quarta-feira, 19 de junho de 2013


         DEVEDORES E CREDORES

Já que tenho andado pelo Nietzsche, cá continuo, e pedindo o favor de lerem um livrinho dele chamado Genealogia da Moral, só para se inteirarem de mais alguma coisa que não saibam com respeito à má consciência, quando os instintos estão sujeitos, se assim se pode dizer, a uma pressão regressiva e volvem para o íntimo e geram o Homem interior, a que outros poderão chamar alma.


Ainda que Nietzsche não fale do assunto no livro que referi, a pergunta dos shakespeareanos amadores (o meu caso) põe-se (poderá pôr-se) a este propósito: o que terá motivado tão fortemente Iago para ferir Otelo daquela maneira? Uma razão prática, objectiva, identificável? A manifestação concreta de um instinto puro e abstracto de Mal, inacessível ao mais comezinho  entendimento, e que o leva a querer perder, numa profundíssima e inteligentíssima moral de crueldade e destruição, não só o seu general Otelo como também, e por tabela, a mulher dele,  Desdémona, como também o capitão Cássio, o burguês Rodrigo, enfim, o mundo inteiro, a espécie humana?



                                                       

Expressa no texto, uma razão concreta há para os actos de Iago, embora seja legítimo duvidar se é ela a verdadeira, ou a única, ou a mais forte, das razões de Iago – e se tivermos em conta a desproporção do estrago relativamente à banalidade do móbil. Diz, em síntese,  Iago a Rodrigo, quando o incita a seduzir Desdémona:
- Ouve, ainda que finja gostar dele, odeio aquele mouro. Ele e mais o capitãozinho, o Cássio, que usurpou o posto que me era devido mais do que a ele. E porquê? Pela vontade de sua senhoria mourisca. E assim me fiquei como alferes. Mas olha, meu caro Rodrigo, também te digo que se eu fosse ao mouro não gostaria nada de ter um Iago perto de mim…
Iago tinha a consciência de ter feito o que tinha a fazer, e cumprido os seus deveres de soldado perante a comunidade. Tinha em pessoal  e muito  alta estima a valia dos serviços que prestara à Sereníssima República quando se batera como um bravo em cem renhidas batalhas contra o infiel otomano. Tinha portanto a seu suposto crédito um serviço valioso prestado ao general  Otelo e merecedor do mais alto galardão,  o qual seria a  subida ao posto de capitão. Pois, mas Otelo não o tinha reconhecido. Otelo dera a outro o posto de capitão. Otelo estaria por isso em falta para com Iago. Otelo era um devedor moral de Iago, e Iago  era um credor moral de Otelo. E daqui se desenrola todo o mal.
Nietzsche diz então que o conceito espiritual, ou moral, de “falta” se originou na materialíssima e ancestral ideia de dívida. A compra e a venda, e os correspondentes quadros psicológicos, antecedem a própria organização social do Homem. Dos actos de troca, contrato, obrigação, dívida ou compensação, nasceram sentimentos, valores morais: tudo e todos têm o seu preço, tudo e todos devem ser pagos. Eis pois a moral do caso. Eis a objectividade, eis a vontade, eis o Direito.
Otelo deixara em aberto perante Iago (que, atenção, não era um veneziano, era um florentino) uma subliminar promessa, que era a promoção a capitão. E quem promete deixa uma memória – a rico não devas e a pobre não prometas, sempre ouvi dizer. E é a simples memória da promessa que cria a dívida e legitima a crueldade da cobrança. Todo o devedor assume o risco de indemnização em caso de não poder solver a sua dívida. O devedor empenha a sua fazenda, o seu corpo, a sua mulher, a sua liberdade ou a sua vida.
Nas antiquíssimas formas de organização social (a que pelos vistos os mercados financeiros nos estão institucionalmente a querer fazer regressar) o credor, legitimado na sua crueldade, poderia inclusivamente torturar o corpo do devedor, ou cortar dele partes proporcionais à dívida. E tempos houve em que eram feitas avaliações qualitativas e quantitativas quanto às partes do corpo do devedor a poderem ser tomadas pelo credor em caso de insolvência.
É forçoso que um benefício compense o prejuízo suscitado por uma dívida não resolvida. O credor tem direito ao gozo de qualquer coisa se o devedor estiver em falta com ele. E o devedor fica reduzido à impotência em caso de não pagamento. Ao credor assiste o direito de o tiranizar, de lhe fazer mal – nem que seja pelo puro gozo de o fazer. E o prazer do credor pelo mal feito ao devedor é tanto mais intenso quanto mais baixa for a sua condição social ou educacional. É essa a oportunidade dada ao credor de se alcandorar a uma condição superior. Na ancestralidade da organização social (a que estamos sem dúvida a regressar entre as nações à escala global) a relação devedor/credor foi a  moldura conflitual da confrontação de um homem com outro homem, foi o campo do primeiro conflito humano estrictamente pessoal. Desde então, toda a estrutura da vida primitiva teria assentado nas relações de um credor para com o seu devedor.

      

Daqui se seguiria que a comunidade moral não significava muito mais do que uma comunidade de valores fundados na brancura moral do credor oposta à marginalidade igualmente moral do devedor – aquele que quebrava os compromissos, o que faltava à palavra. A cólera do credor está autorizada pela vida; é admissível e justificado qualquer acto de violência contra o devedor.


Shylock, o shakespeareano mercador judeu de Veneza, fazendo um contrato de empréstimo com o cristão António, e na eventualidade de vir a ser dele credor, dizia:
- Assinai a vossa escritura de dívida e, apenas por brincadeira, aceitai que se não pagardes em determinado dia determinada soma, a penalidade seja uma libra exacta da vossa carne branca, a ser cortada da parte do vosso corpo que mais me agradar.
Porque um crédito é um princípio de vingança. E uma vingança é um modo de reparação de danos sofridos. E a crueldade é um prazer intrínseco e desinteressado do homem primitivo. Ou, quem sabe, uma necessidade. Ou seja o que for que com o andamento dos séculos resultou num ornamento moral da espécie humana.
Os impulsos da crueldade e da vingança, segundo Nietzsche, configuram o triunfo do que ele chama de sentimentos activos contra sentimentos reactivos.
Segundo Nietzsche, os conceitos de Bem e de Mal, de bom e mau, têm que se lhes diga.
Foram os próprios auto-considerados bons, os superiores, os poderosos, os mais socialmente refinados, os dominadores, sim, foram esses os primeiros a julgarem belos e imediata e infinitamente bons os seus gestos, as suas vidas. E logo os instituíram como valores, como moral, e também para moralmente se distanciarem em superioridade dos escalões menos favorecidos do formigueiro humano.
Criando riqueza, os poderosos tinham a prerrogativa de criar também as fontes do Direito, os absolutos, e com o direito consequente de inventarem a moral, uma moral de posse, uma moral de mando, os bons e correctos pensamentos e maneiras. Os dominadores dividiam o Homem em bom e mau, dividiam a consciência da espécie em conceitos antagónicos, Bem e Mal, porque eles, para além de outras descricionaridades, tinham o direito de dar o nome às coisas.
Mas se pensarmos em quanto e de que forma o tempo pode confundir tudo, baralhar e tornar a dar tudo, e se pensarmos na quantidade de gestos, acções e coisas boas que foram noutro tempo más, ou em quanto pecado se transformou pela atrapalhação do tempo e da História em virtude, teríamos uma noção mais perfeita e flexível da vida.
O casamento, olhem, o casamento, pois claro, que chegou a ser um atentado contra a sociedade, e passível de multa, posto que nenhum homem tinha o direito de se apropriar de uma mulher – e veja-se no que deu…
                                            


Miguel Cássio, que ocupava o posto de capitão  nas tropas da Sereníssima, sob o comando do general Otelo (não façam confusões), o mesmo posto a que Iago se julgava com direito, também tinha as suas culpas no cartório de Iago, e o seu papel na reparação a que Iago, como suposto credor, lhe entendia devida. E por isso logo na primeira cena do 2º acto Iago o deita a perder e consegue que Otelo o despromova. É um primeiro triunfo do credor Iago.
Otelo, superior hierárquico embora, tinha deveres para com o seu inferior hierárquico Iago. A carga dos deveres como armamento moral da sociedade é grande causa de delitos de sangue, porque supõe a falta, a infracção contra a comunidade. E uma falta conduz a uma dor. Fazer sofrer quem está em falta para com um dever é direito tornado natural da parte de quem se considera ofendido. Se a dor infligida não compensa materialmente a dívida em causa, pelo menos proporcionará prazer ao credor. Para além - digo eu – de engendrar o ressentimento moral mais obscuro e intemporal da parte do devedor.

Prestai uma inesquecível fineza a um amigo e criareis nele uma consciência de culpa moral invencível, o ressentimento que durará uma vida, ainda que se possa mascarar de subserviência ou de gratidão.
Está assim artilhada a moral humana, e sendo que as classes mais altas como que se consideraram na eternidade histórica credores dos que as serviam – e daí, talvez, a suficiência arrogante da descricionaridade de Otelo, como de qualquer superior hierárquico, como de qualquer mandante ou proprietário, ao escolher promover quem melhor lhe pareça e sem uma consciência mora de dívida para com os outros, os preteridos, e sendo também que os preteridos na promoção irão manter para sempre a memória da sua expectativa defraudada, ou a sua própria consciência moral de uma injustiça que lhes foi feita e do crédito que têm para com os superiores que os não reconheceram; do mesmo modo que os escolhidos e reconhecidos irão acalentar um ressentimento moral sobre quem os reconheceu e lhes prestou não uma justiça mas um favor pessoal ou profissional que eles nunca poderão retribuír em equivalência.
 A vida é coisa muito dura…
A abrilhantar cada boda principesca de antanho havia uma execução de condenados. O que eram os autos-de-fé de menos do que o direito à cruelade de quem determinava as balizas morais e impunha no tempo o valor das coisas e das acções?
Ver sofrer pode causar alegria; fazer sofrer ainda mais. O castigo é uma festa para os instintos originais do Homem. E em termos de moral contemporânea a crueldade sublimou-se, enfarpelada com novos alibís, e porque todo o caminho humano para a redenção continua a residir na dor.
E ainda noutros tempos foi força que as classes dominantes renunciassem ao gozo da crueldade e ao vinho da vingança. Para se submeterem ao Direito. Um Direito imposto violentamente, é bem certo, e que consagrou, legitimando-as, as várias formas de castigo social e de crueldade na reparação dos devedores para com os credores.
Depois de tratar de Cássio, Iago começa a tecer as malhas da perdição de Desdémona, perdição essa que se insere na perdição mesma de Otelo, porque Iago não pode ferir Otelo no que ele tem de mais sagrado sem atingir esse “objecto” sagrado, que é Desdémona, a mulher. Estes caminhos do Mal são mesmo assim.
E, vamos lá a ver, Desdémona também é devedora  na vida. Deve o quê? A quem?  Omessa! Deve fidelidade ao marido, Otelo; Otelo é credor da fidelidade conjugal de Desdémona, e no caso da quebra dessa fidelidade poderá, com toda a legitimidade moral e social, ressarcir-se cruelmente.
Mas à medida que foi enriquecendo, o credor humanizou-se, e a riqueza material do credor foi sendo avaliada pela sociedade na razão directa da quantidade de prejuízos – ou seja, de dívidas – que ele podia suportar. E a sociedade foi abandonando os seus rigores sobre quem a ofendia, quem lhe devia. Foi instituída a Graça. Só os dominadores a podem conceder, porque estão para lá da justiça. Mas não era assim no ambiente fechado do Othelo, de Shakespeare.
Iago seria um impotente, social e quiçá moral – e quiçá sexual. Não o era todavia intelectualmente. Oficial de baixa graduação, e contudo ambicioso, racional, claríssimo de pensamento, fulminante na acção, frio, intriguista, venenoso. Naquele passo do seu destino tocava-lhe encontrar-se, confrontar-se, com o carácter oposto, com o emblema do homem primitivo, Otelo, positivo, potente, guerreiro, leal, forte, vitorioso, largo de vistas, impulsivo, generoso, absoluto – e que Shakespeare, curiosamente, quis que fosse negro, ou escuro, em contraste com os amaneirados e arianos e venezianos e florentinos iagos e cássios, com as loiras e mundanas desdémonas. E digo de Iago a impotência porque a impotência, em cada uma das suas subtis manifestações, instiga à dúvida pertinaz, ao ódio – na mais gloriosa das hipóteses  – à malignidade intelectual de que Iago é o paradigma.


Diz o velho Nietzsche que a História da Humanidade bem insípida seria sem o maléfico engenho com que a ameaçam os impotentes.
E a impotência recua horrorizada e vingativa perante a excelência demonstrada pelos mais fortes. Cabe então ao impotente (e devedor) minar a vida do forte (do credor), esmagar o que ele tem no íntimo de mais precioso, a confiança, quase diria a certeza; ou o conjunto de certezas de que se cobre uma alma forte.
O impotente é um ser irresoluto, incompleto, cansado de si próprio e da sua incompletude. Otelo foi um forte que perdeu a confiança na sua força, na sua valia, e pôs toda a sua vida em causa por acção de um impotente.
Iago destói a confiança de Otelo, ou antes, a certeza que tem em Desdémona, sua mulher, a certeza de si mesmo, em último caso. Ponto incontornável: uma grande competência impotente, a de Iago, cria a dúvida na inteireza e na força moral de Otelo, como num episódio da conspiração cósmica dos doentes contra os saudáveis; ou dos eternos vencidos contra os triunfadores...
O impotente pode apresentar-se-nos untuoso e pode ser muito perversamente inteligente a representar em si a justiça, a prudência, os bons princípios, a grande moral das coisas, a grande virtude das almas. No seu próprio conceito, só o impotente pode ser bom e justo, ainda que no íntimo saiba que não o é. E acha que só ele tem moral para repreender o mundo. A valentia, a robustez, a saúde, ui!, são vícios daninhos para o impotente. Onanista moral, chama-lhe Nietzsche. O que se satisfaz a si mesmo. O doente de si mesmo.  
O homem doente de si mesmo foi no que deu o corte com o fundo animal, com os instintos virís que lhe conformam o carácter.
Aliás, o Homem é o animal doente por excelência. É o que se experimenta a si próprio. É o que quer triunfar sobre todos os outros animais e reinar sobre eles, tanto quanto sobre a natureza - e até sobre os próprios deuses.
E o mundo vai assistindo à luta secreta, e no entanto sem quartel, dos doentes contra os sãos. Doentes que se sabem devedores, mas que representam a sua vida como credores da comunidade, plenos de rancor, ávidos de insidiosas vinganças. E assim  pretendem assoberbar a alma dos mais felizes com a bactéria da sua miséria moral. Pretendem criar nos outros o sentido forte da vergonha por estarem bem, criar-lhes o pensamento “com tanta doença e miséria no mundo, como poderemos nós, em consciência, ser felizes”?
Os devedores impotentes e pretensos credores da sociedade querem extorquir aos fortes, e seus supostos devedores, o direito que lhes assiste à felicidade pessoal.
Iago talvez simbolize o tédio profundo que pode existir no íntimo do Homem, tão sinistro como a mais profunda compaixão pelo mesmo Homem.   
Junto de Otelo, Iago insinua que só pretende repôr a justiça e colaborar no castigo dos devedores, um deles, Cássio, em estado de culpa secreta, porque lhe usurpara o posto de capitão; e em culpa presumida (mas objectiva para consumo de Otelo): porque é um tipo imoral que se deita com quem não deve. E outro elemento, Desdémona, porque deve fidelidade ao mouro seu marido – ainda que este possa ser um brutamontes, notoriamente feio como os trovões. Assim, e por outras diversas razões, Iago sente-se credor de Otelo e de Cássio na mesma penada e acha-se no direito à crueldade sobre os dois como reparação da dívida.
Pela mediação de Iago, Otelo, alegado devedor do mesmo Iago, começa a tornar-se credor de Desdémona no plano conjugal, e credor de Cássio no plano pessoal – porque ele o mais certo é andar a deitar-se com Desdémona, sua mulher – tanto quanto no plano militar já o era (falo de Cássio), primeiro porque Otelo o promoveu em lugar de Iago, e segundo porque numa noite bebeu uns púcaros e andou à chapada na guarnição, não se dando ao respeito que lhe era devido como oficial, não prestigiando a hierarquia nem a instituição dos devedores e credores, uma hierarquia de que Otelo era o garante, e uma hierarquia sempre credora em princípio dos deveres dos subordinados.
Mas Iago entende que não tem credores. Não, nada deve a ninguém. Acha-se até, pelo contrário, um eterno injustiçado e é o mundo que lhe deve, bem vistas as coisas. É um doente. Pode ser um impotente.
E o ciúme, consabida força motriz do drama shakespeareano intitulado Othelo?
Claro que o ciumento insinua-se sempre na consciência dos outros como um credor, nem que no fundo de si se sinta um devedor por não ter as qualidades indiscutíveis que prendam a si o objecto dos seus amores  - e concomitantemente dos seus ciúmes.
O ciumento por condição não o é apenas de uma mulher  ou de um homem. O ciumento compulsivo e genuíno tem ciúmes  de tudo o que lhe passa ao lado da posse ou da consciência; de tudo e de todos os que não o levaram na devida consideração; de tudo o que ele julga um perigo para a susceptibilidade do seu ego dominador. O mundo também lhe deve uma reparação pelas qualidades que julga ter e que lhe não foram reconhecidas. O mundo é devedor ao ciumento por uma qualidade de protagonista da vida que ele entende merecer e que o mundo também lhe não reconheceu.
E Otelo, o leão de Veneza, o viril vencedor de tantas batalhas em prol da Cristandade, talvez também não fosse tão sólido de carácter como isso. Eventualmente devido ao ónus do ciúme. Porque fosse ele mais granítico de mentalidade não teria ligado à maléfica teia urdida pelo seu subalterno; ou tê-lo-ia esmagado debaixo da bota como um verme, apenas ele insinuasse a mais delicada aleivosía contra Desdémona. Embora… ah, sim, embora haja a dizer que se Otelo podia ter razões para estar de pé atrás relativamente à lealdade de Desdémona, tais razões tinham-lhe sido fornecidas nem menos de que pelo senador Brabâncio, o próprio pai de Dresdémona.
É quando ele, Otelo, vai a Veneza pedir a mão de Desdémona e o velho senador pai dela, que não sabia de nada, fica de cara à banda ao saber que a filha, tão tímida, casta, mansa, loiríssima, puríssima, atentava contra a sua índole (isto é Shakespeare que o escreve, não sou eu, ahn?) e já andava enrolada há muito com um preto abrutalhado que metia medo só à vista.
E chamando Otelo de parte, Brabâncio diz-lhe:
- Vigia-a bem, mouro. Abre-me bem esses olhos. Olha que ela enganou o pai. E como enganou tão bem o pai também te pode vir a enganar a ti.


Bom, mas a impotência doente de Iago era servida pela mais fria clarividência quanto à natureza humana. A impotência doente de Iago não podia defrontar a força telúrica de Otelo em campo aberto. Por isso escolheu o movediço areal do espírito, da insídia.
Otelo era um forte, um credor, mas se era ciumento a tais pontos era porque se sentia em dívida para com alguém ou alguma coisa – Desdémona? E mesmo como ser forte, Otelo pode não se ter coibido de pensar que havia por ali uma culpa que configurava um débito, que gerava um crédito. Era um ciumento e um chefe militar, achava-se com direito a tudo e a todas as fidelidades incondicionais, porque tudo pode ser pago, porque tudo deve ser pago, e justiça que não cobra as suas dívidas auto-destrói-se.
O espírito impulsivo de Otelo não conhece o dom da Graça. Otelo é um ser humano absoluto que ruge de ira ao ver exibido nas mãos de Cássio o lenço íntimo que oferecera a Desdémona na sua primeira noite de amor.


A culpa de Desdémona era evidente. Só lhe faltava ser verdadeira.
Otelo fica assim devedor de Iago. Iago iluminara-lhe a mente acerca da verdadeira natureza de sua mulher. Claro, uma verdadeira natureza que é falsa (Desdémona era fiel a Otelo), mas que parece verdadeira, indestrutível, porque Iago com toda a competência a demonstrara como verdadeira. E talvez porque o próprio Iago sinceramente se tivesse convencido da verdade da sua própria intriga e a fizera passar a Otelo com tal convicção que a tornara verdadeira.
Iago descria da bondade e da honestidade humanas e assim podia aliviar a sua consciência. Se Desdémona não fora infiel a Otelo com Cássio, ora adeus, sê-lo-ia com outro qualquer mais tarde ou mais cedo.  A um doente do espírito custa a acreditar que alguma coisa neste mundo possa ser intrinsecamente verdadeira, ou completamente boa. Um credor nato de falsas dívidas não pode viver sem a culpa dos outros. Nem que tenha de ser ele a criá-la.


“Provada” a culpa de Desdémona, a dívida, restava escolher a forma de reparação, de ressarcimento. O castigo. Otelo aconselha-se com Iago. Talvez fosse melhor estrangulá-la.
- Boa! É isso mesmo.  Que bela ideia!
- E mais, generoso Otelo… seria bom  estrangulá-la na cama.
- Na cama?
- Sem dúvida, na cama, onde ela pecou, no lugar onde a dívida foi contraída.
- Tens razão, meu bom e honesto Iago. Olha que bela ideia!
E Otelo promove finalmente Iago a capitão. A dívida primeira do general para com o seu alferes está liquidada.


Há o homem activo e há o homem reactivo – diz Nietzsche. E o reactivo pode ser rancoroso. E o activo pode ter uma consciência mais limpa e franca, e ser, por isso, mais capaz de um acto de justiça. E Otelo irá fazer justiça a Desdémona. Sim. Com as coisas naquele pé era de justiça que se tratava. Porém, uma justiça incrivelmente injusta. Otelo julga, condena e executa uma inocente, porque, à luz da sua moral, tem a obrigação de a punir. Tem a obrigação de lhe cobrar, pela crueldade, a portentosa dívida da infidelidade conjugal. 


Por seu turno, Iago, já capitão, embeleza o ressarcimento da dívida que Otelo ainda tinha para com ele, uma dívida de humilhação por tê-lo rejeitado profissionalmente e não o ter promovido no devido tempo. Quando Otelo tem uma convulsão e desmaia, quem poderá impedir que Iago humilhe um Otelo sem sentidos, pisando-lhe com desprezo a cabeça? Afinal, o temido leão de Veneza era aquilo, um fraco, mais fraco ainda do que ele, Iago, e mais devedor ao mundo porque também humilhado, e humilhado por uma mulher, a própria mulher? Era mentira. Mas que importava isso se Iago acabara por estar convencido de que era verdade. Quanto mais não fosse por ter sido ele o criador dessa verdade.


Toda a gente sabe o que aconteceu. Otelo sufoca Desdémona no leito conjugal. Legitimamente. Um assassínio que decorre da necessidade de cobrança de uma dívida sagrada. Uma dívida de fidelidade.
Mas saibamos que o castigo não se inventou exclusivamente para punir, senão para manifestar o poder de uma vontade presumidamente mais activa, mais forte, sobre outra, reactiva apenas e cuja finalidade existencial seria sucumbir a um castigo.
Pensamentos perigosos, não?
O castigo é uma forma de dor, uma restrição aos desequilíbrios cósmicos – ou humanos. O castigo intimida mesmo os que castigam. O castigo celebra a derrota de um inimigo – Desdémona, a branca e pura inimiga cultural de um Otelo negro e primitivo assassino?


O castigo promove uma recordação nos espectadores dele, todos eles mais coisa menos coisa, mais dia menos dia, candidatos ao mesmo castigo. O castigo é um compromisso com o estádio mais primitivo da vingança. Mas como o castigo de Otelo brada aos céus de injusto, Otelo, de presumido credor, transforma-se em devedor moral aos que assistiram ao castigo e o sabem injusto – Emília, mulher de Iago, Montano, Ludovico, o embaixador veneziano.
As tramas foram desmontadas. Otelo confrontava-se com o seu débito à sociedade dos justos. Um inocente ofendido e credor que num minuto se torna culpado, agressor e devedor.
Mas há a reviravolta. E nessa reviravolta da vida torna-se ele credor de Iago, e de modo incondicional e inequívoco. O credor Iago, com a sua intriga, fez de si próprio um devedor. E Iago comparece. E responde seco e evasivo. Sim, sempre achara Desdémona culpada, e depois? Sempre estivera de boa fé.
Iago é chamado de maldito cão de Esparta, mais cruel do que a angústia, a fome ou o mar. Mas a hora, o lugar e a qualidade do castigo Shakespeare não os deixa definidos. Acho eu que propositadamente.
A espécie de Iago só muito dificilmente é castigada. Mas é Otelo que fica devedor a todos, à comunidade humana e à História, pelo que fez. Homem activo, só lhe resta a auto-destruição, quando nenhum dos subordinados tem a coragem de se lhe apresentar como credor objectivo e executor do castigo.
- Cheguei ao fim do meu caminho. Ó glória! Quem és tu, afinal? Eu? Eu fui Otelo.
Ele fora Otelo, ciumento e eternamente credor e secretamente devedor, como todos os ciumentos. Caído na teia do Mal, depois de ter assassinado a mulher, é ele o imenso, o total devedor a uma sociedade moral e branca que o olha com o mesmo desprezo com que sempre o olhara e sem que ele tivesse agora moral que chegasse para as grandes vitórias militares e para os feitos heróicos que o resgatassem dos desprezos. 


           No texto de Shakesperare, Otelo despede-se da vida pedindo a todos que contem aquela história sem piedade nem rodeios. Que digam dele somente que foi um homem que amou, que amou muito, que amou insensatamente.   

domingo, 9 de junho de 2013



        ELIPSE



Now is the winter of our discontent made glorious     summer by this sun of York; and all the clouds that lour’d upon our house in the deep bosom of the ocean buried. Now are our brows bound with victorious wreaths. Our bruised arms hung up for monuments; our stern alarums changed to merry meetings; our dreadful marches to delightfull measures. Grim-visag’d war hath smooth’d his wrinkled front.
(…)
Dive, thoughts, down to my soul.
                                               Shakesperare – Richard III


Rapaz de vinte anos, de orígem cabo-verdiana (simbolicamente ou não chamado Lenine), morto à facada numa escola da Amadora por causa (dizem) de um par de óculos escuros que custava 5 €. Ampla cobertura mediática. O assassino ainda não foi apanhado.
A uma avenida do Lumiar é dado o nome de Álvaro Cunhal. Discursa o presidente da Câmara, chamando os cidadãos à responsabilidade cívica para lá das diferenças ideológicas. Canta-se a Internacional.


É muito costume dizer-se que não é possível viver bem o presente, ou compreender o presente, ou sabe-se lá se mesmo o futuro, sem conhecer o passado, sem compreender o passado, sem evocar até as chamadas lições do passado. Mentira. Conversa de velhos. Conversa minha. O presente é tão incompreensível que para o compreender já nem vale a pena conhecer o passado, o passado já não nos serve de muito, o passado já pouco nos tem a ensinar sobre os caminhos deste estranho presente.
Ai… o passado glorioso de Portugal, terra de heróis, guerreiros, navegantes, santos, jurisconsultos, poetas… a nobreza de alma, a fidelidade aos princípios cristãos… a simpatia natural do povo…
Acho até que a realidade do mundo e das notícias que todos os dias vemos nos telejornais nos dá da bizarria de muitos dos seres e dos acontecimentos do presente um fortíssimo sentimento de irrealidade.
Cabe na cabeça de alguém de sãos princípios que administradores de empresas sejam ao mesmo tempo deputados e representantes dos meus interesses; ou que deputados membros da comissão de obras públicas que trabalhem para empresas de construção civil: ou que deputados da comissão de saúde trabalhem para laboratórios médicos?  
Qual o cidadão decente que se lembraria da existência de deputados (os eleitos do nobre povo) que tivessem o descaramento de criar legislação em que incluíssem excepções só para beneficiar amigos, correlegionários, irmãos de obediência?
Se eu soubesse que havia deputados meus representantes que se sentavam na ínclita casa da democracia para estarem ao serviço de quem lhes financiou as campanhas e não de quem os elegeu… não sei que faria. Que faria?


Nada. Só me restava deixar de votar. Auto-silenciar-me civicamente.
Ou rir-me dos debates parlamentares.
Ou as duas coisas.
E deixar de fazer claque pela selecção.
E bocejar a cada desfile da delegação portuguesa nuns quaisquer Jogos Olímpicos.
E ficar indiferente ao ouvir o hino e ao ver um qualquer Carlos Lopes que tivesse chegado primeiro que os outros a qualquer lado.


E abandonar de vez e radicalmente o orgulho (que nunca foi muito, confesso) de ser português.

 Ah, sim, tudo isso e mais umas botas se viesse a saber que a lei do financiamento dos partidos não era muito mais do que uma  lei de apoio à corrupção, porque são os bancos e as construtoras quem  financia os partidos, partidos que por sua vez vão rotativizando cargos entre governo, parlamento, bancos e construtoras para manterem um  olho sobre os pontos estratégicos; para, se preciso for, valorizarem terrenos à ordem dos dois mil por cento só para beneficiar um determinado alguém. 



Se viesse a saber que tudo o que atrás disse era verdade sobre os meus representantes cívicos o que eu não diria da chamada democracia portuguesa… o que eu não faria…
Que faria? Nada. Nada que lhes aquecesse ou arrefecesse.
Ficaria a saber que o sentido cívico pode valer um par de óculos escuros de 5 €.

         Quando falo com certa gente mais nova do que eu – e já não digo novíssima, digo na casa dos 30 – parece-me falar com seres de outra espécie, a espécie dos cultores da elipse. A conversa mais esfusiante e de êxito garantido em qualquer círculo nos meus tempos de jovem não fará mover uma ruga, um músculo, um sobrolho a muita da rapaziada de agora. Olha.. lá está este… convenceu-se de que era engraçadinho e agora deixem-no.

Pode ser que seja isso. Mas a rapaziada de agora, educada pela televisão e respectivos apresentadores e comentadores, pela militância ignorante, pelas facadas nas escolas por dá cá aqueles óculos escuros de 5€, pela preciosa moda das tatuagens satânicas e dos piercings de cadastrado, dos cabelos emproados à índio, parece não achar graça a muita coisa que saia fora das palhaçadas mais boçais e óbvias dos concursos e das lusas novelas gritadas em cores berrantes. Sobre qualquer assunto que não lhes diga directamente respeito é o silêncio, o laconismo, o sorriso amarelo-ovo. E aplicar uma elipse e passar depressa ao seu próprio e pobre mundo. 


Por vezes, começo a acreditar que a raça humana está a transformar-se – se não estiver já totalmente transformada – e já não é a mesma que conheci até aqui há uns anos, até aos anos, digamos 80…

         
                                                               

Os dramas familiares podem dar boa nota das transformações. Lembro-me nos casos crescentes de violência na família, os cada vez mais insuportavelmente frequentes casos de crime na família.  O que provocará isso? Álcool? Droga? Televisão? Dinheiro, ou falta dele? Exemplos dados pela política e pelos políticos mediáticos? Jogos de computador? Mudanças genéticas?
Os excessivos casos de abuso sexual na família, as demasiadas mulheres assassinadas por maridos ou namorados, o aumento do consumo de anti-depressivos… porquê?
No caso das violências domésticas será porque eles sentem algum surdo e sanguinário mal-estar pelas atitudes emancipadas delas? Será só álcool? Só droga? Só televisão? Só jogos de computador?  Só mudanças genéticas?
Será que os factores de mudança cultural e civilizacional, as doses maciças de televisão, os jogos de computadores, a ambição do dinheiro fácil, as 6ªs feiras à noite com ecstasy e bebedeiras de caír, o fenómeno futebolístico vivido na sua vertente mais primitiva, são suficientes para explicar tantas qualitativas mudanças comportamentais?

Será o desespero de um optimismo que invade os mais novos, o optimismo que se sabe mentiroso mas que vicia, causa dependência e obriga a viver nessa mentira, a primeira causa de tudo isso?
Os nossos clubes podem jogar um futebol de fazer sono, a nossa selecção pode não atingir os objectivos, e dir-se-á sempre que a época foi positiva, mesmo quando não se ganhou nada e se teve todas as possibilidades de ganhar. Dir-se-á  sempre que se tiraram lautas lições e que “agora vamos trabalhar”. E enfim, os nossos governos podem não estar a fazer grande coisa pela nossa qualidade de vida, (muito antes pelo contrário, como todos sabemos) mas esperam-se sempre as sondagens positivas e ninguém liga pêva a oposições que já foram experimentadas no poder, e quando já sabemos o que podemos esperar delas.


Ou será como diz o outro, de vitória em vitória até à derrota final?


Como será a nossa derrota final?


A sustentabilidade financeira das instituições. Mas há tanto tempo que se anda a tratar dessa sustentabilidade e ainda não se percebeu que, mesmo a funcionarem bem e em pleno, elas são insustentáveis? Insustentáveis numa terra de tanta gente insustentada. E alargando um pouco se poderá dizer que o próprio país está, é, insustentável.
Ou só é sustentável para a qualidade da canalha dos 10 ou 15% que nós elegemos de boa fé de tantos em tantos anos – e elegemos porque na nossa cabeça acontece um gap, uma amnésia temporária, e passamos uma elipse sobre tudo o que sabemos dos nossos candidatos quanto ao poder de fazer leis e administrar justiças.
Um ego deve ser exaltado mesmo que irracionalmente, mesmo recorrendo à elipse. Alguns blogs falam-me disso. Alguns blogs com receitas de cozinha, gatinhos, florinhas e outras patetices, ou as infindáveis afirmações do lugar comum lido nos jornais e repisado  em arremedo de ensaio filosófico feito para si mesmo e para dois ou três amigos… sim, como eu estou a fazer agora…  
E é absolutamente necessário às gerações que mandam no presente desviar de si, entre outros incómodos, a doença da memória. Ou pelo menos evitar essa doença no quadro da tragédia de não se poderem evitar outras – outras doenças e outras tragédias.
Conversar com jovens – bem entendido, certos jovens - é sentir-me um chato insuportável, para eles e para mim mesmo, homem de um tempo em que uma das grandes riquezas era podermos ouvir as histórias dos velhos, pais, avós, os seus tempos, as  aventuras do viver esses tempos, e tempos que, de alguma forma, foram ainda os meus.
Conversar com jovens, se tal é possível de ser dito assim, é sentir que tenho demasiado para dizer, demasiado e desnecessário e pouco oportuno, porque é o ronceiro e rotineiro dia-a-dia o que mais interessa e não a aventura – pelo menos a que não meta grandes carraspanas de cerveja, charro e outras coisas nos bares de fim de semana.
Conversar com os jovens dá-me a sensação de falar a quem tem a certeza de que já nada tem para ouvir, porque vive em pleno e em definitivo o seu tempo, presente, passado e futuro na mesma leva, e porque o seu tempo é um tempo de laconismo impensado, impensante, e porque o seu tempo é o último tempo que se pode viver.
Só me interessa o que se passa comigo, o que eu próprio vi, senti, experimentei – pensam, se pensarem alguma coisa, eles. O que está fora deste meu âmbito não existe. Para mim, não existe. Ponto final. Elipse. Vamos lá falar do que interessa: dá-me aqueles óculos escuros que compraste por 5 €…
Mas se existir? Ora ora, mesmo que exista sou eu que não quero que exista. Incomoda-me que outros saibam, vejam e vivam o que eu não sei nem vejo nem vivo, o que eu nunca vivi. Incomodam-me as histórias dos outros. Incomoda-me que outros gostem do que eu nem sabia que existia. Incomoda-me que existam coisas que eu não sei que existem. Incomodam-me realmente os outros. Não preciso para nada da vida deles, da sabedoria deles. Não preciso deles. Estava capaz de os aleijar, de os matar. Do que eu gostava era de ser rico. Ah, sim, gostava tanto de ser rico… para quê? Para não fazer nada. Para não ser incomodado pela vida. Para não ter que ouvir os outros…

                          

GARCIN – O bronze. Pois bem! Chegou o momento. O bronze está aqui, olho para ele e compreendo que estou no inferno. Disse-vos que estava tudo previsto. Eles tinham previsto que eu estaria diante desta chaminé apertando nas mãos este bronze e tendo sobre mim esses olhares. Todos esses olhares que me devoram (volta-se bruscamente.) Ah, são apenas duas. Pensava que eram muito mais. (Ri.) Então o inferno é isto? Nunca julgarias… lembram-se… o enxofre, a fogueira, as grelhas… que brincadeira! Não são precisas grelhas, o inferno são os outros.
                                                        Jean Paul Sartre- Huis Clos


Mas são os rapazes dos 30 anos que hoje em dia entram para os partidos, e para o parlamento, e para os governos, e administram as nossas empresas; as empresas onde trabalhamos; as empresas de onde somos despedidos quando passam uma elipse sobre as nossas reais capacidades – que digo eu… sobre a nossa real existência.
Na vida como no teatro ou no romance: não se pode mostrar tudo, contar tudo; é preciso seleccionar os heróis; é preciso organizar a intriga e dispor os heróis em função dela. Impõem-se as elipses. Que factos, que pessoas, que temas, serão indispensáveis a uma conversa no 3º milénio? Que pessoas, que factos, que temas convirá silenciar? Que tipo de intriga íntima determina os silêncios de um jovem do 3º milénio?
Presente, passado e futuro: tenho dúvida de que tais coisas ainda existam. Ou então é como respondeu o Jean Luc Godard quando disseram que os filmes dele não tinham princípio, meio e fim, e ele dizia que ai isso é que tinham sim senhor, mas não obrigatoriamente por essa ordem.


O laconismo reinante não dá o direito de dizer. Um tempo de elipses. Um dos direitos de que me sinto espoliado nas minhas relações pessoais com jovens: o direito de dizer.
Nunca ninguém da minha idade teria podido conceber um tempo em que tudo já estaria dito. E definitivamente dito quando ninguém ainda tinha dito o que importava de facto dizer. E que era preciso passar à frente, mudar depressa de assunto até ficar sem assunto, ah, o vazio, a delícia, porque já acabaram os assuntos, porque é melhor que acabem de vez os assuntos.
Como diria André Malraux aplicado a toda a Arte, a vida mesma, a vida dita real, pode construir-se e estruturar-se sobre um sistema de elipses. Aliás, a elipse é o que permite a Arte, a literatura. Talvez a vida.
Pode acontecer que seja na vida, como na arte narrativa, o branco de uma elipse a contar, pelo silêncio, o mais significativo da história. Na vida dos povos pode mesmo ser a elipse memorial a força mais pressionante e impositiva da chamada realidade. Há uma poética de corte, colagem e montagem na nossa memória- E é sobre ela, e nas conjunturas dela, que vivemos a nossa vida.
Vive-se, acho eu, uma vida supostamente feliz de elipses. O que se pode dizer agora que já não tenha sido dito antes? Ou que não venha a ser dito depois, um dia, um ano, um século depois, até ao tempo em que nada possa ser dito. E quanto mais tarde chegar o dia de falar de certas coisas, melhor. Ou até ao dia em que não será permitido dizer, falar. De certas coisas.  Porque a branca elipse dos silêncios de hoje pode dizer tudo dizendo nada.
A grande acentuação retórica e verbosa que inclusivé a comunidade internacional  e a sua comunicação fazem através dos seus grupos mundializados de interesses induz o laconismo, dispensa a linguagem, organiza outra linguagem, ordena outra comunicação.
Facto é, por exemplo, que das conversas que o cidadão mediano pode ouvir de outros cidadãos medianos, nos restaurantes, nos cafés, no Metro, a maioria esmagadora versem assuntos financeiros. Nunca se deve ter ouvido tanta gente de recursos económicos medianos, ou mesmo abaixo de medianos, falar de juros, de empréstimos, de amortizações, de prazos, de impostos. De bancos. O banco isto, o banco aquilo. O meu banco faz assim, o meu banco faz assado…
A entidade banco domina a preocupação talvez já não tanto daqueles que têm largas posses como daqueles de posses escassíssimas. A tal coisa de que falava, julgo que o Bernard Shaw: só um tipo de pessoas pensa mais em dinheiro do que os ricos: os pobres.
O endividamento familiar atingiu há muito níveis record? Mais uma consequência das elipses lançadas sobre a realidade. Ou do falso optimismo (e do tal louco pensamento positivo) que foi preciso instalar na mentalidade enferma dos portugueses. O laconismo é irmão da pressa e há muita pressa na civilização do Terceiro Milénio. E há uma fundamental pressa, que é a de ganhar e perder dinheiro – para os escolhidos que ainda conseguem dar-se ao luxo de jogar esse jogo...
A verdade é que o tema bancos ganhou jus a tratamentos de primeira página, matérias que só os iniciados e bem informados do grande capital puderam compreender em toda a extensão, enquanto o homem comum, entrou na elipse e, se se apercebeu de alguma disfunção, só temeu pelo pequeno e rico dinheirinho que lá tem depositado.
Alguns dos jovens com quem tenho experiência de conversação, ouvem os outros por uns momentos, expendem uma sentença fácil sobre o assunto – algo que se leu num cabeçalho de jornal ou que se ouviu a terceiros – e passam a outro assunto. Ou, na maior parte das vezes, não passam. Só se o assunto lhes disser directa e quotidianamente respeito. A elipse é completa, adeus pá, até qualquer dia, fica bem…
Ao conversar com jovens, descubro com mágoa que tenho demasiado a dizer sobre os mais palpitantes assuntos que não interessam a ninguém – e os jovens são toda a gente. E que quase nada do que me preocupa lhes interessa a eles, que não podem suportar a mínima repetição de um episódio, nem que seja divertido. Porque, enfim, é divertido para mim e para os da minha geração, mas as graçolas também não são intemporais.
Os jovens têm pressa. Pressa no acesso às oportunidades que a vida pode oferecer, de carreira, de realização profissional? Não necessariamente. Talvez mais pressa de acorrer às oportunidades de prazer, de consumo, de descanso. Ou da suave e suprema elipse que a natureza nos reserva a cada jornada, o sono. E entre os mais jovens – e não só, convenhamos – há quem prefira lançar sobre a vida a elipse da noite, enquanto outros preferirão a elipse do dia.
Feliz ou infelizmente, o quotidiano não é um filme onde se planeie uma acção agora e na cena seguinte essa acção já esteja a decorrer, poupando o espectador aos silêncios intermédios e às acções inúteis para o enredo. No quotidiano não há acções inúteis; ou, havendo-as, não as há, porque todas guardam em si um sinal a confirmar ou desmentir, uma promessa de significado da sua sublimidade ou da sua perversidade, uma promessa que a vida pode vir a cumprir ou não. A elipse recusa a promessa. A elipse só mostra a certeza.
A elipse é o que põe em destaque o esplendor máximo dos significados.
O discurso do dinheiro, mesmo para quem não tenha onde caír morto, é naturalmente lacónico, começa e acaba nele próprio. Não desenvolve. Não discorre. Estabiliza. No ter ou no não ter. No conseguir ter, ou no saber que hoje se tem e que amanhã pode não se ter. É aí que começa e acaba a vida. Pouco mais importa. Já nem o amor importa assim tanto – importam mais os ciúmes: podem matar e contribuír para os índices da violência, a doméstica e a urbana. Mas é o factor económico que domina as vidas. O pequeno interesse material elimina excrescências dialogais, comunicacionais, impõe elipses, “deixemos isso, vamos mas é ao que interessa, quanto é que o teu banco te cobra por…”
Uma elipse. Vamos ao que interessa. Taxas de juro. O que não interessa: o que não seja dinheiro. O que não interessa mesmo nada: a experiência humanística, o pensamento, a memória, até o humor, até o amor!
Alternativa elíptica na conversação banal de autocarro: as doenças. Evidentemente que com concentração nas faixas etárias mais óbvias. “Mas olha, não penses nisso agora, vamos ao que interessa… o que é que o médico afinal te disse dessa dor que não te larga? Ah, calcula… e  que é que ele te receitou? Deixa-me cá que eu também tenho andado muito atrapalhado desta perna…” 
Em breve, a elipse de pensamento e de existência promovida pela doença pode descambar noutra doença pior, como  pode descambar no aterrador abismo económico: o custo de uma consulta, a alta das taxas moderadoras, o custo dos medicamentos, a falta dos mesmos medicamentos, o custo dessa operação que precisas de fazer, mulher…
As técnicas de elipse verbal não deixam de ser técnicas de defesa de um cidadão indefeso perante os seus deputados e na sua magnífica democracia.
Evitar falar do que nos dói, do custo de vida, do tal empréstimo, da vida conjugal que vai cada vez pior e não se sabe porquê, do terror de um filho ou filha que possa caír na droga, no posto de trabalho cada vez mais ameaçado (ou que já foi destruído), no chefe, ao qual o funcionário nunca sabe quem classifica a incapacidade e incompetência, mas que tem o direito de classificar o funcionário ao seu descricionário critério de elipses.
A técnica da elipse conversacional com que o cidadão se defende dos defeitos e terrores próprios não os mencionando estende-se à convivência social e política através da abstenção eleitoral. Já se chegou aos 50% de abstenções e não se conseguiu acabar com a classe política maioritariamente mais ou menos corrupta, porque não se conseguiu, com a abstenção, derramar uma gota de vergonha nas consciências governantes.
 “Mas deixemos essa conversa dos partidos, que não leva a lado nenhum, e vamos mas é ao que interessa…”  A política são os partidos e não se pode saír disto. E sobre esses partidos é melhor nem falar, é melhor que se faça uma elipse na conversação.
Uma elipse pode comportar um desespero. A insaciável necessidade da auto-estima, a instituição recente da obrigatória auto-estima como condição de sobrevivência mental pode obrigar uma pessoa a viver na elipse. Se se lhe faz um reparo… pronto, pronto, não se fala mais nisso, já se ouviu, passemos adiante. A elipse é óptima panaceia para a culpa. Ninguém tem culpa de nada, ninguém é responsável por nada. E se os factos para essa responsabilidade apontam, que se passe uma elipse sobre os factos, sobre as vidas e as palavras… uma elipse sobre o que for preciso.
Uma elipse pode traduzir uma inevitabilidade. Não interessa analisar  ou criticar o que foi feito, porque o que está feito feito está. É melhor não conversarmos acerca de política porque o nosso destino está marcado, e lá está, a política são os partidos, e os deputados, e os ministros, e os partidos, os deputados e os ministros já toda a gente sabe o que eles são, como funcionam, o que representam, o que querem, e já dissemos e ouvimos dizer tudo acerca deles e passemos sobre esse assunto uma elipse verbal e falemos do que interessa… “quanto pagaste de IRS no ano passado? Aqueles malandros…”
Olhem, os políticos. Olhem que espécie elíptica. Os políticos sobrevivem em cheio numa elipse. Já pouco importa ao mortal comum o que eles dizem. Operam em circuito verbal fechado. Falam uns para os outros. A sociedade, ainda que vote – porque no seu vazio existencial se pela por um belo despique seja em que área for -, constrói a sua elipse mental sobre o discurso deles, “isso é tudo conversa, o que eles querem sei eu, deixemos isso e vamos ao que interessa… mas quem é que o Benfica vai comprar para o meio campo se o Matic se for embora?”  
A realidade, tal como não a conhecemos é fluente, contínua, e exerce-se em simultaneidades de espaço e tempo. A realidade é isso mesmo: o tempo, o espaço. Só compreendemos uma noção de realidade e de tempo/espaço por meio das elipses que possamos descrever. Só pela elipse poderemos confrontar o tempo e com a sua realidade.
O que é que o drogado busca no produto senão a sua elipse de vida?
A elipse, em narrativa, é um branco de acção, uma cena que salta para outra sem percorrer as mil cenas que medeiam entre uma e outra; um salto no tempo; a omissão do que não interessa directamente para a acção. Não se pode contar a vida toda nos seus milhões de pequenos actos e pensamentos.
A democracia portuguesa, ao renascer no 25 de Abril, tentou também a elipse sobre a realidade da ditadura, o salazarismo. Não interessa falar dele, o que teve de sinistro e o que pudesse, sabe-se lá,  ter de bom. Não, foi tudo mau. Tão mau que é melhor nem o analisar e pensar que nem existiu. Um salazarismo que por sua vez tinha adoptado a elipse quanto à 1ª República.         
Mas com aquele célebre concurso televisivo das grandes figuras nacionais os participantes quiseram salvar Salazar da elipse, elegeram-no (como a Cunhal, o que ainda atrapalhou mais os cálculos da elipse), e o sentido utópico-inconsciente da preferência seria o de votar à elipse as realidades actuais, a democracia. 
Na vida das nações e das comunidades, como na vida individual, o que aconteceu pode, daí a uns tempos, conforme convenha, sofrer o esquecimento da elipse e nunca ter acontecido, ou não ter acontecido como de facto aconteceu. É só vermos os noticiários televisivos. O acontecido não releva a quem manda nas notícias. E quem manda nas notícias é quem manda nas elipses. Lance-se uma elipse sobre o acontecimento ou a personagem. Ninguém de nomeada será alguma vez condenado nesta terra. Por exemplo. Haverá sempre, para o notável português culpado de qualquer manigância criminosa, uma elipse ao virar de uma esquina institucional. A começar pelos governantes e pela cambada dos deputados que elegemos porque não temos outros.
Ainda não se percebeu?
Parece que, trinta e tal anos passados, já nem mesmo os mais optimistas, porque mais comodamente sentados à mesa das benesses, duvidam do estado lastimoso da nossa democracia, da nossa vida. Uma democracia e uma vida de laconismos porque se acha inútil a palavra, ou até o facto real.
Quem, de facto, e do fundo do coração, acreditou no 25 de Abril e na probabilidade portuguesa de uma democracia?
Alguém acreditou. Mas passados quase 40 anos pode-se começar a deixar de acreditar. Pode começar a calar-se. 25 de Abril? É melhor nem falarmos nisso. Elipse. As novas gerações, as que não conheceram a censura e a PIDE, as conscrições e as repressões, cultivam a elipse, parecem já ter nascido caladas, temerosas, ou pelo menos lacónicas. As novas gerações e doravante as velhas…
O mundo mudou muito em 40 anos. Agora temos os processos de opinião, é verdade. Já ninguém está disposto a prescindir das elipses. Com medo das consequências.
 Eu, que vivi 30 anos da minha vida em tempos de salazar-marcelismo, nunca me apercebi tanto do medo das consequências de uma palavra nos meus concidadãos como nestes  tempos europeus de democracia e miséria material, moral e institucional. Talvez seja por isso que o pessoal mais de esquerda me chama de reaccionário-quase-fascista. Talvez seja por falar nisto que o pessoal mais à direita afirma que eu tenho um trato com os comunistas…
Corrigir a vida, os homens, a democracia? Corrigir as sociedades? Impossível. As sociedades e respectivos sistemas perfeitos, como as democracias, são incorrigíveis.


Hoje deu-me para André Malraux e estou como ele, que quando jovem, e quando apanhado com a boca na botija a saquear templos kmers no Cambodja -  terra de muitas formigas vorazes às quais as autoridades davam a comer as cabeças dos criminosos com os corpos enterrados até ao pescoço - já não acreditava em tal: as sociedades humanas não seriam mais interessantes do que os aglomerados de formigas vermelhas presas num ciclo eterno de corrupções.



A elipse pode ser uma forma de corrupção de verdades vitais, de convivências, de tolerâncias, de diálogo das diferenças ideológicas, porque o sentido da vida pode estar nuns óculos escuros de 5 €.