domingo, 11 de agosto de 2013


                 NA LINHA DA ROSA


Evidentemente: não é o Dan Brown que me interessa; o que me interessa são os milenares temas que ele levantou, e que, como já disse antes, ele decalcou daquele outro livro sem ficção que já mencionei, O Sangue de Cristo e o Santo Graal, cem vezes mais interessante do que o comercialíssimo Código da Vinci.


Mas não tenho dúvidas de que uma das razões do bruto sucesso comercial de O Código Da Vinci está no tom de conspiração internacional. E como cada vez mais gente desacredita dos políticos e da política que se faz a descoberto, porque os políticos não podem ser suficientemente claros a explicar certos feitos, atentados, crises financeiras globais, swaps, golpes e guerras, e em que muitos dos alegados factos parecem relevar do irracional nas suas concepções e execução, claro, o público miúdo não só se diverte mais com as teorias de conspiração como já só acredita no oculto mesmo na vida de todos os dias, e sobretudo quando se trata da vida política. O público miúdo sente que a vida do mundo se entretece de conspirações sobre conspirações e contra-conspirações. Não sabe nada de certo, nunca saberá – não lhe compete saber – mas sente. A teoria da conspiração é popular. E é propagandeada todos os dias pela literatura, pela televisão e pelo cinema. E pela realidade, vamos lá. É capaz de existir mesmo.


Algo estará sempre por detrás de um facto, por detrás de alguém. Um alguém manobra quase sempre outro alguém. Nada é puro e desinteressado. Toda a instituição, por mais respeitável, pode funcionar sob um desígnio secreto. Haverá sempre uma sombria elite de senhores de um conhecimento superior que escapou à consciência do vulgo e governa por interpostas pessoas o destino dos homens comuns…
    Será mesmo assim? Se não é, parece. E parece cada vez mais.



Conspiração e simbologia. A Simbologia também pode aguentar tudo,  pode dar para tudo, para uma coisa e para o seu contrário – diz o ignorante que eu sou. E no âmbito propagandístico e falsificador do nosso mundo actual torna-se muitas das vezes complicado saber, mesmo nas coisas mais banais, o que poderá significar o quê.
A realidade pode não passar de um símbolo. Um símbolo de outra coisa. Essa outra coisa é que nós nem sempre (ou quase nunca)sabemos qual é. E a irrealidade talvez não passe de uma simbologia do irreal.



O quadro A Adoração dos Magos, de Leonardo: aí estava a mensagem codificada para conduzir os vindouros à maior e mais incómoda verdade da História que se chamava Santo Graal. O quadro foi arredado das vistas públicas da Galleria degli Uffizi e posto num armazém.
A ocultação da conspiração – como de tantas outras coisas da vida – é, para o público, o indício mais revelador de que ela existe. Mesmo que não exista. E aqui colhe particular cabimento a minha sempre recorrente citação shakespeariana, nada existe mais do que aquilo que não existe, e muitos de nós não nos cansamos de procurar sinais de qualquer coisa  e significações ocultas mesmo onde elas não existem. Isto vai desde a demanda do Graal até aos negócios do futebol, se formos a ver.

Leonardo, o Graal, a Última Ceia… a Última Ceia é uma reunião de 13 homens? Parece. Mas pode não ser. Quem está sentado à direita do Senhor? Um homem. Um homem? Sim, um homem de cabelos compridos e fulvos, mãos entrelaçadas, e até parece que tem seios… um homem ou uma mulher? De facto, pode ser uma mulher. Quem é esta mulher? Maria Madalena. Uma prostituta? Há quem diga que foi o papa Gregório, o Grande, o inventor deste boato calunioso, no ano de 591. Mas não! Madalena não era prostituta. Foi a Igreja que a fez tal, que a entendeu difamar, e só emendando a mão em 1969. E talvez porque Maria Madalena terá estado à cabeça de um movimento cristão que se opunha às pretensões do apóstolo Pedro. O segredo dos segredos estava em Maria Madalena. Maria Madalena era uma testemunha incómoda. Maria Madalena sabia a verdade toda e não afinava pelas determinações da hierarquia de Roma, que por isso mesmo a teria de considerar herética. Maria Madalena era, ela mesma, o Santo Graal.
Na Ceia de Leonardo, Jesus e Madalena são representados como que reflexos um do outro. Jesus: túnica vermelha, manto azul: Maria Madalena: túnica azul, manto vermelho. Yin e Yang.
A operação clandestina que terá trazido Maria Madalena da Judeia para França teria por motivação precisamente salvaguardar o Graal, o fruto que estava no ventre de Maria Madalena, o filho de Jesus. E Maria Madalena foi mantida incógnita por razões óbvias de alta segurança. E o fruto do ventre de Maria Madalena nasceu e cresceu e acabou naturalmente por se misturar com outros sangues, judaicos, romanos, visigóticos. E assim, clandestina, secreta, se manteve essa linhagem por nem menos de 400 anos.
Quem pode provar que isso é verdadeiro?
E quem pode provar que isso é falso?
Até que no século V o sangreal se liga ao sangue real dos francos, de onde viria a derivar a dinastia merovíngia. Seria este o segredo que o acabadinho de assassinar conservador do Museu do Louvre (Código da Vinci) teria para transmitir. Seria este o grande segredo da História. E seria este o Graal.
E seria esta a espada de Dâmocles pendente sobre  a Igreja de Roma, fundada em nome de um Jesus Cristo descrito etéreo, hierático e impoluto do contacto com mulher, conforme a hierarquia romana abusivamente estabelecera. E que não passaria de uma mentira. E, no caso de ter sido assim, a maior mentira da História do Homem.

A lenda do nascimento de Mérovée, que dá o nome à dinastia, não será, mais do que uma engenhosa alegoria. Filho de dois pais, sendo um deles a criatura marinha, metáfora de quem tinha chegado de Além Mar, ou metáfora do místico desenho do peixe com que os primeiros cristãos simbolizavam Jesus.
E se a linhagem merovíngia de Clóvis provinha da semente genética de Jesus, o pacto entre ele e Roma e a Igreja fundada em nome de Jesus Cristo era a bem dizer uma inevitabilidade.
E as culpas da Igreja no assassinato de Dagoberto II constituiriam gravidade maior do que a da morte de um simples rei, quando, em Dagoberto, os sicários de Roma haviam morto um descendente de Deus, um deus ele mesmo, crime para que a Igreja romana, no espartilho dos seus dogmas, não podia conceder-se expiação.


Significaria essa situação também a identidade de Godofredo de Bulhão, nas veias de quem corria o sangue merovíngio, o sangue do próprio Jesus, um Godofredo simbólica e alegoricamente neto ou bisneto de um Lohengrin, ou de um Parsifal. Da família do Graal, em conclusão.
                      


Estranho também é o momento histórico da aparição do Graal, ou melhor, do virem a lume as referências a ele, o que aconteceu no momento culminante das Cruzadas.
É quando o reino franco se implanta em Jerusalém e os cátaros ameaçam seriamente o poder de Roma na região que o Graal começa a ser falado, a ser tema de romances de cavalaria, a insinuar-se não apenas como um objecto, ou objectos, mas como uma família.
A base na crença no Graal é pagã, começa por ser pagã, mas, de certa maneira,e inexplicavelmente, é absorvido pelo cristianismo e passa a ser conotado com a família de Jesus.
E o culto do Graal vai de par com a carreira da Ordem dos Cavaleiros Templários, o que ainda é mais sugestivo.
E o culto do Graal começa a desvanecer-se após a queda de Jerusalém nas mãos do infiel, em 1291, e desaparece com a queda em desgraça dos templários, em 1307-1314. E permanece desaparecido mais um ou dois séculos, até 1470, em que reaparece nos romances do rei Arthur. Reaparece e continua de tal maneira que até os altos dignitários nazis acreditam nele e o procuram.
O romance de Parsifal, ou o Conde do Graal, é da autoria de Chrétien de Troyes. Aparece em 1188. E de Parsifal se diz que é o filho da dama viúva, designação que fora também dada a Jesus – e designação dada, séculos passados, aos maçons, não esquecer, os Filhos da Viúva… que isto anda tudo ligado, já se sabe…
Aparece depois o mais famoso de todos os romances do Graal, o do cavaleiro trovador bávaro Wolfram von Eschenbach.


Descendente de Jesus, compreende-se melhor a acção de Godofredo ao partir para Jerusalém. Godofredo ia a Jerusalém reclamar in loco o que lhe era devido como herança.
Era Bertrand de Blanchefort Grão Mestre do Templo quando um contingente de mineiros alemães a trabalhar no maior secretismo, escondeu qualquer coisa no subsolo dos arredores de Rennes-Le-Château. Pensou-se que poderia ter sido o próprio corpo de Jesus, mumificado. Mas outros viraram-se para a probabilidade de terem sido uns quantos cofres com papiros que certificavam o casamento de Jesus com Maria Madalena, o nascimento de filhos e outros dados relativos à família e à sua vida, digamos, civil. E seria isto o Graal.
São – serão, que isto também não deixa de ser matéria de fé - os chamados Documentos Sangreal que contam a história verdadeira de um vencido, Jesus Cristo. Um vencido da História oficial quanto à verdade dos feitos, mas um vencedor, afinal de contas, um vencedor espiritual e cultural por dúbias razões, vencedor por aquilo que não foi: filho dilecto de Deus.
Haverá nos quatro grandes caixotes de documentos, cartas e memórias anteriores mesmo a Constantino, testemunhos directos de companheiros do próprio Cristo, porém sem a menor alusão à sua divindade, profeta, visionário, sim, mas humano, como outros antes e depois dele.
Os quatro caixotes podem mesmo conter certo documento cheio de ensinamentos escrito pelo punho do próprio Jesus.E também um diário pessoal – ou projecto de evangelho - de M. Madalena.
São esses documentos que, admissivelmente, os primeiros Templários acharam sob as ruínas do Templo de Salomão e que os tornaram tão poderosos, fazendo Roma dobrar-se à sua vontade ?


Por qualquer razão ignorada, o que quer que fosse pode ter sido transferido para a fortaleza-mor dos cátaros, o castelo de Montségur. E pode ter sido essa a causa motivante da cruzada sangrenta contra os cátaros e o subsequente cerco de Montségur.
Acreditou-se que seriam os cátaros os detentores do Graal. Um Graal entendido como a taça que recolheu o sangue de Cristo. Absurdo. Os cátaros não davam importância transcendente e divina à figura de Cristo, nem tão pouco acreditavam piamente na crucificação. Para que queriam eles o objecto sagrado, o cálice que recebeu um sangue que nunca  existira?
Mas os escritores cátaros, Chrétien de Troyes e Wolfram von Eschenbach continuavam a tecer as suas histórias em volta do Graal, declarando até que o verdadeiro castelo do Graal se situava nos Pirinéus, na zona de Montségur.
Ou seria o Graal tão somente uma informação?
Seria o Graal uma informação tão importante ao ponto de ter assanhado Roma contra os albigenses da maneira que assanhou?



Seria o Graal a tal prova irrefutável da não-crucificação e da não-divindade de Jesus Cristo, perigosa, obviamente, perigosíssima, para a Igreja de Roma ainda nos séculos XII e XIII?


Consta que Richard Wagner foi a Rennes-Le-Château antes de começar a compor Parsifal – não vejo a necessidade que teria disso em termos de composição da ópera, mas enfim. E também consta – e é verdade - que já desde 1934, com Otto Rahn (o verdadeiro Indiana Jones, disseram), e mais intensamente entre 1940 e 1945, os exécitos nazis seguiram na peugada de Wagner e fizeram escavações na região.

                     


Wagner. O Parsifal. Numa das suas leituras possíveis, pode entender-se o Parsifal como um tributo a Maria Madalena, e é a personagem Kundry, sem dúvida a mais complexa figura de mulher de todo o mundo da ópera, que encarna de Maria Madalena todo o poder de uma histórica ambiguidade: mulher sobre todas as mulheres, mulher múltipla, guardadora de segredos, sapiente de linhagens – a de Parsifal, esse filho da viúva; a de Cristo, outro que tal - , repositório de memórias proibidas; ou, por outra parte, sedutora, pecadora, prostituta e corruptora a soldo de Klingsor, como o papado a queria, como a tradição a consagrou. Pela concepção da personagem de Kundry poderemos compreender o quanto Wagner estava do lado de dentro do segredo ao fazer de Kundry-Maria Madalena um segredo em si mesma.


Uma rosa de cinco pétalas: símbolo que a velha irmandade de Sião criara para se referir ao Graal. A rosa.
A rosa de cinco pétalas poderia simbolizar ainda a própria Maria Madalena, e já que a igreja lhe proibia a menção ao nome. Daí chamarem-se esotéricas a estas coisas: um siginificado literal e um significado oculto para um objecto, uma pessoa; objecto e pessoa que significam, mas ocultam; criam novas verdades sobre as existentes e designadas, mas, sendo segundas, são tão puras com as verdades primaciais de que derivam.

Mas Maria Madalena teve vários nomes secretos. Cálice, e Graal, designadamente. E Rosa. Rosa com percursos semânticos e esotéricos a passar pelo pentáculo de Vénus, pela rosa dos ventos, pela bússola que nos indica o caminho de vida; e anagrama, ainda, de Eros, o deus do amor sexual – presente na tal personagem wagneriana de Kundry, também...


Maria Madalena chega então à Gália, ao sul de França, e refugia-se entre as comunidades judaicas aí existentes. E como os guardadores judeus de Maria Madalena sabiam que guardavam as linhagens de David e de Salomão, Maria Madalena foi respeitada como uma raínha de pleno direito e foi então elaborada uma árvore genealógica – na verdade, toda  a genealogia do próprio Jesus Cristo. Essa genealogia é a peça fundamental do chamado Sangue Real, Sangreal, ou, abreviadamente, Graal.
Mas tal genealogia provará alguma coisa só por si? Quem tem autoridade para lhe confirmar a autenticidade? Pois, precisamente a mesma autoridade de quem atesta a autenticidade dos livros da Bíblia.


Já o dizia Napoleão: a História?, o que é a História senão uma fábula em relação à qual todos estão de acordo.


A intenção primeira das cruzadas terá sido justamente a de destruír informações explosivas e evitar o caos na cristandade se elas fossem reveladas?
Maria Madalena seria a prova de que a nóvel igreja, banhada de um falso halo sagrado, não passava de uma instituição criada para comemorar a vida e a morte de um simples mortal.
Maria Madalena teria de ser difamada pela História. O papado encarregar-se-ia disso logo desde os seus primórdios. Chamar-lhe-ia meretriz. Ocultaria provas do casamento dela com Jesus, chamado o Cristo, desmobilizando a acção dos que mantinham que Jesus teria deixado descendência e era um mortal. Esse dossier era coisa de vida ou de morte para a igreja de Roma.
Terá sido a Virgem Maria o equivalente cristão da deusa-mãe? Parece que não.
Será a Notre Dame, em nome de quem foram erigidas em França tantas igrejas, a Virgem Maria? Também parece que não é certo. Mas dizer que essa Notre Dame é Maria Madalena é heresia das mais grossas. A tradição encenada no terceiro século da era Cristã faz de Maria Madalena uma prostituta, arrependida, está bem, mas prostituta, nunca a mãe   -  porque nesse caso seriamos todos filhos dela, da prostituta, e eu conheço alguns, é verdade, mas acredito que ainda se arranje por aí quem não o seja, mesmo assim.
Maria Madalena só seria deusa-mãe se tivesse trazido no ventre a descendência transcendente do próprio Cristo. Mas a contradição é flagrante: se se diz, e alguns podem provar, que Cristo não passava de um homem, onde está a transcendência da linhagem desse Cristo?
Graal, em certo sentido, e em termos espirituais, foi designação de uma experiência pessoal, de uma  iniciação, sinónimo de uma transformação, alteração de um estado de consciência, instante místico de conhecimento, gnose,iluminação, em suma, comunhão com Deus, o Graal imaterial, impalpável, inconcreto, subjectivo, individual.
Mas ocorre dizer que uma das primeiras designações do que hoje é conhecido como o Graal, foi Sangraal. E depois Sangreal. E ainda aparece San Graal, Santo Graal. Até Sang Réal, sangue real. Não havia originariamente nenhum cheiro de santidade no nome. O San era de sangue e não de santo. O Graal era uma designação de realeza.
Sangreal, Sang Réal, Graal, sangue real: nenhuma outra coisa mais do que o sangue dos reis perdidos da linhagem merovíngia, a prova da sua existência e da sua descendência.



O Graal. Somente quatro enormes caixotes de papelada, e tão enormes que só seis daqueles matulões medievais e templários tinham força para mover?
Os investigadores da especialidade continuavam incansáveis a examinar os escritos de Da Vinci à cata de umas dicas codificadas, uns símbolos, uma criptografia que os levasse ao esconderijo. Um quadro. A Madonna dos Rochedos. Podia estar ali a chave do enigma. A paisagem de fundo era parecida com uma acidentada paisagem da Escócia, crivada de grutas. Ou não. A chave estava na Última Ceia. A Ùltima Ceia não seria outra coisa, não teria outro fim senão funcionar como código de localização do Graal. Ou não. Talvez fosse mesmo na Mona Lisa que estava o código, era preciso investigar as sucessivas camadas de tinta - porque é que hoje estão a abrir a tumba de família da que foi (terá sido)o modelo de Mona Lisa, porquê?
Uma taça, uma pedra, um livro, uma energia desconhecida, um caixote de documentos, enfim, um objecto, um estado de espírito, tudo tem podido ser o Graal no curso da lenda dos séculos. Nunca ninguém do vulgo se lembrou de que o Graal, o Santo Graal, pudesse ser uma pessoa. Quem? Uma mulher, ainda por cima…
O Graal pode ser um símbolo arcaico de femininilidade, o sagrado feminino, a deusa, um dos valores morais e civilizacionais eliminados pela Igreja de Roma.
No pensamento antigo, a mulher era uma instância de poder sagrado, exactamente pela sua missão de criar vida. Mas Constantino e os bispos da nova igreja pretendiam uma igreja de valores masculinos. Era preciso inventar uma nova fórmula. Tocava ao homem e não a Deus essa invenção.


Eva oferece da maçã a Adão, Adão morde-a e com essa dentada nem sabe no que se vai meter e no que nos vai meter a nós. A adãnica dentada é a queda da raça humana. Pronto. Estava feito.
A mulher e a sua mística hora de parto já não eram as criadoras da vida. O Criador passava a ser invocado no masculino. O Criador. E mais, Eva, aparecia nesta vida extraída de uma costela de Adão, a mulher era um sucedâneo do homem. E ainda por cima pecaminoso.
E se havia coisa com que os cátaros embirravam solenemente era com a fé. É verdade. Repudiavam a fé e, evidentemente, a Igreja de Roma e mais toda a sua hierarquia. À fé preferiam eles o conhecimento e a experiência pessoal do sagrado, a que chamavam gnose, gnose que se sobrepunha aos dogmas e aos credos, fossem eles quais fossem. O contacto com Deus era experiência individual e dispensava intermediações e hierarquias, padres, bispos e papas.
Os cátaros e a sua heresia dualista eram um bicho de sete cabeças para Roma. E até porque também eles afirmavam que Jesus tinha morrido como um vulgar homem. E até porque lhes era impossível conceber que Jesus, Deus-espírito encarnado, pudesse ter participação na matéria vil. Jesus-Deus era espírito puro, impossível de crucificar.
E ainda por cima os cátaros tinham de seu, eram ricos.
A cruzada empreendida por Roma contra os cátaros foi um dos maiores crimes culturais do catolicismo e uma das maiores chacinas da História do Ocidente cristão.


Mas na cruzada de Roma contra os cátaros qual terá sido o papel dos Templários?
Pois, ao que dizem, os Templarios mantiveram-se na neutralidade. Limitaram-se a testemunhar. E explicaram porquê.
Porquê? Por entenderem que cruzada só havia uma, contra os sarracenos e mais nenhuma. E muitos cátaros acossados se acolheram em instalações templárias.
A Rosa? Nem sempre foi Greenwich o meridiano principal e a longitude zero. Antes de Greenwich foi Paris e a longitude zero atravessava a igreja de Saint Sulpice. Um filamento de metal dourado vara em diagonal o chão da igreja, sobrecarregada de nexos místicos e esotéricos. Chamaram a esse filamento de metal a Linha da Rosa.

 
       

A rosa é capaz de ser o símbolo crucial do esoterismo, o código cimeiro de todos os códigos e de toda a iniciática. A rosa náutica dos mapas guiou os mareantes, disse-lhes as 32 direcções dos ventos.  Mas as linhas da rosa não têm fim, não se podem contar, cada linha imaginária que tracemos de polo a polo é uma linha da rosa, sendo porém a linha mestra da rosa aquela que indica a longitude zero e da qual partem todas as medidas e proporções da Terra. E até 1888 passou pela igreja de Saint Sulpice a primeira de todas as longitudes.


Proibida a menção ao nome de Maria Madalena, os conhecedores da verdadeira história, os iniciados, portanto, viram-se obrigados a recorrer a códigos e a símbolos sempre que se lhe queriam referir. E não há melhor campo para isso do que o recurso às artes. A Última Ceia, de Leonardo, é o paradigma perfeito da transmissão oculta e simbólica de um segredo.

Mas quem seria exactamente para os iniciados antigos a Nossa Senhora? Maria, a virgem-mãe, ou Maria Madalena? Notre Dame de Paris é uma catedral erigida em honra e louvor de que Maria, de que notre dame?, a virgem-mãe do filho do carpinteiro José, ou Maria Madalena, esposa carnal de Jesus Cristo, portadora do Graal, ou sendo ela própria o Santo Graal?


terça-feira, 6 de agosto de 2013

                    OS REIS PERDIDOS


O exílio da tribu judaica de Benjamin tê-los-à levado ao Peloponeso Central, à Arcádia, onde misturaram o sangue com a linhagem real. Depois andaram pelo Danúbio e subiram o Reno, ligando-se aos Sicambros, gerando os merovíngios. Significa isso, sensacionalmente, que uma das mais antigas linhagens da Europa, os merovíngios, a Casa de Lorena, descende de judeus. Até o escritor Roger Peyrefitte afirmou que toda a nobreza europeia tem ascendência judaica


Quando os Hunos vêm por aí abaixo, as tribus europeias acossadas procuram rumo. Os Sicambros (ancestrais dos merovíngios), cruzam o Reno, entram na Gália e fixam-se nas Ardenas, no norte de França e na Bélgica. E chamam-lhe o reino da Austrásia. Reino da Austrásia que é hoje a Lorena.


Secretamente, a linhagem de Jesus ter-se-ia desenvolvido em França, e, no século V, pelo casamento, ter-se-ia mesclado com o sangue real francês, originando uma dinastia célebre e misteriosa, os merovíngios.
Os primeiros merovíngios provém dos tais Sicambros, uns germânicos que se celebrizaram sob a a denominação de Francos. Século V e século VII: ei-los que reinam sobre grandes extensões de território do que hoje são a França e a Alemanha. Estamos justamente no período arturiano e dos romances do Graal, a alta Idade Média, ou a Idade das Trevas, um período historicamente confuso, praticamente indocumentado e inextrincável.


Idade das trevas porque a igreja de Roma a obscureceu,  e lhe monopolizou a informação?
Não sei. Mas diga-se que todo o conhecimento, toda a informação, toda a cultura, toda a arte eram açambarcadas pela Igreja e, naturalmente, comandadas de Roma. Ninguém sabia ler nem escrever, a não ser os monges, os homens da Igreja. E o que resta escrito dessa época, como é sabido, regista os factos ao sabor dos interesses dos vencedores, que eram, na circunstância, os homens da hierarquia católica.
Para a assunção do poder merovíngio haverá a destacar uma circunstância no tempo inédita: não houve deposições de monarcas anteriores, não houve usurpação de tronos, nem guerras nem mortos nem feridos. Os merovíngios reinaram sobre o povo franco como que desde sempre, desde sempre legítimos, desde sempre reconhecidos e respeitados.
Mas de onde lhes vinha o nome, merovíngios?
Derivava de Mérovée (ou Meroveus), um ser semi-sobrenatural, lendário, uma conjugação semântica e sonora que aglutina os substantivos franco-latinos que designam mãe  e mar. Mérovée terá nascido então de dois pais. Como é isto arranjado? Não esquecer que estamos no domínio da lenda. A mãe de Mérovée já estava grávida do rei Clódio. Mas o tempo estava bom e apeteceu-lhe ir dar umas cacholadas ao mar. Ora, nem de propósito… já nesse tempo havia muita malandragem, e enquanto ela apurava  o seu estilo no crawl, não é que foi seduzida e logo violada por uma estranha criatura marinha… não, não estou a falar de nem de marinheiro nem de cabo do mar nem sequer de nadador-salvador… falo de uma criatura chamada bestea Neptuni Quinotauri similis, animal de Neptuno parecido com um Quinotauro.



Proíbo-vos de me perguntarem o que é um quinotauro…
Mas o malandro do quinotauro não é que fecundou a senhora uma segunda vez!
Quando o filho, Mérovée, nasceu, houve nele mistura de sangues diferentes, de um rei franco e de um animal aquático. Por acaso sei de uma vizinha minha que uma vez ali no Meco…  bem, não interessa…


O duplo sangue deu a Mérovée uma data de poderes sobrenaturais. Essa é que é essa. Magia. Poderes ocultos. Conhecimentos imemoriais. Artes de berliques e berloques. Milagres. Enfim, tudo isto ficava registado na folha dos merovíngios. Curavam pela simples imposição das mãos. As franjas dos seus vestidos tinham também poderes curativos. Comunicavam à distância, inclusivé com animais. Olha, um tio meu… não interessa…
E todos nasceriam com uma marca no corpo. Uma cruz vermelha. Ou sobre o coração, ou entre as omoplatas. Também conheço uma senhora já de idade…
Diziam descender de Noé. E os maçons europeus, por acaso, retomam muitos séculos mais tarde a ideia.


Afirmavam os merovíngios proceder da Troia antiga e mítica – o que explicaria os nomes de certas cidades francesas como Troyes e Paris.
Relacionaram-se com a casa real de Arcádia. Houve arcadianos no cerco de Tróia, aliás fundada por emigrantes da Arcádia.


Símbolo sacratíssimo entre todos para os merovíngios era a abelha – daí, se calhar, o conhecido dito está bem, abelha. É verdade, ao exumarem o túmulo de Childerico I os arqueólogos acharam enterradas com ele 300 abelhas de ouro maciço. Estava bem… abelha. E, tem graça… em 1804, Napoleão é coroado imperador. No acto da coroação ostenta, pregadas às vestes, uma quantidade de abelhas de ouro.



Por falar em Napoleão, diga-se que Napoleão estava atento à dinastia merovíngia, tanto assim que (está bem, abelha…) Napoleão teve o cuidado de mandar compilar genealogias a fim de saber se a linhagem havia ou não sobrevivido à queda da dinastia. É a essas genealogias que os homens-sombra do… alegado… Priorado de Sião recorrem para as fundamentações dos seus documentos secretos.

Os merovingios eram os reis de cabelos longos. Como o grande juíz Sansão do Velho Testamento. Os merovíngios reinantes não cortavam os cabelos porque no cabelo estava o segredo dos seus poderes e prerrogativas, e por isso um rei merovíngio quando visitou Roma fez furor, foi capa de revista, e todos olhavam com estranheza para aquele homenzarrão esquisito de longos cabelos amarelos. Mas em 754, Childerico III, último rei merovíngio foi deposto e feito prisioneiro, e como suprema humilhação o papa ordenou que lhe rapassem o cabelo.
           

Os merovíngios não eram exactamente reis na acepção corrente do conceito. Eram sacerdotes-reis de funções semelhantes aos faraós. E não reinavam pela graça de Deus coisíssima nenhuma, eles mesmos eram uma emanação da graça de Deus. Não eram deuses, eram Deus, eram expressões e encarnações de Deus mesmo, num estatuto só comparável a Jesus. E caveiras dos reis merovíngios descobertas por arqueólogos apresentavam incisões, grandes buracos no alto do crâneo, o que remete para abrutalhados actos rituais praticados por eles. De maneira que, digo eu, quando a dinastia merovíngia for restaurada – como se diz que é seu desígnio - já sabemos o tratamento que nos espera…
A alma, para escapar à morte do corpo, tem que ser libertada por algum lado e assim entrar em contacto com o divino espírito. Crê-se que a tonsura dos padres, a coroa, é uma reminiscência deste ritual – muito atenuada, claro. Um ritual também por sinal detectável nas altas hierarquias do budismo tibetano.
(Isto anda tudo ligado.)
Os reis merovíngios não eram coroados no sentido que temos hoje da palavra, ou da cerimónia. Não havia cerimónias nem formalidades entre eles. Era como se nascessem já reis. Logo que o sucessor na linha directa completasse 12 anos era rei e estava o caso arrumado. Era a mais pura concepção do direito divino que se podia arranjar, indisfarçável, indiscutível.


Mas os merovíngios não governavam. Eram percursores do estatuto da raínha de Inglaterra. Os merovíngios eram. Isso bastava. Eram. Nada tinham que fazer. Tinham apenas que ser. E apenas reinavam. Eram. Apenas executavam os actos próprios do seu conceito de rei: os rituais mágicos. Quem governava eram outros, os chamados prefeitos do palácio, espécie de chanceleres, os que sujavam as mãos nos negócios práticos do reino. Eram modernos nos séculos V e VII estes merovíngios.
Talvez não seja um completo disparate assinalar a relação estreita que no plano literário, como talvez no plano da mística, possa haver entre os merovíngios, o essencial valor espiritual e heráldico por detrás das cruzadas, o Graal e a saga épica e germânica dos Nibelungos. E isto cheira logo a Wagner, não é? Quereria isto dizer que Richard Wagner em quase toda a sua colossal obra – e carreira, e vida – não se preocupou com outra coisa, não se interessou por outro tema que não fosse a correlação merovíngios-Templários-Graal-Nibelungos-Alemanha do fim do século? Não sei. Wagner podia ser um dos do Segredo, ou pelo menos muito próximo disso. E os nibelungos não são uma invenção mítica. Os nibelungos eram uma tribu de germanos que existiu curiosamente na fase final da dinastia merovíngia. E nomes merovíngios registados há-os, Siegmund, Siegfried, Kriemhild, Siegelinde, Brünhilde.
Isto anda tudo ligado!


Clóvis foi o mais célebre dos monarcas merovíngios. Foi rei entre 481 e 511. E nessa altura é que os Francos se convertem ao cristianismo tal como era estipulado por Roma. 
Em 384 o bispo de Roma começava a sentir faltar-lhe o chão debaixo dos pés, mas, talvez mesmo por isso, começava também a auto-intitular-se papa. Até aí tinha sido somente o bispo de Roma. Não lhe cabia a liderança global da cristandade, bispo de Roma e acabou-se. Até porque o cristianismo conhecia cismas atrás de cismas e dividia-se em muitas ideias, conhecia imensos desvios ao que Roma pretendia fosse uma ortodoxia unificada e universal. Um dos grandes inimigos da visão romana do cristianismo era, por exemplo, a igreja celta. E campeava o arianismo.
E, entre outras coisas, o arianismo negava liminarmente a divindade de Jesus Cristo. E mais: tomara conta de todos os bispados da Europa ocidental. A visão de Roma e a sua ortodoxia estavam por isso em perigo.
Clóvis é o homem providencial para Roma. Roma vê nele a única hipótese de salvação e vencimento para as suas teses. Mas era preciso convertê-lo ao cristianismo romano. Clotilde, a mulher – não confundir com a sua cunhada - iria encarregar-se da tarefa de converter o rei Clóvis. E tanto andou, tanto andou, tanto serrazinou a paciência ao marido que conseguiu – viria por isso, mais tarde, a ser canonizada.


Clóvis torna-se o primeiro rei católico dos Francos – aí está porque a Igreja de França foi chamada a filha mais velha da Igreja católica.
Clóvis celebrou um acordo com Roma. Roma passaria a ter à mão e a seu serviço um reino de verdade, um domínio material e concreto para pôr e dispor e já não só o imponderável reino dos céus.



A Igreja de Roma garantia a sobrevivência temporal, aliada a um poderoso rei e num contexto europeu de heresias que ameaçava à séria a sua hegemonia teológica. A contrapartida de Clóvis era ser chamado de Novis Constantinus. O império sobre o qual estenderia a sua jurisdição estaria unificado, seria mais forte: um Sacro Império Romano a suceder àquele império que Vândalos e Visigodos haviam pouco antes feito em fanicos. O império seria para Clóvis a herança da estirpe dos merovíngios, e Clóvis, imperador dos germanos ocidentais, seria o rei de todos os reis. Estava consagrada a aliança entre a Igreja e o Estado e cada uma das partes  jurava fidelidade à outra.


Clóvis é baptizado em Reims por S. Remígio.
Mitis depone colla, Sicamber, adora quod incendisti, incendi quod adorasti.
Isto é bonito! São as palavras de S. Remígio no acto de baptismo de Clóvis. Curva humildemente a tua cabeça, Sicambro de uma cana, adora o que queimaste e queima o que adoraste.
A Igreja de Roma, atenção, não fez de Clóvis um rei. Limitou-se a baptizá-lo, por assim dizer, ao modo cristão. Rei ele já o era. E era porque sim. E a ele e à sua descendência a Igreja de Roma se sujeitava. Tratava-se de um pacto que poderia ser aperfeiçoado ou modificado, mas nunca traído. E os merovíngios nunca minimizariam este ponto.
A espada de Clóvis passa a fazer estrago entre aqueles que de bom grado não se dobraram à fé de Roma. Os Francos, à pala disso, foram-se expandindo França fora, Alemanha fora. E contra eles marchavam os Visigodos arianos. Que foram batidos no ano de 507. Aquitânia e Toulouse passavam igualmente para mãos francas. Os Visigodos acantonavam-se em Carcassonne, mas eram varridos de Carcassonne por Clóvis, até se estabelecerem em… em… Razés, hoje Rennes-Le-Château.
A Dagoberto II tocou em herança do pai o reino da Austrásia. Não há é paciência para contar as vicisitudes do reinado de Dagoberto. Mas pode dizer-se que Dagoberto absorvera dos visigodos as tendências arianas. Acusavam-no então de desprezar as igrejas de Deus e de lançar impostos. Roma andava-lhe a fazer a folha, está-se mesmo a ver…


Um dos inimigos de Dagoberto era o perfeito do palácio, o verdadeiro governante, por assim dizer o 1º ministro, chamado Pepino, o Breve (ou o Gordo, não sei). Um belo dia, Dagoberto foi à caça. A certa altura apeteceu-lhe bater uma sorna à beira de um riacho. Ferrou-se no sono e enquanto ele se ferrava no sono, um afilhado seu, nada meigo agente do breve e/ou gordo Pepino, ferrou-lhe por sua vez uma lança num olho que não foi brinquedo, e por forma a que a ponta lhe saísse pelo alto da cabeça. E acabava-se com a raça dos merovíngios enquanto o diabo vazava um olho. Foi por alturas do Natal, no dia 23 de Dezembro de 679.
              
                                  

Pepino, o Breve, estaria a soldo de Roma.O pacto entre Roma e os merovíngios era quebrado pela Igreja. E seguiu-se a perseguição à família de Dagoberto. O poder real teria de ir parar às mãos dos pragmáticos  prefeitos do palácio. Impunha-se a fundação de uma nova dinastia franca, a dos carolíngios.
A questão é posta a Roma nos seguintes termos: Quem deve ser rei? Aquele que detém de facto o poder, ou aquele que, chamado embora de rei, não tem poder algum? A piada ia direitinha para os merovíngios que não sujavam as mãos nas caldeiradas da governação. E os futuros carolíngios eram uns práticos, em contraste com os misticismos e espiritualidades mágicas dos merovíngios.
Claro que o papa esteve de acordo com o carolíngio: deve reinar que tem de facto o poder. E assim, Childerico, rei merovíngio, foi deposto por Pepino, o prefeito do palácio, e imediatamente sujeito aos barbeiros do Vaticano, que a primeira coisa que lhe fizeram foi raparem-lhe o longo e sagrado cabelo amarelo.
Morto e tosquiado Childerico III, os merovíngios desaparecem virtualmente da História.
Mas a linhagem sobrevive.


E sobrevive com o infante Segisberto IV, filho de Dagoberto. Segisberto, ao qual nunca se percebe bem o que aconteceu, mas que deve ter sido posto a salvo da sanha assassina dos usurpadores carolíngios e dos sicários da Igreja de Roma. Como acerca de tantas outras matérias vitais para a civilização ocidental, não há documentações oficiais nem quanto à morte de Segisberto nem quanto à vida. Os jornais continuam sem falar do caso, ninguém ligou meia ao problema.
Ninguém… é como quem diz…
O tal Priorado de Sião – que hoje alguns respeitavelmente dizem nunca ter existido senão depois de 1957, mas que, para este efeito, eu vou partir do princípio que existiu e bem - estava atento, embora, de facto, ainda não existisse na época dos merovíngios.
Entretanto, a historiografia oficial de França elimina Dagoberto do rol dos seus reis. Até 1646, o rei merovíngio Dagoberto II nunca existira. Na lista dos reis francos passara-se de Dagoberto I para Dagoberto III. Logo, as omissões quanto à vida de seu filho Segisberto são compreensíveis.
Mas quem pode acreditar incondicionalmente na História oficial seja do que for e de quem for? Quem poderá hoje ser um fanático quanto à ocorrência ou não de certos acontecimentos, ou quanto à existência real ou não de certas pessoas?


Resulta entretanto evidente a razão do apagamento do rei Dagoberto II da História de França por tão longo período. Se Dagoberto não existira de facto, o seu filho Segisberto também nunca tivera existência real. A equipa de falsificadores da História francesa até 1655 sabia o que estava a fazer e porque o estava a fazer. Era de capital importância negar a existência de Segisberto. 

               

Se Segisberto tivesse sobrevivido, os merovíngios e a sua linhagem, fiéis ao pacto de Clóvis, poderiam reclamar direitos, continuariam a ser uma ameaça moral e jurídica às casas reinantes. E eram. E, segundo alguns, continuariam a ser. Por causa de documentos que provavam uma genealogia; por causa de uma linhagem ainda viva de reis perdidos e secretos. É essa a raison d’être do Priorado de Sião no decorrer da História. Foi por essa causa que se escreveu, em última análise, o Código da Vinci.


Mas Segisberto fora salvo. Pelo irmão. E mandado para as terras da princesa visigótica Giselle de Razés, sua mãe. Chegou ao Languedoc em 681 e adoptou o apelido Plantard – o rebento ardente – da linha merovíngia de sucessão.


E a quem é que interessa nos dias de hoje falar destes a quem chamaram os reis perdidos? Absolutamente a ninguém. Nada disto hoje interessa a ninguém…
Nada, isto é… a não ser apenas uma das histórias morais (de inquestionável sabor wagneriano) sobre a estranha moral que tantas vezes se contém na História, na História do Homem e na sua vida. Nem sempre toda a verdade nem toda a mentira da petite histoire interessa à grande História contar.


Pelo assassínio enigmático do rei Dagoberto II, a linhagem merovíngia estava à beira da extinção, não tivesse um filho de Dagoberto conseguido fugir e refugiar-se no estrangeiro. Dessa linhagem, salva no último momento, virá a descender Godffroy de Bouillon, ou Godofredo de Bulhão – se o quiserem mais à moda do Porto -, em suma, o fundador da… provável… Ordem de Sião.


Geoffroy de Bouillon cria a Ordem dos Cavaleiros Templários com o objectivo de recuperar documentos (Sangreal-Graal) escondidos nas ruinas do Monte de Sião em Jerusalém, de forma a poder provar as ligações entre a sua casa, os merovíngios, e a linhagem de Jesus Cristo, reclamando-se legitimamente do direito ao trono dos judeus. Sim, porque, apesar das reprimendas de Roma, os merovíngios não foram de forma nenhuma anti-semitas. Houve casamentos entre merovíngios e judeus. A questão dos cabelos compridos nos merovíngios era uma reminiscência da sua ancestralidade nazorita. Jesus há quem diga que também era um nazorita, e se não o era parece que o foi sem dúvida alguma o irmão, Tiago. E na casa real merovíngia abundavam os nomes hebraicos, Sansão, Salomão, Eleazar, Lázaro…


E não sei se se lembram que em 1070, muitos anos antes da primeira Cruzada à Terra Santa, um grupo de monges vindos da Calábria, chegou às Ardenas e entrou nos domínios de Godofredo de Bulhão. Quem os chefiava era um monge chamado Ursus e entre eles estava Pedro, o Eremita, que havia de se celebrizar por ter sido, em 1095, ao lado do papa Urbano II, o primeiro a pregar a necessidade de uma cruzada à Terra Santa onde a sepultura de Jesus Cristo estava em mãos muçulmanas infieis.
Mas, em 1070, chegados às Ardenas, logo os monges passaram a beneficiar da protecção de Matilde de Toscana, duquesa de Lorena, por sinal tia de Godofredo de Bulhão. A senhora duquesa ofereceu aos monges um terreno num lugar chamado Orval, perto de Stenay, justamente o sítio onde o último rei merovíngio, Dagoberto II, tinha sido assassinado.


Pouco antes de 1108, porém, os monges calabreses já tinham desaparecido misteriosamente daquela terra e sem se saber para onde se dirigiram.
Quando os monges misteriosos desaparecem pela calada da noite da Abadia de Orval, podem, ao contrário do que se pensou, não ter regressado à sua terra natal da Calábria, podem ter dado logo corda às sandálias a caminho de Jerusalém, a caminho da Abadia de Notre Dame du Mont de Sion. Mas ninguém pode afirmar tal coisa com certeza.
Pode ser que um dia destes…


E quem teve a triste ideia de me ler até aqui vai com sorte de eu o poupar a mais extenso relambório de raínhas, princesas e abadessas desta estirpe perdida… Monegunda, Rusticula, Glodesinda, Sadalberga, Eustadiola, Austreberta, Burgundufara…