sábado, 27 de julho de 2013

      NADA EXISTE MAIS DO QUE AQUILO   
                       QUE NÃO EXISTE




O Dan Brown anda por aí outra vez. Com o seu último, Inferno. Que eu não li. Como não li os que se seguiram ao Código Da Vinci.
Mas agora lembrei-me desse mesmo, do Código Da Vinci.


Os códigos e as mensagens e os sinais e os signos ocultos que manuseamos ou frequentamos na nossa vida de todos os dias, que alguns pretendem estar disfarçados de outras coisas nas grandes obras de arte, os subtextos poéticos ou arquitectónicos que significariam mais (e maior) do que o próprio texto e ao qual só poucos iniciados têm acesso pleno… tudo isso… existe?, não existe? Oh, já houve evidências de tanta coisa que existia e que nós supúnhamos não existir. Será que não estamos preparados para identificar muita coisa de maior na nossa pequena vida menor de todos os dias? Será?  Não sei. Mas às tantas, vai-se a ver e nada existe mais do que aquilo que não existe…


Que códigos podem estar ocultos nas simples quatro notas em tonalidade de Dó menor da Quinta de Beethoven? Que quis Beethoven realmente dizer-nos com aquelas  quatro imperativas notas logo à cabeça da sua obra. Um aviso? Uma premonição? Talvez revelar-nos o valor de PHI, a proporção divina…
Uma coisa que há anos começou a acontecer e que muito me satisfaz pessoalmente foi o êxito de vendas de certos livros cujos conteúdos erudito-esotéricos, vamos lá, são literariamente vertidos em forma de romance de acção e mistério. Lembremo-nos do Nome da Rosa, do Prof. Umberto Eco, o primeiro, ou o mais celebrizado, achado técnico-narrativo do género, e até por acaso adaptado menos mal ao cinema. E mais O Pêndulo de Foucault, do mesmo Eco. Para não falar de outros de menos elaboração intelectual ou de inferior qualidade literária.
E, mais recentemente, à entrada do milénio, na esteira do pioneirismo de Umberto Eco, eis que nos aparece o Código Da Vinci, da autoria de um certo Dan Brown de quem eu nunca tinha tido notícia até O Código Da Vinci ser um sensacional best seller internacional. E a impressão que então me ficou foi de que TODA A GENTE tinha lido o Código Da Vinci.
O que é que cada um tirou dele, e porque é que gostou, ou não, dele… isso já é outro assunto…
Toda a gente leu o Código Da Vinci  e seus derivados, visto que a espécie de boom editorial quanto aos tais assuntos esotéricos não deixou de estar em moda, e esses produtos vendem, dão bom dinheiro a ganhar.
E entre os derivados do Código Da Vinci (que, como digo, já era um derivado das coisas sérias do Eco) estão alguns livros que só foram dele derivados por uma questão de oportunismo editorial, posto que foi de alguns deles que Dan Brown retirou grande parte do material para o romance.
        (A Flauta Mágica. O que é que Mozart quis dizer ao mundo e às Idades com esta obra? Que mistérios Mozart terá desvendado na armação dos acordes maçónicos da Flauta Mágica? Terá ele morrido por revelar por música segredos maçónicos impronunciáveis?)
Gosto que estes êxitos literários aconteçam, estava eu a dizer. Tal significa que grande número de pessoas pode começar a espiritualizar-se. O que não é mau.
As pessoas podem, por estes livros, ter ideia de alguma realidade eventualmente oculta, ou vislumbrar que a realidade absoluta nem sempre (ou até raras vezes) está ao nosso alcance, e de que essa realidade (verdade) não nos será nunca revelada nas histórias que nos são impingidas pela televisão, e que outras realidades poderão existir menos evidentes… porque nada existe mais do que aquilo que não existe, e porque às vezes parece que o que não existe na televisão não existe mesmo… quando afinal existe.


Grande parte do público talvez se tenha começado a desinteressar da política tal como ela é feita nestes nossos dias. E tal pode estar a acontecer, em boa medida, pela intuição dos públicos de que muita coisa importante lhe passa por debaixo do nariz, que nem tudo vem no jornal – nem sequer o mais importante -, e os sinais dessa intuição dos públicos pode ser o crescendo universal de interesse por este tipo de best sellers onde se acena ao público com a probabilidade de que a realidade mais real possa andar por paragens com que o respeitável público nem sonha.
Sim, o grande público pode estar a aperceber-se de que o suco da verdade da organização do mundo é oculto, está codificado e só é perceptível por signos.


O público que leu o Código da Vinci  ficou a pensar o quê do que leu?
Bom, na maioria dos casos, entreteve-se com a intriga a atirar para o policial, gostou da estória. Quanto ao mais, deixou-se estar indiferente. Ou não? Um livro que deixa o público indiferente quanto à sua intenção não dará com certeza um êxito colossal de vendas. E eu diria que, na maioria dos casos, o público leu e aderiu. Que é como quem diz, acreditou, mesmo que fosse tudo apenas imaginação. Ou se não acreditou passou a pôr uma quantidade de coisas em causa. Ou pensou que, se não acreditou poderia mais tarde vir a acreditar. E assim o livro passou – terá passado – a constituir um perigo. Um perigo para quem?
Também houve quem o tivesse lido e não tivesse gostado nada. E tanto assim que em sites e blogs da Internet começaram a aparecer as contestações. E algumas delas quase violentas, e até, a meu ver, despropositadas, que diabo, O Código da Vinci  é apenas um romance, uma obra de imaginação. A menos que haja alguma verdade concreta nele, e por detrás dele esbracejem alguns interesses pouco claros…
E cuidado com as teorias da conspiração, nem seria preciso dizê-lo …
Mas pertence à Opus Dei o mais brutal e estúpido assassino que figura no romance, é verdade…
Mas vamos lá a a ver… o livro onde Dan Brown bebeu (quase diria que copiou) para romancear a questão do Graal e do Priorado de Sião foi começado a escrever pelos anos 70 e foi dado à estampa em 1982. Chama-se The Holy Blood and The Holy Grail  - que ficou, na versão portuguesa da editora Livros do Brasil, como O Sangue de Cristo e o Santo Graal – da autoria de três investigadores, dois dos quais eu, por deles ter lido outros trabalhos, muito aprecio, Michael Baigent e Richard Leigh, aqui associados a Henry Lincoln. Um livro sem ficção que acho incomparavelmente mais empolgante do que o Código Da Vinci.
Acentua-se no Código da Vinci a força política e financeira de uma confraria, a Opus Dei, a organização católica com a mais elevada taxa de crescimento em todo o mundo e a que mais suspeições concita sobre si.
Votos de castidade na Opus Dei? Sim, e depois? Pagamento de dízimos e duras penitências, auto-mortificações, cilícios? Evidentemente. Que temos nós com isso? Já não nos chega a nossa vidinha?
Corriam boatos desagradáveis sobre a Opus Dei. Alguns poderiam mesmo ousar chamar-lhe a Máfia de Deus. Constou até que um grupo drogara alguns noviços com mescalina,de forma a induzir-lhe estados eufóricos que se pudessem confundir com transes religiosos; um homem do FBI, preso por ser agente duplo e membro da congregação, filmava em vídeo as suas práticas sexuais e mais umas quantas coisas estranhas…


A impressão que me deu, que me dá, é de que o escopo fundamental das contestações aparecidas entretanto não pretendem mais do que limpar a  histórica folha da Opus Dei.


Por exemplo, quanto a equilíbrios de masculino/feminino no interior da Opus Dei: as mulheres seriam compelidas a limpar as residências dos homens, enquanto estes se entregavam a tarefas da ordem do superior ou do espiritual; as mulheres poderiam dormir em tarimbas de pau, enquanto os homens, vá lá, pelo menos ainda poderiam deitar o cadáver em enxergas de palha. Mas estes seriam os numerários, os profissionais a tempo inteiro da confraria, por assim dizer, porque os havia supra-numerários, gestores, banqueiros, gente importante com vidas normalíssimas de mulher e filhos e alto conforto de vida e altos negócios de finança.
O autor do Código da Vinci apresenta-nos muito  evidentemente um antagonismo: Opus Dei versus uma organização multi, multi secular que teve vários nomes, que foi a Ordem de Sião e que nos chegou sob o nome de Priorado de Sião, ordem ultra secreta que supostamente teve como grão mestres algumas das maiores figuras universais da política, da aristocracia, das artes, das ciências e das letras de todos os tempos.


Uma ordem ultra secreta, o Priorado de Sião, que teria em seu poder um segredo arrepiante de gravíssimas e profundas consequências mundiais se fosse revelado.

       
                                      
Digam-me lá: quem acreditaria num maduro – ou grupo secreto de maduros - que viesse a público com meia dúzia de papiros ou velinos na mão a dizer que afinal Jesus Cristo era um homem, um simples mortal (excepcional, mas humano), um pai de família, casado com uma senhora chamada D. Maria Madalena que no momento em que lhe crucificaram o marido estava grávida de uma menina que haveria de se chamar Sara?
Ninguém acreditaria. Tal verdade nunca poderia existir.


Se o povo acreditasse seria o colapso de uma civilização, o fim da nossa consciência histórica, que é uma das poucas coisas que cada um tem de verdadeiramente seu nesta vida.
E no entanto, pode ser verdade. Mesmo que os detractores do Código da Vinci  não queiram que seja verdade.
A verdade? Qual verdade? A verdade da política? A verdade da economia e dos negócios? A verdade da própria vida? A verdade da alma? Será que a verdade existe mesmo? Cada vez tenho mais dúvidas…é verdade…


E porque hei-de eu acreditar piamente que Cristo era filho de Deus, solteiro, bom rapaz,  místico, taumaturgo, mártir, ressuscitado dos mortos... e sem nunca ter tido contactos carnais?

Porque não hei-de acreditar, se me apetecer, que ele foi um homem normal, embora de intelecto e poderes superiores, casado e pai de filhos?
É isso. Tantas provas me podem apresentar de uma coisa como de outra. Ou seja: ninguém me pode apresentar provas absolutamente indesmentíveis seja de uma coisa seja de outra.
Ah, e desconfiem sempre que nalguma obra musical ou literária lhes apareça uma rosa, a flor mais esotérica que existe, um dos códigos que pode encerrar mais sentidos ocultos. É na rosa que se esconde o Segredo… qual segredo? Não sei, juro…
Não, senhores, não sou um defensor do Código da Vinci. Literariamente achei-o uma boa merda. Mas… mas quanto à substância mística, faço como no Totobola e jogo numa tripla (ou quádrupla, ou quíntupla), pobre de mim, que sei eu, quem sou eu para poder palpitar para um lado ou para o outro? Sim, sim, acho-o, como romance e do ponto de vista estrictamente literário, com reduzido valor, sem valorizar excepcionalmente o tom e o ritmo policial da prosa, mesmo a pedir adaptação cinematográfica, e que lhe explica muito do sucesso comercial. É bem certo que o Código da Vinci  não vive só disso, vive, e muito, da originalidade romanesca do assunto e da mitologia marginal que lhe está implícita, eu sei. Mas pisca demasiado o olho ao comercial…
E reparemos que foi no virar de milénio que o Código da  Vinci  apareceu, e com o retumbante sucesso que teve – e com ele outros livros, como disse, que de uma forma ou de outra lhe desenvolvem a temática - além de serem já banalidades os programas inteiros de televisão sobre a mesma coisa, priorados, ordens secretas, maçonarias, o Graal, os cátaros, os Templários, o neo-paganismo, os nazis…
Precisamente: o centro histórico da questão são os Templários. Sempre os Templários. Mas da existência histórica real e do destino dos Templários decorrem muitos mistérios. O Priorado de Sião, um; o papel de Maria Madalena, outro; a sobrevivência de Cristo ao martírio da cruz, outro; as razões reais da extinção de ordem tão poderosa, outro. E todos interligados.
É a partir da personagem de Jesus Cristo que se desenvolvem os mistérios iniciáticos mais em voga neste ainda começo de milénio.
A Bíblia, e em particular o Novo Testamento, são reavaliados à luz da ciência, da arqueologia, da História e da conjuntura política dos tempos, e o que é essencial com respeito à fé e aos valores cristãos começa a ser posto em causa.
A vida de Cristo entre os seus 14 e 29 anos, a aprendizagem, a trajectória pessoal, o estado civil, a crucificação, a ressurreição… o cristianismo, em suma, e seus ensinamentos e princípios morais, enfim, tudo isso  pode  ser desacreditado, e com ele, cristianismo, por consequência, todo o poder e toda a força das infalibilidades da Igreja de Roma.
Os procedimentos de ordem histórico-política, militar, e até económica, deste início de milénio também poderiam significar qualquer coisa. A mundialização, a crise financeira e a barbárie capitalista que se lhe vai seguir, a confusão e o imoralismo que se instituem como quem não quer a coisa na vida comunitária, o terrorismo, as novas crises no Médio Oriente, a guerra religiosa declarada, indesmentível e sem fim à vista, entre o Islão e o Ocidente. Por exemplo.
Por exemplo, a urgência de fazer incluir a matriz cristã no preâmbulo da constituição europeia. Aparências de alguma coisa que a gente não sabe se se passou, se se está a passar, se estará para se passar…
Com o descrédito da mitologia de Cristo muita coisa - senão tudo – da nossa moral fundamental está a descredibilizar-se, a desmoronar-se mesmo. A favor de quê? De quem?
Se estamos no limiar da queda dos valores cristãos, que outra moral e que outra civilização se preparam em seu lugar?
Porque nem sempre as coisas são o que parecem ser.
Há homens iluminados que ao longo dos séculos pareceram querer dizer algo de perturbante ao mundo, que insistiram em avisar o mundo, cuidado, as coisas raramente são aquilo que parecem, cuidado porque a vida mais aparentemente simples e todas as coisas mais corriqueiras são sempre passíveis de várias leituras…


Em Shakespeare (que sabia muito mais dos mistérios da verdade do que parecia saber) estamos com Macbeth, no título deste texto: nada existe mais do que aquilo que não existe. Isto é de quem sabe qualquer coisita a mais do que o normal dos viventes…


O livro que efectivamente me interessa não é o Código da Vinci. É precisamente o The Holy Blood and The Holy Grail  - em português O Sangue de Cristo e o Santo Graal  - onde Dan Brown foi buscar o material para romancear. Mas os contestatários ferozes do Código também o são – naturalmente  - desse  O Sangue de Cristo e o Santo Graal, e consideram-no falso como Judas. O Priorado de Sião nunca terá de facto existido ao largo dos séculos. O Priorado de Sião não seria nada o pai secreto da Ordem dos Templários.
E que terá feito esse senhor Pierre Plantard em cuja honestidade e boa fé os autores do O Sangue de Cristo e o Santo Graal  acreditaram?
Esse senhor, e mais dois ou três outros terão depositado na Biblioteca Nacional de Paris um acervo documental, os chamados Documentos Secretos, que supostamente provariam a existência e actividades do Priorado de Sião desde cerca do ano de 1088 até aos dias de hoje. Documentos esses que os detractores do Código da Vinci  e do O Sangue de Cristo e o Santo Graal  consideram falsificações.
E quero que se perceba uma coisa: não tenho a mais pequena intenção de intervir parvamente na contenda esotérica – quem sou eu, ignaro agnóstico? -, só, quando muito,  estaria interessado em estimular, como Leonardo (e passe a descarada imodéstia), algumas pessoas a abrir os olhos para certos assuntos que não figuram nos telejornais nem se lêem nas primeiras páginas da imprensa. É essa a principal questão de moral, para mim.


A mulher. Um caso. Houve – sobretudo feministas – quem tivesse lido e relido o Código da Vinci e tivesse passado um pouco por alto as terrificantes perspectivas mundiais que nele se contêm e se tivesse fixado numa única das questões levantadas. A condição feminina. A condição de Maria Madalena. Prostituta. Ou santa. Ou mãe. E mãe de quem? Aí está: mãe da descendência de Jesus Cristo nem menos. E é aqui que entra Leonardo da Vinci, e daqui decorre o título do livro.
Quem olha para o famoso quadro da Mona Lisa poderá alguma vez dizer que uma montagem subliminar está para além dos significados óbvios do imediatamente visível e que pode explicar 2000 anos de organização do mundo?
Mas quem poderá ler essas mensagens senão os eruditos – desde que iluminados?
Claro que é preciso cuidado, porque os eruditos muito se divertem com a Razão, com a Cultura, com a História. E com o silêncio dos objectos.
Mona Lisa: dizia-se que era o retrato de uma senhora, uma dama florentina (Mona) chamada Lisa, mulher de um abastado comerciante. Mas o dito Código Da Vinci avança outras variantes interpretativas…
A Mona Lisa, além de, admissivelmente, poder ser um auto-retrato do próprio Leonardo vestido de mulher, também, sem deixar de o ser, pode ser um informe sobre a própria condição feminina.
As mulheres estariam em dívida eterna para com o mundo dos homens. O pecado original ninguém o limparia do corpo delas. O pecado original eram elas. A Opus Dei, fundamentalista, esforçar-se-ia por regressar à suposta pureza arcaica dos princípios…
Mas… e se os princípios do cristianismo não tivessem sido rigorosamente esses, nomeadamente quanto à subalternização – para não dizer humilhação – da mulher?
Um dos objectos simbólicos de que se fala no livro é um pentáculo. Um instrumento que era usado já 4.000 anos antes de Cristo. É a natureza que está em associação estreita com o pentáculo num universo de antigos saberes em que se concebia o mundo dividido em duas partes, masculino e feminino, Yin  e Yang. Não há bicho careta hoje em dia que não saiba disto. E só na condição de masculino e feminino se acharem equilibrados é que haveria harmonia no mundo.
Logo no início do romance apresentam-nos uma personagem que acaba de ser atingida com um tiro e que tem um segredo da máxima importância mundial a transmitir – ou a falsificar conforme o interlocutor que lhe apareça. De qualquer das maneiras um segredo cifrado, codificado, de que essa personagem era guardiã. O homem que mata a personagem é um monge da Opus Dei e, nas vascas da agonia, a personagem moribunda transmite-lhe o segredo de um lugar onde se esconde um outro e importante segredo. Mas dá-lhe uma pista falsa. Há de facto um segredo importantíssimo escondido, mas para lhe chegar haverá que decifrar códigos culturais que são charadas complicadíssimas. O que quer dizer que, por alguma razão, os homens da Opus Dei não têm o direito de saber a verdade do segredo.
Leonardo. Visionário. Genial. Homossexual – coisas que no seu tempo não significavam exactamente o que hoje possam significar de orgulho gay. Muito pelo contrário. Adorador da ordem da natureza. Tipo altamente enigmático, problemático, duvidoso para a ordem  vigente. Excêntrico. Um pecador contra o status a vários e desgraçados carrinhos.
Pode dizer-se, conforme no-lo vinca o autor, que Leonardo trazia com ele uma espécie de aura demoníaca. Exumava cadáveres, calculem, para os estudar. Escrevia os seus diários ao contrário, ou seja, uma escrita invertida, indecifrável. Desenhava e produzia instrumentos de tortura e máquinas militares de grande poder mortífero. Era um marginal, e no entanto, um marginal tolerado e protegido pelos poderosos do tempo. Talvez porque sabia uma verdade crucial.
Leonardo venerava a sua própria obra - o quadro de Mona Lisa em concreto. Só por ver nela o ácume da sua mestria artística? Talvez não. Da Vinci levava consigo o pequeno quadro de Mona Lisa para onde quer que se deslocasse mas por uma razão não imediatamente estética, por uma razão secreta. Mona Lisa arrecadava nas suas simbologias e nas técnicas do sfumato com que a executara o incomensurável segredo de que alguém, ou algum grupo,  eram depositários. 
A linha do horizonte do fundo do quadro é desigual. A linha do lado esquerdo ficava mais baixa que a do lado direito e isso continha uma mensagem, era uma ponta do segredo. Mas para aceder nem que fosse à pontinha mais básica do segredo, o vulgo teria  de saber o que de certeza não sabia e que era o seguinte: tradicionalmente, aos conceitos de masculino e feminino são atribuídos lados opostos, o direito ao masculino, o esquerdo ao feminino. Da Vinci, sei lá se pelas suas ditas tendências sexuais, privilegiava o feminino, o lado esquerdo, e pela organização do espaço pictórico, ao rebaixar o fundo esquerdo faria a figura parecer mais importante, justamente do lado esquerdo, do lado feminino.


Todavia, o essencial era o equilíbrio, a proporção, a harmonia, não já aqui em termos artísticos mas humanos, históricos e filosóficos. Não existiria alma humana que se pudesse dizer iluminada se não possuísse e activasse em si as duas forças contrárias, embora concomitantes e equilibradoras, o masculino e o feminino. A linha interpretativa iniciática de Mona Lisa entroncaria então na androgenia, na fusão de elementos opostos.


E outro dos muitos aspectos crípticos contido no romance vem dos lados da mitologia mais arcaica. Há o deus egípcio da fertilidade masculina que se chama Amon, um corpo de homem e uma cabeça de carneiro; e há Isis, a deusa, a mulher modelo dos egípcios. Amon. Isis. Isis que no antigamente das vidas era grafado L’Isa. Dá Amon L’Isa. Eis  o anagrama, a técnica primeira de todos os códigos. Amon L’Isa, por anagrama, igual a Mona Lisa: união de duas forças mitológicas opostas, masculino, feminino.


Nada existe mais do que aquilo que não existe.

  Gershwin, sim, um caso: dizem que também ele era um iniciado nestas coisas do Segredo, ele e, entre muitos outros, Walt Disney – que nunca terá feito outra coisa nos seus desenhos animados senão contar de várias maneiras a história do impressionante segredo de Maria Madalena. Dizem.
Mas entretanto ficámos a saber que um dos maiores especialistas mundiais sobre as questões do Priorado de Sião é um jovem português. É um dos que desmascara o senhor Pierre Plantard, o dito inventor do Priorado de Sião, o que registou num cartório de província o Priorado, mas só em 1957; o mesmo que, efabulando a partir de uma história que atravessava a própria História europeia, se reclamou como última vergôntea da desaparecida linhagem merovíngia, ou seja: legítimo pretendente ao trono de França.

                                                                                                   

E como nada existe mais do que aquilo que não existe, a experiência ensina-nos que é sempre de esperar que o que hoje é considerado falso pode muito bem, amanhã, vir a revelar-se verdadeiro. E vice-versa… mas, tanto para o vice como para o versa, há mistificações que podem render muito dinheiro… e poder… e é isso que nestes tempos nos pode fazer desconfiar até da própria sombra…




quinta-feira, 25 de julho de 2013

    MÚSICA OU SENTIMENTOS?


O axioma segundo o qual o que é de facto belo nunca perde a sua fascinação – apesar do desgaste do tempo – não se aplica à música. Como a própria natureza, a música tem o seu outono, no qual o apodrecimento das flores dá lugar ao nascimento de outras. Toda a composição musical – como toda a obra humana – contém em si elementos perecíveis.


Estas belas palavras são do famoso crítico musical Eduard Hanslick. E não será irrisório relacionar isto, no plano de alguma irracionalidade e exotismo – e sobretudo hibridismo –,  com a forma ópera, com a contradição formal que é a ópera.


É de chamar à charla a personalidade de Richard Wagner. Além de tudo o mais, porque pode ter sido ele a individualidade que no seu tempo mais mexeu com a História da Música e com as questões de moral de vário tipo, pessoal, social, artístico, financeiro -  e até político - a ela ligadas. Pode mesmo considerar-se Wagner como a figura menos moral – para muitos até a mais imoral – dessa mesma História da Música. E mesmo por ser personalidade pouco moral, a questão de moral ressalta sempre que se fala de Richard Wagner. E assim, Wagner é uma instância moral da música - a contrariu sensu, quanto mais não seja.
O movimento romântico na primeira metade da vida musical de Oitocentos foi muito variegado em conceitos e em atitudes. E em obras primas também, como se sabe. Considerável  unanimidade persistia sobre as questões estético-filosóficas de fundo, não obstante os vestígios de uma tendência para entender o fenómeno musical em termos mais formais, mais intelectualizados, presentes em Schopenhauer ou em Hegel. Mas a obra e o pensamento de Wagner poder-se-ão entender como o cume desse movimento romântico, apesar da época historicamente tardia.
São perceptíveis em Wagner os resíduos de um exacerbamento estético, ou uma espécie de mórbido cansaço, a prenunciar o esgotamento das vias ainda possíveis de percorrer. As reacções extremadas contra o romantismo, digo, contra o uso da música como expressão de sentimentos e emoções estavam para se fazer sentir.
No dia 3 de Novembro de 1862, Wagner tinha em cima da mesa, prontinha a servir, uma terceira versão do libreto de Mestres Cantores de Nuremberg


O argumento da ópera como é sabido é um concurso de canto aprazado para o dia de S. João. Para a figura do marcador dos erros técnico-estilísticos dos concorrentes, Wagner escolhera um nome: Veit Hanslick – grosseira identificação da personagem com a pessoa real do seu figadal inimigo estético-ideológico, chamado Eduard Hanslick, teórico vienense de quem atrás citei um conceito.
Alguém terá segredado a Wagner a forte impertinência, o exagero, a deselegância extrema – os tempos eram outros, não é? Bom, o certo é que  quando Wagner, justamente em Viena, nesse dia 23 de Novembro de 1862, envia convites para a sessão de leitura da última versão literária do projecto dos Mestres Cantores,  já o nome do escrivão de Nuremberga e marcador dos erros do concurso não é Veit Hanslick, é Sixtus Beckmesser, um nome extraído da realidade histórica da época e da cidade onde decorre a acção.


Mas Eduard Hanslick figurava no rol dos convidados especiais para a sessão de leitura.


E, claro, no decorrer da leitura, Henslick, que não era nenhum tótó, apercebeu-se da intenção de Wagner em o desfeitear e abandonou ostensivamente a sala. Ofendidíssimo, como se calcula.
Todavia, e ironicamente, como acontece muito na vida, essa humilhação haveria de concorrer fortemente para a imortalização do seu nome e do seu prestígio de ensaísta musical, através da criação da personagem do marcador Beckmesser, um ridículo homenzinho de poucos escrúpulos e moral muito duvidosa.

                                

Beckmesser fala, preparando-se para apontar os erros de estilo do jovem cavaleiro Walther von Stolzing, prestando a sua prova perante os mestres cantores de Nuremberga reunidos em plenário:  
- O meu dever é hoje ainda mais ingrato. Sabei, cavaleiro, sou Sixtus Beckmesser, o marcador. Ser-vos-á concedida uma margem de 7 erros, os quais serão apontados por mim a giz neste quadro e ocultando-me eu para não o perturbar. Se cometerdes mais do que 7 erros sereis suspenso.
Em Beckmesser, Wagner realizou a impiedosa caricatura da eterna figura do crítico e do prazer sádico que supostamente esse crítico sentirá em complicar a  vida dos criativos, ou até de humilhar os que possuam um dom que ele não tem, isso, esse, o da criatividade.
Costuma-se dizer que é pela actividade crítica que os desprovidos de talento podem ajustar contas com o destino. Não serão todos assim, também se costuma dizer. Mas alguns são. Invejosos. Impotentes. Frustrados. Wagner pensava assim.


E Wagner faz do Beckmesser um homem esquivo, vaidoso, obviamente antipático, estreito de vistas. Também é um solteirão, algo que naquele tempo teria conotações  menos lisonjeiras.


Beckmesser era de facto um feroz burocrata normativo, apegado aos regulamentos, refractário a tudo quanto o seu entendimento não abarcasse, inimigo da inovação.
Quando o riquíssimo mercador Veit Pogner põe a concurso no dia de S. João a mão de sua filha Eva, Beckmesser também quer habilitar-se. Menos, claro, por amor da jovem do que por amor à riqueza do ourives Veit Pogner, o pai dela. Para prosseguir os seus intentos, Beckmesser não hesitará em recorrer à trapaça,  fazendo até mão baixa da propriedade artística de outro. Para Wagner, Beckmesser era o oráculo da moral artística, o ditador das leis da gloriosa arte alemã, tipo de compleição moral e psicológica que Wagner apercebia no tal ensaísta Eduard Hanslick. Isso à mistura com o toque mais sinistro que derivava da aversão de Wagner pelos judeus.
Agora é outra vez Hanslick a falar: A Melodia, inesgotável e inesgotada, domina como forma básica da beleza musical; a Harmonia oferece sempre novos recursos, infinitas possibilidades. Mas é o Ritmo que anima ambas, o Ritmo, artéria da vida musical, que lhes proporciona encanto e colorido de múltiplos timbres.
Mas Hanslick talvez não fosse a melhor encarnação da figura que Wagner procurava estigmatizar.
Hanslick, além dos defeitos que pudesse ter, era um crítico competente. Talvez por isso metesse algum medo a Wagner. Professor universitário, ensaísta, dominando teoricamente as problemáticas musicais, não era seguramente mais um literato que se entretinha em retóricas elaboradas do exterior da própria música. Usava linguagem técnica, para começar, e a visão dele pendia mais para o científico do que para o literário. Entre as obras de Hanslick, a mais famosa, a que ainda hoje mais sobressai na explanação de certos pontos de vista, intitulou-se O Belo em Música.


Dizia-se que Arte era forma e não expressão. O valor dela centrava-se nas relações formais intrínsecas a uma dada obra, não sendo os conteúdos sentimentais e emotivos de chamar a juízo sobre a peça unicamente baseada na forma. A cada arte competiria procurar apenas os elementos formais que lhe eram próprios, e fora com abstracções do género “patético”, “gracioso”, “solene”, designações excessivamente morais que não contemplavam a especificidade de uma forma artística.


Mas há ou não uma beleza que seja específica da música?
Isto perguntava Hanslick a si mesmo. E daí partia para a especulação teórica que dava o título à obra, O Belo em Música.
Hanslick afrontava o movimento romântico, que no panorama geral da época ainda parecia com pernas para andar. Movimento romântico esse que aspirava ao ideal da unificação de todas as artes numa totalidade estética e expressiva, cavalo de batalha do mestre de Bayreuth.
Mas Hanslick não via as coisas assim.
Haveria uma beleza atávica à própria música, sim senhor, mas que não se compadecia com identificações e conceitos de beleza que eram timbre de outras artes. A estética de uma arte seria sempre distinta da estética de outra arte, quanto mais não fosse porque o material de cada uma delas diferia do material da outra. E aqui Hanslick também diferia do pensamento romântico de Schumann, porque Schumann entendia ser apenas o material, e só o material, de cada arte o elemento divergente, e que a estética de uma arte poderia sempre identificar-se com a estética de outra.
       A técnica musical não seria um meio. Como a técnica própria de cada arte não o seria. No caso da música, a técnica seria já a própria música.
O conceito romantizado da música combatia-o Hanslick. Identificava-o com diletantismo e incompetência. O que era desejável era uma objectividade científica na visão dos problemas musicais, uma atitude analítica, séria. Um bocado chato, este Hanslick, convenhamos.

A procura do Belo se não quer tornar-se ilusória, deve aproximar-se do método das ciências naturais. E uma vontade de conhecimento o mais possível objectivo das coisas que no nosso tempo tanto agita todos os campos do saber, deve também, necessariamente, contemplar a procura do Belo.
Não é que se pretendesse eximir a música à relação com os sentimentos humanos, à capacidade de suscitar emoções. O que restaria saber era em que consistiriam, para Hanslick, essas emoções e esses sentimentos.
    
                                     

Sentimentos e emoções em música eram para Hanslick efeitos secundários. Nada teriam que ver com o valor artístico. Nenhuma arte – nem a música! – seria caracterizável pelos efeitos que exercia sobre os sentimentos humanos. A instância estética primordial da música enquanto arte era a fantasia, não o sentimento.
Intelecto e sentimento: antítese belamente romântica que Hanslick pretendia ultrapassar. Em música, uma contemplação do Belo era uma contemplação do intelecto.


Pobre Hanslick, que deve ter ficado na História como ele mesmo temia, quer dizer, mais por Wagner lhe ter dado a honra de o ridicularizar do que pelo real valor intelectual da sua obra ensaística. A própria História, já se sabe, tem as suas imoralidades.
Mas não se fique a pensar que Hanslick não tinha admirado Wagner. Tinha-lhe admirado o Tannhäuser, por exemplo. E em 1876 ouviria uma versão da Tetralogia e concluiria que era tudo ilusão: o diálogo continuado pertencia à esfera do drama; da ópera era próprio apenas a melodia cantada.
A questão de moral intelectual que separava Hanslick de Wagner prendia-se com a tradição, com a convicção própria de que, em música, o conteúdo seria determinado pela forma. O que levaria Hanslick à barricada de Brahms e dos outros, muitos, defensores de uma música, por assim dizer, absoluta, ou pura, contra um Wagner, contra um Lizst, contra qualquer um dos campeões da música programática.
Hanslick a falar: já se demonstrou que muitos dos fragmentos do Messias, tão gabados pela sua expressão piedosa, foram aproveitados a partir de alguns duos de Handel de expressão mundana, para não dizer erótica, compostos para a princesa Carolina de Hannover. E eu insisto em que as ideias expressas por um compositor são antes de mais, e sobretudo, puramente musicais. E essa música poderá incitar os processos psíquicos, mas nunca será senão uma particularidade do sentimento, não o sentimento em si mesmo.
Temo que fosse Hanslick a ter razão contra Wagner. Uma razão teórica, quero eu dizer…
Sim, a ária de Gluck J’ai perdu mon Euridyce, ou Che Farò senz’Euridice, já servira de suporte a textos literários de sentido oposto.
Para Hanslick, a música propriamente dita era a música instrumental. Ópera era hibridismo formal – como queria o Dr. Samuel Johnson. Ópera era fruto de um compromisso, porque só com muito esforço a música se articularia com outras artes. Em música tudo seria forma. A música seria o objectivo de si mesma, assemântica, inconvertível em linguagem normal.
As leis da música, para Hanslick, não seriam leis naturais; seriam somente leis musicais. O próprio ritmo musical seria bem diferente dos ritmos presentes na natureza.
A grande luta era contra uma estética do sentimento.
O efeito emotivo da música sobre o ouvinte tem natureza patológica. Não é um dado artístico. É apenas agradável. Não é território do Belo.                             
Os trabalhos de Hanslick, creio bem, abririam caminho à consideração da música como ciência e provavelmente lançaram os fundamentos da ciência musical ensinada nas faculdades, a moderna musicologia…


        Moderna musicologia que com a sua praga de críticos se abate
sobre os pindéricos romântico-emotivos e despreocupados auditores, conseguindo, ou quase conseguindo, tirar-lhes todo o prazer da audição de uma peça de música, porque são os chatos e eminentes musicólogos e críticos os donos das tábuas da lei da música, esses que nos hão-de dizer o que está bem feito em música, e do que nós havemos de gostar; são eles que nos vão ensinar o lugar que a música deverá ou não ocupar na nossa vida.
Estarei a exagerar. Talvez. Estou a exagerar, porque quem gosta mesmo sincera e desinteressadamente de música se está nas tintas para os doutores da lei.                       Mas, por exemplo, cá na santa terrinha, por cada doutor musicólogo que sai encartado da universidade, quantos músicos, executantes excelentemente dotados saem dos nossos conservatórios – se é que sai algum?
Pois, acho que sim, embora possa não vir de momento ao caso: a vida musical portuguesa, se assim se pode chamar, precisaria bem mais de brilhantes talentos criativos ou interpretativos do que de pretensos enteados de Hanslick ou de Beckmesser, que tudo sabem, nada criam, tudo ingénua e perversamente nos ensinam  até ao ponto de nos fazer pensar tanto que percamos o gosto pela música, amanuenses doutores analistas de partituras, ou teóricos catedráticos que já nem têm nada para descobrir ou inventar, porque, em teoria, o essencial já foi descoberto, dito e redito muito antes deles.


Recentemente, ou seja, vai para uns vinte anos, digamos, correu pelos palcos de ópera um movimento de reabilitação da figura de Beckmesser, com encenações que lhe retiravam a carga clownesca e ridícula. Reabilitação de Beckmesser que pode ter sido  uma recuperação de Hanslick e dos valores científico-musicais mais correctos do que os sentimentos que ele representou. Recuperação justa, vamos lá.
Hanslick tinha o seu talento e a sua razão. Era um homem de considerável poder intelectual. E Wagner foi imoral com ele. Foi injusto e cruel. Exagerou. E Hanslick tinha razão, sim, mas… sejamos moderados e correctos pequenos burgueses musicais, a razão de Hanslick não passava de uma razão teórica, retórica, se se quiser. Nem tanto ao mar nem tanto à terra..
Mas cá estou eu com o meu reaccionarismo: a memória humana, esteja ou não cheia de sentimentos, retém mais  duradouramente a doentia impressão musical associada aos sentimentos do que a cintilância de uma brilhante análise cientifico-filosófica. E isso quer dizer alguma coisa, não?