do mercado livre. Era, enfim, e por meio de uma formidável renovação estética, recuperar na sua música um universalismo que alguns punham vigorosamente em causa, de tão associados que estariam à tragédia do nazismo e do holocausto.
        
                                            

E dá-se a fundação do que se passaria a chamar o Novo Bayreuth. E, mais difícil ainda, será na família do próprio Wagner que germinarão as coordenadas reabilitadoras.


A partir de 1951, por acção dos irmãos Wieland e Wolfgang Wagner, netos do mestre, irrompem no imaginário dos melómanos menos renitentes as novas possibilidades de ouvir e ver o drama wagneriano sem demasiados agravos de consciência. No sagrado espaço de Bayreuth inaugura-se a alternativa redentora, o experimentalismo, a vanguarda estética (doravante a abarrotar de Freud), despojada tanto das cangalhadas naturalistas de Oitocentos como das comemorativas pompas nazis. Afinal, Wagner ainda poderia ser uma hipótese numa Europa devastada, mas, enfim, democratizada.

Toca a Wieland Wagner mostrar ao mundo novo do Ocidente a valência inesgotável da obra de seu avô, arrojando para longe da sagrada colina as concepções passadistas em favor da estilização. Wieland deixa Bayreuth e a cultura wagneriana no divã da psicanálise, instaurando a luz como elemento central de uma dramaturgia sobrecarregada. Dessacralizando o drama wagneriano dos panejamentos dogmáticos, Wieland vai acabar por sacralizá-lo de um modo, este sim, verdadeiramente cerimonial, litúrgico, acentuando-lhe as religiosidades virtuais pela esculturalização e pelo hieratismo dos oficiantes, os cantores-actores.

                                              

Para um teatro vivo e actuante não podemos conceber um estilo que não seja um estilo contemporâneo, disse ele, antes de pôr o seu genial avô no íntimo das consciências artísticas europeias mais insuspeitas e menos susceptíveis de serem confundidas com a ideologia maldita. 
Por outro lado, perde pontos para a velha guarda tradicional, encabeçada pela própria mãe, Winifred, racista e nazi até mais não. Winifred começa a duvidar da qualidade do sangue daquele seu estranho filho, de tal arte é a desfaçatez com que ele consuma a traição aos mais caros princípios do genial avô.
O celebrado maestro wagneriano Hans Knappertsbusch, em carta a Wieland Wagner, diria: a minha fidelidade a Wagner é absoluta, e maior, infinitamente maior do que a sua, Wieland. De modo que não sei se no quadro do novo Bayreuth ainda poderei ser útil. Em qualquer dos casos, sinto muita pena ao verificar que Wieland Wagner abandona o caminho único que conduz a Richard Wagner.

Wieland Wagner foi a mais importante referência inovadora na estética teatral de Bayreuth. A ele seguir-se-ia (em minha opinião) como mais marcante das renovações estéticas a do francês Patrice Chéreau, que em Bayreuth mostrará, já nos anos 70 (e com Pierre Boulez na direcção  musical), uma Tetralogia que em muitos momentos semelhará um drama burguês, de personagens ataviadas a época da Revolução Industrial, e inspirado em escritos do próprio Wagner datados do tempo em que concebia os seus libretos, e assim repondo, da mitologia wagneriana, uma outra forma de contemporaneidade ao sublinhar-lhe a óbvia categorização histórica.

                              

                                                    
Mas a verdade é que Wagner estava nesse tempo a compor uma nova música. Wagner tentava colocar sobre o tablado uma nova visão teatral, inconfundível e futurista. Wagner ansiava ter como público um novo Homem criado por  uma revolução. Wagner fazia construir novos instrumentos musicais. E no entanto – ou por isso mesmo – do ponto de vista técnico-teatral, há quem diga que essa tão aguardada estreia absoluta da Tetralogia num espaço cénico para ela expressamente construído, foi um desastre – no mínimo uma irrelevância – quando cenários e maquinaria não funcionaram convenientemente; quando houve sempre um pano de boca que subiu ou desceu tarde ou cedo de mais; quando foi visto um ajudante de maquinista a safar-se de cena no último momento com o seu martelo e balde de pregos em punho; com luzes, guarda-roupa e adereços aflitivamente medíocres; com cantores afinal a exibirem os convencionais vícios histriónicos – com o primeiro Wotan, o barítono Betz, a perder ridiculamente o anel, símbolo do seu poder e da sua fortuna.


De sublime? A música. 
Wagner inventara, a vários títulos, é certo, um novo drama lírico; ou, como ele gostava de lhe chamar, a música do futuro. Mas a estética teatral que presidiu ao primeiro wagnerismo não foi muito mais do que um repositório de naturalismos desvairados e de concepções cenográficas estafadas e tributárias em excesso de um romantismo a essa hora já bastante dessorado.
E a inovação – não sei se pseudo-inovação – que se seguiu à morte do mestre foi tímida, tolhida pelo conservadorismo da primeira geração dos herdeiros – os carnais e os espirituais. É, como já disse, no festival de 1924 que o filho único, Siegfried, se permite, e com todas as cautelas, arriscar alguma coisa parecida com inovação. Cenários tridimensionais. Acaba-se com a luz de gás e instala-se iluminação artificial. Porém sem outras rupturas  com a mais reaccionária tradição.
Mas a contestação dos lados da velha guarda não  impediria Siegfried Wagner de contratar, em 1927, um cenógrafo pouco convencional, de seu nome Kurt Söhnlein. Como também não impediria a conservadoríssima Winifred de contratar, em 1934, por entre a ganga estética do nacional-socialismo, um homem chamado Alfred Roller, já então famoso, e que viria mais tarde a influenciar a revolução de Wieland.


 
                                                              

Mesmo assim, Wieland, o reformador da estética de Bayreuth, não despreza as contribuições que ainda em anos nazis tinham sido acrescentadas ao wagnerismo. Em especial no domínio da luz. Wieland reiluminava a obra do avô e sujeitava-a sem complexos de culpa ao penetrante foco que a vai repropôr à discussão nos areópagos internacionais, que lhe vai emprestar validade para os novos tempos, permitindo-lhe nova respiração, nova visibilidade, e impressionando até os espíritos mais progressistas.


Wieland prestava atenção aos conceitos de Adolphe Appia quando este postulava (já em 1895) que todo o objecto se torna plástico apenas em função da luz que sobre ele incide, por ser a iluminação a paleta de cores de um encenador.  

Fundar em Bayreuth uma nova moral. Apagar em Bayreuth as evidências sinistras dos anos alemães mais recentes. Era esse o escopo principal de Wieland. E em 1951, com uma nova Tetralogia e com Parsifal, dava ele o primeiro passo para um movimento que ultrapassava a simples inovação cenográfica. Estava na hora da desnazificação de Bayreuth. Estava na hora do exorcismo dos demónios.
               

E como Bayreuth era, e ainda é, um negócio familiar, resgatando Bayreuth à História do nazismo, Wieland não se poupava a esforços para se resgatar a si mesmo e à sua família da culpa imperdoável de um muito estreito e amigável conluio com Hitler e o seu regime. É ver as memórias de um dos últimos descendentes de Wagner, Gottfried, que afirma sem rebuço que todos os da família, sem excepção (o próprio Wieland incluído), sempre foram, e continuaram a ser pelos tempos democráticos, renitentes e convictos nazis. Nem que fosse às escondidas e com uma linguagem familiar própria, e críptica, mas sempre evocativa da saudosa memória do seu tio Wolf – o próprio Hitler.


De todo o modo, Wieland, enquanto director artístico do Festival de Bayreuth, sempre diligenciou andar esteticamente a la page, sempre na crista da onda de tudo quanto era vanguarda artistica apadrinhada pelas esquerdas. 
Basta considerar o Tannhäuser de 1961, quando contrata Maurice Béjart e respectiva companhia - que deixaram em Bayreuth inolvidável memória; ou quando contrata para o papel de Venus – suprema audácia no alto bastião ariano – uma jovem cantora americana negra ainda pouco conhecida, Grace Bumbry.

Reabilitar Bayreuth pela esquerda, ou pela integração racial, era o mesmo que dizer à opinião pública mundial que Wagner não poderia de modo algum ser apropriável por uma ideologia, por mais total, salvífica, sanguinária, anti-semita que ela fosse; que a sua mensagem era tão universal e aglutinadora como universal era a mitologia de Eros, e que, por isso mesmo, tão bem ficava na figuração de uma cantora negra como na de uma branca. 

E um dos mais fortes apelos que a nova moral de Bayreuth faria à consciência asseada e progressista da nova Europa culminaria com a contratação de Pierre Boulez, exemplo acabado, e talvez raro na época, de músico alinhado pela esquerda pura e dura – e com quem Wieland não pôde colaborar tanto quanto desejava, por razão da doença que em breve o mataria, aos 49 anos.


A experiência mais óbvia de desnazificação teatral perpetrada por Wieland Wagner foi a produção de Mestres Cantores de 1956: uma encenação despojada dos signos que haviam incendiado as imaginações nacionalistas dos anos hitlerianos, esquematizando a sugestão das ruas de Nuremberg e diluindo a carga mítica do famoso sabugueiro. Valeu-lhe remoques da crítica: preço demasiado irrisório para o quanto, em termos familiares, estava em causa.

Wieland não esquecia que para bem comunicar a essência e complexidades do drama wagneriano havia que levar em atenção uma primeira coisa: o primado da música. À cenografia competia deixar no imaginário do espectador o âmbito de expansão da absoluta forma musical; e à encenação conviria não ser uma duplicação do que essa música, e o texto literário que lhe subjaz, possam exprimir, e sim um complemento do entendimento essencial.


Para Wieland, a luz, e a cor que dessa luz pode jorrar, funcionariam como uma alegoria do inconsciente. Wieland pretendia espectacularizar o inconsciente, tomando como fundo a perturbação  musical criada pelo augusto avô.
Um exemplo: o Tristão – os corpos a fundirem-se nos elementos míticos e intemporais da cena, sob uma iluminação difusa que os faz flutuar, suspensos na noite, fora de toda a contingência terrena. Ou política.
  
                     

Penso que reside na luz a grande magia de tudo.
E a luz desencadeia a cor. E a cor descerra a cortina dos mais escusos territórios da alma. Wieland centra a visão wagneriana nos imponderáveis do inconsciente dos heróis. Há bons e maus objectos interiorizados na psique das personagens. O vermelho violento que decorre da paixão de Isolda, em conflito com a crueza do verde que se projecta no ciclorama, testemunho do ódio inconsciente da mesma Isolda pelo ser amado.



Há bons e maus objectos interiorizados pela alma alemã que é preciso exorcizar. E desvenda-se o azul projectado no proscénio, o gélido azul da noite de todas as noites de teatro, a noite desse 2º acto de Tristão que virá a explodir no Nada.
Estatismo do gesto; imobilidade escultórica dos corpos. Pode exaltar-se uma premonição. Podem conter-se, sufocando-os, os transportes da paixão e da inevitável insensatez, contexto, somente, do movimento feroz de um inconsciente perturbado e relutante em comunicar-se, traço brutal do gesto suspenso e largo que completa a imobilidade e acrescenta memória ao sopro divino das estátuas.
Tudo se pode interpretar á luz da psicanálise, e nos nossos dias a psicanálise ocupa o lugar que outrora foi dos contos de fadas, das religiões.
Ou: por detrás de todo o drama estão os arquétipos. E parece-me profunda a interpretação segundo a qual Tristão era de facto filho do rei Marke.
Ou ainda: a eterna luta entre pai e filho, o mais célebre conflito da Humanidade depois da interpretação de Freud, julgo-a infinitamente mais trágica e mítica do que o adultério de Tristão com a mulher do seu tio.
  Wieland propunha montagens sugestivas de tudo quanto não estivesse na música nem no libreto. Em Tristão e Isolda, Wieland avança para uma moral complementar, se se pode dizer. Tristão leva a noiva ao rei Marke, sendo simultaneamente do rei Marke um vassalo. E se, no 1º acto, Wieland entende reforçar os ombros do fato do herói, fazendo-o permanecer junto do fálico mastro do navio, sugerindo-lhe o masculino poder, a vontade de penetração violadora, no 3º acto, esse reforço simbólico do poder é-lhe retirado do guarda-roupa. A união física é para Tristão e Isolda uma situação inssatisfatória, visto que os move uma aspiração essencial de unidade absoluta entre dois seres.
Nem Tristão nem Isolda aspiram na verdade à consumação do seu amor numa esfera terrena. A situação humana fundamental que me fascina é esse destino que obriga à existência entre o amor e a morte de uma relação tão directa quanto misteriosa. Eros e Thanatos.


“Onde estamos?”, perguntará Tristão. “Perto do fim”, responde Isolda.
Tem que se dizer que Wieland Wagner venceu todas as suas batalhas. O mundo livre do pós-guerra despertou e deu-se a discutir sem complexos e sem culpas um Wagner desnazificado e um Festival de Bayreuth mais culturalizado do que politicamente salpicado de sangue.

O universo wagneriano e a moral de Bayreuth, com Wieland Wagner, fosse por sua convicção artística, fosse por mera estratégia de preservação familiar – ou pelas duas coisas – veio a ser reequacionado à luz de uma contemporaneidade democrática. E com a subida ao poder em Bayreuth da última geração dos Wagner tem sido objecto de infindáveis experiências vanguardistas – e até brechtianas (Heiner Müller).
Nas experiências, por exemplo de Otto Klemperer de 1927, amaldiçoadas pela hierarquia familiar, viu Wieland Wagner a hipótese de sobrevivência e vitalidade cultural futuras para a obra de seu avô. Viu uma saída para a modernidade. Viu a oportunidade de uma redenção política.
   No final, a Isolda de Wieland Wagner estende os braços ao infinito. A luz destaca-lhe a materialidade do corpo, salva-a da ameaça das sombras do esquecimento que a circundam. Depois, a luz inunda-lhe somente o busto. Até aos compassos finais, quando se lhe concentra no rosto, intensamente, ferozmente.
Uma transfiguração, como propusera o mestre. Ou o doce e definitivo reencontro de Isolda com o cadáver de Tristão. Ou a descoberta de uma pulsão de eternidade sobre os êxtases da morte, o fôlego humano e a vida transcendente da música de Wagner em ambíguo triunfo sobre barbárie da História – o cheiro cadveroso das valas comuns de Treblinka, as câmaras de gás de Auschwitz…  
(À guisa de conclusão, diria que em Portugal, a linha estética de Wieland Wagner, tanto quanto posso saber, não teve expressão particular na casuística da programação wagneriana dos tempos do pós-guerra.  O que não quer dizer que não possa ter mais ou menos influenciado o trabalho de um ou outro encenador de terceira ordem  dos que se encarregaram de encenar Wagner em S. Carlos. 


Tivemos em S. Carlos, isso sim, alguns interessantes trabalhos encenográficos do filho de Wieland, Wolf-Siegfried Wagner, que nos visitou assiduamente pelos finais dos anos 70 e princípio dos anos 80. Um Wolf-Siegfried a meu ver algo distanciado das propostas estilísticas do pai e mais próximo das concepções de Chéreau, historicistas, materialistas dialécticas, talvez, se assim lhe quisermos chamar. O que pode ter sido, para o filho do renovador da estética de Bayreuth uma bela maneira de muito freudianamente renegar a família, matar o pai.)

quinta-feira, 25 de abril de 2013


                         AMARGURA  


Madrugada de 26 de Abril de 1974. Faz amanhã 39 anos.
Marcelo Caetano é metido numa viatura militar e segue da Pontinha para uma base aérea.
Vai sozinho no banco de trás do automóvel. À frente, ao lado do condutor, vai um 1º sargento paraquedista (cara patibular, segundo Marcelo) que passa toda a viagem a olhar para ele com a arma apontada.
Tive a noção clara de que a um gesto equívoco da minha parte, seria abatido.
Marcelo pensou que o paraquedista não teria recebido ordens superiores para assim proceder. Mas se ele disparasse, pergunta Marcelo, quem isentaria o movimento revolucionário das responsabilidades de um frio assassínio a que a ausência de um oficial acompanhante daria toda a verosimilhança?

                                                      

    No avião que os levou à Madeira, Marcelo, Américo Tomás, Silva Cunha e Moreira Baptista sentaram-se cercados por duas filas de paraquedistas armados que nem por um momento largaram as armas. Também desta vez não havia um oficial a comandar uma escolta que levava um almirante e três homens que até horas antes haviam desempenhado altos cargos públicos. Continuava a ser um 1º sargento a  comandar. 

Marcelo Caetano chega ao Funchal e tem muito tempo para pensar na vida. Fica 20 dias sob prisão. Aproveita esse tempo. Começa a escrever um depoimento sobre a sua acção política de quase seis anos de chefia do governo. Parte para o Brasil.
Chega ao Brasil e é imediatamente rodeado por repórteres e fotógrafos. Hospeda-se no Hilton de S. Paulo, é alvo de muitas homenagens quer da colónia portuguesa quer de amigos brasileiros e fica desvanecido. De S. Paulo passou ao Rio de Janeiro e foi recolher-se por algum tempo num convento de beneditinos.


Como seria de esperar, depressa fica a par dos desenvolvimentos da política nacional e do descambar do previsto golpe militar moderadíssimo num estado pré-revolucionário incontrolável. Não sei se alguém lhe prometera alguma coisa para depois do assentar das poeiras, alguma hipótese de regresso com imagem reforçada, sabe-se lá. Se alguém lhe prometeu tal, Marcelo Caetano começou a ver essas promessas a desvanecerem-se e a ver a sua vida a andar para trás.

No seu refúgio brasileiro, Marcelo Caetano recebia muita gente fugida à revolução. Assistiu à chegada de sucessivas vagas de portugueses notáveis que se auto-expatriavam ao ritmo do agravamento das condições revolucionárias em Lisboa: os primeiros, logo a seguir ao 25 de Abril, os de mais nomeada política; depois os náufragos do 28 de Setembro; mais tarde os proscritos do 11 de Março.
Tanta precipitação, tanta lágrima, tanto equívoco numa revolução tão benigna, e para estarem cá todos hoje, bem amesendados, alguns luxuosamente acomodados, melhor até do que estariam no tempo da outra senhora... ou seja no meu tempo – terá pensado Marcelo.
O próprio Marcelo Caetano poderia ter regressado, apesar de tudo, se quisesse, para acabar tranquilamente os seus dias na sua casa de Alvalade. Não quis. Era um ressentido. Só a ideia o horrorizava. Dava-lhe vómitos o reencontrar-se com tantos dos que lhe haviam jurado eterna amizade e fidelidade e se bandearam para o campo da esquerda. A histórica e leonina amargura de Marcelo Caetano nunca pôde reconciliar-se com a realidade histórica do momento da sua pátria.                                                          
Ao digno comportamento dele durante o cerco ao quartel do Carmo (notará mais tarde) só os adversários fariam justiça - casos de Salgueiro Maia e Otelo.

Um jornalista português apresentaria Tomás como modelo de dignidade naquela hora fatídica. E porquê? Porque não tinha saído de casa. O que nem sequer era verdade. Da carga psíquica desse dia, diz Marcelo, que se não o matou o moeu muito.

Ouviu falar na “pesada herança do fascismo”. Achou graça à expressão. Era o modo grosseiro como os jovens gastadores se referiam aos dinheiros paternos que não lhes tinham custado a ganhar.
O meu governo deixou nos cofres do Estado 872 toneladas de ouro em barra, mais 100 milhões em divisas. Nisso consistia a pesada herança do fascismo.

No Brasil era um ex-ditador de água doce, acolhido por uma ditadura militar musculada. Das condições do asilo fazia parte o compromisso de não se envolver em política.
Asilo? Ele não o interpretou assim. Logo que chegou, tratou de regularizar a situação de estrangeiro, preferindo a qualidade não de asilado mas de refugiado. Certamente por uma questão de moral.

Por falar em moral. A palavra moral é recorrente no léxico de Marcelo Caetano, e a diversos propósitos. Vilipêndio moral. Afundamento moral. Energia moral. Valores morais. Sofrimento moral. Ponto de vista moral. Categoria moral. Uma moral da memória muito viva em Marcelo Caetano. Uma memória de si.
Marcelo Caetano pensava nas esquerdas portuguesas sedentas de poder. E pode ser que pensasse mais nas direitas pusilânimes. Doía-lhe a trajectória de muitos dos seus ex-colaboradores que se preparavam para reviravoltas ideológicas espampanantes, para acrobáticos volte-faces nas suas convicções políticas e se passavam a proclamar democratas da primeira hora.
Também lhe doía, e muito, o parecer dos correlegionários que o acusavam de – na mais ligeira das hipóteses - não ter sabido evitar o golpe do 25 de Abril, ou de – na mais sinistra das hipóteses – ter estado de conluio com os golpistas.
Pela minha insignificante parte, e quanto à última das hipóteses, não o classificando de conluio, pressinto que Marcelo Caetano viu na preparação do golpe por Spínola e Costa Gomes (não falo dos capitães) uma nesga de oportunidade para si mesmo, para o que pudesse ser um seu segundo fôlego político num clima doravante desanuviado de ultra-salazaristas. Ou então terá sido um ingénuo ao acreditar na palavra desses generais desavindos com o regime que lhe diziam para se manter no poder que estava lá muito bem.

Pensava Marcelo que se o país quisera uma mudança política, ou até se, não a querendo, a permitira, pois que sofresse daí em diante os efeitos de tão ansiada mudança. Por ele, atirado para os brasis, sentia a amargura do abandono. A amargura de só aos 68 anos se ter apercebido do que o Prof. Veríssimo Serrão chama de vilipêndio moral, ou de degradação dos homens quando se assume em formas colectivas.
Fiz tudo para servir a minha pátria e vejo-me agora espoliado dela.
                                                                             
        Do povoléu mais comum ninguém evidentemente sabia, mas estava-se a dias do golpe que iria mudar o viver português. E Marcelo sabia. E tanto que sabia que confidenciava a amigos, e talvez com excesso de dramatismo, estar-se a viver sobre um barril de pólvora.                                                                                
E também os seus ministros militares sabiam do que aí vinha e diziam-se preparados para enfrentar o que viesse. Esperavam os acontecimentos para Maio, por volta do dia 10. Homens totais e totalitários para quem a pátria era o próprio regime ditatorial, afirmavam que o reviralho a vir por aí não se limitaria a ser contra o regime. Seria contra o próprio país.
Mais tarde, Marcelo afirmava saber a razão por que o golpe previsto para Maio fora antecipado. Foi quando os conjurados tomaram conhecimento da ausência do país das principais figuras da PIDE, Barbieri Cardoso e Rosa Casaco, e contando com cumplicidades internas na pessoa do inspector Coelho Dias, amigo de Spínola, que facilitou as coisas. Argumento pouco consistente na minha pobre e desinformada opinião, e sabendo-se o pouco que ainda se sabe hoje. Não sendo embora de esquecer a espantosa passividade da PIDE, que continuava à caça de comunistas, fingindo ignorar os capitães e fingindo-se adormecida ou inepta para correlacionar ambos.



No caso da suposta inépcia da PIDE, como no caso do seu reiterado arreganho contra os subversivos, Marcelo Caetano acabou por, figuradamente, ser preso por ter cão e preso por não ter. Foi atacado pelos correlegionários por ter tirado poderes e margens de manobra à PIDE. E foi atacado pelos adversários por não ter tocado nas estruturas e nos métodos da mesma PIDE, limitando-se a mudar-lhe  nome.                                                
A situação moral de Marcelo Caetano era já deplorável nas vésperas do golpe. Em conversa com o Prof. Veríssimo Serrão perguntara amargurado acerca do que seria possível fazer com um pais que (sic) ainda dispõe de energias próprias mas prefere seguir as vozes das sereias encantadas.                                                                             
Na leitura política de Marcelo prévia aos acontecimentos de Abril de 74, em todas as classes sociais campearia a fraqueza, a demissão, o aviltamento – sem mencionar a quota-parte de responsabilidade dele mesmo nesse estado das coisas.

Eram os militares – juraram defender a pátria e andavam em reuniões com fim mercenário só para poderem dispor das províncias ultramarinas. Era a Igreja – possessa de um progressismo militante que identificava Cristo com Marx. Eram os universitários – que incitavam os alunos à contestação permanente. Eram os novos burgueses – saturados de bem-estar a querer a mudança política para se manterem na crista da onda. 
Restava o povo fiel, manobrado pelo que acoimou de palradores de ocasião, os que chamavam aos homens do regime tiranos e aos outros libertadores.                                                                       
Precisamos acima de tudo que Deus nos valha.
Em Fevereiro de 74, Marcelo clamava ser preciso vencer o que classificava de “hora sombria”. Ingénua ou cinicamente, acreditava ter a nação do seu lado. Acreditava na consciência colectiva quanto ao papel das províncias ultramarinas no futuro nacional. Fosse por deformação profissional do legalista e do administrativista, acreditava na solução teórica e administrativa da “autonomia progressiva e participada”, acreditava nos “novos brasís” a resultar a prazo largo como solução para as questões que se colocavam no imediato e exigiam respostas radicais no imediato.
(A mim, cidadão comum, impressiona-me a falta de rigor e de frieza analítica num homem da mais alta craveira intelectual que não resistiu às circunstâncias históricas adversas que tinha para viver e se deixou dominar pelas emoções e por um ego demasiado exigente.)
Aqueles ciclones da História que sopravam sobre a questão ultramarina, é óbvio que, concomitantemente ao ultramar, ou até prévios a ele, sopravam fortes sobre a situação do Portugal metropolitano. Os anos 70 eram o limite, o muro de encontro ao qual os ventos haviam empurrado o país desde o fim da II Guerra. Mas ainda nos anos 70 havia no regime quem pensasse possível resistir à tal dinâmica desses mesmos anos 70.
Para resistir eficazmente à tal dinâmica dos Seventies teria sido absolutamente precisa a presença de Salazar, ou, em desespero de causa, de um herdeiro à fatal altura do velho ditador.
Marcelo, o ungido, também fora por alguns olhado como aquele que se preparava para desbaratar a herança do velho mestre, enquanto os liberais depressa desconfiaram dele como o homem indicado para a renovação e nele não viram mais do que um seguidor do velho.
O dilema de Marcelo Caetano foi mesmo shakespeareano.  E julgo eu que fosse qual fosse o herdeiro de Salazar o seu destino não seria diferente do que foi o de Marcelo. No seu fechamento político, no seu ultramontanismo cultural, não preparando elites esclarecidas, fossilizando implacavelmente os esquemas mentais colectivos e privando o povo de uma cultura política, Salazar tinha armadilhado tragicamente o caminho de qualquer um que lhe sucedesse.   
Marcelo Caetano queria refazer a vida, dizem os testemunhos. Não se deu por um homem vencido. Não sei se com a compleição psicológica dele a intenção não seria evidenciar ou ampliar pela amargura própria as dimensões do que entendia ser o desastre da sua pátria.        
Fixa residência definitiva no Rio, no bairro do Flamengo. Frequenta as editoras e livrarias cariocas. Busca materiais para continuar um labor nas áreas da História e do Direito. Projecta escrever uma História do Direito Português. Não pode estar parado. Os filhos comprometem-se a ir fazer-lhe companhia segundo uma escala combinada entre eles. Até que fica professor na universidade Gama Filho, a maior universidade privada do Brasil - Direito Comparado. Frequenta a Academia de História e o Instituto Histórico. Tem inúmeras solicitações para o social.

E de todos os pontos do Brasil lhe chovem convites para orações de sapiência, aulas, congressos, conferências, e não versando apenas matéria jurídica, também altos temas de História – aliás, Marcelo era realmente um erudito que se considerava modestamente um historiador amador.
Dá-se com intelectuais e académicos. Quase todos. Uma excepção interessante – e que lhe dá muita pena: a do brilhante filólogo Aurélio Buarque de Holanda, julgo que tio do grande Chico Buarque. Marcelo classifica-o de sujeito tão de esquerda que é o único académico que recusou relações comigo devido a eu ser… fascista.
O principal papel dos estudos históricos é a explicação do presente pelo passado. A História talvez devesse ser lição e exemplo: mas na verdade não é. As gerações nunca aprendem pela experiência alheia. Só à custa do próprio sofrimento.
Sim. Mas então porquê a fé dele na História para repor um dia a justiça quanto à sua acção governativa?
Os portugueses julgam ter conquistado a liberdade quando estão sob a pata de uma feroz ditadura – escreve quando tem notícias da queda do governo de Palma Carlos. As qualidades e o prestígio do amigo Palma Carlos não eram bastantes, pensa, para o impor num ambiente revolucionário.
É vê-los agora no Templo, os vendilhões, prontos a renegar Cristo. São eles os puros democratas, enquanto nós, que sempre  pregámos o convívio e a tolerância, representamos a opressão que cumpre exterminar. A História porá isto, um dia, a claro.
Convívio e tolerância com prisões políticas pelo meio? É preciso lata.
A História porá isto, um dia, a claro.  Cá está. A História pode ser então uma tábua de salvação moral, uma esperança redentora. A confiança que naqueles tempos as pessoas de qualidade punham na História é algo que deveras me admira. Ingenuidade? Ou hipocrisia mesmo na derrota?
A História! Mas quem escreve afinal a História?, pergunto eu.
Impressionavam-no os fenómenos de aceleração histórica que fazem, como ele diz, perpassar aos nossos olhos a série de sucessos extraordinários e instituições fugazes de que se entretece a História contemporânea.

O mundo mudava agora de ano para ano. Uma angústia para o Homem dos tempos pausados. O universo unificava-se pelos meios de comunicação, registava ele – e ainda ele não tinha visto nada.
Quando antes do nosso século o mundo se transformava imperceptivelmente e só de séculos a séculos era abalado por revoluções que se produziam em espaços restritos…
Mas recalcitrava no culto da História como via indispensável à justiça que o mundo haveria de prestar a Portugal.
Tenho fé em que a poeira das derrocadas se dissipará para, por entre as ruínas, deixar divisar o que constitui ainda material válido para uma reconstrução urgente no meio do afundamento em que soçobrou a nação portuguesa com a dissolução do carácter da quase totalidade do seu povo.
Bom, entre os exageros e o despropósito de considerar que de um dia para o outro (de 24 para 25 de Abril de 74) a totalidade do povo sofrera uma dissolução de carácter, enfim, Marcelo e o seu regime teriam mitificado no povo português características que ele (povo) não tinha e se calhar nunca teve, mas que fazia jeito enaltecer, quanto mais não fosse para enaltecer, moralizar e totalizar o próprio regime. Tem isso a ver com as ditaduras? Não sei. Para as ditaduras, o povo, sendo bom porque as suporta, só não tem razão e se lhe degrada o carácter quando se revolta contra elas – Hitler pensou o mesmo do povo alemão na hora da derrota.

Em democracia arranjam-se outros mitos. O povo, ao votar, tem sempre razão, escolhe sempre bem na sua sabedoria telúrica. O que falta provar que seja verdade. Toda a gente o sabe. Induzido o povo eleitor como é, sempre, e pela sua deficiência colectiva de carácter, por factores estranhos a esse mesmo carácter, a comunicação social, a propaganda partidária, as sondagens pré-eleitorais, o diabo a sete…
Ou… quem tem sempre razão (e poder) são os meios e os métodos que induzem o povo a votar assim ou assado?
Na derrocada do país e das suas gentes antes respeitáveis e fiéis, segundo Marcelo Caetano, poucos se salvaram na hora da debandada, ou na hora da procura desesperada da sobrevivência política e dos tachos respectivos.
E ele sente-se grato a quem acreditou ainda nas possibilidades dos seus 68 anos, e trabalha duramente para não desmerecer essa confiança.
Em Julho de 74 tinha planeado a edição da sua versão dos acontecimentos de Abril; ou mais: da sua acção governativa entre Setembro de 68 e Abril de 74.
Depoimento, veio a chamar-se o livro. Silva Cunha, Moreira Baptista, Elmano Alves, o general Andrade e Silva – presos, ou deportados, ou em fuga. Isso angustiava-o. Pretendia defender-lhes o nome e a honra. E na redacção de As Minhas Memórias de Salazar ocupava ele todas as manhãs e os fins de semana
Muito se especulou acerca das relações entre Caetano e Tomás antes e depois da queda de ambos. Veríssimo Serrão assegura que Marcelo nunca deixou de prodigalizar atenções ao velho almirante. O pior parece que era a delambida da filha, dona Natália, que se mostrava inconveniente com ele, não se cansando de lhe atribuir as culpas pelo que acontecera e assim contribuindo para alguma frieza entre os dois homens. Mas Marcelo não esquecia os favores e as honras devidas ao homem que o ungira para suceder a Salazar.
A feição melómana é-lhe avivada com a ida a um concerto da Sinfónica do Rio de Janeiro, em que escuta a 9ª de Beethoven e onde acha lenitivo para os males da sua alma.
Era um melómano sincero, Marcelo, sem dúvida, como homem superiormente culto que era. Várias vezes o vi em concertos aqui em Lisboa e a assistir a óperas em S. Carlos. Deve mesmo ter sido o último 1º ministro português com cultura musical.
Ah, não. Não foi. Não. Estava a esquecer-me de outro grandíssimo melómano que foi 1º ministro, Vasco Gonçalves. Sim, esse. E, pelo menos como melómano, bastante esclarecido e refinado. É verdade. E mais nenhum.
(Ah, sim… Passos Coelho chegou a estudar canto… nota-se…nota-se…)

Marcelo passa então a ir todas as semanas à sala Cecília Meireles ouvir os concertos da Sinfónica do Rio.
Com a experiência que a vida me deu, como acreditar nos homens, na fraternidade, na regeneração e não sei que mais?
Esse regime de gatunos privou-me da pátria, privou-me dos meus direitos, privou-me da aposentação para a qual contribuíra durante 47 anos, privou-me dos bens que legitimamente adquirira, privou-me dos livros que eram o  meu instrumento de trabalho.
        Regime de gatunos, não é? Sabia lá Marcelo para que medidas e governos e políticos e financeiros o país e o seu povo (cheio de carácter) estavam guardados. E essa do privarem-no da aposentação, não sei se foi verdade, mas se foi, foi medida pioneira dos tempos que estariam para vir e que nem em sonhos naquele tempo passava pela cabeça de ninguém – nem pela de Marcelo Caetano - que pudessem vir.
De qualquer das maneiras, custa-me a entender este rancor burguês de quem fez toda a vida na política, de quem sabia, ou devia saber, o que o esperava na hora da derrota, e de quem seguramente conhecia o destino quantas vezes trágico de tantos ditadores.