sábado, 11 de maio de 2013


         
                O VENENO DOS CORTESÃOS

Mas, tornando a Verdi…
Génova. 24 de Setembro de 1339. Acaba de ser eleito o primeiro doge da cidade. É um cargo vitalício. É ocupado por um plebeu. Será ele o primeiro doge e o único oriundo do povo.

Noite anterior, 23 de Setembro. Noite escura. Proximidades do porto de Génova.
O ourives Paolo Albiani e o seu camarada  Pedro, líderes do partido do povo, entendem que é a hora de desembaraçar Génova do governo e das intrigas das grandes famílias patrícias, e fazer eleger como doge vitalício um popular, um plebeu como eles.
- E que temos nós a ganhar com isso? -  pergunta Pedro.
- O que temos a ganhar? Ora essa, tudo! Ouro, poder, honrarias, cargos, influência.
A questão era descobrir quem havia de ser o homem indicado. O usurário Lorenzino. Não. Deve haver um mais digno que esse. Paolo Albiani está a pensar num. Quem poderá ser?
- Simão Boccanegra. O corsário?
- Claro, o valente que nos nossos mares tem dado caça à pirataria africana.
Mas era preciso convencer o povo a votar nele.
– Isso é o mais fácil.


Simão Boccanegra, o doge corsário. De facto, uma liberdade artística de Verdi. O verdadeiro, o histórico Simão Boccanegra, o primeiro doge a ser eleito vitaliciamente em Génova não era exactamente um corsário. Não sei ao certo o que era mas não era corsário. Corsário era o irmão, Egidio Boccanegra.
A questão diícil nesta história é a vida pessoal de Simão Boccanegra.
  Numa primeira abordagem, Simão, acabado de desembarcar,  não vai na conversa dos caciques. 


- Doge, eu? Devem estar a brincar comigo.
Boccanegra tivera uma relação com a filha de uma família patrícia, Maria, filha de Jacopo Fiesco, membro destacado da classe dominante genovesa. E Simão e Maria tiveram uma filha ilegítima.
- Pois tudo isso é muito verdade, mas uma vez eleito doge - diz Paolo -, ninguém te pode negar seja o que for e poderás casar com Maria e legitimar a vossa filha.
Boccanegra cede. Os futuros cortesãos do futuro doge, os seus capangas, os apoiantes da candidatura, ou seja, os principais membros da comissão de honra para a eleição do futuro doge, começam a campanha eleitoral, e começam a convencer o povo da conveniência de se eleger um doge plebeu.

Estamos no séc. XIV, mas no séc. XIII genovês existiu outro Boccanegra, Guglielmo, capitão do povo, não sei se com algum parentesco com Simão e Egidio (o verdadeiro corsário). E esse Guglielmo é nomeado capitão do povo numa conjuntura política extremamente difícil da vida da cidade, dividida entre os interesses dos Guelfos e dos Guibelinos. Os Guibelinos apoiavam os artesãos e lutavam com as famílias tradicionais da cidade, as quais, por sua vez, também lutavam mortalmente entre si, os Dória contra os Spínola, os Fiesco contra os Grimaldi. E neste quadro o poderio naval, o potencial marítimo da cidade, mesmo assim ia crescendo.


À beira de ser eleito doge, e falando da ópera de Verdi, o problema pessoal de Simão Boccanegra persiste. Aproxima-se do palácio dos Fiesco. Escuridão. Portas escancaradas. Uma luz bruxuleante numa das janelas da mansão: sinal de morte na família. Boccanegra entra no palácio para se avistar com Maria. Mas pára, estarrecido. Maria jaz num caixão, alumiada por castiçais.
Boccanegra sai do palácio de cabeça perdida. 
velho Fiesco corta-lhe o passo. Pede-lhe satisfações.
- Onde está a tua filha?
 Na  verdade, Simão, perdeu a filha. Ao regressar de uma das suas viagens deu por falta dela. Confessa-o agora ao velho.

Génova gozava até de boa situação económica nesta época. O pior era a insustentável situação política e das instituições do poder. Génova era cobiçada pelos estados vizinhos mais poderosos, os franceses e os Visconti, senhores de Milão queriam-na como protectorado com privilegiada saída para o mar. Com o advento da nova organização política e a eleição do doge, decairá a influência dos patrícios, os Grimaldi e os Fiesco, os de importância maior na ópera de Verdi.
O palácio dos Fiesco estava deserto porque as grandes e velhas famílias deixavam a cidade e retiravam-se para os seus feudos no campo. Antes de partir, porém, o velho Fiesco amaldiçoa aquele que lhe seduzira a filha e lhe dera descaminho à neta, o corsário Simão Boccanegra,  mal sabe Fiesco que ele está para ser doge e senhor absoluto da ciade.
A única hipótese de reconciliação que o velho patrício oferece a Boccanegra é ele restituir-lhe a neta desaparecida. Impossível. Simão confiara a criança a uma velha ama, em Pisa. E no dia em que voltou para buscar a filha encontrou a ama assassinada. A criança chorou a morte da ama por três dias inteirinhos. E uma dia desapareceu. Como podia ele saber-lhe do paradeiro?

Com a elevação de um plebeu à dignidade de doge, a burguesia mercantil começa a dar cartas na cidade.
Em 1339, Simão Boccanegra, doge perpétuo, inicia um programa político de unificação e homogeneização do poder na cidade.
Simão Boccanegra é eleito doge por um povo influenciado pela palavra dos caciques e  condutores da opinião pública. Segundo esses, votando em Boccanegra, o povo havia votado por quem melhor governaria de acordo com o interesse público e não com os interesses das grandes famílias.


E deixemo-nos de coisas, quando nos apresentamos numa assembleia de voto e influenciados pelos jornais  e pela televisão colocamos o nosso rectangulozinho de papel na urna depois de pôr a cruzinha no partido do nosso ideal, sabemos grosso modo o que queremos, e o que queremos e que nos excita a consciência cívica não é tanto aquele particular partido como o homem que no momento o lidera, e queremos vê-lo como nosso 1º ministro, ou mesmo como presidente da câmara. Achamos aquele um homem bom e capaz. Achamos que é aquele o que tem melhores condições para pôr o país no são, salvar a pátria, endireitar o mundo. E nos tempos que se vão seguir vamos amar e apoiar, ou odiar e repudiar, esse homem, em consonância com o que o governo dele fizer, com o que os comentadores dele disserem que achemos justo ou injusto.

Só nos esquecemos de uma coisa: votámos num homem; não votámos no sistema de vida e no enquadramento político, legislativo e funcional em que ele vai trabalhar e no qual tem de se enquadrar se não quiser ser destituído ou se quiser ganhar as próximas eleições. Aquilo que o nosso eleito fizer não poderá em caso algum ultrapassar os limites do regime de vida institucional (e constitucional) previamente instalado. Ai dele se começar a salvar realmente a pátria – pátrias há muitas e cada interesse tem a sua - e ai dele se quiser endireitar demais o mundo. Quando muito ele vai para lá para endireitar alguns mundos, e se em nenhum desses mundos cabemos nós, o problema é nosso, não é dele.

        



Vinte e cinco anos são passados desde a noite da entronização de Simão Boccanegra como doge de Génova.
Amelia Grimaldi e Gabriel Adorno estão enamorados, o que para o caso de que agora me ocupo tanto faz.
Durante 25 anos, enquanto cabeça reinante e representação física do Estado de Génova, Simão Boccanegra, plebeu posto entre lutas políticas entre facções  cortesãs dentro do próprio palácio, efectuou algumas depurações políticas. Saneou muita gente. positores seus foram exilados e o Estado apropriou-se-lhes das terras. A nata dos que o elegeram como testa de ferro para os seus próprios interesses, os Paolo Albiani, ganharam influência e poder político junto das instâncias de decisão intermédia e também tentaram usar o doge como guarda-chuva dos seus negócios, conveniências, traficâncias e cambalachos. Boccanegra, ao governar com a justiça possível, ou razoável, dentro dos contextos dados, premiou uns, os que lhe eram próximos, e desatendeu ou castigou outros, e assim, como todo aquele que governa qualquer coisa, não fez mais do que acumular inimigos.

É assim a política. É assim o poder. Ainda estamos lembrados de John Kennedy e do seu assassinato misterioso. De pouco pode servir, em política, o favor do povo, se os cortesãos do partido do poder que rodeiam o chefe não estiverem satisfeitos. O povo, bem vistas as coisas, até pouco ou nada conta, ao contrário do que nos têm dito toda a vida  - e mentirosamente nos continuam a dizer.

São os cortesãos, agasalhados pela cabeça governante, que manobram as entranhas da vida pública e que podem mudar para um lado ou para o outro o parecer do povo e sem que o povo chegue a saber ao certo porque motivos aprecia hoje uma governação e amanhã deixa de apreciar. O povo, nem no sangrento tempo do Renascimento nem hoje, no mais aberto dos regimes políticos, tem os elementos todos, tem os dados que lhe permitam formar um juízo, opinar, votar em consciência, decidir o que quer. A verdade é essa, deixemos-nos de retóricas.
Mas a verdade é que é o povo que formalmente decide.


Mas o povo decide o quê?
O povo decide o que a comunicação de massas lhe sugerir como melhor decisão. Mas quem orienta e influencia os media, jornais, rádio, televisão? Claro que é o poder. Poder que tem como primeira obrigação moral perpetuar-se, reproduzir-se. Mas mesmo dentro do poder é uma pequena minoria de cortesãos que distribui as cartas, os barões dos partidos, os notáveis, por sua vez correias de transmissão de outros interesses, geralmente económicos.
Os governos, sejam eles quais forem, influenciados pelos seus escalões intermédios de tecnocratas e gestores, devem estar preparados para desarmar as reivindicações das suas clientelas naturais. Acorrendo aos interesses dos seus clientes, todos os governos o que querem é aumentar a sua popularidade. Mas sabe-se que os governos têm os seus porteiros, os que deixam entrar certas reivindicações – porque o governo já está pronto para as satisfazer e assim fica bem visto – e que não deixam entrar outras reivindicações e reclamações, aquelas para que o governo não está preparado, ou nem  quer considerar.


De forma que este tráfico entre governantes e governados pode estar falsificado, com os governos a satisfazer primeiramente reivindicações que pode facilmente satisfazer, e porque achou conveniente, e porque estava disposto e as podia satisfazer, incitou a sua clientela de governados a apresentá-las como se fosse coisa deles. Logo, toda a reivindicação satisfeita pelo poder pode ter sido uma reivindicação induzida pelo próprio poder para aumentar a sua popularidade eleitoral.
E, vice-versa, toda a reclamação que não é apresentada pela clientela própria de cada governo, que não foi sugerida por esse governo pode portanto não ser satisfeita. Assim como assim, o partido no poder não conta com esses para ganhar as próximas eleições, porque esses não são parte prioritária da sua clientela tradicional.
E desde logo são os programas eleitorais de governo dos diversos partidos, ao serem elaborados, que sugerem as reivindicações a apresentar pelas respectivas clientelas.
Por exemplo, a liberalização das rendas de casa. O governo satisfaz a reivindicação antiga dos proprietários, que fazem parte da sua clientela tradicional, ou mesmo natural, estando-se nas tintas para os que, pela liberalização, podem ficar sem casa, ou baixar radicalmente de qualidade de vida, porque esses são clientela das oposições. A oposição que lhes conquiste os votos, que ganhe eleições, que vá para o governo e governe para esses.
É um pouco simplista, eu sei, mas nem por isso deixa de ter muita verdade.


A ofegante privatização da saúde pode não corresponder aos anseios da massa dos utentes menos favorecidos e ao poder de compra das bolsas do povo mais miúdo, mas corresponde certamente aos interesses dos lobbies empresariais. E assim pode ser um princípio programático de governo, com que um cidadão, mesmo fazendo parte da massa do povo miúdo e sem nada ter a ver com interesses empresariais, terá de estar de acordo se tal lhe for recomendado pelo partido das suas simpatias.


Assim como, por certo que nos tempos que logo se seguiram ao 25 de Abril, o princípio de uma reforma agrária não era obviamente bem visto pelos grande proprietários alentejanos, mas foi tornado fundamental pelos programas da esquerda então dominante, cuja clientela assentava nos trabalhadores e assalariados rurais e não nos proprietários.

Parece então evidente que os programas eleitorais dos partidos começam por induzir em quem os lê uma redução de exigência. Se a satisfação desta ou daquela exigência não vem contemplada no programa do partido das minhas simpatias é porque essa exigência não é relevante nem prioritária para mim, para a minha classe, para o meu estatuto.



Um velho, uma estranha personagem se movimenta na esfera do poder da Génova de Boccanegra, frequentando o palácio dos Grimaldi nos arredores da cidade. Chamam-lhe Andrea. E é ele o tutor da filha dos Grimaldi, Amelia.

Aliás, Amélia não é verdadeiramente filha dos condes Grimaldi. Essa morrera num convento de Pisa. Amélia era uma orfã encontrada a soluçar num claustro desse convento e que imediatamente os Grimaldi – sim, esses, os do Mónaco - adoptaram como filha.
 Mas os Grimaldi tinham conspirado contra o doge e por isso tinham sido exilados. Amélia era, para todos os efeitos, a guardiã moral dos interesses e das propriedades da família. O velho Andrea, mancomunado com o gentilhomem Gabriel Adorno, namorado de Amélia, urde nova conspiração contra o doge.
Andrea, o velho, é nem mais nem menos do que o velho patrício Fiesco – aquele que tinha pedido satisfações a Boccanegra sobre o paradeiro da filha. Mas ninguém o sabe, a não ser esse seu cúmplice, Gabriel Adorno. E é Fiesco que revela a Adorno o que se passou nos últimos vinte e cinco anos. É por ele que Adorno sabe que Amélia não é uma Grimaldi, que Amélia foi uma pobre órfã abandonada que tomara o lugar da finada filha dos condes agora caídos em desgraça.


A comunicação entre governantes e governados, melindrosa e decisiva área da vida política, está, hoje em dia – e talvez como em todos os tempos – na mão de lobbies. É inevitável. Todos o sabemos. Um lobby, fazer lobby, é um processo de comunicação. E um processo de comunicação com magna importância na formação da decisão política, desde que o lobby com mais poder e audiência junto de um governo é o que faz vencer mais depressa as suas ideias - ou antes, os seus interesses.
O poder do lobby é enorme. Espraia-se por todo o universo da comunicação, já que constitui o processo mais sofisticado, oculto e tentacular da comunicação política.
Os lobbies exprimem-se através de partidos, de associações profissionais e essencialmente através dos meios de comunicação de massas, cuja missão informativa se subordina ao peso que este ou aquele lobby tem – inclusivé o lobby a que pertencem os proprietários de tal ou tal jornal, desta ou daquela cadeia de televisão. O lobby busca o privilégio político de modo a obter vantagens económicas. O lobby solicita favores, protege empresas que desses favores necessitam, intermedeia o interesse público com o privado, actua no estrangeiro através da diplomacia, ou fazendo ele mesmo a sua diplomacia activa para efeitos imediatos.
Lobby, ou grupo de pressão, é preciso que seja excepcionalmente bem organizado; é preciso que defenda interesses; é preciso que faça exactamente pressão sobre o poder público.
Mas, e o que são os sindicatos? Não são outra coisa, não foram criados para outra coisa senão para actuar como grupos de pressão. As associações patronais: o mesmo. Os movimentos de vária sorte: o mesmo – antigos combatentes, actuais combatentes, heróis, cobardes, clubes desportivos, sociedades filosóficas, sociedades secretas, organizações de juventude, associações de pais, de filhos, de irmãos, de enteados, de professores,  de alunos, de pais de alunos, de filhos de alunos… se calhar, qualquer dia,  da maneira que isto anda e com a violência nas escolas, associações de pais de professores…
Claro que o fim em vista dos grupos de interesses e de pressão, é sobretudo (ou maioritariamente) o da obtenção de vantagens materiais, ou da protecção de certos estatutos e privilégios e situações adquiridas. 
Boccanegra é um governante humano e clemente. De caminho da caça passa pelo palácio dos Grimaldi e chega à fala com Amélia. Apresenta-lhe um documento. É o perdão que ele concede aos Grimaldi.
Paolo Albiani, o homem de confiança do doge, o número dois do partido do poder, engraçou por sinal com a moça, meteu em cabeça casar-se com ela e intercede (faz lobby) junto do doge amigalhaço político para que este lhe peça a mão. Enfim, o doge deve-lhe favores. E o doge sente-se constrangido a cumprir a missão que o seu nº2 lhe impõe e vai pedir a mão de Amelia Grimaldi para o homem, para o cortesão em quem deposita toda a confiança política.
Nos tempos que correm, o poder é difuso, já sabemos, é parcelar, reúne e pulveriza constantemente os consensos.
Em teoria, e na inocência romântica dos princípios, o homem deveria ser livre numa sociedade organizada, e livre o homem seria desde que não fosse instrumento de nenhum poder.
Mas Amélia desilude o doge e o seu capanga e declara-se enamorada de outro.
E então, palavra puxa palavra, na conversa com o Boccanegra, Amélia acaba por se descair e dizer que não é exactamente uma Grimaldi. É uma pobre órfã que foi adoptada. Boccanegra puxa pela moça. Mas então que objectos terá ela que lhe recordem a mais tenra infância. Tem. Tem, sim senhor. Tem um medalhão com o retrato da verdadeira mãe que lhe foi dado pela ama pouco antes de falecer.
- Mas lembras-te de alguma pessoa que vos fosse visitar lá a Pisa?
- Sim, lembro-me muito bem de uma pessoa.
- Quem?
- Um homem.
- Um homem.
- Um homem do mar; visitava-nos muitas vezes.
- E a tua ama, acaso não se chamava ela Giovanna?
- Chamava sim senhor… é verdade… Giovanna…
O doge mete a mão à veste e tira do peito outro medalhão.
- Ouve lá, e a cara do medalhão da tua mãe não será por acaso parecida com esta? 
Amélia observa o retrato do medalhão do doge. São iguais.Uma e a mesma pessoa.
Amélia não é outra senão Maria, a filha desaparecida de Simão Boccanegra.
Isto é que é melodrama.

                           
     
     Pois que Paolo Albiani tire dali o sentido. Não concederá a mão da própria filha ao seu braço direito político. É o que Boccanegra lhe afirma quando Albiani aparece a saber o resultado da diligência – sem contudo lhe dizer que a rapariga é filha dele.
- Não e não. E acabou-se. Nem mais um pio…
Paolo remói de novo os favores que prestou a Boccanegra, o trabalho de propaganda que fizera para que ele fosse eleito, toda a leal colaboração na eliminação dos seus inimigos políticos. Mas muito bem, não se fala mais nisso. Se não tem Amélia a bem, tê-la-á a mal. Há um navio pronto a zarpar de Génova. Amélia será raptada e metida nesse navio e desaparecerá mais uma vez.
Génova está nessa altura em guerra com Veneza.

                       
O senado de Genova está reunido. Há doze conselheiros representantes das famílias nobres de um lado e há doze conselheiros plebeus do outro. A esquerda e a direita na orgânica do poder da cidade. O doge senta-se no trono, ao centro, traço de união entre as duas facções, os dois partidos.
Não sou eu que o digo, disse-o o célebre Tocqueville: os partidos são um mal inerente aos governos livres. Livres?
Os partidos, sejam eles quais forem, servem para enquadrar e organizar a opinião pública. Servem para regular e moderar as atitudes da opinião pública e servir de correios entre os interesses divergentes, os da opinião mais pública e os dos governantes.
Sentado no trono, Boccanegra dá conta de uma carta recebida do grande Petrarca, reclamando a urgência de conversações de  paz entre Génova e Veneza. O senado recusa a proposta. O senado quer continuar a guerra.
- Parece que Caím levantou a espada entre duas nações irmãs, dois povos de uma mesma Itália! -  exclama Boccanegra.  - Ainda não se terá percebido que Adria e Liguria têm uma pátria que lhes é comum?
Os partidos não podem (nem devem, nem querem) evitar as oligarquias que no interior deles se formam. E é através deles que a opinião pública colhe ou não vencimento – e, claro, conforme convenha à oligarquia partidária. Governo do povo executado por uma elite saída do povo – é a fórmula. Não é bom nem é mau: é assim. E os partidos só apareceram, evidentemente, quando foi necessário que as massas populares participassem na vida pública, e esses partidos sempre se tornaram mais necessários à esquerda do que à direita. E depois, também temos partidos de massas e partidos de quadros. E já se está mesmo a ver em quais deles a influência dos tecnocratas e das oligarquias é mais preponderante.
O rapto de Amelia Grimaldi, levado a cabo pelos círculos afectos ao poder sob o comando do até aí principal homem de confiança do doge, Paolo, corre mal. Há distúrbios nas ruas. Os gritos do povo chegam à nobre sala do senado. Que se passa?
Passa-se uma rebelião popular. À frente dos insurrectos está Gabriel Adorno, inimigo de Boccanegra e apaixonado da falsa Amélia Grimaldi – a qual ele ainda ignora ser filha do seu inimigo político.
   Os cortesãos que na sombra planearam e tentaram executar o rapto, Paolo e Pedro, os homens de confiança do poder, preparam-se para fugir. Boccanegra ordena: que ninguém saia do lugar, aquele que fugir será considerado traidor. A populaça grita na rua “morte aos nobres!”, “morte ao doge!” Boccanegra ordena que sejam abertas de par em par as portas do palácio do senado. Envia um arauto para falar ao povo e dizer-lhe que o doge não tem medo da multidão. Daí a a instantes um novo clamor de povo se levanta. “Viva o doge!” Boccanegra solta numa frase cínica e famosa do repertório operístico: Ecco le plebi. É isto o povo. É assim o povo. Ao longe, o som do povo parece o troar da tempestade e ao perto soa apenas com grito de mulheres e de crianças. E esse povo soberano (quem mais ordena…) muda de parecer conforme é influenciado pela classe dominante, já que, na verdade, e na realidade crua das coisas, não tem qualquer voto na matéria, ou, como se diz hoje, não conhece em profundidade os dossiers para se poder pronunciar com propriedade sobre uma governação.

                                  

O povo mata e esfola, tira e põe governos e governantes, mas, em verdade, naquele tempo como hoje, tem uma percepção muito limitada do que está a fazer, porque é essa percepção limitada que os poderes lhe dão e só sabe o que os arautos, a mando dos diversos interesses, publicam nos jornais e dizem na televisão.
O povo invade a sagrada sala do senado de Génova, a sede do poder. O povo pede vingança. Mas vingança contra quem?
Adorno acaba de assassinar Lorenzino – aquele de quem, primeiramente, Paolo Albiani e Pedro se tinham lembrado para fazer eleger como doge.
Porque é que Adorno assassinou Lorenzino? Porque ele quis raptar Amélia Grimaldi. Como? Claro, Lorenzino era o homem de mão da camarilha que na verdade detinha o poder em Génova, o círculo que rodeava o doge, que tinha a confiança política do doge.
Um homem poderoso está por detrás da trama, diz Adorno. Os olhares viram-se para o próprio doge. O doge enfrenta-os, exige os nomes. Quem será? Um patrício? Um plebeu?
Amélia tenta explicar os casos. Sim, Lorenzino era um patifório, mas outros piores do que ele estão naquela sala, impunes porque acobertados na importância dos seus cargos.


Nobres e plebeus desembaínham as espadas e vão-se confrontar. Boccanegra, governante com ideais de paz num contexto tão sangrento como o do Renascimento italiano, interpõe-se entre as facções. Mais uma vez, ontem como hoje, as consciências não evoluiram, as ambições de grupo, os interesses pessoais das camarilhas políticas e os ódios tradicionais mantêm-se e interferem na lógica dos negócios de Estado, enquanto ele não cessa de pedir paz e amor entre os cidadãos.
Os senadores burgueses e plebeus apreciam os acentos conciliadores do apelo do doge; os representantes da nobreza lastimam-se amargamente naquele momento histórico em que a soberba cidade caiu nas mãos de um corsário.
O tunante do Paolo Albiani é desmascarado. Boccanegra obriga-o a maldizer-se a si mesmo.
Mas que história  emocionante!


Aquele senado de Genova, onde, democraticamente, se representavam as forças vivas da cidade, como acontece em qualquer parlamento. Uma representação da ideia de democracia, mas que, na verdade verdadinha dos factos, provavelmente apenas sancionava, oficializava e formalizava aquilo que os notáveis tinham negociado e resolvido previamente em bastidores.
O parlamento, ou, por melhor dizer, o parlamentarismo, instituição-sede da ideia democrática, há muito, e por todo o lado, é sabido, se deixou cair numa crise profunda. Os entendidos apontam algumas das causas dessa crise.
Por exemplo, o ascenso da tecnocracia. Os peritos propõem conclusões aos parlamentares e a estes faltam os meios e a competência técnica para a análise desses propósitos tecnocráticos crescentemente complexos e aprovam ou desaprovam de cruz – de uma maneira geral, claro, aprovam – aquilo que os técno-directores-peritos lhes põem na frente para aprovar. E há os media, que cada vez mais favorecem a ascensão de poderes personalistas muito treinados para escapar ao controle do areópago.
A decadência política e intelectual das individualidades tribunícias em cada partido, outro caso, algo que banalizou – ou burocratizou - a actividade partidária através da rigidez da disciplina de voto, e sabendo nós que o resultado final de uma votação parlamentar está decidido nos gabinetes muito antes da efectivação dessa votação.


As maiorias. O parlamentarismo maioritário. Um governo quando sabe que dispõe de uma maioria no parlamento está de cavalinho, sabe de antemão que, faça o que fizer, não será derrubado, e tudo o que propuser será de certezinha aprovado. Já nenhum brilhante orador pode operar reviravoltas no sentido do voto do plenário.
Já não são, enfim, os parlamentos que na prática orientam as políticas nacionais. Deixou de haver soberania parlamentar. É o partido do governo e o governo quem definem as políticas nacionais, escudados, como se disse atrás, nas maiorias obtidas no parlamento. E estas são apenas algumas das mais óbvias razões para um declínio do parlamentarismo, instância capital de uma democracia representativa.
(Na sessão parlamentar de 3 de Maio último, um grupo de reformados manifestou-se nas galerias da Assembleia da República cantando o Grandola, Vila Morena. A grande democrata presidente, Assunção Esteves, repito o que já escrevi, reformada de luxo aos 42 anos com sete mil e tal euros, admoestou-os, dizendo que o que a atitude, o triste e desencantado canto dos reformados, estava a fazer mal à democracia. É de rir à gargalhada – ácida e rancorosa gargalhada…)



Ao obrigar o seu homem de confiança, Paolo Albiani, a desacreditar-se e a auto-humilhar-se em público, Simão Boccanegra, o doge, cometeu a imprudência mais fatal que pode cometer qualquer governante. Subalternizou um valido seu, e não contentou devidamente as suas clientelas, a classe de pessoas que eram o sustentáculo do seu poder, ou, como se costuma dizer, a sua base social de apoio. Um erro que vai custar caro a Boccanegra. Que lhe vai custar a própria vida.
Já então o problema dos mercados comerciais provocava conflitos. Acontece que Génova não se conformava com o senhorio dos venezianos sobre o Adriático nem com o crescente monopólio deles sobre os comércios do Oriente.  O século XIV italiano é por isso muito marcado pelas guerras entre estes dois potentados marítimos. E parece que foi Veneza que ficou a perder, visto que ao assinar a paz lhe tiraram o domínio sobre a Dalmácia.
E o problema dos mercados e dos comércios determinava as grandes razões para o pé de guerra que se viveu neste momento da História da Europa. Por isso Petrarca apelou a Boccanegra como a outros governantes da península itálica com vista à paz, incluindo na própria vida intestina das cidades e na luta dos interesses de classe e de casta.
Petrarca também se dirigiu um dia ao senhor de Pádua, escrevendo-lhe nestes termos: Deves ser não o senhor dos teus súbditos, mas o seu pai; deves amá-los como a teus filhos, que digo eu?, como a ti próprio; e também lhes deves inspirar afeição e não temor, porque o temor engendra o ódio. As tuas armas, os teus velhos soldados, atira-os contra o inimigo; contra os teus súbditos nada poderás com eles; só pela benignidade conseguirás conquistá-los.
Nestes tempos de Renascimento a responsabilidade política era coisa séria e era assumida por inteiro e às últimas consequências. Quem assumia responsabilidades por um acto político estava pronto a pagar o preço dos seus eventuais erros, não raro com a vida, muitas vezes com o degredo.
O erro capital do doge genovês Simão Boccanegra foi ir politicamente ao contrapêlo dos tempos e ter uma visão humanista num momento histórico em que a vida humana não tinha ainda um valor por aí além. O erro crasso do governante Simão Boccanegra era pregar a paz num ambiente mental que privilegiava a guerra.
E Paolo Albiani, passado para a oposição patrícia por vingança contra o doge, vai fazer pagar com a vida a desconsideração que lhe foi feita por esse doge, outrora o amigalhaço, o cúmplice, o comparsa, aquele que ele próprio indicou para o poder. Prevendo que vai ser condenado pelo doge por crime de rapto e por conspiração, Paolo prepara secretamente um veneno forte e mistura-o na água que ele sabe que o doge nessa noite vai beber.


Por falar em oposição aos poderes: para que o descalabro funcional e moral de uma democracia moderna tal como a conhecemos hoje seja mais profundo, contribui aquilo a que todos os dias assistimos via jornais ou televisão: o declínio das  oposições.
Uma oposição democrática confronta-se cada dia mais dramaticamente com certos dilemas. Das duas, uma: ou renuncia à sua identidade e autenticidade políticas e às suas reais posições sobre as diversas matérias, a ver se consegue ganhar eleições, não se diferenciando muito, por conseguinte, da maioria no poder; ou então assume frontalmente a sua diferença e os seus pontos programáticos e arrisca-se a assustar o eleitorado, ou a parte mais tradicionalmente conservadora dele, e está assim sentenciada a ser eternamente minoria, oposição, não-poder.
Haverá de facto reais oposições no sistema parlamentar ocidental?
Talvez não. Talvez não passe de uma questão de forma. Talvez situação e poder de maiorias e oposição e não-poder de minorias sejam faces da mesma moeda, componentes da mesma ilusão de uma inultrapassável democracia a que estamos condenados pela vida real. Ou então ficamo-nos, em pureza de identidades, pela oposição extra-parlamentar, hoje por hoje, herdeira das exaltações do Maio de 68 e correlativas utopias, a conservar o seu encanto por não ter a mínima hipótese de sujar as mãos nas prosaicas realidades da governação.
Gabriele Adorno, o apaixonado da suposta Amélia Grimaldi, da qual por enquanto também desconhece a verdadeira identidade, e o velho Andrea, que não é outro senão o patrício Fiesco, avô da suposta Amélia Grimaldi, estão presos. Estão indiciados como cabeças de uma conspiração contra o doge e por tabela por implicação no golpe de Paolo Albiani.
Andrea, ou seja, Fiesco, estava a organizar uma revolta de guelfos e Gabrielle Adorno era o seu braço direito. Paolo informa-os de que Boccanegra se prepara para o liquidar. E faz uma proposta ao velho Fiesco: assassinar o doge enquanto ele dorme, em troca da imediata libertação. Fiesco, com nobre altivez patrícia recusa a proposta daquele bufarinheiro plebeu intriguista, recém-chegado às proximidades do poder, sem ética política  e cheio de truques. Como se atreve o peralvilho a propor ao nobre Fiesco que cometa um assassínio? Em face disso, Paolo ordena que ele vá outra vez recambiado para o cárcere.
A Gabrielle Adorno, Paolo informa que a sua amada Amélia está nesse momento nos aposentos do doge, fechada com ele, porque dele é uma secreta amante. Gabrielle sente-se evidentemente traído e, perante isso, não lhe resta alternativa senão assassinar o doge, ainda que por motivos pessoais. Mas igualmente por espírito de vingança, desde o dia em que o seu próprio pai fora mandado executar por Boccanegra.
  A violência e a crueldade dos senhores renascentistas eram inauditas. Carrara, senhor de uma Pádua minada pela peste e de muralhas cercadas pelos inimigos de Veneza, invocava à noite o diabo e implorava-lhe a morte.

                                


Os Visconti de Milão – que tantos séculos depois dariam ao mundo, Luchino, um tão sensível artista– eram dos mais brutos e sanguinários. Barnaba Visconti, por exemplo, só cães de caça tinha cinco mil, e alimentados pelos impostos do seu povo. E por violência e crueldade, e ainda por falar em cães, Gian Galeazzo, outro Visconti, tinha também imensas matilhas de cães ferozes, mas estes não já para as caçadas, estes eram treinados para despedaçar homens. E esse Gian Galeazzo Visconti até proibiu nos seus reinos que alguém proferisse uma certa palavra: paz. Nem os padres estavam autorizados a usá-la. Diziam dona nobis tranquilitatem.

                    


Oceanos de tinta já correram a respeito da ciência e da acção políticas e suas vicissitudes. Em geral, a visão que se tem sobre aquilo que em política se pode designar por acção não é coisa doce, e dos comentadores uns são mais pessimistas e outros menos. Tudo por causa da desigualdade, que é regra de todas as sociedades. E sendo a desigualdade a regra, não é preciso muito para logo se afirmar que, em rigor, a democracia é impossível. 
E se calhar é. Em rigor.
E se calhar, digo eu, a democracia é o sistema que melhor monta uma ilusão de igualdade de direitos. Se calhar. Se calhar a democracia é o mais popular dos sistemas justamente por ser o menos imperfeito na mistificação de tal igualdade cívica e política.
O poder é bem capaz de ter sido sempre exercido por uma minoria de cortesãos, independentemente das veleidades de representatividade que essa minoria se arrogou de uma maioria.
É capaz, não, foi com certeza. O problema seria saber ao certo se poderia algum dia deixar de o ser.
Minorias e classes dominantes. Haveria muito que dizer delas. Quem vai para a política, quem faz parte da classe política dominante, são em geral pessoas de teres e haveres ou oriundos de famílias em tempos abastadas. Já mais antigamente se dizia que só os ricos deviam estar na política e no governo dos povos, e pela simplória razão de que, sendo ricos, poderiam passar pela política com independência sem necessidade de puxar as decisões para o seu lado nem de roubar o Estado.

Mas hoje, ai, quem está no poder e na governação não é gente propriamente que se diga rica, ou muito rica – senão tinha mais com que se entreter do que andar na política -, mas é gente de famílias que têm de seu e quem entre para um governo ou sobrace uma pasta ministerial não rouba certamente o Estado. Isto é, não sei…
O problema podem ser as mais baixas oligarquias, os mais pequenos políticos locais ou os funcionários superiores, que já nem vêm muito de famílias que tenham de seu. Mas também se sabe que quem tem alguma coisita de seu gosta sempre de ter de seu um pouco mais.
E também por outras paragens que não estas se viram governos e regimes inteiros de gente que nada tinha de seu, que fez uma revolução, alcandorou-se ao poder e governou-se como pôde e passou a ter mesmo muito de seu.
É aquela velha conversa do abaixo o capital para a gente lhe chegar melhor… 
A democracia representativa, tal como a vivemos e sofremos hoje por todo o mundo dito livre pode ser uma fachada. Porque, claro está, se põe o problema de quem detém efectivamente o poder.
Três teses clássicas, as tais: o poder pertence a uma elite unida que nenhum quadro constitucional poderá abater; o poder é fluído porque não existe classe dirigente mas sim categorias dirigentes que ora concordam ora se combatem e assim equilibram e assim representam os anseios das bases; o bastão de poder, como particularmente queria Karl Marx, é empunhado pela classe dominante através dos seus capangas ou instrumentos de acção, sendo o domínio destes camuflado.
Quando Boccanegra sabe pela própria filha a identidade do homem por quem ela está apaixonada reage mal, muito mal. Adorno está na lista negra do Estado. Faz parte de uma conspiração contra o doge.
Amélia implora o perdão do seu namorado. Boccanegra, enquanto cabeça política do Estado, não pode conceder o perdão a Gabrielle Adorno, ainda que o queira. Se perdoasse a Adorno enfraqueceria evidentemente a sua autoridade e fragilizaria o equilíbrio político já tão depauperado do Estado de Génova.
Mas a cachopa era de força e coloca Boccanegra entre a espada e a parede. Se ele não perdoar ao namorado ela poderá até voltar a fugir-lhe. Se o doge mandar executar Adorno, a filha exige subir ao patíbulo com ele.
O doge sente-se constrangido. Muito mesmo. 
Mais uma vez, doge, beneficiarão os traidores da tua clemência – está ele a pensar. Mas enfim, talvez o castigo fosse entendido por eles como fraqueza do doge e do Estado, ou como prova de medo.
Boccanegra verte para uma taça a água envenenada por Paolo e bebe. Sente-lhe um gosto desagradável. A vida de um chefe de Estado está de tal forma sobrecarregada de suspeições, de ameaças e de perigos reais que a própria puríssima água de uma fonte deixa um sabor amargo na boca daquele que governa.
Depois de beber a água e passado pouco tempo, Boccanegra adormece.
Vendo o doge adormecido, Adorno, entrado nos aposentos do doge, saca da sua adaga e levanta-a sobre o peito de Boccanegra.
Amélia entra nesse momento.
 - Ó seu grande estupor, ó seu cobardolas de merda, você era capaz de apunhalar um velho, e ainda por cima com ele a dormir? – grita-lhe
O doge, claro, desperta. Ouve Adorno acusá-lo deter mandado executar o próprio pai. E responde-lhe que esse pai por ele mandado executar já Adorno vingou que chegasse ao conquistar o coração da filha.
- Filha?
- Sim, filho… filha…
Adorno fica transido.
- Filha?
- Já te disse que sim, homem. És surdo?
Então a jovem Amélia Grimaldi é filha de Simão Boccanegra, o seu figadal inimigo político?
Bem, nesse caso, o doge está autorizado a matá-lo mesmo ali, naquele instante, pelas suas próprias mãos.


Lá fora, a gritaria da populaça significa que a revolta dos patrícios já está nas ruas de Génova. Boccanegra diz a Adorno que vá, que vá combater ao lado dos seus amigos aristocratas. Adorno recusa. Não se vê a pegar em armas contra o próprio sogro. 
Bem, então. já que não quer combater pela sua facção, que Gabrielle Adorno faça alguma coisa de útil. Que leve aos revoltosos, da parte do doge, uma proposta de entendimento.

A rebelião dos guelfos da Génova do século XIV foi sufocada. Governante humanista e tolerante num contexto social e político violento ao extremo, Boccanegra promulga o indulto aos revoltosos. Todos, excepto um: Paolo Albiani.
Paolo Albiani era a primeira figura das oligarquias dominantes em Génova, era ele que mexia na verdade os cordelinhos e maquinava os estratagemas que lhe permitiriam conservar o seu poder, aparentemente pequeno, mas realmente decisivo.
Presentemente, as oligarquias de um país estão prontas para tudo, para gerir tudo, porque eles arranjaram as coisas de maneira que hoje tudo fosse parecido com tudo e todas as lógicas de funcionamento confluíssem numa só. São eles quem de facto controla tudo sem que nós, grande público, sequer lhes conheçamos os nomes, quanto mais termos votado neles…
Paolo declara a um Fiesco reabilitado que a morte do doge é uma questão de horas. Confessa-lhe o facto de ter posto veneno na água de Boccanegra. Se o doge, cabeça visível do poder, o condenou à morte, já antes disso ele, Paolo, mão invisível do poder, o tinha condenado a ele, face visível desse poder.
As oligarquias do nosso presente histórico, apesar dos seus ordenados milionários todos os anos aumentados e onde não há crise orçamental que chegue, não são, na sua maior parte, capitalistas. Nem proprietários. Nem muitas das vezes accionistas daquilo que dirigem. Em muitos casos, quase todos, nem têm fortunas pessoais que lhes permitam injectar capital no negócio que dirigem. 


Marx parece que não previu isto – também não se pode pensar em tudo. Isto, quer dizer, o poder das oligarquias tecnocráticas, desde o momento em que não são eles os proprietários dos meios de produção. Mas são eles o poder efectivo. E esse poder, teoricamente, advém-lhes da competência técnica. Não têm interesses económicos pessoais a defender, só têm interesses políticos: a conservação do seu próprio poder, pequeno ou nenhum na aparência, mas muitíssi
mo efectivo na realidade. Não procuram o lucro máximo, contentam-se com o poder. O poder real, porque mais real do que o deles não há. E nem foi preciso maçarem-se e gastar dinheiro em campanhas eleitorais. Dispensam muito bem os nossos votos. Até é melhor assim, porque assim se dissolve toda a responsabilidade do que fazem ou não fazem e deviam fazer.

Esta situação oligárquica é comum, foi comum, a regimes de toda a cor e tanto ao sistema capitalista como ao socialista. O poder passou a estar de facto na mão das camadas mais intermédias do mando, aí está, nos directores, nos administradores (até nos chefes de gabinete), quer dizer, na mais ou menos oculta casta dirigente que suporta e apoia aquele que só muito teoricamente tem a prerrogativa da decisão política.
Eu posso, nas próximas eleições, votar no partido que me der na veneta, posso votar por isto ou por aquilo, em A ou em B, na certeza porém de que nunca na pura realidade das coisas chegarei a votar naqueles que, na outra e crua realidade das mesmas coisas, decidem sobre a minha cidadania e verdadeiramente me comandam a vidinha.
O velho Fiesco acha chegada a hora de ajustar contas com o passado e com o seu inimigo pessoal, Boccanegra, o que lhe desonrara a filha, o que lhe tinha dado descaminho à neta.


De facto, na realidade histórica, Simão Boccanegra governou Génova por duas vezes, apesar de ter sido eleito numa primeira vez com carácter vitalício. A primeira das vezes que governou foi entre 23 de Setembro de 1339 e 23 de Dezembro de 1344. Mas o certo é que outros doges lhe sucederam. E se lhe sucederam foi porque Boccanegra resignou.
 

E Boccanegra retirou-se quando reconheceu uma forte oposição à sua pessoa e uma hostilidade militante das classes nobres perante um governante saído do povo.
Após a primeira renúncia de Boccanegra ao poder de Génova, ocuparam o trono dogal uns tais Giovanni di Murta e Giovanni Valente. Isto até 1353. Mas os Visconti, ávidos senhores de Milão, sempre acabaram por conseguir o poderio ambicionado sobre Génova. Até 1356.
Para acabar a minha história, Boccanegra, neste momento já muito afectado pela acção do veneno, ainda tem tempo e forças para se aproximar de um amplo varandim e contemplar o mar, o seu elemento – um ex-corsário, segundo a ópera de Verdi. Era no mar que devia ter morrido. O mar deveria ter sido a sua sepultura.
O verdadeiro Simão Boccanegra, retirado em Pisa, foi de novo chamado à responsabilidade do governo de Génova em 1356. Mas a situação não mudara muito desde a primeira vez que lá estivera. As clientelas políticas, as classes dominantes continuavam a conspirar para o derrubar e para pôr no poder quem lhes satisfizesse os interesses.

Boccanegra, o verdadeiro, vem a morrer no trono a 3 de Março de 1363. E da mesma morte que o Boccanegra verdiano. Sim. Envenenado. Envenenado pela classe política, pelos seus cortesãos, obviamente.
Dá-se o confronto final entre os velhos inimigos, Fiesco e Boccanegra.
A princípio, o doge, já mais para lá do que para cá, não reconhece aquele velho que lhe fala em frases afiadas, que lhe profetiza o ocaso, que se apresenta como o fantasma perseguidor de toda a sua vida, que lhe deseja as mais funestas visões e os mais aterradores pesadelos, que lhe recorda os pecados mais antigos e lhe deseja que exale o último suspiro entre sombras e máscaras horrendas.
Boccanegra reconhece por fim Fiesco e dá graças aos céus por isso. Conta-lhe os casos.
Aquela dita Amélia Grimaldi não é outra senão sua neta, Maria, que o destino houve por bem devolver-lhe depois de perdida para sempre.
Fiesco comove-se. Dá-se a reconciliação. Tarde demais. O doge está a morrer. E Boccanegra nomeia Gabrielle Adorno como seu sucessor.
Diz a História que Simão Boccanegra foi um sábio governante num meio que por razões de orígem social e interesses instalados sempre lhe foi hostil. E foi de facto um tal Gabrielle Adorno que lhe sucedeu no trono e se mostrou um chefe fraco e irresoluto, um joguete nas mãos da tal classe política e dos interesses de quem de facto mexe os mecanismos das instituições e das comunidades, os cortesãos, os pequenos caciques e caudilhos, as clientelas, os interesses instalados, as vicissitudes  da real politikNo Renascimento como hoje, embora com menos punhaladas concretas, sem dúvida, mas com venenos não menos eficazes.
E Adorno resigna do poder em 1370.







    ESPERO NUNCA VIR A TER NADA QUE FAZER EM SYDNEY
               

            Uma das tais viagens que não me apetece  fazer…
Por vezes podemos ser acometidos por uma viagem, podemos fazê-la até, ou podemos evitar fazê-la por indisponibilidade de tempo, por um acesso de preguiça, por falta de dinheiro.



            Acometidos por uma viagem, dir-se-ia sugestionados por uma terra distante, seja uma cidade, seja uma montanha, um vale ou uma praia. Acometidos por uma viagem, sugestionados, e não por um anseio muito nosso, muito intenso e íntimo, sugestionados porque o progresso da máquina, o atrevimento da publicidade e os avanços da tecnologia nos induzem outras realidades, outras paisagens.
            Por esse avanço tecnológico poderíamos sem grande esforço concluir que, nos nossos tempos, a viagem, por trabalhosa que seja, e fatigante, pode mais dia menos dia tornar-se inútil.  Basta irmos ao cinema, provermo-nos de catálogos, albuns de fotografias de amigos, bilhetes postais, televisão por cabo, gravadores de vídeo e DVD (ou vídeos e DVD’s já prontos), registos de som, livros (sejam deles de viagens propriamente ditas sejam mesmo certos romances), reportagens de jornal ou revista, um hamburger comprado no Mac Donalds, e por aí fora, até chegarmos ao instrumento máximo da viagem física ou espiritual (hélas!) que é a Internet. Se a montanha  não vai a Mahomet, que seja Mahomet a ir à montanha – hoje em dia é perigoso usar certas palavras e mencionar certos nomes, mas julgo que não há nada de religiosamente incorrecto ou ofensivo no que eu disse…. ou terá passado a haver? Bom… esperemos que não.


            Como estava a dizer… se a montanha não vem a… que seja… tal tal… a ir à montanha. O mesmo, ou parecido, diríamos da mística da viagem nos nossos tempos tecnológicos. Através da nossa tecnologia caseira cada vez mais é a viagem que vem até nós. Não só pela inspiração. Não só como indução da vontade. Num ecran de plasma de grandes dimensões montado na nossa saleta de estar podemos viver a experiência visível da viagem e irmos acumulando informação sobre os lugares e as gentes. Com a vantagem adicional de nos sair mais barato. Um manual turístico, um guia Michelin, dois ou três testemunhos de amigos, uma descrição de romancista e aí está. Viajámos. E mais e melhor viajaremos se formos pessoas atentas, razoavelmente informadas e de boa qualidade interior. Podemos munir-nos inclusivamente de horários de comboios e aviões, de informes sobre a localização e preços de hotéis. Na Internet fornecem-nos fotografias magnificas dos quartos e das suites dos melhores e dos piores hotéis do mundo, podemos apoderar-nos dessas imagens, imprimi-las, ampliá-las, gozá-las como se fossem experiência nossa. Está feita a viagem. A Paris como ao Sri Lanka. A Reiquiavik ou a Badajoz como a Sydney.


            Esta viagem de que falo, para a pessoa de vagares, de paciência e de bons equilíbrios emocionais, pode ser todo um projecto de vida. Viajar sem sair de casa. Assombrar os conhecidos com contos de encantar sobre uma noite de salsa em Cartagena de Indias ou sobre um demorado percurso pelo Museu D’Orsay. A modernidade pode trazer-nos a viagem a casa. E com a vantagem da imaginação. Sim, a vantagem da imaginação, digo, para responder a quem estará a argumentar mentalmente comigo, a querer dizer-me que não, que não é a mesma coisa. Pois não, não é. Eu sei. Mas até pode ser uma coisa melhor do que a coisa mesma. Porque assim poderemos evitar o que acontece muito em viagens, a desilusão.
            Ser acometido por uma viagem é realizar mentalmente um lugar, um som ambiente. Um ideal. Foi a viagem, isto é, foi o lugar que veio até nós e nós não descansámos enquanto não fizermos essa viagem, enquanto não fomos ao lugar real. Mas se não formos, se viajarmos por indução imagética, inventiva, coadjuvada pela tecnologia, escusaremos para sempre de saber que a maravilhosa escadaria romana da Trinitá dei Monti não é muito mais do que umas Escadinhas do Duque mundialmente publicitadas por passagens de modelos; escusaremos de saber que a Fonte de Trevi é um Chafariz de Dentro maiorzinho; escusaremos de encarar com a enormidade do Arco do Triunfo, o qual, por grande e imponente que seja na realidade, será sempre mais maneirinho do que nós o imaginámos a partir da invenção e das fotografias; escusaremos de saber que os templos de Angkor são montes de pedras periclitantes e silenciosas, várias vezes saqueadas e cobertas de negro musgo. 
            Viagens aos antípodas australianos? Nunca fui acometido por elas.

                                  
           
            Sydney.  O que é? Fotografias de arranha-céus aos molhos. O edifício da Ópera – cuja programação, aliás, disponível pela Internet, não convida grande coisa. Brancas praias e muitas. Enseadas azuis. Canoagem. Parques nacionais. Corridas de cavalos. À noite no Taxi Club ou no Cricketers Arms… as coisas que eu sei… pela Internet.


            Sydney. Austrália. O desenvolvimento económico. Tecnologia e inovação como evangelhos. Chega a enjoar. A forte influência na política regional. Estatísticas. Incêndios dantescos – vamos sabendo alguma coisa acerca disso também por cá. As praias: gosto. Os tubarões que se pelam pelo seu petisco de naco de perna humana: já não gosto tanto. Ondas monumentais: gosto. Surf: obviamente não pratico… mas gosto de ver…


            Tudo isto para dizer que a viagem das viagens é aquela que se faz à volta do nosso quarto. Foi um escritor qualquer que o disse, já não me lembro quem. A viagem à volta de um quarto de que o tal escritor falava nem tinha nesse tempo tanta tecnologia a induzi-la, a apoiá-la. Ou seja, a tecnologia comunicacional veio melhorar tanto a vida humana que quase tornou, senão reais pelo menos realistas, as viagens à volta de um quarto. Só tem um inconveniente, ou uma deficiência.  Qual? O cheiro. Não o acre cheio de um quarto de dormir menos asseado, claro, digo o cheiro das montanhas, das praias, das selvas, dos vales e dos bairros típicos das cidades. Porque na viagem, e isto está muito longe de ser de somenos, há os comeres e há os beberes. Quer dizer, os sabores, os cheiros. Os cheiros e os sabores que por mais perfeita que seja a tecnologia nunca atingirão os nossos paladares e narizes se lá não formos. Claro que sim, o segredo de um lugar está no cheiro – a maior parte das vezes na falta dele. E o motivo mais forte que nos possa levar a empreender uma viagem pode ser esse: o cheiro – quanto mais não seja o cheiro da universal e global gordura dos Mac Donalds.


Não faço a mais pequena ideia do cheiro de Sydney, e o que sei de Sydney não me cheira a nada.
Os australianos nunca me fizeram mal nenhum, mas que hei-de fazer? Fazer? Só espero nunca vir a ter nada que fazer em Sydney.

quinta-feira, 9 de maio de 2013


           UMA DEMOCRACIA DA INDIFERENÇA


       
  


A democracia dá para tudo. Até para mascarar uma ditadura.

Os velhotes reformados a cantarem a Grândola Vila Morena nas galerias de S. Bento não ajudavam nada a democracia – disse a senhora presidente da Assembleia da República. Que, repito o que já disse noutra ocasião, foi reformada aos 42 anos e optou, no cargo, pelo valor da reforma, para cima de 7.000€.

A democracia (pelo menos a palavra, o som) dá para tudo, justifica tudo, inviabiliza tudo, premeia tudo, castiga tudo....
Acho graça – não acho graça nenhuma – à desfaçatez dos nossos maiores, dos nossos senhores, quando a propósito e a despropósito, enchem a boca com a democracia. Como se realmente estivessemos a viver  uma democracia e com tudo o que implica viver em democracia.


Elegemo-los. Para eles fazerem de nós uns patetas alegres que nada percebem destas coisas e acreditam, coitados, que vivem mesmo em democracia só porque os elegemos de quatro em quatro anos.


Pois, não me canso de bater na mesma tecla. Porque a insistência dos nossos senhores em encher a boca com o mito da democracia é um estratagema propagandístico e não passa disso. O que eles fazem é instaurar uma democracia da indiferença. Quer dizer, tanto faz que seja ou não democracia, democracia boa ou má, a verdade é que estamos cá para os elegermos e para pagar as actividades deles, e os erros, e os truques, e as sacanices.
Lá dizia o Dr. Goebbels que uma mentira cinquenta vezes repetida passa a ser uma verdade evangélica.
E já que falei no Goebbels, deixem-me vagabundear pela Alemanha do imediato pós-guerra…


Sim, sim. Logo a seguir à guerra, na Alemanha destroçada e ocupada, o primeiríssimo cuidado dos ocupantes Aliados foi fazer funcionar a democracia, quanto mais não fosse uma democracia de fome, obrigada a cumprir os preceitos e os conceitos da democracia ocidental, ou mais propriamente anglo-americana.

                                                                  
                                                                     
A actividade política entre os escombros da Alemanha derrotada era zero. Limitava-se às operações eleitorais. Mas nessa altura a participação eleitoral excedeu as expectativas. Vitória social-democrata. Derrota comunista. Tal como esperavam ¾ das potências ocupantes.

O problema é que estes resultados pouco significavam, dado que nada ali era normal, tudo era excepcional e nunca visto, a sociedade alemã não funcionava normalmente.
E se a propaganda social-democrata se centrou em temas de política externa, já se vê que a incidir na perigosa potência vencedora que era a União Soviética, a propaganda eleitoral comunista – curiosamente muito virada para as bases do extinto partido nazi - dedicou-se aos problemas mais ingentes da vida interna do país, designadamente o problema do pão.                                                
                                                             

(Será que este arrazoado tem mesmo alguma coisa que ver com a situação que vivemos hoje em Portugal?)


Dizem alguns críticos que no espírito dos alemães derrotados o medo foi mais forte do que a fome, e. enfim,  totalitarismo por totalitarismo, o melhor era jogar para o empate, ou seja, para uma coisa (partido) mais neutra nas circunstâncias dadas.

Que significaria a luta pela democracia política e a preferência por uma social-democracia para um eleitorado que não tinha casa para viver nem pão para comer?
Houve quem falasse de manobra táctica por parte dos Aliados, de modo a transferir poderes, quanto mais não fosse apenas nominais, para as autoridades alemãs. E quem diz poderes diz descontentamentos e críticas pelas deficiências do abastecimento.
Claro que qualquer espírito lúcido e desapaixonado, e com uma noção do que se poderia passar na Alemanha nos primeiros anos do pós-guerra, compreenderá que não havia condições mínimas nem para eleições livres nem para o funcionamento de uma democracia, a não ser como mero formalismo. Os alemães queriam comer alguma coisa e dormir debaixo de telha e em seco. E puseram-se na rua e a dormir às chuvas do outono, famílias alemãs inteiras, e só  para poderem alojar as famílias dos militares aliados. Um pormenor.


Perguntaram a alguns eleitores:
- Você foi nazi?
Resposta:
- Andei sete anos na guerra… chega como resposta?
- Você votou?
- Sim, mas sei que não serve para nada.
- Votou em que partido, na CDU?
- Não, não sou religioso.
- Então votou comunista?
- Não, tenho amigos que foram prisioneiros de guerra na Rússia.
- Então votou nos social-democratas… sim? Porquê?
- Por ser o partido que me era mais indiferente.

E este eleitor usufruía de um abono de 45 marcos por mês. Dava para comprar sete cigarros.
Mas também democracia é palavra que, como digo, pode soar em certas circunstâncias, e para certos povos, como o equivalente de um messianismo. Entre as circunstâncias e os povos, poderemos mesmo falar de nós, portugueses, e das múltiplas e sempre pequenas e trágicas circunstâncias do nosso viver político.
Peço licença ao Prof. João Medina para respigar agora certa passagem de um livro seu, o Zé Povinho sem Utopia, e quanto à (cito) real e comprovada incapacidade de governo em praticar um pensamento político e social efectivo, metódico e sério para uma cidade mais livre, justa, próspera, em suma, mais humana.

                                                                                       


Segundo o Prof.João Medina, com quem estou de pleno acordo neste ponto, a tendência nacional é para (cito) substituir a solução efectiva dos nossos problemas reais pelas fórmulas miraculosas e messiânicas, ou seja: pseudo-democráticas.
O 25 de Abril, deixemo-nos de fitas, foi muito isso, entre outras coisas, o agitar do sistema democrático-representativo como mais um messianismo que só por si viria para nos resolver a imensa quantidade de embrechados com que a nacionalidade nunca se conseguiu entender.


Quando uma pessoa é posta perante os resultados finais de uma eleição legislativa ou autárquica parece-lhe sempre – e mais nos últimos tempos – que, senão a maioria do país, pelo menos uma parte substancial dele, 30 ou 40% dos eleitores, se esteve nas tintas, não quis nada com eleições, divorciou-se da própria democracia - o que, vamos lá a ver, diz alguma coisa da qualidade dessa democracia.


A classe mais média da classe média – há tanta gente e tanta clientela que é preciso subdividir – como que se apoderou dos meios de expressão política. Todo aquele que tenha 50,1% pode falar e agir em nome de 100%. E acabou-se, não há mais conversa. A diferença não está politicamente representada. Não se exprime. A Europa aproxima-se assim, neste ponto, dos EUA.


Os mais chatos e formalistas e bem servidos pelo sistema, afiançam na televisão que um autarca, por exemplo, eleito num escrutínio em que não participaram nem 50% dos eleitores, tem toda a legitimidade democrática para ocupar o cargo. Não sei se sou da mesma opinião, mas formalmente terei de admitir que assim é. Moralmente é que não sei.
Uma das realidades, ou verdades, que o sistema democrático nos ensina é que é legítimo um homem governar mesmo que mais de metade dos seus governados não o queira. E se contestamos isto estamos a ser incorrectos e pomo-nos imediatamente à margem do sistema, somos os drogados, os obesos e os fumadores do sistema democrático.


E se há assunto de que os jornalistas e os políticos fogem a sete pés é deste. Quem tem coragem de, a sério, e em profundidade, trazer ao debate televisivo a questão da abstenção eleitoral?
Quer dizer, abstendo-se de falar publicamente no fenómeno é como se ele não existisse, porque só existe, claro, o que aparece na televisão. E no entanto, a abstenção eleitoral, acho eu, é um mais graves problemas da democracia, por ser justamente aquele que pode roubar todo o sentido ao sistema democrático.


Porque é que jornalistas e políticos não falam do fenómeno da abstenção? É óbvio. Porque falar disso os põe pessoalmente em causa e lhes destrói aquele tão quente contentamento de ser. Ou, mais óbvio ainda, porque isso desvaloriza o sistema que os faz ser.
Se o acto de votar é um acto de rotina e de inércia, está destinado a apadrinhar uma alternância limitada.
Mas o acto de não pôr os sequer pés numa assembleia de voto é uma agressão deliberada de cidadania ao sistema que a rege e que cria os círculos fechados da governação. Se se pode votar por uma questão de moral, também pode não se votar por uma questão de moral. E de higiene cívica…
Democracias há que são democracias de coacção, porque obrigam o cidadão a ir votar, impedindo a existência de uma obscenidade democrática livremente inexpressa, ou gritantemente expressa: metade dos cidadãos está-se nas tintas porque sabe de antemão quem a vai governar, quer seja na hipótese A, quer seja na hipótese B (não há outras). E sabe que tanto por A como por B será, conforme a sua classe social, mal ou bem governada, e que os actos do governo se voltarão contra si e contra os seus interesses, se se der o caso de esses interesses serem modestos…
Será que em democracia o voto pode ser um dever?
Será que em democracia o voto não é um direito?
Se em democracia o voto é um dever, que seja tempestiva e expressamente declarada a sua obrigatoriedade. Se, pelo contrário, e como eu penso, o voto é um direito, então, como direito, tem a qualidade de ser renunciável e eu poderei decidir dentro de toda a legalidade, e obedecendo até à lei moral, renunciar a ele.


Uma abstenção pode não ser um desinteresse. Uma abstenção deliberada também é uma opinião.
A obrigatoriedade do voto só formalmente altera o estado das coisas e das consciências numa democracia. A coacção eleitoral evidentemente que deforma os mais saudáveis resultados de uma eleição. Acho que como cidadão também tenho todo o direito ao desinteresse. Era o que faltava…
Algumas correntes defendem que uma apatia política traduzida em altos índices de abstenção eleitoral, em vez de representar um alerta para as mazelas do sistema, é um sinal da saúde de ferro desse sistema.
Se 50% não vão às urnas e se desinteressam é porque não acontece nada de grave e eles se conformam com o que está… e então é porque o que está, está bem muito obrigado.
Visto de outra maneira, também me posso desinteressar de um assunto ou de uma acção ou de uma intervenção por considerá-la inútil.


A alta abstenção pode ser o sinal da descrença democrática de muitos e 40% dela poria o regime em crise se os políticos tivessem a frontalidade de encarar as coisas. Abster-se, nas mais das vezes, é não passar cartão àqueles gajos. E no entanto serão esses gajos que me irão sobrecarregar de impostos e que podem arranjar de maneira a que eu passe a velhice na miséria envergonhada, que eu seja despedido do emprego e deixe de ter dinheiro para amortecer o empréstimo do banco, para a renda da casa e para a mercearia.
Mas o diacho é que se eu for votar e escolher votar em A, tudo isso me pode acontecer na mesma.
E então resolvo votar em B. 
E passados dois anos de governação de B, reparo que tudo isso me acontece na mesma, ou pior, e que portanto não vale a pena votar nem em A nem em B.
Posso votar em C. Mas da maneira como os regimes democráticos estão bipolarizados, o votar em C, ou não serve para nada, ou serve para que C, jogando como meu voto, entre em acordos de governo com A ou com B, lhes dê cobertura às políticas,  e que no fim das contas me aconteça na mesma aquilo que temia e me levara a não votar nem em A nem em B, impostos, desemprego, velhice miserável, etc., etc.. 
É esta a realidade prática da democracia.
Deixemo-nos de ilusões…
Será que reside nos altos e baixos e conjunturas da luta política, pessoal ou inter-partidária, o verdadeiro problema moral de um país ou de uma democracia?
Sabem qual foi o tempo em que na Alemanha se registaram as máximas participações eleitorais? Foi nas vésperas do triunfo eleitoral dos nazis. Isso mesmo: 1932/33.


E a maior participação eleitoral da democracia americana acontece com o rebentar da II Guerra Mundial.
E se no país está tudo bem e os desacatos políticos são menores, o cidadão está calmo e pode nem votar. Porém, se as ameaças à tranquilidade se avolumarem, o cidadão agita-se, e das duas, três: ou mete-se em manifestações e comícios, ou faz greve, ou vai votar. Em qualquer dos casos, acho, e segundo a experiência de trinta e muitos anos de democracia portuguesa, não melhorará grande coisa a sua condição pessoal se ela, essa condição, já de si não for razoável.
E enfim, em democracia, a cada passo tal fica demonstrado: o cidadão continua a ser um boneco mecânico inserido numa engrenagem e as suas margens de escolha diminuem e quanto mais se insere e se articula com o mecanismo mais encolhe o seu âmbito de prerrogativas individuais. O cidadão,em Portugal repreendido por cantar uma canção de liberdade na casa da democracia, ou arrisca-se a uma ditadura, ou prescinde democraticamente das suas opções.
As ditaduras, os totalitarismos, os populismos pretendem entusiasmar o cidadão. Integram-no e euforizam-no, se se pode dizer assim. E carregam-no de absolutos. E iludem-lhe todas as dúvidas. Tornam-no por conseguinte mais governável, mais dócil, capaz até de se deixar conduzir cegamente a uma guerra sangrenta sem querer saber de objecções ou de alternativas. Os cidadãos preferem os estímulos. Desconfiam das notícias, ou repelem-nas. Preferem-lhes os supostos factos. Deixam-se governar por palavras incendiadas.
Em democracia também uma minoria muito militante pode calar facilmente uma maioria descrente, alheada e silenciosa.


Em democracia, como em ditadura, a primeira obrigação de um governante não é ser sério e verdadeiro, mas sim ser hábil a canalizar a opinião e o entusiasmo. Sartre, na sua Crítica da Razão Dialéctica, entendia o grupo como paixão. Inspirava-se na Revolução Francesa, quando muitos dos cidadãos exigiam que se tomasse a Bastilha todas as tardes.
Mas na medida em que se desenvolvem social e politicamente, está visto que os povos perdem capacidades para o entusiasmo colectivo.


Denis de Rougemont, no seu célebre ensaio O Amor e o Ocidente, relaciona democracia com paixão, sim, paixão mesmo física, ou sentimental, e diz que nos países democráticos as paixões há muito que abrandaram, e porque os costumes abrandaram primeiro do que elas, e abrandaram tanto que deixaram de oferecer obstáculos absolutos, que é do mais exaltante que se pode arranjar como alimento de uma paixão…
Também nos países totalitários a paixão se totalitarizou - ou totalitarizava, uma vez que já não devem existir, civilizados, países totalitários,,,
E a grande paixão que a sociedade totalitária tinha para oferecer aos jovens era… o Estado. O Estado que, segundo Rougemont, tendia a eliminar da vida privada toda a espécie de trágico íntimo e sentimental.



O advento de uma suposta democracia amaciou arestas, abateu barreiras, banalizou e tornou apetecíveis certos bens e hábitos a que inicialmente só as elites do dinheiro podiam chegar. Ir almoçar fora, ir jantar fora é hoje uma banalidade apenas hierarquizada pela categoria e preço do restaurante. Mas o nivelamento tende a subir de exigência.


Se se tem um único carro, é-se desconsiderado pelo vizinho do 3º andar, que tem dois, um para ele e outro para a mulher. Mas o do 3º andar é olhado com condescendência pelo do 5ºandar, que tem três, um para ele, outro para a mulher e outro para a filha que já anda na Faculdade. A seguir a este patamar de vários andares, tudo é hierarquizado e elitizado pelas respectivas marcas dos respectivos carros.
Aquilo que era excepcional vulgarizou-o a democracia do crédito, o igualitarismo do empréstimo. Os bancos, que aqui há não muitas décadas só emprestavam dinheiro a quem tinha bastante de seu, passaram, como muito bem sabemos, a emprestar a (quase) toda a gente, porque também quiseram, já se vê, aumentar os lucros à custa dos juros que cobram.

Mas tinha que ser assim. Só assim um esquema muito centrista de democracia se pode impor às almas antes atraídas para um socialismo no qual a qualidadede vida se nivelava necessária e realisticamente por baixo. E então baralharam-se as classes.
O meu vizinho do 6º andar ganha menos do que eu, ainda tem menos espaço onde caír morto do que eu… mas tem um BMW. Logo, sente-se  membro das classes superiores. O meu vizinho do 7º andar, ganha bastante mais do que eu, mas tem mulher (que não trabalha) e três filhos a cargo (e postos a estudar em colégios caros), tem a prestação do empréstimo que contraíu para a casa de praia, tem a prestação do empréstimo a que recorreu para aquele mesmo 7ºandar, ainda não pagou o Volvo do último modelo que tem para ele e ainda está a pagar as prestações do Honda para a mulher ir à Baixa, além de outras dívidas. Pois sim, eu ganho menos do que ele, mas não tenho essas despesas e acabo por poder viver teoricamente melhor. Contudo, quem pertence à classe alta é ele (que mal me dá os bons dias) e não eu. Porque no baralhar e tornar a dar das classes baralharam-se os rituais…

E é como eu reaccionariamente costumo dizer: o funcionário menos categorizado de um banco já não se distingue na rua, no vestir, e à vista desarmada, do seu presidente do conselho de administração.
A democratização da cultura, por exemplo, é realizada um pouco (eu acho que é um muito) sobre o analfabetismo. O analfabetismo televisivo da “dieta mediterrânia”, das “minas anti-pessoais”, do palácio dos dogues em Veneza…
Com o apelo da televisão e do computador e da Net, e consequente declínio (tristemente irreversível, na minha opinião) dos hábitos de leitura (que afectam mesmo os outrora furiosos leitores), é impossível  falar em cultura, quanto mais na democratização dela…
Os cinemas perderam público, os teatros perderam público, o livro perdeu público e, mais flagrante ainda do que tudo, do ponto de vista cultural, o futebol perdeu público – perdeu público real, o das bancadas, quero eu dizer, ficou com um público virtual, televisivo – tal, talvez, como o teatro ou o cinema.
Cinema, teatro, eventualmente livro, e futebol. A televisão, incorporando-os no seu espectáculo próprio e no seu vício confortável e familiar, matou-os. Matou-os porque os democratizou. A seu modo,  está bem de ver… tornando-os indiferentes…

Matou-os. Democratizou-os. Acessibilizou-os  – e, no geral, o pior que deles havia. Nivelou por baixo. É o que a democrática televisão sabe fazer de melhor. De modo comercial. De modo imediato. De modo lucrativo. De modo analfabeto. Ao modo da moderna democracia – televisiva. Embrutecedora. Repetitiva. Indiferente, no melhor dos casos.
E retomo as palavras daquele alemão que tinha combatido em sete anos de guerra, que não era religioso, que tivera amigos prisioneiros na União Soviética e que em 46 votara social-democrata… por ser o partido que lhe era mais indiferente.

E o meu problema político pessoal é esse: sentir-me cidadão de uma democracia da indiferença, do luxo, da cultura analfabeta, e, pois claro, do messianismo secreto que fica subjacente a tudo isso…
E da miséria cada vez menos escondida…