quinta-feira, 16 de maio de 2013


                 AS DUAS MÃES DE LEONARDO


             Faço fé no que li de Siegmund Freud. Um estudo sobre o divino renascentista incluído numa obra chamada Textos Essenciais Sobre Literatura, Arte e Psicanálise.
         Leonardo nasceu em Abril de 1462, exactamente em Vinci, perto de Florença, como filho ilegítimo de Ser Piero da Vinci, notário, homem de teres e haveres, e de Caterina, presumível rapariga do povo, admissível pobre e indefesa rapariga do campo.
         Deve ter-se dado o caso (relativamente comum) de um homem de meios de fortuna e ares de grande senhor mais ou menos nobre, ter abusado de uma rapariga de mais modesta extracção, exposta ao prestígio social do seu sedutor. Não sabemos. Eu pelo menos não sei…


         
          Ser Piero casar-se-ia mais do que uma vez e estaria ausente da vida do filho nos primeiros anos da vida deste, o que levaria Leonardo a passar sem o apoio do pai aquela complicada fase dos primeiros anos da infância. E se Leonardo não contou, nos primeiros anos de vida, com a presença do pai, também, visto de outra maneira, não se sujeitou à intimidação autoritária que pode representar para a criança essa presença. O que não quer dizer que Leonardo, na juventude, não viesse de algum modo a tomar o pai como paradigma de conduta social, encontrando na protecção mecenática do duque de Milão, Ludovico Sforza, uma espécie de substituto da figura paterna – o que, por sinal, coincidiria com um período criativo bastante fecundo.

         O pai, Ser Piero, viria entretanto a casar com uma dama nobre. Mona Albiera (e ao que parece no próprio ano do nascimento de Leonardo) não resultando filhos desse casamento. E talvez por assim ter acontecido, Leonardo, aos cinco anos de idade, ingressa na casa do pai, ou, mais propriamente, na do avô paterno, permanecendo sob a influência de Mona Albiera, quer vem a ser a sua segunda mãe.
         Leonardo sairá de casa de seu pai com indeterminada idade, quando é a altura de entrar para a oficina de Andrea del Verrochio, com o objectivo de aprender o duro ofício de génio da pintura.
        Da primeira, e real, e legítima mãe, Caterina, opinam alguns investigadores (Freud fala de um russo chamado Mereschkovski), que terá mais tarde casado com outro homem, podendo não ter voltado a aparecer na vida do grande artista seu filho; ou podendo tê-lo feito em 1493, quando de uma visita a Milão, tinha Leonardo passado já dos quarenta de idade. E ainda, e segundo opiniões abalizadas, em Milão pode Caterina ter adoecido, ou pode ter mesmo morrido, levando um funeral de estadão integralmente pago pelo seu legítimo e afamado filho.
        

        Ficou para a posteridade um intrigante apontamento redigido pelo punho do próprio Leonardo, e que reza assim: parece que já há muito esteve determinado que me ocupasse de modo aprofundado dos abutres, pois me vem à recordação algo acontecido muito cedo,  quando ainda era criança de berço: um abutre passou junto de mim, abriu-me a boca com a cauda e roçou-a várias vezes contra os meus lábios.
         E a este apontamento vai Freud prestar grande atenção  no seu estudo.

         Acontece que nos escritos sagrados do velho Egipto cabia ao abutre a representação da figura da mãe – venerava-se uma deusa-mãe de cabeça de abutre, cujo nome seria mut.
         Mas, quase com toda a certeza, Leonardo desconhecia tal simbolismo, quanto mais não fosse porque esse simbolismo só viria a ser estabelecido trezentos anos mais tarde por Champollion, depois de estudada a significação dos hieróglifos, como toda a gente sabe.
         Símbolo da maternidade era então o abutre quando no antigo Egipto se entendia que os abutres só tinham um sexo, o feminino, e não os havia machos. E o que corria nesse Egipto mítico, e se transformaria em lenda, era que os abutres, todos eles fêmeas, se detinham por uns  momentos nas alturas do seu vôo, suspendendo-o e colocando-se em postura propícia ao receber nos órgãos reprodutores a carícia e a força e o espírito do vento que os fecundava.
         O tópico da unissexualidade do abutre seria evidentemente desmitificado, muito embora, e sempre segundo Freud, as instâncias da igreja católica tenham podido apropriar-se do mito como sugestão da probabilidade de uma fecundação natural, uma fecundação pro artes da natureza bravía, conotando-a com o caso da própria Virgem Maria, a mulher que como os abutres da idade provecta da Humanidade poderia ter sido fecundada sem o contacto pecaminoso com o macho-homem, e apenas por meios tão naturais como o vento.
         E fosse por via do convívio com os padres da igreja o caso é que Leonardo se sentiu tocado pela beleza poética do mito do abutre egípcio, fantasiando a partir daí alguma ténue recordação que lhe sobraria da primeiríssima infância.
         A simbologia do abutre, porém, ia mais longe. A deusa-mãe com cabeça de abutre representavam-na os egípcios muitas das vezes como um falo: um corpo feminino, dotado de peitos femininos, mas também dotado de um membro viril. Donde se segue a ambiguidade das pistas maternais e simultaneamente masculinas e viris na fantasia concebida pelo privilegiado espírito de Leonardo.
         Leonardo era alto, bem feito de corpo, com um belíssimo rosto, e fisicamente forte, bem falante, simpático, amante da música e da boa companhia. Na sua maneira de ser, no entanto, tendia à indolência, à indiferença. Não era menino para conflitos. Não queria chatices com ninguém. Ah, e também não comia carne; e comprava pássaros no mercado (pássaros vivos, bem entendido) só para ter o prazer de os devolver ao vôo. à liberdade. Não, não achava bem que se dizimassem animais só para se lhes comer a carne.
     Leonardo costumava acompanhar criminosos ao local da execução, só para lhes registar as expressões do rosto perante a iminência da morte.

         E também abominava a guerra. O que pelo é curioso, uma vez que tal abominação não o impediu de ser engenheiro militar chefe de César Bórgia, para quem inventou algumas bem mortíferas máquinas de combate.
         Diz-se que rejeitava a sexualidade.
     Mas Freud refere expressamente a probabilidade de ter existido uma relação sexual entre Leonardo e os discípulos – os quais, como era normal na época, conviviam estreitamente com o mestre. 

                                                     
        E Freud ainda admite que o facto de da oficina e do magistério de Leonardo não ter saído nenhum pintor de génio poderá ser explicável se se presume que ele privilegiava para a condição de alunos seus rapazes bonitos, de bons dotes físicos, em lugar de alguns outros, porventura feiosos, mas de talento mais prometedor.

                                                          

         Na conformidade de ser provável que Leonardo denotasse tendências pederásticas, e depois da sua descrição do episódio do abutre, levanta-se a questão de saber se essa fantasia do abutre não estabelecerá, de certa forma, uma relação causal entre a vida de Leonardo criança com sua mãe e a homossexualidade posteriormente verificada – mesmo que idealizada, ou sublimada. Com alicerce na sua experiência clínica, Freud assevera-nos que tal relação causal seria possível, e até mesmo necessária.


         Caterina podia compensar o seu menino pela ternura e pelas carícias, em vista da falta do pai, colocando esse menino no próprio lugar do pai e desvirilizando-o pela precocidade da experiência erótica das carícias, dos beijos.
        O amor pela progenitora dificilmente acompanhava a evolução consciente do indivíduo, sendo por isso mesmo objecto de recalcamento. E dar-se-ia igualmente uma regressão para o auto-erotismo: os rapazinhos que Leonardo ia conhecendo seriam a configuração da sua própria pessoa, da sua própria imagem de criança e de adolescente, que ele amava como a própria mãe o amou em pequenino, um narcizinho enamorado da própria imagem…
            Levado do diabo este Freud…
         E outra coisa ainda: quando se apaixona por rapazes, o que faz é fugir de outras mulheres, as mulheres que o fariam infiel à imagem de sua mãe.


         Nos anos tenros da vida faltou a Leonardo o pai. Leonardo sentir-se-ia por isso mesmo como filho do abutre. Leonardo era uma criança ilegítima. Leonardo estava sózinho com sua mãe, como se esta tivesse sido fecundada pelo vento do deserto, pobre e abandonada, prodigalizando mimos à adorável criança que o vento lhe fizera gerar nas entranhas.
         Mas Mona Albiera, a mulher legítima de Ser Piero Vinci, não tinha, não teve, filhos. E, contra o que é habitual, aos cinco anos de idade, Leonardo, o ilegítimo, vai para casa de seu pai e para a companhia de uma madrasta , a mulher que é esposa legítima do pai e que ainda espera ter filhos próprios.

         Mona Albiera foi também de uma ternura muito grande na relação com o pequeno enteado. Um enteado que por causa desses afectos da madrasta também se teria dado a rivalizar com o pai. Escapado à intimidação da figura paterna nos primeiros anos de vida, Leonardo, na análise freudiana da sua evolução pessoal, dá indícios ao longo da vida madura de uma grande independência e de uma audácia acutilante, em particular no que tem a ver com as investigações científicas que empreende. O que significaria a ausência de condicionamentos psíquicos; ou  ausência de necessidade de se apoiar numa autoridade ou numa figura tutelar interiorizada, coisa normal na maior parte das crianças.
         Mas aquele que cria a suas próprias obras artísticas e científicas também é pai. E Leonardo pintava, esculpia, concebia e criava as  suas obras, mas… mas nem sempre as acabava. Quer dizer, com as suas obras, dadas ou não por concluídas, não se preocupava grande coisa após a criação, o ímpeto primeiro da criação, tal como o pai havia feito com ele nos primeiros anos.
         Ser amamentado e ser intensamente beijado pela mãe; ter tido a intima experiência, a experiência perturbante e criativa do abutre que roçou várias vezes a cauda contra os meus lábios, enfim, tudo isto realça a emergência fortíssima de uma relação erótica entre mãe e filho, e retendo-se a simbologia da actividade da mãe (ou seja, do abutre), com o sublinhado posto na zona da boca: o ser amamentado; o ser repetida e longamente beijado.
            (Este Freud…)

         Bem, mas tudo isto, por força, haveria de ter expressão nas obras artísticas maiores de Leonardo.  E dessas, aquela que primeiramente nos ilumina a larga pantalha da memória é o sorriso universal, prenhe de enigmas, irónico, redondo, todo ele sugestões, e longo, e subtil, e sensual: Mona Lisa, claro. Mona Lisa del Giocondo, quer dizer, senhora dona Lisa, mulher de Giocondo, isto é, do florentino Francesco Giocondo, e por isso chamada La Gioconda.


         Mona Lisa del Giocondo, que Leonardo, já cinquentão, leva quatro anos a pintar, e que pode ser o ápice estético de uma encruzilhada psíquica do artista. Um sorriso: Mona Lisa é um sorriso; um sorriso onde os estetas apanham em flagrante a dualidade, a reserva, a sedução, a ternura, a sensualidade. Leonardo declarou sempre esse quadro como inacabado e levou-o consigo quando emigrou para França, a expensas de Francisco I, acabando por ser o mesmo Francisco I a ficar-lhe com a tela e a pô-la no Louvre. Onde ainda hoje está, como se sabe.
                    
         Possivelmente, as belas cabeças leonardinas de criança não reproduziriam mais do que a época ideal da infância do próprio pintor. Mas entretanto, as mulheres que na obra de Leonardo, de quadro para quadro, sorriem esse sorriso repercutido e algo estilhaçado entre diversos sentimentos sobrepostos e passível de infinitas decomposições, remetem admissivelmente para Caterina, a sua primeira e verdadeira mãe. Um sorriso de mãe; um sorriso de mulher de que Leonardo nunca se teria libertado. Uma regressão do artista, que só lhe beneficiou a arte pela activação de um psiquismo, exteriorizável na confecção de sorrisos radiantes e misteriosos de mulher, evocativos de uma calma régia e poética que haveria no íntimo do sorriso da mãe tal como ele o recorda.


         Cronologicamente próxima da criação do retrato de Mona Lisa del Giocondo está a realização do quadro chamado Sant’Ana a Três. Aparecem Santa Ana, a filha e o neto. Melhor explicado: Santa Ana, Maria e o Menino Jesus. E nesse quadro o sorriso leonardino resplandece também no rosto das duas mulheres, menos inquietante embora, mais sereno e beatífico.
         Maria aparece sentada no regaço de sua mãe, inclinada para a frente, estendendo os braços para o Menino, que brinca com um carneirinho – o que dá aliás uma composição de grupo que nos pode parecer pouco natural.
         Na maneira de ver de Freud, o quadro Sant’Ana a Três pode ser uma síntese da infância de Leonardo, e assim pela reavaliação artística das tensões afectivas que lhe preencheram essa parte da vida. Porque, também é preciso dizê-lo, em casa do pai, a partir dos cinco anos, para além da ternurenta madrasta, Albiera, Leonardo foi acolhido pelos carinhos de Mona Lucia, sua avó, mãe de Ser Piero, seu pai – e é pelo menos engraçado verificar a similitude de sonoridade entre o nome da avó, Mona Lucia e o da mulher do florentino Del Giocondo, Mona Lisa – ainda que o “mona” sirva para as duas, porque quer dizer “senhora”.
         Acalentado pelas meiguices da mãe emprestada e da avó verdadeira, Leonardo teria sido objecto de uma super-protecção feminina, coberto de mimos, o menino na mão das bruxas, como se costuma dizer. E o que impressiona mais no quadro Sant’Ana a Três é que as duas mulheres, Santa Ana e Maria, não parecem nada mãe e filha. Santa Ana e Maria são-nos apresentadas como duas mulheres bastante jovens e bastante bonitas, como se Leonardo emprestasse ao Menino Jesus a auto-biográfica circunstância de ter sido educado, mimado, acarinhado e beijado por duas mães em vez de uma só. E dessas duas mães do Menino (ou de Leonardo) uma estende-lhe os braços, enquanto outra se deixa estar, contemplativa, rosto ornado de beato e maternal sorriso, num plano mais afastado do objecto dos seus afectos.
         No palpite de Freud, a figura que representa Santa Ana, e que se coloca no plano mais afastado, corresponderia à figura de Caterina, a primeiríssima mãe, a verdadeira. Caterina que teria recuado para o segundo plano do universo do filho ainda em tenra idade deste, suplantada pela outra, mais rica, nobre,ansiosa por conquistar o afecto  daquele coraçãozinho infantil e apropriar-se dele como o filho que não podia ter.
         E ainda no palpite de Freud, o sorriso que o artista desenha nessa figura atribuível a Caterina teria por finalidade disfarçar os traços amargos da inveja que a pobre camponesa seduzida pelo notário de Vinci sentiria por ter sido obrigada a ceder o filho a uma rival de extracção social superior à sua – obrigada a ceder o próprio filho, depois de lhe ter cedido o homem, note-se.
         E o magistral espantoso do quadro é que as duas figuras de mulher se fundem uma na outra na baralhação das pregas da roupa. Não há limites evidentes para cada uma delas do busto para baixo. É como se, para o artista, tudo fosse o afloramento de um sonho de recortes imprecisos, sem se saber onde começa Ana e onde acaba Caterina, confluindo ambas numa só forma, num só volume figurativo, as duas mães do pintor, dois bustos nascidos do mesmo tronco, duas almas encandeadas pelo pequeno sol que Leonardo era nas suas vidas.
         Mais perturbante, talvez, pode resultar a descoberta  de um crítico chamado Oscar Pfister ao estudar no Louvre o quadro Sant’Ana a Três. De acordo com Pfister – e com o aditamento que em 1919 Freud fez ao estudo original sobre Leonardo, datado do outono de 1909 – as roupas da  figura de Maria, em primeiro plano, estão escandidas de tal forma que configuram o contorno de um abutre, símbolo da maternidade, a cabeça, a curva no torso, na cintura, a linha que se lança na direcção do regaço.
         Claro está que só visto.
         E diz-nos Freud que Leonardo continuou a ser toda a vida, e em múltiplos sentidos, uma criatura infantil; continuou a brincar e a entreter-se com aparentes futilidades, o que fez dele, tantas vezes, um ser incompreensível aos contemporâneos. Freud diz-nos também que esse prolongamento da infância e dos seus jogos e mitologias é apanágio dos grandes espíritos.
       Sim, isso e mais a projecção que  no trabalho criador Leonardo fez da sua vida privada e familiar, da sua infância tremeluzente entre a consciência e a semi-consciência, e que aos cinquenta anos se resolve na feitura de obras de arte.
E pergunta-se se não será esse o núcleo da energia criadora que está na orígem de toda a grande arte e a toda a originalidade de um génio…


A infância. A infância. O homem nunca chega a crescer muito, quer-me parecer. Ou não será o enigma da arte, a originalidade, o génio criador, irrepetíveis e incomparáveis porque irrepetíveis e incomparáveis são as nebulosas experiências íntimas de cada um, e que o maior génio será aquele que melhor e mais frequentemente convoca à consciência esses mistérios passados e esses factos irrepetíveis, e incompreensíveis,  jogando com eles da mesma maneira como no passado jogava os seus jogos infantis – e também misteriosos?
Pergunto eu.
Bom, mas também já houve quem dissesse que a Humanidade não era mais do que uma perversão da natureza.
Não sei.

          
         

terça-feira, 14 de maio de 2013


                                 A PROVIDÊNCIA

  

França. Primavera de 1945. A prioridade nacional, política e financeira é, obviamente, a reconstrução. E não é brincadeira nenhuma. Trata-se de reedificar a quase totalidade do equipamento urbano de um grande país.

               

Havia ainda que reerguer pontes, 10.000 pontes estradais e fluviais; e túneis, e viadutos, e passagens ferroviárias. E por falar nisso, havia 20.000 quilómetros de vias férreas para repôr e um sem número de estações para reparar. Não falando em toda a rede viária. E não esquecer dos 500.000 hectares de solo francês ainda minados.
Aos 5 milhões de sem abrigo de qualidade nenhuma havia que somar o número incalculável dos mal abrigados, problema francês da habitação que já transitava do período de entre-guerras.
Um estado nacional de emergência seria declarado. Requeria-se a organização e o pleno funcionamento tão cedo quanto o pudesse ser de um Estado que coagisse os seus cidadãos não sinistrados, e usufruindo em pleno de habitação, a acolher pelo menos uma família sem abrigo. Uma directiva, que, como seria de esperar, nem sempre foi bem aceite.
Recenseado o parque nacional dos alojamentos disponíveis, o Estado encorajou a ocupação legal das habitações devolutas e regularizou as ocupações ilícitas entretanto feitas. Por lei, autorizou-se a requisição das habitações fechadas para acolher os sem abrigo.
Preparavam-se para nascer as cidades dormitório nos arredores das grandes metrópoles.
Em Março de 45 um primeiro orçamento cativa 7 milhares de milhões de francos para a reconstrução do país. Uma fatia dos 217 milhares de milhões orçamentados para a despesa pública.
Em Junho de 45 procede-se à troca de notas de banco. Pretende-se uma avaliação das fortunas de cada um. Define-se o castigo dos açambarcadores e estabelecem-se as taxas a cobrar sobre os capitais.
Outro ponto nevrálgico das mudanças morais, ou, por assim dizer, políticas, acontecidas, ou mais intensamente desenvolvidas em 1945, tem directamente a ver com este tema. É a concepção – e activação - do chamado Estado providência.



Os economistas, e outros analistas, deitavam as culpas da crise dos anos 30 e do subsequente estado de guerra para cima do liberalismo económico. O falhanço do sistema liberal teria arranjado aquele bonito serviço do qual se acabava de sair e pelos tempos mais próximos ninguém quereria ouvir falar de soluções liberais para a economia nacional. Antes da  II Guerra, pelo que disse H.G. Wells, só alguns espíritos de excepção admitiam a possibilidade de uma ordem generalizada e feliz. Depois de II Guerra essa possibilidade viria a tornar-se uma grande esperança.
A II Guerra teve a virtude de demonstrar ao mundo a necessidade de um novo reordenamento na vida. Nunca antes tal havia sido concebido. Nem pelos defensores de Estado mundial.
O Estado. O período do imediato pós-guerra é caracterizado por profundas reformas sociais. Tinha que ser. O welfare state britânico traduzido para o francês como l’État providence. E pode dizer-se que a criação - ou o desenvolvimento maximalizado - da segurança social é a primeira grande conquista da libertação.


O Estado passava a intervir directa e fortemente na política económica, e por extensão nas políticas sociais. Desde 44 que na Inglaterra, na França, na Bélgica, vêm a ser organizados os sistemas de segurança social, tão malsinados nas circunstâncias sócio-económicas de hoje – em que, no caso português, estamos e estaremos por muito tempo ainda a viver uma situação social como que decorrente de uma verdadeira guerra, em que só faltaram os bombardeamentos, mas que, invisíveis se vistas do ar mas bastante reais se vistas de terra, deixará as suas ruínas.


E em França e na Bélgica, de par com uma série de outras reformas, incluindo as da segurança social, vêm as nacionalizações. A concentração dos investimentos nos sectores mais rentáveis que marcara economicamente os anos 30 teria levado a uma sobreprodução geradora de desemprego, subalternizando as necessidades mais elementares. Da América viria a tentativa de antídoto para esse mal generalizado. O New Deal , de Roosevelt, a favor de uma maior intervenção governamental na economia. O mundo esperava os resultados concretos desse dirigismo económico. Esperava da intervenção estatal aquilo que a economia liberalmente orientada não teria conseguido dar-lhe.
Para aquele desiderato, como seria de esperar, concorreu a crescente influência da esquerda nas políticas nacionais. A planificação económica tivera os seus sucessos pouco antes da guerra tanto na França como na Bélgica como na Inglaterra. E de tal forma que os próprios sectores conservadores basicamente concordavam na necessidade de agir economicamente segundo novos parâmetros, segundo nova moral. E se isso acontecia já pouco antes da guerra, reforçaram-se as convicções no imediato pós-guerra, e em todos os domínios.
Aprovisionamento de matérias primas importadas, distribuições de mão-de-obra e de produtos de primeira necessidade, e assistência geral, eram algumas das áreas onde a participação pública, mais do que esperada, seria decisiva.

                 
                                                  



Em França, acabada a guerra, sai o Estado à liça a fixar preços e salários e a gerir os racionamentos. Tudo isso com vista a evitar os mortos pela fome em significativos sectores da população. Além de outras eventuais virtudes e tarefas, cabia ao Estado velar pelas igualdades no sacrifício nacional.


No verão de 45 o sentimento dominante para muitos milhares de cidadãos europeus era o da esperança na possibilidade de um mundo melhor e mais justo – e quando é isto que se espera, inevitável se torna pensar na entidade Estado; e quando noutras situações e contextos se pensa que o mundo é assim porque é, e os homens são assim porque sim, porque são, e nem vale a pena torná-los melhores e mais justos, e não se pensa no Estado, e só se têm olhos para a iniciativa privada. Em 45, o homem comum sentia muito dolorosamente a necessidade de protecção contra as previsíveis incógnitas de uma vida que por demasiados anos fora vivida precisamente na incógnita e ao sabor dos acasos bélicos do dia seguinte.
Esperança num mundo que reconhecesse e preservasse a dignidade de produtor para o cidadão normal e se traduzisse em renovadas práticas sociais protectoras. Esse estado de espírito esperançoso vinha dos anos de guerra, evidentemente. E fora esse estado de esperança (num mundo mais justo e num homem melhor e mais solidário) a incentivar as capacidades de sacrifício e de intenso trabalho, e ao mesmo tempo a dar coragem para suportar toda a sorte de restrições, e de reveses. 


A ocupação levara a efeito a desindustrialização da França, segundo as concepções e os planos hitlerianos para a Europa. Ao passo que na Grã Bretanha,directamente empenhada nas operações militares, se assistira a uma poderosa mobilização industrial, sempre fomentada pela máquina de propaganda, que punha, por exemplo, a BBC a transmitir nas horas e nos locais de trabalho, e experimentando novos métodos de gestão laboral em que se associavam estreita e directamente à produção os comités de operários.
        Em França, e sob a escravizante tirania nazi, a gestão laboral nos anos de ocupação era obviamente concebida segundo regras de violento autoritarismo e exploração máxima, com rebeliões de operários por aqui e por ali. No plano político, a participação dos trabalhadores seria prejudicada pelas características violentamente ditatoriais da situação e pelos ditames do subserviente governo de Vichy. O debate público dos problemas era impossível. A política era um espaço de divisões e a Resistência resguardara a sua mais efectiva acção no mundo do trabalho para um pós-guerra e para um tempo de libertação que chegariam não se sabia quando, mas seguramente chegariam.

Em Inglaterra, pelo contrário, o debate público fora intensa e politicamente enquadrado durante todo o tempo de guerra. Os trabalhistas elaboraram planos económicos e laborais e debateram-nos no Parlamento - a despeito da recusa de Churchill em aplicar esses programas. Ele, Churchill, e o partido dele, viriam a pagar essa atitude nas eleições que se seguiriam à guerra. É verdade. Se Churchill ganhara brilhantemente a dificílima guerra, perderia a paz, perderia as eleições, e talvez pela negligência demonstrada no plano interno, e quanto aos problemas laborais concretos.
O Estado providência e respectivas reformas foi amplamente discutido na Inglaterra. O programa dos trabalhistas compreendia inevitáveis nacionalizações, o carvão, o gás, a electricidade, os transportes, as siderurgias e o Banco de Inglaterra. Em França, os planos similares em apreço previam o regresso à nação dos grandes meios de produção entretanto monopolizados, fontes energéticas, recursos mineiros, seguros e banca. Concomitantemente, lançava-se um plano alargado de segurança social. Mas eram projectos que o grande público mal conhecia, que requeriam tempo. Tudo passaria a depender da evolução política.


                                                                           

Uma nova moral económica em paralelo com uma nova moral política, reclamara-se na Europa de 1945…
 Ou uma moral que era nova e exaltante nessa época e que hoje nos soa a velho e bafiento e imprestável.
Em boa parte, tudo depende de uma questão de propaganda. A moral pública não passa sem uma propaganda de conveniência e também, até nisso, como a História, é subsidiária do factor tempo.
Perante o quadro social de 1945 não é de estranhar que os problemas em França, antes da economia, passassem por circunstancialismos de tipo político-social extremamente ingratos. Punha-se por exemplo em causa o poder dentro da empresa, que logo se ligava com a questão das depurações. Muitos administradores eram afastados e presos por colaboração com o ocupante. A guerra criara ressentimentos inultrapassáveis no tecido laboral e isso repercutia-se na produção. Já se confundiam os inimigos de classe; já se misturavam os directores incompetentes com os traidores à pátria. Ninguém estava disposto a trabalhar muito sob as ordens de uns e de outros. E pouco antes do fim da guerra, nas zonas de maior influência da Resistência, eram nomeados administradores provisórios, rodeados por militantes sindicais da federação CGT, incluindo-se neles alguns homens da própria Resistência. Em Marselha eram requisitadas empresas inteiras. E depois em Lyon, em Béziers, em Toulouse.

Na Renault a situação era muito confusa depois da prisão de Louis Renault por colaboracionismo, e não se verificavam muitas discordâncias quanto à necessidade de nacionalizar sectores chave da economia. E elas, as nacionalizações, arrancaram logo a seguir à libertação. Arrancaram em 45 e duraram sem contestações de maior até aos anos 80. E duraram porque sem dúvida alguma coisa corresponderam aos anseios nacionais através das diferentes conjunturas políticas. E em consonância com a vaga de nacionalizações vem a urgência de uma planificação económica. Há um comissariado geral do Plano criado em Dezembro de 45. 
E todavia, e muito ao contrário do que se possa pensar, não era  socialismo. Não era o socialismo. Era um pragmatismo capitalista, vamos lá. Um plano que se restringia a sectores prioritários da intervenção do Estado. A ideia estava longe de ser a instauração de um qualquer embrião de socialismo. E ia até mais longe. Ou mais perto, não sei. O que sei, ou julgo saber, é que ia no imperioso sentido de equipar devidamente e devidamente modernizar um país em ruínas.

     



As nacionalizações e a planificação podiam até ser consideradas por alguns especialistas o pontapé de saída para uma renovação do capitalismo francês, dado que visavam os tais sectores que esperavam investimentos tão consideráveis que estariam fora do alcance de quaisquer privados.


Fazendo operar uma parte do capital produtivo à margem das regras do lucro, as nacionalizações planeadas resultariam no aumento das taxas de lucro de muitos outros sectores. E desde logo se pensa nos custos da energia, cujo controle e redução beneficiariam a operacionalidade de milhares de empresas.
Não foi o socialismo, de facto, o que foi posto em marcha na França libertada de 1945. O objectivo foi a instauração de um capitalismo moderno e dinâmico, e moderno e dinâmico porque temperado por largas políticas sociais. Uma nova moral do trabalho e do dinheiro. Uma nova moral que está nos nossos dias a ser ridicularizada quando se confronta com a propaganda dos valores que presidiram às economias liberalíssimas do tempo de entre-guerras. E que deu no que deu.
Quanto a segurança social, é preciso dizer que a França não partia do zero. É verdade. Desde 1930 que os franceses dispunham de um sistema de seguros sociais que cobriam a doença, os acidentes de trabalho e a velhice.
E o engraçado é que, apesar de tantas transformações, o sistema  de segurança social francês de 1930, sempre em progresso e atravessando toda a sorte de vicissitudes, só viria a produzir todos os seus efeitos em 1960.
De acordo com o plano de capitalizações adoptado, 30 anos de contributos eram necessários para o funcionamento pleno do sistema de 1930.
Mas os riscos de desemprego não estavam cobertos por esse plano.
O ponto de partida moral para as esperanças francesas quanto a segurança social eram na época, e em boa parte, inspirados por Inglaterra. O fundamento moral da segurança social era a garantia oferecida a cada um de que em todas as circunstâncias da vida ele e a família poderiam dispor dos meios indispensáveis à subsistência em condições decentes.
O escopo final do plano passava pela cobertura do conjunto da população contra os factores de insegurança. Mais um quesito moral novo em 45 e desusado ou negligenciado hoje em dia na risonha segurança da insegurança na tendencial americanização do mundo do trabalho, aumentado pelas consequências do estado de guerra imposto às nossas finanças públicas.
A criação de uma organização protectora do cidadão a nível nacional constituiria um dever da comunidade em face do seu direito de cidadania. Outra base moral. Ou, a bem dizer, política, o que pode ir dar no mesmo. Depois, seriam os desenvolvimentos e os aperfeiçoamentos posteriores, mais ou menos vagarosos, mas sempre com a firme consciência de que o que quer que se fizesse neste campo estaria sempre incompleto e seria sempre possível de melhoramento.
Além de tudo o mais, naqueles anos duríssimos do pós-guerra o plano de segurança social nacional tentaria sanar as tensões vivíssimas que a modernização provocaria, procurando manter a coesão social no quadro de vertiginosas transformações de toda a ordem e em função do objectivo crucial e muito problemático que era o pleno emprego.

70% dos franceses esteve de acordo com a nacionalização da banca. 65% queria o mesmo para os seguros e 62% para a extracção mineira. A Air France é nacionalizada.
A 22 de Fevereiro de 45 são oficialmente instituídos os comités de empresa para as empresas com mais de 100 assalariados.
Segurança social obrigatória para todos os assalariados franceses em Outubro de 45.
E, já próximo do fim desse ano electrizante de 1945, a França nacionaliza a maior parte dos seus bancos. Cria-se um comissariado geral para a planificação da economia.
Entre as coordenadas da nova moral que despontava em 1945 entrava uma outra e nada desprezível ordenança: o aumento da população mundial, ou o chamado baby boom.


Os oriundos desse baby boom, hoje respeitáveis senhoras e senhores a iniciar a sua carreira de decrépitos anciãos inúteis – e ao número dos quais eu pertenço -, foram os beneficiários tanto dos progressos como das contradições que se seguiram na vida ao ano de 1945.



E seriam esses babyboomers, nos anos 60, a contestar a vida e as instituições herdeiras do pós-guerra e do tempo do seu nascimento; e seriam eles a reformular tecnológica, política e moralmente o mundo e a criar, no tempo da sua mais matura vivência, uma outra e nova idade com outros princípios, nem todos extraordinariamente recomendáveis, a meu ver. Viria a ser o mundo novo dos anos 70 e 80. (Na minha insignificante opinião, e de uma maneira geral, podemos limpar as mãos à parede por isso.) 

                           
A taxa de natalidade que se segue ao fim da guerra é formidável nos países desenvolvidos. O exemplo da França: 3 crianças por cada mulher em 47, e mais 2 milhões de almas a aparecer neste mundo entre 1946 e 1951. 
Talvez por terem nascido na época em que nasceram e dela absorvendo a inerente cultura -  e apesar de toda a contestação que na juventude lhe fizeram -  talvez por isso, estejam os mais comuns indivíduos resultantes do baby boom – os actuais e/ou futuros reformados e pensionistas – a ver a sua vida andar para trás e entre os mais saudosos do dito Estado providência.