quarta-feira, 5 de junho de 2013

   UM PENSAMENTO LOUCAMENTE POSITIVO

        Portugal é um dos dez países que mais ameaçam o resto do mundo com as suas severas atribulações orçamentais – dito pelo FMI.


        Mas vá lá, por uma vez estamos bem acompanhados, EUA, Reino Unido, Japão, França, Itália… é verdade, mas com a vida dos outros podemos nós bem…
        Sim, eu sei, isto de finanças públicas, macro-economias e sociologias não é para amadores…
             Ou é?
        Estou a ver que é. Que também é. Por aquilo que se tem lido, visto e ouvido, e pelos tantos palpites contraditórios de especialistas, começo a crer que aquelas disciplinas tão intimidantes para o homem da rua podem ser uma questão de fézada. E começo a crer que os amadores superficiais (eventualmente pessimistas) também podem ter direito a umas bocas analíticas e a uns prognósticos. É de borla e não responsabiliza ninguém – o que se enquadra perfeitamente na especialidade nacional, não responsabilizar ninguém.


        E quem foi o filósofo que disse que prognósticos só no fim do jogo? E quem disse que não estamos mesmo mesmo a chegar ao fim do jogo?
        Bem, mas ao dizer amadores quero referir-me ao tal homem da rua, ao tal cidadão especializado somente no senso comum, e a que por isso mesmo se costuma chamar de cidadão comum, e em função do qual existem finanças públicas, e em função do qual existe aquilo que de mais melindroso pode existir e que se chama política. O especialista do senso comum é o actor principal da comédia e da tragédia que pode representar-se na vida pública e em nome de quem se fazem – e em grande parte dos casos não fazem – as coisas. É ou não é? É.


        É esse velho e memorialíssimo homem da rua, rudimentar de educação e cultura, eleitor só porque sim, inefável e rancoroso pagador de impostos, que lê nos jornais o estudo da Augusto Mateus & Associados e fica sabedor de que Portugal recebeu (ou foi recebendo) em fundos comunitários, durante 25 anos, qualquer coisa como 9 (nove) milhões de euros por dia, destinados a orientar-lhe um pensamento loucamente positivo quanto à sua vida, a presente e a futura. E se lhe perguntarem por que razão ele (e os seus parentes, amigos e conhecidos) com tanta injecção de dinheiro não está hoje a viver melhor do que na verdade vive, ele não sabe responder e fica confundido, e o pensamento dele do positivo passa depressa ao negativo.
        O cidadão da rua sente-se a viver de calças na mão e fica confundido com a desorientação e os cálculos sistematicamente errados dos seus maiores, governo, parlamento, presidente da república, depois do formidável abanão civilizacional que foi a entrada plena na U.E. em 86.
        Pois foram justamente esses milhões fáceis, caídos do céu aos trambolhões e em barda, os chamados milhões da CEE, que criaram  no português desprevenido a ilusão de que, passados os míseros fadunchos do salazarismo, era chegada a hora da prosperidade, da modernidade de vida, do optimismo desmedido. E assim estava instituída a moral inescapável do pensamento positivo. Loucamente positivo.


        Ainda me lembro, pois lembro, de um 1º ministro Cavaco Silva muito ufano, a gabar-se de Portugal estar a ser visto na Europa à sua própria imagem (própria dele, sim, Cavaco) de bom aluno, o bom  aluno que ele deve ter sido. A esta hora talvez o presidente Cavaco não esteja tão ufano, nem se deva gabar da qualidade do aluno europeu chamado Portugal.
        Pois por ser bom aluno na Europa do dinheiro essa Europa premiava Portugal com as tais injecções de capital que o bom aluno, a cada vaca obesa que entrava a fronteira do Caia, insistia em cultivar um pensamento loucamente positivo e ia perdendo a cabeça em shots atrás de shots de sucesso e empreendedorismo como numa sexta feira à noite de Bairro Alto, mostrando-se mais vocacionado para desperdiçar o que não lhe custou a adquirir do que a aproveitar a mão que se lhe estendia.



        9.468 quilómetros de estradas na fase do optimismo e do pensamento loucamente positivo que se inaugurara no país do fado, do futebol e de Fátima e que fazia sonhar o cidadão comum beneficiado com tanta fartura. Sonhar? Sim, sonhar. Com  as auto-estadas dignas do Ferrari que estava em vésperas de ter (e com as casas de campo e praia que estava em vésperas de comprar; e com as garinas brasileiras boas como o milho que estava em vias de engatar). O Ferrari  ainda não o tinha. Mas tinha que o ter quanto antes, não podia deixar de o ter para poder voar naqueles 9.468 quilómetros de estradas e auto-estradas.
        Hoje, são 9.468 quilómetros de auto-estradas por onde se passa pouco, e por onde o cidadão comum não voa.  Não voa porque o que já voou foi o seu querido Ferrari vermelho, e mesmo o modesto FIAT está encostado lá na rua. Ou então não encostou nada o carro, o que não está é para pagar as exorbitâncias de portagem e passou a transitar pelas velhas, bucólicas e tradicionais estadas salazaristas – é o que se lê na imprensa – e assim promove ele alguns rombos na economia das empresas chupistas que lhe cobram as exorbitantes portagens.

                                 
      
      26.000 milhões dispendidos em cursos de formação profissional.  O homem da rua pergunta porque, com tanta guita, não formaram então gestores como devia ser, honestos e competentes, que não levassem  milhares de empresas à falência, e directores que soubessem  planear, prever, e gerir, e motivar a produtividade dos seus dirigidos (loucamente embevecidos com o pensamento positivo a que os dinheiros de Bruxelas obrigaram) com vista à máxima produtividade, à máxima competitividade.


        26.000 milhões! Então porque não se formaram mentalidades políticas que tivessem sabido governar honestamente e moderar os pensamentos loucamente positivos, por forma a que o país não chegasse à situação em que está?
        O que resultou de tão volumoso investimento em cursos de formação foi uma maior qualificação de recursos humanos para o mais impressionante nível de desemprego que alguma vez por aqui se viu – 50 empregos por hora destruídos na economia portuguesa (5 de Junho).


        Foi como se houvesse todos os dias e ao desbarato larga oferta de lugares de administrador à espera dos candidatos altamente qualificados. E deu como consequência a diabólica situação de um homem (ou mulher) comum ficar com os seus atestados de alta qualificação académica mas não conseguir com eles um emprego daqueles mais corriqueiros mas que dão para ir comendo uma bucha, e exactamente por ter qualificações a mais para o lugar e os patrões torcerem o nariz a doutores em certos lugares; enquanto outros, os cábulas, também não conseguiam emprego de jeito por terem qualificações a menos. Daqui se seguindo que, no fim das contas, o que mais convinha para obter esses empregos não seriam tanto as qualificações académicas, ou o alto potencial do candidato, seria, sim, ou um avental asseado com um esquadro e um compasso bem desenhados, ou um rutilante cartão de sócio do partido político mais empregador em cada conjuntura.


        Altos níveis de qualificação académica das novas gerações. Doutores, quer-se dizer. Doutores de matérias irrelevantes, tantas vezes, mas doutores, complacentemente avaliados e classificados pelo alto só porque convinha politicamente nivelar os aproveitamentos escolares pelos índices europeus.
        E concomitantemente à formação de quadros superiores, há apoio europeu (entre 2000 e 2006) a 12.000 empresas pequenas e/ou médias. Empresas essas, evidentemente, destinadas à falência em 2012, 2013…

                                            
  
                                                                    
        Falando de doutores, não esquecer as relvadas e loucamente positivas licenciaturas, as socráticas suspeitosas e dominicais licenciaturas. Essas e outras que a gente não sabe.

                          
        (Ah, sim, amigos e amados irmãos, existe mais aquilo que a gente não sabe do que aquilo que a gente sabe…)
E sem nunca se saber também ao certo (por não constar do correctíssimo relatório) se se fez mesmo formação de quilate académico real, ou se, pura e simplesmente (e loucamente), as universidades (as mais privadas sobretudo) se limitaram  a vender canudos e a figurar na estatística.

        Ou então 26.000 milhões de euros aplicados em cursos de formação que formaram efectivamente técnicos competentes, quem sabe se mesmo brilhantes, cujo destino era emigrar – incentivados a isso pelo próprio governo – e pôr as suas prendas ao serviço de países outros, enquanto por cá se cantava o facto-fado de não haver gente capaz para levantar o país.
        Foram milhões a facilitar. Milhões a fomentar o optimismo parolo. Milhões a desencadear facilidades de vida. Milhões em desprezo da qualidade real dos indivíduos e dos conhecimentos e a instaurar o primado da quantidade. Milhões geradores da mediocridade que é mãe do feio e do mau gosto; mau gosto que é pai da imbecilidade e tio da incivilidade, que é a madrinha da anarquia, da impunidade e da irresponsabilidade, padroeiras por sua vez da corrupção que é a raínha da descrença, da desconfiança civil e do desinteresse nacional. Isto anda tudo ligado. Pois anda.


        E estádios de futebol. Magnífico investimento. O que não se sabe é se foi um investimento no desporto nacional se foi um investimento indirecto no futebol sul-americano, visto que pouco falta para o seleccionador nacional não ter por onde escolher entre futebolistas portugueses acima da mediania e ter de naturalizar  brasileiros – qualquer dia argentinos, sérvios, eslavónios. Estádios que custaram  os olhos das caras e que continuam, alguns, a custar às respectivas câmaras os outros olhos que houver…5 milhões de prejuízo.
        Uma data de centros de saúde construídos à pala dos milhões europeus. E aqui só me vem à ideia o meu próprio caso, sei lá quantos anos à espera de ter médico de família, eu homem da rua, cidadão militante do senso comum…


        O nível de vida melhorou em Portugal em consequência da injecção dos milhões europeus?
O relatório diz que sim. E diz que esse sim é um sim óbvio.
        Que seja sim. Quem sou eu para discordar? Que o seja assim tão óbvio já me causa alguns suores frios.
        Que o nível de vida melhorou… o nível de vida de quem? De quantos? Se o nível de vida melhorou, porque chegámos à tão indigente situação em que o país está? É da conjuntura internacional. Pois seja. Mas a melhoria que vinha de tão longe, 1986, não era brincadeira, podia ter-se aguentado se fosse real. Mas talvez não fosse. Talvez o que tenha melhorado tenha sido a concessão de crédito. E o crédito é mágico, disfarça a realidade, pinta-a de cor-de-rosa: rosa flamejante, primeiro, e depois rosa-chá, e por fim, no fecho das contas, rosa-velho.
        Se a melhoria do nível de vida português foi uma ilusão demoníaca, também não deixa de ser óbvio que o nível de vida de alguns subiu, e muito, e de que maneira – BPN, BPP, parcerias, limas, loureiros, valeazevedos, isaltinos… já para não falar do nível de vida que honradamente aumentou rendimentos aos correctos belmiros, soares dos santos, espiritos santos, amorins e outros, muitos, e muitos mais do que aquelas poucas famílias do antigamente salazarista.


(Não digo nada sobre a rapaziada da ex-administração do BCP que se reformou, e porque alguns deles estão indignados com os seus choradinhos 70.000 euros mensais de reforma.)


        E os outros? E a generalidade? Ou a melhoria do nível de vida nacional foi circunstancial (quando foi); ou ela se ficou por um apelo desesperado ao pensamento positivo, loucamente positivo, em que as derrotas, por uns bambúrrios de linguagem e de contabilidade, até se pareceram com vitórias. Ou até se transformaram, pela manhã seguinte, em vitórias.



        Mas sim. Sim, o nível de vida deve ter melhorado quando sabemos das loucas noites da juventude (alegadamente desempregada) das sextas-feiras no Bairro Alto, entre shots variados, cerveja, erva, coca, ecstasy.
       
                                         
         
        (O número de casais desempregados cresceu desde o ano passado para 67%.)


          Sabemos da melhoria do nível de vida pelos grandes concertos de rock que esgotam com rapidez, apesar dos preços proibitivos; e quando é evidente que a grande afluência a esses concertos é de pessoal jovem que se queixa de não conseguir arranjar emprego, pessoal jovem que se diz estar a ser financiado pelos pais, que também começam a ver os seus empregos em perigo, ou que também já perderam o emprego e estão por sua vez a ser financiados pelos respectivos pais (avós dos jovens dos concertos de rock) que vivem das suas pensões e reformas (algumas de miséria) e onde o governo não cessa de sacar…


        O grande sucesso na aplicação dos fundos comunitários alimentou mais as estatísticas do que a realidade das coisas. Foram um investimento no quantitativo em subalternização (senão em desprezo) da qualidade das pessoas e das coisas, e sendo a estatística das quantidades o mirabolante elixir que permite ganhar eleições. Claro. E sendo o ganhar de eleições (que fornece cargos para distribuir pelos apaniguados) o escopo final e privilegiado do sistema político português, desse sistema partidário em que já ninguém acredita, do qual já (amargamente, desprezivelmente) a maioria dos homens de bem e de senso comum troça cantando-lhes a Grândola Vila Morena.


        Os milhões europeus incentivaram o pessoal à produtividade? Ah, luxo, estatuto aparente, desfile de vaidades ocas, isso sim. Trabalho? Está quieto. Trabalho e competência e rigor e estratégia e produtividade: pouco.
        Os milhões europeus foram mais um afluente que calhou à maravilha ao nosso peculiar gosto de parecermos aquilo que não somos: inteligentes, pelo menos razoavelmente letrados, finos e de boas famílias, civilizados, modernos, bonitos, bem vestidos - mas sobretudo ricos.
        O tal semi-falhanço de que falam os comentários ao relatório da Augusto Mateus &Associados, pode ser semi, como pode ser total. E citando o próprio Dr. Mateus: o roteiro prospectivo da convergência tem de começar a ser construído na melhoria da qualidade das instituições e no reforço da democracia (…) para garantir escolhas colectivas mais claras e acertadas e permitir políticas públicas mais bem fundamentadas e mais eficazes na promoção do interesse geral.
        Ora aí está, o interesse geral. E outra: depois de tantos anos de milhões a chover o roteiro prospectivo da convergência tem de começar a ser construído. Começar a ser. Passados tantos anos há coisas decisivas que em Portugal ainda nem começaram a ser. E coisas, bem entendido,que servirão ao colectivo, ao interesse geral, mais do que aos interesses particulares.
        Ao fim de tantos anos, as nossas empresas ainda não são competitivas – se é que, por este andar, e passados outros tantos anos, algum dia o cheguem a ser. No fim de contas, passados estes anos, ainda não estamos preparados para enfrentar as concorrências em tempos desapiedados de globalização. Mas quando o estaremos se a nossa produtividade por hora trabalhada ainda não passa de metade da média europeia?
        E neste soalheiro país é tudo pelo contrário em matérias do social e do económico. Depois de tantos anos, a respeito de competitividade, em vez de progredirmos, pelo contrário, estamos sempre a descer. Desde 2006. Seis lugares no ranking competitivo do Forum Económico Mundial descemos nós…

                                                                               

   

           E o que me perturba mais, a mim, desentendido de finanças postas para lá do bolso do meu casaco, de macro-economias e de sociologias, é ter ficado a saber que foi maiormente com Salazar que a nossa economia mais cresceu. Entre 1962 e 1972. 7%. E assim  com cinzentismo social, miséria, barracas, censura, polícia política, fado, futebol e Fátima, emigração, guerra colonial… e escudos para desvalorizar.
                                  
                             
                                                         
        Com Salazar é que estavamos bem? Com Salazar estavamos a nossa dimensão natural? A preto e branco. Modestinhos. Pobretanas. Tristíssimos. Atrasados. Matarruanos. Socialmente inseguros. Tementes a Deus e à PIDE. De boca calada. Perdidos em pensamentos loucamente negativos. Com medo do presente e com medo do futuro. Com medo da vida. Era assim que estavamos bem?
        Quem sabe se não era…
                     
          
                                                         
              Fado, futebol e Fátima em tempos de Salazar? Essa é boa. Se era assim que a economia crescia 7% ao ano, então, nos dias de hoje, deviamos estar de cavalinho, pois nem ao Salazar lembrava instituír a civilização do fado, do futebol e de Fátima em doses tão maciças e mediáticas como hoje em dia, que quando crescemos 1% já abrimos uma garrafa de champanhe.


        Ao cidadão da rua e do senso comum que frequenta os transportes públicos e ao qual, como digo, falham as bases teóricas para o entendimento dos aspectos mais cripticamente técnicos do relatório da Augusto Mateus & Associados, escapam grosso modo as melhorias mais espampanantes que os 25 anos de um Portugal europeu nos acrescentaram.
         A gente lê e a nossa boca fica com um gosto húmido a abstracção e a minudência académicas. Mas alguma coisa percebemos. Falta-nos isto e falta-nos aquilo; não fomos capazes nem disto nem daquilo; falhámos aqui, ali e acolá: são os pontos cruciais que neste país do fado, do futebol e da Senhora de Fátima conseguimos reter com mais premência: onde falhámos, o que não pudemos, o que nos falta.
        Lidos os jornais do dia, ouvidas as tsf’s pela manhã, vistos os desmesurados telejornais da noite, conhecendo as previsões da OCDE… percebe-se que Portugal pode ser um país inviável. Se não o é já. Se não o foi sempre. Pois.


        Portugal é um dos sete países onde mais aumentam as tensões sociais – dito pela Organização Internacional do Trabalho. Pudera!


        O homem de senso comum que caminha cabisbaixo pelas ruas ouve os receios expressos por alguns notáveis quanto à probabilidade de, por força da crise, da austeridade, da recessão, dos maximalismos da troika e das canalhices sociais do governo, de um dia para o outro, perder as estribeiras e o medo salazarista que ainda o arrefece por dentro, e vir por aí abaixo, e passar à violência tipo Turquia destes últimos dias, enfrentar as forças anti-motim, apedrejar, partir, incendiar, bater, matar e esfolar, firmado no pensamento loucamente positivo de que assim resolveria alguma coisa da sua triste vida.
        Não resolvia nada, claro. Continuaria a ser gozado, roubado, explorado. Mas vingava-se. De quem? Não importa. Talvez do destino…
        O que importa dizer é que o argumento da violência social iminente é usado por alguns notáveis como incitamento ao presidente para dissolver o parlamento, demitir o governo e convocar eleições legislativas – que segundo as recentes sondagens (4 de Julho) por um lado daria maioria absoluta aos partidos de esquerda, embora por outro gostasse de manter o actual governo até ao fim do mandato, só com o quesito adicional de poder mandar o ministro das Finanças para o olho da rua. É isto: no seu louco (e novo, e ainda europeu) optimismo, a que os políticos oportunistas chamam  sabedoria, o portuga deseja cada coisa e o seu contrário, devia ser assim, mas também não era mau que fosse assado…


        Mas o presidente Cavaco Silva não é nenhum palhaço, não, não é, é preciso que se diga com toda a ênfase - porque Miguel Sousa Tavares (parece impossível) seguramente não percebe nada de circo nem sabe da humanidade, da solidariedade e da grandeza de alma das gentes do circo – e como não é um palhaço (nunca poderia ser) não iria, não vai, na conversa desses notáveis, porque também ele, tocado pelo seu pensamento loucamente positivo, crê que não há paz nem salvação fora do quadro político vigente.


        O presidente também lê jornais e vê televisão e espreita pelos janelórios do palácio. E portanto sabe que quanto mais apertada está a vida para o cidadão comum e quanto mais os espectros do desemprego e da fome vão enegrecendo os horizontes do senso comum desse cidadão, menos esse cidadão parece empenhado em alinhar em manifs, quanto mais desatar a partir coisas, ir à cara da bófia ou deitar fogo a carros.
        É um facto: desde a mastodôntica manifestação de Setembro que passou, contra a TSU, a afluência às manifs tem decrescido a olhos televistos. E, o mais cáustico, tem decrescido na razão inversa do aumento das dificuldades da vida e da proximidade do que muitos chamam de catástrofe social – se eu percebesse de sociologia saberia dizer porquê…
        Ora se o homem da rua nem para uma romântico-revolucionária passeata de repúdio se mostra virado, que outro homem da rua, que outro cidadão comum, que outro povo, podem fazer tremer o governo, o presidente ou o sistema se a desgraçada situação que está a viver nem ao menos o mobiliza para um giro gritado até S. Bento, até Belém ou até à Alameda?


        O homem da rua e do senso comum começa a desconfiar da viabilidade de Portugal como país soberano e independente no actual quadro global, ultra-liberal (impiedosamente liberal) que o mundo lhe oferece. Porque o homem da rua também leu umas coisas e ouviu umas bocas, e como tal sabe das pimentas da Índia e dos ouros do Brasil, tanto quanto sabe dos euros de Bruxelas. E pergunta-se: qual será a próxima sorte grande que  nos pode sair, agora que depois da torrente dos euros de Bruxelas o mapa dos nossos possíveis benfeitores e da quantidade de benfeitorias de que sempre precisámos para viver foi drasticamente reduzido?

    

        Subsidiómanos (para não dizer chulos) que somos de pimentas, de ouros e de euros, teremos em nós forças, vitalidade, vontade, fé, porventura talento, para empreendermos em nós uma mudança radical de vidas e de pensamentos e assim escaparmos a um destino de dependências suseranas de outros, justamente o estatuto que até aqui temos encarado alegremente e com um pensamento loucamente positivo? 

                                
       
     O século XXI, que não há muito era o futuro (loucamente positivo), está a revelar-se-nos desastroso. Quando, provincianos atrasados em tudo, partimos do quase-nada para paisagens económicas europeias, crescemos, fomos o menino Isá, o bom aluno, atento venerador e obrigado do que nos diziam os burocratas enevoados de Bruxelas, e loucamente positivos progredimos o nosso bocadinho, até que, do quase-nada, atingimos o alguma-coisita. E estagnámos. Embriagados. Loucamente positivos. A pensar loucamente em positivo. E descansámos nesse pensamento, convencidos de que tinhamos chegado. E não tinhamos. E estavamos ainda loucamente longe de ter chegado.


        Lembrei-me agora da cena bíblica. Fomos levados pela Europa ao pináculo do templo e mostraram-nos o mundo, e disseram-nos: “tudo isto será teu se prostrado me adorares”, e nós fomos adorando, até que nos cansámos de adorar.
        Ou como Mefistófeles acenando ao velho doutor Fausto com os deliciosos esplendores da juventude de Margarida em troca da alma e incitando-o a assinar o pacto…


        A Europa deu cabo da nossa alma de país salazarista, sacral, tradicional, senhorial (que persistimos em continuar a ser – um dos grandes problemas). E chegou a hora da cobrança. 25 anos depois.
Mas se não entrássemos na Europa ricalhaça e dela não respeitássemos os ditames e as severidades, o que seríamos, quem nos valeria na nossa gula dissipadora de quanto de valioso nos chega de fora, pimentas, ouros ou euros?



        É neste enguiço do “nem com ela nem sem ela” que assenta o drama da nossa viabilidade como país soberano em democracia - vigiada.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

             O SENSO, DE VISCONTI, OU O     
    MELODRAMA OITOCENTISTA ITALIANO         
        ENQUANTO AGENTE DA HISTÓRIA
                                                                                                      
O melodrama ficou com má reputação quando os seus defensores o abandonaram a interpretações esquemáticas e convencionais. Mas em Itália o género acha uma natural disposição do povo, embora se adapte bem a um público europeu, pela sua estrutura unitária e muito directa. Amo o melodrama porque ele se situa exactamente fronteira entre a vida real e o teatro. Palavras do próprio Luchino Visconti.


 Senso, o filme, funciona como transposição para o cinema justamente daquela categoria estética que irá ter desempenho decisivo enquanto veículo ideológico e elemento dinamizador e propagandístico de uma nova ordem política: o melodrama, fosse ele em prosa, em verso ou em música. Melodrama esse alimentado pela História, e restituidor dessa História a actuar sobre o real imediato.


Porque nos achamos em pleno ano de Verdi, diria que os traços do melodrama verdiano são mais do que evidentes em Senso, e com  a linha melodramática a prosseguir sob a música de Bruckner, de modo embora menos directo, e desde o momento em que, na concepção do realizador, era forçoso que a música sustentasse o desenvolvimento dramático e assim conferisse às personagens um recorte que era realista, bem entendido, mas que não deixava de ser romântico. Ou melodramático.

As sequências iniciais do filme Senso estavam para ser rodadas na Praça de S. Marcos. A mudança para o interior do La Fenice relevaria do simbolismo da associação de Veneza a um espaço teatral, a um jogo de espelhos, realidade e ficção, que do interior do La Fenice se iria expandir pela cidade alargando as significações, tornando a cidade mesma um lugar de representação, espaço de melodrama, cenário de uma teatralidade de transgressão, visto ser da transgressão a diversos títulos que trata o filme – a  subversão contra o ocupante; a condessa descendente de uma família tradicional veneziana que se apaixona por um oficial do exército inimigo; a traição da condessa entregando ao amante os valores que lhe foram confiados para ajudar a causa da luta contra o inimigo ocupante; a transgressão do oficial perante a moral militar subornando uma junta médica que o dá como inapto para o combate; a transgressão da condessa à moral dos amantes quando, por vingança, denuncia ao alto comando austríaco o oficial seu amante como desertor, condenando-o ao fuzilamento.
A pintura de uma paixão trágica, melodramática, centrada directamente num episódio colectivo ou patriótico, mas num caso particular, sobre uma história privada. É o contexto histórico que, por assim dizer, universaliza o adultério da condessa Livia Serpieri e todas as demais transgressões envolvidas num stendhaliano amour fou, a paixão amorosa que melodramaticamente rompe os limites do razoável.

            

Note-se ainda, historicamente, o momento crucial e contextualizante do filme, a apontar o princípio de decadência efectiva da aristocracia italiana enquanto força cultural e socialmente preponderante. Morte e loucura enquadram, melodramaticamente, esse momento histórico de aniquilação.

                                                                     
   
   

Todo o cinéfilo se lembra da cena inicial. O momento mais heróico do Trovador, de Verdi a ser cantado no palco perante uma plateia de oficiais austríacos ocupantes e nobres venezianos com eles de certo modo confraternizantes. No momento da cabaletta Di quella pira, quando o tenor e o coro gritam às armas, a ordem pública é alterada e a outra parte do público, os patriotas venezianos da galeria, levanta-se num clamor patriótico e lança panfletos sobre a plateia.
O Teatro La Fenice, que foi um símbolo da resistência patriótica dos italianos ao ocupante estrangeiro nos dias do Rissorgimento. É uma verdade. Mas essa cena do filme talvez não tenha acontecido. Ou antes: aconteceu realmente, pelo menos uma vez, mas não com o Trovador. De certeza, sabe-se que o levantamento patriótico no La Fenice se deu numa récita de Macbeth, do mesmo Verdi, no momento em que o coro cantava as palavras la patria tradita, piangendo m’ínvita… a pátria traída e chorosa incita os irmãos oprimidos a correr a salvá-la. Os austríacos presentes no teatro ficaram aterrados. E esse foi o dia da primeira insurreição veneziana contra os austríacos. 6 de Fevereiro de 1848. Houve arruaças pelos canais. Os notáveis venezianos mais patriotas que assistiam à récita, e também o barítono Felice Varesi que cantara o protagonista, vão-se aos armazéns de adereços, sacam inofensivas espadas de teatro e correm para as ruas e para a Praça de S. Marcos a ameaçar os austríacos, que apesar de tudo não estavam a achar graça nenhuma e alguma coisa se temeram…
O filme Senso decorre na atmosfera daqueles anos de brasa da vida italiana, é certo, mas estiliza os factos, mediatiza-os, não se refere de forma estrutural e deliberada aos aspectos políticos e sociais, deixando embora a descoberto as pontas de algumas questões implícitas, como os dilemas entre o compromisso e a atitude frontal: a alta burguesia que comerciava em causa comum com o inimigo ocupante estrangeiro, e alguma jovem aristocracia que conspirava, dava a cara e pegava em armas.
No que se refere à dívida que a História italiana tem para com a actividade teatral italiana da primeira metade do sec. XIX, Visconti dedica-lhe eloquentíssima alusão, não somente pela desordem no Teatro La Fenice, como também pelo estilo melodramático de representação e expressão corporal e gestual dos seus actores, tão marcadamente enfáticos e teatrais – reparar em especial na expressão dos olhares, nas atitudes corporais e no gestual da criada da condessa, interpretada pela grande actriz de teatro Rina Morelli, numa expressividade marcadamente teatral, diria mesmo operática, a ir ao encontro dos pressupostos estéticos estabelecidos por Visconti...

O princípio de sublevação patriótica da cena de abertura do filme, será uma cena de passagem, mas marcará o tom operático e verdiano do filme.

Uma historicização, digamos, do tempo, da acção dramática e das personagens no Senso  impeliu Visconti na senda do melodrama italiano, já de si tão carregado de memórias de vida e de História. A quinta-essência do espectáculo era o melodrama, no pensamento de Visconti. E assim por considerar o melodrama a mais harmónica fusão e o modo mais eficaz de integração dos elementos dos diversos géneros de espectáculo que lhe interessavam.

Uma síntese, o melodrama. Uma síntese de todas as artes. O espectáculo total e integrador de todas as artes, que foi a ópera, em Oitocentos, que seria o cinema, em Novecentos – que será a televisão e o computador no terceiro milénio que vivemos. Um cinema, forma espectacular nova à qual Visconti ambicionou integrar o elemento mais distintivo da grande cultura retintamente italiana. Como escreveria  Suso Cechi d’Amico, colaboradora de sempre: era isso que procurava o decadente Visconti, o proustiano Visconti, o conde Visconti – enfim, diria eu, o oitocentista Visconti, herdeiro de um nome pelo qual já de si parte da História de Itália perpassava. 
A contribuição teatral para o processo histórico que desembocaria na unificação – processo e período históricos a que se chama de Rissorgimento – foi uma contribuição indirecta de divulgação de ideias libertárias e de ideais patrióticos. Foi elemento capital na criação de uma atmosfera geral e nacional de paixão política e de militância que logrou até a reunião de entidades politicamente divididas.       
Não obstante a vigilância censórea, cada espectáculo corria entre invectivas ao opressor estrangeiro, incitamentos populares à rebelião, à liberdade, chamamento à morte pela pátria, gritos de invocação a uma Itália unida e fadada para um grande destino.


A tragédia patriótica era o prato forte da produção teatral daqueles anos da mais alta coragem cívica na Itália do meado do século XIX.
As personagens antigas e mitificadas incorporavam os anseios nacionais. As récitas eram comícios e manifestações revolucionárias. Obras teatrais houve que se celebrizaram nem que fosse por um único dito, uma única cena, tornados válidos e significativos no presente histórico e mobilizadores para a luta política.
Vittorio Alfieri, um dos grades dramaturgos da época, chegou a escrever: os homens é no teatro que devem aprender a ser livres, fortes,  generosos, transportados por uma verdadeira virtude, contrários a toda a violência, amantes da pátria, conscientes dos próprios direitos ardentíssimos, rectos e magnânimos em todas as suas paixões.


Depois do melodrama em prosa e em verso, chegará a hora do melodrama lírico como protagonista na luta pela independência e pela liberdade de Itália.
     

O melodrama lírico é o canto, e o canto pode dizer-se o limite da expressão vocal humana. E o melodrama é viver a vida nos limites. Melodrama é o viver da vida ao máximo e a cada momento. O que, por sinal, se relaciona com a vivência de uma revolução. O revolucionário arrisca os seus limites a cada dia. 
Ao entrar o ano de 1848 o ideal da independência é já uma vaga de fundo muito espalhada em toda a Itália, deixando de ser uma espécie de propriedade ideológica de elites intelectuais e burguesas. E é então que a linguagem da tragédia em verso decai e os favores do público se transferem pouco a pouco para o melodrama lírico. Ou seja, o melodrama na plena acepção do termo – o melos a multiplicar a eficiência expressiva do drama.
O melodrama, enquanto elemento estético, pode ser uma fronteira da realidade. E o melodrama lírico falava às almas de modo mais abstracto, é certo, por meio da música, exactamente nessa justa fronteira da realidade. Porém, um dado motivo musical devidamente popularizado poderia ser adoptado pela rua, entoado repetidamente, obsessivamente, pelo povo e ser-lhe assim acrescentado um sentido subversivo, revolucionário. 
E pela música – que na verdade, em si mesma nada significa a não ser música, mas na qual é sempre possível pôr os sentidos que se queiram – a comunicação da mensagem subversiva de resistência torna-se mais ampla. E se, num inicial fôlego do primeiro Rissorgimento, certas frases das tragédias passavam de boca em boca, no segundo Rissorgimento bastava um curto motivo melódico para inflamar as almas patrióticas.

 
Na récita da Norma no Scala, na noite de 10 de Janeiro de 1859, há um pé de vento no teatro apinhado de oficiais austríacos a fazer lembrar precisamente o do filme, do Senso. Ao chegar o momento do coro Guerra, guerra le galiche selve (um incitamento à revolta das Gálias contra o ocupante romano), o público levantou-se e multiplicou a intensidade das vozes que vinham do palco, cantando com os coristas e provocando uma manifestação que levou os militares austríacos fulos a enfrentar a massa ululante que gritava e cantava guerra, guerra…
Mas, como se sabe, o grande emblema patriótico da cena lírica italiana do tempo, será Giuseppe Verdi. Ao triunfal e muito político sucesso de Nabucco, Verdi acrescenta-lhe outros êxitos. Eram filas (bichas) sem fim nas bilheteiras dos teatros; era uma loucura de público conspirativo amontoado em camarotes e galerias a festejar cada ária, cada concertante, vivas a isto, vivas áquilo. Era o grande público militante do melodrama.



                                                                                                                   

A acção no melodrama verdiano é rápida e concisa, nos primeiros tempos, com larga incidência sobre a voz colectiva, os coros. Alguns definem esse período patriótico verdiano como uma poética do uníssono, a alegria de cantar sem divisões nem dissonâncias. O célebre caso de Nabucco, é sabido, com o famoso e popular coro dos escravos hebreus, que passa a ser o hino das aspirações itálicas – como o foi ainda há dois anos, na Ópera de Roma, em protesto contra o fecho dos teatros e o corte das verbas para a cultura, na presença do então 1º ministro Berlusconi.
O melodrama, hoje ainda, século XXI, a funcionar sobre o real imediato…
E é mesmo Visconti quem o diz de Senso: é um filme romântico, onde transparece a verdadeira seiva da ópera italiana, onde as personagens fazem declarações melodramáticas. Eu quis transferir os sentimentos da ópera Trovador,de Verdi, da ribalta lírica para uma história cinematográfica de guerra e rebelião.


Senso é como uma ópera. É um filme de acordes visuais e dramatúrgicos sucessivos, de melodias continuas. A melodia de fundo, evidente, objectivada pela música de Bruckner; como a  melodia sugerida no tom operático, melodramático, que cruza o filme nas frases, nos corpos, nos gestos, nos cenários, desde o primeiro enquadramento da cena do Trovador, de Verdi, até ao ritual do fuzilamento do tenente austríaco e aos passos desesperados e demenciais da enlouquecida condessa Livia Serpieri.


Segundo Visconti estaria no Verdi e na correspondência histórico-temporal do Trovador, o elemento que era melodramático mas que também era realista de Senso.
              
                        

Transpôr a estética e as regras do melodrama para a possível vida real – escopo de um Visconti herdeiro da grande tradição cultural italiana, esteticamente imbuída desse mesmo estilo melodramático: a ópera vivida sobre o quadro da realidade.
Na verdade, as relações de Visconti com o melodrama eram muito chegadas, vinham de família, o tio Guido Visconti fora um dos refundadores do Teatro Scala de Milão. Aliás, no ano de estreia de Senso, 1954, no dia 7 de Dezembro, o Scala inaugura a temporada com uma encenação de Visconti (julgo que a primeira encenação operática que faz) para um melodrama dos tempos napoleónicos – La Vestale, de Spontini. 
A unificação política de Itália é uma realidade, pode dizer-se que nascida sob os bons auspícios do melodrama, na vertente poética como na vertente lírica.
Íntima correspondência entre realidade histórica e realidade cénica: intimo conflito no seio do binómio das realidades, a realidade que é, e a realidade que não é, mas que pode ser mais real do que a que é: assim se caracterizou para muitos a essência da chamada tragédia rissorgimentale e do melodrama lírico italiano até à metade do sec. XIX.
Numa arriscada tentativa de analogia chamo à conversa Marc Ferro, crítico de cinema, quando diz que a funcionalidade histórica do cinema se desdobra entre a apreciação do filme sob o ponto de vista da História, ou a apreciação do filme enquanto visão de um passado, uma leitura da História feita através do cinema.
Foi nesta dualidade funcional do cinema que a obra de Visconti precisamente se afirmou, em Senso, como no Leopardo, como, num particular lance da História italiana da época contemporânea, em Rocco e os Seus Irmãos – ou, se quisermos, com Ludwig, na História dos balanços ainda hoje conflituais entre indivíduo, Estado e cultura.
Senso  remete assim para o período histórico em que a Itália se faz, o Rissorgimento, quando os destinos individuais se vão cruzar com as conjunturas políticas que a História registou.
Em certo sentido (senso), e de algum modo evocando o anteriormente citado de Marc Ferro, Senso incorpora factores históricos a duas valências, a do passado, de que dá testemunho, e a do tempo histórico-cultural circunstancial da sua concepção e feitura, em plena guerra fria.
No segundo caso estão as intervenções censóreas dos poderes políticos e militares, num ambiente dominado pelos ditames do único partido de governo no pós-guerra italiano, a democracia-cristã, bem como as condicionantes relacionadas directa ou indirectamente com o anteriormente dito e que lhe afectam as condições de produção e de comercialização.
Por exemplo, Visconti não previa terminar o seu filme com aquele final algo apressado em que a condessa Serpieri denuncia o amante e em que o amante é presente ao pelotão de execução e fuzilado. No final primeiramente escrito (e rodado), a condessa vagueava pelas ruas entre soldados austríacos bêbedos, em que um deles cantava, chorava e dava vivas a Áustria e ao império austro-húngaro (também ele em decadência acentuada, prestes a desaparecer da História). E não havia fuzilamento. O tenente austríaco, depois da cena canalha, era deixado no apartamento com a rapariga e não se queria saber mais dele, era abandonado à sua sorte ficcional, o destino dele não interessava a mais ninguém. Livia caminharia pelas ruas no meio dos soldados e das raparigas da vida como se mais uma delas ela fosse.

Sim, mas este final foi considerado perigoso pela censura italiana de 1954. O vilão (estrangeiro, ocupante) não era castigado, e a heroína aristocrática, italiana, ficaria por demais exposta à ignomínia, à desonra. Era perigoso. E a cena foi cortada. E o negativo foi queimado. E o novo final, o que se vê, o do fuzilamento, foi filmado tempos depois, já não em Verona mas em Roma, num castelo de Sant’Angelo que nada tinha a ver com a história – aquela história, claro.
Porque a estreia de Senso cai em plena guerra fria, com a democracia cristã eternizada no poder desde 47, e a cumprir aquilo a que alguém (se não me engano Moravia) chamou uma ditadura democrática. E Senso funcionaria de algum modo como bandeira política que confrontava culturalmente aquele tempo italiano dos anos 50, tal como os acontecimentos narrados questionavam a desgraçada situação italiana do século anterior.
A apresentação do filme dá polémica. Porque Senso circulava por uma das mais duras e vergonhosas derrotas militares da Itália. E daí as outras cenas (as de batalha) serem cortadas pela censura por ofensivas da dignidade do exército italiano.

 
Também se viu e discutiu muito o filme no estético plano das dicotomias do realismo. Foi apreciado como produto, ainda, de um neo-realismo esteticamente ultrapassado; foi por outro lado apreciado precisamente como obra que superava as limitações do mesmo neo-realismo, e que alguns sintetizaram como uma nova fórmula que tinha em vista a passagem da mera crónica à História.
O compromisso entre realizar um filme histórico ou um filme intimista tecido de histórias individuais é comentado pelo próprio Visconti: não quis fazer um filme histórico como algo de diferente do que foi a minha obra até aqui, o que quer dizer que não abandonei nem abandonarei a linha do realismo cinematográfico que até hoje tenho seguido. Não perderei o contacto com as minhas personagens só porque elas vestem roupas oitocentistas.
A aventura amorosa de Senso e respectivas circunstâncias aludem perfeitamente ao momento crepuscular da História de Itália no tempo da acção do filme. A adúltera condessa de Serpieri e o tenente austríaco desertor, traidor à honra militar e aos valores pátrios, prefiguram-se com simbólicas da decadência de um dado mundo – ou, se se quiser, prenúncios de uma nova viragem da História.
Um cínico sem escrúpulos, moralmente degradado e uma aristocrata romântica, deprimida e vingativa são figuras de um tempo histórico e social determinado, de um mundo e de uma cultura perdidos para sempre. São, enfim, personagens de melodrama teatral, desta vez desligadas da lógica das marcações e convenções do palco; desta vez revistas e actualizadas pelo realismo cinematográfico de Visconti. Teatralidade e nobreza espectacular, como quis André Bazin, conciliadas com o refinamento estilístico aplicado à realidade em estado bruto.

 
Haveria então um deliberado sentido de História na concepção de Senso, quanto mais não fosse pelo título primeiramente pensado, Custoza, o nome da tal desditosa batalha da qual, no filme, se faz uma stendhaliana reportagem, e que resultou numa derrota aviltante para as cores italianas.
E por falar em Stendhal, e em batalhas, tem que se dizer que Visconti pensou muito em Stendhal. E teve mesmo como projecto de filme uma adaptação da Cartuxa de Parma. E disso há ecos neste filme, Senso, nomeadamente no modo confuso como são filmadas as sequências de batalha, evocando o jovem herói stendhaliano Fabrice del Dongo ao atravessar as linhas da batalha de Waterloo sem nada compreender, testemunha da História mas impossibilitado de intervir, porque impossibilitado de compreender essa mesma História, a que estava a viver e à qual ainda daria o nome de realidade presente e não de facto histórico.
A censura interveio, indignadíssima, ainda em fase de escrita do argumento: aquele nome da batalha, Custoza, era para esquecer; a própria História italiana era para ser apagada naquele lance do tempo.
Visconti declara que na sua obra prefere contar as derrotas, falar das almas solitárias, dos destinos interrompidos… falo de personagens de que conheço bem a história, e talvez cada um dos meus filmes oculte outro, o meu verdadeiro filme, nunca realizado, sobre os Visconti de ontem e de hoje.
Visconti interessava-se pela atitude do Homem quando colhido pela História, superando-se ou sujeitando-se. As suas histórias são fragmentos da História de homens que vivem entre as coisas. Apoderando-se dela, História, um homem tenta transformar-lhe o curso aparentemente pré-determinado.
Quando se é colhido pela História abre-se o espaço à consciência individual.
A família aristocrática, a família Visconti, em desagregação e decadência, mas absolutamente imprescindível no que respeita aos valores éticos e aos afectos, será substituída na vida e na obra do artista Luchino Visconti por um extracto social de que Visconti se achava social e culturalmente distante, mas com o qual se irmanava, e no qual acreditava como depositário dos valores dominantes de um devir histórico, após as catástrofes burguesas das I e II Guerras. Esse extracto social emergente como força histórica dominante era o povo, eram as classes trabalhadoras, que numa abordagem marxista sucederiam à burguesia historicamente esgotada, uma burguesia admissivelmente detestada por Visconti enquanto classe portadora e veiculadora de valores que ele recusava e que não eram os da sua própria e aristocrática História familiar.
De duas, uma (para a concepção viscontiana da vida e do  mundo): ou o refinamento e a dominação efectiva e senhorial dos seus; ou os despojamentos, a indefesa institucional e a nudez cultural dos operários agrícolas, dos descamisados do sul, dos pescadores da Sicília, sobre os quais repousaria doravante a nobreza de carácter e a moral reescrita por eles da própria História. Nada a ver com o burguês eventualmente endinheirado, instalado, ignorante, pretensioso, sem estética porque sem valores nobres a defender. 
Visconti acompanhava as análises teóricas dos partidos comunistas de então: o fascismo, ou o nazismo, representariam a fase final do capitalismo no mundo, a luta de classes chegada ao seu ponto extremo, e a essa fase, muito científica e naturalmente, se seguiria a formação da sociedade socialista.
Mas a História não deu razão a Visconti. Nem a ele nem a muitos outros dos seus companheiros.
Não foi a classe operária nem a classe camponesa, não foi o povo que sucedeu à burguesia, nem a sociedade socialista se instalou em lugar da sociedade capitalista em ordem a uma sequência teórica da História e a uma reposição de valores humanos. Não foi o povo que sucedeu à burguesia no comando do gosto e da vida. A História traiu Visconti. O povo o que quis foi também ele ser burguesia – de preferência com dinheiro, capitalista, decadente.
É com Jean Renoir, em Paris, em tempos politicamente agitados do Front Populaire a anteceder a invasão nazi, que Luchino Visconti, o jovem e elegante aristocrata milanês criador de cavalos, o rico e diletante Luchino, frequentador da suite do Ritz onde vive a amiga Coco Chanel, toma consciência das realidades políticas e da sua pessoal situação histórica.

                                                                


E Visconti vem a tomar partido na luta de classes. Visconti está presente na acção colectiva. Integra-se na resistência italiana. Chega a ser preso. É libertado – seguramente devido ao nome.
A consciência individual é o elemento propulsor de uma acção. E Visconti tomou consciência. Ele, o proustiano Visconti, o conde Visconti, o melodramático Visconti, o progressista Visconti, o decadente Visconti…


A História traiu Visconti. A convicção materialista-histórica de Visconti quanto ao desenvolvimento da luta de classes estava errada. Nada se passou como, teoricamente, deveria ter-se passado. É aí, nesse falhanço, nessa decepção, nessa amargura profunda, nesse crepuscular e nostálgico esteticismo, nessa decadência ideológica, que está muito da beleza do cinema de Visconti.
 
A História, antes de ser escrita e teorizada é vivida, e este é o filme de um homem que viveu intensamente a sua História e a História do seu país, uma História que pode ser vivida e escrita nos campos de batalha, nas ruas, nos gabinetes, mas também sobre as tábuas de um palco ou na plateia de um teatro…. ou num écran de cinema.


Por menos que pensemos no assunto, ou por mais que as vicissitudes da vida corrente nos façam esquecer dela, a verdade é que desde o nosso nascimento até à morte, estamos a vivê-la, a História, as mais das vezes sem podermos intervir nela por não a estarmos a compreender.