domingo, 9 de junho de 2013



        ELIPSE



Now is the winter of our discontent made glorious     summer by this sun of York; and all the clouds that lour’d upon our house in the deep bosom of the ocean buried. Now are our brows bound with victorious wreaths. Our bruised arms hung up for monuments; our stern alarums changed to merry meetings; our dreadful marches to delightfull measures. Grim-visag’d war hath smooth’d his wrinkled front.
(…)
Dive, thoughts, down to my soul.
                                               Shakesperare – Richard III


Rapaz de vinte anos, de orígem cabo-verdiana (simbolicamente ou não chamado Lenine), morto à facada numa escola da Amadora por causa (dizem) de um par de óculos escuros que custava 5 €. Ampla cobertura mediática. O assassino ainda não foi apanhado.
A uma avenida do Lumiar é dado o nome de Álvaro Cunhal. Discursa o presidente da Câmara, chamando os cidadãos à responsabilidade cívica para lá das diferenças ideológicas. Canta-se a Internacional.


É muito costume dizer-se que não é possível viver bem o presente, ou compreender o presente, ou sabe-se lá se mesmo o futuro, sem conhecer o passado, sem compreender o passado, sem evocar até as chamadas lições do passado. Mentira. Conversa de velhos. Conversa minha. O presente é tão incompreensível que para o compreender já nem vale a pena conhecer o passado, o passado já não nos serve de muito, o passado já pouco nos tem a ensinar sobre os caminhos deste estranho presente.
Ai… o passado glorioso de Portugal, terra de heróis, guerreiros, navegantes, santos, jurisconsultos, poetas… a nobreza de alma, a fidelidade aos princípios cristãos… a simpatia natural do povo…
Acho até que a realidade do mundo e das notícias que todos os dias vemos nos telejornais nos dá da bizarria de muitos dos seres e dos acontecimentos do presente um fortíssimo sentimento de irrealidade.
Cabe na cabeça de alguém de sãos princípios que administradores de empresas sejam ao mesmo tempo deputados e representantes dos meus interesses; ou que deputados membros da comissão de obras públicas que trabalhem para empresas de construção civil: ou que deputados da comissão de saúde trabalhem para laboratórios médicos?  
Qual o cidadão decente que se lembraria da existência de deputados (os eleitos do nobre povo) que tivessem o descaramento de criar legislação em que incluíssem excepções só para beneficiar amigos, correlegionários, irmãos de obediência?
Se eu soubesse que havia deputados meus representantes que se sentavam na ínclita casa da democracia para estarem ao serviço de quem lhes financiou as campanhas e não de quem os elegeu… não sei que faria. Que faria?


Nada. Só me restava deixar de votar. Auto-silenciar-me civicamente.
Ou rir-me dos debates parlamentares.
Ou as duas coisas.
E deixar de fazer claque pela selecção.
E bocejar a cada desfile da delegação portuguesa nuns quaisquer Jogos Olímpicos.
E ficar indiferente ao ouvir o hino e ao ver um qualquer Carlos Lopes que tivesse chegado primeiro que os outros a qualquer lado.


E abandonar de vez e radicalmente o orgulho (que nunca foi muito, confesso) de ser português.

 Ah, sim, tudo isso e mais umas botas se viesse a saber que a lei do financiamento dos partidos não era muito mais do que uma  lei de apoio à corrupção, porque são os bancos e as construtoras quem  financia os partidos, partidos que por sua vez vão rotativizando cargos entre governo, parlamento, bancos e construtoras para manterem um  olho sobre os pontos estratégicos; para, se preciso for, valorizarem terrenos à ordem dos dois mil por cento só para beneficiar um determinado alguém. 



Se viesse a saber que tudo o que atrás disse era verdade sobre os meus representantes cívicos o que eu não diria da chamada democracia portuguesa… o que eu não faria…
Que faria? Nada. Nada que lhes aquecesse ou arrefecesse.
Ficaria a saber que o sentido cívico pode valer um par de óculos escuros de 5 €.

         Quando falo com certa gente mais nova do que eu – e já não digo novíssima, digo na casa dos 30 – parece-me falar com seres de outra espécie, a espécie dos cultores da elipse. A conversa mais esfusiante e de êxito garantido em qualquer círculo nos meus tempos de jovem não fará mover uma ruga, um músculo, um sobrolho a muita da rapaziada de agora. Olha.. lá está este… convenceu-se de que era engraçadinho e agora deixem-no.

Pode ser que seja isso. Mas a rapaziada de agora, educada pela televisão e respectivos apresentadores e comentadores, pela militância ignorante, pelas facadas nas escolas por dá cá aqueles óculos escuros de 5€, pela preciosa moda das tatuagens satânicas e dos piercings de cadastrado, dos cabelos emproados à índio, parece não achar graça a muita coisa que saia fora das palhaçadas mais boçais e óbvias dos concursos e das lusas novelas gritadas em cores berrantes. Sobre qualquer assunto que não lhes diga directamente respeito é o silêncio, o laconismo, o sorriso amarelo-ovo. E aplicar uma elipse e passar depressa ao seu próprio e pobre mundo. 


Por vezes, começo a acreditar que a raça humana está a transformar-se – se não estiver já totalmente transformada – e já não é a mesma que conheci até aqui há uns anos, até aos anos, digamos 80…

         
                                                               

Os dramas familiares podem dar boa nota das transformações. Lembro-me nos casos crescentes de violência na família, os cada vez mais insuportavelmente frequentes casos de crime na família.  O que provocará isso? Álcool? Droga? Televisão? Dinheiro, ou falta dele? Exemplos dados pela política e pelos políticos mediáticos? Jogos de computador? Mudanças genéticas?
Os excessivos casos de abuso sexual na família, as demasiadas mulheres assassinadas por maridos ou namorados, o aumento do consumo de anti-depressivos… porquê?
No caso das violências domésticas será porque eles sentem algum surdo e sanguinário mal-estar pelas atitudes emancipadas delas? Será só álcool? Só droga? Só televisão? Só jogos de computador?  Só mudanças genéticas?
Será que os factores de mudança cultural e civilizacional, as doses maciças de televisão, os jogos de computadores, a ambição do dinheiro fácil, as 6ªs feiras à noite com ecstasy e bebedeiras de caír, o fenómeno futebolístico vivido na sua vertente mais primitiva, são suficientes para explicar tantas qualitativas mudanças comportamentais?

Será o desespero de um optimismo que invade os mais novos, o optimismo que se sabe mentiroso mas que vicia, causa dependência e obriga a viver nessa mentira, a primeira causa de tudo isso?
Os nossos clubes podem jogar um futebol de fazer sono, a nossa selecção pode não atingir os objectivos, e dir-se-á sempre que a época foi positiva, mesmo quando não se ganhou nada e se teve todas as possibilidades de ganhar. Dir-se-á  sempre que se tiraram lautas lições e que “agora vamos trabalhar”. E enfim, os nossos governos podem não estar a fazer grande coisa pela nossa qualidade de vida, (muito antes pelo contrário, como todos sabemos) mas esperam-se sempre as sondagens positivas e ninguém liga pêva a oposições que já foram experimentadas no poder, e quando já sabemos o que podemos esperar delas.


Ou será como diz o outro, de vitória em vitória até à derrota final?


Como será a nossa derrota final?


A sustentabilidade financeira das instituições. Mas há tanto tempo que se anda a tratar dessa sustentabilidade e ainda não se percebeu que, mesmo a funcionarem bem e em pleno, elas são insustentáveis? Insustentáveis numa terra de tanta gente insustentada. E alargando um pouco se poderá dizer que o próprio país está, é, insustentável.
Ou só é sustentável para a qualidade da canalha dos 10 ou 15% que nós elegemos de boa fé de tantos em tantos anos – e elegemos porque na nossa cabeça acontece um gap, uma amnésia temporária, e passamos uma elipse sobre tudo o que sabemos dos nossos candidatos quanto ao poder de fazer leis e administrar justiças.
Um ego deve ser exaltado mesmo que irracionalmente, mesmo recorrendo à elipse. Alguns blogs falam-me disso. Alguns blogs com receitas de cozinha, gatinhos, florinhas e outras patetices, ou as infindáveis afirmações do lugar comum lido nos jornais e repisado  em arremedo de ensaio filosófico feito para si mesmo e para dois ou três amigos… sim, como eu estou a fazer agora…  
E é absolutamente necessário às gerações que mandam no presente desviar de si, entre outros incómodos, a doença da memória. Ou pelo menos evitar essa doença no quadro da tragédia de não se poderem evitar outras – outras doenças e outras tragédias.
Conversar com jovens – bem entendido, certos jovens - é sentir-me um chato insuportável, para eles e para mim mesmo, homem de um tempo em que uma das grandes riquezas era podermos ouvir as histórias dos velhos, pais, avós, os seus tempos, as  aventuras do viver esses tempos, e tempos que, de alguma forma, foram ainda os meus.
Conversar com jovens, se tal é possível de ser dito assim, é sentir que tenho demasiado para dizer, demasiado e desnecessário e pouco oportuno, porque é o ronceiro e rotineiro dia-a-dia o que mais interessa e não a aventura – pelo menos a que não meta grandes carraspanas de cerveja, charro e outras coisas nos bares de fim de semana.
Conversar com os jovens dá-me a sensação de falar a quem tem a certeza de que já nada tem para ouvir, porque vive em pleno e em definitivo o seu tempo, presente, passado e futuro na mesma leva, e porque o seu tempo é um tempo de laconismo impensado, impensante, e porque o seu tempo é o último tempo que se pode viver.
Só me interessa o que se passa comigo, o que eu próprio vi, senti, experimentei – pensam, se pensarem alguma coisa, eles. O que está fora deste meu âmbito não existe. Para mim, não existe. Ponto final. Elipse. Vamos lá falar do que interessa: dá-me aqueles óculos escuros que compraste por 5 €…
Mas se existir? Ora ora, mesmo que exista sou eu que não quero que exista. Incomoda-me que outros saibam, vejam e vivam o que eu não sei nem vejo nem vivo, o que eu nunca vivi. Incomodam-me as histórias dos outros. Incomoda-me que outros gostem do que eu nem sabia que existia. Incomoda-me que existam coisas que eu não sei que existem. Incomodam-me realmente os outros. Não preciso para nada da vida deles, da sabedoria deles. Não preciso deles. Estava capaz de os aleijar, de os matar. Do que eu gostava era de ser rico. Ah, sim, gostava tanto de ser rico… para quê? Para não fazer nada. Para não ser incomodado pela vida. Para não ter que ouvir os outros…

                          

GARCIN – O bronze. Pois bem! Chegou o momento. O bronze está aqui, olho para ele e compreendo que estou no inferno. Disse-vos que estava tudo previsto. Eles tinham previsto que eu estaria diante desta chaminé apertando nas mãos este bronze e tendo sobre mim esses olhares. Todos esses olhares que me devoram (volta-se bruscamente.) Ah, são apenas duas. Pensava que eram muito mais. (Ri.) Então o inferno é isto? Nunca julgarias… lembram-se… o enxofre, a fogueira, as grelhas… que brincadeira! Não são precisas grelhas, o inferno são os outros.
                                                        Jean Paul Sartre- Huis Clos


Mas são os rapazes dos 30 anos que hoje em dia entram para os partidos, e para o parlamento, e para os governos, e administram as nossas empresas; as empresas onde trabalhamos; as empresas de onde somos despedidos quando passam uma elipse sobre as nossas reais capacidades – que digo eu… sobre a nossa real existência.
Na vida como no teatro ou no romance: não se pode mostrar tudo, contar tudo; é preciso seleccionar os heróis; é preciso organizar a intriga e dispor os heróis em função dela. Impõem-se as elipses. Que factos, que pessoas, que temas, serão indispensáveis a uma conversa no 3º milénio? Que pessoas, que factos, que temas convirá silenciar? Que tipo de intriga íntima determina os silêncios de um jovem do 3º milénio?
Presente, passado e futuro: tenho dúvida de que tais coisas ainda existam. Ou então é como respondeu o Jean Luc Godard quando disseram que os filmes dele não tinham princípio, meio e fim, e ele dizia que ai isso é que tinham sim senhor, mas não obrigatoriamente por essa ordem.


O laconismo reinante não dá o direito de dizer. Um tempo de elipses. Um dos direitos de que me sinto espoliado nas minhas relações pessoais com jovens: o direito de dizer.
Nunca ninguém da minha idade teria podido conceber um tempo em que tudo já estaria dito. E definitivamente dito quando ninguém ainda tinha dito o que importava de facto dizer. E que era preciso passar à frente, mudar depressa de assunto até ficar sem assunto, ah, o vazio, a delícia, porque já acabaram os assuntos, porque é melhor que acabem de vez os assuntos.
Como diria André Malraux aplicado a toda a Arte, a vida mesma, a vida dita real, pode construir-se e estruturar-se sobre um sistema de elipses. Aliás, a elipse é o que permite a Arte, a literatura. Talvez a vida.
Pode acontecer que seja na vida, como na arte narrativa, o branco de uma elipse a contar, pelo silêncio, o mais significativo da história. Na vida dos povos pode mesmo ser a elipse memorial a força mais pressionante e impositiva da chamada realidade. Há uma poética de corte, colagem e montagem na nossa memória- E é sobre ela, e nas conjunturas dela, que vivemos a nossa vida.
Vive-se, acho eu, uma vida supostamente feliz de elipses. O que se pode dizer agora que já não tenha sido dito antes? Ou que não venha a ser dito depois, um dia, um ano, um século depois, até ao tempo em que nada possa ser dito. E quanto mais tarde chegar o dia de falar de certas coisas, melhor. Ou até ao dia em que não será permitido dizer, falar. De certas coisas.  Porque a branca elipse dos silêncios de hoje pode dizer tudo dizendo nada.
A grande acentuação retórica e verbosa que inclusivé a comunidade internacional  e a sua comunicação fazem através dos seus grupos mundializados de interesses induz o laconismo, dispensa a linguagem, organiza outra linguagem, ordena outra comunicação.
Facto é, por exemplo, que das conversas que o cidadão mediano pode ouvir de outros cidadãos medianos, nos restaurantes, nos cafés, no Metro, a maioria esmagadora versem assuntos financeiros. Nunca se deve ter ouvido tanta gente de recursos económicos medianos, ou mesmo abaixo de medianos, falar de juros, de empréstimos, de amortizações, de prazos, de impostos. De bancos. O banco isto, o banco aquilo. O meu banco faz assim, o meu banco faz assado…
A entidade banco domina a preocupação talvez já não tanto daqueles que têm largas posses como daqueles de posses escassíssimas. A tal coisa de que falava, julgo que o Bernard Shaw: só um tipo de pessoas pensa mais em dinheiro do que os ricos: os pobres.
O endividamento familiar atingiu há muito níveis record? Mais uma consequência das elipses lançadas sobre a realidade. Ou do falso optimismo (e do tal louco pensamento positivo) que foi preciso instalar na mentalidade enferma dos portugueses. O laconismo é irmão da pressa e há muita pressa na civilização do Terceiro Milénio. E há uma fundamental pressa, que é a de ganhar e perder dinheiro – para os escolhidos que ainda conseguem dar-se ao luxo de jogar esse jogo...
A verdade é que o tema bancos ganhou jus a tratamentos de primeira página, matérias que só os iniciados e bem informados do grande capital puderam compreender em toda a extensão, enquanto o homem comum, entrou na elipse e, se se apercebeu de alguma disfunção, só temeu pelo pequeno e rico dinheirinho que lá tem depositado.
Alguns dos jovens com quem tenho experiência de conversação, ouvem os outros por uns momentos, expendem uma sentença fácil sobre o assunto – algo que se leu num cabeçalho de jornal ou que se ouviu a terceiros – e passam a outro assunto. Ou, na maior parte das vezes, não passam. Só se o assunto lhes disser directa e quotidianamente respeito. A elipse é completa, adeus pá, até qualquer dia, fica bem…
Ao conversar com jovens, descubro com mágoa que tenho demasiado a dizer sobre os mais palpitantes assuntos que não interessam a ninguém – e os jovens são toda a gente. E que quase nada do que me preocupa lhes interessa a eles, que não podem suportar a mínima repetição de um episódio, nem que seja divertido. Porque, enfim, é divertido para mim e para os da minha geração, mas as graçolas também não são intemporais.
Os jovens têm pressa. Pressa no acesso às oportunidades que a vida pode oferecer, de carreira, de realização profissional? Não necessariamente. Talvez mais pressa de acorrer às oportunidades de prazer, de consumo, de descanso. Ou da suave e suprema elipse que a natureza nos reserva a cada jornada, o sono. E entre os mais jovens – e não só, convenhamos – há quem prefira lançar sobre a vida a elipse da noite, enquanto outros preferirão a elipse do dia.
Feliz ou infelizmente, o quotidiano não é um filme onde se planeie uma acção agora e na cena seguinte essa acção já esteja a decorrer, poupando o espectador aos silêncios intermédios e às acções inúteis para o enredo. No quotidiano não há acções inúteis; ou, havendo-as, não as há, porque todas guardam em si um sinal a confirmar ou desmentir, uma promessa de significado da sua sublimidade ou da sua perversidade, uma promessa que a vida pode vir a cumprir ou não. A elipse recusa a promessa. A elipse só mostra a certeza.
A elipse é o que põe em destaque o esplendor máximo dos significados.
O discurso do dinheiro, mesmo para quem não tenha onde caír morto, é naturalmente lacónico, começa e acaba nele próprio. Não desenvolve. Não discorre. Estabiliza. No ter ou no não ter. No conseguir ter, ou no saber que hoje se tem e que amanhã pode não se ter. É aí que começa e acaba a vida. Pouco mais importa. Já nem o amor importa assim tanto – importam mais os ciúmes: podem matar e contribuír para os índices da violência, a doméstica e a urbana. Mas é o factor económico que domina as vidas. O pequeno interesse material elimina excrescências dialogais, comunicacionais, impõe elipses, “deixemos isso, vamos mas é ao que interessa, quanto é que o teu banco te cobra por…”
Uma elipse. Vamos ao que interessa. Taxas de juro. O que não interessa: o que não seja dinheiro. O que não interessa mesmo nada: a experiência humanística, o pensamento, a memória, até o humor, até o amor!
Alternativa elíptica na conversação banal de autocarro: as doenças. Evidentemente que com concentração nas faixas etárias mais óbvias. “Mas olha, não penses nisso agora, vamos ao que interessa… o que é que o médico afinal te disse dessa dor que não te larga? Ah, calcula… e  que é que ele te receitou? Deixa-me cá que eu também tenho andado muito atrapalhado desta perna…” 
Em breve, a elipse de pensamento e de existência promovida pela doença pode descambar noutra doença pior, como  pode descambar no aterrador abismo económico: o custo de uma consulta, a alta das taxas moderadoras, o custo dos medicamentos, a falta dos mesmos medicamentos, o custo dessa operação que precisas de fazer, mulher…
As técnicas de elipse verbal não deixam de ser técnicas de defesa de um cidadão indefeso perante os seus deputados e na sua magnífica democracia.
Evitar falar do que nos dói, do custo de vida, do tal empréstimo, da vida conjugal que vai cada vez pior e não se sabe porquê, do terror de um filho ou filha que possa caír na droga, no posto de trabalho cada vez mais ameaçado (ou que já foi destruído), no chefe, ao qual o funcionário nunca sabe quem classifica a incapacidade e incompetência, mas que tem o direito de classificar o funcionário ao seu descricionário critério de elipses.
A técnica da elipse conversacional com que o cidadão se defende dos defeitos e terrores próprios não os mencionando estende-se à convivência social e política através da abstenção eleitoral. Já se chegou aos 50% de abstenções e não se conseguiu acabar com a classe política maioritariamente mais ou menos corrupta, porque não se conseguiu, com a abstenção, derramar uma gota de vergonha nas consciências governantes.
 “Mas deixemos essa conversa dos partidos, que não leva a lado nenhum, e vamos mas é ao que interessa…”  A política são os partidos e não se pode saír disto. E sobre esses partidos é melhor nem falar, é melhor que se faça uma elipse na conversação.
Uma elipse pode comportar um desespero. A insaciável necessidade da auto-estima, a instituição recente da obrigatória auto-estima como condição de sobrevivência mental pode obrigar uma pessoa a viver na elipse. Se se lhe faz um reparo… pronto, pronto, não se fala mais nisso, já se ouviu, passemos adiante. A elipse é óptima panaceia para a culpa. Ninguém tem culpa de nada, ninguém é responsável por nada. E se os factos para essa responsabilidade apontam, que se passe uma elipse sobre os factos, sobre as vidas e as palavras… uma elipse sobre o que for preciso.
Uma elipse pode traduzir uma inevitabilidade. Não interessa analisar  ou criticar o que foi feito, porque o que está feito feito está. É melhor não conversarmos acerca de política porque o nosso destino está marcado, e lá está, a política são os partidos, e os deputados, e os ministros, e os partidos, os deputados e os ministros já toda a gente sabe o que eles são, como funcionam, o que representam, o que querem, e já dissemos e ouvimos dizer tudo acerca deles e passemos sobre esse assunto uma elipse verbal e falemos do que interessa… “quanto pagaste de IRS no ano passado? Aqueles malandros…”
Olhem, os políticos. Olhem que espécie elíptica. Os políticos sobrevivem em cheio numa elipse. Já pouco importa ao mortal comum o que eles dizem. Operam em circuito verbal fechado. Falam uns para os outros. A sociedade, ainda que vote – porque no seu vazio existencial se pela por um belo despique seja em que área for -, constrói a sua elipse mental sobre o discurso deles, “isso é tudo conversa, o que eles querem sei eu, deixemos isso e vamos ao que interessa… mas quem é que o Benfica vai comprar para o meio campo se o Matic se for embora?”  
A realidade, tal como não a conhecemos é fluente, contínua, e exerce-se em simultaneidades de espaço e tempo. A realidade é isso mesmo: o tempo, o espaço. Só compreendemos uma noção de realidade e de tempo/espaço por meio das elipses que possamos descrever. Só pela elipse poderemos confrontar o tempo e com a sua realidade.
O que é que o drogado busca no produto senão a sua elipse de vida?
A elipse, em narrativa, é um branco de acção, uma cena que salta para outra sem percorrer as mil cenas que medeiam entre uma e outra; um salto no tempo; a omissão do que não interessa directamente para a acção. Não se pode contar a vida toda nos seus milhões de pequenos actos e pensamentos.
A democracia portuguesa, ao renascer no 25 de Abril, tentou também a elipse sobre a realidade da ditadura, o salazarismo. Não interessa falar dele, o que teve de sinistro e o que pudesse, sabe-se lá,  ter de bom. Não, foi tudo mau. Tão mau que é melhor nem o analisar e pensar que nem existiu. Um salazarismo que por sua vez tinha adoptado a elipse quanto à 1ª República.         
Mas com aquele célebre concurso televisivo das grandes figuras nacionais os participantes quiseram salvar Salazar da elipse, elegeram-no (como a Cunhal, o que ainda atrapalhou mais os cálculos da elipse), e o sentido utópico-inconsciente da preferência seria o de votar à elipse as realidades actuais, a democracia. 
Na vida das nações e das comunidades, como na vida individual, o que aconteceu pode, daí a uns tempos, conforme convenha, sofrer o esquecimento da elipse e nunca ter acontecido, ou não ter acontecido como de facto aconteceu. É só vermos os noticiários televisivos. O acontecido não releva a quem manda nas notícias. E quem manda nas notícias é quem manda nas elipses. Lance-se uma elipse sobre o acontecimento ou a personagem. Ninguém de nomeada será alguma vez condenado nesta terra. Por exemplo. Haverá sempre, para o notável português culpado de qualquer manigância criminosa, uma elipse ao virar de uma esquina institucional. A começar pelos governantes e pela cambada dos deputados que elegemos porque não temos outros.
Ainda não se percebeu?
Parece que, trinta e tal anos passados, já nem mesmo os mais optimistas, porque mais comodamente sentados à mesa das benesses, duvidam do estado lastimoso da nossa democracia, da nossa vida. Uma democracia e uma vida de laconismos porque se acha inútil a palavra, ou até o facto real.
Quem, de facto, e do fundo do coração, acreditou no 25 de Abril e na probabilidade portuguesa de uma democracia?
Alguém acreditou. Mas passados quase 40 anos pode-se começar a deixar de acreditar. Pode começar a calar-se. 25 de Abril? É melhor nem falarmos nisso. Elipse. As novas gerações, as que não conheceram a censura e a PIDE, as conscrições e as repressões, cultivam a elipse, parecem já ter nascido caladas, temerosas, ou pelo menos lacónicas. As novas gerações e doravante as velhas…
O mundo mudou muito em 40 anos. Agora temos os processos de opinião, é verdade. Já ninguém está disposto a prescindir das elipses. Com medo das consequências.
 Eu, que vivi 30 anos da minha vida em tempos de salazar-marcelismo, nunca me apercebi tanto do medo das consequências de uma palavra nos meus concidadãos como nestes  tempos europeus de democracia e miséria material, moral e institucional. Talvez seja por isso que o pessoal mais de esquerda me chama de reaccionário-quase-fascista. Talvez seja por falar nisto que o pessoal mais à direita afirma que eu tenho um trato com os comunistas…
Corrigir a vida, os homens, a democracia? Corrigir as sociedades? Impossível. As sociedades e respectivos sistemas perfeitos, como as democracias, são incorrigíveis.


Hoje deu-me para André Malraux e estou como ele, que quando jovem, e quando apanhado com a boca na botija a saquear templos kmers no Cambodja -  terra de muitas formigas vorazes às quais as autoridades davam a comer as cabeças dos criminosos com os corpos enterrados até ao pescoço - já não acreditava em tal: as sociedades humanas não seriam mais interessantes do que os aglomerados de formigas vermelhas presas num ciclo eterno de corrupções.



A elipse pode ser uma forma de corrupção de verdades vitais, de convivências, de tolerâncias, de diálogo das diferenças ideológicas, porque o sentido da vida pode estar nuns óculos escuros de 5 €.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

   UM PENSAMENTO LOUCAMENTE POSITIVO

        Portugal é um dos dez países que mais ameaçam o resto do mundo com as suas severas atribulações orçamentais – dito pelo FMI.


        Mas vá lá, por uma vez estamos bem acompanhados, EUA, Reino Unido, Japão, França, Itália… é verdade, mas com a vida dos outros podemos nós bem…
        Sim, eu sei, isto de finanças públicas, macro-economias e sociologias não é para amadores…
             Ou é?
        Estou a ver que é. Que também é. Por aquilo que se tem lido, visto e ouvido, e pelos tantos palpites contraditórios de especialistas, começo a crer que aquelas disciplinas tão intimidantes para o homem da rua podem ser uma questão de fézada. E começo a crer que os amadores superficiais (eventualmente pessimistas) também podem ter direito a umas bocas analíticas e a uns prognósticos. É de borla e não responsabiliza ninguém – o que se enquadra perfeitamente na especialidade nacional, não responsabilizar ninguém.


        E quem foi o filósofo que disse que prognósticos só no fim do jogo? E quem disse que não estamos mesmo mesmo a chegar ao fim do jogo?
        Bem, mas ao dizer amadores quero referir-me ao tal homem da rua, ao tal cidadão especializado somente no senso comum, e a que por isso mesmo se costuma chamar de cidadão comum, e em função do qual existem finanças públicas, e em função do qual existe aquilo que de mais melindroso pode existir e que se chama política. O especialista do senso comum é o actor principal da comédia e da tragédia que pode representar-se na vida pública e em nome de quem se fazem – e em grande parte dos casos não fazem – as coisas. É ou não é? É.


        É esse velho e memorialíssimo homem da rua, rudimentar de educação e cultura, eleitor só porque sim, inefável e rancoroso pagador de impostos, que lê nos jornais o estudo da Augusto Mateus & Associados e fica sabedor de que Portugal recebeu (ou foi recebendo) em fundos comunitários, durante 25 anos, qualquer coisa como 9 (nove) milhões de euros por dia, destinados a orientar-lhe um pensamento loucamente positivo quanto à sua vida, a presente e a futura. E se lhe perguntarem por que razão ele (e os seus parentes, amigos e conhecidos) com tanta injecção de dinheiro não está hoje a viver melhor do que na verdade vive, ele não sabe responder e fica confundido, e o pensamento dele do positivo passa depressa ao negativo.
        O cidadão da rua sente-se a viver de calças na mão e fica confundido com a desorientação e os cálculos sistematicamente errados dos seus maiores, governo, parlamento, presidente da república, depois do formidável abanão civilizacional que foi a entrada plena na U.E. em 86.
        Pois foram justamente esses milhões fáceis, caídos do céu aos trambolhões e em barda, os chamados milhões da CEE, que criaram  no português desprevenido a ilusão de que, passados os míseros fadunchos do salazarismo, era chegada a hora da prosperidade, da modernidade de vida, do optimismo desmedido. E assim estava instituída a moral inescapável do pensamento positivo. Loucamente positivo.


        Ainda me lembro, pois lembro, de um 1º ministro Cavaco Silva muito ufano, a gabar-se de Portugal estar a ser visto na Europa à sua própria imagem (própria dele, sim, Cavaco) de bom aluno, o bom  aluno que ele deve ter sido. A esta hora talvez o presidente Cavaco não esteja tão ufano, nem se deva gabar da qualidade do aluno europeu chamado Portugal.
        Pois por ser bom aluno na Europa do dinheiro essa Europa premiava Portugal com as tais injecções de capital que o bom aluno, a cada vaca obesa que entrava a fronteira do Caia, insistia em cultivar um pensamento loucamente positivo e ia perdendo a cabeça em shots atrás de shots de sucesso e empreendedorismo como numa sexta feira à noite de Bairro Alto, mostrando-se mais vocacionado para desperdiçar o que não lhe custou a adquirir do que a aproveitar a mão que se lhe estendia.



        9.468 quilómetros de estradas na fase do optimismo e do pensamento loucamente positivo que se inaugurara no país do fado, do futebol e de Fátima e que fazia sonhar o cidadão comum beneficiado com tanta fartura. Sonhar? Sim, sonhar. Com  as auto-estadas dignas do Ferrari que estava em vésperas de ter (e com as casas de campo e praia que estava em vésperas de comprar; e com as garinas brasileiras boas como o milho que estava em vias de engatar). O Ferrari  ainda não o tinha. Mas tinha que o ter quanto antes, não podia deixar de o ter para poder voar naqueles 9.468 quilómetros de estradas e auto-estradas.
        Hoje, são 9.468 quilómetros de auto-estradas por onde se passa pouco, e por onde o cidadão comum não voa.  Não voa porque o que já voou foi o seu querido Ferrari vermelho, e mesmo o modesto FIAT está encostado lá na rua. Ou então não encostou nada o carro, o que não está é para pagar as exorbitâncias de portagem e passou a transitar pelas velhas, bucólicas e tradicionais estadas salazaristas – é o que se lê na imprensa – e assim promove ele alguns rombos na economia das empresas chupistas que lhe cobram as exorbitantes portagens.

                                 
      
      26.000 milhões dispendidos em cursos de formação profissional.  O homem da rua pergunta porque, com tanta guita, não formaram então gestores como devia ser, honestos e competentes, que não levassem  milhares de empresas à falência, e directores que soubessem  planear, prever, e gerir, e motivar a produtividade dos seus dirigidos (loucamente embevecidos com o pensamento positivo a que os dinheiros de Bruxelas obrigaram) com vista à máxima produtividade, à máxima competitividade.


        26.000 milhões! Então porque não se formaram mentalidades políticas que tivessem sabido governar honestamente e moderar os pensamentos loucamente positivos, por forma a que o país não chegasse à situação em que está?
        O que resultou de tão volumoso investimento em cursos de formação foi uma maior qualificação de recursos humanos para o mais impressionante nível de desemprego que alguma vez por aqui se viu – 50 empregos por hora destruídos na economia portuguesa (5 de Junho).


        Foi como se houvesse todos os dias e ao desbarato larga oferta de lugares de administrador à espera dos candidatos altamente qualificados. E deu como consequência a diabólica situação de um homem (ou mulher) comum ficar com os seus atestados de alta qualificação académica mas não conseguir com eles um emprego daqueles mais corriqueiros mas que dão para ir comendo uma bucha, e exactamente por ter qualificações a mais para o lugar e os patrões torcerem o nariz a doutores em certos lugares; enquanto outros, os cábulas, também não conseguiam emprego de jeito por terem qualificações a menos. Daqui se seguindo que, no fim das contas, o que mais convinha para obter esses empregos não seriam tanto as qualificações académicas, ou o alto potencial do candidato, seria, sim, ou um avental asseado com um esquadro e um compasso bem desenhados, ou um rutilante cartão de sócio do partido político mais empregador em cada conjuntura.


        Altos níveis de qualificação académica das novas gerações. Doutores, quer-se dizer. Doutores de matérias irrelevantes, tantas vezes, mas doutores, complacentemente avaliados e classificados pelo alto só porque convinha politicamente nivelar os aproveitamentos escolares pelos índices europeus.
        E concomitantemente à formação de quadros superiores, há apoio europeu (entre 2000 e 2006) a 12.000 empresas pequenas e/ou médias. Empresas essas, evidentemente, destinadas à falência em 2012, 2013…

                                            
  
                                                                    
        Falando de doutores, não esquecer as relvadas e loucamente positivas licenciaturas, as socráticas suspeitosas e dominicais licenciaturas. Essas e outras que a gente não sabe.

                          
        (Ah, sim, amigos e amados irmãos, existe mais aquilo que a gente não sabe do que aquilo que a gente sabe…)
E sem nunca se saber também ao certo (por não constar do correctíssimo relatório) se se fez mesmo formação de quilate académico real, ou se, pura e simplesmente (e loucamente), as universidades (as mais privadas sobretudo) se limitaram  a vender canudos e a figurar na estatística.

        Ou então 26.000 milhões de euros aplicados em cursos de formação que formaram efectivamente técnicos competentes, quem sabe se mesmo brilhantes, cujo destino era emigrar – incentivados a isso pelo próprio governo – e pôr as suas prendas ao serviço de países outros, enquanto por cá se cantava o facto-fado de não haver gente capaz para levantar o país.
        Foram milhões a facilitar. Milhões a fomentar o optimismo parolo. Milhões a desencadear facilidades de vida. Milhões em desprezo da qualidade real dos indivíduos e dos conhecimentos e a instaurar o primado da quantidade. Milhões geradores da mediocridade que é mãe do feio e do mau gosto; mau gosto que é pai da imbecilidade e tio da incivilidade, que é a madrinha da anarquia, da impunidade e da irresponsabilidade, padroeiras por sua vez da corrupção que é a raínha da descrença, da desconfiança civil e do desinteresse nacional. Isto anda tudo ligado. Pois anda.


        E estádios de futebol. Magnífico investimento. O que não se sabe é se foi um investimento no desporto nacional se foi um investimento indirecto no futebol sul-americano, visto que pouco falta para o seleccionador nacional não ter por onde escolher entre futebolistas portugueses acima da mediania e ter de naturalizar  brasileiros – qualquer dia argentinos, sérvios, eslavónios. Estádios que custaram  os olhos das caras e que continuam, alguns, a custar às respectivas câmaras os outros olhos que houver…5 milhões de prejuízo.
        Uma data de centros de saúde construídos à pala dos milhões europeus. E aqui só me vem à ideia o meu próprio caso, sei lá quantos anos à espera de ter médico de família, eu homem da rua, cidadão militante do senso comum…


        O nível de vida melhorou em Portugal em consequência da injecção dos milhões europeus?
O relatório diz que sim. E diz que esse sim é um sim óbvio.
        Que seja sim. Quem sou eu para discordar? Que o seja assim tão óbvio já me causa alguns suores frios.
        Que o nível de vida melhorou… o nível de vida de quem? De quantos? Se o nível de vida melhorou, porque chegámos à tão indigente situação em que o país está? É da conjuntura internacional. Pois seja. Mas a melhoria que vinha de tão longe, 1986, não era brincadeira, podia ter-se aguentado se fosse real. Mas talvez não fosse. Talvez o que tenha melhorado tenha sido a concessão de crédito. E o crédito é mágico, disfarça a realidade, pinta-a de cor-de-rosa: rosa flamejante, primeiro, e depois rosa-chá, e por fim, no fecho das contas, rosa-velho.
        Se a melhoria do nível de vida português foi uma ilusão demoníaca, também não deixa de ser óbvio que o nível de vida de alguns subiu, e muito, e de que maneira – BPN, BPP, parcerias, limas, loureiros, valeazevedos, isaltinos… já para não falar do nível de vida que honradamente aumentou rendimentos aos correctos belmiros, soares dos santos, espiritos santos, amorins e outros, muitos, e muitos mais do que aquelas poucas famílias do antigamente salazarista.


(Não digo nada sobre a rapaziada da ex-administração do BCP que se reformou, e porque alguns deles estão indignados com os seus choradinhos 70.000 euros mensais de reforma.)


        E os outros? E a generalidade? Ou a melhoria do nível de vida nacional foi circunstancial (quando foi); ou ela se ficou por um apelo desesperado ao pensamento positivo, loucamente positivo, em que as derrotas, por uns bambúrrios de linguagem e de contabilidade, até se pareceram com vitórias. Ou até se transformaram, pela manhã seguinte, em vitórias.



        Mas sim. Sim, o nível de vida deve ter melhorado quando sabemos das loucas noites da juventude (alegadamente desempregada) das sextas-feiras no Bairro Alto, entre shots variados, cerveja, erva, coca, ecstasy.
       
                                         
         
        (O número de casais desempregados cresceu desde o ano passado para 67%.)


          Sabemos da melhoria do nível de vida pelos grandes concertos de rock que esgotam com rapidez, apesar dos preços proibitivos; e quando é evidente que a grande afluência a esses concertos é de pessoal jovem que se queixa de não conseguir arranjar emprego, pessoal jovem que se diz estar a ser financiado pelos pais, que também começam a ver os seus empregos em perigo, ou que também já perderam o emprego e estão por sua vez a ser financiados pelos respectivos pais (avós dos jovens dos concertos de rock) que vivem das suas pensões e reformas (algumas de miséria) e onde o governo não cessa de sacar…


        O grande sucesso na aplicação dos fundos comunitários alimentou mais as estatísticas do que a realidade das coisas. Foram um investimento no quantitativo em subalternização (senão em desprezo) da qualidade das pessoas e das coisas, e sendo a estatística das quantidades o mirabolante elixir que permite ganhar eleições. Claro. E sendo o ganhar de eleições (que fornece cargos para distribuir pelos apaniguados) o escopo final e privilegiado do sistema político português, desse sistema partidário em que já ninguém acredita, do qual já (amargamente, desprezivelmente) a maioria dos homens de bem e de senso comum troça cantando-lhes a Grândola Vila Morena.


        Os milhões europeus incentivaram o pessoal à produtividade? Ah, luxo, estatuto aparente, desfile de vaidades ocas, isso sim. Trabalho? Está quieto. Trabalho e competência e rigor e estratégia e produtividade: pouco.
        Os milhões europeus foram mais um afluente que calhou à maravilha ao nosso peculiar gosto de parecermos aquilo que não somos: inteligentes, pelo menos razoavelmente letrados, finos e de boas famílias, civilizados, modernos, bonitos, bem vestidos - mas sobretudo ricos.
        O tal semi-falhanço de que falam os comentários ao relatório da Augusto Mateus &Associados, pode ser semi, como pode ser total. E citando o próprio Dr. Mateus: o roteiro prospectivo da convergência tem de começar a ser construído na melhoria da qualidade das instituições e no reforço da democracia (…) para garantir escolhas colectivas mais claras e acertadas e permitir políticas públicas mais bem fundamentadas e mais eficazes na promoção do interesse geral.
        Ora aí está, o interesse geral. E outra: depois de tantos anos de milhões a chover o roteiro prospectivo da convergência tem de começar a ser construído. Começar a ser. Passados tantos anos há coisas decisivas que em Portugal ainda nem começaram a ser. E coisas, bem entendido,que servirão ao colectivo, ao interesse geral, mais do que aos interesses particulares.
        Ao fim de tantos anos, as nossas empresas ainda não são competitivas – se é que, por este andar, e passados outros tantos anos, algum dia o cheguem a ser. No fim de contas, passados estes anos, ainda não estamos preparados para enfrentar as concorrências em tempos desapiedados de globalização. Mas quando o estaremos se a nossa produtividade por hora trabalhada ainda não passa de metade da média europeia?
        E neste soalheiro país é tudo pelo contrário em matérias do social e do económico. Depois de tantos anos, a respeito de competitividade, em vez de progredirmos, pelo contrário, estamos sempre a descer. Desde 2006. Seis lugares no ranking competitivo do Forum Económico Mundial descemos nós…

                                                                               

   

           E o que me perturba mais, a mim, desentendido de finanças postas para lá do bolso do meu casaco, de macro-economias e de sociologias, é ter ficado a saber que foi maiormente com Salazar que a nossa economia mais cresceu. Entre 1962 e 1972. 7%. E assim  com cinzentismo social, miséria, barracas, censura, polícia política, fado, futebol e Fátima, emigração, guerra colonial… e escudos para desvalorizar.
                                  
                             
                                                         
        Com Salazar é que estavamos bem? Com Salazar estavamos a nossa dimensão natural? A preto e branco. Modestinhos. Pobretanas. Tristíssimos. Atrasados. Matarruanos. Socialmente inseguros. Tementes a Deus e à PIDE. De boca calada. Perdidos em pensamentos loucamente negativos. Com medo do presente e com medo do futuro. Com medo da vida. Era assim que estavamos bem?
        Quem sabe se não era…
                     
          
                                                         
              Fado, futebol e Fátima em tempos de Salazar? Essa é boa. Se era assim que a economia crescia 7% ao ano, então, nos dias de hoje, deviamos estar de cavalinho, pois nem ao Salazar lembrava instituír a civilização do fado, do futebol e de Fátima em doses tão maciças e mediáticas como hoje em dia, que quando crescemos 1% já abrimos uma garrafa de champanhe.


        Ao cidadão da rua e do senso comum que frequenta os transportes públicos e ao qual, como digo, falham as bases teóricas para o entendimento dos aspectos mais cripticamente técnicos do relatório da Augusto Mateus & Associados, escapam grosso modo as melhorias mais espampanantes que os 25 anos de um Portugal europeu nos acrescentaram.
         A gente lê e a nossa boca fica com um gosto húmido a abstracção e a minudência académicas. Mas alguma coisa percebemos. Falta-nos isto e falta-nos aquilo; não fomos capazes nem disto nem daquilo; falhámos aqui, ali e acolá: são os pontos cruciais que neste país do fado, do futebol e da Senhora de Fátima conseguimos reter com mais premência: onde falhámos, o que não pudemos, o que nos falta.
        Lidos os jornais do dia, ouvidas as tsf’s pela manhã, vistos os desmesurados telejornais da noite, conhecendo as previsões da OCDE… percebe-se que Portugal pode ser um país inviável. Se não o é já. Se não o foi sempre. Pois.


        Portugal é um dos sete países onde mais aumentam as tensões sociais – dito pela Organização Internacional do Trabalho. Pudera!


        O homem de senso comum que caminha cabisbaixo pelas ruas ouve os receios expressos por alguns notáveis quanto à probabilidade de, por força da crise, da austeridade, da recessão, dos maximalismos da troika e das canalhices sociais do governo, de um dia para o outro, perder as estribeiras e o medo salazarista que ainda o arrefece por dentro, e vir por aí abaixo, e passar à violência tipo Turquia destes últimos dias, enfrentar as forças anti-motim, apedrejar, partir, incendiar, bater, matar e esfolar, firmado no pensamento loucamente positivo de que assim resolveria alguma coisa da sua triste vida.
        Não resolvia nada, claro. Continuaria a ser gozado, roubado, explorado. Mas vingava-se. De quem? Não importa. Talvez do destino…
        O que importa dizer é que o argumento da violência social iminente é usado por alguns notáveis como incitamento ao presidente para dissolver o parlamento, demitir o governo e convocar eleições legislativas – que segundo as recentes sondagens (4 de Julho) por um lado daria maioria absoluta aos partidos de esquerda, embora por outro gostasse de manter o actual governo até ao fim do mandato, só com o quesito adicional de poder mandar o ministro das Finanças para o olho da rua. É isto: no seu louco (e novo, e ainda europeu) optimismo, a que os políticos oportunistas chamam  sabedoria, o portuga deseja cada coisa e o seu contrário, devia ser assim, mas também não era mau que fosse assado…


        Mas o presidente Cavaco Silva não é nenhum palhaço, não, não é, é preciso que se diga com toda a ênfase - porque Miguel Sousa Tavares (parece impossível) seguramente não percebe nada de circo nem sabe da humanidade, da solidariedade e da grandeza de alma das gentes do circo – e como não é um palhaço (nunca poderia ser) não iria, não vai, na conversa desses notáveis, porque também ele, tocado pelo seu pensamento loucamente positivo, crê que não há paz nem salvação fora do quadro político vigente.


        O presidente também lê jornais e vê televisão e espreita pelos janelórios do palácio. E portanto sabe que quanto mais apertada está a vida para o cidadão comum e quanto mais os espectros do desemprego e da fome vão enegrecendo os horizontes do senso comum desse cidadão, menos esse cidadão parece empenhado em alinhar em manifs, quanto mais desatar a partir coisas, ir à cara da bófia ou deitar fogo a carros.
        É um facto: desde a mastodôntica manifestação de Setembro que passou, contra a TSU, a afluência às manifs tem decrescido a olhos televistos. E, o mais cáustico, tem decrescido na razão inversa do aumento das dificuldades da vida e da proximidade do que muitos chamam de catástrofe social – se eu percebesse de sociologia saberia dizer porquê…
        Ora se o homem da rua nem para uma romântico-revolucionária passeata de repúdio se mostra virado, que outro homem da rua, que outro cidadão comum, que outro povo, podem fazer tremer o governo, o presidente ou o sistema se a desgraçada situação que está a viver nem ao menos o mobiliza para um giro gritado até S. Bento, até Belém ou até à Alameda?


        O homem da rua e do senso comum começa a desconfiar da viabilidade de Portugal como país soberano e independente no actual quadro global, ultra-liberal (impiedosamente liberal) que o mundo lhe oferece. Porque o homem da rua também leu umas coisas e ouviu umas bocas, e como tal sabe das pimentas da Índia e dos ouros do Brasil, tanto quanto sabe dos euros de Bruxelas. E pergunta-se: qual será a próxima sorte grande que  nos pode sair, agora que depois da torrente dos euros de Bruxelas o mapa dos nossos possíveis benfeitores e da quantidade de benfeitorias de que sempre precisámos para viver foi drasticamente reduzido?

    

        Subsidiómanos (para não dizer chulos) que somos de pimentas, de ouros e de euros, teremos em nós forças, vitalidade, vontade, fé, porventura talento, para empreendermos em nós uma mudança radical de vidas e de pensamentos e assim escaparmos a um destino de dependências suseranas de outros, justamente o estatuto que até aqui temos encarado alegremente e com um pensamento loucamente positivo? 

                                
       
     O século XXI, que não há muito era o futuro (loucamente positivo), está a revelar-se-nos desastroso. Quando, provincianos atrasados em tudo, partimos do quase-nada para paisagens económicas europeias, crescemos, fomos o menino Isá, o bom aluno, atento venerador e obrigado do que nos diziam os burocratas enevoados de Bruxelas, e loucamente positivos progredimos o nosso bocadinho, até que, do quase-nada, atingimos o alguma-coisita. E estagnámos. Embriagados. Loucamente positivos. A pensar loucamente em positivo. E descansámos nesse pensamento, convencidos de que tinhamos chegado. E não tinhamos. E estavamos ainda loucamente longe de ter chegado.


        Lembrei-me agora da cena bíblica. Fomos levados pela Europa ao pináculo do templo e mostraram-nos o mundo, e disseram-nos: “tudo isto será teu se prostrado me adorares”, e nós fomos adorando, até que nos cansámos de adorar.
        Ou como Mefistófeles acenando ao velho doutor Fausto com os deliciosos esplendores da juventude de Margarida em troca da alma e incitando-o a assinar o pacto…


        A Europa deu cabo da nossa alma de país salazarista, sacral, tradicional, senhorial (que persistimos em continuar a ser – um dos grandes problemas). E chegou a hora da cobrança. 25 anos depois.
Mas se não entrássemos na Europa ricalhaça e dela não respeitássemos os ditames e as severidades, o que seríamos, quem nos valeria na nossa gula dissipadora de quanto de valioso nos chega de fora, pimentas, ouros ou euros?



        É neste enguiço do “nem com ela nem sem ela” que assenta o drama da nossa viabilidade como país soberano em democracia - vigiada.