sexta-feira, 12 de julho de 2013

   
                UM CIGARRO PARA O MOMENTO HISTÓRICO

                   

Desde novo que me habituei a não dar esmolas.
Porquê? Ora porquê… influências, leituras, companhias…
Dar esmolas, julgava pensar eu, em novo (influenciado por teorias, claro está), era para velhos piedosos e tementes a Deus. Eu não era velho. Não era muito piedoso. E tinha perdido o medo de Deus.
Dar esmolas era para hipócritas caritativos. Era para a dona Gertrudes Tomás e a sua beneficente árvore de natal do cinema S. Jorge. Era para os conservadores ideológicos – o mundo era mau e não havia maneira de o mudar. Era para os reaccionários – sempre haveria ricos e pobres por mais voltas que se dessem. Era para os fascistas – o homem era mau como as cobras e não se podia transformar em bom. Era para os serventuários do capital através da religião, da padralhada, esses, sim, que pela esmola limpavam a folha negra da má consciência que tinham com respeito aos males do mundo e à exploração do homem pelo homem.



(Já podem ver os caminhos por onde eu andava e as más companhias de que me rodeava – pessoais, presenciais e literárias.)


Um cidadão consciente, de esquerda, não dava esmolas. E acabou-se. Nem se discutia, tão óbvio era. Um cidadão consciente, de esquerda, acreditava na já muito próxima revolução social e no cântico dos amanhãs. Nasceria o dia em que deixaria de haver ricos e pobres e em que todos teriam o suficiente para viver dignamente e toda a caridade fosse desnecessária. 
E enquanto esse dia não chegava…
Enquanto esse dia não chegava era bom que se fossem criando as condições para ele chegar. Era bom que se fosse trabalhando o momento histórico mais propício para ele chegar.
Enquanto esse dia não chegava também não seria obrigação do cidadão comum acorrer aos males sociais. Ao Estado o encargo de minorar o sofrimento dos desvalidos.


Já terá nascido esse dia? Há quarenta anos palpitou-se que sim. Hoje? Hoje palpita-se que esse dia sim, despontou vai para quarenta anos e que passou a correr. Esse dia palpitou-se que tinha nascido há quarenta anos e a caminho do socialismo. Mas pode ter sido um erro de percepção e ele pode nem ter nascido, ou pode ter sido um nado-morto (como um humano). Ou se nasceu, a caminho do socialismo, esse caminho bifurcou-se, criou dúvidas e dissidências, e ficámos todos parados na encruzilhada dos caminhos. À espera… de Godot…

                               

Ou talvez nem sequer tenha nascido, o dia. Nem há quarenta anos nem nunca. Mas ainda se ficou a espera de que nascesse. Ainda alguém está à espera de que ele nasça, ensolarado…
Enquanto esse dia não nascesse, pensava eu (como muitos outros), a missão de um cidadão consciente e cheio de leituras proibidas consistia em ajudar a criar as condições para que esse tal dia pudesse nascer. E sendo assim, quantos mais andassem a pedir esmola melhor para as condições (objectivas, subjectivas), mais depressa esse dia nasceria, precipitada a sua nascença pela revolta dos pobres de pedir.


Por acaso, por essa altura (estamos nos começos dos anos 60) trabalhava eu numa firma de uma zona operária, o Poço do Bispo, que despedia fluentemente pessoal indiferenciado, na maioria morador nas barracas do chamado bairro chinês, que ficava por ali. Essa firma tinha a interessante particularidade de ser uma pequena empresa societária de outra muito maior, e gerida por jovens (trinta e tantos anos) de esquerda - um dos quais viria mesmo a ser filado pela PIDE no escritório, na frente do pessoal.

              

E calhou um dia, num almoço, perguntar eu, asno ideológico chapado apesar das leituras e das companhias,  porque é que pessoas ligadas ao Partido (só havia um, ao tempo, e clandestino), lídimas defensoras da classe operária, cavaleiros imaculados das justiças sociais, gente esclarecida, etc., etc., cometia a vileza de pôr na rua, sem ponderoso e aparente motivo, desgraçados cujo trabalho era carregar e descarregar pipas de vinho, cuja vida decorria em condições de pobreza, e quando a maior parte deles, ao ser despedido e sem idade para arranjar facilmente outro trabalho, estava condenada à miséria mais negra.


Os meus interlocutores, quadros da pequena empresa, clandestinos militantes do Partido, entreolharam-se, sorriram de entendimentos, deixaram-me com a cara de quem perdeu uma ocasião para ficar calado, ou de quem acabou de fazer uma figura triste.


Mas explicaram-me, e muito sucintamente (a minha cultura de esquerda não lhes parecia grande espingarda), que não faziam mais do que interpretar a linha do Partido. Se faziam o que faziam, despedir pessoal, era porque o momento histórico assim o impunha. O momento histórico recomendava a criação de condições para uma mudança radical do estado das coisas. O regime salazarista estava a dar as últimas. A hora era de promover os descontentamentos nas classes mais desfavorecidas da população e assim apressar os desfechos eventualmente revolucionários.

        

Sim, devo ter balbuciado, mas entretanto… entretanto era assim mesmo. O momento histórico determinava os procedimentos. A miséria. A fome. A criação das condições objectivas e subjectivas. Terá que reler com atenção o seu Marx, o seu Lenine, homem! Quanto pior melhor para o progresso das ideias revolucionárias. O que está na ordem do dia é a consciencialização de classe das massas trabalhadoras, por natureza acomodadas nem que seja à miséria e à fome, e à espera de serem despertadas para a grande causa dos oprimidos. A hora está a chegar.
E viu-se o que foi, e a que horas chegou a hora. Se é que chegou.
Tanto me palpita que ela já chegou e já se foi, como me palpita que ela ainda não chegou; como me palpita que essa hora ainda chegará; como me palpita que essa hora nunca chegará.
Chegado ou não o dia, e a hora, a força da realidade diz-me que a instituição da esmola de rua não se extinguiu – antes se refinou noutras modalidades mais sofisticadas de esmola.


Ficámos parados na encruzilhada dos caminhos, do socialismo, do parlamentarismo, da democracia, do liberalismo… ó chefe oriente-me aí um euro para comer uma sopa… olhe, ó senhor, compre-me ali um bolo de arroz… olhe, faz favor, podia-me dar cinquenta cêntimos para telefonar à minha irmã… ó chefe, faltam-me só vinte cêntimos para apanhar aquele autocarro…
Sem falar dos romenos e das romenas com filhos falsos nos braços. Sem falar nos drogados evidentes a pedir para a dose – a sua respeitável forma de subsistência. Sem contar com os estropiados pelo chão a estender para nós uma latinha.
Em que momento histórico estaremos?
Se me incomodam os espectáculos de miséria? Claro que incomodam. Se me impressiona a pobreza extrema? Claro que impressiona. Se me toca a penúria escondida? Evidentemente que toca. Mas a minha arcaica consciência de esquerda permanece, e com ela a resistência, que se tornou instintiva, e a renitência em alimentar hábitos de pedincha, os profissionais da esmola que podem tirar umas boas centenas de euros por dia sem trabalhar (contam-me casos) e com bom corpo para isso – pois, alguns bom corpo para trabalhar podem ter, podem é não ter onde aplicar esse corpo…


E surpreendo-me a não dar esmola, a não corresponder aos pedidos de cigarros que tornam proibitivo o acto de fumar até no meio da rua, pedidos que vão aumentando na razão do aumento brutal dos impostos sobre os cigarros – a vida não está fácil para um fumador inveterado…


Não sei se no meu inconsciente dei, fui dando, algumas voltas acerca do tema do momento histórico.


Enquanto os jovens turcos de esquerda da gestão de pequenas empresas de 1963 podiam despedir a torto e a direito a fim de criar condições para  a revolta das massas populares, eu, em 2013, não dou esmola nem forneço cigarros a fim de criar condições… para quê? Enquanto os jovens e impiedosos gestores de esquerda de 1963 tinham as cartilhas do Partido para interpretar, e para os orientarem quanto à identificação dos momentos históricos e das tarefas correspondentes, eu, sem partido nem cartilhas, corro riscos tremendos de me desorientar na História e de nunca chegar a saber ao certo em que momento estou e que tarefas o momento me impõe enquanto cidadão consciente. De esquerda? Sei lá. A idade dá cabo de tanta coisa…
 E vai daí, até me dá para pensar já não no momento histórico da minha classe social, da minha consciência de esquerda ou de direita. Dá-me para pensar no momento histórico que está na cabeça dos credores internacionais de Portugal. Vai-se a ver e a tarefa deles no momento histórico é a de apertar até rebentar com os periféricos do sul da Europa, fazer-lhes a vida financeira o mais negra que puderem, desorientá-los de tal modo que lhes crie um sentimento de revolta contra a ordem do mundo. E depois? E depois, nada. É isso.

  

Temo que possa acontecer com o Portugal estrangulado pela dívida soberana o que acontecia aos pobres trabalhadores braçais do Poço do Bispo de 1963, que se devem ter conformado com o seu destino, que não se transformaram em revolucionários, que por terem sido condenados ao desemprego e à miséria sonharam ainda com mais força com o impossível, isto é, ascenderem à condição de burgueses. E que foram baixando de estatuto profissional aceitando qualquer trabalho que lhes dessem mesmo que escandalosamente pago, e só para proverem ao sustento da família. E que começaram (ou continuaram) a beber até à cirrose fatal. E que de desespero em desespero podem ter matado a mulher e os filhos e terem-se matado a eles próprios logo a seguir…
Isso enquanto, pela dita usura do tempo, as tarefas prosseguidas pelos gestores de esquerda de 1963 iam deixando pelo caminho as colorações avermelhadas da hipótese de revolução social e ganhando as tonalidades cinza de um acto canalha.


Não sei se pelos trabalhos insanos e obscuros do meu inconsciente, e sempre com a questão do momento histórico em presença, entrei há tempos numa fase de oferecer cigarros a quem mos pedisse na rua. Um cigarro é um cigarro, um pequeno vício que mata, e que por isso mesmo acrescenta valor à vida enquanto a há. Um cigarro pode acrescentar algum sentido a um momento absurdamente histórico de uma vida. Um cigarro é algo que não se deve negar nem ao criminoso condenado ao patíbulo.
Sim, mas continua a repugnar-me o acto de dar esmola.


Confesso que não sei dar esmola. Quanto? Cinco cêntimos? Dez cêntimos? Chega a ser ofensivo para quem recebe. Um euro? É uma enormidade como esmola. Cinquenta cêntimos? Qual será a medida certa considerando o momento histórico?


“Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes”, mais ou menos isto: disse (citando Simone de Beauvoir) a presidenta da Assembleia da República, a luxuosa reformada aos 40 anos. Foi ontem ou anteontem e vem mesmo a calhar para a conversa do momento histórico.
A presidenta reformada não sabe quem foi Simone de Beauvoir? Não posso crer. Com certeza que sabe, porque, não sendo embora nenhuma luminária intelectual, também não iria ter a infausta ideia de citar alguém que no momento histórico não fosse politicamente correcto citar.
A presidenta conhece o momento histórico em que Simone de Beauvoir escreveu a frase? Bom, isso é que já não sei. Se não conhece, cometeu uma gaffe imperdoável para a segunda figura do Estado só por querer armar ao fino intelectual e sair-lhe uma bojarda das grossas. Se conhece, pior um pouco, como resulta óbvio para quem conheça.
A presidenta conhece o actual momento histórico português? Mal feito fora que não conhecesse (mas também já não se podem ter certezas a esse respeito, é verdade). Mal feito fora que não soubesse que uma das realidades que marcam o presente português é a férrea animosidade das camadas populares (e trabalhadoras) contra a classe política representada pelos seus deputados à Assembleia da República e respectivos, e insultuosos, privilégios.
Ora a presidenta reformada de luxo com 40 anos profere a frase da Beauvoir quando o público das galerias da Assembleia se manifesta, larga balões e atira cartões amarelos e vermelhos para as bancadas gritando “demissão!, demissão!”.
Ora o momento histórico em que Simone de Beauvoir escreve a tirada era o da ocupação nazi da França e consequentes iniquidades. Logo, os carrascos a que a Beauvoir se refere só podiam ser as tropas nazis.


Logo… a segunda figura do Estado português, citando a frase alto e bom som, faz a analogia espúria entre os manifestantes (funcionários públicos na sua maioria) e o ocupante nazi da França de 1940. Sim, chama nazis aos representantes do povo português que severamente criticam as incompetências, vigarices e privilégios de uma classe política autista e divorciada das aspirações populares.
É demais. Não?
Já não bastava a classe política viver à grande e a exibir incompetências à nossa custa como também se dá ao desplante de nos insultar?  
Sabendo a presidenta do contexto em que Simone de Beauvoir escreveu aquilo… das duas, uma: ou é mesmo para desacatar o eleitorado; ou não entende nada dos tais momentos históricos. E depois grita explicações aos jornalistas que a interpelam, explicações que alguma coisa relevam do atraso mental, ou do vício pacóvio que os nossos lamentáveis políticos têm ao fazerem de nós ainda mais estúpidos do que já mostramos ser ao elegê-los.


Mas o caso passa impune – quem poderia repreender a presidenta da A.R.?, só o P.R., se por um bambúrrio da sorte soubesse quem foi Simone de Beauvoir, nome que nem deve constar dos manuais de Economia e Finanças. 
O caso passa impune e imune às críticas jornalísticas. Que eu tenha visto, só Rodrigo Guedes de Carvalho, no noticiário da SIC, apontou de cenho enrugado a gravidade da gaffe. Que eu tenha notado, mais nenhum dos jovens e acerados comentadores do nosso jornalismo televisivo notou o despautério. Não me resta a menor dúvida: ignoram completamente o momento histórico a que a frase da Beauvoir se aplicava; assim como, baralhados nas  intrigas da nossa baixa política, ignoram sequer quem possa ter sido essa tal senhora Simone de Beauvoir – que também é capaz de não comparecer nos manuais de jornalismo em vigor nas universidades.
Bom, tanta conversa, mas do que eu queria mesmo falar era das elegíacas propostas de solução política para a crise que o momento histórico segredou ao presidente da República, o ínclito e inimputável político que com um simples discurso contamina a própria reputação de infalível e homem sem sombra de dúvidas e cria uma crise em cima da anterior. E também ele, afinal, faz cair a Bolsa. E também ele, afinal, faz aumentar as taxas de juro.
 O momento histórico.


Mas ainda haverá momentos históricos?
Ou até isso já acabou, na medida em que deixou de condicionar comportamentos ideológicos e já tudo vale em qualquer momento, e nenhum momento é ou deixa de ser histórico porque a própria História pode hoje ou amanhã deixar de ter validade histórica - quer dizer, deixar de fazer sentido?
E, em suma, o que é que uma coisa tem a ver com a outra?
E que coisa?
E que outra?
 

 

  

terça-feira, 9 de julho de 2013



      AFINAL NÃO HAVIA MESMO VIDA PARA ALÉM  
                                  DO DÉFICE

                                     

Em nenhum país economicamente avançado o sistema de mercado constrói casas que os pobres possam pagar.

                                                     JOHN KENNETH GALBRAITH


         Quem o disse... sim, quem disse que havia mais vida para além do défice, foi aquele nosso simpático presidente da República de falas redondas.


Aquele presidente que também recomendou ao pessoal que se deixasse de lamúrias – pois, porque havia mais vida para além do défice, ele lá sabia qual. Deixar de lamúrias? Obrigado!, digo eu, com as mordomias que ele tem (ainda tem) pagas pelo erário público fortemente deficitário, também eu não me punha com lamúrias…
Sim, eu sei, mais tarde, julgo que já na qualidade de ex-presidente, o senhor veio a “repudiar” a forma como vinha a ser citada a frase que proferira, certamente num dia de particular boa disposição e deleitosas recordações, que foi o dia 25 de Abril de 2003. Não foi? Foi, claro que foi. O dia. A frase? Sei lá. Sempre a ouvi citada assim, o défice. Mas ele  reclama, e diz que a frase foi: "há mais vida para além do orçamento."
Está bem. Mas se o orçamento é aquilo que é (e que quase sempre foi), e que a gente sabe, gerador de défices, vai dar no mesmo, e nem um truque semântico barato de advogado lhe muda a substância. Mas também, coitado do senhor, todos temos direito ao nosso momento de populismo. Ou de optimismo. E acrescenta ele que no momento em que disse o que disse a dívida nacional externa se cifrava em 50% e que hoje andará para cima dos 90% - só?, se calhar ainda mais para cima, 120%, 130%, enfim, são contas complicadas de um rosário que não é o meu, que bem gostaria de viver para além do défice (ou do orçamento) e não consigo.
O que ele terá querido dizer é que uma dívida de 50% em 2003 não era preocupante que bastasse para deixar de haver vida para além dela? Hum… não acho. Mas ele é que era o presidente. Lá sabia.
Pois. Mas se nessa altura havia assim tanta vida para além do orçamento, ou do défice, o caminho que se traçou desde então, e não nos preocupando nós com ele, deu como resultado termos chegado aqui. E aqui é um tempo em que não há mesmo mais vida para além da dívida, ou do orçamento, ou do que um advogado de falas redondas lhe queira chamar.
(E diz o povo ter sido este presidente que, ao correr com o Santana Lopes por motivos de somenos comparados com os que hoje existem para correr com um 1º ministro, e afirmando-se como factor de optimismo e pensamento positivo numa sociedade lamurienta, deu o devido gás ao consulado socrático, o qual, como também diz algum povo, foi dizimando calmamente a vida que poderia haver para além do défice. Ou do orçamento.)
Haver mais vida para além do orçamento? Tanto optimismo pode ter vindo de uma mente informada, conhecedora das realidades e das profecias, quando chegada aos paroxismos do pessimismo. O pessimismo extremado, se saudável, pode ser o princípio do optimismo desbragado, irrealista, porque não resta alternativa à sobrevivência senão acreditando que é possível, e ainda que sabendo que as veredas da esperança são tortuosas.
Mas também, quem adivinhava ao que isto iria chegar?
Pode-se compreender tanto e tão radiante optimismo, mesmo de uma alta figura do Estado, quando se sabe que no Homem há a tendência insistente para a felicidade. Uma felicidade, um bem-estar medidos por objectos e signos, já se sabe, e porque  é  esse, também… essa intensificação do bem-estar… dizia Tocqueville, a tendência natural das sociedades democráticas.
Quem adivinhava ao que isto iria chegar?
E que vida para além da dívida, ou do orçamento, quando nos  caminhos dessa vida sentimos os passos de um obscuro coelho que viria a ser o homem errado no lugar errado, na hora, sabe-se lá, que podia ser a hora certa… sim, certa, mas para alguém de real gabarito e experiência de vida. 


Mas aquele era um homem sem biografia política que ultrapassasse a das rapaziadas da jota. Um homem que, nessas condições, era patente, vinha para cumprir sem brilho e sem iniciativa própria um serviço às oligarquias, e no justo momento do fim de festa de todos os optimismos endividados, e para, na conjuntura, tentar enriquecer ainda mais os que já eram muito ricos.
A tarefa podia ser a de desenvolver no terreno um conceito de crise. A crise enquanto motor de mudança – mudança de hábitos (vícios) nacionais. A crise como perturbação. A crise como categoria que suscita uma solução eventualmente drástica, brutal. A crise que seria a agudização da doença crónica e com tempo certo de eficácia. Porque a crise é a anterioridade da sua resolução. E no nosso caso a crise é a da economia capitalista, é a das ideias, é a das despesas públicas, chega a ser a das relações sociais, ou mesmo das inter-pessoais.

                                      

E a nossa crise remonta, di-lo Jorge Borges de Macedo, às disputas entre D. Sancho II e D. Afonso III, (Ih, onde isso já vai), Pois sim, uma crise crónica que alguns atribuem ao próprio carácter de ser português. 
Camilo Pessanha pode tê-lo entendido assim.

         Eu vi a luz em um país perdido.
         A minha alma é lânguida e inerme.
         Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
         No chão sumir-se como faz um verme…

E é a realidade económica o sal da nossa vida de 2013.  A realidade económica que nos rouba o prazer da vida que poderia haver e não há para além de um défice. Ou de um orçamento.
Tinha chegado o tempo de confiar a um rapazola de mal enjorcada licença académica em qualquer das fáceis universidades que por aí há a missão simples de vender de vez a identidade nacional a quem pagasse as nossas estroinices orçamentais de Estado.
As “realidades espectrais” da economia determinam a vida, a nossa vida, a vida que poderia haver para além do orçamento, ou do défice. Regressamos ao estado animalesco por via do défice, do quantitativo, vendedores e compradores – de tudo, de dívida, de empresas, e também, e sobretudo, de consciências.
Intensificar o proteccionismo de Estado (já muito antes concedido, evidentemente) à banca e aos grandes interesses financeiros. Intensificar a estagnação dos salários – na realidade a diminuí-los substancialmente através medidas de precaridade, de impiedosos impostos e ameaça de abolição de horários. Promover o desemprego crónico. Fazer recuar vinte anos o nosso nível de vida. Fazer prosperar as instituições financeiras…
Um 1º ministro que nos apareceu nos caminhos da vida e do destino a dizer-nos sem o dizer que para a maioria de nós, e por muitos e maus anos, não haveria mais vida para além do défice que teríamos de solver. Nós, pessoal miúdo, sim.
Quem adivinharia ao que isto iria chegar?

                                                        



       
                                                           





Coelho com Portas, Portas com Coelho, Coelho porta com porta com Portas, portas batidas com estrondo por Portas na cara de Coelho, Coelho que não fecha as portas a Portas – sim, mas sem dúvida o team mais perfeito que se podia arranjar para a missão na hora do iminente naufrágio económico-financeiro: salvar a todo o custo os interesses das oligarquias.
E tudo o que tem sido visto na televisão de anacrónico, irregular ou vergonhoso, um ministro que se demite quando a água começa a ferver a sério para o lado dele; outro ministro que se demite irrevogavelmente!, logo a seguir, e que dois dias depois revoga a sua própria irrevogabilidade e volta atrás com a palavra no maior dos descaramentos, vencedor de mais uns lugares de governo para si e para os seus… tudo isso, enfim, que se não foi já esquecido estará para se esquecer (como é costume), tudo o que durou uns minutos distraídos de televisão e daqui a uns dias já não lembrará a ninguém, porque o facto que na democracia televisiva imediatamente se seguirá tem a finalidade única de fazer esquecer o facto que o precedeu e preparar o outro que virá já a seguir e que fará esquecer também esse.


É. Pensando no que se passou na vida política portuguesa das últimas semanas é que se percebe o quanto a política releva de actividade lúdica. A política é a ambrósia de uma agressividade sublimada, o jogo de roleta dos riscos calculados. O exercício seguro da pirueta. A sem-vergonha da mentirola que se traveste de razão de Estado. É o exercício retórico capaz de tudo justificar nos media – exercício retórico que até concede à mais alta figura do Estado a faculdade de dizer alegremente que há mais vida para além do défice (ou do orçamento que irá fazer aumentar o défice). A política é o gosto pelo capricho e pela probabilidade impune do arbitrário. Pode ser o inesgotável prazer de gozar com o pagode que encarneiradamente vota sempre que lhe mandam e em quem os media lhe sugerem. Assim como é o prazer infantil (lúdico) de fazer dos outros (um país inteiro) parvos.
Ah, sim, pois é, estamos a cair na sociedade da desagregação, o mercado. E o que produz o mercado quando entregue a si mesmo? Exclusão. Exclusão do que lhe não é imediatamente preciso.
Ao aproximar da tormenta dos incalculáveis e universais prejuízos, alguém tem de ficar incólume. As elites do dinheiro têm por obrigação tornar-se mais poderosas do que já eram, embrulhadas nesta democracia de opinião, incansável pau mandado dos poderes oligárquicos.
Há mais vida para além do défice? Que vida? Vida com as medidas liberais a regularem contabilística e fiscalmente o desejo humano?
Vida para além do défice só se for vida de casino. E com cartas viciadas, é claro. E com regras falseadas. E casino idealmente frequentado por banqueiros e accionistas de grandes empresas multinacionais, ou por quem tenha poderes de transaccionar ilegalmente nos jardins do Éden fiscais, de lavar dinheiros súcios, de operar especulações monetárias.
A realidade política já não passa de ser realidade económica. É preciso ser muito ingénuo, ou muito fingido para não saber que uma coisa é a realidade que acontece entre as surdas paredes dos gabinetes e outra, diferente, é o espectáculo que essa realidade política dos gabinetes monta sobre si mesma perante as câmaras televisivas. A primeira realidade é a verdadeira (passe a redundância). A segunda é a tal mentira que como toda a boa mentira também contém alguma verdade – ou a boa mentira que repetida cinquenta vezes (toda a gente o sabe, embora não pareça) passa a ser a mais evangélica das verdades.
Não. Durante muitos mais anos não poderá haver em Portugal mais vida para além dos défices e dos orçamentos, e toda a nossa vida será gasta a puxar pela cabeça para dar a volta aos défices e aos orçamentos e quanto à forma como iremos sobreviver apesar dos orçamentos e dos défices.



E acho muita piada às correlações históricas que por vezes se ensaiam no comentário político entre as medidas de toda a ordem experimentadas em coligações governamentais do passado e as hipóteses do presente; ou quanto a uma lógica que se pretenderia constante e previsível nas atitudes, as do passado e as do presente. Como se fossemos neste presente um país soberano e independente a viver uma vida normal para além do défice e competente para cunhar moeda própria. Como se não nos tivessemos tornado um pobre e tristíssimo e subalterno protectorado governado do estrangeiro… e sem moeda própria. E a razão de fundo para que a maior parte da vida que devia haver mas não há para além do défice e do orçamento reside aí. 
                       
                         
           BILDERBERG PALACE HOTEL


     Basta ver qualquer publicação dos partidários liberais do laissez faire para se ver que a liberdade que eles apreciam, e quase identificam como núcleo de toda a liberdade, é a do empresário comercial
                                                  JOHN DEWEY
     

       O azougado Dr. Alberto João Jardim, mais fino de pensamento e de juízo do que geralmente se julga, relacionou (ele lá saberá porquê) os tristes casos ocorridos nas últimas semanas na vida portuguesa com o Clube Bilderberg, em cuja reunião teriam estado presentes duas figuras importantes (por mais que a gente não o queira admitir) da nossa cena política do momento. Portas (sempre ele!) e Seguro - as portas têm que estar seguras, ele anda para aí muita ladroagem...


           O Clube Bilderberg…

                                
        
        Parecendo que não, já existe desde princípios do século XIII. Chamavam-lhe Nobreza Negra Veneziana. E se hoje ainda lá param representantes dessa nobreza negra veneziana, as conotações tremendistas esbateram-se, claro está, o nome da primitiva foi abandonado, esquecido, mas continua a ser frequentado pelos ricos e poderosos deste mundo, e com clara influência interventiva, senão executiva, na geo-política.


       Reuniram-se pela primeira vez em tempos modernos no ano de 1954, em Oosterbeek, na Holanda, e num hotel precisamente chamado Hotel Bilderberg. Daí o nome do clube, apostado em fundar, ou perpetuar, uma ordem mundial esclarecida (iluminada) assente nos princípios do chamado mercado livre. Ou, experimentando outras palavras, no capitalismo moderno mais agressivo e dedicado à destruição da procura . Estranho. Destruição da procura, que é o mesmo que dizer destruição da economia mundial pela transferência da riqueza das nações para mãos que não as que hoje ainda a detém. Casas, propriedades rurais, fábricas, acções, títulos, poupanças, tudo isso e mais umas botas, que nós todos, população mundial, por via da crise globalizada, poderemos perder por não as podermos manter, por sermos obrigados a vendê-las para prover à nossa subsistência. Uma vez postos à venda, esses bens seriam imediatamente comprados muito abaixo do valor real por entidades mandadas pelos membros (talvez não todos) do Clube Bilderberg.

                         


       Teoria da conspiração, não é?
      
                        

Pode ser que sim. Coisa de filme. Pode ser que sim. Mas cuidado… quantas vezes a realidade não ultrapassa a ficção?


      É que a maioria de nós, pessoas comuns, além de não termos acesso à verdade porque só consumimos a informação que nos é oferecida por jornais, rádios e televisões, propriedade nalguns casos (ou na sua maioria) de membros do Bilderberg, costumamos andar distraídos, quanto mais não seja por uma questão de sanidade existencial.


     Teoria da conspiração. Será. Mas no Monde Diplomatique escrevia-se isto em Abril do ano 2000:
       Ao permitir que o capital flua sem controlo de um extremos do mundo para o outro, a globalização e o abandono das soberanias nacionais associaram-se para promover o crescimento explosivo de um mercado financeiro fora da lei. É um sistema coeso, ligado à expansão do capitalismo moderno baseado em três parceiros: governos, multinacionais e máfias. Negócio é negócio: o crime financeiro é um mercado florescente, orientado pela oferta e pela procura. (…) As multinacionais precisam do apoio dos governos e da neutralidade das entidades reguladoras para  consolidarem posições, aumentarem lucros, esmagarem concorrências. Os políticos estão directamente envolvidos e a sua capacidade de intervenção depende do apoio e do financiamento que os mantém no poder. Esta associação de interesses é parte essencial da economia mundial, o lubrificante que mantém as rodas do capitalismo a girar.

                                                                         



       O problema, grande, que o poder económico e o chamado mercado livre tiveram historicamente de enfrentar foram os fascismos e comunismos da primeira metade do século XX, que os submetia a sério ao poder político. Donde, as conhecidas e populares ferocidades anti-fascista, anti-comunista, anti-totalitária, ostentadas pelos mais bacteriologicamente puros dos democratas. Não por amor aos povos espezinhados pelas botifarras de Hitler ou Stalin. Mais por um acrisolado amor ao grande capital manietado por tão intimidantes sujeições e impossibilitado de realizar em liberdade absoluta negócios que nada tinham a ver com o bem-estar dos povos oprimidos pelos regimes totalitários.
Foi a vitória dos Aliados que valeu ao grande capital multinacional e respectivos negócios à escala mundial. E por acréscimo, e, também, acho eu, bastante secundariamente ao triunfo das democracias modernas. E daqui decorre a chegada  ao absoluto do poder económico sobre o poder político. Todavia mascarando essa supremacia através de políticos mais efectivamente agentes do poder económico do que do poder e das vontades políticas.


Houve políticos do pós-guerra, homens carismáticos, que levaram a peito (ou relativamente a peito) o seu papel e se impuseram ao poder económico. De Gaulle, Adenauer. Mais um ou outro. Para dar um exemplo. Mas depois desses foi o progressivo triunfo da mediocridade política, um triunfo de mediocridades políticas que nestes anos 2000 atingiu o seu esplendor máximo. Políticos medíocres que, evidentemente (e crescentemente), se deixaram manobrar pelo poder económico, a começar pelo financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais, levando o pessoal miúdo, intoxicado pelos media, a votar convictamente em homens que supunham empenhados em tratar dos problemas da polis, mas que iam de facto para os cargos antes de mais para tratar da sua vida, da vida do seu partido e da manutenção desses cargos. E nem passando pela cabeça do pessoal eleitor que a missão principal desses homens políticos fosse o facilitar a expansão dos negócios do capital e só muito de raspão - e quando não pudesse mesmo deixar de ser, e porque isso lhe traria vantagens eleitorais – ocuparem-se das aspirações de quem os elegeu. E ai do simpático político candidato a qualquer coisa – um grande cargo de Estado - que não conte com as boas graças do poder económico.  


Ora sendo as coisas como são, onde é que se vislumbra sequer uma ténue fímbria de oportunidade de vida que vá para lá do económico-financeiro?


Decorre daqui o liberalismo campeante. Um liberalismo (económico) que foi descambando em pensamento único, o único admissível num debate moderno, de bom nível, dando espaço ao que chamamos de “politicamente correcto”.


Só é permitido pensar ou discorrer correctamente sob a ideia do mercado livre, do liberalismo, da livre iniciativa privada (os investidores, os investidores!), da ideia do lucro como categoria existencial estruturante da vida dos povos. O que dá direito a chamarmos ao liberalismo de moderno totalitarismo. Moderno totalitarismo que não prende os que não concordam. Não tortura nem mata os discordantes. Directamente, entendamo-nos. Pode condenar ao desemprego. Ao desemprego permanente. Só.