segunda-feira, 22 de julho de 2013

                      A MÚSICA DE BERLIM

        (Não, não, está enganado, não tem nada a ver com Frau Merkel.)
Em Berlim foi a devastação da II Guerra.
Em Berlim foi o abalo provocado pela queda do muro.
Em Berlim foi o desassossego da reunificação alemã.
E Berlim, após a queda do muro tornada capital da nova Alemanha reunificada, começou a colocar espinhosas questões de moral em matéria de música e de cultura
(É mesmo disto que quero falar.)



                                                                         

Pois, quem havia de dizer… e falo de Berlim, evidentemente, de Berlim e da sua vida musical, porque se falasse de Lisboa e da sua vida musical só se fosse como anedota.
Berlim. Caiu o muro e não houve dinheiro que chegasse para sustentar oito orquestras e três teatros de ópera - é isso mesmo: uns com tanto e outros sem nada; os problemas da fome e da fartura.
Cinco orquestras… se bem as conto: a mítica Filarmónica, antes de todas, claro; e depois a Sinfónica, a da rádio (a RIAS), a Deutsches Symphonie Orchester, a Staatskapelle - de Berlim - não vá confundida com a de Dresden: o que perfaz cinco; e mais as três orquestras privativas dos respectivos teatros de ópera, a saber, a Deutsche Oper, a Unter den Linden e a Kömische Oper. Dá oito. Exactamente. É muito. Mesmo para Berlim. E financiamento para isto tudo?


(E sem falar do teatro declamado, do bailado e das três universidades que fornecem formação musical a altíssimo nível profissional.)


Da Filarmónica de Berlim, o maestro Bernard Haitink disse um dia a um colega: se não a conseguires dominar ela esmaga-te como um camião.
Na Filarmónica de Berlim, depois de caído o muro, restavam da era Karajan cerca de um quarto do total de 128 instrumentistas (incluindo 16 mulheres).
E em 1999 a Filarmónica de Berlim foi uma vez mais na sua História chamada a depor sobre o seu futuro chefe, o que iria suceder ao cansado e doente Claudio Abbado. E pronunciou-se por Simon Rattle, o que deu uma triste consequência no tempo que decorreu até à tomada de posse de Rattle, na primavera de 2002, e consequência que foi Abbado ficar traumatizado e ter passado um annus horribilis à medida que ia sabendo dos triunfos averbados pelo seu sucessor à frente da Filarmónica enquanto maestro convidado - nada que não se tivesse passado já entre velho Furtwängler e o emergente Karajan, nos anos 50.

Mas na Filarmónica de Berlim, nos inícios do ano 2000, resignou não só o maestro titular, Abbado, como o intendente geral da orquestra, Elmar Weingarten. Abbado dirigira 618 concertos com a Filarmónica, e desses actuara em 286 como maestro titular do agrupamento.
Franz Xaver Ohnesorg é o novo intendente da orquestra, quer dizer, o gestor, o homem que vai buscar o dinheiro onde o haja, o homem que faz política. Nos tempos que correm (já lá vai a era do maestro genial e indiscutível que fazia exigências e era impreterivelmente atendido) o verdadeiro homem forte de qualquer orquestra é o gestor – o intendente como se diz na Alemanha. Mas mesmo o maestro também tem agora que fazer das tripas coração e tratar da vidinha, e meter as mãos na discussão contabilística, e cada vez, naturalmente, lhe irá sobrando menos tempo e disponibilidade mental para se concentrar na música.

     

O novo intendente Ohnesorg teve azar e apanhou uma era de deterioração da vida financeira da orquestra, da música em geral e das instituições culturais da cidade.
       A crise da reunificação estalou (e entalou) a vida cultural na capital da Prússia. Oito orquestras e três teatros de ópera – só para nos mantermos no mundo da música. Não será fartura a mais? É o que eu digo: uns com tanto e outros sem nada.
O, chamemos-lhe município, de Berlim estava de tanga e não tinha para mandar cantar um cego, quanto mais para amamentar oito orquestras e três teatros de ópera. A cultura, em Berlim, deixava de ser prioridade das prioridades, como sempre fora desde Frederico, o Grande; como sempre foi mesmo nos modernos tempos, até à reunificação. É verdade. O mundo começa a estar mais feio.
Antes da reunificação, com a Alemanha dividida, uma das razões da prioridade máxima aos assuntos culturais na metade da cidade que pertencia ao mundo capitalista, era a necessidade política de ser uma espécie de montra para o Leste de tudo o que de melhor acontecia no Ocidente, desde a arquitectura à música. O que implicava impressionantes injecções de fundos da municipalidade como do próprio governo federal.
É isso mesmo: a cultura no mundo tem importância ou não consoante a política queira mais ou menos que ela tenha, conforme ela, cultura, seja mais ou menos útil a ela, política. Não é de agora. Sempre assim foi.
A política é que tem feito de maneira a que cada vez menos a cultura de tipo clássico, caríssima, lhe faça falta. Nos mais antigos tempos a política era menos impiedosa, ainda assim, e mais tolerante para com a sua eterna inimiga… a cultura, justamente.
Foi num contexto político investidor e expansionista de Berlim que Karajan fez pela vidinha, fez aquilo que fez, e até mandou construir um novo auditório de cair para o lado, uma nova sede da Filarmónica, fronteira à Biblioteca Estadual, obra revolucionária do arquitecto Hans Scharoun, inaugurada em 1963 e ampliada em 1987 com um auditório só para música de câmara.
                                 
                    

Que tempos!
           


Mas a tradição e a História dizem qualquer coisa aos alemães e ainda marcam pontos, marcavam, então, e hoje ainda, também, vamos lá… ainda requerem o máximo esforço das autoridades berlinenses.
A Filarmónica marcou sempre a vida musical de Berlim pelo mais alto nível de execução que se pudesse imaginar, tendo encontrado sempre para a dirigir os maestros mais indicados, Nikisch, Furtwängler, Celibidache, Karajan.


                                                                            
                   


Bom, mas… à uma, o Estado de Berlim tem que sustentar o Konzerthaus. O edifício foi construído pelo célebre arquitecto Karl Friedrich Schinkel. Foi lá que se estreou o Navio Fantasma. Foi lá, enquanto teatro, que se estreou nem mais nem menos  que o Fausto, de Goethe. Não se fecham as portas a uma casa destas. Não se fecham as portas por mera falta de dinheiro ou por imperativo político correlativo a essa falta de dinheiro, a uma casa com passado tão ilustre. Não é fácil apagar a História de uma cidade. Se se for civilizado.
O Konzerthaus foi evidentemente destruído pelos bombardeamentos que arrasaram Berlim. Depois, nas partilhas, ficou do lado oriental e foi sendo lentamente reconstruido, até ser reinaugurado em 1984, só, e para ser chamado pelas autoridades comunistas de Centro Socialista da Música. Esteve em sérios riscos na precisa época da reunificação, 1989/91. É presentemente residência da orquestra sinfónica da cidade.


A Deutsche Oper. Inaugurada em 1912, porque era absolutamente necessário mais um teatro lírico. Foi o centro berlinense da modernização dos repertórios e das montagens.
Logo a seguir à guerra, e vendo que a velha Ópera Estadual ficara do lado comunista, as autoridades ocidentais reconstruíram-na, reinauguraram-na em 1961, no lugar da velha ópera de Charlottenburg, arrasada pelas bombas aliadas. Ganhou prestígio e modernidade nas décadas de 70 e 80, com Götz Friedrich à testa, com espectáculos muito modernos mas de enorme qualidade também. Estreou compositores da importância de Henze e Reimann. No momento da reunificação, lutava desesperadamente por conquistar um novo público e atenuar o brutal défice de exploração das últimas décadas.
     A Staatsoper Unter den Linden é dirigida musicalmente por Daniel Baremboim. Reconstruida em 1955, tinha sido a grande casa de ópera do Estado, a ópera da corte da Prússia, construída no centro histórico de Berlim quando, há 260 anos, Frederico da Prússia ordenou que se construísse para ele e para a corte “um grande palácio mágico”.
Entre 1742 e 1811 a sala não foi lugar para o povo nem para mal vestidos. Era espaço de representação do poder imperial e acabou-se a conversa. Só em 1811 é dada de usufruto ao governo da cidade e aberta ao cidadão comum. É destruída pelos bombardeamentos de 1941, imediatamente reconstruída pelos nazis e de novo destruída quando do ataque final dos aliados a Berlim. Estreou Weber, Nicolai, Mendelssohn, Alban Berg, Hindemith, Stravinski. Vai-se deitar abaixo ou transformar em edifício de escritórios uma casa destas?  

                      

A Kömische Oper (também dita Volksoper – ópera do povo), é, por assim dizer, uma ópera de segunda no quadro das outras sublimidades berlinenses. Ficou do lado de lá do muro, coitadinha, mas mesmo assim foi dirigida pelo famoso Walter Felsenstein, encenador, e mais recentemente pelo não menos contemporaneamente famoso Harry Kupfer. Leva 1270 espectadores e entre os directores musicais de antes da guerra teve Otto Klemperer. 
Foram as próprias forças armadas da Alemanha de Leste que, depois de reconstruída, em 1947, entregaram a Kömische Oper ao encenador Walter Felsenstein e o obrigaram a um caderno de encargos com características de ensemble inter disciplinar, teatro de prosa e ópera populares, sem estrelas internacionais e d espectáculos protagonizados por cantores actores em realizações actualizadas – ainda que ideologicamente muito marcadas – e tudo dito e feito e cantado exclusivamente em alemão.
A vida musical de Berlim no século XIX, pelo século XX fora, antes da guerra, e mesmo nos anos 60, após as devidas reconstruções e restaurações, na esteira do chamado milagre económico… não se pode conceber em cidade alguma outra mais dinâmica, variada e ao nível mais alto, protagonizada pelos Mendelssohn, pelos Weber, pelos Brahms, pelos Wagner, pelos Meyerbeer, pelos Nicolai, pelos Nikisch, pelos Furtwängler, pelos Karajan… nunca mais acabaria a lista… mais a tradição do cabaret, do dodecafonismo, do Brecht e de todo o resto da modernidade, em convivência com o conservadorismo estético e político mais arreigado. É mesmo assim. É assim que vive uma metrópole civilizada. E nem guerra nem comunismo nem socialismo nem nazismo alguma vez puseram em causa as instituições e casas de cultura berlinenses.
Mas nos nossos dias…


Bem, por aqui se pode fazer uma ideia dos perigos civilizacionais inscritos no sentido dos nossos dias…


Perigos civilizacionais? Mas, minhas senhoras e meus senhores, a civilização dessa gentalha dos Mendelssohn, Wagner, Brahms, Furtwängler, Karajan, acabou. Acabou. Não vale a pena estarmos com choraminguices. Mas lá que custa, custa…
A fulminante reconstrução de Berlim e das suas casas de cultura logo a seguir à guerra constituíu-se como uma questão crucial de Estado. Quer dizer, uma aguda questão de moral. Era do interesse da cidade, era do interesse dos cidadãos, a continuidade de uma vida cultural onde a música era parte capital e sem a qual não de poderia, digna e esteticamente, viver.
E tudo isto é muito bonito, é, mas o que se passou com a queda do muro e a reunificação, na sua perturbante complexidade, em termos musicais e financeiros, foi de uma simplicidade tão grande tão grande que chega a ser atroz.
Reunificada Berlim, tão simples como isso, a cidade que eram duas voltou a ser uma e as instituições dimensionadas para duas têm que funcionar apenas numa. As instituições culturais e musicais, por conseguinte, duplicaram, a oferta, fatalmente, mesmo numa dimensão destas, ultrapassou a procura. Uma cidade única não precisava de tantos teatros de ópera nem de tantas orquestras. E tudo pago pela municipalidade, eventualmente com alguma comparticipação do Estado federal.

 

Mas, do outro lado da questão, fechar instituições de cultura e de música não vai muito com o feitio dos alemães. Todavia, também, os ires e vires da economia impõem as suas duríssimas leis. Que fazer?
Excesso de cultura. Escassez (relativa, mas crescente) de público para ela. E tudo aconteceu de um dia para o outro, pela comezinha razão de terem deitado abaixo um muro.
Era preciso mudar. De preferência sem perder a identidade, sem prejuízo de postos de trabalho e de direitos adquiridos, não é? E sem hipotecar a secular tradição. Mas como?
A mudança! Pois, mudar para as regras do mercado, uma profunda e enjoativa realidade que fora eternamente escamoteada pela responsabilidade financeira assumida pelo Senado e pelo Estado federal numa cidade e numa actividade secularmente viciadas no princípio da subvenção.


E fecharam e acabaram, de facto, salas, coros, pequenas orquestras, bibliotecas. Universidades.


Em 1996, o secretário estadual da cultura de Berlim propõe fusões, porque não, entre as duas orquestras sinfónicas de Berlim, ou das duas berlins, com a orquestra de Kömische Oper. Para evitar isso, os músicos prescindiram de parte do seu salário e de outras regalias e passaram a trabalhar mais horas por menos dinheiro.
Os responsáveis, gestores e maestros, passaram a correr os escritórios das grandes empresas privadas e multinacionais e a oferecer os serviços as suas orquestras. Já não será tão necessário produzir música do melhor nível. Será mais urgente, agora, sobreviver, e fazer a música necessária para ganhar algum dinheiro.
(Pois não, não se iludam, amigos de uma certa idade ou de alguma memória, a cultura tal como a conheceram ou ouviram falar dela, acabou…)


A oferta de concertos em Berlim era muita. Mesmo em Berlim, não havia público para tanto. A luta por uma pequena faixa de público (outros diriam que por um nicho de mercado) era titânica entre orquestras e respectivos intendentes e maestros. E depois vieram os músicos de Leste. Eram bons e ofereciam trabalho e qualidade por muito menos dinheiro. E a Polónia ficava só a 80 km, de Berlim…
As orquestras berlinenses não viviam já tanto do génio musical dos seus maestros e da perícia dos seus instrumentistas. Os homens mais importantes das orquestras de Berlim passariam a ser os técnicos de marketing e publicidade. E os maiores e mais geniais maestros passaram a ser os que tinham da música uma visão actualizada, isto é, empresarial.
De todo o modo, que não se faça confusão, a vida musical de Berlim é incomparável com a de qualquer outra cidade do mundo. A oferta. Porque a procura relacionada com a dimensão da oferta, pelo que leio, vou ali e já venho…
Dizem que há salas vazias. Sim, também em Berlim. E apesar do enorme afluxo de funcionários do Estado federal, deslocados de Bonn com a mudança da capital.
   Barenboim, era um dos que então mais barafustava publicamente. Contra a alegada paralisia política das entidades oficiais, contra a falta de ambição que tomara os responsáveis políticos, e contra toda a consequente mediocridade e crescente falta de meios.
(Fazia bem a este Barenboim uma estadia de um mês, não era preciso mais, em Portugal, com tudo pago, para ver se aprendia alguma coisa acerca de paralisia cultural, falta de ambição e mediocridade, e para ver se dobrava a língua ao falar dos politicos berlinenses.)
Do outro lado da questão, teriamos Simon Rattle, o então novo titular da Filarmónica de Berlim, que antes de aceitar o lugar fizera exigências: aumento de dotação orçamental da orquestra, já!; aumento salarial dos músicos – 1,65 milhões de euros/ano afectos a salários na Filarmónica de Berlim, significando um aumento de 1000 euros/mês para cada músico. Foi. Rattle entrou à campeão e fez as vezes de delegado sindical e de manager, ou de intendente, levando a imprensa de Berlim – que como qualquer imprensa do mundo dito livre não as poupa – a publicar acerca do maestro Simon Rattle: “Intendente já a Filarmónica de Berlim tem. Agora só lhe falta um maestro”.
Estou a ver a imprensa portuguesa a ser tão desassombrada e a escrever destas a respeito de algum titular de coro ou orquestra portuguesa, ou de algum dos grotescos bonzos da nossa vida musical. Mas, está claro, cá pela terra tudo é genial, nada é passível de critica – depois os promotores dos espectáculos vingam-se e não dão bons bilhetes ao critico e é uma chatice, o crítico desanca nos espectáculos – grande parte das vezes com razão. Mas nós somos os melhores. Tão bons que nem entramos em competição com ninguém. Além de que tenho dúvidas sobre se alguns dos nossos actuais redactores de jornal (e salvas as excepções, claro) saibam ao certo o que é uma orquestra sinfónica, para que serve e como funciona.
Barenboim barafusta, pressiona o Senado para largar mais algum para a sua Staatskapelle. Kent Nagano, entretanto posto à cabeça da Deutsches Symphonie Orchester também estava em campo a fazer pressão ao Senado. Harry Kupfer, o famoso encenador, puxava por mais uns tostões para a sua Kömische Oper…
Em suma, a competição em Berlim ficou ao rubro – competição pelo dinheiro, entenda-se, porque o resto logo se veria….
O maestro Kent Nagano até disse: a minha ocupação favorita não é fazer intermináveis negociações com políticos; e se o faço, o meu objectivo é só um: a música.; a música e a sua qualidade é a causa mais importante que eu posso abraçar; e se em Berlim, devido à reunificação, a música foi afectada, é preciso ver a questão pelo lado da energia redobrada da sua vida musical, o que é um ganho de qualidade. A Filarmónica é sem dúvida um agrupamento excepcional e cheio de tradição, mas cuidado, não são só eles que asseguram a qualidade da vida musical de Berlim.
Marek Janowski, maestro titular da orquestra da rádio (a RIAS), diz que Berlim se tornou uma das regiões mais pobres de toda a Alemanha, mas que, mesmo assim, continua a ter a obrigação de dar uma visão única de qualidade aos seus visitantes.
É sabido que o sistema alemão nada tem que ver com as práticas americanas. A vida musical alemã fundou-se no princípio do subsídio estatal. Há séculos. Ninguém pode prever o que será o sistema de sponsoring privado neste imenso território da cultura da subvenção.
Janowski diz aquilo com que concordo em toda a linha. Oito orquestras em Berlim? Talvez até nem seja uma enormidade por aí além, porque dinheiro é coisa que não falta, há sempre dinheiro. A questão é política. A questão é  das prioridades de aplicação desse dinheiro. Uma questão de política, que é sempre uma questão de prioridades, e que é sempre, também, uma questão de moral.
Sabe-se o que aconteceu, o que foi a cultura da Europa com séculos de preteccionismo fosse ele da igreja, fosse ele da corte, do príncipe, do bispo, do conde, do marquês ou do Estado moderno. É demasiado cedo para se saber o que acontecerá a essa cultura quando apoiada por empresas privadas de estilo americano.
Política. Sim. E depois há as manobras políticas. Cada partido com preponderância no Senado de Berlim tem os seus heróis preferidos nas orquestras, sejam eles maestros, sejam intendentes. Ohnesorg, o novo manager da Filarmónica, é visto pelos políticos da democracia cristã como o salvador, o homem providencial que para mais chegou a trabalhar no Carnegie Hall de Nova York (tem a escola toda) o que dá um alinhamento óptimo, uma afinação perfeita com a tonalidade económico-cultural dos tempos, está bem de ver. E a ideia dele, não podia deixar de ser, é transformar o estatuto público de um ou dois séculos da Filarmónica de Berlim numa empresa de prestação de serviços. À americana.
E a Filarmónica, outra coisa também não seria de esperar, passou a ser uma fundação de direito público.
No Senado, quem protestou contra esse estatuto da Filarmónica foram os Verdes, dado que assim os assuntos da orquestra escapavam ao controlo parlamentar do Senado da cidade.
Palavras deste Ohnesorg, novo intendente da Filarmónica de Berlim: eu já não vou ao concerto com um espectador normal de música: eu vou ao concerto como um prospector de mercados, um conselheiro comercial. E quero saber quem é o meu público e como reage. Podem crer que é um outro tipo de descoberta.


É capaz de ser.
O edifício da Filarmónica deixou de ser aquele lugar meio encantado onde regia Karajan e agora é um espaço de intercâmbios (de quê e para quê?) aberto a todo o bicho-careta. Há concertos de estudantes – olha que grande coisa. Consulta-se a Internet – banalidade maior, hoje em dia não há. Ah, e pode-se beber um café…


Das oito grandes orquestras berlinenses,  três delas corriam seriíssimos riscos de desaparecer. E a mais moribunda delas era-o, em boa parte, por causa dos imensos e luxuosos caprichos de outrora, dos faraónicos projectos, das magnificentes mordomias, dos excepcionais gastos, dos vícios caros que foi adquirindo, e por isso, pela má fama que arranjou entre as entidades pagadoras dessa grande vida, podia ser mesmo a sagrada Filarmónica de Berlim a tornar-se pesada em face da concorrência e da dinâmica, por exemplo. da Deutsches Symphonie Orchester, ou mesmo da orquestra da rádio.


Mas isto é mesmo assim: pelo menos em Berlim, e noutros lados onde há música, claro, há quem perceba mesmo dela, e os problemas são postos sem hipocrisias, são considerados pelos responsáveis políticos, são encarados de frente, são, melhor ou pior, mais definitiva ou mais provisoriamente, resolvidos, e a música não pára, a música não pode parar, a música continua sempre e as coisas acontecem.


A minha ideia era falar de música, mas acabo por não saber se cheguei a falar de música se não
       


       



sexta-feira, 12 de julho de 2013

   
                UM CIGARRO PARA O MOMENTO HISTÓRICO

                   

Desde novo que me habituei a não dar esmolas.
Porquê? Ora porquê… influências, leituras, companhias…
Dar esmolas, julgava pensar eu, em novo (influenciado por teorias, claro está), era para velhos piedosos e tementes a Deus. Eu não era velho. Não era muito piedoso. E tinha perdido o medo de Deus.
Dar esmolas era para hipócritas caritativos. Era para a dona Gertrudes Tomás e a sua beneficente árvore de natal do cinema S. Jorge. Era para os conservadores ideológicos – o mundo era mau e não havia maneira de o mudar. Era para os reaccionários – sempre haveria ricos e pobres por mais voltas que se dessem. Era para os fascistas – o homem era mau como as cobras e não se podia transformar em bom. Era para os serventuários do capital através da religião, da padralhada, esses, sim, que pela esmola limpavam a folha negra da má consciência que tinham com respeito aos males do mundo e à exploração do homem pelo homem.



(Já podem ver os caminhos por onde eu andava e as más companhias de que me rodeava – pessoais, presenciais e literárias.)


Um cidadão consciente, de esquerda, não dava esmolas. E acabou-se. Nem se discutia, tão óbvio era. Um cidadão consciente, de esquerda, acreditava na já muito próxima revolução social e no cântico dos amanhãs. Nasceria o dia em que deixaria de haver ricos e pobres e em que todos teriam o suficiente para viver dignamente e toda a caridade fosse desnecessária. 
E enquanto esse dia não chegava…
Enquanto esse dia não chegava era bom que se fossem criando as condições para ele chegar. Era bom que se fosse trabalhando o momento histórico mais propício para ele chegar.
Enquanto esse dia não chegava também não seria obrigação do cidadão comum acorrer aos males sociais. Ao Estado o encargo de minorar o sofrimento dos desvalidos.


Já terá nascido esse dia? Há quarenta anos palpitou-se que sim. Hoje? Hoje palpita-se que esse dia sim, despontou vai para quarenta anos e que passou a correr. Esse dia palpitou-se que tinha nascido há quarenta anos e a caminho do socialismo. Mas pode ter sido um erro de percepção e ele pode nem ter nascido, ou pode ter sido um nado-morto (como um humano). Ou se nasceu, a caminho do socialismo, esse caminho bifurcou-se, criou dúvidas e dissidências, e ficámos todos parados na encruzilhada dos caminhos. À espera… de Godot…

                               

Ou talvez nem sequer tenha nascido, o dia. Nem há quarenta anos nem nunca. Mas ainda se ficou a espera de que nascesse. Ainda alguém está à espera de que ele nasça, ensolarado…
Enquanto esse dia não nascesse, pensava eu (como muitos outros), a missão de um cidadão consciente e cheio de leituras proibidas consistia em ajudar a criar as condições para que esse tal dia pudesse nascer. E sendo assim, quantos mais andassem a pedir esmola melhor para as condições (objectivas, subjectivas), mais depressa esse dia nasceria, precipitada a sua nascença pela revolta dos pobres de pedir.


Por acaso, por essa altura (estamos nos começos dos anos 60) trabalhava eu numa firma de uma zona operária, o Poço do Bispo, que despedia fluentemente pessoal indiferenciado, na maioria morador nas barracas do chamado bairro chinês, que ficava por ali. Essa firma tinha a interessante particularidade de ser uma pequena empresa societária de outra muito maior, e gerida por jovens (trinta e tantos anos) de esquerda - um dos quais viria mesmo a ser filado pela PIDE no escritório, na frente do pessoal.

              

E calhou um dia, num almoço, perguntar eu, asno ideológico chapado apesar das leituras e das companhias,  porque é que pessoas ligadas ao Partido (só havia um, ao tempo, e clandestino), lídimas defensoras da classe operária, cavaleiros imaculados das justiças sociais, gente esclarecida, etc., etc., cometia a vileza de pôr na rua, sem ponderoso e aparente motivo, desgraçados cujo trabalho era carregar e descarregar pipas de vinho, cuja vida decorria em condições de pobreza, e quando a maior parte deles, ao ser despedido e sem idade para arranjar facilmente outro trabalho, estava condenada à miséria mais negra.


Os meus interlocutores, quadros da pequena empresa, clandestinos militantes do Partido, entreolharam-se, sorriram de entendimentos, deixaram-me com a cara de quem perdeu uma ocasião para ficar calado, ou de quem acabou de fazer uma figura triste.


Mas explicaram-me, e muito sucintamente (a minha cultura de esquerda não lhes parecia grande espingarda), que não faziam mais do que interpretar a linha do Partido. Se faziam o que faziam, despedir pessoal, era porque o momento histórico assim o impunha. O momento histórico recomendava a criação de condições para uma mudança radical do estado das coisas. O regime salazarista estava a dar as últimas. A hora era de promover os descontentamentos nas classes mais desfavorecidas da população e assim apressar os desfechos eventualmente revolucionários.

        

Sim, devo ter balbuciado, mas entretanto… entretanto era assim mesmo. O momento histórico determinava os procedimentos. A miséria. A fome. A criação das condições objectivas e subjectivas. Terá que reler com atenção o seu Marx, o seu Lenine, homem! Quanto pior melhor para o progresso das ideias revolucionárias. O que está na ordem do dia é a consciencialização de classe das massas trabalhadoras, por natureza acomodadas nem que seja à miséria e à fome, e à espera de serem despertadas para a grande causa dos oprimidos. A hora está a chegar.
E viu-se o que foi, e a que horas chegou a hora. Se é que chegou.
Tanto me palpita que ela já chegou e já se foi, como me palpita que ela ainda não chegou; como me palpita que essa hora ainda chegará; como me palpita que essa hora nunca chegará.
Chegado ou não o dia, e a hora, a força da realidade diz-me que a instituição da esmola de rua não se extinguiu – antes se refinou noutras modalidades mais sofisticadas de esmola.


Ficámos parados na encruzilhada dos caminhos, do socialismo, do parlamentarismo, da democracia, do liberalismo… ó chefe oriente-me aí um euro para comer uma sopa… olhe, ó senhor, compre-me ali um bolo de arroz… olhe, faz favor, podia-me dar cinquenta cêntimos para telefonar à minha irmã… ó chefe, faltam-me só vinte cêntimos para apanhar aquele autocarro…
Sem falar dos romenos e das romenas com filhos falsos nos braços. Sem falar nos drogados evidentes a pedir para a dose – a sua respeitável forma de subsistência. Sem contar com os estropiados pelo chão a estender para nós uma latinha.
Em que momento histórico estaremos?
Se me incomodam os espectáculos de miséria? Claro que incomodam. Se me impressiona a pobreza extrema? Claro que impressiona. Se me toca a penúria escondida? Evidentemente que toca. Mas a minha arcaica consciência de esquerda permanece, e com ela a resistência, que se tornou instintiva, e a renitência em alimentar hábitos de pedincha, os profissionais da esmola que podem tirar umas boas centenas de euros por dia sem trabalhar (contam-me casos) e com bom corpo para isso – pois, alguns bom corpo para trabalhar podem ter, podem é não ter onde aplicar esse corpo…


E surpreendo-me a não dar esmola, a não corresponder aos pedidos de cigarros que tornam proibitivo o acto de fumar até no meio da rua, pedidos que vão aumentando na razão do aumento brutal dos impostos sobre os cigarros – a vida não está fácil para um fumador inveterado…


Não sei se no meu inconsciente dei, fui dando, algumas voltas acerca do tema do momento histórico.


Enquanto os jovens turcos de esquerda da gestão de pequenas empresas de 1963 podiam despedir a torto e a direito a fim de criar condições para  a revolta das massas populares, eu, em 2013, não dou esmola nem forneço cigarros a fim de criar condições… para quê? Enquanto os jovens e impiedosos gestores de esquerda de 1963 tinham as cartilhas do Partido para interpretar, e para os orientarem quanto à identificação dos momentos históricos e das tarefas correspondentes, eu, sem partido nem cartilhas, corro riscos tremendos de me desorientar na História e de nunca chegar a saber ao certo em que momento estou e que tarefas o momento me impõe enquanto cidadão consciente. De esquerda? Sei lá. A idade dá cabo de tanta coisa…
 E vai daí, até me dá para pensar já não no momento histórico da minha classe social, da minha consciência de esquerda ou de direita. Dá-me para pensar no momento histórico que está na cabeça dos credores internacionais de Portugal. Vai-se a ver e a tarefa deles no momento histórico é a de apertar até rebentar com os periféricos do sul da Europa, fazer-lhes a vida financeira o mais negra que puderem, desorientá-los de tal modo que lhes crie um sentimento de revolta contra a ordem do mundo. E depois? E depois, nada. É isso.

  

Temo que possa acontecer com o Portugal estrangulado pela dívida soberana o que acontecia aos pobres trabalhadores braçais do Poço do Bispo de 1963, que se devem ter conformado com o seu destino, que não se transformaram em revolucionários, que por terem sido condenados ao desemprego e à miséria sonharam ainda com mais força com o impossível, isto é, ascenderem à condição de burgueses. E que foram baixando de estatuto profissional aceitando qualquer trabalho que lhes dessem mesmo que escandalosamente pago, e só para proverem ao sustento da família. E que começaram (ou continuaram) a beber até à cirrose fatal. E que de desespero em desespero podem ter matado a mulher e os filhos e terem-se matado a eles próprios logo a seguir…
Isso enquanto, pela dita usura do tempo, as tarefas prosseguidas pelos gestores de esquerda de 1963 iam deixando pelo caminho as colorações avermelhadas da hipótese de revolução social e ganhando as tonalidades cinza de um acto canalha.


Não sei se pelos trabalhos insanos e obscuros do meu inconsciente, e sempre com a questão do momento histórico em presença, entrei há tempos numa fase de oferecer cigarros a quem mos pedisse na rua. Um cigarro é um cigarro, um pequeno vício que mata, e que por isso mesmo acrescenta valor à vida enquanto a há. Um cigarro pode acrescentar algum sentido a um momento absurdamente histórico de uma vida. Um cigarro é algo que não se deve negar nem ao criminoso condenado ao patíbulo.
Sim, mas continua a repugnar-me o acto de dar esmola.


Confesso que não sei dar esmola. Quanto? Cinco cêntimos? Dez cêntimos? Chega a ser ofensivo para quem recebe. Um euro? É uma enormidade como esmola. Cinquenta cêntimos? Qual será a medida certa considerando o momento histórico?


“Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes”, mais ou menos isto: disse (citando Simone de Beauvoir) a presidenta da Assembleia da República, a luxuosa reformada aos 40 anos. Foi ontem ou anteontem e vem mesmo a calhar para a conversa do momento histórico.
A presidenta reformada não sabe quem foi Simone de Beauvoir? Não posso crer. Com certeza que sabe, porque, não sendo embora nenhuma luminária intelectual, também não iria ter a infausta ideia de citar alguém que no momento histórico não fosse politicamente correcto citar.
A presidenta conhece o momento histórico em que Simone de Beauvoir escreveu a frase? Bom, isso é que já não sei. Se não conhece, cometeu uma gaffe imperdoável para a segunda figura do Estado só por querer armar ao fino intelectual e sair-lhe uma bojarda das grossas. Se conhece, pior um pouco, como resulta óbvio para quem conheça.
A presidenta conhece o actual momento histórico português? Mal feito fora que não conhecesse (mas também já não se podem ter certezas a esse respeito, é verdade). Mal feito fora que não soubesse que uma das realidades que marcam o presente português é a férrea animosidade das camadas populares (e trabalhadoras) contra a classe política representada pelos seus deputados à Assembleia da República e respectivos, e insultuosos, privilégios.
Ora a presidenta reformada de luxo com 40 anos profere a frase da Beauvoir quando o público das galerias da Assembleia se manifesta, larga balões e atira cartões amarelos e vermelhos para as bancadas gritando “demissão!, demissão!”.
Ora o momento histórico em que Simone de Beauvoir escreve a tirada era o da ocupação nazi da França e consequentes iniquidades. Logo, os carrascos a que a Beauvoir se refere só podiam ser as tropas nazis.


Logo… a segunda figura do Estado português, citando a frase alto e bom som, faz a analogia espúria entre os manifestantes (funcionários públicos na sua maioria) e o ocupante nazi da França de 1940. Sim, chama nazis aos representantes do povo português que severamente criticam as incompetências, vigarices e privilégios de uma classe política autista e divorciada das aspirações populares.
É demais. Não?
Já não bastava a classe política viver à grande e a exibir incompetências à nossa custa como também se dá ao desplante de nos insultar?  
Sabendo a presidenta do contexto em que Simone de Beauvoir escreveu aquilo… das duas, uma: ou é mesmo para desacatar o eleitorado; ou não entende nada dos tais momentos históricos. E depois grita explicações aos jornalistas que a interpelam, explicações que alguma coisa relevam do atraso mental, ou do vício pacóvio que os nossos lamentáveis políticos têm ao fazerem de nós ainda mais estúpidos do que já mostramos ser ao elegê-los.


Mas o caso passa impune – quem poderia repreender a presidenta da A.R.?, só o P.R., se por um bambúrrio da sorte soubesse quem foi Simone de Beauvoir, nome que nem deve constar dos manuais de Economia e Finanças. 
O caso passa impune e imune às críticas jornalísticas. Que eu tenha visto, só Rodrigo Guedes de Carvalho, no noticiário da SIC, apontou de cenho enrugado a gravidade da gaffe. Que eu tenha notado, mais nenhum dos jovens e acerados comentadores do nosso jornalismo televisivo notou o despautério. Não me resta a menor dúvida: ignoram completamente o momento histórico a que a frase da Beauvoir se aplicava; assim como, baralhados nas  intrigas da nossa baixa política, ignoram sequer quem possa ter sido essa tal senhora Simone de Beauvoir – que também é capaz de não comparecer nos manuais de jornalismo em vigor nas universidades.
Bom, tanta conversa, mas do que eu queria mesmo falar era das elegíacas propostas de solução política para a crise que o momento histórico segredou ao presidente da República, o ínclito e inimputável político que com um simples discurso contamina a própria reputação de infalível e homem sem sombra de dúvidas e cria uma crise em cima da anterior. E também ele, afinal, faz cair a Bolsa. E também ele, afinal, faz aumentar as taxas de juro.
 O momento histórico.


Mas ainda haverá momentos históricos?
Ou até isso já acabou, na medida em que deixou de condicionar comportamentos ideológicos e já tudo vale em qualquer momento, e nenhum momento é ou deixa de ser histórico porque a própria História pode hoje ou amanhã deixar de ter validade histórica - quer dizer, deixar de fazer sentido?
E, em suma, o que é que uma coisa tem a ver com a outra?
E que coisa?
E que outra?