sábado, 11 de maio de 2013




    ESPERO NUNCA VIR A TER NADA QUE FAZER EM SYDNEY
               

            Uma das tais viagens que não me apetece  fazer…
Por vezes podemos ser acometidos por uma viagem, podemos fazê-la até, ou podemos evitar fazê-la por indisponibilidade de tempo, por um acesso de preguiça, por falta de dinheiro.



            Acometidos por uma viagem, dir-se-ia sugestionados por uma terra distante, seja uma cidade, seja uma montanha, um vale ou uma praia. Acometidos por uma viagem, sugestionados, e não por um anseio muito nosso, muito intenso e íntimo, sugestionados porque o progresso da máquina, o atrevimento da publicidade e os avanços da tecnologia nos induzem outras realidades, outras paisagens.
            Por esse avanço tecnológico poderíamos sem grande esforço concluir que, nos nossos tempos, a viagem, por trabalhosa que seja, e fatigante, pode mais dia menos dia tornar-se inútil.  Basta irmos ao cinema, provermo-nos de catálogos, albuns de fotografias de amigos, bilhetes postais, televisão por cabo, gravadores de vídeo e DVD (ou vídeos e DVD’s já prontos), registos de som, livros (sejam deles de viagens propriamente ditas sejam mesmo certos romances), reportagens de jornal ou revista, um hamburger comprado no Mac Donalds, e por aí fora, até chegarmos ao instrumento máximo da viagem física ou espiritual (hélas!) que é a Internet. Se a montanha  não vai a Mahomet, que seja Mahomet a ir à montanha – hoje em dia é perigoso usar certas palavras e mencionar certos nomes, mas julgo que não há nada de religiosamente incorrecto ou ofensivo no que eu disse…. ou terá passado a haver? Bom… esperemos que não.


            Como estava a dizer… se a montanha não vem a… que seja… tal tal… a ir à montanha. O mesmo, ou parecido, diríamos da mística da viagem nos nossos tempos tecnológicos. Através da nossa tecnologia caseira cada vez mais é a viagem que vem até nós. Não só pela inspiração. Não só como indução da vontade. Num ecran de plasma de grandes dimensões montado na nossa saleta de estar podemos viver a experiência visível da viagem e irmos acumulando informação sobre os lugares e as gentes. Com a vantagem adicional de nos sair mais barato. Um manual turístico, um guia Michelin, dois ou três testemunhos de amigos, uma descrição de romancista e aí está. Viajámos. E mais e melhor viajaremos se formos pessoas atentas, razoavelmente informadas e de boa qualidade interior. Podemos munir-nos inclusivamente de horários de comboios e aviões, de informes sobre a localização e preços de hotéis. Na Internet fornecem-nos fotografias magnificas dos quartos e das suites dos melhores e dos piores hotéis do mundo, podemos apoderar-nos dessas imagens, imprimi-las, ampliá-las, gozá-las como se fossem experiência nossa. Está feita a viagem. A Paris como ao Sri Lanka. A Reiquiavik ou a Badajoz como a Sydney.


            Esta viagem de que falo, para a pessoa de vagares, de paciência e de bons equilíbrios emocionais, pode ser todo um projecto de vida. Viajar sem sair de casa. Assombrar os conhecidos com contos de encantar sobre uma noite de salsa em Cartagena de Indias ou sobre um demorado percurso pelo Museu D’Orsay. A modernidade pode trazer-nos a viagem a casa. E com a vantagem da imaginação. Sim, a vantagem da imaginação, digo, para responder a quem estará a argumentar mentalmente comigo, a querer dizer-me que não, que não é a mesma coisa. Pois não, não é. Eu sei. Mas até pode ser uma coisa melhor do que a coisa mesma. Porque assim poderemos evitar o que acontece muito em viagens, a desilusão.
            Ser acometido por uma viagem é realizar mentalmente um lugar, um som ambiente. Um ideal. Foi a viagem, isto é, foi o lugar que veio até nós e nós não descansámos enquanto não fizermos essa viagem, enquanto não fomos ao lugar real. Mas se não formos, se viajarmos por indução imagética, inventiva, coadjuvada pela tecnologia, escusaremos para sempre de saber que a maravilhosa escadaria romana da Trinitá dei Monti não é muito mais do que umas Escadinhas do Duque mundialmente publicitadas por passagens de modelos; escusaremos de saber que a Fonte de Trevi é um Chafariz de Dentro maiorzinho; escusaremos de encarar com a enormidade do Arco do Triunfo, o qual, por grande e imponente que seja na realidade, será sempre mais maneirinho do que nós o imaginámos a partir da invenção e das fotografias; escusaremos de saber que os templos de Angkor são montes de pedras periclitantes e silenciosas, várias vezes saqueadas e cobertas de negro musgo. 
            Viagens aos antípodas australianos? Nunca fui acometido por elas.

                                  
           
            Sydney.  O que é? Fotografias de arranha-céus aos molhos. O edifício da Ópera – cuja programação, aliás, disponível pela Internet, não convida grande coisa. Brancas praias e muitas. Enseadas azuis. Canoagem. Parques nacionais. Corridas de cavalos. À noite no Taxi Club ou no Cricketers Arms… as coisas que eu sei… pela Internet.


            Sydney. Austrália. O desenvolvimento económico. Tecnologia e inovação como evangelhos. Chega a enjoar. A forte influência na política regional. Estatísticas. Incêndios dantescos – vamos sabendo alguma coisa acerca disso também por cá. As praias: gosto. Os tubarões que se pelam pelo seu petisco de naco de perna humana: já não gosto tanto. Ondas monumentais: gosto. Surf: obviamente não pratico… mas gosto de ver…


            Tudo isto para dizer que a viagem das viagens é aquela que se faz à volta do nosso quarto. Foi um escritor qualquer que o disse, já não me lembro quem. A viagem à volta de um quarto de que o tal escritor falava nem tinha nesse tempo tanta tecnologia a induzi-la, a apoiá-la. Ou seja, a tecnologia comunicacional veio melhorar tanto a vida humana que quase tornou, senão reais pelo menos realistas, as viagens à volta de um quarto. Só tem um inconveniente, ou uma deficiência.  Qual? O cheiro. Não o acre cheio de um quarto de dormir menos asseado, claro, digo o cheiro das montanhas, das praias, das selvas, dos vales e dos bairros típicos das cidades. Porque na viagem, e isto está muito longe de ser de somenos, há os comeres e há os beberes. Quer dizer, os sabores, os cheiros. Os cheiros e os sabores que por mais perfeita que seja a tecnologia nunca atingirão os nossos paladares e narizes se lá não formos. Claro que sim, o segredo de um lugar está no cheiro – a maior parte das vezes na falta dele. E o motivo mais forte que nos possa levar a empreender uma viagem pode ser esse: o cheiro – quanto mais não seja o cheiro da universal e global gordura dos Mac Donalds.


Não faço a mais pequena ideia do cheiro de Sydney, e o que sei de Sydney não me cheira a nada.
Os australianos nunca me fizeram mal nenhum, mas que hei-de fazer? Fazer? Só espero nunca vir a ter nada que fazer em Sydney.

quinta-feira, 9 de maio de 2013


           UMA DEMOCRACIA DA INDIFERENÇA


       
  


A democracia dá para tudo. Até para mascarar uma ditadura.

Os velhotes reformados a cantarem a Grândola Vila Morena nas galerias de S. Bento não ajudavam nada a democracia – disse a senhora presidente da Assembleia da República. Que, repito o que já disse noutra ocasião, foi reformada aos 42 anos e optou, no cargo, pelo valor da reforma, para cima de 7.000€.

A democracia (pelo menos a palavra, o som) dá para tudo, justifica tudo, inviabiliza tudo, premeia tudo, castiga tudo....
Acho graça – não acho graça nenhuma – à desfaçatez dos nossos maiores, dos nossos senhores, quando a propósito e a despropósito, enchem a boca com a democracia. Como se realmente estivessemos a viver  uma democracia e com tudo o que implica viver em democracia.


Elegemo-los. Para eles fazerem de nós uns patetas alegres que nada percebem destas coisas e acreditam, coitados, que vivem mesmo em democracia só porque os elegemos de quatro em quatro anos.


Pois, não me canso de bater na mesma tecla. Porque a insistência dos nossos senhores em encher a boca com o mito da democracia é um estratagema propagandístico e não passa disso. O que eles fazem é instaurar uma democracia da indiferença. Quer dizer, tanto faz que seja ou não democracia, democracia boa ou má, a verdade é que estamos cá para os elegermos e para pagar as actividades deles, e os erros, e os truques, e as sacanices.
Lá dizia o Dr. Goebbels que uma mentira cinquenta vezes repetida passa a ser uma verdade evangélica.
E já que falei no Goebbels, deixem-me vagabundear pela Alemanha do imediato pós-guerra…


Sim, sim. Logo a seguir à guerra, na Alemanha destroçada e ocupada, o primeiríssimo cuidado dos ocupantes Aliados foi fazer funcionar a democracia, quanto mais não fosse uma democracia de fome, obrigada a cumprir os preceitos e os conceitos da democracia ocidental, ou mais propriamente anglo-americana.

                                                                  
                                                                     
A actividade política entre os escombros da Alemanha derrotada era zero. Limitava-se às operações eleitorais. Mas nessa altura a participação eleitoral excedeu as expectativas. Vitória social-democrata. Derrota comunista. Tal como esperavam ¾ das potências ocupantes.

O problema é que estes resultados pouco significavam, dado que nada ali era normal, tudo era excepcional e nunca visto, a sociedade alemã não funcionava normalmente.
E se a propaganda social-democrata se centrou em temas de política externa, já se vê que a incidir na perigosa potência vencedora que era a União Soviética, a propaganda eleitoral comunista – curiosamente muito virada para as bases do extinto partido nazi - dedicou-se aos problemas mais ingentes da vida interna do país, designadamente o problema do pão.                                                
                                                             

(Será que este arrazoado tem mesmo alguma coisa que ver com a situação que vivemos hoje em Portugal?)


Dizem alguns críticos que no espírito dos alemães derrotados o medo foi mais forte do que a fome, e. enfim,  totalitarismo por totalitarismo, o melhor era jogar para o empate, ou seja, para uma coisa (partido) mais neutra nas circunstâncias dadas.

Que significaria a luta pela democracia política e a preferência por uma social-democracia para um eleitorado que não tinha casa para viver nem pão para comer?
Houve quem falasse de manobra táctica por parte dos Aliados, de modo a transferir poderes, quanto mais não fosse apenas nominais, para as autoridades alemãs. E quem diz poderes diz descontentamentos e críticas pelas deficiências do abastecimento.
Claro que qualquer espírito lúcido e desapaixonado, e com uma noção do que se poderia passar na Alemanha nos primeiros anos do pós-guerra, compreenderá que não havia condições mínimas nem para eleições livres nem para o funcionamento de uma democracia, a não ser como mero formalismo. Os alemães queriam comer alguma coisa e dormir debaixo de telha e em seco. E puseram-se na rua e a dormir às chuvas do outono, famílias alemãs inteiras, e só  para poderem alojar as famílias dos militares aliados. Um pormenor.


Perguntaram a alguns eleitores:
- Você foi nazi?
Resposta:
- Andei sete anos na guerra… chega como resposta?
- Você votou?
- Sim, mas sei que não serve para nada.
- Votou em que partido, na CDU?
- Não, não sou religioso.
- Então votou comunista?
- Não, tenho amigos que foram prisioneiros de guerra na Rússia.
- Então votou nos social-democratas… sim? Porquê?
- Por ser o partido que me era mais indiferente.

E este eleitor usufruía de um abono de 45 marcos por mês. Dava para comprar sete cigarros.
Mas também democracia é palavra que, como digo, pode soar em certas circunstâncias, e para certos povos, como o equivalente de um messianismo. Entre as circunstâncias e os povos, poderemos mesmo falar de nós, portugueses, e das múltiplas e sempre pequenas e trágicas circunstâncias do nosso viver político.
Peço licença ao Prof. João Medina para respigar agora certa passagem de um livro seu, o Zé Povinho sem Utopia, e quanto à (cito) real e comprovada incapacidade de governo em praticar um pensamento político e social efectivo, metódico e sério para uma cidade mais livre, justa, próspera, em suma, mais humana.

                                                                                       


Segundo o Prof.João Medina, com quem estou de pleno acordo neste ponto, a tendência nacional é para (cito) substituir a solução efectiva dos nossos problemas reais pelas fórmulas miraculosas e messiânicas, ou seja: pseudo-democráticas.
O 25 de Abril, deixemo-nos de fitas, foi muito isso, entre outras coisas, o agitar do sistema democrático-representativo como mais um messianismo que só por si viria para nos resolver a imensa quantidade de embrechados com que a nacionalidade nunca se conseguiu entender.


Quando uma pessoa é posta perante os resultados finais de uma eleição legislativa ou autárquica parece-lhe sempre – e mais nos últimos tempos – que, senão a maioria do país, pelo menos uma parte substancial dele, 30 ou 40% dos eleitores, se esteve nas tintas, não quis nada com eleições, divorciou-se da própria democracia - o que, vamos lá a ver, diz alguma coisa da qualidade dessa democracia.


A classe mais média da classe média – há tanta gente e tanta clientela que é preciso subdividir – como que se apoderou dos meios de expressão política. Todo aquele que tenha 50,1% pode falar e agir em nome de 100%. E acabou-se, não há mais conversa. A diferença não está politicamente representada. Não se exprime. A Europa aproxima-se assim, neste ponto, dos EUA.


Os mais chatos e formalistas e bem servidos pelo sistema, afiançam na televisão que um autarca, por exemplo, eleito num escrutínio em que não participaram nem 50% dos eleitores, tem toda a legitimidade democrática para ocupar o cargo. Não sei se sou da mesma opinião, mas formalmente terei de admitir que assim é. Moralmente é que não sei.
Uma das realidades, ou verdades, que o sistema democrático nos ensina é que é legítimo um homem governar mesmo que mais de metade dos seus governados não o queira. E se contestamos isto estamos a ser incorrectos e pomo-nos imediatamente à margem do sistema, somos os drogados, os obesos e os fumadores do sistema democrático.


E se há assunto de que os jornalistas e os políticos fogem a sete pés é deste. Quem tem coragem de, a sério, e em profundidade, trazer ao debate televisivo a questão da abstenção eleitoral?
Quer dizer, abstendo-se de falar publicamente no fenómeno é como se ele não existisse, porque só existe, claro, o que aparece na televisão. E no entanto, a abstenção eleitoral, acho eu, é um mais graves problemas da democracia, por ser justamente aquele que pode roubar todo o sentido ao sistema democrático.


Porque é que jornalistas e políticos não falam do fenómeno da abstenção? É óbvio. Porque falar disso os põe pessoalmente em causa e lhes destrói aquele tão quente contentamento de ser. Ou, mais óbvio ainda, porque isso desvaloriza o sistema que os faz ser.
Se o acto de votar é um acto de rotina e de inércia, está destinado a apadrinhar uma alternância limitada.
Mas o acto de não pôr os sequer pés numa assembleia de voto é uma agressão deliberada de cidadania ao sistema que a rege e que cria os círculos fechados da governação. Se se pode votar por uma questão de moral, também pode não se votar por uma questão de moral. E de higiene cívica…
Democracias há que são democracias de coacção, porque obrigam o cidadão a ir votar, impedindo a existência de uma obscenidade democrática livremente inexpressa, ou gritantemente expressa: metade dos cidadãos está-se nas tintas porque sabe de antemão quem a vai governar, quer seja na hipótese A, quer seja na hipótese B (não há outras). E sabe que tanto por A como por B será, conforme a sua classe social, mal ou bem governada, e que os actos do governo se voltarão contra si e contra os seus interesses, se se der o caso de esses interesses serem modestos…
Será que em democracia o voto pode ser um dever?
Será que em democracia o voto não é um direito?
Se em democracia o voto é um dever, que seja tempestiva e expressamente declarada a sua obrigatoriedade. Se, pelo contrário, e como eu penso, o voto é um direito, então, como direito, tem a qualidade de ser renunciável e eu poderei decidir dentro de toda a legalidade, e obedecendo até à lei moral, renunciar a ele.


Uma abstenção pode não ser um desinteresse. Uma abstenção deliberada também é uma opinião.
A obrigatoriedade do voto só formalmente altera o estado das coisas e das consciências numa democracia. A coacção eleitoral evidentemente que deforma os mais saudáveis resultados de uma eleição. Acho que como cidadão também tenho todo o direito ao desinteresse. Era o que faltava…
Algumas correntes defendem que uma apatia política traduzida em altos índices de abstenção eleitoral, em vez de representar um alerta para as mazelas do sistema, é um sinal da saúde de ferro desse sistema.
Se 50% não vão às urnas e se desinteressam é porque não acontece nada de grave e eles se conformam com o que está… e então é porque o que está, está bem muito obrigado.
Visto de outra maneira, também me posso desinteressar de um assunto ou de uma acção ou de uma intervenção por considerá-la inútil.


A alta abstenção pode ser o sinal da descrença democrática de muitos e 40% dela poria o regime em crise se os políticos tivessem a frontalidade de encarar as coisas. Abster-se, nas mais das vezes, é não passar cartão àqueles gajos. E no entanto serão esses gajos que me irão sobrecarregar de impostos e que podem arranjar de maneira a que eu passe a velhice na miséria envergonhada, que eu seja despedido do emprego e deixe de ter dinheiro para amortecer o empréstimo do banco, para a renda da casa e para a mercearia.
Mas o diacho é que se eu for votar e escolher votar em A, tudo isso me pode acontecer na mesma.
E então resolvo votar em B. 
E passados dois anos de governação de B, reparo que tudo isso me acontece na mesma, ou pior, e que portanto não vale a pena votar nem em A nem em B.
Posso votar em C. Mas da maneira como os regimes democráticos estão bipolarizados, o votar em C, ou não serve para nada, ou serve para que C, jogando como meu voto, entre em acordos de governo com A ou com B, lhes dê cobertura às políticas,  e que no fim das contas me aconteça na mesma aquilo que temia e me levara a não votar nem em A nem em B, impostos, desemprego, velhice miserável, etc., etc.. 
É esta a realidade prática da democracia.
Deixemo-nos de ilusões…
Será que reside nos altos e baixos e conjunturas da luta política, pessoal ou inter-partidária, o verdadeiro problema moral de um país ou de uma democracia?
Sabem qual foi o tempo em que na Alemanha se registaram as máximas participações eleitorais? Foi nas vésperas do triunfo eleitoral dos nazis. Isso mesmo: 1932/33.


E a maior participação eleitoral da democracia americana acontece com o rebentar da II Guerra Mundial.
E se no país está tudo bem e os desacatos políticos são menores, o cidadão está calmo e pode nem votar. Porém, se as ameaças à tranquilidade se avolumarem, o cidadão agita-se, e das duas, três: ou mete-se em manifestações e comícios, ou faz greve, ou vai votar. Em qualquer dos casos, acho, e segundo a experiência de trinta e muitos anos de democracia portuguesa, não melhorará grande coisa a sua condição pessoal se ela, essa condição, já de si não for razoável.
E enfim, em democracia, a cada passo tal fica demonstrado: o cidadão continua a ser um boneco mecânico inserido numa engrenagem e as suas margens de escolha diminuem e quanto mais se insere e se articula com o mecanismo mais encolhe o seu âmbito de prerrogativas individuais. O cidadão,em Portugal repreendido por cantar uma canção de liberdade na casa da democracia, ou arrisca-se a uma ditadura, ou prescinde democraticamente das suas opções.
As ditaduras, os totalitarismos, os populismos pretendem entusiasmar o cidadão. Integram-no e euforizam-no, se se pode dizer assim. E carregam-no de absolutos. E iludem-lhe todas as dúvidas. Tornam-no por conseguinte mais governável, mais dócil, capaz até de se deixar conduzir cegamente a uma guerra sangrenta sem querer saber de objecções ou de alternativas. Os cidadãos preferem os estímulos. Desconfiam das notícias, ou repelem-nas. Preferem-lhes os supostos factos. Deixam-se governar por palavras incendiadas.
Em democracia também uma minoria muito militante pode calar facilmente uma maioria descrente, alheada e silenciosa.


Em democracia, como em ditadura, a primeira obrigação de um governante não é ser sério e verdadeiro, mas sim ser hábil a canalizar a opinião e o entusiasmo. Sartre, na sua Crítica da Razão Dialéctica, entendia o grupo como paixão. Inspirava-se na Revolução Francesa, quando muitos dos cidadãos exigiam que se tomasse a Bastilha todas as tardes.
Mas na medida em que se desenvolvem social e politicamente, está visto que os povos perdem capacidades para o entusiasmo colectivo.


Denis de Rougemont, no seu célebre ensaio O Amor e o Ocidente, relaciona democracia com paixão, sim, paixão mesmo física, ou sentimental, e diz que nos países democráticos as paixões há muito que abrandaram, e porque os costumes abrandaram primeiro do que elas, e abrandaram tanto que deixaram de oferecer obstáculos absolutos, que é do mais exaltante que se pode arranjar como alimento de uma paixão…
Também nos países totalitários a paixão se totalitarizou - ou totalitarizava, uma vez que já não devem existir, civilizados, países totalitários,,,
E a grande paixão que a sociedade totalitária tinha para oferecer aos jovens era… o Estado. O Estado que, segundo Rougemont, tendia a eliminar da vida privada toda a espécie de trágico íntimo e sentimental.



O advento de uma suposta democracia amaciou arestas, abateu barreiras, banalizou e tornou apetecíveis certos bens e hábitos a que inicialmente só as elites do dinheiro podiam chegar. Ir almoçar fora, ir jantar fora é hoje uma banalidade apenas hierarquizada pela categoria e preço do restaurante. Mas o nivelamento tende a subir de exigência.


Se se tem um único carro, é-se desconsiderado pelo vizinho do 3º andar, que tem dois, um para ele e outro para a mulher. Mas o do 3º andar é olhado com condescendência pelo do 5ºandar, que tem três, um para ele, outro para a mulher e outro para a filha que já anda na Faculdade. A seguir a este patamar de vários andares, tudo é hierarquizado e elitizado pelas respectivas marcas dos respectivos carros.
Aquilo que era excepcional vulgarizou-o a democracia do crédito, o igualitarismo do empréstimo. Os bancos, que aqui há não muitas décadas só emprestavam dinheiro a quem tinha bastante de seu, passaram, como muito bem sabemos, a emprestar a (quase) toda a gente, porque também quiseram, já se vê, aumentar os lucros à custa dos juros que cobram.

Mas tinha que ser assim. Só assim um esquema muito centrista de democracia se pode impor às almas antes atraídas para um socialismo no qual a qualidadede vida se nivelava necessária e realisticamente por baixo. E então baralharam-se as classes.
O meu vizinho do 6º andar ganha menos do que eu, ainda tem menos espaço onde caír morto do que eu… mas tem um BMW. Logo, sente-se  membro das classes superiores. O meu vizinho do 7º andar, ganha bastante mais do que eu, mas tem mulher (que não trabalha) e três filhos a cargo (e postos a estudar em colégios caros), tem a prestação do empréstimo que contraíu para a casa de praia, tem a prestação do empréstimo a que recorreu para aquele mesmo 7ºandar, ainda não pagou o Volvo do último modelo que tem para ele e ainda está a pagar as prestações do Honda para a mulher ir à Baixa, além de outras dívidas. Pois sim, eu ganho menos do que ele, mas não tenho essas despesas e acabo por poder viver teoricamente melhor. Contudo, quem pertence à classe alta é ele (que mal me dá os bons dias) e não eu. Porque no baralhar e tornar a dar das classes baralharam-se os rituais…

E é como eu reaccionariamente costumo dizer: o funcionário menos categorizado de um banco já não se distingue na rua, no vestir, e à vista desarmada, do seu presidente do conselho de administração.
A democratização da cultura, por exemplo, é realizada um pouco (eu acho que é um muito) sobre o analfabetismo. O analfabetismo televisivo da “dieta mediterrânia”, das “minas anti-pessoais”, do palácio dos dogues em Veneza…
Com o apelo da televisão e do computador e da Net, e consequente declínio (tristemente irreversível, na minha opinião) dos hábitos de leitura (que afectam mesmo os outrora furiosos leitores), é impossível  falar em cultura, quanto mais na democratização dela…
Os cinemas perderam público, os teatros perderam público, o livro perdeu público e, mais flagrante ainda do que tudo, do ponto de vista cultural, o futebol perdeu público – perdeu público real, o das bancadas, quero eu dizer, ficou com um público virtual, televisivo – tal, talvez, como o teatro ou o cinema.
Cinema, teatro, eventualmente livro, e futebol. A televisão, incorporando-os no seu espectáculo próprio e no seu vício confortável e familiar, matou-os. Matou-os porque os democratizou. A seu modo,  está bem de ver… tornando-os indiferentes…

Matou-os. Democratizou-os. Acessibilizou-os  – e, no geral, o pior que deles havia. Nivelou por baixo. É o que a democrática televisão sabe fazer de melhor. De modo comercial. De modo imediato. De modo lucrativo. De modo analfabeto. Ao modo da moderna democracia – televisiva. Embrutecedora. Repetitiva. Indiferente, no melhor dos casos.
E retomo as palavras daquele alemão que tinha combatido em sete anos de guerra, que não era religioso, que tivera amigos prisioneiros na União Soviética e que em 46 votara social-democrata… por ser o partido que lhe era mais indiferente.

E o meu problema político pessoal é esse: sentir-me cidadão de uma democracia da indiferença, do luxo, da cultura analfabeta, e, pois claro, do messianismo secreto que fica subjacente a tudo isso…
E da miséria cada vez menos escondida…




domingo, 5 de maio de 2013


                       VIA DEGLI AVIGNONESI
   


         Está a dar-me para falar de uma viagem que realmente me apeteceu fazer, e que realmente fiz, em lugar de falar das outras, das que não fiz porque, entre outras coisas, não me apeteceu fazê-las.
         Na conta das (não muitas, por sinal) cidades que visitei comparece, porque não podia deixar de comparecer, Roma. E estando eu um belo dia em Roma (por acaso não era um belo dia, estava frio e chovia água se Deus a dava), numa ruelazinha estreita, escura, antiquíssima, à porta de um modesto restaurante, fumando o meu cigarrinho enquanto não vinha o spaghetti alle vongole vere, eis que a chuva desaba mais forte e me recolho num portal ao lado do restaurante, fumo o cigarrinho, olho lá para dentro, reparo num balcão, tomo conhecimento de que se trata de uma agência de apostas e lotarias, dou uma última passa, deito fora a beata, vou para voltar ao restaurante, olho um pouco para cima, reparo numa lápide e sinto uma espécie de comoção, uma forte comoção cinéfila. Aquela lápide comemorava o lugar exacto onde Roberto Rossellini executara a primeira volta de manivela do filme que, segundo alguns, inauguraria o neo-realismo cinematográfico. Roma, Cidade Aberta.


         Passaram-se anos. Estou de novo em Roma, e agora está sol e calor, e compro um livrinho de pequeno porte. Título: Fare un Film. Autor: Federico Fellini. Meto-o na bagagem e esqueço-o.

         Passam-se mais um ou dois anos, a minha vida transforma-se num vasto espaço de ociosidades, pego num livro ao calha, pequeno, de bolso, levo-o para a cama para me ajudar a adormecer. Fare un Film. Fellini. E a páginas tantas dou com a história (verdadeira) que aqui me trás hoje, e mui prazeroso revivo aquela hora de almoço numa ruela da Roma fria e chuvosa, acoitado no portal manhoso de uma agência de apostas: Via Degli Avignonesi. E fico a saber umas quantas coisas mais acerca das primeiras voltas de manivela de Roma, Cidade Aberta.
      
  A guerra está a terminar. Fellini, ainda que tendo colaborado de uma maneira ou doutra numa ou noutra produção em tempos de guerra, e feito trabalhos de jornalismo cinematográfico, nunca lhe passou pela cabeça vir um dia a realizar um filme. O que ele gosta mesmo de fazer é desenhar, de fazer caricaturas.
         Quando os aliados chegam a Roma, Fellini ganha a vida a correr as esplanadas e os restaurantes e a oferecer-se para debuxar um ou outro retrato rápido, uma que outra caricatura. Já em tempos de liceu fazia isso, corria as praias da terra natal Rimini, smocking e lacinho, a retratar os banhistas em pelota. 
           Desenhar era um automatismo para ele. Era ter papel e lápis a jeito, fosse qual fosse a situação, o lugar, e punha-se a rabiscar desenhos. E depois desenhara publicidade para algumas revistas e jornais. Em tempos de miséria, quando vem para a capital à procura de vida, são os desenhos e as caricaturas que lhe valem. Diz ele que nessa época era magríssimo e que a sua figura devia fazer pena aos turistas que se deixavam caricaturar e não raro o convidavam a abancar com eles e a comer qualquer coisa.

                                              

         Roma é finalmente libertada e é o caos. Nem pensar em procurar trabalho em cinema ou em jornais. Tinha amigos, muitos, amigos dos cafés e das tratorias, que como ele, é claro, passavam dias de muita penúria.


                                                            

         Mas lá está a tal coisa, é a necessidade que aguça o engenho. E uma noite, ele e os amigos, que também eram da arte, tiveram uma ideia. Abrir uma loja de caricaturas – bottega della caricatura. O nome do negócio saíu-lhes rápido da imaginação e ao nome da loja acrescentaram mais alguns pormenores: Funny Face Shop – Profiles Portraits, Caricatures.

         Os americanos estavam por ali. Os GI’s desembarcavam em Roma aos magotes, davam um giro pela cidade, e diz Fellini que faziam bicha (fila) à porta da bottega na expectativa de levarem para o Michigan ou para a Carolina do Norte um souvenir original e personalizado.
         Mas personalizado como?
      Personalizado porque Fellini e os amigos inventaram umas vinhetas que desenhavam em série e com situações turísticas muito típicas – o corpo fardado de um soldado americano a matar um leão no Coliseu; outro, em Nápoles, dentro de um barquito, a pescar uma sereia; outro em Pisa, a aguentar a torre inclinada só com um braço. Desenhavam uns cinquenta exemplares de cada tema deixando o espaço da cara em branco. 
         Organizaram um album com o mostruário dos produtos. E pronto. O cliente camone aparecia. Escolhia o tema que mais lhe agradasse, olhe faz favor, quero mandar para casa um retrato meu a matar um leão no Coliseu de Roma. Estava escolhido o cartão e em três tempos Fellini e os amigos desenhavam e pintavam a cara do rapaz no espaço em branco. Com a cidade cheia de americanos, sul-africanos, ingleses, australianos cansados de guerra, era uma mina.
         Mas foram mais longe. Um outro amigo deles que tinha trabalhado na rádio e na indústria dos discos inventou uma espécie de massa peganhenta que se aplicava em pequenos discos de metal e que podia conservar uma gravação sonora de minuto e meio. Outro ricordo interessante para juntar ao retrato do soldado yankee que aguentava a torre de Pisa só com um braço. Dear mom, yesterday I’ve hold the Pisa Tower with my arm. Dear Mary, yesterday I’ve killed a lyon in Rome Colosseum…

            

         Havia uma cabina improvisada dentro da lojeca onde os camones gravavam as mensagens na placa peganhenta que depois juntavam ao desenho, pagavam, e estavam despachados dali.
         O que os soldados americanos não sabiam era que aquele disco só se podia ouvir uma única vez. Se o fossem ouvir uma segunda vez o peso da agulha removia a pasta e o disco ficavam parecido com um pirezinho de esparguete. Mas como os desenhadores sabiam que as licenças dos soldados eram, em regra, só por três dias, e que no primeiro desses dias davam uma volta sacramental pela cidade, no segundo apareciam lá pela bottega, e no terceiro iam embora, estavam todos de cavalinho, porque quando a vigarice fosse descoberta o soldadinho texano andaria a milhas da Cidade Eterna.
         O pior é que os cálculos de Fellini and friends nem sempre batiam certos com a realidade e algumas vezes tiveram de aturar as enfurecidas reclamações de militares enganados por aquela raça de caricaturistas latinos e lhes atiravam à cara a massa encarniçada e pegajosa da gravação que tinham tentado ouvir uma segunda vez e lhes chamavam bastards, fascists e outros primores. Oh, sorry, very sorry, replicavam os caricaturistas, technical trouble, very very sorry.  E Fellini pinta esses momentos como cenas escaldantes de uma crise em  saloon de filme de cow-boys.


     Uma tarde, a casa à cunha de fardas, soldados, aviadores, marinheiros, sul-africanos, canadianos, ingleses, australianos, americanos à compita para se fazerem retratar e gravar as mensagens, aparece no meio da balbúrdia um fulano  pálido, vestido à burguês, chapelinho, queixo proeminente, aspecto de emigrante. Quem era? Fellini conhecia-o. E ele estava ali mesmo para falar com Fellini. Era Roberto Rossellini.


         Fellini esta a desenhar e a pintar a cara de um soldado americano, inglês ou australiano, mas com traços de chinês. Rosselini faz-lhe sinal. Queria dar-lhe uma palavrinha. Diz Fellini que no entretanto, enquanto ele trabalhava no retrato do chinês,  Rossellini, para criar uma atmosfera favorável, ia fazendo acenos de aprovação ao que ele estava a fazer, para impressionar bem o chinês. E curvava-se para lhe ir falando ao ouvido, para lhe dizer ao que ia. Ia para lhe pedir uma colaboraçãozinha no argumento que estava a preparar sobre a vida de um padre, Don Morosini.
         (Isto pede uma nota explicativa, peço desculpa, mas tenho que dizer que se tratava da vida de um sacerdote que aderira à célula de Monte Mario da resistência romana; que foi denunciado por um bufo; que foi horrorosamente torturado; que guardou sempre um heróico silêncio sobre as actividades da célula; e que, apesar das pressões do Vaticano, foi fuzilado no dia 3 de Abril de 1944. E este parêntesis pede uma nota arrepiante: Don Giuseppe Morosini dirigiu-se aos homens do pelotão de fuzilamento e gritou-lhes alto e bom som as palavras de Cristo na cruz: “Deus perdoar-vos-à porque vocês não sabem o que fazem.” E ainda outra nota ainda mais arrepiante: dos doze elementos do pelotão de fuzilamento, à voz de fogo, dez dispararam para o ar. Don Morosini, atingido só por duas balas, não morreu, ficou ferido e acabou por ser morto com dois tiros na nuca pelo oficial fascista que comandava o pelotão.)
                                                 
         Bem. Fellini vai desenhando e pintando o chinês e vai falando com Rossellini.
- Sabe, senhor Rossellini, eu agora ando muito ocupado aqui na loja… isto está a dar, com os americanos aqui em Roma não há mãos a medir, as liras estão a cair em grande, e caixas de cigarros, e latas de soup and vegetables, de roast-beef, não há tempo para mais nada, e depois, sabe, senhor Rossellini, o cinema, para mim, pff… é um assunto um bocado… um bocado, como direi, remoto… não é coisa para nós italianos, e para mais agora, que estamos a voltar a ver o Gary Cooper, o Fred Astaire, a Harlow… e aquela rapariga com muita habilidade que está aparecer, a Crawford…

   

         Entretanto, o chinês vê Fellini meter o pincel no amarelo e começa a ficar nervoso. Rosselini continua a bichanar-lhe aos ouvidos…
         - É que eu gostava de ter o Aldo Fabrizi no papel do Don Morosini… eu sei que tu conheces o Aldo Fabrizi… an?, que tal? Se tu pudesses dar um jeito, falar com ele e tal… convencê-lo…


         Nisto, o chinês dá um salto, agarra Fellini pelo pescoço, encosta-lhe uma navalha à garganta e começa a gritar:
         - I’m not yellow! I’m not yellow!
         Rossellini quer agrarrar o chinês, quer acalmá-lo, não, não, que ideia, é agora amarelo…
         - Of course… of course, it is true, you not yellow..
         - He made me yellow!
         - Oh, no… you not yellow… - e grita para Fellini: – Per la madonna, Fedé, fá-lo cor de rosa, Fedé… cor-de rosa… não tens aí o rosa?
         Meteu polícia. Sacaram a navalha ao chinês e correram com ele.
         Isto tudo só para dizer que o filme sobre a vida de Don Morosini em que Rosselini pedia a Fellini (ini) para convencer Aldo Fabrizi a aceitar o papel, era esse mesmo. Ou passou a ser esse mesmo, Roma, Cidade Aberta.


         Primeiras tomadas de vistas justamente num teatrinho da Via Degli Avignonesi – aquele mesmo espaço que meio século depois conheci como agência de apostas de má morte.
         Estão a filmar. Em frente do teatrinho há uma casa de putas. Da casa de putas sai um soldado americano, já meio grosso. Sai, a ruela é muito estreitinha e o rapaz tropeça nos cabos eléctricos que fazem parte da maquinaria das filmagens e se estendem pelo passeio. E cai. E parte o nariz. E levanta-se. E cambaleia. E pragueja. Quer saber o que se passa, quem são aqueles, de quem é a responsabilidade de ele ter caído e partido o nariz, quem é que o vai indemnizar pelo sangue que lhe escorre cara abaixo.
         O soldado americano entra no teatrinho aos gritos. Estão a filmar. Pára tudo. Que se passa? Acalmam-no. Fazem-no sentar. Chegam-lhe um lenço para limpar o sangue. O rapaz ainda está meio tonto, confuso. Olha em redor. Que é isto? Reflectores, cabos, luzes, a máquina. Mas isto é cinema, é uma filmagem! Trazem-lhe gelo para pôr no nariz. Dizem-lhe que se está a meio da rodagem de um filme. E é então que o americano se abre todo num sorriso. Estou com a minha gente, diz – ou pensa.
      
      
      Declina a identidade e declara ser um grande produtor cinematográfico americano, sim, Hollywood, claro que sim, oh, oh, oh, claro que faço parte da indústria, produzi este e este e aquele filme. A Fellini, os gestos e as falas do rapaz parecem-lhe copiados de Jimmy Durante.
         - Que me caia já um raio em cima se eu, com o faro que tenho de produtor americano, não estou a sentir o cheiro do próximo grande sucesso para o filme que vocês estão aqui a fazer.


         Tinham-no deixado assistir à rodagem de alguns planos e o soldado-produtor  achou tudo maravilhoso. Thank you. E abraçou-se a Rossellini. Thank you. E abraçou os electricistas. Thank you, thank you. E os maquinistas, e os caracterizadores e o moço do bar. Thank you. E, já que apareceu o moço do bar, fez questão de pagar uma rodada.


         A rodagem de Roma, Cidade Aberta terminava e pelos vistos o soldado americano produtor de cinema ainda estava em Roma quando se organizou o primeiro visionamento. Conta Fellini que no fim da sessão o rapaz estava muito emocionado e tinha os olhos húmidos. E que se levantou do lugar e foi para a frente, para debaixo do ecran. E que falou em voz trémula. Trocaria todos os filmes da sua longa carreira de produtor cinematográfico nos States por um só enquadramento do filme que acabava de ver. Era para ele um orgulho sem fim estar presente naquela data histórica para o cinema. O cinema naquele dia tornara-se finalmente uma arte adulta.


         Abraços e beijos e lágrimas. O soldado foi-se embora dias depois e levou o filme para o promover na América.


         Vem a saber-se que o soldado não era nem nunca na vida tinha sido produtor de cinema. Não passava de um publicitário. Produtor tornou-se ele tempos depois, e também por empenho de Rossellini.
         E o soldado falso produtor de cinema volta mais tarde a Itália como produtor de verdade, e produtor vem a ser ele de um novo filme de Rosselini. Paisà.