quinta-feira, 4 de julho de 2013

BOMBAS DE EFEITO MORAL

                  BOMBAS DE EFEITO MORAL




Assisto às reportagens das televisões brasileiras sobre as manifestações e tumultos (a baderna) que têm assolado o Brasil, e ouço dizer que a polícia lançou sobre os manifestantes, além das bombas de gás lacrimogéneo e das balas de borracha, bombas de efeito moral. E recordo os meus tempos  de instrução militar no capítulo das granadas a usar na guerra para onde estavamos condenados a ir.
Granadas havia-as então chamadas de “pinha”, fragmentadas, de estilhaços, verdadeiramente assassinas, ditas defensivas; e havia-as ditas ofensivas – isto se não estou em erro e se bem me lembro. E com pedido de desculpas por alguma inexactidão respeitante a matérias aprendidas vai para os seus bons cinquenta anos.
             
Às granadas ofensivas era dada a característica de serem de efeito moral e de sopro. Quer dizer, faziam muito estrondo ao explodir e podiam projectar um homem os seus dois ou três metros. Mas, em princípio, não matavam. Em princípio. Caindo-me mesmo ao lado, se não me matavam com certeza que também não me deixavam a vender saúde. Mas não interessa, interessa é que não eram fatais. O estrondo era o efeito moral. E o efeito moral era o cagaço que metiam a um homem ao ouvi-las rebentar, e até porque, ao ouvi-las rebentar perto, na confusão da emboscada, tanto quanto sei não se lhes identificava a característica, se ofensiva se defensiva, se assassina, se só de efeito moral.


É nesse efeito moral sobre as populações indignadas que aposta a polícia brasileira para dispersar os manifestantes. O susto. O medo. E sendo o medo um dos mais poderosos efeitos morais seja do que for, bomba, ou medida de governo.
Grande efeito moral pode dizer-se que tem produzido na opinião pública a saída à rua e à briga dos indignados da Turquia e do Brasil. Sem contar com os dias de violência urbana  vividos na Grécia há um ano ou coisa. 

          


                                      

No Brasil, impressiona-nos sobremaneira que no também chamado país do futebol já nem o mesmo futebol (um  dos ópios mais entorpecentes do povo) é capaz de desmobilizar, ou de amansar, os protestos do pessoal. Ou, mais difícil ainda: acabou por ser o futebol, com os seus gastos sumptuários, ou mesmo faraónicos, o detonador da granada de efeito moral que andava escondida na consciência popular.

                            

De onde procederá, de facto, o maior efeito moral? Das bombas da polícia, ou da ira do pagode?
                         
    

Acho que, atenta a relação causal, é a ira do pagode e o seu efeito moral  (susto, medo sentido pelas autoridades) que suscitam as granadas de correlativo efeito moral atiradas pela polícia.



O que é preciso ver é que a vida dos povos nunca mais será a mesma. Só resta saber como é que ela poderá vir a ser. De todo o modo, não sei se me apetecia estar cá para ver o que ainda haverá para ver – e sentir, e sofrer. Mas se calhar, a idade que tenho, não me permitindo ver esse filme até ao fim, vai ainda permitir-me ver algumas cenas, e cenas tristes, o mais certo.
Mas como é que na Turquia e no Brasil apareceram nas ruas em atitude hostil milhares e milhares de pessoas, e com o efeito moral de ninguém de mais autoridade (ou muito poucos) esperar que aparecessem?
(Desconto aqui, claro está, os mascarados agitadores profissionais, e internacionais, que tanto estão de serviço na Grécia como na Turquia ou no Brasil.)



No centro do problema dizem estar a informação, a velocidade da informação. Pois. Não duvido. Mas também o cansaço cultural, cívico e psíquico acumulado nas sociedades humanas quando chega um dia em que pensam a sério e encaram de frente as vertentes da realidade política que vivem.


Como se mobilizam em simultâneo, e em locais muito distantes uns dos outros, milhares e milhares de manifestantes na sua maior parte, sem dúvida, gente ordeira? É pelo telemóvel? É por mail? É pelo facebook? É pelo twitter?
(Tem graça: só designações anglo-saxónicas.)
É a informação, é a velocidade da comunicação interpessoal a verdadeira bomba de efeito moral caída no seio da sociedade contemporânea?
Mas, insisto, nenhuma convocatória para manifestação surtiria efeito, ou seria de grande efeito moral, se a consistência também moral das populações não andasse abalada, se a velha e subentendida confiança dos governados nos governantes e nas instituições não estivesse há muito minada, se o velho e imperativo (e por vezes esotérico) exercício do poder e da autoridade não fossem hoje em dia quase impossíveis de exercer por tão desprestigiados se acharem.


Tem sido vertiginoso o esgotamento das fórmulas de conquista do poder e da conseguinte metodologia de governação em privilégio das entidades que materialmente possibilitaram a assunção desse poder a um homem ou a um grupo (partido) – e assim também pelo efeito moral da rapidez e facilidade da comunicação. A crise das credibilidades é profunda. A erosão dos prestígios e das reputações é imparável. E até as incontornáveis verdades que nos ensinaram como sendo históricas oscilam perigosamente. Serão estas as verdadeiras bombas de efeito moral?



As consciências individuais, colectivas, nacionais embatem contra um muro de impossibilidades para uns e vastas possibilidades para outros. As impossibilidades de uns que é urgente tornar possíveis, ainda que cruamente se incompatibilizem com as possibilidades de outros. Uma bomba de grande efeito moral. Austeridade?
Austeridade. Sem ela não poderemos levantar a cabeça diante dos nossos credores e financiadores nos próximos muitos anos. Mas a austeridade impossibilita, como muito bem se sabe, o pleno e desejável crescimento daquilo que nos permitiria ultrapassar a austeridade e enfrentar os credores: a economia privada, e por acréscimo e consequência natural a economia nacional.
Será a austeridade, que em maior ou menor grau afecta as economias do mundo, a verdadeira bomba de efeito moral (garantido) jogada pelo capital financeiro (por quem mais poderia ser?) contra as populações?
O ódio à classe política, outro factor transnacional. Ou será essa classe política em si mesma a bomba de efeito moral? Será. Mas o que faz e ao serviço de quem está essa classe política? Ao serviço dos povos e dos eleitores enquanto tampão de gananciosas ambições particulares? Acham que sim? Acreditam a sério?



                                                   
                                                      
 

Mas, oh, não, cada vez menos, só quando não pode deixar mesmo de ser. Quando muito é o contrário: é estar ao serviço do poder financeiro global como tampão amortecedor das aspirações populares. 

Estará a classe política, nesse caso, ao serviço de quem senão daqueles que lhe pagam a qualidade de ser classe política? Será esse compromisso de amplitude planetária entre Estado e capital a bomba de efeito moral que é atirada para cima da canalha cega e surda dos eleitores?
Ou então, o que vem a dar no mesmo, serão as alterações legislativas e processuais impostas pelos Estados, nomeadamente ao mundo do trabalho humano (mas não só), as verdadeiras bombas de efeito moral (o susto do desemprego, o medo da fome) lançadas contra a classe média – trabalhadora na sua maioria?



A vida não voltará a ser a mesma. Ou pelo menos aquela com as regras que a minha geração conheceu.

         

Passaria pela cabeça de alguém em seu juízo perfeito (nem pela dele, sabe-se lá) que um agente secreto ajuramentado da CIA e da NSA, arrependido, chorando lágrimas de sangue, roubasse documentos ultra-secretos do seu governo e viesse para o mundo revelá-los – certamente vendê-los, aos jornais, ou a quem mais estiver interessado, eu, por exemplo)? Passar para as bocas do mundo aquilo que de mais secretamente sagrado um Estado soberano pode conservar nos seus cofres fortes: as sacanagens, ou eventuais crimes, que anda a fazer aos outros Estados soberanos? Bomba de largo efeito moral. Andamos todos a ser escutados, espiados, devassados como potenciais terroristas…
Sim, e até terá cabimento a pergunta se não é o terrorismo, não esse, o outro, o inventado para garantia e usufruto das indústrias militares e dos serviços secretos, a grande bomba de efeito moral a pairar sobre este mundo. Porque já se sabe que o terrorismo real equivale à bomba real, de estilhaços, assassina, que se está nas tintas para o efeito moral imediato e procura um efeito real, efectivo – que não deixa de ser, também, a prazo, um potente efeito moral que pode permitir muitas imoralidades.

    

                                                                 
                                        


Ou será que passaram a ser os povos os verdadeiros inimigos das instituições, das empresas multinacionais, da alta finança internacional, das economias planetárias?
Sim, sim, serão os povos, eventualmente condenados pelo mais alto capital ao desemprego, à doença, à fome, a verdadeira bomba de efeito moral prestes a rebentar na arena da convivência social e institucional. Serão?
Pode ser que sim. Mas rebentar como?
Vamos lá a a ver, no Brasil as formidáveis manifestações de protesto chegam a surpreender (e a assustar pelo efeito moral que fazem) a presidenta e o governo federal, que pelos vistos não esperavam agitação social de tamanha magnitude. Uma primeira reivindicação: os preços dos transportes públicos. A presidenta e o governo metem o rabinho entre as pernas e baixam rapidamente os preços. E depois? E depois… não chega. E depois a indignação prossegue. Os manifestantes passam à violência, partem uma data de coisas. O povo não ficou satisfeito com as tão prontas boas vontades da presidenta e do governo. É preciso mais. Mais quê? E lá vem a saúde, a educação, a segurança, a habitação. E mais uma quantidade de benefícios públicos negligenciados até agora pela presidenta e pelo governo. E a corrupção à cabeça dos protestos. E os privilégios. Que são de muitos, sim, mas sempre com a classe política à cabeça. E como? E quando? Quando é que o povo que marcha pelas ruas e apanha com as bombas de efeito moral se apercebe que esses privilégios e mordomias e corrupções estão a ser travados, ou pelo menos a diminuir, e que se está mesmo a trabalhar para os abolir, sim, quando? Como?
Não sei. E o povo que vai pelas ruas, no Rio, em S. Paulo, em Brasília, em Belo Horizonte, também não sabe. Então quando é que terminam as manifestações? Quando o povo souber que está a trabalhar para resolver isso tudo? E como é que sabe? E enquanto não souber vai continuar em pé de guerra, em manifestações e protestos, a levar com as bombas (por enquanto) de efeito moral?     

A corrupção? Para serve a corrupção, além de beneficiar os corruptores e os corrompidos? Ao pessoal da rua não deve servir para nada, desde logo porque não tem posses nem estatuto nem para ser corruptor nem para ser corrompido. O que tem é esse poder de arruaça, de xingar, de insultar notabilidades, de bater com panelas na rua, de desafiar a autoridade, de atirar pedras e cocktails Molotov à bófia, e receber como troco a sua pitada de gás lacrimogéneo, os seus balázios de borracha (que devem doer) e as suas bombas de efeito moral. Bombas de efeito moral que afinal respondem ao efeito moral que esse próprio povo que se manifesta e protesta pode fazer sobre as consciências governantes.


Será a corrupção a nível governamental e institucional, de uma forma ou de outra generalizada, mundializada, a verdadeira bomba de efeito moral que fará despoletar outras bombas cujo efeito poderá não ser tão moral e ser muito mais letal?



Não, amigos, esqueçam o passado, a polícia nunca mais poderá disparar sobre os povos em protesto nas ruas balas que não sejam de borracha, gazes que não sejam só para puxar à lágrima, nem bombas cujo efeito não seja só moral.
Como já o fez noutros tempos...
E por isso, em verdade vos digo que a vida dos povos nunca mais será a mesma. Só nos resta saber de que efeitos morais ou fragmentados, ofensivas ou defensivas, serão as futuras bombas que alguém (a polícia, as políticas, a banca) nos irá atirar para cima no futuro. E o futuro é hoje. Essa é que é essa.





                BOMBAS DE EFEITO MORAL 2

E eis senão quando, estava eu a acabar de escrever estas tretas, aparecem-me na frente uns laivos de futuro e no écran de televisão começam a rebentar bombas de efeito moral. 


À uma, a demissão do mago Gaspar - as putas das contas não estavam certas e confessa que falhou em tudo e que no governo não há coesão. 
Às duas, são as portas das residências oficiais que começam a bater tanto que entalam o ternurento, ensimesmado, atarantado e patético chefe do governo com mais uma demissão, a do Paulinho, governador  das mesmas portas - e sem dar cavaco, sai assim, à papo-seco, manguitos irrevogáveis para o ar, um capricho de estrela, que é lá isso, nasceu uma menina nas Finanças quando eu tinha encomendado um rapaz, e sabendo que só com ele pode haver governo. 
E assim, sem ponta de música e com fardamentos velhos, começam as cerimónias de inauguração oficial da crise política que subrepticiamente já há muito estava em vigor em tonalidade larvar.
As granadas de efeito moral não matam, como disse, mas podem moer muito. Moer até doer. E estava lançada a grande bomba de efeitos morais que é a sombra de uma crise política. Os investidores  internacionais começam a sentir afrontamentos. Os mercados experimentam os sintomas da sua crónica crise de fígado, há dispepsias e náuseas. Os credores desatam aos porras. A bolsa cai desamparada de um quinto andar... 


Granada defensiva, de estilhaços muito afiados, estava para ser a tão ansiada como tenebrosa reforma do Estado. Era para ontem. Mas como não foi ontem estava na hora de a fazer. E não foi ontem só porque não tinha havido coragem de a fazer, tal o estrago que ela traria.
Porque essa granada da (chamada) reforma do Estado não seria só de efeito moral. Essa era de estilhaços cortantes, afiadíssimos, rebentaria no meio de nós quase todos (o que para os seus ideólogos-granadeiros seria igual ao litro), mas o pior é que rebentaria também nas mãos dos próprios granadeiros, iria comprometer-lhes o futuro eleitoral. Era melhor estar morto, fingir que não era nada.
Mas o imperioso e estranho caso dos 4 mil e oitocentos milhões que é preciso arranjar até ao mês que vem dê lá por onde der tornou inadiável essa reforma do Estado. Era preciso lançar essa granada e abrigar-se depressa, de qualquer maneira, como mandavam as velhas NEP's militares, ouvir o zunido dos estilhaços sem ser atingido por eles.
Dos comprometidos na geringonça de dispensar não sei quantos milhares de funcionários públicos e acabar com uma quantidade louca de institutos e mordomias, o primeiro a saltar foi o lunático cientista financeiro a quem atribuíram um nome de rei mago e que tinha jurado pelas felicidades dele à troika que era muito homem para arranjar os tais 4 mil milhões. 


E o segundo a pôr-se ao fresco, anteontem, foi o afamado argumentista da nossa Hollywood política, encarregado de escrever o guião do desgraçado filme que seria a reforma da entidade que, como se dizia do vinho no tempo do Salazar, não dá de beber, mas dá de comer a não sei quantos milhões de portugueses: o Estado. 


Com a granada de estilhaços de efeitos letais já despoletada, com a patilha de segurança a tremer-lhes na mãos e a dar de si, falecia-lhes o arrojo, eh pessoal!, eu por aqui me sirvo. E as ratazanas acenaram alegremente e gritaram bye-bye ao barco.
Mas ontem fizeram-se pazes. Afinal não foi nada. Vamos lá sentar-nos com umas bejecas e uns tremoços e conversar a sério. Sim, porque até aí tinha sido tudo a reinar. 

E no meio disto tudo, lá para os lados de Belém, quando chega a meia-noite as correntes começam a arrastar pelo soalho do velho palácio. É a hora do fantasma inofensivo que segundo a voz do povo lá mora. Às  vezes aparece na televisão, sem lençóis brancos pela cabeça, sem correntes - a não ser as dos compromissos necessários a uma carreira de sucesso como fantasma. Aparece na televisão de facies hirto, imutável como uma caraça de anarquista apanhado pelas câmaras a incendiar pneus, o iluminado cavaleiro-teórico do inexistente.

Hoje, dia 4 de Julho, nem o mais ladino dos comentadores se arrisca a vaticinar que bomba poderá rebentar, se ofensiva, de efeito moral, se defensiva, a desferir a esmo os seus estilhaços cortantes.







domingo, 30 de junho de 2013

VERDI -  DE TRAFICANTE DE ARMAS A

        DEPUTADO




Já na noite de estreia de Simão Boccanegra, no Scala, os patriotas que assistiam à récita haviam lançado o famoso grito de Viva Verdi. Um grito de glorificação do compositor, sem dúvida, mas com um sentido secreto e mais imediato que ultrapassava a admiração artística e associava o compositor à luta patriótica. Queria dizer Viva Vittorio Emanuelle Re D’Italia.

                                                          

A 9 de Janeiro de 1859, o mesmo Vittorio Emanuelle II faz uma proclamação ao Parlamento do Piemonte: respeitaremos os tratados, mas não seremos insensíveis aos gritos de dor que nos chegam de toda a península itálica.
A 26 de Abril, as tropas austríacas passam o Ticino e entram no Piemonte, preparando o assalto à capital, Turim.
E os combates rebentam. Os italianos averbam algumas vitórias sob um comando bipartido: o rei à testa dos soldados piemonteses e Garibaldi comandando os seus caçadores alpinos. Os franceses vêm a a entrar também em cena e os austríacos são repelidos para lá do rio Míncio. A 8 de Junho, Vittorio Emanuelle e Napoleão III entram em Milão e são aclamados pelo povo. O imperador francês declara-se preparado para manter a guerra até à libertação final da terra italiana, e até que a vontade de povo italiano se manifeste através do voto livremente expresso.
Verdi está em Sant’Agata. Rejubila com as notícias da guerra, mal podendo acreditar que o sonho da unificação política esteja à beira de realizar-se.
A chamada dos italianos ao combate, feita pelo rei a 29 de Abril de 1859, depois das notícias das movimentações austríacas pelo Piemonte, havia coincidido, é curioso, com a data do casamento de Verdi com Giuseppina Strepponi. E agora, no remanso da sua casa de Busseto, situação matrimonial regularizada, Verdi pouco se preocupa com a música. Quer assumir uma inequívoca posição política.  E mais do que política, moral.


                                                     

Verdi comprometera-se na militância contra o opressor, pela unificação política e administrativa de toda a Itália. E nesse compromisso usara a sua obra artística como clarificação, se se pode dizer, das suas ideias e dos seus anseios, vaticinando em música (e pelos argumentos das suas óperas) o grande evento que se aproximava. A hora era de tomar posições na trincheira moral. A música bem podia esperar. 


                                         

O nome de Verdi era bandeira para os patriotas. O nome de Verdi era um signo moral. A 17 de Fevereiro de 1859, em Roma, noite de estreia do Baile de Máscaras, na plateia  e nos camarotes do Teatro Apollo, o grito de Viva Verdi ecoara nos intervalos do espectáculo como consigna revolucionária de vitória.
E foi a partir dessa noite do Baile de Máscaras no Apollo de Roma que as palavras Viva Verdi começam a aparecer pintadas nas paredes de toda a Itália.
Entre 1859 e os primeiros anos da década seguinte, a guerra e as vicissitudes da política passam a ser, para Verdi, a grande questão de moral, o grande sentido de uma vida. Tanto assim que nas cartas do isolamento de Busseto envia ao amigo e maestro Angelo Mariani, as questões musicais são para ele de somenos importância.
Parece que em Piacenza os austríacos fizeram saltar fortalezas e se foram embora. Estão a ser vistos passar em Cremona, a caminho de Mantova. Vê se me mandas notícias sobre o andamento da guerra.
Fico feliz com os teus êxitos artísticos, mas preferia que me falasses de outras músicas, daquelas que possivelmente não interessam a vocês, músicos, dignos filhos de Apolo. Como estão as colcheias e as semi-colcheias de Garibaldi e suas tropas? Esse sim, é um verdadeiro maestro. E que óperas ele compõe! E que belíssimos finais ele arranja, feitos à força de tiros de canhão…
A intervenção política mais directa de Verdi vai começar. Promove subscrições públicas para auxílio dos feridos e das famílias dos mortos em combate, e assim cairia no ilícito penal de alta traição, caso os austríacos voltassem a ter autoridade sobre o ducado de Parma.
Não era aliás a primeira vez que Verdi desafiava o poder austríaco. Fizera-o em 1848, integrando uma delegação que solicitava ajuda político-militar à França contra a tirania opressora das regiões do Veneto e da Lombardia.


A 12 de Julho é assinado um armistício. Todas as esperanças patrióticas são adiadas. O Veneto continua na posse dos austríacos. A Lombardia passa para a jurisdição do reino do Piemonte. Parte da Saboia será cedida aos franceses. O rei é sob reserva que assina a paz e Cavour retira-se da política activa. Os povos da Emilia e da Toscânia associam-se ao rei do Piemonte e constitui-se uma liga militar pronta a repelir o regresso dos austríacos. Chega Agosto e prepara-se em toda a Itália um plebiscito. Será ou não conveniente a anexação das regiões ao reino do Piemonte, pergunta-se ao povo.
Era uma primeira etapa jurídica para a Itália unificada.


Em Busseto, a votação é feita numa igreja. O momento tocante do dia ocorre quando Verdi entra e deposita o seu voto na urna. Estrondeia uma sentidíssima ovação. Há gritos patrióticos. Há lágrimas. Viva Verdi. Até aí era crime pronunciar o nome “Itália”, assim só, único, unificado.

Na sequência da sua posição cívica, Verdi toma a decisão moral de se deixar eleger como deputado da sua região, contrariando o próprio feitío e a própria e muito pessoal vocação. Passa a ser o representante de Busseto na assembleia das províncias da região de Parma. É eleito a 4 de Setembro. A 14 desse mês, junto com uma delegação, viaja até Turim e apresenta-se ao rei. Considera honra enorme e lisonjeira a distinção de que foi alvo ao ser eleito pelos concidadãos. Era pouca a sua preparação política, mas era, por outro lado, grande o seu amor a uma pátria unificada e à ideia de uma nacionalidade italiana homogénea.
Por intermediação do embaixador britânico dá-se o encontro entre Verdi e o conde de Cavour. Era um encontro desejado por Verdi, tanta era a admiração que nutria pelo estadista. E se o músico admira o político, este não menos admira o músico. Cavour considerava Verdi um dos mais formidáveis indutores de patriotismo e de vontade italiana de unificação. Nessa conformidade, o nome do músico deveria ficar historicamente ligado ao grande momento de libertação que se  vivia. A Verdi é conferida a cidadania honorária de Turim.
Ratazzi está presidente do governo piemontês, não quer desagradar a  Napoleão III, demora em reconhecer a vontade das regiões em serem anexadas pelo reino do Piemonte, claramente expressa pelo voto. Há desordens. Multiplicavam-se os atentados contra algumas das personalidades mais chegadas à Áustria e logo em seguida vinham as represálias. Na vida de Verdi chega o momento de se exercer como traficante de armas. É o caso das 172 espingardas.


                                                                                                             
Verdi está feito um revolucionário romântico. Mariani, meu caro, trata de me encomendar aí em Génova um carregamento de 172 espingardas. A nossa causa é sagrada.
Era preciso armar as milícias populares da região de Parma. Mas faltavam os fundos. Verdi adianta a vultosa verba. Tem cartas de apresentação do embaixador inglês para um oficial das forças garibaldinas. Mas o dito oficial, inexplicavelmente, rói a corda. E Verdi não faz mais nada: volta-se para o companheiro filho de Apolo, o então famoso maestro Angelo Mariani. Um outro mais tarde famoso maestro, Franco Faccio, também está metido no esquema.
Angelo Mariani, ilustre maestro, feito intermediário no tráfico de armas, manda a Verdi as 172 espingardas – sem se esquecer das respectivas baionetas. Dessas 172, Verdi tira uma para uso próprio – às vezes, nunca se sabe…


Estamos a 21 de Janeiro de 1860. Cavour regressa à política e põe-se à testa dos negócios do Estado do Piemonte. O voto expresso pelas regiões quanto à sua anexação ao Piemonte não pode caír em saco roto – é o que Cavour diz a Napoleão III. 
A vontade politica das regiões é reconfirmada por grande maioria e as regiões são anexadas, contra a cedência aos franceses de Nice e da Saboia. Os deputados das regiões anexadas são convidados a integrar o novo parlamento piemontês.
Sublevações e insurreições são o pão-nosso-de-cada-dia. Sicília. Não sei se lembram do filme, O Leopardo. Talvez o filme mais verdiano que alguma vez foi feito…


Sicília. Calabria. Nápoles. Garibaldi actua no sul. Acumula vitórias. Chega a Palermo.
A 7 de Setembro, Garibaldi entra em Nápoles. Nápoles e a Sicília são anexadas ao reino do Piemonte.
1860 – o ano que marca o advento da unificação italiana. Só a região de Veneza e os estados pontifícios permanecem excluídos da pátria itálica.
   Os eleitores de Busseto propõem a candidatura de Verdi ao primeiro parlamento nacional italiano em vésperas de se constituír. A propositura de Verdi é para eles uma questão de moral. Verdi recusa. Mas Cavour encoraja a candidatura do compositor declarando a alta importância moral da presença de Verdi nesse primeiro parlamento nacional italiano. Cavour também pensa fazer eleger Alessandro Manzoni, o maior poeta vivo das itálias.
Sim, sim, era um tempo em que os políticos profissionais prezavam muito os contributos dos artistas e homens de letras como força moral de uma nação.
Mas Verdi sente aproximar-se o perigo de ser transformado em político a tempo inteiro. E se a sua figura serve de caução moral às novas instituições e à nova nacionalidade, o estatuto de político representa uma agressão aos severos princípios de uma moral artística e pessoal.


Enquanto uns fazem tudo para ser deputados, meu caro Mariani, eu vou a Turim para evitar sê-lo.
Verdi tem audiência  marcada com o conde de Cavour para 18 de Janeiro de 1861.
Estão 14º negativos em Turim no dia 18 de Janeiro de 1861. Verdi argumenta com Cavour. Expõe-lhe as razões pelas quais, sem falar na honraria, não deseja prestar à pátria aquele tipo de serviço político. Nem fez os necessários estudos para tanto. Não possui cultura politica que se veja. É homem de paciência escassa e avesso a discursos. O seu lugar é outro na barricada da unificação.
Cavour desmonta-lhe ponto por ponto a argumentação. Apresenta os seus contra-argumentos, e de tanto peso eles são que Verdi, evidentemente pouco calhado no trato com políticos, acaba por aceitar o encargo. Com uma condição, porém: demitir-se-á ao cabo de alguns meses de actividade parlamentar. O ministro assente. 
- Muito bem, mas quando isso acontecer, muito agradecia que mo fizesse saber com antecedência.


Há ainda formalidades políticas a cumprir. Verdi não quer apresentar-se como candidato ao colégio eleitoral da sua região. Terão de ser os amigos a propô-lo. E eles propõem-no. Segue-se que Verdi terá de travar uma batalha eleitoral com um certo Minghini-Vaini, político regional que ambiciona a cadeira parlamentar. E Verdi ganha-lhe: 288 votos contra 185. Uma maioria que não é tão absoluta que lhe permita uma eleição imediata. Organiza-se uma votação de desempate.
Verdi não quer o cargo, é verdade, mas também é verdade que não gosta de perder. Terá de fazer apelo à sua fibra de político de outras batalhas, ao seu espírito competitivo.
E volta a ganhar. Está definitivamente eleito. A sessão de abertura do primeiro parlamento nacional italiano está marcada para o dia 19 de Fevereiro.
Bem, meu caro Mariani, vou para Turim mas tenho que descansar um pouco e equilibrar a minha bílis antes de pôr uma gravata branca. Quem haveria de dizer, ahn? Mas é assim. Não há nada a fazer.
Mas qual terá sido, se foi, se houve, a razão de fundo para tanto apoquentar Verdi  quando na iminência da eleição? Se calhar foram várias as razões. Se calhar, a maior de todas essas razões foi a encomenda que entretanto lhe chegou logo em Janeiro desse ano de 1861: uma nova ópera para o Teatro Imperial de S. Petersburgo. Ópera essa que após diversas hesitações quanto ao libreto, viria a ser a Força do Destino.
Numa primeira fase, Verdi passa quatro meses na capital piemontesa com assídua assistência às sessões da câmara e muito atento ao andamento dos trabalhos.
Mas não é de crer que a actuação parlamentar de Verdi se tenha pautado pelo brilhantismo, nem que alguma intervenção sua tenha ficado para a História.
A disposição e a disponibilidade de tempo podiam não ser as melhores para Verdi se lançar à composição da nova ópera. A Strepponi cuidava dos confortos que pudessem adoçar a próxima estadia na Rússia: tagliatelle, fettucini, macheroni, prosciuti, queijos, salames, Bordeaux, champanhes. 
Passado o mês de Julho, Verdi começa a compor a música.
Maldito contrato este que me obriga a trabalhar e a suar no verão para vir depois a refrescar-me em demasia no inverno.


A Força do Destino, ópera tão cheia de acção, de situações guerreiras e morais, de imprecações, de desespêros e de maldições, de luz e de trevas, uma figuração, digamos, da experiência patriótica e revolucionária do seu autor no  marcante momento histórico da nova pátria italiana, estreia com êxito em S. Petersburgo a 10 de Novembro de 1862.
Como disse atrás, não é de crer que a performance  parlamentar de Verdi tivesse andado por grandes vôos de oratória. A presença dele na câmara dos deputados era sobretudo uma questão de moral. Segundo ele próprio, o seu voto foi sempre um voto seguidista, apoiante das posições do grande ministro Cavour. Pelo menos, assim, tenho a certeza de não errar - confessou.
Mas não se pode dizer que não tenha travado interessantes relações pessoais naquele mundo perigoso e fascinante, e tão diverso do seu. Teve ensejo de conversar longamente sobre arte com o próprio conde de Cavour, numa época, note-se, em que os ministros de Estado eram homens de cultura. Teve ensejo também de inspirar o político nas melhores intenções de contribuir para o desenvolvimento da cultura italiana – coisa que, na boca de um político, já se sabe, vale o que vale. Mas isso é outra conversa, outra moral.
Verdi expõe a Cavour um projecto de reordenamento dos teatros líricos e dos conservatórios: três teatros principais nas três principais cidades, Roma, Milão e Nápoles; teatros sustentados pelo governo, e, em cada uma destas cidades, instituição de conservatórios de ensino gratuito, aptos a fornecer os respectivos teatros da mão-de-obra musical requerida, entre instrumentistas, coros e solistas. Mas recusará a nomeação pelo governo  como presidente de uma comissão de reforma orgânica do Conservatório de Milão.



O reino de Itália foi efectivamente declarado como constituído na sessão parlamentar realizada no Palazzo Carignano em 15 de Março de 1861. Vittorio Emanuelle II é proclamado rei dos italianos. E Verdi sente chegada a hora do seu adeus aos negócios políticos. Fala com Cavour.
Cavour pede-lhe paciência. Que espere até que Roma seja também parte do reino de Itália. Si, ma quando? , pergunta Verdi. O conde, claro, como político de primeira água, evita a resposta frontal, ah, quando, quando… beh, intanto me ne vado in campagna, allora andate, state bene, addio
(A conversa de Verdi com Cavour, traduzida, foi: 
- Mas então diga-me, conde, quando é que Roma fará parte do reino de Itália? 
- Oh meu caro Verdi, quando, quando, sabe-se lá… 
- Bem, conde, então, enquanto o reino de Itália chega e não chega a Roma, eu vou andando para o campo… 
Ao que Cavour, decerto já sem paciência para aturar as esquisitices de Verdi replicou: 
- Olhe, Verdi, então vá, adeus e passe muito bem.)
E foi a última vez que os dois homens se falaram.
Se quisesse fazer a minha biografia como deputado escreveria no centro de uma bela folha de papel que os 450 membros da câmara foram efectivamente 449, pois que Verdi, como deputado, nunca existiu.
E sim, Verdi vai à sua vida, segue o seu destino. Há a “força” desse mesmo destino. Há o Hino das Nações. Há viagens artísticas, S. Petersburgo, Londres, Paris, Madrid.


Cavour morre. Verdi inicia a revisão de Macbeth.
1865 assinala o fim da legislatura e a dissolução desse primeiro parlamento nacional, e o fim do mandato de Verdi como deputado. Dos quatro anos da investidura, em dois deles primou pela ausência. Lá terá pensado que a maior parte da sua missão moral fora cumprida com a proclamação da unidade italiana.


Ainda se pôs a hipótese de uma recandidatura, mas a opinião de Verdi sobre a política e os políticos não mudara muito entretanto. Perdera demasiado tempo numa actividade onde, segundo ele, se fala muito, de mais, se polemiza de mais. E recusou, evidentemente, uma recandidatura.
Mas Verdi não se vai da política sem indicar o perfil daquele que gostaria de ver sentado na sua cadeira parlamentar, alguém que desse provas de franqueza e rectidão de carácter.
Fazem-se maravilhosos discursos, dizem-se coisas belíssimas, sem dúvida alguma. Mas é tudo uma perda de tempo – eis a caracterização de Verdi da actividade política e parlamentar.
À hora do fim do seu mandato já Verdi congemina o D. Carlos, uma das mais geniais das suas obras, e curiosamente, aquela cujo libreto era da maior (e mais pessimista) consistência política.