sexta-feira, 28 de junho de 2013

                     VOCAÇÃO E PROFISSÃO

         Filho meu não, nunca o poria a estudar música. É do mais perigoso que se pode arranjar com respeito a futuro.
         Ainda se tivesse a certeza de ele aprendia uns rudimentos, chegava a ajeitar-se a tocar um instrumento (de preferência piano para impressionar umas miúdas) e depois seguisse a sua vida, uma qualquer vida, bom, era como o outro.
         Mas quem me garantia que ele não se apaixonava mesmo pela matéria, tivesse algum jeitinho sem ser um génio evidente e quisesse fazer vida daquilo em Portugal?
         Não, não estaria a prestar um bom serviço a filho meu se o encorajasse na música sem ele ser um génio - mas ainda assim um génio daqueles que se apercebem à légua. Estaria a fabricar mais um frustrado para acrescentar à longa lista deles com que tropeçamos a cada momento.
         Não, ele que fosse para economista. Podia ser na mesma um falhado (se é que os há; ou se o são todos, depois de sabermos o que sabemos sobre previsões macro-económicas), mas nota-se menos, ainda que falhado, e nunca se chega a ser um desconsiderado, menosprezado, Zé Ninguém meio maluco com a mania da música. Sempre se é um senhor doutor, que é o que nestes analfabetos reinos dá verdadeiramente estatuto. 

                      

Por falar nisto… certo dia, numa famosa escola de música de Nova York, o célebre maestro Karl Böhm ouviu por acaso, vindo de uma sala de aula, um som de violino a ensaiar o concerto de Max Bruch. Pareceu-lhe nem menos que o som de Heifetz – quiçá o maior violinista de todos os tempos. Quem é e quem não é. O director da escola informa Böhm de que não é realmente o já falecido Heifetz quem toca. É uma petiza de dez anos. Böhm, incrédulo, espreita para dentro da sala e confirma.
         Tempos depois, Karl Böhm, em conversa com um amigo que dera aulas naquela famosa escola (Julliard School, talvez), pergunta-lhe se sabe o que foi feito daquela menina de dez anos que tocava violino com um som de Heifetz. Pois a pobre menina tinha-se suicidado. Numa crise desespêro infantil. Atirara-se de uma janela. Mas porquê? Tanto quanto se podia saber, a mãe, dando-se conta do talento da filha, obrigara-a a um tal programa de estudos musicais que não deixava tempo à criança para fazer a simples coisa de que ela tanto gostava: brincar.
           Por acaso, na mesma famosa escola, havia um jovem estudante de piano e violino, dotado de extraordinária memória musical, e, além disso, com o armamento vocacional que o indicava como futuro bom chefe de orquestra. Quando tudo se conjugava para o aluno seguir brilhantemente o seu caminho como director de orquestra, ele pede uma audiência ao director da escola e declara:
         - Vou deixar os meus estudos de música. Ofereceram-me um emprego na indústria do vestuário que me dará muito mais dinheiro a ganhar do que a música.


         O director deita as mãos à cabeça e quer demovê-lo, suplica-lhe pela rica saúde que não deixe a música; com as qualidades inatas dele não tem que ter medo, a carreira musical dele ia ser de grande sucesso. De certezinha.
         - Poderá ser. Mas, senhor director, eu prefiro a segurança. 
         E pelo que conta Karl Böhm, desde então esse jovem nunca mais na vida pôs os pés numa sala de concertos. Era a sua maneira de se proteger da música.


         (Sim, há coisas maravilhosas de que precisamos nos proteger.)
         É preciso dizer – porque muita gente não sabe e tudo lhe parece fácil – que seja qual for a especialidade, o instrumento, ou o grau de excelência de um músico, o ofício da música é um dos mais duros e ingratos que se possa conceber desde que uma vocação musical se revela até que se transforme numa actividade profissional.


         Valerá mesmo a pena, do ponto de vista material, o sacrifício de dar ouvidos à doce voz ideal da vocação para a música quando, mais tarde ou mais cedo, a pureza apolínea dessa vocação vier entrar em conflito sério com a assustadora realidade de uma profissão?

                                
         
        Já lá vão uns anos, uns bons anos, na viragem do milénio, em Paris (que não é propriamente uma cidade do Terceiro Mundo), mil músicos das orquestras francesas permanentes realizaram um concerto-manifestação a defender a existência de um serviço público de música. Ou seja, os músicos profissionais procuravam consagrar para a música o reconhecimento de uma necessidade social; e por consequência, o reconhecimento e o prestígio social da sua profissão num mundo cada vez mais material e cada vez menos, muito menos, musical.
         Não sei no que deu o concerto-manifestação. Não deve ter dado grande coisa nesta era de considerandos económicos-financeiros extremados que então se inaugurava.
      Já então, na realidade musical francesa, se criavam menos escolas de música e as que já existiam começavam a não ter vida fácil em tempos de restrições financeiras continuadas.
        Não tenho em mão números nem elementos concretos, mas quero crer que o panorama do ensino e da prática musicais vivem dias ainda mais entroviscados e que a angústia se tem instalado na consciência dos jovens, mesmo os mais dotados e que legitimamente possam sonhar com o desenvolvimento de uma feliz carreira na música.
         Mas também tem que ver com o instrumento que se cultiva.

              

      Claro que neste âmbito de profissões musicais a oferta de emprego é  sempre, e consideravelmente, inferior à procura. As orquestras precisam de menos instrumentistas do que aqueles os conservatórios fornecem. Por exemplo: para 14 flautistas, 10 clarinetistas e 9 oboístas saídos com boa nota de um - bom – conservatório, o conjunto das orquestras estáveis (quatro ou cinco, francesas, para manter o nível com exemplo de um país onde a música é levada a sério) oferecia dois postos de trabalho por cada um um destes três instrumentos. Foi há uns anos, está bem, mas não sei se a realidade melhorou até hoje. O mais certo é ter piorado.

                           

Quem não consegue garantir o seu ganha-pão como instrumentista de orquestra é certo e sabido que se volta para o ensino, desviando de si, e logo nos começos, o sentido de uma possivelmente poderosa vocação de executante musical. Poderosa e frustrada, como digo, logo desde os primeiros embates com a realidade profissional.
O talento musical frustrado sofre em silêncio, resigna-se, e volta-se para o ensino, muito bem. Mas vai ensinar o quê, a quem? Obviamente: vai formar futuras vocações frustradas e futuros resignados e desenganados professores. Professores estes, também, de quê e de quem? Daqueles outros que profissionalmente também não vêem alternativa senão dar aulas a alunos que (na esmagadora maioria) não terão onde exercer a vocação por não terem onde exercer a profissão, futuros professores de outros que também não terão para onde se voltar senão para o ensino.
As estruturas da organização e do ensino musical podem atingir o ridículo estádio evolutivo de formar profissionais de uma profissão que vai deixando de existir, ainda que as vocações continuem a despontar com grande força?
                                                             
Sim, claro, no meio disto tudo há os que apanham um tempo histórico favorável, conseguem lugar numa orquestra e se governam muito bem (ou até como free-lancers). E nem é preciso falar dos casos de génio, do grande concertista de piano ou violino, do grande cantor, do grande chefe de orquestra, precisamente os que fazem parte da mini-mini-minoria dos escolhidos de uma vocação que chama muitos e escolhe poucos.
No que respeita, por exemplo, à questão do piano, instrumento que não tem lugar numa orquestra sinfónica, as coisas podem ser, são com certeza, mais complicadas e menos felizes. Nem todos as anualmente laureadas vocações que saem dos conservatórios podem aspirar a uma gloriosa carreira de concertista. E então… serão obscuros professores de piano; governarão a sua vida como obscuros pianistas acompanhadores em teatros de ópera (se os houver em bom número no país), ou em aulas de canto; tocarão musiquinhas da moda ao fim das tardes em salões de hotéis de luxo. E já não fazem tanta falta nas aulas de ballet como fizeram noutro tempo, e isso em razão do recurso cada vez maior  à música gravada para o acompanhamento das aulas.
Por outro lado, o elevado número de alunos que procuram a disciplina de piano nas escolas de música leva a concluir que a formação pianística faz falta ao ensino e é uma via de escoamento profissional de vocações inequívocas.
Mas lá fora queixam-se os directores dos teatros de ópera quanto à escassez de bons pianistas acompanhadores, porque uma coisa é arranjar no mercado cinco, dez, quinze ou vinte jovens pianistas acabadinhos de sair do conservatório e ainda cheios de ilusões de carreira, e outra, abissalmente diferente, é encontrar um acompanhador com experiência e métier há muito desenganado pela vida quanto a uma vocação concertística irreprimível.
E chegará o tempo – já deve ter chegado – em que o número dos laureados de vocação, qualidade e talento será de longe superior à quantidade de postos de trabalho disponíveis, tanto para tocar nas orquestras quanto para ensinar nas escolas de música.
Vocação, talento, ou mesmo génio, e patenteado desde a mais tenra idade e de forma tão absoluta, não o há noutra actividade mais evidente do que na música – pode ser que na pintura. E todavia uma vocação que tão grandes contratempos  sofre na idade madura, depois de lançada nas realidades profissionais.
O free lancer, ou o trabalho a “gancho”, o biscate. É uma saída profissional também para um músico preparado, e em muitíssimos casos uma saída bem lucrativa, pesando embora a incógnita de alguns fins de mês e a falta de vínculos estáveis. Por outro lado, é bem certo que proporciona a sensação de liberdade que faz falta como pão para a boca à vocação artística, sem dúvida. E os lucros são rápidos e substanciais, embora incertos, irregulares.
O instrumentista free lancer foi um recurso caído do céu quando começaram a aparecer os conjuntos especializados na música barroca, Arts Florisants, Musiciens du Louvre, Chapelle Royale, etc., propiciando interessantes saídas profissionais de grande elasticidade contratual e flexibilidade artística. (Continuo a falar de um país musicalmente civilizado, a França.) A circulação de pessoal artístico bem preparado e potencialmente contratável é muita, agrada a maestros e empresários. Mas já se sabe que no caso de uma zanga ou de uma incompatibilidade com maestro ou empresa, a porta será para esse prontamente aberta, porque há outros, há muitos outros por esse mundo em ambulatório vocacional, de instrumento às costas à espera de vaga, a oferecer aqui e ali os seus serviços, a sua maravilhosa vocação.
A vida material de um músico pode muito bem ser uma magnífica apoteose do provisório, volátil e perecível como o som que ele produz.
Claro que como tudo nesta vida grande parte dos sucessos se devem ao factor sorte (já nem falo da cunha), ou à sorte que cada momento ou época da vida do indivíduo pode ou não pode oferecer. Os free lancers são muitas vezes contratados a termo como reforços para esta ou aquela peça mais exigente em quantidade de som. E são bem pagos. E tal pode dar numa perversão: as instituições musicais programam a sua vida orçamental, os seus concertos, em função da realidade da oferta e da procura e da facilidade de achar reforços de bom nível no mercado vocacional flutuante. E, naturalmente, como medida de boa gestão, evitam o mais que podem alargar o número de vagas nos quadros estáveis.  
A condição de free lancer pode ser aliciante para um músico. Muitos embarcaram na miragem de uma vida sem compromissos e sem obediências demasiadas, o que deu na inflacção do mercado free lancer. E o que acabou por facilitar a vida aos patrões da música, dificultando em contrapartida a dos músicos.
Mas também os músicos efectivos das mais importantes orquestras atravancaram o mercado dos free lancers acorrendo nas suas horas vagas aos ganchos musicais que iam aparecendo fazendo reforços noutras orquestras.


Daqui se percebe o risco contido na profissão de luxo que é a de músico: desenvolver uma vocação nos encantadores paludes profissionais do desemprego, da precarização dos vínculos laborais. O que deu desde sempre na respeitável instituição da diversidade ocupacional: ser músico executante e acumular com o professorado. E ser professor de um instrumento não como corolário de uma capacidade musical extraordinária, ou de uma forte disposição pedagógica, mas, mais rasteiramente, como adjutório aos encargos de cada fim de mês.
A encruzilhada moral é esta: um conservatório de Estado produz profissionais altamente qualificados, mas sem que o mesmo Estado lhes acene com uma perspectiva profissional mínima, fazendo-os correr o risco da pobreza, da inutilidade, desbaratando por conseguinte o investimento neles feito enquanto alunos cheios de vocação.
(Pode acontecer com as faculdades de Direito, Letras, quem sabe se de Medicina. Pode? Não sei.)
A realidade será sempre um factor autónomo à capacidade de sonho para as vocações musicais. E essa realidade é a imoral realidade das verbas que sempre escasseiam para a Cultura. E quando se fala de racionalização, seja em que actividade for, já se sabe que se fala de desinvestimento, de penúria e de incultura.


Os conservatórios (pelo menos os franceses, e já de há tempos), sendo o mercado e as encruzilhadas profissionais aquelas que são, deram em preparar os seus instruendos para competir no mercado da música antiga (quando ela começou a tornar-se popular, leia-se lucrativa), no mercado do jazz, no mercado do rock, no mercado das indústrias do som – ou, ainda mais catita, no mercado da musicologia. E no mercado mesmo do ensino. Preparava-os para uma contingência profissional e já não tanto para uma vocacional paixão; adestrava-os como técnicos de música (ou fosse do que fosse relacionado com a música, cientistas!) e não tanto como os artistas românticos que a maioria queria ser ao decidir-se em tenra idade pela música, quer dizer, pela vocação avassaladora.
Enfim, e evitando outros temas sempre imponderáveis e difíceis de quantificar, tais como quanto pode ganhar um instrumentista estável de orquestra, de que orquestra, de que país; ou quanto pode ganhar um free lancer, um pianista acompanhador, um pianista de jazz, digamos que é o mercado, essa entidade mítica, apavorante e bonacheirona a um tempo, que em menos de um fósforo realiza automática e espontaneamente a selecção natural, consagrando ou destruindo vocações musicais da infância.
Os bons nunca terão demasiadas dificuldades em ganhar menos mal a sua vida – bem como os que não sendo tão bons assim são de boas famílias e/ou têm boas cunhas; os muito assim-assim e os desajeitados de todo (apesar das cunhas) serão impiedosamente sacrificados à regra do jogo, e eliminados. E a regra do jogo é a regra do mercado.
É o que eu digo: não aconselharia a ninguém mandar de ânimo leve um filho estudar música. É melhor certificar-se previamente de que é pai ou mãe de um talento fora de série – para a música, e paralelamente para as relações públicas e para a gestão da sua vidinha. Se assim não for, pode estar a alimentar no seu descendente uma indigesta paixão e a contribuir para acrescentar a este mundo cheio deles mais um depressivo inadaptado. Não será bom para ele nem bom para o público. Nem bom para o Estado, que mantém (vai mantendo) em funcionamento os conservatórios, os teatros. De qualquer das formas, será o mercado a dar a esse jovem potencialmente genial a ensinadela que ele e os pais merecem.
Lá porque o meu pequenito entoa com facilidade as melodias que ouve, vou pôr-me com ideias, a pensar que ele é um novo Mozart, o sobredotado que irá lançar para as alturas da Arte uma família que regularmente só produziu honrados contabilistas?
        Será melhor pensar para ele outra profissão. Outra moral, queria eu dizer. Uma moral mais acessível. 



                                                             
                                                         

         Pondo os olhos no pobre do Mozart aprendemos que, produzindo ele o que produziu, nunca na vida lhe deram um prémio de produtividade; nunca na vida lhe pagaram ajudas de custo; nunca na vida viu senhas de gasolina, nem senhas de presença fosse onde fosse, nem telemóvel, nem tão pouco alguma vez se gozou de um BMW da empresa. E, inconcebível, nem nunca passou férias no Brasil!

Pois não. Só teve uma vocação louca, maior do que ele. Maior até do que o mercado. Maior do que o mundo. E escolheu – ou escolheram - para ele uma vida e uma profissão que de tão moral que é chega por por vezes a não ter moral nenhuma.


      

quarta-feira, 19 de junho de 2013


         DEVEDORES E CREDORES

Já que tenho andado pelo Nietzsche, cá continuo, e pedindo o favor de lerem um livrinho dele chamado Genealogia da Moral, só para se inteirarem de mais alguma coisa que não saibam com respeito à má consciência, quando os instintos estão sujeitos, se assim se pode dizer, a uma pressão regressiva e volvem para o íntimo e geram o Homem interior, a que outros poderão chamar alma.


Ainda que Nietzsche não fale do assunto no livro que referi, a pergunta dos shakespeareanos amadores (o meu caso) põe-se (poderá pôr-se) a este propósito: o que terá motivado tão fortemente Iago para ferir Otelo daquela maneira? Uma razão prática, objectiva, identificável? A manifestação concreta de um instinto puro e abstracto de Mal, inacessível ao mais comezinho  entendimento, e que o leva a querer perder, numa profundíssima e inteligentíssima moral de crueldade e destruição, não só o seu general Otelo como também, e por tabela, a mulher dele,  Desdémona, como também o capitão Cássio, o burguês Rodrigo, enfim, o mundo inteiro, a espécie humana?



                                                       

Expressa no texto, uma razão concreta há para os actos de Iago, embora seja legítimo duvidar se é ela a verdadeira, ou a única, ou a mais forte, das razões de Iago – e se tivermos em conta a desproporção do estrago relativamente à banalidade do móbil. Diz, em síntese,  Iago a Rodrigo, quando o incita a seduzir Desdémona:
- Ouve, ainda que finja gostar dele, odeio aquele mouro. Ele e mais o capitãozinho, o Cássio, que usurpou o posto que me era devido mais do que a ele. E porquê? Pela vontade de sua senhoria mourisca. E assim me fiquei como alferes. Mas olha, meu caro Rodrigo, também te digo que se eu fosse ao mouro não gostaria nada de ter um Iago perto de mim…
Iago tinha a consciência de ter feito o que tinha a fazer, e cumprido os seus deveres de soldado perante a comunidade. Tinha em pessoal  e muito  alta estima a valia dos serviços que prestara à Sereníssima República quando se batera como um bravo em cem renhidas batalhas contra o infiel otomano. Tinha portanto a seu suposto crédito um serviço valioso prestado ao general  Otelo e merecedor do mais alto galardão,  o qual seria a  subida ao posto de capitão. Pois, mas Otelo não o tinha reconhecido. Otelo dera a outro o posto de capitão. Otelo estaria por isso em falta para com Iago. Otelo era um devedor moral de Iago, e Iago  era um credor moral de Otelo. E daqui se desenrola todo o mal.
Nietzsche diz então que o conceito espiritual, ou moral, de “falta” se originou na materialíssima e ancestral ideia de dívida. A compra e a venda, e os correspondentes quadros psicológicos, antecedem a própria organização social do Homem. Dos actos de troca, contrato, obrigação, dívida ou compensação, nasceram sentimentos, valores morais: tudo e todos têm o seu preço, tudo e todos devem ser pagos. Eis pois a moral do caso. Eis a objectividade, eis a vontade, eis o Direito.
Otelo deixara em aberto perante Iago (que, atenção, não era um veneziano, era um florentino) uma subliminar promessa, que era a promoção a capitão. E quem promete deixa uma memória – a rico não devas e a pobre não prometas, sempre ouvi dizer. E é a simples memória da promessa que cria a dívida e legitima a crueldade da cobrança. Todo o devedor assume o risco de indemnização em caso de não poder solver a sua dívida. O devedor empenha a sua fazenda, o seu corpo, a sua mulher, a sua liberdade ou a sua vida.
Nas antiquíssimas formas de organização social (a que pelos vistos os mercados financeiros nos estão institucionalmente a querer fazer regressar) o credor, legitimado na sua crueldade, poderia inclusivamente torturar o corpo do devedor, ou cortar dele partes proporcionais à dívida. E tempos houve em que eram feitas avaliações qualitativas e quantitativas quanto às partes do corpo do devedor a poderem ser tomadas pelo credor em caso de insolvência.
É forçoso que um benefício compense o prejuízo suscitado por uma dívida não resolvida. O credor tem direito ao gozo de qualquer coisa se o devedor estiver em falta com ele. E o devedor fica reduzido à impotência em caso de não pagamento. Ao credor assiste o direito de o tiranizar, de lhe fazer mal – nem que seja pelo puro gozo de o fazer. E o prazer do credor pelo mal feito ao devedor é tanto mais intenso quanto mais baixa for a sua condição social ou educacional. É essa a oportunidade dada ao credor de se alcandorar a uma condição superior. Na ancestralidade da organização social (a que estamos sem dúvida a regressar entre as nações à escala global) a relação devedor/credor foi a  moldura conflitual da confrontação de um homem com outro homem, foi o campo do primeiro conflito humano estrictamente pessoal. Desde então, toda a estrutura da vida primitiva teria assentado nas relações de um credor para com o seu devedor.

      

Daqui se seguiria que a comunidade moral não significava muito mais do que uma comunidade de valores fundados na brancura moral do credor oposta à marginalidade igualmente moral do devedor – aquele que quebrava os compromissos, o que faltava à palavra. A cólera do credor está autorizada pela vida; é admissível e justificado qualquer acto de violência contra o devedor.


Shylock, o shakespeareano mercador judeu de Veneza, fazendo um contrato de empréstimo com o cristão António, e na eventualidade de vir a ser dele credor, dizia:
- Assinai a vossa escritura de dívida e, apenas por brincadeira, aceitai que se não pagardes em determinado dia determinada soma, a penalidade seja uma libra exacta da vossa carne branca, a ser cortada da parte do vosso corpo que mais me agradar.
Porque um crédito é um princípio de vingança. E uma vingança é um modo de reparação de danos sofridos. E a crueldade é um prazer intrínseco e desinteressado do homem primitivo. Ou, quem sabe, uma necessidade. Ou seja o que for que com o andamento dos séculos resultou num ornamento moral da espécie humana.
Os impulsos da crueldade e da vingança, segundo Nietzsche, configuram o triunfo do que ele chama de sentimentos activos contra sentimentos reactivos.
Segundo Nietzsche, os conceitos de Bem e de Mal, de bom e mau, têm que se lhes diga.
Foram os próprios auto-considerados bons, os superiores, os poderosos, os mais socialmente refinados, os dominadores, sim, foram esses os primeiros a julgarem belos e imediata e infinitamente bons os seus gestos, as suas vidas. E logo os instituíram como valores, como moral, e também para moralmente se distanciarem em superioridade dos escalões menos favorecidos do formigueiro humano.
Criando riqueza, os poderosos tinham a prerrogativa de criar também as fontes do Direito, os absolutos, e com o direito consequente de inventarem a moral, uma moral de posse, uma moral de mando, os bons e correctos pensamentos e maneiras. Os dominadores dividiam o Homem em bom e mau, dividiam a consciência da espécie em conceitos antagónicos, Bem e Mal, porque eles, para além de outras descricionaridades, tinham o direito de dar o nome às coisas.
Mas se pensarmos em quanto e de que forma o tempo pode confundir tudo, baralhar e tornar a dar tudo, e se pensarmos na quantidade de gestos, acções e coisas boas que foram noutro tempo más, ou em quanto pecado se transformou pela atrapalhação do tempo e da História em virtude, teríamos uma noção mais perfeita e flexível da vida.
O casamento, olhem, o casamento, pois claro, que chegou a ser um atentado contra a sociedade, e passível de multa, posto que nenhum homem tinha o direito de se apropriar de uma mulher – e veja-se no que deu…
                                            


Miguel Cássio, que ocupava o posto de capitão  nas tropas da Sereníssima, sob o comando do general Otelo (não façam confusões), o mesmo posto a que Iago se julgava com direito, também tinha as suas culpas no cartório de Iago, e o seu papel na reparação a que Iago, como suposto credor, lhe entendia devida. E por isso logo na primeira cena do 2º acto Iago o deita a perder e consegue que Otelo o despromova. É um primeiro triunfo do credor Iago.
Otelo, superior hierárquico embora, tinha deveres para com o seu inferior hierárquico Iago. A carga dos deveres como armamento moral da sociedade é grande causa de delitos de sangue, porque supõe a falta, a infracção contra a comunidade. E uma falta conduz a uma dor. Fazer sofrer quem está em falta para com um dever é direito tornado natural da parte de quem se considera ofendido. Se a dor infligida não compensa materialmente a dívida em causa, pelo menos proporcionará prazer ao credor. Para além - digo eu – de engendrar o ressentimento moral mais obscuro e intemporal da parte do devedor.

Prestai uma inesquecível fineza a um amigo e criareis nele uma consciência de culpa moral invencível, o ressentimento que durará uma vida, ainda que se possa mascarar de subserviência ou de gratidão.
Está assim artilhada a moral humana, e sendo que as classes mais altas como que se consideraram na eternidade histórica credores dos que as serviam – e daí, talvez, a suficiência arrogante da descricionaridade de Otelo, como de qualquer superior hierárquico, como de qualquer mandante ou proprietário, ao escolher promover quem melhor lhe pareça e sem uma consciência mora de dívida para com os outros, os preteridos, e sendo também que os preteridos na promoção irão manter para sempre a memória da sua expectativa defraudada, ou a sua própria consciência moral de uma injustiça que lhes foi feita e do crédito que têm para com os superiores que os não reconheceram; do mesmo modo que os escolhidos e reconhecidos irão acalentar um ressentimento moral sobre quem os reconheceu e lhes prestou não uma justiça mas um favor pessoal ou profissional que eles nunca poderão retribuír em equivalência.
 A vida é coisa muito dura…
A abrilhantar cada boda principesca de antanho havia uma execução de condenados. O que eram os autos-de-fé de menos do que o direito à cruelade de quem determinava as balizas morais e impunha no tempo o valor das coisas e das acções?
Ver sofrer pode causar alegria; fazer sofrer ainda mais. O castigo é uma festa para os instintos originais do Homem. E em termos de moral contemporânea a crueldade sublimou-se, enfarpelada com novos alibís, e porque todo o caminho humano para a redenção continua a residir na dor.
E ainda noutros tempos foi força que as classes dominantes renunciassem ao gozo da crueldade e ao vinho da vingança. Para se submeterem ao Direito. Um Direito imposto violentamente, é bem certo, e que consagrou, legitimando-as, as várias formas de castigo social e de crueldade na reparação dos devedores para com os credores.
Depois de tratar de Cássio, Iago começa a tecer as malhas da perdição de Desdémona, perdição essa que se insere na perdição mesma de Otelo, porque Iago não pode ferir Otelo no que ele tem de mais sagrado sem atingir esse “objecto” sagrado, que é Desdémona, a mulher. Estes caminhos do Mal são mesmo assim.
E, vamos lá a ver, Desdémona também é devedora  na vida. Deve o quê? A quem?  Omessa! Deve fidelidade ao marido, Otelo; Otelo é credor da fidelidade conjugal de Desdémona, e no caso da quebra dessa fidelidade poderá, com toda a legitimidade moral e social, ressarcir-se cruelmente.
Mas à medida que foi enriquecendo, o credor humanizou-se, e a riqueza material do credor foi sendo avaliada pela sociedade na razão directa da quantidade de prejuízos – ou seja, de dívidas – que ele podia suportar. E a sociedade foi abandonando os seus rigores sobre quem a ofendia, quem lhe devia. Foi instituída a Graça. Só os dominadores a podem conceder, porque estão para lá da justiça. Mas não era assim no ambiente fechado do Othelo, de Shakespeare.
Iago seria um impotente, social e quiçá moral – e quiçá sexual. Não o era todavia intelectualmente. Oficial de baixa graduação, e contudo ambicioso, racional, claríssimo de pensamento, fulminante na acção, frio, intriguista, venenoso. Naquele passo do seu destino tocava-lhe encontrar-se, confrontar-se, com o carácter oposto, com o emblema do homem primitivo, Otelo, positivo, potente, guerreiro, leal, forte, vitorioso, largo de vistas, impulsivo, generoso, absoluto – e que Shakespeare, curiosamente, quis que fosse negro, ou escuro, em contraste com os amaneirados e arianos e venezianos e florentinos iagos e cássios, com as loiras e mundanas desdémonas. E digo de Iago a impotência porque a impotência, em cada uma das suas subtis manifestações, instiga à dúvida pertinaz, ao ódio – na mais gloriosa das hipóteses  – à malignidade intelectual de que Iago é o paradigma.


Diz o velho Nietzsche que a História da Humanidade bem insípida seria sem o maléfico engenho com que a ameaçam os impotentes.
E a impotência recua horrorizada e vingativa perante a excelência demonstrada pelos mais fortes. Cabe então ao impotente (e devedor) minar a vida do forte (do credor), esmagar o que ele tem no íntimo de mais precioso, a confiança, quase diria a certeza; ou o conjunto de certezas de que se cobre uma alma forte.
O impotente é um ser irresoluto, incompleto, cansado de si próprio e da sua incompletude. Otelo foi um forte que perdeu a confiança na sua força, na sua valia, e pôs toda a sua vida em causa por acção de um impotente.
Iago destói a confiança de Otelo, ou antes, a certeza que tem em Desdémona, sua mulher, a certeza de si mesmo, em último caso. Ponto incontornável: uma grande competência impotente, a de Iago, cria a dúvida na inteireza e na força moral de Otelo, como num episódio da conspiração cósmica dos doentes contra os saudáveis; ou dos eternos vencidos contra os triunfadores...
O impotente pode apresentar-se-nos untuoso e pode ser muito perversamente inteligente a representar em si a justiça, a prudência, os bons princípios, a grande moral das coisas, a grande virtude das almas. No seu próprio conceito, só o impotente pode ser bom e justo, ainda que no íntimo saiba que não o é. E acha que só ele tem moral para repreender o mundo. A valentia, a robustez, a saúde, ui!, são vícios daninhos para o impotente. Onanista moral, chama-lhe Nietzsche. O que se satisfaz a si mesmo. O doente de si mesmo.  
O homem doente de si mesmo foi no que deu o corte com o fundo animal, com os instintos virís que lhe conformam o carácter.
Aliás, o Homem é o animal doente por excelência. É o que se experimenta a si próprio. É o que quer triunfar sobre todos os outros animais e reinar sobre eles, tanto quanto sobre a natureza - e até sobre os próprios deuses.
E o mundo vai assistindo à luta secreta, e no entanto sem quartel, dos doentes contra os sãos. Doentes que se sabem devedores, mas que representam a sua vida como credores da comunidade, plenos de rancor, ávidos de insidiosas vinganças. E assim  pretendem assoberbar a alma dos mais felizes com a bactéria da sua miséria moral. Pretendem criar nos outros o sentido forte da vergonha por estarem bem, criar-lhes o pensamento “com tanta doença e miséria no mundo, como poderemos nós, em consciência, ser felizes”?
Os devedores impotentes e pretensos credores da sociedade querem extorquir aos fortes, e seus supostos devedores, o direito que lhes assiste à felicidade pessoal.
Iago talvez simbolize o tédio profundo que pode existir no íntimo do Homem, tão sinistro como a mais profunda compaixão pelo mesmo Homem.   
Junto de Otelo, Iago insinua que só pretende repôr a justiça e colaborar no castigo dos devedores, um deles, Cássio, em estado de culpa secreta, porque lhe usurpara o posto de capitão; e em culpa presumida (mas objectiva para consumo de Otelo): porque é um tipo imoral que se deita com quem não deve. E outro elemento, Desdémona, porque deve fidelidade ao mouro seu marido – ainda que este possa ser um brutamontes, notoriamente feio como os trovões. Assim, e por outras diversas razões, Iago sente-se credor de Otelo e de Cássio na mesma penada e acha-se no direito à crueldade sobre os dois como reparação da dívida.
Pela mediação de Iago, Otelo, alegado devedor do mesmo Iago, começa a tornar-se credor de Desdémona no plano conjugal, e credor de Cássio no plano pessoal – porque ele o mais certo é andar a deitar-se com Desdémona, sua mulher – tanto quanto no plano militar já o era (falo de Cássio), primeiro porque Otelo o promoveu em lugar de Iago, e segundo porque numa noite bebeu uns púcaros e andou à chapada na guarnição, não se dando ao respeito que lhe era devido como oficial, não prestigiando a hierarquia nem a instituição dos devedores e credores, uma hierarquia de que Otelo era o garante, e uma hierarquia sempre credora em princípio dos deveres dos subordinados.
Mas Iago entende que não tem credores. Não, nada deve a ninguém. Acha-se até, pelo contrário, um eterno injustiçado e é o mundo que lhe deve, bem vistas as coisas. É um doente. Pode ser um impotente.
E o ciúme, consabida força motriz do drama shakespeareano intitulado Othelo?
Claro que o ciumento insinua-se sempre na consciência dos outros como um credor, nem que no fundo de si se sinta um devedor por não ter as qualidades indiscutíveis que prendam a si o objecto dos seus amores  - e concomitantemente dos seus ciúmes.
O ciumento por condição não o é apenas de uma mulher  ou de um homem. O ciumento compulsivo e genuíno tem ciúmes  de tudo o que lhe passa ao lado da posse ou da consciência; de tudo e de todos os que não o levaram na devida consideração; de tudo o que ele julga um perigo para a susceptibilidade do seu ego dominador. O mundo também lhe deve uma reparação pelas qualidades que julga ter e que lhe não foram reconhecidas. O mundo é devedor ao ciumento por uma qualidade de protagonista da vida que ele entende merecer e que o mundo também lhe não reconheceu.
E Otelo, o leão de Veneza, o viril vencedor de tantas batalhas em prol da Cristandade, talvez também não fosse tão sólido de carácter como isso. Eventualmente devido ao ónus do ciúme. Porque fosse ele mais granítico de mentalidade não teria ligado à maléfica teia urdida pelo seu subalterno; ou tê-lo-ia esmagado debaixo da bota como um verme, apenas ele insinuasse a mais delicada aleivosía contra Desdémona. Embora… ah, sim, embora haja a dizer que se Otelo podia ter razões para estar de pé atrás relativamente à lealdade de Desdémona, tais razões tinham-lhe sido fornecidas nem menos de que pelo senador Brabâncio, o próprio pai de Dresdémona.
É quando ele, Otelo, vai a Veneza pedir a mão de Desdémona e o velho senador pai dela, que não sabia de nada, fica de cara à banda ao saber que a filha, tão tímida, casta, mansa, loiríssima, puríssima, atentava contra a sua índole (isto é Shakespeare que o escreve, não sou eu, ahn?) e já andava enrolada há muito com um preto abrutalhado que metia medo só à vista.
E chamando Otelo de parte, Brabâncio diz-lhe:
- Vigia-a bem, mouro. Abre-me bem esses olhos. Olha que ela enganou o pai. E como enganou tão bem o pai também te pode vir a enganar a ti.


Bom, mas a impotência doente de Iago era servida pela mais fria clarividência quanto à natureza humana. A impotência doente de Iago não podia defrontar a força telúrica de Otelo em campo aberto. Por isso escolheu o movediço areal do espírito, da insídia.
Otelo era um forte, um credor, mas se era ciumento a tais pontos era porque se sentia em dívida para com alguém ou alguma coisa – Desdémona? E mesmo como ser forte, Otelo pode não se ter coibido de pensar que havia por ali uma culpa que configurava um débito, que gerava um crédito. Era um ciumento e um chefe militar, achava-se com direito a tudo e a todas as fidelidades incondicionais, porque tudo pode ser pago, porque tudo deve ser pago, e justiça que não cobra as suas dívidas auto-destrói-se.
O espírito impulsivo de Otelo não conhece o dom da Graça. Otelo é um ser humano absoluto que ruge de ira ao ver exibido nas mãos de Cássio o lenço íntimo que oferecera a Desdémona na sua primeira noite de amor.


A culpa de Desdémona era evidente. Só lhe faltava ser verdadeira.
Otelo fica assim devedor de Iago. Iago iluminara-lhe a mente acerca da verdadeira natureza de sua mulher. Claro, uma verdadeira natureza que é falsa (Desdémona era fiel a Otelo), mas que parece verdadeira, indestrutível, porque Iago com toda a competência a demonstrara como verdadeira. E talvez porque o próprio Iago sinceramente se tivesse convencido da verdade da sua própria intriga e a fizera passar a Otelo com tal convicção que a tornara verdadeira.
Iago descria da bondade e da honestidade humanas e assim podia aliviar a sua consciência. Se Desdémona não fora infiel a Otelo com Cássio, ora adeus, sê-lo-ia com outro qualquer mais tarde ou mais cedo.  A um doente do espírito custa a acreditar que alguma coisa neste mundo possa ser intrinsecamente verdadeira, ou completamente boa. Um credor nato de falsas dívidas não pode viver sem a culpa dos outros. Nem que tenha de ser ele a criá-la.


“Provada” a culpa de Desdémona, a dívida, restava escolher a forma de reparação, de ressarcimento. O castigo. Otelo aconselha-se com Iago. Talvez fosse melhor estrangulá-la.
- Boa! É isso mesmo.  Que bela ideia!
- E mais, generoso Otelo… seria bom  estrangulá-la na cama.
- Na cama?
- Sem dúvida, na cama, onde ela pecou, no lugar onde a dívida foi contraída.
- Tens razão, meu bom e honesto Iago. Olha que bela ideia!
E Otelo promove finalmente Iago a capitão. A dívida primeira do general para com o seu alferes está liquidada.


Há o homem activo e há o homem reactivo – diz Nietzsche. E o reactivo pode ser rancoroso. E o activo pode ter uma consciência mais limpa e franca, e ser, por isso, mais capaz de um acto de justiça. E Otelo irá fazer justiça a Desdémona. Sim. Com as coisas naquele pé era de justiça que se tratava. Porém, uma justiça incrivelmente injusta. Otelo julga, condena e executa uma inocente, porque, à luz da sua moral, tem a obrigação de a punir. Tem a obrigação de lhe cobrar, pela crueldade, a portentosa dívida da infidelidade conjugal. 


Por seu turno, Iago, já capitão, embeleza o ressarcimento da dívida que Otelo ainda tinha para com ele, uma dívida de humilhação por tê-lo rejeitado profissionalmente e não o ter promovido no devido tempo. Quando Otelo tem uma convulsão e desmaia, quem poderá impedir que Iago humilhe um Otelo sem sentidos, pisando-lhe com desprezo a cabeça? Afinal, o temido leão de Veneza era aquilo, um fraco, mais fraco ainda do que ele, Iago, e mais devedor ao mundo porque também humilhado, e humilhado por uma mulher, a própria mulher? Era mentira. Mas que importava isso se Iago acabara por estar convencido de que era verdade. Quanto mais não fosse por ter sido ele o criador dessa verdade.


Toda a gente sabe o que aconteceu. Otelo sufoca Desdémona no leito conjugal. Legitimamente. Um assassínio que decorre da necessidade de cobrança de uma dívida sagrada. Uma dívida de fidelidade.
Mas saibamos que o castigo não se inventou exclusivamente para punir, senão para manifestar o poder de uma vontade presumidamente mais activa, mais forte, sobre outra, reactiva apenas e cuja finalidade existencial seria sucumbir a um castigo.
Pensamentos perigosos, não?
O castigo é uma forma de dor, uma restrição aos desequilíbrios cósmicos – ou humanos. O castigo intimida mesmo os que castigam. O castigo celebra a derrota de um inimigo – Desdémona, a branca e pura inimiga cultural de um Otelo negro e primitivo assassino?


O castigo promove uma recordação nos espectadores dele, todos eles mais coisa menos coisa, mais dia menos dia, candidatos ao mesmo castigo. O castigo é um compromisso com o estádio mais primitivo da vingança. Mas como o castigo de Otelo brada aos céus de injusto, Otelo, de presumido credor, transforma-se em devedor moral aos que assistiram ao castigo e o sabem injusto – Emília, mulher de Iago, Montano, Ludovico, o embaixador veneziano.
As tramas foram desmontadas. Otelo confrontava-se com o seu débito à sociedade dos justos. Um inocente ofendido e credor que num minuto se torna culpado, agressor e devedor.
Mas há a reviravolta. E nessa reviravolta da vida torna-se ele credor de Iago, e de modo incondicional e inequívoco. O credor Iago, com a sua intriga, fez de si próprio um devedor. E Iago comparece. E responde seco e evasivo. Sim, sempre achara Desdémona culpada, e depois? Sempre estivera de boa fé.
Iago é chamado de maldito cão de Esparta, mais cruel do que a angústia, a fome ou o mar. Mas a hora, o lugar e a qualidade do castigo Shakespeare não os deixa definidos. Acho eu que propositadamente.
A espécie de Iago só muito dificilmente é castigada. Mas é Otelo que fica devedor a todos, à comunidade humana e à História, pelo que fez. Homem activo, só lhe resta a auto-destruição, quando nenhum dos subordinados tem a coragem de se lhe apresentar como credor objectivo e executor do castigo.
- Cheguei ao fim do meu caminho. Ó glória! Quem és tu, afinal? Eu? Eu fui Otelo.
Ele fora Otelo, ciumento e eternamente credor e secretamente devedor, como todos os ciumentos. Caído na teia do Mal, depois de ter assassinado a mulher, é ele o imenso, o total devedor a uma sociedade moral e branca que o olha com o mesmo desprezo com que sempre o olhara e sem que ele tivesse agora moral que chegasse para as grandes vitórias militares e para os feitos heróicos que o resgatassem dos desprezos. 


           No texto de Shakesperare, Otelo despede-se da vida pedindo a todos que contem aquela história sem piedade nem rodeios. Que digam dele somente que foi um homem que amou, que amou muito, que amou insensatamente.