segunda-feira, 19 de agosto de 2013

          
        O BRITÂNICO PRÍNCIPE ÁRABE     
       QUE NÃO CHEGOU A NASCER

E quem me havia de dizer a mim que o caso da princesa Diana de Gales tornaria a ser falado e que novas suspeitas se levantariam envolvendo instituições britânicas de tanto e tão inquestionável prestígio como o exército de Sua Majestade?
        Foi isso que me fez recuar no tempo e desencantar um texto radiofónico que tanto quanto me lembro exsudou de umas leituras minhas de época.


Num desses livros se dizia que em meados de Agosto de 1997, a princesa Diana de Gales e o seu mais recente namorado Dodi Al Fayed eram esperados no Ritz de Paris vindos da Sardenha. Estava reservada para eles, no Ritz, a (que deve ser magnífica) suite imperial. Ritz de Paris que, convirá lembrar, era (não sei se ainda é) propriedade de Mohamed Al Fayed, pai de Dodi, namorado de Diana.
Henri Paul, funcionário do hotel e motorista dos hóspedes VIP, é encarregado pelo patrão de providenciar a segurança do casal e com a específica incumbência de manter bem afastados os paparazzi. O que constituiria um problema para esta personagem, uma vez que (alegava-se) recebia somas nada desprezíveis dos mesmos paparazzi em troca de informações sobre os vips que se hospedassem no hotel.
Henri Paul, ao que posteriormente terá sido apurado (verdade?, mentira?), manteria contactos com serviços de informações, dada a sua privilegiada posição no hotel. Paul poderia facilmente escutar conversas e transmiti-las, aceder a ficheiros de hóspedes, saber de entradas e de saídas, interceptar telefonemas, instalar aparelhos de escuta.
Será que o fazia? Ninguém hoje pode afirmá-lo. Mas depois de tudo o que se passou, já se vê, a sua vida foi espiolhada até à última.


Henri Paul, vamos lá, bebia o seu copito. Era emocionalmente instável. Gostava de guiar carros rápidos. Tinha uma moto a meias com outro. Era solteiro. Era ambicioso. Não ganhava para a ambição que tinha. Estava comprometido com os paparazzi. E negociava com eles quanto à conveniência de fotografar ou não certas celebridades em certas ocasiões, sabendo que assim traía a confiança que a direcção do hotel depositava nele.
Às 11.45 da noite de 29 de Agosto de 1997, um sábado, Henri Paul é chamado para levar a princesa e o namorado para fora do Ritz. Recebe directivas do próprio patrão (de quem é homem de confiança). Deveria guiar com o máximo cuidado. Tinha nas suas mãos a vida da mãe do futuro rei de Inglaterra.
E discute-se o trajecto a seguir. Os seguranças tem a última palavra. Lá fora, os paparazzi estão de atalaia.
Dois Range Rover saem a toda a pressa para despistar os paparazzi. O Mercedes da princesa vai sairía pelas trazeiras.
À meia noite e vinte do dia 30, os Range Rover saíram realmente Place Vendôme fora, logo seguidos pelos paparazzi.
À meia noite e vinte e dois um Fiat Uno, branco, passa ao alto da Rua Cambon, nas trazeiras do hotel.

O Mercedes  guiado por Henri Paul, com Diana, Dodi e o guarda-costas, arranca.
Dois minutos depois, o Fiat Uno passa o semáforo da Place Concorde, enquanto o Mercedes pára no mesmo semáforo.
À meia noite e vinte e quatro, o Mercedes  avança para o túnel da Place d’Alma. O Fiat Uno vai na sua frente.
À meia noite e vinte e cinco, o Mercedes, lançado a alta velocidade enfia pelo túnel.
Dez segundos volvidos ouve-se um som de trovão dentro do túnel. Henri Paul está morto. Dodi está morto. Diana está às portas da morte e o guarda-costas está em estado crítico.
O Fiat Uno metera entretanto por uma tansversal à Avenue Montaigne. Um camião de transporte de caixa fechada esperava-o. A rampa do camião descia. O Fiat Uno subia a rampa e desaparecia dentro do camião.


Em Fevereiro de 1998, Mohamed Al Fayed, pai do falecido Dodi, anuncia que não se tratara de acidente. E quer saber a verdade antes que essa verdade fique oculta para sempre.


Meses depois, um documentário televisivo falava das ligações de Henri Paul aos serviços secretos franceses. Há quem diga que essa tese é falsa. Mas o mesmo programa mantinha que serviços de informação internacionais estariam ligados ao desastre. Insinuava-se que a própria coroa britânica pudesse ter a ver com o caso, dadas as previsíveis implicações políticas associadas à relação amorosa entre Diana e Dodi.
O poderoso multimilionário Mohamed Al Fayed inicia a sua cruzada para o esclarecimento do caso. Não olha a meios. Não olha a despesas. Quer entrar em contacto pessoal com quem possa ter informações, ou provas, do envolvimento de terceiros na morte do filho. Envia uma carta aos membros do Parlamento inglês convidando-os a levantar a questão na Cãmara dos Comuns.
Sustentava então Al Fayed que estava em curso uma conspiração internacional para abafar o caso e esconder as provas de que não se tratara de um acidente mas sim de um homicídio. Os meios políticos entenderam que aquilo eram palavras de um pai desesperado pela perda do querido filho. 


Mas Al Fayed não deixava de teimar. Havia uma conspiração para eliminar Diana e Dodi. Montada por quem? Era o que o velho negociante egípcio queria saber. E continuava a fazer perguntas incómodas.
Depois do desastre (ou do atentado), porque é que o transporte da princesa para o hospital da Salpêtriere demorara uma hora e quarenta minutos?
Porque razão alguns dos fotógrafos não apresentaram todas as fotos que tiraram?
Porque é que todas as câmaras  de vídeo de circuito fechado dessa zona de Paris não gravaram absolutamente nada?
Porque estavam sem filme as câmaras de controlo de velocidade?
Porque é que as câmaras de tráfego estavam desligadas?
Porque é que o local do desastre foi reaberto à circulação tão rapidamente?
Quem era a pessoa disfarçada de fotógrafo que estava no exterior do Ritz?
Quem eram os dois homens que…
Al Fayed apontava o dedo ao MI5 e ao MI6, os serviços secretos britânicos, em associação com a secreta francesa. Mas apontava-lhes o dedo  porquê?
Não era difícil de conjecturar. Os mais altos níveis do poder britânico haviam decidido que a princesa real Diana de Gales, mãe do futuro rei, não podia casar com um muçulmano. Por uma questão de moral, já se vê, moral política e de Estado monárquico. Se Diana casasse com um muçulmano, caíria o Carmo e a Trindade, o príncipe William, futuro soberano, teria um árabe como padrasto e teria que chamar avô a outro árabe. Seria um princípio de fim para as tradicionais e sagradas instituições britânicas.
Al Fayed, sempre rodeado de guarda-costas (sentia-se ameaçado de morte), chamava à sua suite do 5º andar do Harrods (de que também era dono) quem quer que lhe pudesse fornecer informações, quem quer que tivesse relações com os serviços secretos do mundo inteiro, ingleses, franceses, a Mossad, a CIA. Trocaria a informação decisiva por um milhão de libras, livre de impostos.
Apurava-se que naquele derradeiro dia de vida de Dodi e Diana em Paris havia presenças obstinadas e duvidosas por todo o Ritz. Alguém espiava os mínimos gestos de Diana e Dodi. Quem? Aí estava o enigma que o velho egípcio queria deslindar.
Alguns dos mais espertos serviços de informação haviam detectado de facto nesses dias, em Paris, um desusado movimento de agentes secretos. Eventualmente pessoal do MI6, estacionados primeiro na sua embaixada, depois numa casa segura e por fim um ou dois deles registados no Ritz, evidentemente, sob falsas identidades.
Al Fayed chamava corja de assassinos aos serviços secretos de Sua Majestade. Desconfiava agora do homem em quem tinha confiado, Henri Paul. Afirmava a pés juntos que tanto a raínha como o príncipe Filipe não podiam admitir nem à lei da bala um Wog nos círculos de Buckingham. Wogwily oriental gentleman: esperto cavalheiro oriental. E sobretudo quando…
Oh… e sobretudo quando, na palavra do velho Al Fayed, Diana estaria grávida de oito semanas. Grávida de Dodi, um muçulmano.


E mais: segundo Al Fayed, no hospital parisiense da Salpêtriere, para onde a princesa foi levada, retiraram-lhe grande parte dos órgãos. Quando o corpo chegou a Londres era o corpo de uma múmia.
Al Fayed afirmava aos quatro ventos que Diana e Dodi haviam sido simplesmente assassinados por agentes britânicos com a ajuda de outros serviços e agências de informação.
O segurança e motorista Henri Paul? Bom, estaria sob a pressão de vários serviços secretos que o queriam recrutar. Mas era um negócio para ele espinhoso. O Ritz gabava-se da confidencialidade tradicional no tratamento dos seus hóspedes, e havia gente a querer pagar bom dinheiro a Henri Paul para ele violar essa confidencialidade. O homem não sabia para onde se virar. Tomava pastilhas para dormir e pastilhas para acordar. Bebia o seu copo. Andava a ser pressionado para uma actividade de alto risco…


Terá sido por isso que perdeu o controlo do Mercedes e se estampou, tudo não passando afinal de contas de um acidente?
Ou, a ter havido um atentado, não seria ele e não Diana ou Dodi o alvo desse atentado, e por razões obscuras?
Entretanto, alguém bem informado viria dizer que Henri Paul teria instalado aparelhos de escuta na suite imperial habitada por Diana e Dodi. Instalado para quem?
A apoiar a tese de atentado mantida por Al Fayed, aparece um ex-agente do MI6 inglês. Sabe algumas coisas proibidas, alguns segredos inconfessáveis. Sabe de alguns planos para assassinar individualidades. Sabe dos métodos secretos de eliminação de gente incómoda. Os acidentes em túneis, onde é mais forte a probabilidade de desastres fatais era um desses métodos.
E armas? Não. Nem pistolas, nem espingardas, nem facas, nem bombas. Só um feixe de raios laser criteriosamente colocado no trajecto de um automóvel e disparado sobre a cara do condutor a alta velocidade, de modo a encandeá-lo, a cegá-lo momentaneamente, a fazê-lo perder o controlo da viatura.

                                            
O problema para Al Fayed eram as provas para sustentar esta e outras teses.
Mas a coisa ia muito mais longe. O NSA, agência de segurança americana (recentemente tornada famosa pelas piores razões e na sequência de documentos fornecidos à imprensa britânica pelo ex-espião Snowden), possuía um dossier de 1050 páginas sobre o casal Diana/Dodi…


Al Fayed envia homens a Washington para obter cópias desses documentos. Em vão. Obviamente! Eram documentos adstritos à segurança nacional e altamente reservados.
Diana e Dodi andavam permanentemente vigiados por satélite. O ECHELON. Um sistema ultra-sensível e ultra-secreto de vigilância. As informações por ele colhidas poderiam ser partilhadas pelos serviços americanos com outros serviços secretos amigos, caso da Grã Bretanha.


Mas cabe na cabeça de alguém que uma insuspeita princesa que só dava que falar na fútil imprensa cor de rosa e no jet set andasse a ser vigiada tão intensamente por uma grande potência?
Cabe. E a resposta dá-se numa única palavra. Minas. Minas anti-pessoal. por explodir disseminadas em extintas zonas de guerra por todo o mundo. Angola era uma dessas zonas. A princesa foi lá. E lançou uma campanha mundial para a abolição dessas minas, e contou com apoios que se tornaram incómodos e mal vistos pelos senhores das guerras e pelos poderes institucionais. A indústria de minas dava lucros e dava empregos, milhões de lucro e milhares de empregos. E se ninguém ficava contente por saber de minas a explodir e a matar pessoas, mesmo sem haver guerra, também não era bom que centenas de tubarões do negócio das armas ficassem privados de lucros e milhares de trabalhadores fossem despedidos, só porque a uma princesa lhe dera para ali.
A CIA está em força em Paris naqueles dias de Julho/Agosto de 1997. Seguem Diana. Tomam conhecimento das invectivas que a princesa lança aos fabricantes de minas. Elaboram relatórios. Relatórios que integram as 1050 páginas de documentação que Al Fayed quer copiar e não o deixam.
O sistema de satélites ECHELON ouvia todas as conversas de Diana e de Dodi, mesmo as mais íntimas. Para ajudar à festa das minas, o ECHELON sabe do noivado de um nababo muçulmano com uma princesa real inglesa. Também esse facto pode desequilibrar a ordem estabelecida do mundo e da vida e as relações entre potências.


Para a coroa inglesa, aquele futuro príncipe árabe nunca deveria nascer. Todavia, da inconveniência da família real britânica quanto a provável futura presença de um muçulmano em Buckingham Palace, até ao planeamento minucioso de um assassinato ia uma enorme distância. Isto, é bom que se diga, em termos de senso comum. Al Fayed é que se estava nas tintas para o senso comum e devia saber que nos altos negócios políticos internacionais nem sempre o senso comum governa, e seguramente sabia da importância fulcral e inescapável dos serviços de espionagem no quadro das relações internacionais.


O ex-agente do MI 6 jurava a Al Fayed que os serviços britânicos estariam implicados no acidente do Pont d’Alma. Agentes desses serviços teriam estado em Paris dias antes e teriam recrutado Henri Paul como informador pago.
Mais declarava o ex-agente que Henri Paul fora realmente encandeado por um feixe de luz de grande intensidade, uma das técnicas favoritas do MI 6 para os golpes sujos.
Mas… e provas disso?


As autoridades continuavam a minimizar as convicções e insinuações do velho Al Fayed. Para as autoridades, a conspiração destinada a matar-lhe o filho e a princesa sua noiva continuava a não passar de uma obsessão de pai moralmente ferido.
Mas tinha a sua lógica, uma lógica moral, além de histórica, sim, essa conjectura do que seria a família real de Inglaterra a ter que levar com um muçulmano, nas suas reuniões e festas, e com todas as dignidades de alteza, e com lugar, julgo eu, embora remoto, na linha sucessória ao trono britânico.
E é claro que investigação séria, e publicável, nunca ninguém a faria. Se a fizesse, séria, nunca seria publicável; se fosse publicável, correria sempre o risco de não parecer suficientemente séria. Mas de que algo de estranho se passou nas mortes de Diana e de Dodi e de Henri Paul não oferecia demasiadas dúvidas. E houve quem dissesse ter sido a sanha do velho Mohamed Al Fayed contra o trono inglês e contra a família real a prejudicar qualquer investigação mais séria e qualquer apuramento da verdade.


Muito mais tarde viria a saber-se do destino o Fiat Uno branco e misterioso que andava às voltas perto do sítio do acidente. Esse Fiat Uno, como já disse, naquela mesma noite subiu a rampa do camião fechado perto de Avenida Montaigne e seguiu dali direitinho para uma prensa de sucata que o reduziu a imprestável monte de metal sem qualquer identificação possível.
Podem ter sido questões de moral a precipitar os acontecimentos. Uma questão de moral monárquica, dada a tal inconveniência de poder vir a aparecer em Buckingham um príncipe real árabe.
                                          
                   

Ou uma questão de moral muito mais abrangente e grave, relacionada com a indústria de armamento, a desembocar na encruzilhada também muito moral, quando toda a gente se diz contra a guerra, e quando as armas não deixam de se fabricar em grande escala, tendo por consequência de ser escoadas para o mercado, para qualquer guerra, em qualquer lado, nem que seja preciso criá-la artificialmente, inventá-la, a ela, guerra, sim, qual é a dúvida...
Claro, na organização do nosso vasto e variegado mundo sempre em mudança, há valores imutáveis. O lucro, um deles. Imutável e indiscutível e cimeiro valor de uma nova moral que está a acabar de ser criada e a sobrelevar todos os outros e doravante desusados (ridícularizados) valores.


O que dá brutos lucros é fabricar minas e outro armamento. O que dá lucros fabulosos é fabricar guerras. A paz não enriquece rapidamente assim tanta gente. E para que a indústria de armamento continue florescente que importância tem a morte de uma princesa real?

Que importância tem que um príncipe britânico de sangue árabe não chegue a nascer?

terça-feira, 13 de agosto de 2013

       VARIAÇÕES (E FUGA) SOBRE UM   
            TEMA DE  SCHOPENHAUER


Por detrás do mundo dos fenómenos oculta-se o mundo verdadeiro, leia-se, a realidade, a existência das coisas em si, coisas em si de que os fenómenos são a aparência, a representação.
A felicidade não a sentimos. Impossível. O que sentimos é a falta dela, a ausência dela, porque só depois de os perdermos estamos aptos a avaliar os bens que nos foram acrescentados.
E o conhecimento, vamos lá, não é arma que nos conceda a hipótese de um triunfo sobre o mal. Até bem pelo contrário. O conhecimento pode fornecer-nos a capacidade aumentada de sentir a infelicidade e o mal, e desde logo porque nos aumenta a sensibilidade.
Mas o que me mais me interessa de momento reporta-se à política, à economia, às finanças, à física e à metafísica. Ou à metafísica mais directamente, enquanto conhecimento que ultrapassa a experiência do concreto, do fenómeno, ao mesmo tempo que se esforça numa explicação sobre as condicionantes da natureza, ou  no que poderá existir para além da natureza. Ou mais: com o que torna possível a existência da própria natureza.
Temos passado os nossos últimos anos mediático-televisivos mergulhados na multiplicação do fenómeno da crise, num enfatuamento de debates, entrevistas e explicações económico-financeiras em que cada preopinante apresenta os seus argumentos, os seus diagnósticos, e, muito mais raramente, as suas soluções de saída para a crise.
Na realidade, ouvimos centenas de análises do concreto, centenas de observações pertinentíssimas (e até inteligentes) sobre os fenómenos de tipo económico-financeiro que compõem (e em que se decompõe) a crise; centenas de previsões, prognósticos e recomendações com o fito de deitar mãos eficazes à mesma crise, quer dizer, ao fenómeno. E espantamo-nos quando as fenomenológicas previsões de um douto académico falham rotundamente, ou quando as estratégias prosseguidas para debelar, ou pelo menos minorar, os efeitos do fenómeno-crise-económico-financeira relevam da teoria e não produzem os efeitos esperados - apesar de nos serem apresentados como teses de uma racionalidade inatacável.
E se tempos houve em que o fenómeno económico-financeiro obedecia estrictamente ao desígnio soberbo da política, esses tempos, fosse pelo incremento da mundialização ou fosse lá pelo que fosse, pertencem a um passado que até nos parece mais distante do que na verdade é. Hoje é a politica que se inclina perante a racionalidade indestrutível do económico-financeiro. Hoje é a economia em pleno fenómeno de crise que estipula quantos funcionários há a despedir, quantos, e em que percentagens, os reformados deverão ser taxados (espoliados), quantas instituições começam a não fazer sentido (económico-financeiro) e estão condenadas à próxima extinção, quantos doentes pobres têm direito a ser doentes pobres e quais deverão pagar a operação às cataratas, ao apêndice ou à perna. E grande parte dessas recomendações-exigências economicistas, razoáveis que sejam e racionais no terreno da fenomenologia económica, não devem, ou não podem mesmo, ser activadas, concretizadas.
Porque a política ainda tem uma palavra a dizer. Talvez não por muito mais tempo, mas ainda tem, e apesar de tudo. A práxis cegamente quantitativa da economia acha ainda (e não por muito tempo mais) o seu travão na conveniência política, na ética política, no bom senso que deve orientar a política – a metafísica da vida pública. Para dizer rápida, despretensiosa e ligeiramente, o quantificável objectivo imposto pela racionalidade económico-financeira ainda pode esbarrar no qualitativo subjectivo e menos puramente racional de uma decisão política. É bom? É mau? É destas coisas…
E daqui posso eu partir para uma convicção que a metafísica de Schopenhauer me inspirou, e que é a das funções por assim dizer supletivas de um fenómeno e do outro, a economia e a política, e sendo a política o conteúdo poético da vida pública, espécie de metafísica da física pura e dura que é a economia.
Os místicos cristãos podiam recusar a luz da razão (o intelecto) na capacidade de apreender a verdadeira (e derradeira) essência das coisas. Se fisicamente tudo seria explicável, para Schopenhauer, fisicamente, nada era explicável.
Metafísicas populares também as há, a poesia, os provérbios da sabedoria popular, alguns fenómenos não físicos, ou pouco apoiados pela racionalidade e que encontram a sua força moral justamente na zona complementar do espirito humano, o irracional, o improvável ou improvado cientificamente.
Mas é a religião a mais efectiva das metafísicas populares.  A religião é património espiritual de todos os povos à face da terra. A religião é a verdade que é revelada aos povos a partir do exterior sobrenatural, na convicção improvável e improvada das aparições sagradas e dos milagres. Ai dos cépticos, ai dos incréus. O salário deles é a  fogueira infernal, improvável, improvada, metafísica, quando já em tempos foi a fogueira física, concreta, objectivamente provável e provada.
Se a necessidade de uma metafísica é flagrante e imperiosa para o espírito humano, sê-lo-ia igualmente, acho eu, para a vida das nações. O homem singular achará na religião ou na poesia os espaços metafísicos que lhe são indispensáveis à essência, enquanto as comunidades humanas acham na política a metafísica que lhes governará os caminhos pedregosos da existência.
A metafísica impõe-se pela religião aos menos pensantes, como a política se impõe a esses menos pensantes noutro território fenomenolgico. Nunca passou pela cabeça de santo ou de profeta fundar uma religião com base na razão. Seria pôr a metafísica no terreno especulativo que lhe é menos propício, transformando-a em sistema filosófico, obrigando-a a lutar no dia-a-dia da polémica racional e no plano argumentativo que duvidosamente lhe sustentaria a validade. O mesmo poderá em certos momentos e em dadas circunstãncias aplicar-se à política, e mais hoje do que ontem, quando os considerandos políticos se esforçam para saltar fora da cadeia em que a razão do económico-financeiro os sujeita.
Para Schopenhauer, o que distingue uma religião da outra é a maneira de encarar o mundo, os homens, a vida: ou optimista, ou pessimista. E se umas entendem a realidade do mundo como algo que bebe a sua razão de ser nesse mesmo mundo sem outras interferências, outras haverá, religiões, que acham a realidade desse mundo compreensível sómente por uma expiação, como consequência de um pecado à espera de redenção, e sem razão de ser fora desse complexo contexto.
O pessimismo pode, sem dúvida, triunfar do optimismo. O cristianismo vingou pelo seu pessimismo atávico. Nem o judaísmo o venceu, nem o paganismo greco-romano.  Assim, só pela consideração pessimista de um estado original de pecado, mesmo a pedir uma redenção. Porque não é concebível uma redenção numa cosmogonia optimista, isenta de culpa.
Mas a dor e o mal vêm-nos do mundo físico – do económico-financeiro for instance. A redenção e o consolo podem vir-nos da politica enquanto dado optimistico e no seu papel metafísico em confronto com o físico economicista.
Será o razoável mundo físico do económico-financeiro que nos dá a chave da inteligência de todas as questões, de todas as suposições? Isso seria se o método científico fosse o único, o último, o suficiente, o que de imediato nos conduzisse à solução do enigma que se encerra nas coisas, à inteligência verdadeira e profunda do mundo. Mas não é.
A questão é que a explicação física (económico-financeira, para o que de momento me interessa) carece, para uma inteligência mais abrangente dos fenómenos e das coisas, da explicação metafísica (a política), e sendo então que o método metafísico (se se lhe pode chamar método) será obrigado a diferir substancialmente do método físico.
A metafísica (a política) pode aproximar-nos da coisa em si. A física (o económico-financeiro) só pode dedicar-se ao fenómeno (a crise) que a coisa em si segrega. O pior é se a coisa em si (como pensaria Kant ao criticar a razão pura) não é esse absoluto explicável. Nesse caso não haveria metafísica que nos valesse como contra-análise ao método  físico.
E depois entra nas contas a vontade.
A vontade é um mal. A vontade está na orígem de todos os males – e porque não de alguns, senão de todos, os bens?, perguntaria eu ao Dr. Schopenhauer.
Ele responder-me-ia que o pensamento é um acidente da vontade. Mas nos animais superiores, porque à medida que descemos às inferioridades da vida a função do intelecto vai-se à viola, vai-se rarefazendo sem, por outro lado, que a obscura agente da actividade, a vontade, deixe de se manifestar em pleno.
Porém, o intelecto pode guiar a vontade, mas na expressão de Schopenhauer a vontade pode ser o homem forte e cego que leva aos ombros o paralítico clarividente. Porque só os impulsos do instinto fazem mover o homem. Os homens julgam-se puxados pela frente quando na verdade são impelidos por trás; julgam-se arrastados pelo que vêem quando afinal são impelidos pelo que sentem: instintos cuja influência lhes escapa na maior parte das vezes.
E depois chega-nos a liberdade. E depois a necessidade.
Uma dada acção pode ser explicável enquanto consequência necessária do carácter de quem a pratica, e também das influências sofridas, dos conhecimentos adquiridos, das motivações que lhe solicitam a vontade. E quando Schopenhauer lê Kant conclui da necessidade natural inerente a toda a combinação possível de causas e efeitos no mundo que nos é sensível. Resta a liberdade que se confere a causas que não tenham a qualidade de ser fenómenos. Donde, a liberdade e a necessidade poderem ser conferidas ao mesmo objecto, seja enquanto fenómeno, seja enquanto coisa em si.
O Corão, um exemplo, foi o livro que veio responder à necessidade metafísica de milhões de seres humanos. O livro que funda por conseguinte uma religião, e que fundando uma grande religião oferece fundamento moral, inspira o desprezo pela morte, incita à guerra e às grandes conquistas.
E, enfim, agitações, guerras, revoluções na Europa, entre os séculos VIII e XVIII, poucas se descortinam que não tenham tido nos fundamentos e nos pretextos as encruzilhadas da fé. As problemáticas da metafísica, dizendo melhor. Em nome da metafísica instigam-se os povos tanto para as ruas da sublevação como para o puro campo de batalha. No outro prato da balança talvez seja de colocar a quantidade de crimes que o cristianismo, uma metafísica, evitou, e as boas coisas que inspirou.
        Toda a coisa física (económico-financeira) terá a condição de ser em simultâneo metafísica (política). E se assim não fosse, se uma física fosse absoluta e sem o mais breve elemento de metafísica, essa física seria a destruição de toda a ética. Ou de toda a moral. E sendo impossível de conceber uma moral sem uma metafísica, ou uma doutrina que reconheça que a ordem da natureza não pode ser a única, nem a mais sublime e absoluta ordem das coisas.