terça-feira, 13 de agosto de 2013

       VARIAÇÕES (E FUGA) SOBRE UM   
            TEMA DE  SCHOPENHAUER


Por detrás do mundo dos fenómenos oculta-se o mundo verdadeiro, leia-se, a realidade, a existência das coisas em si, coisas em si de que os fenómenos são a aparência, a representação.
A felicidade não a sentimos. Impossível. O que sentimos é a falta dela, a ausência dela, porque só depois de os perdermos estamos aptos a avaliar os bens que nos foram acrescentados.
E o conhecimento, vamos lá, não é arma que nos conceda a hipótese de um triunfo sobre o mal. Até bem pelo contrário. O conhecimento pode fornecer-nos a capacidade aumentada de sentir a infelicidade e o mal, e desde logo porque nos aumenta a sensibilidade.
Mas o que me mais me interessa de momento reporta-se à política, à economia, às finanças, à física e à metafísica. Ou à metafísica mais directamente, enquanto conhecimento que ultrapassa a experiência do concreto, do fenómeno, ao mesmo tempo que se esforça numa explicação sobre as condicionantes da natureza, ou  no que poderá existir para além da natureza. Ou mais: com o que torna possível a existência da própria natureza.
Temos passado os nossos últimos anos mediático-televisivos mergulhados na multiplicação do fenómeno da crise, num enfatuamento de debates, entrevistas e explicações económico-financeiras em que cada preopinante apresenta os seus argumentos, os seus diagnósticos, e, muito mais raramente, as suas soluções de saída para a crise.
Na realidade, ouvimos centenas de análises do concreto, centenas de observações pertinentíssimas (e até inteligentes) sobre os fenómenos de tipo económico-financeiro que compõem (e em que se decompõe) a crise; centenas de previsões, prognósticos e recomendações com o fito de deitar mãos eficazes à mesma crise, quer dizer, ao fenómeno. E espantamo-nos quando as fenomenológicas previsões de um douto académico falham rotundamente, ou quando as estratégias prosseguidas para debelar, ou pelo menos minorar, os efeitos do fenómeno-crise-económico-financeira relevam da teoria e não produzem os efeitos esperados - apesar de nos serem apresentados como teses de uma racionalidade inatacável.
E se tempos houve em que o fenómeno económico-financeiro obedecia estrictamente ao desígnio soberbo da política, esses tempos, fosse pelo incremento da mundialização ou fosse lá pelo que fosse, pertencem a um passado que até nos parece mais distante do que na verdade é. Hoje é a politica que se inclina perante a racionalidade indestrutível do económico-financeiro. Hoje é a economia em pleno fenómeno de crise que estipula quantos funcionários há a despedir, quantos, e em que percentagens, os reformados deverão ser taxados (espoliados), quantas instituições começam a não fazer sentido (económico-financeiro) e estão condenadas à próxima extinção, quantos doentes pobres têm direito a ser doentes pobres e quais deverão pagar a operação às cataratas, ao apêndice ou à perna. E grande parte dessas recomendações-exigências economicistas, razoáveis que sejam e racionais no terreno da fenomenologia económica, não devem, ou não podem mesmo, ser activadas, concretizadas.
Porque a política ainda tem uma palavra a dizer. Talvez não por muito mais tempo, mas ainda tem, e apesar de tudo. A práxis cegamente quantitativa da economia acha ainda (e não por muito tempo mais) o seu travão na conveniência política, na ética política, no bom senso que deve orientar a política – a metafísica da vida pública. Para dizer rápida, despretensiosa e ligeiramente, o quantificável objectivo imposto pela racionalidade económico-financeira ainda pode esbarrar no qualitativo subjectivo e menos puramente racional de uma decisão política. É bom? É mau? É destas coisas…
E daqui posso eu partir para uma convicção que a metafísica de Schopenhauer me inspirou, e que é a das funções por assim dizer supletivas de um fenómeno e do outro, a economia e a política, e sendo a política o conteúdo poético da vida pública, espécie de metafísica da física pura e dura que é a economia.
Os místicos cristãos podiam recusar a luz da razão (o intelecto) na capacidade de apreender a verdadeira (e derradeira) essência das coisas. Se fisicamente tudo seria explicável, para Schopenhauer, fisicamente, nada era explicável.
Metafísicas populares também as há, a poesia, os provérbios da sabedoria popular, alguns fenómenos não físicos, ou pouco apoiados pela racionalidade e que encontram a sua força moral justamente na zona complementar do espirito humano, o irracional, o improvável ou improvado cientificamente.
Mas é a religião a mais efectiva das metafísicas populares.  A religião é património espiritual de todos os povos à face da terra. A religião é a verdade que é revelada aos povos a partir do exterior sobrenatural, na convicção improvável e improvada das aparições sagradas e dos milagres. Ai dos cépticos, ai dos incréus. O salário deles é a  fogueira infernal, improvável, improvada, metafísica, quando já em tempos foi a fogueira física, concreta, objectivamente provável e provada.
Se a necessidade de uma metafísica é flagrante e imperiosa para o espírito humano, sê-lo-ia igualmente, acho eu, para a vida das nações. O homem singular achará na religião ou na poesia os espaços metafísicos que lhe são indispensáveis à essência, enquanto as comunidades humanas acham na política a metafísica que lhes governará os caminhos pedregosos da existência.
A metafísica impõe-se pela religião aos menos pensantes, como a política se impõe a esses menos pensantes noutro território fenomenolgico. Nunca passou pela cabeça de santo ou de profeta fundar uma religião com base na razão. Seria pôr a metafísica no terreno especulativo que lhe é menos propício, transformando-a em sistema filosófico, obrigando-a a lutar no dia-a-dia da polémica racional e no plano argumentativo que duvidosamente lhe sustentaria a validade. O mesmo poderá em certos momentos e em dadas circunstãncias aplicar-se à política, e mais hoje do que ontem, quando os considerandos políticos se esforçam para saltar fora da cadeia em que a razão do económico-financeiro os sujeita.
Para Schopenhauer, o que distingue uma religião da outra é a maneira de encarar o mundo, os homens, a vida: ou optimista, ou pessimista. E se umas entendem a realidade do mundo como algo que bebe a sua razão de ser nesse mesmo mundo sem outras interferências, outras haverá, religiões, que acham a realidade desse mundo compreensível sómente por uma expiação, como consequência de um pecado à espera de redenção, e sem razão de ser fora desse complexo contexto.
O pessimismo pode, sem dúvida, triunfar do optimismo. O cristianismo vingou pelo seu pessimismo atávico. Nem o judaísmo o venceu, nem o paganismo greco-romano.  Assim, só pela consideração pessimista de um estado original de pecado, mesmo a pedir uma redenção. Porque não é concebível uma redenção numa cosmogonia optimista, isenta de culpa.
Mas a dor e o mal vêm-nos do mundo físico – do económico-financeiro for instance. A redenção e o consolo podem vir-nos da politica enquanto dado optimistico e no seu papel metafísico em confronto com o físico economicista.
Será o razoável mundo físico do económico-financeiro que nos dá a chave da inteligência de todas as questões, de todas as suposições? Isso seria se o método científico fosse o único, o último, o suficiente, o que de imediato nos conduzisse à solução do enigma que se encerra nas coisas, à inteligência verdadeira e profunda do mundo. Mas não é.
A questão é que a explicação física (económico-financeira, para o que de momento me interessa) carece, para uma inteligência mais abrangente dos fenómenos e das coisas, da explicação metafísica (a política), e sendo então que o método metafísico (se se lhe pode chamar método) será obrigado a diferir substancialmente do método físico.
A metafísica (a política) pode aproximar-nos da coisa em si. A física (o económico-financeiro) só pode dedicar-se ao fenómeno (a crise) que a coisa em si segrega. O pior é se a coisa em si (como pensaria Kant ao criticar a razão pura) não é esse absoluto explicável. Nesse caso não haveria metafísica que nos valesse como contra-análise ao método  físico.
E depois entra nas contas a vontade.
A vontade é um mal. A vontade está na orígem de todos os males – e porque não de alguns, senão de todos, os bens?, perguntaria eu ao Dr. Schopenhauer.
Ele responder-me-ia que o pensamento é um acidente da vontade. Mas nos animais superiores, porque à medida que descemos às inferioridades da vida a função do intelecto vai-se à viola, vai-se rarefazendo sem, por outro lado, que a obscura agente da actividade, a vontade, deixe de se manifestar em pleno.
Porém, o intelecto pode guiar a vontade, mas na expressão de Schopenhauer a vontade pode ser o homem forte e cego que leva aos ombros o paralítico clarividente. Porque só os impulsos do instinto fazem mover o homem. Os homens julgam-se puxados pela frente quando na verdade são impelidos por trás; julgam-se arrastados pelo que vêem quando afinal são impelidos pelo que sentem: instintos cuja influência lhes escapa na maior parte das vezes.
E depois chega-nos a liberdade. E depois a necessidade.
Uma dada acção pode ser explicável enquanto consequência necessária do carácter de quem a pratica, e também das influências sofridas, dos conhecimentos adquiridos, das motivações que lhe solicitam a vontade. E quando Schopenhauer lê Kant conclui da necessidade natural inerente a toda a combinação possível de causas e efeitos no mundo que nos é sensível. Resta a liberdade que se confere a causas que não tenham a qualidade de ser fenómenos. Donde, a liberdade e a necessidade poderem ser conferidas ao mesmo objecto, seja enquanto fenómeno, seja enquanto coisa em si.
O Corão, um exemplo, foi o livro que veio responder à necessidade metafísica de milhões de seres humanos. O livro que funda por conseguinte uma religião, e que fundando uma grande religião oferece fundamento moral, inspira o desprezo pela morte, incita à guerra e às grandes conquistas.
E, enfim, agitações, guerras, revoluções na Europa, entre os séculos VIII e XVIII, poucas se descortinam que não tenham tido nos fundamentos e nos pretextos as encruzilhadas da fé. As problemáticas da metafísica, dizendo melhor. Em nome da metafísica instigam-se os povos tanto para as ruas da sublevação como para o puro campo de batalha. No outro prato da balança talvez seja de colocar a quantidade de crimes que o cristianismo, uma metafísica, evitou, e as boas coisas que inspirou.
        Toda a coisa física (económico-financeira) terá a condição de ser em simultâneo metafísica (política). E se assim não fosse, se uma física fosse absoluta e sem o mais breve elemento de metafísica, essa física seria a destruição de toda a ética. Ou de toda a moral. E sendo impossível de conceber uma moral sem uma metafísica, ou uma doutrina que reconheça que a ordem da natureza não pode ser a única, nem a mais sublime e absoluta ordem das coisas. 

domingo, 11 de agosto de 2013


                 NA LINHA DA ROSA


Evidentemente: não é o Dan Brown que me interessa; o que me interessa são os milenares temas que ele levantou, e que, como já disse antes, ele decalcou daquele outro livro sem ficção que já mencionei, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, cem vezes mais interessante do que o comercialíssimo Código da Vinci.


Mas não tenho dúvidas de que uma das razões do bruto sucesso comercial de O Código Da Vinci está no tom de conspiração internacional. E como cada vez mais gente desacredita dos políticos e da política que se faz a descoberto, porque os políticos não podem ser suficientemente claros a explicar certos feitos, atentados, crises financeiras globais, swaps, golpes e guerras, e em que muitos dos alegados factos parecem relevar do irracional nas suas concepções e execução, claro, o público miúdo não só se diverte mais com as teorias de conspiração como já só acredita no oculto mesmo na vida de todos os dias, e sobretudo quando se trata da vida política. O público miúdo sente que a vida do mundo se entretece de conspirações sobre conspirações e contra-conspirações. Não sabe nada de certo, nunca saberá – não lhe compete saber – mas sente. A teoria da conspiração é popular. E é propagandeada todos os dias pela literatura, pela televisão e pelo cinema. E pela realidade, vamos lá. É capaz de existir mesmo.


Algo estará sempre por detrás de um facto, por detrás de alguém. Um alguém manobra quase sempre outro alguém. Nada é puro e desinteressado. Toda a instituição, por mais respeitável, pode funcionar sob um desígnio secreto. Haverá sempre uma sombria elite de senhores de um conhecimento superior que escapou à consciência do vulgo e governa por interpostas pessoas o destino dos homens comuns…
    Será mesmo assim? Se não é, parece. E parece cada vez mais.



Conspiração e simbologia. A Simbologia também pode aguentar tudo,  pode dar para tudo, para uma coisa e para o seu contrário – diz o ignorante que eu sou. E no âmbito propagandístico e falsificador do nosso mundo actual torna-se muitas das vezes complicado saber, mesmo nas coisas mais banais, o que poderá significar o quê.
A realidade pode não passar de um símbolo. Um símbolo de outra coisa. Essa outra coisa é que nós nem sempre (ou quase nunca)sabemos qual é. E a irrealidade talvez não passe de uma simbologia do irreal.



O quadro A Adoração dos Magos, de Leonardo: aí estava a mensagem codificada para conduzir os vindouros à maior e mais incómoda verdade da História que se chamava Santo Graal. O quadro foi arredado das vistas públicas da Galleria degli Uffizi e posto num armazém.
A ocultação da conspiração – como de tantas outras coisas da vida – é, para o público, o indício mais revelador de que ela existe. Mesmo que não exista. E aqui colhe particular cabimento a minha sempre recorrente citação shakespeariana, nada existe mais do que aquilo que não existe, e muitos de nós não nos cansamos de procurar sinais de qualquer coisa  e significações ocultas mesmo onde elas não existem. Isto vai desde a demanda do Graal até aos negócios do futebol, se formos a ver.

Leonardo, o Graal, a Última Ceia… a Última Ceia é uma reunião de 13 homens? Parece. Mas pode não ser. Quem está sentado à direita do Senhor? Um homem. Um homem? Sim, um homem de cabelos compridos e fulvos, mãos entrelaçadas, e até parece que tem seios… um homem ou uma mulher? De facto, pode ser uma mulher. Quem é esta mulher? Maria Madalena. Uma prostituta? Há quem diga que foi o papa Gregório, o Grande, o inventor deste boato calunioso, no ano de 591. Mas não! Madalena não era prostituta. Foi a Igreja que a fez tal, que a entendeu difamar, e só emendando a mão em 1969. E talvez porque Maria Madalena terá estado à cabeça de um movimento cristão que se opunha às pretensões do apóstolo Pedro. O segredo dos segredos estava em Maria Madalena. Maria Madalena era uma testemunha incómoda. Maria Madalena sabia a verdade toda e não afinava pelas determinações da hierarquia de Roma, que por isso mesmo a teria de considerar herética. Maria Madalena era, ela mesma, o Santo Graal.
Na Ceia de Leonardo, Jesus e Madalena são representados como que reflexos um do outro. Jesus: túnica vermelha, manto azul: Maria Madalena: túnica azul, manto vermelho. Yin e Yang.
A operação clandestina que terá trazido Maria Madalena da Judeia para França teria por motivação precisamente salvaguardar o Graal, o fruto que estava no ventre de Maria Madalena, o filho de Jesus. E Maria Madalena foi mantida incógnita por razões óbvias de alta segurança. E o fruto do ventre de Maria Madalena nasceu e cresceu e acabou naturalmente por se misturar com outros sangues, judaicos, romanos, visigóticos. E assim, clandestina, secreta, se manteve essa linhagem por nem menos de 400 anos.
Quem pode provar que isso é verdadeiro?
E quem pode provar que isso é falso?
Até que no século V o sangreal se liga ao sangue real dos francos, de onde viria a derivar a dinastia merovíngia. Seria este o segredo que o acabadinho de assassinar conservador do Museu do Louvre (Código da Vinci) teria para transmitir. Seria este o grande segredo da História. E seria este o Graal.
E seria esta a espada de Dâmocles pendente sobre  a Igreja de Roma, fundada em nome de um Jesus Cristo descrito etéreo, hierático e impoluto do contacto com mulher, conforme a hierarquia romana abusivamente estabelecera. E que não passaria de uma mentira. E, no caso de ter sido assim, a maior mentira da História do Homem.

A lenda do nascimento de Mérovée, que dá o nome à dinastia, não será, mais do que uma engenhosa alegoria. Filho de dois pais, sendo um deles a criatura marinha, metáfora de quem tinha chegado de Além Mar, ou metáfora do místico desenho do peixe com que os primeiros cristãos simbolizavam Jesus.
E se a linhagem merovíngia de Clóvis provinha da semente genética de Jesus, o pacto entre ele e Roma e a Igreja fundada em nome de Jesus Cristo era a bem dizer uma inevitabilidade.
E as culpas da Igreja no assassinato de Dagoberto II constituiriam gravidade maior do que a da morte de um simples rei, quando, em Dagoberto, os sicários de Roma haviam morto um descendente de Deus, um deus ele mesmo, crime para que a Igreja romana, no espartilho dos seus dogmas, não podia conceder-se expiação.


Significaria essa situação também a identidade de Godofredo de Bulhão, nas veias de quem corria o sangue merovíngio, o sangue do próprio Jesus, um Godofredo simbólica e alegoricamente neto ou bisneto de um Lohengrin, ou de um Parsifal. Da família do Graal, em conclusão.
                      


Estranho também é o momento histórico da aparição do Graal, ou melhor, do virem a lume as referências a ele, o que aconteceu no momento culminante das Cruzadas.
É quando o reino franco se implanta em Jerusalém e os cátaros ameaçam seriamente o poder de Roma na região que o Graal começa a ser falado, a ser tema de romances de cavalaria, a insinuar-se não apenas como um objecto, ou objectos, mas como uma família.
A base na crença no Graal é pagã, começa por ser pagã, mas, de certa maneira,e inexplicavelmente, é absorvido pelo cristianismo e passa a ser conotado com a família de Jesus.
E o culto do Graal vai de par com a carreira da Ordem dos Cavaleiros Templários, o que ainda é mais sugestivo.
E o culto do Graal começa a desvanecer-se após a queda de Jerusalém nas mãos do infiel, em 1291, e desaparece com a queda em desgraça dos templários, em 1307-1314. E permanece desaparecido mais um ou dois séculos, até 1470, em que reaparece nos romances do rei Arthur. Reaparece e continua de tal maneira que até os altos dignitários nazis acreditam nele e o procuram.
O romance de Parsifal, ou o Conde do Graal, é da autoria de Chrétien de Troyes. Aparece em 1188. E de Parsifal se diz que é o filho da dama viúva, designação que fora também dada a Jesus – e designação dada, séculos passados, aos maçons, não esquecer, os Filhos da Viúva… que isto anda tudo ligado, já se sabe…
Aparece depois o mais famoso de todos os romances do Graal, o do cavaleiro trovador bávaro Wolfram von Eschenbach.


Descendente de Jesus, compreende-se melhor a acção de Godofredo ao partir para Jerusalém. Godofredo ia a Jerusalém reclamar in loco o que lhe era devido como herança.
Era Bertrand de Blanchefort Grão Mestre do Templo quando um contingente de mineiros alemães a trabalhar no maior secretismo, escondeu qualquer coisa no subsolo dos arredores de Rennes-Le-Château. Pensou-se que poderia ter sido o próprio corpo de Jesus, mumificado. Mas outros viraram-se para a probabilidade de terem sido uns quantos cofres com papiros que certificavam o casamento de Jesus com Maria Madalena, o nascimento de filhos e outros dados relativos à família e à sua vida, digamos, civil. E seria isto o Graal.
São – serão, que isto também não deixa de ser matéria de fé - os chamados Documentos Sangreal que contam a história verdadeira de um vencido, Jesus Cristo. Um vencido da História oficial quanto à verdade dos feitos, mas um vencedor, afinal de contas, um vencedor espiritual e cultural por dúbias razões, vencedor por aquilo que não foi: filho dilecto de Deus.
Haverá nos quatro grandes caixotes de documentos, cartas e memórias anteriores mesmo a Constantino, testemunhos directos de companheiros do próprio Cristo, porém sem a menor alusão à sua divindade, profeta, visionário, sim, mas humano, como outros antes e depois dele.
Os quatro caixotes podem mesmo conter certo documento cheio de ensinamentos escrito pelo punho do próprio Jesus.E também um diário pessoal – ou projecto de evangelho - de M. Madalena.
São esses documentos que, admissivelmente, os primeiros Templários acharam sob as ruínas do Templo de Salomão e que os tornaram tão poderosos, fazendo Roma dobrar-se à sua vontade ?


Por qualquer razão ignorada, o que quer que fosse pode ter sido transferido para a fortaleza-mor dos cátaros, o castelo de Montségur. E pode ter sido essa a causa motivante da cruzada sangrenta contra os cátaros e o subsequente cerco de Montségur.
Acreditou-se que seriam os cátaros os detentores do Graal. Um Graal entendido como a taça que recolheu o sangue de Cristo. Absurdo. Os cátaros não davam importância transcendente e divina à figura de Cristo, nem tão pouco acreditavam piamente na crucificação. Para que queriam eles o objecto sagrado, o cálice que recebeu um sangue que nunca  existira?
Mas os escritores cátaros, Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach continuavam a tecer as suas histórias em volta do Graal, declarando até que o verdadeiro castelo do Graal se situava nos Pirinéus, na zona de Montségur.
Ou seria o Graal tão somente uma informação?
Seria o Graal uma informação tão importante ao ponto de ter assanhado Roma contra os albigenses da maneira que assanhou?



Seria o Graal a tal prova irrefutável da não-crucificação e da não-divindade de Jesus Cristo, perigosa, obviamente, perigosíssima, para a Igreja de Roma ainda nos séculos XII e XIII?


Consta que Richard Wagner foi a Rennes-Le-Château antes de começar a compor Parsifal – não vejo a necessidade que teria disso em termos de composição da ópera, mas enfim. E também consta – e é verdade - que já desde 1934, com Otto Rahn (o verdadeiro Indiana Jones, disseram), e mais intensamente entre 1940 e 1945, os exécitos nazis seguiram na peugada de Wagner e fizeram escavações na região.

                     


Wagner. O Parsifal. Numa das suas leituras possíveis, pode entender-se o Parsifal como um tributo a Maria Madalena, e é a personagem Kundry, sem dúvida a mais complexa figura de mulher de todo o mundo da ópera, que encarna de Maria Madalena todo o poder de uma histórica ambiguidade: mulher sobre todas as mulheres, mulher múltipla, guardadora de segredos, sapiente de linhagens – a de Parsifal, esse filho da viúva; a de Cristo, outro que tal - , repositório de memórias proibidas; ou, por outra parte, sedutora, pecadora, prostituta e corruptora a soldo de Klingsor, como o papado a queria, como a tradição a consagrou. Pela concepção da personagem de Kundry poderemos compreender o quanto Wagner estava do lado de dentro do segredo ao fazer de Kundry-Maria Madalena um segredo em si mesma.


Uma rosa de cinco pétalas: símbolo que a velha irmandade de Sião criara para se referir ao Graal. A rosa.
A rosa de cinco pétalas poderia simbolizar ainda a própria Maria Madalena, e já que a igreja lhe proibia a menção ao nome. Daí chamarem-se esotéricas a estas coisas: um siginificado literal e um significado oculto para um objecto, uma pessoa; objecto e pessoa que significam, mas ocultam; criam novas verdades sobre as existentes e designadas, mas, sendo segundas, são tão puras com as verdades primaciais de que derivam.

Mas Maria Madalena teve vários nomes secretos. Cálice, e Graal, designadamente. E Rosa. Rosa com percursos semânticos e esotéricos a passar pelo pentáculo de Vénus, pela rosa dos ventos, pela bússola que nos indica o caminho de vida; e anagrama, ainda, de Eros, o deus do amor sexual – presente na tal personagem wagneriana de Kundry, também...


Maria Madalena chega então à Gália, ao sul de França, e refugia-se entre as comunidades judaicas aí existentes. E como os guardadores judeus de Maria Madalena sabiam que guardavam as linhagens de David e de Salomão, Maria Madalena foi respeitada como uma raínha de pleno direito e foi então elaborada uma árvore genealógica – na verdade, toda  a genealogia do próprio Jesus Cristo. Essa genealogia é a peça fundamental do chamado Sangue Real, Sangreal, ou, abreviadamente, Graal.
Mas tal genealogia provará alguma coisa só por si? Quem tem autoridade para lhe confirmar a autenticidade? Pois, precisamente a mesma autoridade de quem atesta a autenticidade dos livros da Bíblia.


Já o dizia Napoleão: a História?, o que é a História senão uma fábula em relação à qual todos estão de acordo.


A intenção primeira das cruzadas terá sido justamente a de destruír informações explosivas e evitar o caos na cristandade se elas fossem reveladas?
Maria Madalena seria a prova de que a nóvel igreja, banhada de um falso halo sagrado, não passava de uma instituição criada para comemorar a vida e a morte de um simples mortal.
Maria Madalena teria de ser difamada pela História. O papado encarregar-se-ia disso logo desde os seus primórdios. Chamar-lhe-ia meretriz. Ocultaria provas do casamento dela com Jesus, chamado o Cristo, desmobilizando a acção dos que mantinham que Jesus teria deixado descendência e era um mortal. Esse dossier era coisa de vida ou de morte para a igreja de Roma.
Terá sido a Virgem Maria o equivalente cristão da deusa-mãe? Parece que não.
Será a Notre Dame, em nome de quem foram erigidas em França tantas igrejas, a Virgem Maria? Também parece que não é certo. Mas dizer que essa Notre Dame é Maria Madalena é heresia das mais grossas. A tradição encenada no terceiro século da era Cristã faz de Maria Madalena uma prostituta, arrependida, está bem, mas prostituta, nunca a mãe   -  porque nesse caso seriamos todos filhos dela, da prostituta, e eu conheço alguns, é verdade, mas acredito que ainda se arranje por aí quem não o seja, mesmo assim.
Maria Madalena só seria deusa-mãe se tivesse trazido no ventre a descendência transcendente do próprio Cristo. Mas a contradição é flagrante: se se diz, e alguns podem provar, que Cristo não passava de um homem, onde está a transcendência da linhagem desse Cristo?
Graal, em certo sentido, e em termos espirituais, foi designação de uma experiência pessoal, de uma  iniciação, sinónimo de uma transformação, alteração de um estado de consciência, instante místico de conhecimento, gnose,iluminação, em suma, comunhão com Deus, o Graal imaterial, impalpável, inconcreto, subjectivo, individual.
Mas ocorre dizer que uma das primeiras designações do que hoje é conhecido como o Graal, foi Sangraal. E depois Sangreal. E ainda aparece San Graal, Santo Graal. Até Sang Réal, sangue real. Não havia originariamente nenhum cheiro de santidade no nome. O San era de sangue e não de santo. O Graal era uma designação de realeza.
Sangreal, Sang Réal, Graal, sangue real: nenhuma outra coisa mais do que o sangue dos reis perdidos da linhagem merovíngia, a prova da sua existência e da sua descendência.



O Graal. Somente quatro enormes caixotes de papelada, e tão enormes que só seis daqueles matulões medievais e templários tinham força para mover?
Os investigadores da especialidade continuavam incansáveis a examinar os escritos de Da Vinci à cata de umas dicas codificadas, uns símbolos, uma criptografia que os levasse ao esconderijo. Um quadro. A Madonna dos Rochedos. Podia estar ali a chave do enigma. A paisagem de fundo era parecida com uma acidentada paisagem da Escócia, crivada de grutas. Ou não. A chave estava na Última Ceia. A Ùltima Ceia não seria outra coisa, não teria outro fim senão funcionar como código de localização do Graal. Ou não. Talvez fosse mesmo na Mona Lisa que estava o código, era preciso investigar as sucessivas camadas de tinta - porque é que hoje estão a abrir a tumba de família da que foi (terá sido)o modelo de Mona Lisa, porquê?
Uma taça, uma pedra, um livro, uma energia desconhecida, um caixote de documentos, enfim, um objecto, um estado de espírito, tudo tem podido ser o Graal no curso da lenda dos séculos. Nunca ninguém do vulgo se lembrou de que o Graal, o Santo Graal, pudesse ser uma pessoa. Quem? Uma mulher, ainda por cima…
O Graal pode ser um símbolo arcaico de femininilidade, o sagrado feminino, a deusa, um dos valores morais e civilizacionais eliminados pela Igreja de Roma.
No pensamento antigo, a mulher era uma instância de poder sagrado, exactamente pela sua missão de criar vida. Mas Constantino e os bispos da nova igreja pretendiam uma igreja de valores masculinos. Era preciso inventar uma nova fórmula. Tocava ao homem e não a Deus essa invenção.


Eva oferece da maçã a Adão, Adão morde-a e com essa dentada nem sabe no que se vai meter e no que nos vai meter a nós. A adãnica dentada é a queda da raça humana. Pronto. Estava feito.
A mulher e a sua mística hora de parto já não eram as criadoras da vida. O Criador passava a ser invocado no masculino. O Criador. E mais, Eva, aparecia nesta vida extraída de uma costela de Adão, a mulher era um sucedâneo do homem. E ainda por cima pecaminoso.
E se havia coisa com que os cátaros embirravam solenemente era com a fé. É verdade. Repudiavam a fé e, evidentemente, a Igreja de Roma e mais toda a sua hierarquia. À fé preferiam eles o conhecimento e a experiência pessoal do sagrado, a que chamavam gnose, gnose que se sobrepunha aos dogmas e aos credos, fossem eles quais fossem. O contacto com Deus era experiência individual e dispensava intermediações e hierarquias, padres, bispos e papas.
Os cátaros e a sua heresia dualista eram um bicho de sete cabeças para Roma. E até porque também eles afirmavam que Jesus tinha morrido como um vulgar homem. E até porque lhes era impossível conceber que Jesus, Deus-espírito encarnado, pudesse ter participação na matéria vil. Jesus-Deus era espírito puro, impossível de crucificar.
E ainda por cima os cátaros tinham de seu, eram ricos.
A cruzada empreendida por Roma contra os cátaros foi um dos maiores crimes culturais do catolicismo e uma das maiores chacinas da História do Ocidente cristão.


Mas na cruzada de Roma contra os cátaros qual terá sido o papel dos Templários?
Pois, ao que dizem, os Templarios mantiveram-se na neutralidade. Limitaram-se a testemunhar. E explicaram porquê.
Porquê? Por entenderem que cruzada só havia uma, contra os sarracenos e mais nenhuma. E muitos cátaros acossados se acolheram em instalações templárias.
A Rosa? Nem sempre foi Greenwich o meridiano principal e a longitude zero. Antes de Greenwich foi Paris e a longitude zero atravessava a igreja de Saint Sulpice. Um filamento de metal dourado vara em diagonal o chão da igreja, sobrecarregada de nexos místicos e esotéricos. Chamaram a esse filamento de metal a Linha da Rosa.

 
       

A rosa é capaz de ser o símbolo crucial do esoterismo, o código cimeiro de todos os códigos e de toda a iniciática. A rosa náutica dos mapas guiou os mareantes, disse-lhes as 32 direcções dos ventos.  Mas as linhas da rosa não têm fim, não se podem contar, cada linha imaginária que tracemos de polo a polo é uma linha da rosa, sendo porém a linha mestra da rosa aquela que indica a longitude zero e da qual partem todas as medidas e proporções da Terra. E até 1888 passou pela igreja de Saint Sulpice a primeira de todas as longitudes.


Proibida a menção ao nome de Maria Madalena, os conhecedores da verdadeira história, os iniciados, portanto, viram-se obrigados a recorrer a códigos e a símbolos sempre que se lhe queriam referir. E não há melhor campo para isso do que o recurso às artes. A Última Ceia, de Leonardo, é o paradigma perfeito da transmissão oculta e simbólica de um segredo.

Mas quem seria exactamente para os iniciados antigos a Nossa Senhora? Maria, a virgem-mãe, ou Maria Madalena? Notre Dame de Paris é uma catedral erigida em honra e louvor de que Maria, de que notre dame?, a virgem-mãe do filho do carpinteiro José, ou Maria Madalena, esposa carnal de Jesus Cristo, portadora do Graal, ou sendo ela própria o Santo Graal?