quarta-feira, 28 de agosto de 2013

                     PODEROSOS MESMO, OU       
           SIMPLESMENTE PÂNDEGOS?




Sobre o Código Da Vinci, o prof, Umberto Eco disse que o autor tinha copiado livros que há mais de 30 anos estavam à venda em Paris na Rue de la Huchette. Até pode ser. Mas o nó da questão, para mim, é que nenhum desses livros à venda na Rue de La Huchette vai para 30 anos teve o impacto público e comercial que este teve.  O que não significa que este preste para alguma coisa  - literariamente, bem entendido.
Mas porquê tanto sucesso? Porque os meios de promoção do produto foram poderosos? Porque o público está cada vez mais preparado para aceitar versões seja do que for que passem ao lado das ortodoxias, das versões oficiais e dos dogmas? Porque o público acha tão sem sentido e tão mal explicadinhas algumas crises (políticas, e sobretudo económico-financeiras)  que sente que alguma coisa se está a passar nas suas costas de eleitor. E, pior, alguma coisa que a sua disciplina e constância de voto, ou a sua fé partidária e democrática não podem - nunca poderão em tempo algum – resolver.
O público sente que alguém que não a Merkel, o Obama, o Cameron, o Hollande, o Putin, o Ângelo Correia (apenas enquanto inventor, construtor e operador da marionette Passos Coelho), o Paulo Portas, a Maria Albuquerque ou o Cavaco, está a mandar no mundo. Só não sabe é quem. E já agora, enfim, gostaria de saber. Aí é que está…
Saberemos nós algum dia, porventura, até que ponto o êxito de vendas de um livro como o Código Da Vinci (e seus derivados editoriais também) teve influência na escolha do papa Bento XVI? Ou se teve influência na resignação do mesmo Bento XVI? Ou se teve influência na eleição de um papa tão pouco convencional como o Francisco?
Nunca o saberemos, é mais do que certo.
Mas logo a seguir à eleição do cardeal Ratzinger disse-se à boca cheia que o novo papa iria assegurar – mais ou menos isto – a continuidade da Igreja.  O mesmo se disse (talvez à boca menos cheia) depois da eleição de Francisco. Terá sido essa continuidade da Igreja (a de Roma, claro) alguma vez posta em causa nos tempos recentes? Por quem e porquê?
Mas deixemos isso.
Que poderemos nós dizer?
Vamos antes dizer que em 1824, um escritor de que hoje ninguém ouviu falar, gozava de bastante nomeada, Charles Nodier, nomeado bibliotecário-chefe da Biblioteca do Arsenal, isto é: nem mais nem menos do que no maior depósito francês de manuscritos medievais com especial incidência sobre as ciências ocultas. Ora a direcção de tal biblioteca foi logo parar às mãos de Nodier. Porquê? Terá sido por ele ser membro do Priorado de Sião e seu grão mestre entre 1801 e 1844?
Na Biblioteca do Arsenal estavam depositadas as obras de Nicolas Flamel – também ele dado como grão mestre do Priorado. A Biblioteca era ainda depositária da biblioteca pessoal do cardeal Richelieu, biblioteca essa de tão grande dignitário da Igreja católica e de fundos maioritariamente respeitantes ao pensamento cabalístico, à magia e à Hermética.
Nodier reservou para seu uso aposentos nas instalações na Biblioteca do Arsenal e organizou um salão de intelectuais e artistas. Pretendia ser ele o papa da estética parisiense. Victor Hugo era discípulo de Nodier e uma das grandes estrelas desse salão, mas também Chateaubriand, Balzac, Delacroix, Dumas Pai, Lamartine, Musset, Gauthier, Nerval.
Há fortes suspeitas de que a queda de Napoleão foi longamente perpetrada pelos agentes cinzentos do Priorado. O próprio exército estaria minado de confrarias secretas. Uma delas, no entanto, teria a precedência sobre todas, os filadelfos, que conspiravam contra Napoleão e seriam um braço operacional do Priorado.
Ficava também para o imaginário popular a função de ir disseminando rumores e convicções de terem sido as sociedades secretas a instigar a Revolução Francesa.
Na era pós-napoleónica, a teoria da conspiração conheceu um dos seus grandes momentos históricos.



Em 1903 apareceu na imprensa um documento que levantava o véu sobre uma conspiração mundial. Ninguém lhe ligou. Reapareceu dois anos mais tarde. Entre os vários títulos que lhe deram o mais conhecido foi o de Protocolos dos Sábios de Sião.

                                                                       

O que o aparecimento dos Protocolos provocou foi uma reacção anti-semita capaz de estar na base do período histórico que se seguiu. E no quadro em que tenho estado a divagar, a palavra Sião leva-me evidentemente, e ainda que não o queira, a certa coisa, claro…
Os Protocolos anunciavam uma conspiração judaica para o domínio do mundo – estava-se mesmo a ver que era mentira, claro, e que os judeus não dominavam coisíssima nenhuma, nem a finança, nem os media. Mentiras. Ainda hoje se vê a légua que é mentira…
E fico a saber que em 1919, cópias dos Protocolos foram distribuídas na Rússia pelos soldados do exército branco a querer convencê-los que teriam sido os judeus os responsáveis pela revolução comunista. E em consequência disso deu-se cabo de cerca de 60.000 judeus.
Seria verdade? Seria mentira?
Não sei porquê, apanhei o maldito hábito de suspeitar de certos factos que parecem mesmo operações da propaganda…
Mas também parece verdade que Alfred Rosenberg, o ideólogo nazi-racista, deu aos Protocolos dos Sábios de Sião  grande divulgação e que Hitler alguma coisa neles se inspirou para o Mein Kampf. Problema eram as dúvidas que se levantavam sobre se o documento era ou não uma falsificação grosseira posta a circular justamente por entidades ocultas anti-semitas.
Os Protocolos anunciavam uma nova ordem (ou uma outra desordem) mundial sob a férrea governação dos judeus. Derrube de regimes. Controlo de instituições. Manipulações do publico, da política e da economia e da finança mundiais.  E que tão negro plano vinha sendo posto em acção desde há muitos séculos atrás. E pronto… muitos séculos atrás… Sião… daria para pensar em quê, em quem?
Mas parece que se chegou a um consenso acerca de que se tratava de uma falsificação. O que dá ainda mais para desconfiar e pensar que não existem falsificações neste mundo secreto, flexível e virtual onde tudo parece e é ao mesmo tempo, ou não parece nada e é, ou parece mas não é, ou não é mas parece.
Pronto… já me baralhei…
Relativamente a feitos mais recentes, uma pergunta ressalta. E intriga que se farta. Porquê a Cruz de Lorena (com toda a sua carga secular de implicações e significados tanto claros como ocultos) como emblema das forças da França livre do general De Gaulle?
Porquê o emblema de René d’Anjou, a insígnia de um ducado que sempre foi mais ou menos germânico e autónomo a prefigurar a integridade da pátria francesa precisamente contra o ocupante alemão?
Parece ser um facto que o Priorado de Sião desempenhou papel de alguma monta na Resistência Francesa, Priorado ao qual – e ao que dizem - De Gaulle, de uma maneira ou de outra, esteve ligado.
Em 1966 o emblema da companhia francesa de petróleos ANTAR é (leio) uma insígnia merovíngia disfarçada de logótipo publicitário.

                                                           

A ANTAR PETROL, importante agente económico francês dos anos 60 era (seria) desde logo, e por si mesma, uma forma de propaganda merovíngia codificada, um signo do Priorado, com uma figura de rei merovíngio empunhando um lírio e um círculo - parece anedótico uma poderosa companhia de petróleos a apelar ao regresso dos merovíngios ao poder, mas… nada existe mais do que aqulo que não existe…
Depois da separação entre o Priorado e os Templários, ocorrida em 1188, o Priorado passou a escolher autonomamente os seus próprios grão mestres. Jean de Gisors é o primeiro. E parecia estabelecido que cada novo grão mestre logo que nomeado se comprometesse a adoptar o nome de João – ou Joana, quando tocou a vez a uma mulher. De 1188 até 1963, a lista dos grão mestres do Priorado de Sião é um desfile de Joões.
O que poderia significar isto?
Podia ser que significasse uma intenção de criar uma espécie de papado sombra, um papado esotérico.
E porquê João?
Porque era o contra-nome que se opunha a Pedro, o apóstolo sobre quem a Igreja construíra a sua mitologia e os seus dogmas.
Mas qual João? João, o Baptista? João, o Evangelista, o discípulo amado, o autor do esotericamente chamado Quarto Evangelho?
Ou ainda João, o Divino, autor do Apocalipse?
Jean de Gisors, João de Gisors, portanto, ao ser entronizado grão mestre do Priorado, adoptara o título-nome de João II: queria dizer então que teria havido um primeiro. Quem? Não sei. Talvez o João inicial, Baptista, Evangelista ou Divino, o que inspirara a linhagem dos grão mestres do Priorado.
Fosse como fosse, a sucessão de joões à testa do Priorado estende-se pelos séculos, até à eleição, em 1918, do último grão mestre conhecido, e que sucedeu a Claude Debussy, chamado Jean Cocteau. Jean Cocteau, na ordem dos priores de Sião era o 23º, João Vinte e Três.
Em 1959, segundo tudo leva a crer, é ainda Jean Cocteau o 23º João à frente do Priorado.
E em 1959, morre o papa Pio XII.
E em 1959 o concílio dos cardeais elege novo papa. Angelo Roncalli, chama-se ele. Mas tem de escolher um nome de papa. E escolhe. E diz-se que para geral decepção dos círculos mais restritos do Vaticano, escolhe o nome de João. João que na ordem sucessória papal seria o 23º, João XXIII. O grande papa verdadeiramente renovador.


O círculo dos mais iniciados de Roma havia excluido, ou contra-indicado, o nome de João, possivelmente pelas mesmas razões que o Priorado tinha para o usar. O nome de João para um papa não se usava desde o século XV, fora usado pelo bispo de Alet, que se declarara um anti-papa e abdicara em 1415, e era já então ele o 23ª papa João. E pronto, não parecia fazer sentido que Roncali, entre tanta escolha possível, fosse desenterrar histórias esquecidas e o nome de João, e ainda por cima o 23, que tinha sido o número de um papa que pouco foi papa, que foi mesmo um anti-papa.
E calha que o João XXIII da Igreja católica morre em 1963, no mesmo ano em que morre Jean Cocteau, o João XXIII do Priorado de Sião, o dito papa oculto.
Entretanto, após a morte de Angelo Roncalli, começaram a aparecer uns livrinhos com poemas proféticos e meio herméticos de impenetrável sentido que lhe são atribuídos. E outros opúsculos que historiam a filiação secreta de Angelo Roncalli na ordem da Rosa-Cruz, em 1935, era ele Núncio Apostólico na Turquia.

Claro que nada disto se pode provar. Claro que tudo isto pode ser uma bela história de mistério. Claro que tudo isto parece inverosímil e falso.
Mas… e se fosse mesmo verdade?
E já agora… será que a luta secreta entre o Priorado de Sião (no caso de existir realmente) e a Opus Dei, que existe mesmo, e muito, teve alguma influência na escolha do cardeal Ratzinger para ser o papa Bento XVI? Ou na resignação dele. Ou na eleição de Francisco?
A organização Rosa-Cruz em que Roncalli se filiara (se terá filiado) na Turquia seria um braço do Priorado de Sião. Nesse caso, ao ser eleito papa, Roncalli terá cometido uma audaciosa e  secreta afronta a Roma, escolhendo o nome e a ordem do seu grão mestre secreto, o que significava (poderia significar) que a reinar sobre a Igreja e sobre a ordem oculta haveria um mesmo papa, uma semelhante vontade, um igual desígnio. Poderia significar que duas organizações historicamente  inimigas (Priorado e Roma) estariam em breve para se reconciliar e reunir? Poderia significar que os objectivos perseguidos por ambas eram os mesmos ainda que por meios diferentes, e que o escopo principal de ambas, doravante, seria idêntico: a restauração da dinastia merovíngia?
Não sei. O certo e sabido é que, mais do que qualquer outro papa, João XXIII muito profundamente interveio no seio do catolicismo, orientando-o inequivocamente para o Fim dos Dias, ou para a modernidade (chamemos-lhe assim), através das reformas do Concílio Vaticano II.
João XXIII, ou Angelo Roncalli, esse sim, um grande papa moderno, debruçou-se ainda sobre a questão da maçonaria e procurou rever a posição da Igreja no sentido de se poder admitir aos católicos militância maçónica. Quer dizer alguma coisa.
A quantidade de coisas que se passam – ou podem estar a passar-se - neste mundo e nesta vida e de que os jornais e a televisão não falam nem ao de leve… é exactamente o que faz o sucesso dos livros que se publicam sobre o oculto e o esotérico. Ninguém sabe o que se estará a passar, mas o andar e o cariz dos tempos obriga o cidadão comum a desconfiar de qualquer coisa. E qualquer coisa em que ele, cidadão não pode usar o voto democrático; onde ele, cidadão, não pode meter prego nem estopa…


       Era pelo sangue de Cristo que a redenção humana se operava. O derramamento de sangue – o sangue onde se guarda a descendência, a linhagem – era superior em importância espiritual à crucificação, e mais ainda à ressurreição. Ora tudo isto poderia abalar a fé cristã. Morte e ressurreição seriam secundárias – era essa, seria essa, a mensagem secreta, codificada. O sangue era o elemento capital. Bastava o derramamento de sangue pelos sofrimentos do Calvário para que a mensagem de Cristo mantivesse todo o seu poder e valimento. Era absolutamente irrelevante o facto de Jesus ter morrido na cruz ou não.


       Sim, o sangue de Cristo, o Santo Graal…
O cisma Lefebvre dos anos 70, por exemplo levou – ou pode ter levado - a marca do Priorado.
Monsenhor Marcel Lefebvre, em tempos militante da Action Française, a extrema direita política dos tempos de entre-guerras, afrontou o poder vaticano e a figura do papa Paulo VI. Em 1976, ou 77, Paulo VI pretende para Monsenhor Lefebvre a pena de excomunhão. Mas Lefebvre mantém-se indiferente.
Contradição: Lefebvre era um católico puro e duro e tradicionalista, um fundamentalista da missa tridentina, inimigo jurado das reformas eclesiásticas e das modernizações; como associá-lo aos merovíngios do Priorado, eminentes senhores da heresia contra Roma? Seria Lefebvre um maçon hermético, aristocrático e um dos que se consideravam mais católicos do que o próprio papa?
A verdade que ficou para a História é que Paulo VI recuou nas suas intenções de excomunhão. 


Dava a ideia de que Lefebvre era conhecedor de algum segredo que poderia abalar gravemente não só a instituição vaticana e católica como o mundo inteiro.
Mas foi Pierre Plantard de Saint Clair quem se reclamou, nos anos 70, como descendente directo de Dagoberto II, o último rei merovíngio efectivo – talvez fosse ele o rei perdido, sei lá – é pelo menos  que dizem as genealogias um tempo secretas e depois divulgadas – e pelo que se diz falsas…
Pierre Plantard de Sant Clair foi preso pela Gestapo durante a ocupação alemã. Dizem que também foi torturado. Durante meses. Ao cabo de meses ou fugiu ou foi libertado, não sei, não me lembro de ter lido. É visto como um apóstolo da paz e da liberdade, um humanista. Será verdade? Terá sido ele um dos conselheiros sombra dos grandes deste mundo? Enfim…
Quem poderá garantir a verdade das coisas, mesmo quando elas vêm escritas em livros – ou até por isso mesmo?
Em 47, Plantard foi viver para a Suiça, para as margens do Lago Lehman, a convite do próprio governo helvético. É um bom sítio para conversar com alguns grandes da decisão económica e financeira mundial, isso é.
Preso então o Senhor Plantard pela Gestapo. Porquê? Por militar na resistência e por publicar durante a ocupação um jornal clandestino.

                              

Mas o Senhor Plantard tinha amigos. Nomes? Um certo Charles de Gaulle… um tal André Malraux. Esse De Gaulle chega a aconselhar-se com ele quando do levantamento da Argélia e quando quis regressar ao poder. E Plantard esteve com Malraux nos comités de segurança pública. Pelo menos ele fez constar isso…


E De Gaulle regressa à presidência e apressa-se a escrever a Plantard uma carta de agradecimento. Em Julho de 1958.
No final dos anos 70, Pierre Plantard de Saint Clair deixou-se entrevistar pelos autores do livro que tenho seguido e que em Portugal foi um dos derivados da fama do Código da Vinci – mas que na realidade lhe foi muitíssimo anterior e percursor -  O Sangue de Cristo e  Santo Graal, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln.
Plantard deixou-se entrevistar mas excusou-se a fornecer informações sobre os objectivos do Priorado. Declarou que o Priorado não pretendia publicidade, mas estava na posse do tesouro do Templo de Jerusalem. Nem menos. E que estaria disposto a devolvê-lo a Israel quando fosse oportuno. Mas sublinhou bem que não eram os valores materiais de tal tesouro o que mais importava. Era o espírito que importava. E o espírito do tesouro residia num segredo.
Lá caímos nós no segredo.


E tudo isto parece coisa de garotos, é verdade. Mas na volta não é. Ou é? Sei lá bem…
Esse tesouro-segredo poderia provocar uma reviravolta social que não era brincadeira nenhuma – eu diria que é mesmo disso que estamos a precisar – a menos que ela já esteja a acontecer...
Que haveria uma mudança nas instituições francesas (disse ele), e isso era fora de dúvida. A restauração da monarquia, voilá.
Ora amigos… Bourbons, Habsburgos, Hohenzollerns, Romanovs, quantas famílias de alta linhagem, quantas dinastias não aspiram ainda hoje a tronos por essa Europa. Mas porque carga de água os merovíngios deveriam levar a palma aos outros todos?
Será tudo isto uma intriga internacional de aristocratas lunáticos e inconformados?(Conheci um ou dois.)
Será isto uma fraude?
Serão estes homens mesmo visionários? Ou mesmo uma seita de tótós?
Ou serão eles uns pândegos que se têm divertido à grande e, com toda a propriedade, à francesa, com a treta do Segredo e com a credulidade dos incautos?
Segundo os investigadores de cujo trabalho me sirvo, Plantard falou com eles com a segurança de quem tinha certezas.
Mas que sentido faria restaurar a monarquia merovíngia 1300 anos depois de ela ter sido derrubada? Um governo merovíngio adaptado aos tempos, com novos conceitos de Estado e com processos  modernos (ou antiquíssimos) de governação? Quais?
Então, se tudo é tanga… porque diabo tantas individualidades importantes e muito longe de serem patetas ignorantes e excêntricos lhe foram fieis?


Mas será que foram mesmo? Leio e releio sobre Jean Cocteau, por exemplo, e não apanho a mínima linha sobre a sua qualidade de grão mestre fosse do que fosse…
O sangue merovíngio? Que há de especial no sangue merovíngio?
Bem, pelos anos 70 dava a ideia de que o Priorado se preparava para intervir politicamente em larga escala e em ordem a uma mudança dramática no governo francês, mudança que deixaria a via livre para a implantação da monarquia merovíngia. Essa mudança na política francesa prometia uma governação formada em valores, mais valores, e valores da ordem do espírito, valores, dir-se-ia, pré-cristãos. Onde poderiam entrar De Gaulle e Malraux no ideal restauracionista dos merovíngios é o que restará saber…
Que se pergunte: como será o mundo, ou o que acontecerá, quando um merovíngio lograr obter o trono de França?
      Uma época houve, e não muito distante na História, em que alguém definiu esse poder merovíngio como uma monarquia popular que estabeleceria alianças com a Rússia então soviética.
Triunfaria finalmente a maçonaria – se não triunfou já ao tempo.
A liberdade religiosa poderia estar comprometida.
Não se percebe nada disto. Mas deve ser mesmo assim.
Caímos na esfera da ficção? Mas o real quantas vezes não nos parece ficção. A estranha morte de João Paulo I –sucessor de João XXIII, não esqueçamos - e a eleição dos dois subsequentes papas terá reflectido alguma realidade desta ordem?
E o protagonista do Código Da Vinci levanta-se assarapantado da sua cama do Ritz a meio de uma noite parisiense. Tudo não passara de um sonho. E, em registo de realidade presente, desata a correr feito doido por Paris seguindo a Linha da Rosa.
Vai dar ao subsolo do Louvre. Pirâmide invertida. O Cálice, a Lâmina. O esplendor simbólico. A harmonia masculino/feminino, o itinerário da Rosa, Shekinah, alegoria de Jesus, metáfora de Maria Madalena.


Quem mandou construir esta pirâmide? Foi certamente um dos do Segredo. Quem foi?


Foi o presidente François Mitterand, a quem o autor do Código da Vinci chama de personificação da Esfinge, um homem dos círculos secretos do poder que legara a Paris um código milenar, uma mensagem que compreendia o proibido, o indizível.

              

        É a vida que imita a arte, já se disse e redisse; ou caberá à ficção ajeitar-se conforme puder à realidade que para sempre a ultrapassa.














segunda-feira, 26 de agosto de 2013

             OS MILHÕES DO SENHOR PRIOR



E então disse-se – parece que havia papeis a afirmá-lo - que Claude Debussy, entre 1885 e 1918 foi Grão-Mestre de uma sociedade secreta, tal como o fora Leonardo, entre 1510 e 1519, como o fora Sir Isaac Newton (1691-1727), Victor Hugo (1844-1885), como o viria a ser Jean Cocteau desde 1918. Na qualidade de iniciado em mistérios secretíssimos e duplos sentidos, Debussy terá escondido, codificadas, na sua música, algumas mensagens.
E que ressonâncias terá tido a questão do Segredo e do Graal e do Priorado na era moderna?
Rennes-Le-Château foi zona de cátaros e o catarismo pode lá ter perdurado até aos dias de hoje.
Há a enigmática história de um  cura de aldeia, aldeia essa que é justamente Rennes-Le-Château.Vou contá-la muito em resumo, resumo, aliás, do que li no livro já tantas vezes por mim mencionado, O Sangue de Cristo e o Santo Graal…
Era uma vez um insignificante cura da aldeia de Rennes-Le-Château que em 1891 decide fazer obras de restauração na sua igrejinha. Ao abater um pilar centenário percebe que a coluna é oca e tem alguma coisa lá dentro. Que coisa? Papeis? Pergaminhos? Um tesouro? Pergaminhos. Quatro. Metidos em tubos de madeira  selados. Quando se foi a ver eram genealogias, uma elaborada em 1244, outra em 1644. E textos em latim. E um texto cifrado, incompreensível.
O padre, que se chamava Béranger Sauniére, dirigiu-se logo ao seu bispo, em Carcassonne, a dar-lhe conta do achado. Mal vê a papelada o bispo de Carcassonne manda imediatamente o cura de Rennes-Le-Château a Paris, com carta de apresentação para certas individualidades ligadas ao seminário de Saint Sulpice.
Sauniére lá vai. 


E deixa-se ficar por Paris as suas três semanas. Visita muito o Louvre, adquire uma reprodução do quadro de Poussin Les Bergéres d’ Arcadie, e contacta um seminarista de Saint Sulpice muito ligado a círculos esotéricos e artísticos, chamado Emile Hoffet. Destes encontros e do que Sauniére andou três semanas a fazer em Paris mais nada se sabe.
De regresso à aldeia, o padre Sauniére continuou com as obras na igreja. Derrubou colunas, removeu lages, achou esqueletos, apagou indevidamente inscrições centenárias.
E começa a travar-se de copiosas correspondências com várias individualidades francesas e estrangeiras. Começa a coleccionar quilos de selos sem nenhum valor aparente. Começa a meter-se em negócios um bocado escurecidos. Começa a abrir contas chorudas em bancos. Em 1896 começa a gastar dinheiro à barba longa. Gasta aos milhões de libras sem pestanejar. Manda construir uma mansão luxuosa a que dá o nome de Villa Bethânia. Manda construir uma torre-biblioteca e chama-lhe Tour Magdala – Torre Madalena.


Reconstruíu e redecorou a sua igrejinha, bem entendido, e logo à entrada mandou enigmaticamente gravar um aviso: Terribilis est locus iste - este lugar é terrível – e pespegou-lhe a carantonha do demónio Asmodeu, o que guarda segredos e tesouros, e também, conforme a lenda, o verdadeiro construtor do Templo de Salomão.


Manda pintar nas paredes as diversas estações da Via Sacra, mas em todas elas era patente algum desvio ao relato oficial das Escrituras. Numa delas aparece uma criança envolta num manto de lã escocesa; noutra, representa-se a cena do enterro de Jesus Cristo, mas realizado à noite, com a lua cheia em fundo – contrariando soezmente a Bíblia.
Sauniére, o insignificante cura de aldeia começa a receber uma quantidade de visitas, e visitas ilustres como o secretário de Estado da Cultura do governo francês, ou como o arquiduque Johann von Habsburg, primo do imperador da Áustria.
Diga-se que ainda no final do século XIX havia planos para a constituição de uma Santa Aliança, uma unificação política da Europa católica sob a égide dos Habsburgos, com Áustria, França, Itália e Espanha. O pior foi que a Alemanha e a Rússia boicotaram esses planos. A guerra de 14 rebentou. As dinastias foram derrubadas.
Mas como ia a dizer… segue-se que o bispo da diocese de Carcassone pede satisfações ao padre Sauniére quanto aos gastos milionários que fazia. Sauniére é que não lhe passa o mínimo cartão. O bispo não é de modas e, ai ele é isso,  denuncia-o a Roma pela venda fraudulenta de missas. Sauniére é suspenso de funções por um tribunal eclesiástico. Apela ao Vaticano. Não se sabe que cordelinhos são mexidos lá dentro, o que se sabe é que o padre Sauniére é reintegrado.
A 17 de Janeiro de 1917, dia de Saint Sulpice, o padre Sauniére tem 65 anos, está de perfeita saúde, e sofre um súbito derrame cerebral.


Súbito? Mas como súbito se a governanta dele já no dia 12 tinha encomendado um caixão? – ainda há a factura desse caixão.
Sauniére já sabia demais? Mas sabia demais o quê?
Sauniére está no leito de morte. É chamado um colega sacerdote para o ouvir em confissão e lhe administrar a extrema unção.
O padre entra no quarto do doente. Sai daí a muito pouco tempo, completamente transtornado e vindo a cair em profunda depressão por meses e meses. Não diz uma palavra sobre o que viu ou ouviu no quarto do moribundo. Apenas admite que que se recusara a administrar-lhe a extrema unção. Sauniére morre a 22 do mesmo mês de Janeiro de 1917, e sem a absolvição.


No dia seguinte, logo de manhã, sentam o morto, em roupão, numa poltrona posta no terraço da torre-biblioteca Maria Madalena que ele havia mandado construir. O povo vai vê-lo e arranca-lhe alguns farrapos do roupão como lembrança – um rito merovíngio.
Quando se abre o testamento fica a saber-se que o padre Sauniére afinal não tinha um chavo de seu.
Mas vamos ter calma quanto a conclusões. Também se disse que não senhor, que o padre Sauniére não descobriu o que descobriu em Rennes-Le-Château por mero acaso, e que foi conduzido àqueles específicos documentos por agentes ao serviço do Priorado e que por eles tinha sido recrutado como agente de baixo escalão.
O caso é que, por 1916, Sauniére começou a andar de candeias às avessas com os seus controleiros do Priorado. Dez dias antes de morrer estava de perfeita saúde, como se disse. Mas o caixão para ele já estava encomendado pela governanta, essa sim, agente do Priorado e sua controleira-mor. Alguém estaria, estivera, ou começaria a estar por detrás de Sauniére. Quem?
Um outro homem da Igreja, simples padre como ele, chamado Henry Boudet, tinha acesso a chorudos e misteriosos fundos e entre 1887 e 1915 terá passado para a mão do colega Sauniére os seus 13 milhões de francos.
Mas Sauniére, até 1915, terá estado a leste dos tremendos segredos. Só terá tido direito a saber mais alguma coisita acerca da caldeirada em que se meteu, ou o meteram, quando o tal abade Boudet estava às portas da morte, em Março do tal ano de 1915.
Mas este insignificante padre Boudet é que sim, é que devia sabê-la toda, visto que até pagava luvas ao próprio bispo de Carcassonne. Tenho as contas todas, estão aqui: 7.655.250 francos entre 1885 e 1901. O próprio bispo era agente a soldo do padre. É obra! Padre que por sua vez era agente das poderosas forças do Priorado de Sião. E todos eles alistados e obedientes a uma maçonaria de Rito Escocês, cristã, aristocrática, hermética e de orientação mágica.
Uff! Com tantos padres em acção, é caso para dizer… fosse lá um homem ser prior numa freguesia daquelas…
O tesouro achado em Rennes-Le-Château pelo padre Sauniére não era feito de ouro, prata ou pedras preciosas. Eram documentos. Eram provas ditas irrefutáveis de que a crucificação fora um embuste e de que Jesus Cristo vivera até 45 anos depois dele próprio.
Mas o que é uma prova irrefutável de uma coisa que se passou cerca de 2000 anos antes?
O esoterismo e as sociedades secretas atingiram foros inusitados no século XIX, especificamente no século XIX francês e quando esse século XIX caminhava para o fim.
Claude Debussy frequentava esses meios. Mais: era Claude Debussy, ao que se diz, o grão mestre do Priorado de Sião quando o abade Sauniére descobre os célebres documentos de Rennes-Le- Château.


                                                

Verlaine, outro dito ocultista, apresentou Debussy a Victor Hugo e desde então quem queria ver o músico era entre os círculos simbolistas e esotéricos. Aliás, círculos que punham e dispunham na vida cultural de Paris. A cantora lírica Emma Calvé era a grande sacerdotiza. Foi ela que apresentou o padre Sauniére a Debussy. Debussy encontra Mallarmé nos círculos iniciáticos e compõe o Après Midi d’un Faune. Debussy conhece Maurice Maeterlinck, que escrevera um drama merovíngio intitulado Pélleas et Mélisande e compõe uma ópera homónima. Debussy, pouco antes de morrer, em 1918, está a compor música para Axel, uma peça de inspiração rosa-cruz, de Villiers de L’Isle Adam. Nunca chegará a terminá-la.


Mallarmé recebia à terça feira. Apareciam muitas vezes lá por casa Oscar Wilde, Yeats, Stefan George, Valéry, André Gide e Marcel Proust. Era o tempo do renascimento do oculto francês, que incluía simbolistas, satânicos, roza-cruzes, cabalistas. Entre eles estava Mac Gregor Mathers, que não tardaria a fundar em Londres, uma das mais intrigantes ordens secretas dessa época, a Golden Dawn.
Nos movimentos esotéricos da sub-cultura parisiense do fin de siécle estavam envolvidos inclusive sacerdotes católicos de certa importância. E também, claro, artistas, os mais atreitos a essas coisas em função dos próprios imponderáveis materiais com que trabalham. Mas atenção estou a falar de artistas de primeira grandeza mundial. Olhem, por exemplo, a tal Emma Calvé, uma célebre cantora de ópera, uma Callas daquele tempo, grande sacerdotiza do Segredo, grande animadora de rituais eróticos do sagrado feminino, amiguinha de outras celebridades também envolvidas no assunto, Mallarmé, Debussy, Maeterlinck, Nerval, Baudelaire…
Em 1875 outra sociedade secreta poderosa se constituira levando o nome de Hiéron du Val d’Or. Orientava-se pela geometria sagrada. Poderia considerar-se teosófica. Interessava-se pelas orígens do Homem, pela orígem das raças, das línguas, dos códigos, dos símbolos. Anunciava-se como associação secreta trans-cristã. Estudava o pensamento e a vida dos druidas. Pretendia fundar uma geopolítica esotérica e uma ordem do mundo a que chamava etnárquica.
Ainda com o século XIX a dar as últimas e estaria para breve, segundo eles, um novo Sacro Império Romano na Europa, reformulado, claro está, unificador de todos os povos em princípios espirituais, em desprezo de coordenadas políticas, sociais ou económicas. 
Pretendia o Hiéron du Val d’Or concretizar um sonho antigo, o reino celestial na Terra. Em baixo assim como em cima, é a conhecida base do hermetismo. E isso iria ser consumado. O governo da Terra seguiria por fim a harmonia do cosmos.
Bom, já não era sem tempo…
As nações seriam províncias. O governo seria mundial. E seria oculto, e desempenhado por uma elite. Na Europa seria o Vaticano a mandar chover, a produzir todas as determinações espirituais, determinações a ser executadas pelos Habsburgo, e com os Habsburgos a actuar como sacerdotes-reis, quais faraós do Egipto.

                                                   

Ora vamos lá a ver… Habsburgos,igual a Lorena; Lorena, a querer dizer Priorado, an? E Priorado igual a merovíngios. Isto é um pouco como a anedota do maluco das fisgas…
Mas estavam aí as profecias de Nostradamus!
E quando a coisa está mesmo a rebentar… azar dos azares… - não azar dos Távoras, azar dos Lorenas e dos Habsburgos… - rebenta outra coisa, a guerra, a I Guerra Mundial. Os Habsburgos são destronados. 
Terá sido a guerra e o fim do império dos Habsburgos o efeito da causa que eram as intenções desta poderosa sociedade secreta e que não era senão outra das máscaras afiveladas pelo Priorado de Sião? Priorado de Sião que apesar de todos os seus poderes se via mais uma vez derrotado nos seus intentos?
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Mas o Priorado continuou a existir. Os seus membros continuaram poderosos e influentes e continuaram no pós-I Guerra, ao entrar verdadeiramente do século XX,  a persistir nas suas pretensões antigas de nove séculos.
Voltando à questão de Rennes-Le- Chateau e do seu cura, o padre Sauniére… toda a fortuna acumulada pelo padre Sauniére não se sabe como nem porquê fora previamente transferida para o nome da sua governanta e essa governanta continuara, depois da morte dele,  a viver muitfolgadamente a sua vida. 
Até que chegam os dias da II Guerra mundial. 
Em 1944 os nazis ainda não tinham perdido de vista as questões esotéricas, precisavam cada vez mais das fontes de verdadeiro poder escondidas do vulgo e procuravam-nas. E por isso enviaram arqueólogos também a Gisors, aos domínios originais do Priorado. Eles lá sabiam. Queriam escavar debaixo da fortaleza.


                                                                          
             

Talvez nem sequer tivessem tido tempo de dar as primeiras pázadas. A invasão aliada da Normandia frustrou-lhes  intento. Mas…


Mas, em 1946, um particular francês escavou por conta própria nas redondezas de Gisors, descobriu qualquer coisa fora do vulgar e foi informar o presidente da câmara: encontrara uma cripta subterrânea; nessa cripta, para seu espanto, deparara com 19 sarcófagos de pedra e 30 cofres de metal. Pedia ao presidente da Câmara autorização para continuar as suas buscas pessoais. Mas calma, muita calma. Era preciso uma autorização oficial, papelada, formalidades, burocracia.
E a burocracia da Câmara de Gisors demorou até 1962.
Em 1962, o próprio André Malraux, ministro da Cultura, se interessou pelo caso – ou ele, nos anos 30, não tivesse dado a uma das personagens do seu mais famoso e genial romance, A Condição Humana, o nome de Gisors… sabe-se lá porquê…
     Em 1962, está bem de ver, não se encontraram nem sombras dos 19 sarcófagos de pedra nem dos 30 cofres de metal. Nada. O assunto até andou pelas páginas dos jornais – não há melhor para confundir os espíritos e despistar as almas da opinião pública do que pespegar tudo nos jornais, já se sabe.
Quer dizer, o particular francês dera de novo com a cripta, isso sim, o conteúdo dela é que tinha desaparecido. E no entanto, aquela capela subterrânea, em honra de Santa Catarina, aparecia mencionada em pelo menos dois manuscritos antigos, um de 1375, outro de 1696.
É possível que nos cofres e nos sarcófagos estivesse guardada a parte mais importante da memória dos nove séculos de actividade do Priorado de Sião. E quem sabe mesmo se aqueles 19 sarcófagos e aqueles 30 cofres não eram o Santo Graal inteirinho, o Santo Graal que os próprios nazis tanto tinham procurado?
Em 1946 o governo francês emite nova moeda, os francos novos.
Claro que, acabada a guerra, muitas contas haveria que dar a Deus e que regularizar com os homens. Muitas fortunas colossais foram ilicitamente acumuladas durante os anos de guerra, muitas fraudes ao fisco houve, muita especulação, muitos conlúios lucrativos com o ocupante alemão. Havia muita coisa a esclarecer. Donde, a necessidade de, ao trocar os francos velhos pelos francos novos, cada cidadão ser coagido a justificar os seus rendimentos e acumulações de dinheiro.


Quando chegou a vez da governanta do falecido padre Sauniére esta preferiu a pobreza. E nunca por nunca explicou às autoridades os milhões que tinha de seus e de onde eles lhe tinham vindo.
Viram-na no jardim da Villa Bethânia a queimar notas, maços de notas, muitos milhares de francos velhos. Viram-na a empobrecer.
Mas também há quem diga que toda esta história de Rennes-Le-Château é uma mistificação e que as coisas não se passaram nada assim, mesmo a dar-se o caso de alguma coisa se ter realmente passado.