domingo, 25 de agosto de 2013

                        AGENTES SECRETOS


Quem pode ter estado nos bastidores de todas as heresias, arianismo, cátaros, Templários, maçonarias, reforma protestante, Revolução Francesa, e sei lá que mais? Podem ter sido os descendentes dos reis merovíngios. Talvez ache exagero, mas enfim…
As famílias merovíngias secretas nunca teriam deixado de agitar na sombra todas as hostes contra a Igreja de Roma, despistando a História e os poderes com infinitos disfarces e variadíssimas máscaras. Os descendentes do assassinado Dagoberto II terão conspirado contra as linhas reinantes de França tanto quanto contra Roma. Uma confraria secreta teria nascido em França e continuaria, na actualidade, a estar radicada em França, embora, já se vê, com admissíveis ramificações por esse mundo fora. O seu nome remontaria aos primeiros anos do segundo milénio da era cristã. Ordem de Sião. Mais tarde Priorado de Sião.
E, estranhamente, em vez dos previsíveis homens da  aristocracia, da banca, da política, a confraria pode ter tido à cabeça, para além, claro, de alguns nobres, um bom número de artistas de primeira água, pintores, poetas, um grande compositor, um grande cientista, o que tornaria – se fosse verdade - os objectivos e o funcionamento da ordem mais intrigantes ainda.
Nomes? Botticelli, Victor Hugo, Newton, Debussy, Jean Cocteau.
E Leonardo da Vinci.
O fictício conservador do Museu do Louvre, ficticiamente assassinado no famoso romance (Código da Vinci), é sugerido como grão mestre do Priorado de Sião ao tempo dos factos do romance, o último de todos, por conseguinte, e o seu assassínio em simultâneo com o dos seus senescais, significaria a decapitação da sociedade secreta, dada a dificuldade de garantir a sucessão no cargo – que implicava segredos só do conhecimento dessas duas ou três pessoas e passados a gente indevida e indigna -, podendo inferir-se que da decapitação ficcional da sociedade o autor pretenderia comunicar a extinção prática dela, ou, pelo menos, a menor efectividade das suas influências e poderes no curso da vida das nações. Ou até que da revelação desses segredos a uma organização do Vaticano o seu conteúdo e a sua verdade seriam para sempre apagados da História. 
Leonardo terá sido cabeça secreta do Priorado de Sião entre os anos de 1510 e 1519. E o conservador assassinado, tendo Da Vinci como seu artista favorito, prestava tributo não tanto ao artista ou à obra, mas a uma linhagem de grandes senhores e de imensos e perturbantes conhecimentos, fazendo crer que grande parte dos portentosos segredos do mundo e da História se continham de forma codificada na obra de Leonardo.
O maior de todos os mistérios poderia assentar numa iconografia (ou iconologia) da deusa, o sagrado feminino, a orígem da vida, o espírito pagão, o menosprezo e a desobediência à Igreja de Roma que em contrapartida teria mistificado a História e a vida.
Está bem. E como o secreto dá para tudo e permite todas as conjecturas e falsificações, inclusive históricas, um dos grandes segredos do Priorado de Sião seria também a identidade dos seus membros, os já passados e os ainda hipoteticamente vivos.
Poder-se-ia  dizer-se que o segredo da sobrevivência do Priorado de Sião ao longo de tantos séculos, nove, estaria nele mesmo, o Segredo, e também na sua capacidade de se desmultiplicar em diversos organismos secretos, de reformular sub-objectivos dentro do objectivo primordial, de reciclar a sua actuação ao compasso do segredo dos tempos e de cada tempo. De certo modo poderia ter acompanhado nos métodos a sua inimiga, a Igreja de Roma. Uma sociedade secreta pode existir pelos séculos dos séculos conforme a habilidade de classificar inimigos e a estratégia e de se lhes adaptar, afivelando e desafivelando máscaras, envergando e despindo disfarces à medida da conveniência.


As finalidades do Priorado manifestar-se-iam de quando em quando na História de modo mais evidente – segundo dizem os que sabem… ou parecem saber. Em 1562, em pleno Concílio de Trento, é o cardeal de Lorena que propõe uma descentralização do papado, uma autonomia mais efectiva para os bispos regionais e uma restauração das hierarquias eclesiásticas -  tudo isso propostas que visavam repor a vida da Igreja nos mesmos moldes em que funcionava nos tempos merovíngios.
Parece fácil de negar que a História de nove séculos da Europa foi marcada pelo contra-poder oculto de uma monarquia sombra, de uma genealogia clandestina? Pergunto.
Sem os merovíngios, o Priorado de Sião não existiria; sem o Priorado, a dinastia merovíngia já se teria extinguido: palavras alegadamente escritas em artigo de jornal por um eventual membro da ordem secreta.
E há um rei. Só um. Desconhecido. E há os grão mestres da Ordem, seus vassalos, sujeitos à morte, e que gozaram de êxitos na vida e muitas vezes de inesperados revezes, ou até pereceram em desgraças inexplicáveis.
Há um destino. O Segredo que guardam enaltece-os e abate-os. Uma moral mágica de incenso e enxofre. Brr…


Uma das mais importantes e célebres fachadas meio legais meio clandestinas do Priorado de Sião teria sido uma organização na aparência ultra-católica, chamada Compagnie du Saint Sacrement.


O Saint Sacrement seria uma sociedade secreta implacável e eficiente na acção. A sua existência está, segundo dizem, amplamente documentada e ainda hoje, ao que leio, se fala dela em certos círculos místicos. Terá sido fundada por um indivíduo próximo de Gaston d’Orléans por volta de 1627, e só eram conhecidos os seus membros de mais baixo estatuto, por assim dizer, os visíveis, sendo que, para as operações clandestinas, os seus homens de mão eram totalmente anónimos, bem como os seus mais altos mandantes e estrategas.
Dizem que a Companhia do Saint Sacrement se organizava semelhantemente ao que tinham sido os Templários, ao mesmo tempo que se anunciava organizativamente um passo adiante, a caminho do que seria a futura organização maçónica. A sede era na Igreja de Saint Sulpice – sobre a Linha da Rosa, justamente - e os tentáculos da companhia estendiam-se por todo o território francês. Faziam um trabalho clandestino impecável de perfeição. Cada membro só conhecia um ou dois confrades. Estavam proibidos de se contactar uns aos outros. Todos os contactos eram centralizados em Paris, a partir de Saint Sulpice. Mas mesmo aí os escalões superiores estavam na mais impenetrável clandestinidade e até hoje nunca se soube quem manejava os cordelinhos.


O Segredo era o coração da Companhia: era a divisa, o essencial espírito da companhia.
Mas na sua fachada visível a Companhia do Saint Sacrement tinha por fins a assistência aos desvalidos e as obras de caridade, sobretudo nas regiões assoladas pelas guerras. Picardia, Champagne, por exemplo, e… a Lorena. Por outro lado, o objectivo central da Companhia seria recolher informações e promover a infiltração de agentes seus nos mais altos níveis do Estado e o mais próximo possível do rei.
O mais tarde chamado S. Vicente de Paulo chegaria – se foi verdade - a ser agente da Companhia e nessa qualidade conseguiria ser confessor de Luis XIII e de Luis XIV. A própria Ana de Áustria pode ter sido, consciente ou inconscientemente,  uma agente do Saint Sacrement.
Bom, mas o alvo a abater era o 1º ministro, o cardeal  Pietro Mazarino.
Ninguém, historiador que fosse, parece que conseguiu explicar convenientemente a Companhia do Saint Sacrement. Uma organização ultra-católica que tinha como membros católicos ortodoxos do mais fanático que se pudesse arranjar. Perseguiam os hereges, claro. Mas o que ninguém conseguiu explicar foi porque é que num país católico como a França, uma associação católica tão fundamentalista funcionava num tão duro secretismo. E se os hereges poderiam ser, por exemplo, os protestantes, como se explicava a presença de protestantes  nas fileiras do  Saint Sacrement?
E como explicar que uma organização tão católica não apoiasse o cardeal Mazarino, a primeira figura da Igreja francesa? Mazarino que aliás jurou um dia pelos seus santinhos usar de todos os meios para destruir a Companhia du Saint Sacrement.
E a Companhia tinha ainda activamente contra ela outro inimigo de peso, os jesuítas.
E também ela foi acusada de heresia… quando um dos seus objectivos manifestos era a perseguição aos hereges…
Mas lá calha que a fundação da Companhia do Saint Sacrement tivesse coincidido com o auge das movimentações do movimento rosa-cruz. E pode pensar-se que a melhor maneira de os rosa-cruzes prosseguirem as suas actividades era fundarem eles mesmos uma instituição que tivesse por finalidade primeira e visível persegui-los.
A coisa pode ter sido de tal monta que o Saint. Sacrement se permitiu desafiar o rei e o seu 1º ministro. Em 1660, o rei declara-se inimigo da Companhia e ordena-lhe a extinção. Mas julgam que a Companhia ligou peva à declaração régia? Não, não ligou. Durante cinco anos. Até entender, ao cabo de cinco anos, que não era aconselhável continuar naquela situação. E então tratou de recolher e fazer esconder todos os documentos que dissessem respeito ao Saint Sacrement. Esconder onde? Em lugar secreto. Em Paris, todavia. E num lugar secreto que nunca foi descoberto. Talvez em Saint Sulpice. Pensou-se que sim. Nunca se soube.
Segundo se diz, apesar de formalmente extinta a Companhia do Saint Sacrement continuou em acção. E continuou a incomodar Luis XIV. E continuou pelos tempos que se seguiram a existir. E a agir. Dizem que sobreviveu até ao século XX. Se calhar até hoje.
Por curiosidade, podemos falar de algumas celebridades mundiais que estavam contra a companhia e de outras que estavam a favor dela e que trabalharam mesmo a soldo dela. Moliére. Era contra. Era um adversário da Companhia. A peça Tartufo é um libelo velado e codificado contra a Companhia. A Companhia sabia disso e não se ficou. E conseguiu ter artes de suspender a estreia da peça por nem menos de dois anos, e ainda que Moliére fosse um protegido do rei.
Já La Rochefoucauld terá sido um homem da Companhia, aliás já interventor nos tempos da Fronda. E La Fontaine, o das fábulas, outro que tal, homem do Saint Sacrement. As fábulas dele, aparentemente inocentes e infantis, eram requisitórios cifrados contra o rei – rei que, de resto,  odiava La Fontaine ao ponto de vetar o nome dele para a Académie Française. Valeram a La Fontaine outros apoios e protecções, o Duque de Guise, o Duque de Bouillon, os do Segredo.
Pois é. É assim a vida. E é assim que se calhar se faz a História, até nas vidas artísticas e literárias.
E qual de nós ainda tem a ingenuidade de pensar que hoje as coisas na política e nos assuntos de Estado se passam de maneira diferente?
Sim, claro, hoje, ainda, why not, apesar da mesquinhez dos tempos e dos ideais, apesar dos computadores e das tecnologias e dos Snowden’s e dos sofisticados microfones e aparelhos de escuta… oh, o que a Companhia do Saint Sacrement não se teria divertido e pintado a manta com a tecnologia que há hoje! 
Mas será que anda hoje não se diverte e não pinta a manta, a chamar-se Saint Sacrement ou a chamar-se outra coisa qualquer? Ou a não se chamar coisíssima nenhuma…

                            

Em 1614, na Alemanha e na Inglaterra, aparecem os primeiros manifestos Rosa-Cruz. A Europa protestante e liberal aplaudiu. A Igreja condenou furiosamente. Um rosa-cruz notório, Robert Fludd, torna-se grão mestre do Priorado entre 1595 e 1637.
Os manifestos Rosa-Cruz anunciavam uma transformação do mundo e do conhecimento dinamizados por uma irmandade iniciática internacional, secreta, invisível. A presidir à transformação do mundo estariam princípios herméticos, uma corrente subterrânea que arrancara da acção de René d’Anjou e atravessara todo o Renascimento europeu. Liberdade espiritual: a palavra de ordem; libertação do Homem; revelação de segredos da natureza; regresso à harmonia da terra e do cosmos. O autor dos manifestos rosa-cruz talvez tenha sido Johann Valentin Andrea, grão mestre de Sião entre 1637 e 1654.
As Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz, talvez o mais divulgado dos textos rosacrucianos, surge à luz do dia em 1616, de autoria anónima. Cria-se que tenha tido influência sobre a intelectualidade alemã, sobre Goethe e o seu Fausto, por exemplo.
O Caso de Joana D’Arc parece ter levado mãozinha do Priorado.
Terá sido René d’ Anjou o agente do Priorado na questão de Joana D’Arc. Talvez ele e Joana tivessem mesmo sido amantes – diz-me o coração que não, mas eu sei lá. O duque de Lorena, tio-avô de René d’Anjou ficou de cara à banda quando perguntou à rapariga o que desejava e ela lhe respondeu serenamente: O seu filho (René), um cavalo e alguns bons homens para me levarem para França.


É histórico. René d’Anjou acompanhou de facto Joana d’Arc até à corte do Delfim. Esteve junto dela no cerco de Orléans. Os historiadores iriam querer subtraí-los destas cavalarias, mas a dúvida sobre o que terá feito René d’Anjou entre 1429 e 1431 permaneceu.


E quem esteve a tratar da saúde do Delfim em Chinon? Yolande d’Anjou, mãe de René, que se declarou protectora de Joana d’Arc. E quem convenceu o Delfim de que a rapariga poderia mesmo ser a salvadora da França? Yolande d’Anjou.
      Leio que os historiadores mais modernos admitem que alguma força oculta teria estado por detrás dos factos visíveis, que Joana d’Arc não aparecera por acaso e não fora aceite por capricho, e que Joana até se quadrava muito bem com a lenda da virgem de Lorena. E também porque… René d’ Anjou teria sido grão mestre do Priorado de Sião entre 1480 e 1483.
Mas também se disse que Joana d’Arc  entrou no salão do castelo de Chinon e que Carlos VII  imediatamente tratou de se dissimular entre os cortesãos, transido de medo. Diante da rapariga, o rei perdia moralmente as suas dignidades, revertia às suas insignificâncias de cortesão. Mas porquê, senhores? Porque Joana d’Arc era uma embaixatriz do único e verdadeiro rei que a Europa teve – ou teria… ou terá tido. Joana aproximara-se de Carlos VII para lhe dizer uma coisa, anda cá Carlinhos, anda cá, filho, não fujas, meu malandrão. E que lhe diz ela em segredo? Diz-lhe: Gentil Senhor, venho em nome do rei. Dizer isto ao rei era desaforo de marca, não? O rei autêntico da Europa, o do sangue, o do Segredo, o da linhagem, era um rei perdido, era o último elo da dinastia merovíngia oculta. E continuava a governar. Na sombra. Inquietante, não é? E os reis visíveis sabiam-lhe da existência, sabiam e sabem quem ele é, temem-no. Ele é rei porque sim, só por si, só por ser quem é, o único rei da mais legítima linhagem. E quem quer que fale ou comande em nome do Priorado de Sião, fala e comanda em nome do rei, do rei perdido. E só o rei perdido verdadeiramente interessa ao Priorado. Todos os outros podem morrer, ser destronados, acabar-se-lhes com a raça. Só a linhagem do sangue deve subsistir seja em que circunstâncias for.
Se non è vero è bene trovato.
O objectivo capital do Priorado ainda no século XVI era restaurar a monarquia francesa elevando ao trono um descendente dos merovíngios – o que queria dizer igualmente um descendente de Jesus Cristo -  um dos da Casa de Lorena ou da casa de Guise. Um dos do Segredo. Em 1563, a coisa está por um triz. François de Guise tem praticamente o trono nas mãos no dia em que é assassinado.
O Priorado trabalhava sob o emblema da cruz de Lorena e dispunha de uma rede clandestina de se lhe tirar o chapéu em emissários, agentes secretos, espiões, embaixadores, agentes provocadores e assassinos a soldo. 
Nostradamus pode ter sido um desses agentes clandestinos do Priorado, e um dos mais importantes, o verdadeiro 007, ao serviço dos Guise e do cardeal de Lorena. Nostradamus, astrólogo da corte ao serviço dos Valois reinantes, era o agente secreto ideal desses tempos e desses lugares, uma autêntica ponta de lança infiltrada no coração do inimigo, conhecedor de segredos e capaz de influenciar umas poucas de decisões do rei. Nostradamus era o homem com melhores condições para definir o momento mais oportuno para um passo a dar, uma palavra, um boato, um assassínio, e as suas famosas profecias seriam mensagens cifradas com indicação de horários, hábitos e planos de acção.
Muitas das profecias de Nostradamus remetiam ao passado, aos tempos merovíngios, ao historial da casa de Lorena. Além do mais, antes de se afirmar na arte da profecia, Nostradamus viveu muito tempo nos domínios dos Lorena e aí terá cumprido a sua iniciação e ficado guardador do formidável segredo contido num antiquíssimo livro mantido ultra secreto.
Outro. Nicolas Fouquet. Era superintendente de Finanças de Luís XIV. Tinha um irmão que vivia em Roma e era padre. O irmão visitara o pintor Poussin (também ele a viver em Roma) e depois da visita escrevera uma carta a Nicolas, o tal superintendente de Finanças de Luis XIV. Nessa carta se falava em coisas que mesmo os reis invejariam e teriam dificuldade em obter. Pois logo após ter recebido a carta do irmão, Nicolas Fouquet, a despeito do seu altíssimo cargo, é preso. Nicolas Fouquet, superintendente de Finanças do Rei-Sol é preso e preso fica o resto da vida, e mais do que preso, absolutamente incomunicável. Há rumores de que possa ter sido ele o misterioso Prisioneiro da Máscara de Ferro.
Quanto ao rei, confiscou e inspeccionou toda a correspondência do seu ex-superintendente de Finanças. Além disso, mandou emissários seus correrem seca e meca de modo a obter o original do quadro de Poussin, Les Bergéres d’Arcadie. Obteve-o. O quadro ficou guardado nos aposentos privados do rei.
Ui, senhores, as maravilhosas histórias que o mundo tem guardadas para um dia serem contadas! - verdadeiras ou inventadas, não importa agora para o caso…


Caberia na cabeça de alguém que o arqui-célebre cardeal Richelieu, 1ºministro de França, principal hierarca da Igreja francesa, fosse secretamente um rosa-cruz? Não. Não cabia.
    Mas rebenta a Guerra dos Trinta Anos. De um lado está o catolicismo, a Espanha, a Áustria; do outro combatem os suecos protestantes mais os príncipes alemães, apoiados esses pelos movimentos rosacrucianos. Em 1633, Richelieu resolve envolver a França na Guerra dos Trinta Anos. Previsivelmente tê-lo-ía feito pugnando pelo lado católico. Mas não. Richelieu teve em conta os interesses do Estado. A Espanha e a Áustria incomodavam-no, ameaçavam-lhe as fronteiras.
Mas não era só isso. A Espanha dominava então aquela parte da Europa que era território histórico dos merovíngios, os Países Baixos, a Flandres, parte da Lorena. E Richelieu, ultrapassando os puros interesses do Estado, e colocando os exércitos do seu rei ao serviço do Segredo e na defesa dos interesses de uma minoria secreta, fez avançar a França católica ao lado dos protestantes contra os católicos, directa ou indirectamente (mas sobretudo  ideologicamente) apoiado pelo movimento rosacruciano.
Disse-se de Richelieu que era o pai secreto do filho  tardio de Ana de Áustria, em 1638 – lá teremos de voltar a ler os Três Mosqueteiros.
Mas também se disse que o filho da rainha não seria de Richelieu mas do seu (dele, Richelieu) protegido e futuro 1º ministro, o cardeal italiano Pietro Mazarino.
Em qualquer dos casos, nascera um herdeiro de Luis XIII e isso foi um golpe doloroso nas aspirações da casa de Lorena e nos interesses do Priorado. Priorado que nas épocas subsequentes elegeria o cardeal Mazarino como inimigo principal.
O movimento conhecido como a Fronda foi uma iniciativa do Priorado para restaurar a nova monarquia. Falhou. Luis XIV subiu ao trono e Mazarino foi seu 1ºministro.
Maria Antonieta, raínha de França, era filha do duque de Lorena. Os Habsburgo-Lorena estavam a uma geração de reinar sobre a Europa. Mais uma geração e seriam os merovíngios, finalmente, a aceder de novo ao poder. Isso queria dizer que a revelação dos tesouros templários estava perto. Pois é. Estaria perto se não tivesse havido a Revolução Francesa.
Mas também ninguém me garante que a Revolução Francesa não aconteceu no preciso momento histórico em que aconteceu justamente para impedir tal desiderato.


Sabe-se entretanto, ou julga saber-se, que entre 1789 e 1792 se fizeram depósitos clandestinos com vista a preservar das mãos do Terror certos documentos preciosos. Parte desses documentos sobreviveram. Essa parte foi confiada a um Lorena. Passou depois para as mãos dos Habsburgos. Até que, muitas décadas depois, os Habsburgos se põem em contacto com  um certo padre Sauniére, de Rennes-Le-Château. Porquê e para quê?


Ainda na onda da Revolução Francesa, saiba-se que o poeta André Chénier esteve metido no caso dos documentos escondidos. Chénier parece que falava de uns certos documentos do Templo. Que Templo? A Ordem do Templo? Não me admirava que André Chénier tivesse sido executado mais por causa deste caldinho do  que por qualquer outra coisa.
Mas nesta época o Priorado terá deixado extraviar alguns dos seus mais preciosos documentos. É desde então que a sucessão dos grão mestres do Priorado deixa de seguir uma linha mais ou menos familiar e estes passam a ser escolhidos entre figuras da cultura francesa.
E por falar em coisas secretas, ocultismos, magías e esoterismos, verdades e mentiras  tão em moda, e do seu papel na História verdadeira da vida do Homem, chegaria dizer da relevância magna que, no século XVIII e seguintes, para o melhor e talvez para o menos bom, teve a Maçonaria na História europeia, e a vários carrinhos, na cultura, no social, na política, claro – já não falando nem na Revolução Francesa, nem na fundação (quase diria da invenção) de um continente, o americano. A fundação das américas é um acto maçónico. E incluída nas américas a fundação do país mais poderoso, os Estados Unidos. Mas será que a historiografia oficial se ocupou da Maçonaria, pelo menos com relevo correspondente ao papel dela na História?


E que tal o papel dos famosos e misteriosos rosa-cruzes em tanto facto histórico? A Guerra dos Trinta Anos, por exemplo. E o papel do esoterismo nos meandros do que ficou historicamente consagrado como o Renascimento? Pouco ou nada se falou disso. Talvez se comece agora a falar. E talvez esse falar seja parte da revelação do Segredo, do Graal. E talvez resida aí o principal interesse do romance de Dan Brown O Código da Vinci.


Nada existe mais do que aquilo que não existe.
Os códigos da Vinci que se escreveram, se estão a escrever e se continuarão a escrever no futuro talvez não façam todavia mais do que aflorar a superfície mais epidérmica do que realmente existe e acontece, existiu e aconteceu, existirá e acontecerá. Ou não? Ou apenas são mais um truque para melhor esconder a verdade? Isso depende da fézada de cada um.
Nada existe mais do que aquilo que não existe.
E já agora, recalcitrando em estulta citação do bardo de Stratford,  há mais coisas, Horácio,  entre o céu e a terra do que sonha a tua vã filosofia. Mais ou menos isto. Mas todas estas frases shakespearianas só atestam o quanto ele, Shakespeare, devia estar por dentro de um segredo. Um segredo que talvez fosse O segredo.






segunda-feira, 19 de agosto de 2013

          
        O BRITÂNICO PRÍNCIPE ÁRABE     
       QUE NÃO CHEGOU A NASCER

E quem me havia de dizer a mim que o caso da princesa Diana de Gales tornaria a ser falado e que novas suspeitas se levantariam envolvendo instituições britânicas de tanto e tão inquestionável prestígio como o exército de Sua Majestade?
        Foi isso que me fez recuar no tempo e desencantar um texto radiofónico que tanto quanto me lembro exsudou de umas leituras minhas de época.


Num desses livros se dizia que em meados de Agosto de 1997, a princesa Diana de Gales e o seu mais recente namorado Dodi Al Fayed eram esperados no Ritz de Paris vindos da Sardenha. Estava reservada para eles, no Ritz, a (que deve ser magnífica) suite imperial. Ritz de Paris que, convirá lembrar, era (não sei se ainda é) propriedade de Mohamed Al Fayed, pai de Dodi, namorado de Diana.
Henri Paul, funcionário do hotel e motorista dos hóspedes VIP, é encarregado pelo patrão de providenciar a segurança do casal e com a específica incumbência de manter bem afastados os paparazzi. O que constituiria um problema para esta personagem, uma vez que (alegava-se) recebia somas nada desprezíveis dos mesmos paparazzi em troca de informações sobre os vips que se hospedassem no hotel.
Henri Paul, ao que posteriormente terá sido apurado (verdade?, mentira?), manteria contactos com serviços de informações, dada a sua privilegiada posição no hotel. Paul poderia facilmente escutar conversas e transmiti-las, aceder a ficheiros de hóspedes, saber de entradas e de saídas, interceptar telefonemas, instalar aparelhos de escuta.
Será que o fazia? Ninguém hoje pode afirmá-lo. Mas depois de tudo o que se passou, já se vê, a sua vida foi espiolhada até à última.


Henri Paul, vamos lá, bebia o seu copito. Era emocionalmente instável. Gostava de guiar carros rápidos. Tinha uma moto a meias com outro. Era solteiro. Era ambicioso. Não ganhava para a ambição que tinha. Estava comprometido com os paparazzi. E negociava com eles quanto à conveniência de fotografar ou não certas celebridades em certas ocasiões, sabendo que assim traía a confiança que a direcção do hotel depositava nele.
Às 11.45 da noite de 29 de Agosto de 1997, um sábado, Henri Paul é chamado para levar a princesa e o namorado para fora do Ritz. Recebe directivas do próprio patrão (de quem é homem de confiança). Deveria guiar com o máximo cuidado. Tinha nas suas mãos a vida da mãe do futuro rei de Inglaterra.
E discute-se o trajecto a seguir. Os seguranças tem a última palavra. Lá fora, os paparazzi estão de atalaia.
Dois Range Rover saem a toda a pressa para despistar os paparazzi. O Mercedes da princesa vai sairía pelas trazeiras.
À meia noite e vinte do dia 30, os Range Rover saíram realmente Place Vendôme fora, logo seguidos pelos paparazzi.
À meia noite e vinte e dois um Fiat Uno, branco, passa ao alto da Rua Cambon, nas trazeiras do hotel.

O Mercedes  guiado por Henri Paul, com Diana, Dodi e o guarda-costas, arranca.
Dois minutos depois, o Fiat Uno passa o semáforo da Place Concorde, enquanto o Mercedes pára no mesmo semáforo.
À meia noite e vinte e quatro, o Mercedes  avança para o túnel da Place d’Alma. O Fiat Uno vai na sua frente.
À meia noite e vinte e cinco, o Mercedes, lançado a alta velocidade enfia pelo túnel.
Dez segundos volvidos ouve-se um som de trovão dentro do túnel. Henri Paul está morto. Dodi está morto. Diana está às portas da morte e o guarda-costas está em estado crítico.
O Fiat Uno metera entretanto por uma tansversal à Avenue Montaigne. Um camião de transporte de caixa fechada esperava-o. A rampa do camião descia. O Fiat Uno subia a rampa e desaparecia dentro do camião.


Em Fevereiro de 1998, Mohamed Al Fayed, pai do falecido Dodi, anuncia que não se tratara de acidente. E quer saber a verdade antes que essa verdade fique oculta para sempre.


Meses depois, um documentário televisivo falava das ligações de Henri Paul aos serviços secretos franceses. Há quem diga que essa tese é falsa. Mas o mesmo programa mantinha que serviços de informação internacionais estariam ligados ao desastre. Insinuava-se que a própria coroa britânica pudesse ter a ver com o caso, dadas as previsíveis implicações políticas associadas à relação amorosa entre Diana e Dodi.
O poderoso multimilionário Mohamed Al Fayed inicia a sua cruzada para o esclarecimento do caso. Não olha a meios. Não olha a despesas. Quer entrar em contacto pessoal com quem possa ter informações, ou provas, do envolvimento de terceiros na morte do filho. Envia uma carta aos membros do Parlamento inglês convidando-os a levantar a questão na Cãmara dos Comuns.
Sustentava então Al Fayed que estava em curso uma conspiração internacional para abafar o caso e esconder as provas de que não se tratara de um acidente mas sim de um homicídio. Os meios políticos entenderam que aquilo eram palavras de um pai desesperado pela perda do querido filho. 


Mas Al Fayed não deixava de teimar. Havia uma conspiração para eliminar Diana e Dodi. Montada por quem? Era o que o velho negociante egípcio queria saber. E continuava a fazer perguntas incómodas.
Depois do desastre (ou do atentado), porque é que o transporte da princesa para o hospital da Salpêtriere demorara uma hora e quarenta minutos?
Porque razão alguns dos fotógrafos não apresentaram todas as fotos que tiraram?
Porque é que todas as câmaras  de vídeo de circuito fechado dessa zona de Paris não gravaram absolutamente nada?
Porque estavam sem filme as câmaras de controlo de velocidade?
Porque é que as câmaras de tráfego estavam desligadas?
Porque é que o local do desastre foi reaberto à circulação tão rapidamente?
Quem era a pessoa disfarçada de fotógrafo que estava no exterior do Ritz?
Quem eram os dois homens que…
Al Fayed apontava o dedo ao MI5 e ao MI6, os serviços secretos britânicos, em associação com a secreta francesa. Mas apontava-lhes o dedo  porquê?
Não era difícil de conjecturar. Os mais altos níveis do poder britânico haviam decidido que a princesa real Diana de Gales, mãe do futuro rei, não podia casar com um muçulmano. Por uma questão de moral, já se vê, moral política e de Estado monárquico. Se Diana casasse com um muçulmano, caíria o Carmo e a Trindade, o príncipe William, futuro soberano, teria um árabe como padrasto e teria que chamar avô a outro árabe. Seria um princípio de fim para as tradicionais e sagradas instituições britânicas.
Al Fayed, sempre rodeado de guarda-costas (sentia-se ameaçado de morte), chamava à sua suite do 5º andar do Harrods (de que também era dono) quem quer que lhe pudesse fornecer informações, quem quer que tivesse relações com os serviços secretos do mundo inteiro, ingleses, franceses, a Mossad, a CIA. Trocaria a informação decisiva por um milhão de libras, livre de impostos.
Apurava-se que naquele derradeiro dia de vida de Dodi e Diana em Paris havia presenças obstinadas e duvidosas por todo o Ritz. Alguém espiava os mínimos gestos de Diana e Dodi. Quem? Aí estava o enigma que o velho egípcio queria deslindar.
Alguns dos mais espertos serviços de informação haviam detectado de facto nesses dias, em Paris, um desusado movimento de agentes secretos. Eventualmente pessoal do MI6, estacionados primeiro na sua embaixada, depois numa casa segura e por fim um ou dois deles registados no Ritz, evidentemente, sob falsas identidades.
Al Fayed chamava corja de assassinos aos serviços secretos de Sua Majestade. Desconfiava agora do homem em quem tinha confiado, Henri Paul. Afirmava a pés juntos que tanto a raínha como o príncipe Filipe não podiam admitir nem à lei da bala um Wog nos círculos de Buckingham. Wogwily oriental gentleman: esperto cavalheiro oriental. E sobretudo quando…
Oh… e sobretudo quando, na palavra do velho Al Fayed, Diana estaria grávida de oito semanas. Grávida de Dodi, um muçulmano.


E mais: segundo Al Fayed, no hospital parisiense da Salpêtriere, para onde a princesa foi levada, retiraram-lhe grande parte dos órgãos. Quando o corpo chegou a Londres era o corpo de uma múmia.
Al Fayed afirmava aos quatro ventos que Diana e Dodi haviam sido simplesmente assassinados por agentes britânicos com a ajuda de outros serviços e agências de informação.
O segurança e motorista Henri Paul? Bom, estaria sob a pressão de vários serviços secretos que o queriam recrutar. Mas era um negócio para ele espinhoso. O Ritz gabava-se da confidencialidade tradicional no tratamento dos seus hóspedes, e havia gente a querer pagar bom dinheiro a Henri Paul para ele violar essa confidencialidade. O homem não sabia para onde se virar. Tomava pastilhas para dormir e pastilhas para acordar. Bebia o seu copo. Andava a ser pressionado para uma actividade de alto risco…


Terá sido por isso que perdeu o controlo do Mercedes e se estampou, tudo não passando afinal de contas de um acidente?
Ou, a ter havido um atentado, não seria ele e não Diana ou Dodi o alvo desse atentado, e por razões obscuras?
Entretanto, alguém bem informado viria dizer que Henri Paul teria instalado aparelhos de escuta na suite imperial habitada por Diana e Dodi. Instalado para quem?
A apoiar a tese de atentado mantida por Al Fayed, aparece um ex-agente do MI6 inglês. Sabe algumas coisas proibidas, alguns segredos inconfessáveis. Sabe de alguns planos para assassinar individualidades. Sabe dos métodos secretos de eliminação de gente incómoda. Os acidentes em túneis, onde é mais forte a probabilidade de desastres fatais era um desses métodos.
E armas? Não. Nem pistolas, nem espingardas, nem facas, nem bombas. Só um feixe de raios laser criteriosamente colocado no trajecto de um automóvel e disparado sobre a cara do condutor a alta velocidade, de modo a encandeá-lo, a cegá-lo momentaneamente, a fazê-lo perder o controlo da viatura.

                                            
O problema para Al Fayed eram as provas para sustentar esta e outras teses.
Mas a coisa ia muito mais longe. O NSA, agência de segurança americana (recentemente tornada famosa pelas piores razões e na sequência de documentos fornecidos à imprensa britânica pelo ex-espião Snowden), possuía um dossier de 1050 páginas sobre o casal Diana/Dodi…


Al Fayed envia homens a Washington para obter cópias desses documentos. Em vão. Obviamente! Eram documentos adstritos à segurança nacional e altamente reservados.
Diana e Dodi andavam permanentemente vigiados por satélite. O ECHELON. Um sistema ultra-sensível e ultra-secreto de vigilância. As informações por ele colhidas poderiam ser partilhadas pelos serviços americanos com outros serviços secretos amigos, caso da Grã Bretanha.


Mas cabe na cabeça de alguém que uma insuspeita princesa que só dava que falar na fútil imprensa cor de rosa e no jet set andasse a ser vigiada tão intensamente por uma grande potência?
Cabe. E a resposta dá-se numa única palavra. Minas. Minas anti-pessoal. por explodir disseminadas em extintas zonas de guerra por todo o mundo. Angola era uma dessas zonas. A princesa foi lá. E lançou uma campanha mundial para a abolição dessas minas, e contou com apoios que se tornaram incómodos e mal vistos pelos senhores das guerras e pelos poderes institucionais. A indústria de minas dava lucros e dava empregos, milhões de lucro e milhares de empregos. E se ninguém ficava contente por saber de minas a explodir e a matar pessoas, mesmo sem haver guerra, também não era bom que centenas de tubarões do negócio das armas ficassem privados de lucros e milhares de trabalhadores fossem despedidos, só porque a uma princesa lhe dera para ali.
A CIA está em força em Paris naqueles dias de Julho/Agosto de 1997. Seguem Diana. Tomam conhecimento das invectivas que a princesa lança aos fabricantes de minas. Elaboram relatórios. Relatórios que integram as 1050 páginas de documentação que Al Fayed quer copiar e não o deixam.
O sistema de satélites ECHELON ouvia todas as conversas de Diana e de Dodi, mesmo as mais íntimas. Para ajudar à festa das minas, o ECHELON sabe do noivado de um nababo muçulmano com uma princesa real inglesa. Também esse facto pode desequilibrar a ordem estabelecida do mundo e da vida e as relações entre potências.


Para a coroa inglesa, aquele futuro príncipe árabe nunca deveria nascer. Todavia, da inconveniência da família real britânica quanto a provável futura presença de um muçulmano em Buckingham Palace, até ao planeamento minucioso de um assassinato ia uma enorme distância. Isto, é bom que se diga, em termos de senso comum. Al Fayed é que se estava nas tintas para o senso comum e devia saber que nos altos negócios políticos internacionais nem sempre o senso comum governa, e seguramente sabia da importância fulcral e inescapável dos serviços de espionagem no quadro das relações internacionais.


O ex-agente do MI 6 jurava a Al Fayed que os serviços britânicos estariam implicados no acidente do Pont d’Alma. Agentes desses serviços teriam estado em Paris dias antes e teriam recrutado Henri Paul como informador pago.
Mais declarava o ex-agente que Henri Paul fora realmente encandeado por um feixe de luz de grande intensidade, uma das técnicas favoritas do MI 6 para os golpes sujos.
Mas… e provas disso?


As autoridades continuavam a minimizar as convicções e insinuações do velho Al Fayed. Para as autoridades, a conspiração destinada a matar-lhe o filho e a princesa sua noiva continuava a não passar de uma obsessão de pai moralmente ferido.
Mas tinha a sua lógica, uma lógica moral, além de histórica, sim, essa conjectura do que seria a família real de Inglaterra a ter que levar com um muçulmano, nas suas reuniões e festas, e com todas as dignidades de alteza, e com lugar, julgo eu, embora remoto, na linha sucessória ao trono britânico.
E é claro que investigação séria, e publicável, nunca ninguém a faria. Se a fizesse, séria, nunca seria publicável; se fosse publicável, correria sempre o risco de não parecer suficientemente séria. Mas de que algo de estranho se passou nas mortes de Diana e de Dodi e de Henri Paul não oferecia demasiadas dúvidas. E houve quem dissesse ter sido a sanha do velho Mohamed Al Fayed contra o trono inglês e contra a família real a prejudicar qualquer investigação mais séria e qualquer apuramento da verdade.


Muito mais tarde viria a saber-se do destino o Fiat Uno branco e misterioso que andava às voltas perto do sítio do acidente. Esse Fiat Uno, como já disse, naquela mesma noite subiu a rampa do camião fechado perto de Avenida Montaigne e seguiu dali direitinho para uma prensa de sucata que o reduziu a imprestável monte de metal sem qualquer identificação possível.
Podem ter sido questões de moral a precipitar os acontecimentos. Uma questão de moral monárquica, dada a tal inconveniência de poder vir a aparecer em Buckingham um príncipe real árabe.
                                          
                   

Ou uma questão de moral muito mais abrangente e grave, relacionada com a indústria de armamento, a desembocar na encruzilhada também muito moral, quando toda a gente se diz contra a guerra, e quando as armas não deixam de se fabricar em grande escala, tendo por consequência de ser escoadas para o mercado, para qualquer guerra, em qualquer lado, nem que seja preciso criá-la artificialmente, inventá-la, a ela, guerra, sim, qual é a dúvida...
Claro, na organização do nosso vasto e variegado mundo sempre em mudança, há valores imutáveis. O lucro, um deles. Imutável e indiscutível e cimeiro valor de uma nova moral que está a acabar de ser criada e a sobrelevar todos os outros e doravante desusados (ridícularizados) valores.


O que dá brutos lucros é fabricar minas e outro armamento. O que dá lucros fabulosos é fabricar guerras. A paz não enriquece rapidamente assim tanta gente. E para que a indústria de armamento continue florescente que importância tem a morte de uma princesa real?

Que importância tem que um príncipe britânico de sangue árabe não chegue a nascer?