sábado, 14 de setembro de 2013

 A INCRÍVEL E TRISTE HISTÓRIA DE UM   
      VALENTE MURRO NAS TROMBAS

                                               Um amigo é um segundo eu.
                                                                       CÍCERO

E mal sabia eu que Goethe (que também se dedicava ao estudo das ciências naturais) chegou a apoderar-se do crâneo de Schiller, sacou a cabeça do cadáver do amigo para a estudar – sabe-se lá se para descobrir por que razão eram tão amigos…
Isto por falar em amizades literárias.
E eram mesmo muito amigos, Goethe e Schiller. E de uma amizade que não foi daquelas automáticas, espontâneas, afinidade nascida (como em certos amores) à primeira vista, ao primeiro encontro de ambos (1788 – Rudolfstadt). Foi afinidade desenvolvida numa colaboração literária, quando Goethe convida Schiller a escrever na revista Die Horen e a partir daí se travam de carteio.
E todavia não eram concordes em tudo. Ou mais ainda: Schiller criticava Goethe, interpretava-lhe a vida como vergonhosa, devido à marital relação de casa e pucarinha que o poeta levava com uma mulher com quem não casara. Em contrapartida, Goethe verberava a Schiller o vício do jogo das cartas. E nada disto perturbou o que para aqueles espíritos eleitos era o essencial. Essencial até à morte de Schiller, em 1805.
Se tens um amigo em que não confias tanto como em ti mesmo, ou é porque estás muito enganado, ou é porque não conheces a força de uma verdadeira amizade – disse Séneca. E mais recomendava a este propósito, que o amigo estudasse bem o amigo. Antes de estabelecida uma amizade tudo o que dizia respeito ao amigo deveria ser escrutinado e examinado; e depois de estabelecida a amizade mais dúvida nenhuma deveria subsistir de amigo para amigo. Bom seria meditar muito sobre a conveniência de receber a amizade de alguém, e desde o momento em que a decisão favorável fosse tomada essa amizade deveria ser recebida e cultivada de coração aberto, e os amigos poderiam falar um com o outro como se o fizessem para si mesmos.
Para além do dito sobre Goethe e Schiller, outras amizades chegadas são assinaláveis na História literária mundial. Robert Louis Stevenson foi íntimo de Henry James; Shelley foi íntimo de Byron; Tolkien foi muito amigo de C.S. Lewis. E de Kafka com Max Brod nem valerá a pena falar – se não existisse Max Brod, e a amizade dele, Kafka nunca teria existido para a literatura universal. Guy de Maupassant era amicíssimo de Gustave Flaubert, e só por piada Flaubert mencionava Maupassant como discípulo. E T.S.Eliot com EzraPound – de resto, Pound foi amigo de todos e abriu caminho às carreiras literárias de muitos deles, com a de Hemingway a ser provavelmente a mais espectacular. E James Joyce com Samuel Beckett (que também lhe funcionava como secretário). E Cesare Pavese com Italo Calvino. E Lorca com Rafael Alberti. E Borges com Bioy Casares.


E Gabriel Garcia Marquez (Gabo) com Mário Vargas Llosa, que é a grande amizade que principalmente aqui me traz sobre esta matéria.
E porque acontece na vida chamada real, na vida corrente das pessoas comuns, o que pode acontecer na vida literária, e que é aquela grande e longa amizade a certa altura poder, por isto ou por aquilo (ou por pouca coisa), transmutar-se bruscamente em venenosa inimizade.
Cervantes e Lope de Veja também começaram por ser amigos. Começaram por ser amigos e acabaram como exemplos do mais bilioso ódio pessoal.
Segundo a voz comum, foi Cervantes, por volta de 1602, que se sentiu mal quando Lope de Veja surdiu como um furacão na vida teatral da Espanha do século XVII, e com um êxito tão clamoroso que praticamente negou a Cervantes a hipótese de poder estrear obra teatral sua. Mas foram continuando amigos. Até às críticas acerbas e aos verrinosos ataques que Cervantes começou a disparar sobre as obras do ex-amigo. Constou, inclusive, que o burro montado por Sancho Pança era uma alusão ao rival.
Um amigo é como um segundo eu? Pois então, se com muita naturalidade e instinto começamos por ser o melhor amigo do nosso eu, certo é que, ao largo da vida, entramos não poucas vezes em conflito com esse amigo chamado eu. E, oh, quantas vezes esse amigo que tanto nos quer, e que por nos querer tanto não nos perdoa o mínimo deslize, nos aconselha o passo a dar e nós damos justamente o passo contrário; quantas vezes esse eu nosso amigo nos destina uma vida e nós acabamos por seguir a outra; ou, em suma, quantos de nós não seguimos a maior parte da nossa vida desajustados da nossa própria vontade e em conflito permanente (que muitas vezes acaba em violência e auto-destruição) com esse amigo que é o nosso segundo eu, quando ele tudo faz para ser o primeiro, oh, quantas vezes…
E não digo nada a respeito das inimizades levadas à prática, da marretada que o romancista Manuel Bueno aplicou um dia em Madrid ao dramaturgo Valle Inclán, porrada tão forte e tão feia que Valle Inclán teve que ser amputado. De Norman Mailer ficou para a pequena história literária o gancho de direita com que deixou Gore Vidal knock-out – compreende-se: Gore comparou-o a Charles Manson. A vontade de Mailer, uma espécie de meio-médio das letras americanas, era ir aos fagotes ao frágil Truman Capote, a quem andava com uma certa sede por causa da disputa da paternidade do romance sem ficção. Não lhe fez nada porque Truman, física e constitucionalmente estava mais para o lado da menina indefesa do que do matulão de barba rija. Mas desafiou para a pera um outro, William Styron, assunto de saias, parece-me. E nem digo nada do dia em que o colecionador de borboletas Nabokov e o crítico Edmund Wilson tiveram de ser separados por uns cavalheiros. E quem sabe mesmo se no verão parisiense de 1952 Albert Camus não teve vontade de administrar uma ou duas lamparinas bem assentes em Sartre? Ou o contrário. Ou as duas coisas. A polémica político-literária entre eles foi tão apaixonante que estava mesmo a pedi-las. A pedir, sim, isso, uma cena de batatada…

                                                                  
Mas agora estamos em Caracas e corre o verão de 1967, porque para bem contar esta incrível e triste história só ganho em recuar no tempo.
      Vargas Llosa nunca tinha ido a Caracas. Chega para receber o Prémio Rómulo Gallegos, o mais prestigiado galardão literário latino-americano, pelo romance A Casa Verde. Garcia Marquez está a poucos dias de publicar na Argentina Cem Anos de Solidão. Conhecemo-nos na noite em que ele chegou ao aeroporto de Caracas; eu vinha de Londres e ele do México, e os nossos aviões aterraram ao mesmo tempo. Não se conheciam pessoalmente. Só por carta. E mesmo por carta havia já um projecto literário falado entre eles, qualquer coisa como um romance a quatro mãos.
        Em Caracas há recepções, cocktails, dão-se entrevistas. Tenho por Mário uma devoção desmedida - declara Gabo, e declara mais, que a Casa Verde, o premiado romance de Mário, é um dos melhores romances que alguma vez se escreveram na América Latina. Mário considera as palavras do colombiano um prova de generosidade e sentido de humor, para lá da sincera amizade que os unia.
Nos primeiros anos da década de 60, tem que se dizer, o regime revolucionário cubano não era considerado propriamente uma ditadura, nem lembrara ainda a ninguém o quanto as ditaduras de esquerda poderiam aparentar com as de direita semelhanças desgraçadas.
Nesse verão de 1967, portanto, Mário Vargas Llosa ainda vivia em encantamentos com a revolução cubana. Ainda assim, uma experiência de poucos meses antes, em Londres, deixara-o de sobreaviso e constituíra uma antecâmara de descontentamentos e das distâncias que mais tarde viria a tomar para com o castrismo e a revolução.
        Vamos lá a ver se sou capaz de contar convenientemente a história – e sem magoar muito os eventuais leitores situados politicamente mais à esquerda.
    Haydée Santamaria era uma heroína da revolução, companheira da Sierra Maestra, e em 1967 com responsabilidades na política cultural de Cuba. Alejo Carpentier era o consagradíssimo romancista de El Siglo de Las Luzes, indefectível de Castro e nessa altura embaixador de Havana em Paris. E Vargas Llosa vivia em Londres, publicara A Casa Verde e fazia as malas para ir a Caracas receber o Prémio Rómulo Gallegos.
        Isso mesmo, malas já prontas, e Mário recebe um telefonema de Paris, de Alejo Carpentier. Carpentier tem uma mensagem para ele da parte de Havana. É uma carta enviada de Havana a Carpentier para ser lida (não entregue) por Carpentier a Vargas Llosa.


        E Carpentier vai a Londres de propósito, Vargas Llosa vai buscá-lo ao aeroporto e vão almoçar a um restaurante nas cercanias de Hyde Park. E Carpentier lê a carta, ou parte dela, a Mário. E Mário pensa: um estratagema para que daquela carta e da proposta que nela se continha não restassem quaisquer provas para a posteridade.
        Havana elogiava altamente a obra do peruano e notava que a outorga do Prémio Rómulo Gallegos era uma oportunidade magnífica para ele demonstrar a dedicação que apregoava à revolução através de um gesto, gesto esse que consistia em entregar o dinheiro do prémio, 25.000 dólares, a Che Guevara, por então em parte incerta. O gesto teria a máxima ressonância em toda a América Latina e seria uma preciosa iniciativa de propaganda revolucionária.
        Até aí, enfim, era como o outro, 25.000 dólares, está bem, faziam jeito a qualquer, e mais ainda a um escritor que vivia do que escrevia. Mas essa parte também estava prevista na carta de Haydée Santamaria. A revolução compreendia as necessidades materiais por que passavam os escritores. E como compreendia, a revolução comprometia-se a devolver discretamente o dinheiro a Vargas Llosa de modo a que ninguém soubesse da operação. O que sobretudo, e evidentemente, interessava à revolução era menos o dinheiro e mais, muito mais, a acção propagandística.
        Vargas Llosa deve ter-se agitado na cadeira.
        - Mas, Alejo, já viste o que me estás a propor? Vocês querem que eu entre numa farsa. Vou a Caracas e recebo o dinheiro do prémio: primeiro acto. Depois de Caracas, segundo acto, vou a Havana no papel do herói que faz a doação do dinheiro que ganhou à revolução. E no terceiro acto da farsa volto aqui para Londres e alguém da embaixada de Cuba vem secretamente a minha casa devolver-me o dinheiro. Como podem vocês fazer-me uma proposta destas?
        Não sei o que o outro respondeu. Sei que Vargas Llosa não foi daí abaixo com o negócio que lhe propunham e não entrou com um chavo para as obras caritativas do Che.

                                     
        
        Claro que Vargas Llosa ainda compreenderia o negócio se feito de modo linear: Havana sugeria-lhe que fizesse um donativo para as obras pias do Che; Vargas Llosa resolvia fazê-lo ou não; se o fizesse fazia, estava feito; se não quisesse fazê-lo não fazia e não se falava mais nisso. O que não podia levar à paciência e tomava como ofensivo era a manigância perpetrada à sorrelfa.
        E por estas tramas começa a desilusão do escritor peruano com o modus operandi da revolução castrista. E ele que julgava apoiar uma revolução que era toda ela pensamentos de liberdade, de generosidade, de lisura de processos, a revolução que se apresentara ao mundo como exemplo de solução de justiça social e de igualdade para uma América Latina que tanto delas precisava. E ele que tinha preparado para Caracas, como discurso de aceitação do prémio, uma inflamada apologia revolucionária…
        O discurso de Vargas Llosa em Caracas é,de facto, e apesar de tudo, um repositório contra a injustiça social, contra a desigualdade na América Latina, contra o imperialismo. É. Tal como é um manifesto com olor sartreano acerca do compromisso social e político do escritor. Literatura é compromisso com o real objectivo, literatura é denúncia dos males do mundo, literatura é aperfeiçoamento o Homem. Mas também, e antes de tudo isso, literatura é fidelidade cega do escritor à sua vocação pessoal.


        Talvez lhe tenha custado - ou custou de certeza - depois da mensagem transmitida em Londres por Alejo Carpentier, desfazer-se em elogios à revolução cubana – dentro de dez, vinte ou cinquenta anos terá chegado a todos os nossos países latino-americanos, como recentemente chegou a Cuba, a hora da mudança, a hora da justiça social, e então toda a América Latina se terá emancipado de um imperialismo que a tem saqueado e reprimido. Não iria ser nada assim, mas as palavras de Vargas Llosa foram gratas aos ouvidos do seu novo amigo, ou daquele que se afirmaria daí em diante como o seu melhor amigo.

        E o discurso de Vargas Llosa, Mário, é duplamente grato aos ouvidos de Garcia Marquez, Gabo, quando ele ouve as alusões feitas a um livro que praticamente ainda ninguém conhecia, Cem Anos de Solidão, mas que vai ser a maior bomba literária e editorial latino-americana de todos os tempos. Como ontem, como hoje, se o escritor ama a sua vocação, teremos de continuar a lutar as trinta e duas guerras do coronel Aureliano Buendia, nem que, como ele, sejamos derrotados em todas.
  Foi na convivência estreitíssima de Caracas e nas actividades literárias e sociais em redor do Prémio Rómulo Gallegos que Gabo e Mário conversaram de mais largo sobre o projecto invulgar entre grandes nomes literários de um romance a dois (a dois indivíduos e a mãos quatro, como na execução de uma peça para piano). Tratava-se de um romance sobre uma estranha e até então mal contada guerra em tempos havida entre Colômbia e Perú, em que os exércitos de um lado partiam a atacar o outro e se perdiam nas selvas.
      Pouco tempo depois, Mário é convidado para uma série de conferências em Bogotá versando o tema recorrente, a novelística latino-americana, e é mais uma oportunidade para o fortalecimento da amizade entre Garcia Marquez e Vargas Llosa. A Gabo não apetecia especialmente deixar Barcelona para ir botar discurso a Bogotá se lá não fosse acompanhado por Mário. Depois da saída dos Cem Anos de Solidão fiquei assoberbado por uma quantidade de trabalhinhos diários a ver se restabeleço as finanças, mas mesmo assim estou disposto a abrir uma brecha nesses trabalhos para estar uma semana em Bogotá, e isso só no caso de tu lá estares.


E estão ambos, de facto, em Bogotá a 12 de Agosto desse mesmo ano de 1967, cada um a seu jeito a falar a expectantes audiências universitárias sobre o fenómeno de que ambos já se afirmaram como os dois maiores protagonistas, o retumbante sucesso internacional da literatura latino-americana – ou o também chamado boom literário latino-americano, nada menos do que o êxito literário fulgurante e repentino de uns quantos romances de uns quantos autores geograficamente situados. A Casa Verde, Cem Anos de Solidão, Rayuela, A Morte de Artémio Cruz, Mário Vargas Llosa, Garcia Marquez, Julio Cortázar, Carlos Fuentes, aos quais se juntaram mais tarde José Donoso, Jorge Edwards, Guillermo Cabrera Infante e mais uns quantos; e os quais foram precedidos pelos da geração anterior, Miguel Angel Astúrias, Roa Bastos, Alejo Carpentier, Ernesto Sábato, Juan Rulfo, e de algum modo também (discutível) Jorge Luís Borges ou Pablo Neruda. Aos mais jovens ligava, é preciso dizê-lo, a afinidade ideológica, ou seja, o apoio entusiástico à nóvel revolução que rebentara no Caribe e auspiciava para as américas hispânicas beatos tempos de independência do capitalismo e do imperialismo.

                          


   
                                         
Mas Vargas Llosa, uns bons anos passados sobre as euforias primeiras, era muito lúcido acerca daquele fenómeno literário e ideológico da narrativa latino-americana a que chamaram boom. Ninguém sabe exactamente o que é – eu, em particular, não sei. Pode ser um conjunto de escritores, sem se saber exactamente quais, pois cada um tem a sua própria lista, que adquiriram de maneira mais ou menos simultânea no tempo certa difusão, certo reconhecimento por parte do público e da crítica. Talvez se possa chamar a isso um acidente histórico.


E numa entrevista já de 1969 Vargas Llosa conclui: existe, sim, uma grande amizade e isso é uma das coisas mais notáveis do que se chama de boom. É muito bonito que a maior parte de nós, os membros do chamado boom, mantenhamos uma relação pessoal de grande amizade, de verdadeira camaradagem. Foi de facto proverbial a estreita amizade entre os escritores que, ainda que em diferentes graus de importância no movimento, protagonizaram o boom da literatura sul-americana. Era uma relação de família. Era como se fossem todos primos.
Tal como em Caracas, em Bogotá, nem Mário nem Gabo tiveram mãos a medir para festas, recepções, jantares, colóquios, encontros com A, B e C, comemorações, entrevistas.
E sessões de autógrafos. Numa das livrarias onde essas sessões se realizaram havia centenas de exemplares do romance de Vargas Llosa ultimamente premiado, A Casa Verde, ao passo que do mais recentemente publicado (e já com a primeira edição esgotada) Cem Anos de Solidão havia menos exemplares. Enquanto Mário nunca mais acabava de autografar o seu livro, Gabo num instante esgotou os exemplares disponíveis do seu, e o que se passou em seguida foi cada um acabar a autografar também os livros do outro.
Patrícia, mulher de Mário, telefona de Lima: o segundo filho do casal está prestes a nascer. Mário, que estava a meio de um jantar, fica muito excitado e Gabo comenta que o seu amigo o que tem é medo de que o filho lhe nasça com um rabo de porco, uma vez que ele e Patrícia são primos co-irmãos.
Não quero para a América Latina um socialismo decalcado do socialismo dos países de Leste. Quero um socialismo que que me dê a faculdade de opinar. Não quero perder o meu direito natural de escritor à crítica e ao juízo sobre a realidade em todas as suas cambiantes – declarou Mário numa das entrevistas de Bogotá, em Agosto de 1967. Adiantava entretanto que não era um político, que não tinha partido, mas que enquanto escritor não prescindia de ter ideias políticas. O intelectual era por definição um analista da realidade, o que significava inconformismo militante, posto que a razão de ser da literatura residia no protesto e na contradição.
O compromisso do escritor? O primeiro compromisso do escritor era para com a sua vocação. Mário era inflexível neste ponto. No momento da criação o escritor não deveria ser guiado pelas convicções próprias mas principalmente pelas suas obsessões. E seria óptimo se ambas coincidissem.
Tudo indirectas de Mário para Cuba, já se percebe, depois do incidente da carta. O primeiro dever político do escritor era escrever bem; e não havia que exigir ao escritor que mostrasse na sua escrita que era um militante político, da mesma forma que a um sapateiro não se lhe podia exigir que os sapatos que fabricava tivessem conteúdo político.
A Gabo perguntam o trivial do que se pergunta aos escritores, porque escreve, para que escreve. Escrevo para que os meus amigos gostem mais de mim. Sim, era isso e mais por uma questão de subversão. Não conheço nenhuma literatura que sirva para exaltar os valores estabelecidos. O escritor estará sempre em conflito com a sociedade e usará a escrita como forma de resolver o conflito que tem com o seu meio. E ademais põe uma tónica interessante no tema da profissionalização do escritor latino-americano, questão nada despicienda, quanto a ele, no sucesso que à nova literatura das américas era reconhecido. De acordo com o seu amigo Mário, diria que o mais importante para o escritor era realmente seguir a sua vocação e que os leitores tinham compreendido essa dedicação total à escrita e à comunicação e tinham aderido, pelo que o boom literário das américas não era somente um boom de talentosos e dedicados escritores, era também, e de não menor importância, um boom de leitores.
        A 15 de Agosto, Mário regressa à sua cidade, Lima, e Gabo deixa-se estar em Bogotá por mais uns tempos antes de voltar a Barcelona.
        Garcia Marquez, um nómada natural, estabelece-se em Barcelona em Junho de 1967, chegado do México onde vivera e trabalhara em diversos biscates avulsos de jornalismo ou de guionismo cinematográfico. Vargas Llosa chegará a Barcelona três anos depois. A amizade entre ambos é já uma realidade consolidada, mas é em Barcelona que tal amizade se estreitará e se tornará famosa no mundo literário latino-americano.


        E para a amizade ser completamente efectiva e militante, Mário vai morar em Barcelona para o bairro de Sarriá, a um ou dois quarteirões da casa do seu amigo Gabo.


     Estava-se bem em Barcelona. Por aquelas alturas a ditadura franquista perdera muitas das suas arrestas repressivas. Barcelona era uma cidade de muito dinamismo cultural, onde se comia e bebia bem e onde se estava perto do mar. E em Barcelona Gabo e Mário não passavam um sem o outro. É em Barcelona que aquela histórica e indestrutível amizade (em que estavam naturalmente incluídas as respectivas mulheres e prole) se fortalece ainda mais e se torna lendária no âmbito dos novos narradores das américas hispânicas.
        Podiam ir todos almoçar ao La Puñalada, ir jantar à tortilleria Flash Flash, reunir-se na boite Boccaccio- onde também podiam aparecer JulioCortázar, José Donoso, Carlos Fuentes, Jorge Edwards, Goytisolo, o editor deles, o catalão Carlos Barral – ir dançar com as mulheres à noite, organizar festas privadas até às tantas, ir ao café todos os dias discutir o que vinha no Le Monde. E passearem mais ou menos incógnitos e tranquilos pelas ramblas. Mais ou menos incógnitos e tranquilos a princípio, note-se. Porque foi a partir de Barcelona, e pelos extraordinários ofícios de uma agente literária catalã, Carmen Balcells, que um e outro, Mário e Gabo, saltaram para a fama mundial.
E foi em Barcelona que Gabo se começou a sentir mal com essa fama.
A fama perturba o sentido da realidade quase tanto como o poder - viria a dizer Gabo pouco antes de ser Prémio Nobel. Chegado ao ápice do êxito um homem recorda os seus tempos de Zé Ninguém pobre, incompreendido, deprimido, rebelde. Mas também pode lembrar-se de que nessa situação achou forças, inspiração e motivação para realizar as obras que lhe viriam a proporcionar o êxito e a fama. Êxito e fama que mais tarde lhe podem roubar aquilo que antes o anonimato e a pobreza lhe deram, justamente a inspiração e a motivação para o trabalho.
        Depois do êxito estrondoso de Cem Anos de Solidão, Gabo sentiu-se mesmo mal com a fama. Pela minha parte, digo-te, estou farto até aos colhões de Gabriel Garcia Marquez, farto de leitores romanescos, de admiradores idiotas, de jornalistas imbecis, de amigos improvisados. Já me cansei de ser simpático e estou a aprender muito bem e depressa a nobre arte de mandar as pessoas à merda.


        Gabo podia ser a personagem mais complexa da troupe literária sul-americana. Mais complexa, mais difícil de trato. Era tímido e arrogante. Era amável e mal educado. Era cordial e era distante. Não estava disponível para fazer conferências ou dar cursos. Não frequentava os encontros literários nem participava em colóquios. Raramente saía de Barcelona para compromissos internacionais, em contraste com o amigo Mário, constantemente solicitado e correspondendo muito amável e profissionalmente às solicitações.
        Não há dia em que não tenha ao telefone dois ou três editores e outros tantos jornalistas. Sempre que é a minha mulher a atender o telefone tem que dizer que não estou. Se isto é a glória literária vou ali e já venho. É verdade. Um homem deixa de saber quem são de verdade os seus amigos. E vim eu para cá pensando que aqui ninguém me conhecia. De há dois anos para cá tudo o que saiu como sendo declarações minhas é palha. Tudo o que digo a um jornalista em duas horas ele reduz a meia página de insanidades. Um escritor não existe para fazer declarações. O escritor serve para contar coisas. Quem quiser saber as minhas opiniões que leia os Cem Anos de Solidão. São 350 páginas de opiniões.


Quando Gabo foi convidado a ir a uma universidade dos Estados Unidos pôs como condição que no jantar relacionado com o evento não fossem convidadas mais do que quatro pessoas.
Foi em Barcelona que Garcia Marquez começou a recusar prémios, distinções, condecorações. Até ao Nobel. E continuando pela mesma depois do Nobel.
E era um hipocondríaco de marca.


O paralelismo de vida de um e outro pode ter sido relevante na descoberta de afinidades e na construção de uma grande amizade. Um e outro foram criados pelos avós maternos; um e outro foram mimados na infância – que perderam aos dez anos, porque quer um quer outro foi tarde que vieram a conhecer os verdadeiros pais, e porque os pais de um e de outro não foi com bons olhos que tomaram conhecimento da vocação artística dos filhos; um e outro andaram em colégios religiosos e prosseguiram estudos em ambientes austeros e fradescos (Gabo) ou militares (Mário); um e outro se entregaram à escrita como quem busca um refúgio, ou como quem tem absoluta precisão de afirmar uma identidade em face de um mundo adverso, ou mesmo hostil; um e outro começaram por escrever poesia e um e outro publicaram um primeiro conto mais ou menos pela mesma idade; um e outro absorveram influências literárias parecidas, Dumas, Tolstoi, Ruben Dario, Faulkner, Borges, Neruda; um e outro começaram a ganhar a vida nos jornais de província; um e outro procuraram Paris muito novos, e um e outro, por extravagante coincidência, e ainda sem terem ouvido falar um do outro, vieram a morar, em tempos diferentes, num pequeno hotel do Quartier Latin, cujos donos, o casal Lacroix, lhes fiaram (a um e a outro, em tempos diferentes) as rendas dos quartos em época de grande aperto; um e outro viram as primeiras obras recusadas por editoras de Buenos Aires; um e outro acabaram por ser representados pela mesma agente literária, Carmen Balcells – a verdadeira e incontornável artífice de ambas as carreiras e de ambos os êxitos.
Meu irmão. És um bárbaro! Acabo de ler a tua nota sobre os Cem Anos de Solidão publicada por El Espectador de Bogotá e estou sinceramente aturdido. Creio que no mundo da amizade cabe um pouco de generosidade, mas não tanto, meu velho!


        A dedicação de Vargas Llosa não só à pessoa de Garcia Marquez mas igualmente à obra é caso pouco visto entre confrades e levá-lo-ia a ocupar dois anos da sua vida, entre 1969 e 1971, no estudo aturado da obra do amigo, produzindo um ensaio, ou tese de doutoramento, que viria a marcar significativamente toda a exegese em volta da obra do colombiano. História de um Deicídio. Nem entre as mais notórias amizades literárias se tinha visto tal coisa.
        Meu Querido Mário, gosto de saber que existes numa certa morada. Sou um mau correspondente, mas tranquiliza-me saber onde estão os meus amigos em cada momento. Deve-se isto à vocação transumante dos escritores latino-americanos, da qual eu também não estou a salvo, e que produz em mim uma desagradável sensação de desamparo.
        Cem Anos de Solidão tornara-se em meia dúzia de meses o romance da literatura hispânica mais vendido no século XX. Um romance que fascinou Mário ao ponto que já atrás disse. Aquele era o romance que Mário teria dado um braço para escrever. Tudo o que escreveste sobre mim me comove, sobretudo num mundo como o nosso, de oficiais do mesmo ofício onde só se não se puder é que não se dão umas caneladas.
        Desde as raízes do poder criativo e da vocação de Gabo até às influências ideológicas que recebera de alguns professores marxistas que teve, a aproximação a Marx, Engels, Lenine e ao estalinismo, passando pela paleta técnica deslumbrante, a análise feita por Mário da obra do amigo acabará por ser incontornável.
A literatura poderá melhorar a vida humana? Não há provas disso. Poderá embelezá-la, vamos lá. O que já não é pouco. Cem Anos de Solidão, segundo Vargas Llosa contribuiu para embelezar a nossa vida, raiou a utopia, é um romance total em que a magia, a lenda e o milagre se entrelaçam.


        A amizade e a proximidade entre Gabo e Mário foi de tal monta que não poucas vezes foram confundidos em ocasiões públicas, confundidos os nomes e confundidas as obras, e nem isso concorreu nem de perto nem de longe para os indispor um com o outro.
Interessante será notar que assim como o eclodir da revolução cubana foi, nos anos 60, o terreno humano, ideológico e psicológico ideal para o reavivamento literário na América Latina, despertando solidariedades, convidando a militâncias, também seria a revolução cubana a causa das desavenças que começaram por ser políticas e em muitos casos derivaram para a ordem pessoal, desiludindo os espíritos mais libertários, levando ao desfazer de algumas amizades. Porém não foi, ou não terá sido, o caso da profunda amizade entre Garcia Marquez e Vargas Llosa, e nem quando Gabo permaneceu fiel à revolução e respectivas vicissitudes e Mário se afastou dela em definitivo. A despeito das diferenças de ponto de vista, a amizade deles ficaria intocada.
     O fulcral dilema que a revolução castrista pôs aos escritores do boom tem início em 1968 e atinge o climax em 1971.
O caso Padilla.
     Heberto Padilla é um poeta cubano, e além de poeta é um fiel da revolução, um dos da primeira geração revolucionária que desempenha cargos políticos nas instituições culturais do regime.
Já nos anos ainda de juventude da mesma revolução, 1967, 1968, as posições oficiais e os discursos relativos à cultura e à intelectualidade cheiravam à légua a dirigismo. O que era como facadas para os intelectuais até então apoiantes de Castro. Pela revolução tudo, contra a revolução nada, era a consigna favorita de Fidel também em matéria de cultura. O que muitos interpretam rapidamente como um princípio de submissão das letras à política. O próprio Heberto Padilla, do alto do seu estatuto oficial, não fazia segredo: os escritores serão intimamente espiados e constantemente vigiados.


        Pois sim, o pior foi quando a palavra de ordem se voltou contra ele.
        Por uma tarde parisiense de Novembro de 1968, Juan Goytisolo, amigo dos do boom que por lá vivia, sai para tomar o seu aperitivo da tarde no Boulevard Bonne Nouvelle e folheia o Le Monde, e folheando o Le Monde lê: o órgão cubano das Forças Armadas denuncia as manobras contra-revolucionárias do poeta Heberto Padilla. E fica banzado.
       Padilla era acusado de delapidar (alegremente) fundos da empresa cultural estatal Cubartimpex; era um dos intelectuais cubanos que se deixara arrastar pelo sensacionalismo das modas culturais estrangeiras criando obras em que se misturavam a pornografia e a contra-revolução.
Espanto e confusão. E mais por se tratar de um escritor que a revolução muito havia mimado, nomeando-o para cargos de alta responsabilidade. O mal estaria num verso de Padilla em colectânea de poemas intitulada Fora de Jogo, que submetera a concurso num dos mais importantes prémios literários de Cuba, o Prémio Julian del Casal: por vezes era necessário que um homem morresse por um povo, o que nunca poderia suceder era que um povo inteiro estivesse condenado a morrer por um único homem.
Alusão a Fidel que as autoridades revolucionárias não poderiam jamais deixar passar impune.
Mas o livro sai vencedor do prémio.
A União dos Escritores e Artistas de Cuba sim senhor, aceita a decisão do júri, confirma a vitória de Padilla, mas congela o dinheiro do prémio e nega-lhe o visto para uma viagem a Moscovo. E faz mais: junta à edição do livro uma nota oficial - a nossa convicção literária permite-nos sublinhar que esta poesia serve aos nossos inimigos e o seu autor é um dos artistas de que eles precisam para alimentar o cavalo de Tróia no momento em que o imperialismo põe em prática a sua política de agressão bélica frontal contra Cuba.
Padilla era acusado de criticismo, a-historicismo, defesa do individualismo contra as necessidades sociais, falta de consciência das obrigações morais implícitas na construção revolucionária.
O livro é publicado, é verdade – respeitando um dos requisitos inscritos no prémio – mas não é distribuído nem vendido em nenhuma livraria. Apenas conhece uma circulação clandestina.
De imediato os escritores integrantes da nova vaga novelística latino-americana, com a autoridade que lhes confere a sua adesão de sempre à revolução, se mobilizam para um protesto em forma, consternados pelas caluniosas acusações contra o poeta, manifestando, não obstante, apoio às acções empreendidas pela revista Casa de las Américas na defesa da liberdade intelectual. Assinaturas de todos os grandes nomes da nova literatura latino-americana, à excepção de um, Garcia Marquez.
Resposta de Haydée Santamaria: como é que lá de tão longe, Paris, Londres, Barcelona, poderiam eles avaliar as acusações contra Heberto Padilla?
Para grande desgosto dos intelectuais, oito anos passados sobre a entrada triunfal em Havana, a revolução começava a redundar em estalinismo. Fanava-se a claríssima luz que para muitos deles chegara com a revolução.
E a revolução também não os poupava. Vargas Llosa era acusado de receber dólares dos americanos, a arma máxima do capitalismo contra os povos explorados. E era verdade. Vargas Llosa dera uns cursos de Literatura numa universidade dos Estados Unidos e, naturalmente, fora pago em dólares. E Mário era até aí um dos intelectuais mais considerados pela revolução, ele e Julio Cortázar. O contrário, por exemplo, de Garcia Marquez e Carlos Fuentes, de quem a revolução desconfiava. E, a breve trecho, dar-se-á também o caso de os amigos escritores apoiantes da revolução cubana começarem a desconfiar uns dos outros, até porque, também, para ajudar à festa e para cavar mais fundo as dissensões, acontece a invasão da Checoslováquia, o fim da chamada primavera de Praga. 
A partir de 1969, Vargas Llosa já não quer mais conversas com Havana, com a revolução. O caso do dinheiro do Prémio Rómulo Gallegos, as censuras por receber dinheiro dos americanos, o apoio de Cuba à invasão da Checoslováquia, o caso Padilla, bom, era matéria bastante para lhe fazer saltar a tampa. E tocavam-lhe no ponto mais sensível, a liberdade de expressão, na maneira de ver dele ainda uns furos acima, enquanto direito humano, da implantação do socialismo.
Quanto a Gabo, no seu retórico ziguezaguear proverbial, se estivera calado no caso Padilla insurgira-se contra a posição de Cuba no tocante à invasão da Checoslováquia. Esteve lá em Dezembro de 1968 e inteirou-se in loco da necessidade democrática numa Checoslováquia que estava a pontos de ser pioneira na realização prática do grande sonho marxista. Que em nome do comunismo a burocracia russa e o exército soviético tivessem assassinado o sonho marxista era de considerar um crime. Ou mais, uma tragédia.
Entretanto, Heberto Padilla é reabilitado. Passa um ano no desemprego. Escreve uma carta pessoal a Fidel Castro. Recebe resposta na forma e um lugar da Universidade de Havana. Em 1969 Heberto Padilla está de novo em alta, publica poesia, faz parte dos júris dos prémios literários. 
E no dia 20 de Março de 1971, Padilla e a mulher são presos por actividades subversivas.
Padilla passa trinta e oito dias atrás das grades. Os protestos da intelectualidade internacional chovem sobre Cuba. Os escritores do boom retiram publicamente o seu apoio à revolução. Os signatários, solidários com os princípios e finalidades da revolução cubana, dirigem-se a si, comandante Fidel Castro, expressando as suas preocupações pela detenção do conhecido poeta e escritor Heberto Padilla, pedindo-lhe que se digne examinar a situação a que tal detenção dará lugar. Todos assinam esta carta a Fidel. 
Todos menos um, Garcia Marquez.


Chamado à pedra por amigos signatários da carta, Gabo justificava-se com o extemporâneo da atitude. Goytisolo identificava no amigo Gabo o Garcia Marquez novo que estava a nascer, isto é, o grande estratega gestor do próprio talento e da própria carreira, mimado pela fama, solicitado pelos grandes deste mundo, promotor de causas “avançadas”.
Em Abril desse mesmo ano de 1971 aparece, difundida pela agência Prensa Latina, uma carta supostamente escrita por Heberto Padilla confessando os seus erros.
(Muitos anos passados, em 1992, Padilla admitiria que a sua carta de auto-crítica fora em parte escrita pela polícia cubana, em parte por certas pessoas que ele gostaria de poder identificar e não conseguira, e finalmente havia parágrafos que pelo grau de precisão e detalhe procediam da pena do próprio Fidel Castro.)
Mário é que escreveu directamente, e em nome pessoal, a Haydée Santamaria a cancelar o compromisso que assumira para dar um curso na Universidade de Havana e renunciando ao seu lugar no comité da revista Casa de las Américas. Acabavam-se os revolucionários tratamentos por “tu”.
Compreenderá que é a única coisa que posso fazer depois de conhecer o discurso de Fidel arrasando os escritores latino-americanos que vivem na Europa, a quem chama de canalhas, e aos quais proibiu a entrada em Cuba por “tempo indefinido e infinito”, tanto o irritou a nossa carta pedindo-lhe esclarecimentos pela situação de Heberto Padilla.
E Haydée Santamaria responde, a 14 de Maio de 1971. Traça um panegírico da revolução, nega torturas e pressões, acusa Mário de se ter passado para o inimigo, e noticia que Padilla foi outra vez reintegrado na vida normal e estava a trabalhar. E traz à baila o caso antigo do Prémio Rómulo Gallegos. Quando, em 1967, você quis saber a nossa opinião sobre a sua aceitação do Prémio Rómulo Gallegos, outorgado pelo governo venezuelano de Leoni, o que significava assassinatos, repressão, traição aos nossos povos, nós propusemos-lhe uma acção audaciosa, difícil e sem precedentes na História cultural das américas: propusemos que aceitasse esse prémio e entregasse o dinheiro ao Che Guevara e à luta dos povos. Você não aceitou a nossa proposta. Você guardou o dinheiro para si. Você recusou a honra extraordinária de poder contribuir, ainda que simbolicamente, para ajudar o Che Guevara.


E os intelectuais tão amigos do boom literário latino-americano dividiam-se agora em castristas e anti-castristas. A revolução os ligara, a revolução os separava.
Mas o mais sensacional escândalo político-cultural da latinamérica ocorreria no dia 27 de Abril desse ano de 71, na sala nobre da União dos Escritores e Artistas de Cuba, quando o próprio HebertoPadilla leu publicamente a sua auto-crítica, admitindo infâmias próprias e infâmias de outros confrades. Durou duas horas a sessão. Padilla forneceu nomes de artistas e intelectuais culpados (ou supostamente culpados) de actividades contra-revolucionárias. Alguns consideraram o acto como um dos piores momentos das suas vidas.
- Cometi muitos erros – disse Padilla -, erros imperdoáveis, censuráveis, inqualificáveis. Mas agora sinto-me leve, sinto-me feliz, depois da experiência que tive, por poder reiniciar a minha vida com o espírito com que a quero reiniciar. Fui eu que pedi esta reunião. Porque difamei e injuriei constantemente a revolução em conversas com cubanos e com estrangeiros. Fui muito longe nos meus erros e nas minhas actividades contra-revolucionárias. Fui injusto e mal agradecido para com Fidel e disso jamais cansarei de me arrepender.
Dizem que alguns dos intelectuais antes apoiantes da revolução, nomeadamente os que viviam em Barcelona, passaram a ser seguidos de perto e provocados e insultados por agentes dos serviços secretos cubanos. Não sei. Eles é que sabem. 


O que sei é que o texto de uma nova carta de protesto a Fidel foi longamente discutido. Comunicava-se ao comandante toda a cólera e toda a vergonha pela humilhante confissão a que Padilla fora obrigado, confissão seguramente obtida por métodos que negavam a legalidade e a justiça revolucionárias. Eram auto-acusações absurdas e delirantes. Era uma mascarada de auto-crítica que recordava os dias mais sórdidos da época estalinista. Com veemência igual àquela com que até então haviam defendido desde o primeiro dia a revolução cubana, que lhes parecera exemplar no respeito pelo ser humano e na luta pela sua libertação, os signatários incitavam Castro a evitar que Cuba caísse no obscurantismo dogmático, na xenofobia cultural, e no sistema repressivo que o estalinismo impusera aos países da área socialista. Só o desprezo pela dignidade humana poderia forçar um homem a acusar-se ridiculamente das piores traições.
Assinaturas muitas, sessenta e tal. Entre elas, Simone de Beauvoir, Italo Calvino, Marguerite Duras, Carlos Fuentes, Vargas Llosa, Juan Rulfo, Jean Paul Sartre, Jorge Semprún, Alberto Moravia, Pier Paolo Pasolini, Susan Sontag…
Faltava uma. Garcia Marquez. 


Mas reacções favoráveis à revolução naquele lance complicado também as houve.
A imprensa capitalista desenvolveu uma campanha caluniosa contra Cuba, na qual colaboraram algumas dezenas de intelectuais colonizadores e alguns colonizados de destrambelhada ideologia.
Não queremos publicar textos hostis. Os imperialistas já se encarregaram de os difundir copiosamente.
Bate no fundo o pecado original dos intelectuais e o carácter suspeito das cartas enviadas a Fidel.
Não se pode ser um escritor verdadeiramente livre para julgar uma revolução de longe, a partir das comodidades de Paris, Londres, ou Barcelona.
O chileno José Donoso dizia: creio que se nalguma coisa o boom latino-americano gozou de uma unidade quase total foi na fé que teve na causa revolucionária de Cuba, e também creio que a desilusão produzida pelo caso Padilla desbaratou essa unidade.
Garcia Marquez acaba por pronunciar-se. A favor de Fidel. A favor da revolução e, obviamente, no sentido oposto a todos os mais notórios dos seus companheiros das letras. Numa entrevista, Vargas Llosa é interpelado a pronunciar-se sobre as posições do amigo do peito e responde: não conheço de modo completo as declarações de Garcia Marquez e por isso não me vou pôr a interpretá-lo de forma assim expedita. Mas conheço-o suficientemente bem para estar seguro de que a adesão dele ao socialismo é como a minha, é a de um escritor responsável para com a sua vocação e para com os seus leitores, uma adesão que não é fanática nem incondicional.
Mas Mário, digamos, é admissível (pelo menos a acreditar nos comentadores) que se começasse a sentir incomodado, não tanto, possivelmente, com o eventual erro de percepção do amigo, e mais por ser a primeira vez que entre ele e o seu melhor amigo ocorria um desencontro político-ideológico de maior latitude. Gabo perfilava-se como o melhor advogado de Fidel e da revolução pela qual Mário se sentia traído.
Gabo insistia no que a revolução fizera de bom, de excepcional. No plano da saúde pública e da educação a obra da revolução não tinha paralelo com qualquer outro país latino-americano. Erros? Sim, claro, havia-os. Mas era gritante injustiça opor-se ao conjunto dos sucessos revolucionários apenas por ter havido um ou outro erro.
Todavia, Gabo não podia pretender absolver Fidel e a revolução sem correr riscos de romper com os seus grandes amigos escritores.


Aliás, é preciso que se torne amigo pessoal de Fidel para que Gabo inicie uma relação amistosa efectiva com a revolução cubana. E isso só nos anos 70 – concretamente 1975. Até então tinham sido indecisões, ambiguidades, saltitâncias, reservas (do lado dele e do lado mesmo da revolução), inconstâncias. Ora pelos anos 70 já Mário se vinha embora definitivamente de Cuba, de Castro e da revolução socialista.
        Convirá dizer que Gabo vivia fascinado pelos poderosos. Eu digo literariamente, psicologicamente. E fascinado no sentido de lhes penetrar a mecânica da ambição, do arbítrio, do irreprimível desejo de se perpetuarem num poder à custa fosse do que fosse. E talvez por isso não descansou enquanto não se fez amigo de Castro.


  E em 1974 Mário Vargas Llosa resolve deixar Barcelona e regressar à cidade natal, Lima. Grandes mágoas e grandes festas de despedida, etc., etc..
        Garcia Marquez deixa Barcelona por volta de 1982. Vai instalar-se outra vez no México.


       Porém, vivendo então, ainda, em Barcelona, no dia 12 de Fevereiro de 1976 Garcia Marquez estava no México. E Vargas Llosa também. Já não se viam há tempos. Desde que Mário deixara Barcelona.
        No dia 12 de Fevereiro de 1976 está marcada para o Palácio de Bellas Artes da cidade do México uma sessão de cinema para convidados. Vai ser apresentado o filme A Odisseia dos Andes, de um certo René Cardona (de quem nunca ouvi falar) a contar a história do acontecido uns anos antes: o avião que transportava a equipa uruguaia de rugby despenhou-se nos Andes, doze morreram e os que sobreviveram caminharam setenta e dois dias na neve e alimentaram-se dos cadáveres dos companheiros mortos.
        Gabo está ansioso por chegar ao Palácio de Bellas Artes e voltar a abraçar o seu grande amigo Mário. Quando lá chega, nota que Mário já esta sentado na plateia, acompanhado pela mulher, Patrícia.
Gabo levanta-se do seu lugar, desce uns metros de coxia, abre os braços e o largo sorriso para Mário. Grita: Mário! Mário, que por seu turno se levanta para acolher o abraço do amigo de tantos anos, não acolhe abraço nenhum e ao amigo de tantos anos prega um murro na cara, um valente murro nas trombas. E murro é ele que Gabo se estatela ao comprido, inconsciente.


Gritam as mulheres. Confusão. Depois do soco, Mário dá meia volta estende o braço a Patrícia, diz Patrícia, vamonos, e desembesta plateia fora. Esta é uma versão. Outra: Mário aplica o gancho e diz isto é pelo que fizeste a Patrícia em Barcelona. Outra versão ainda: Mário levanta-se vê Gabo de braços e sorriso abertos para ele, diz como te atreves a vir cumprimentar-me depois do que fizeste a Patrícia em Barcelona?, e vibra-lhe o soco. E há ainda quem troque a palavra de Mário fizeste por disseste, o que daria como te atreves a vir cumprimentar-me depois do que disseste a Patrícia em Barcelona?; ou,isto é pelo que disseste a Patrícia em Barcelona. E até houve quem jurasse a pés juntos que Mário não levou Patrícia nenhuma embora dali porque Patrícia não estava lá.


O primeiro cuidado das mulheres presentes foi ir a uma tenda ali perto comprar um hamburger e po-lo na cara inchada e sangrante de Gabo – o olho esquerdo estava em estado lastimoso. E ninguém sabe dizer se a sessão de cinema se realizou ou não depois de tão insólito incidente.
Bolas, que diabo, eram amicíssimos desde 1967! As vias ideológicas que um e outro seguiam separaram-se, é bem certo, mas isso nunca lhes tinha entrevado a amizade pessoal.
E depois foi o silêncio. Em mais de quarenta anos, até hoje, segundo sei, nunca mais os dois amigos trocaram uma palavra, um bilhete, uma referência explícita. Nem um nem outro deram satisfações sobre o que se passou e porque se passou.
Mercedes, mulher de Gabo, leva-o a casa de um conhecido que é fotógrafo. O fotógrafo fica para morrer com o espectáculo de sangue e inchaço da cara do grande escritor. Mercedes quer que ele tire umas fotografias ao marido para que se faça prova da agressão cobarde do falso amigo. E enquanto o outro bate umas chapas, Gabo, à guisa de vaga explicação, vai dizendo que aquilo é a consequência das diferenças políticas entre eles, e dado o caso de o ex-socialista e ex-castrista Mário Vargas Llosa estar a deslizar com inacreditável rapidez para os braços da direita radical; enquanto ele, Gabo, mantém a sua fé nas causas da esquerda, da revolução e do socialismo. Mercedes, irada, é mais loquaz:
- Gabito foi ter com ele de braços abertos e gritou: Mário! Foi a única coisa que teve tempo de dizer como saudação, coitadito. Mário recebeu-o com um golpe em cheio na cara que o atirou ao chão e deu no que vocês estão a ver. Não fomos ao hospital para evitar o escândalo nos jornais. Aplicámos pedaços de carne crua na cara para absorver a hemorragia. Aquele Mário é um ciumento estúpido…


Um ciumento estúpido? Querem ver que… querem ver que foi caso de saias? Querem ver que lá em Barcelona Gabo terá apalpado Patrícia? Querem ver que lá em Barcelona Gabo fez uma ou outra proposta menos asseada a Patrícia?
Nunca se saberá.
No geral, as opiniões dos amigos incidem sobre as diferenças ideológicas. O que me parece pouco. E as testemunhas presenciais foram unânimes: o nome de Patrícia foi pronunciado. Gabo teria dito em Barcelona alguma coisa a Patrícia que esta só mais tarde terá revelado ao marido. Dito ou feito. Nada a ver com política. Aparentemente.
Anos passados, instada a pronunciar-se sobre uma possível reconciliação entre os que ainda são os dois maiores autores latino-americanos da actualidade, Mercedes dirá que tal coisa nunca seria possível.
- Vivemos tão felizes sem ele nestes tantos anos que é evidente que não precisamos do Mário para nada.






        

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

CARPE DIEM 4

        
          Já houve tempo em que eu pedia aos meus santinhos e ao meu conceito altamente estilizado de Deus que me desse juízo e lucidez até à hora da morte. Ultimamente não tenho reforçado os meus pedidos. Ou sim, talvez tenha, mas só um pouco. Juízo e lucidez até uma certa hora.  Ou até certo ponto. Ou até certo grau. Tenho sabido de situações de degradação pessoal a que não gostaria de assistir lucidamente quando fosse a minha vez. Situações que acho melhor delas não vir a ter uma consciência muito aguda. Nesse caso será melhor reverter para o intrincado complexo das sombras mais íntimas. Até à hora da morte.  


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

                             CARPE DIEM 3

    Oito bombeiros mortos a combater os incêndios de verão. Oito jovens bombeiros (rapazes e raparigas) mortos ao serviço da comunidade.


Ou oito bombeiros imolados em bárbaro sacrifício humano no altar dos grandes negócios (aluguer de aviões e helicópteros, papeleiras, madeireiros, construção civil) que podem pagar campanhas eleitorais em troca de incentivo, protecção, impunidade e todas as demais facilidades por parte dos governos eleitos.



E eleitos (por nós!) exactamente por isso e para isso, para incentivar, facilitar, proteger e condescender com os grande negócios que (dizem) fazem crescer a economia (que nunca cresce suficientemente) seja a que preço for, incluindo vidas humanas. É para isso que têm servido os governos que elegemos, é essa a missão principal deles, facilitar os grandes negócios. De caminho pode ser que cumpram mais uma ou outra missão. De caminho. Às vezes lá calha… 


terça-feira, 10 de setembro de 2013

     CARPE DIEM 2

O jornalista italiano Domenico Quirico, raptado na Síria e recentemente libertado, contou hoje à RAI que advertiu claramente ausência total de misericórdia e a presença do Mal, do grande Mal, e do prazer do Mal e do Negativo absoluto como linhas dominantes do conflito sírio.  


segunda-feira, 9 de setembro de 2013

CARPE DIEM 1

          O secretário geral  Seguro diz hoje que Portugal, devido às políticas do governo PSD-CDS, começa a regressar à miséria e à pobreza que existia antes do 25 de Abril.


         É capaz de ser muito verdade. Só não sei é se a culpa total estará bem atribuída. Só não sei é se esta conversa não será apenas conversa passageira e pré-eleitoral (e isso também é, de certeza).
         Mas o mais triste pode ser pensarmos que essa miséria e essa pobreza (como essa tristeza e esse queixume) são parte do nosso destino, da nossa natural pequenez de recursos, do acanhamento mental dos nossos dirigentes. Triste será pensarmos que essa miséria e essa pobreza nos são atávicas e que só possamos sair delas através de orçamentos de Estado fantasiados, de dívidas soberanas eternamente impagáveis, de falências disfarçadas, de prosperidades falsas e artificialmente aumentadas e vigarizadas para ganhar eleições e dar emprego de luxo aos correlegionários, de demagogia, de populismo, de oportunismo… e de muitas outras das mentiras em que temos acreditado e em que temos caído que nem patinhos.

         Mas lá que é esse o nosso horizonte, isso é.   


domingo, 8 de setembro de 2013

                  FAZER O GRANDE FILME

     Custa-me perceber a existência de cinéfilos sinceros que detestam o Woody Allen. Existem, eu sei, mas custa-me perceber-lhes a existência. Sim, cinéfilos sinceros, antigos (digo antiguidade no serviço da cinefilia, não necessariamente velhos). E estaria eu para aqui em jeitos de pensar que esses só poderiam gostar do Woody Allen e do referencial cinéfilo genuíno, humorado e memorial que há no Woody Allen. A dúvida que ponho é a de serem ou não cinéfilos sinceros os que odeiam o Woody Allen, os que não o podem ver nem pintado. Ou mais longe na dúvida: a de esses serem ou alguma vez terem sido cinéfilos. Verdadeiros. Sinceros.
       Posso admitir a existência de um cinéfilo daqueles antigos no serviço, e sincero, que sinta impedimentos com o humor. Custa-me, mas posso admitir. Ou que não tenha mesmo sentido de humor – quero eu dizer, aqueles que chumbaram na disciplina do Humor nos seus tempos juvenis de frecheiros do cinema, nos seus tempos de aprendizagem da cinefilia. Cinefilia, diria eu, que foi uma escola de humor, não tenho a mais pequena dúvida. Uma escola que ensinou os diversos tipos de humor que era necessário cultivar para se viver bem a vida, e para se apreciarem certas pessoas, certas situações, e certos filmes, claro, estabelecendo as marcantes diferenças.
       Marcantes diferenças de humor. Gradações múltiplas do riso. Boa. Diferenças de Totó para Cantinflas; de Bucha e Estica para Harold Lloyd; dos Irmãos Marx para Abott & Costello; da série Carry On (Com Jeito Vai) para Norman Wisdom; de Fernandel para Louis de Funés. Ou, sofisticação por sofisticação, nas distancias entre criadores tout court, mas criadores bem humorados. O que há entre Chaplin e Buster Keaton? O que há entre Ernest Lubitsch e George Cuckor? Que se passa entre Dino Risi e Ettore Scola, ou entre este e Monicelli? O que é que vai (ou não vai) de Billy Wilder a Mel Brooks, de Fellini a Jacques Tati, de Hitchcock aos Monthy Python?
       Noutro tempo era preciso apurar tudo isso – de preferência sem teorizar. Eram matérias que sincera e automaticamente o velho e honesto cinéfilo aprendia nos cinemas e podia identificar na vida corrente, em casa e no emprego. E era muito aprendido nos gloriosos cinemas de reprise (Lys, Paris, Chiado Terrace, Cinearte, Salão Ideal do Loreto, Palatino, Europa) ou nas sessões clássicas do fim de tarde de alguns cinemas de estreia.
       Bem, vamos lá a ver uma coisa importante: uma coisa é ir ao cinema de vez em quando, outra, completamente diferente, é ser cinéfilo, cinéfilo sério e responsável, com honesto e sincero sentido de humor.
       Sei de cinéfilos sinceros que depressa se tornaram pessoas cultas e que como pessoas (ditas) cultas a certa altura deram em preferir o drama ou o filme que escarrapachadamente lhes falava de política. A vida tornava-se séria, é verdade. 
  Outros cinéfilos primeiramente sinceros decidiram-se a certa idade, e por influência de certas companhias, pelo estético, e não havia Dreyer nem Bresson nem Ophüls, nem Jean Vigo, nem Straub, nem japonês, nem russo velho, nem doutor caligari que lhes escapasse. Até verdadeiramente chegarem aos psicóticos orgasmos bergmanianos. O sério. O importante.
E demasiados cinéfilos sinceros, quer dizer, naturalmente dotados daquela condição de infantilidade necessária para se ser sincero seja no que for e até como espectador de cinema, pois, e até muitos desses deram em cinéfilos sérios.
É preciso ver que a minha reminiscência cinéfila remonta a anos 50. Já se tinha percebido. Anos 60, ainda. Porque pelos Seventies os cultos cinéfilos transferiam as suas sinceridades para aqueles filmes italianos, por exemplo, que afrontavam directamente e com mais ou menos humor os problemas da corrupção política transalpina; ou aqueloutros franceses que podiam debruçar-se sobre os atentados na Grécia dos coronéis ou na América Latina dos generais. Os intelectuais encartados iam dizendo que todo o filme era político tratasse ele do que tratasse, mas os sinceros e doravante cultos cinéfilos só entendiam político o filme que lhes pespegasse os casos mesmo diante dos olhos, sem subentendidos ou subtilezas.
Cinéfilos sinceros. Mas afinal que diabo vem a ser isso? Não sei. Foi uma expressão que inventei agora mesmo como arranque para um assunto de cinema de que me apeteceu falar, e como princípio de conversa de velhadas saudosista de merda. Saudosista, sim!. Antigamente é que era bom. Duvidam? Então duvidem. Mas era. Nisto de cinema não tenham dúvidas de que era.  
O que é ser sincero? O que é ser cinéfilo? O que é, ou quem é, esse cinéfilo menos sincero, ou completamente falso a que me refiro?
Tenho uma solução pessoal para estes magnos problemas que levanto e que afectam as noções civilizacionais que tenho. E solução tão pessoal ela é que pode bem ser considerada um disparate.
Cinéfilo honesto e sincero é o cidadão que começa muito novo a cultivar o vício do cinema – sim, vício – cinema visto no cinema e não no televisor. O que começa cedo, mesmo muito cedo, a ir ao cinema para saciar a fome de ficção que a vida real dá. E que nem todos sentem, é certo. Mas que muitas vidas sentem desde a infância mais suave das histórias para adormecer ou para comer a sopa, as histórias que se gosta de ouvir repetidas duas, três, mil, vezes, e quando instintivamente se sabe que uma história contada nunca pode ser repetida, porque se o plot básico e acontecimental pouco pode variar, as voltas da narrativa, as palavras usadas, as imagens inventadas aumentam exponencialmente as possibilidades ficcionais desse plot básico e podem fazer de uma história já com barbas uma história nova. E cá está a tal condição de infantilidade de que falei atrás.  
Cinéfilo sincero. Que pepineira. É o que começou a ir aos tais heróicos cinemas de bairro (Promotora, Olimpia, Restauradores – também conhecido por Galo – Arco Íris, Arco de Bandeira, Rex, Salão Lisboa, Imperial) e aguentou louco de prazer os dois filmes da sessão. É o rapaz que se entusiasmou com o primarismo docemente violento dos westerns, antes, muito antes, de lhe terem falado do John Ford. É a rapariga que lacrimejou nas suas primeiras comédias românticas. O cinéfilo sincero e honesto e genuíno começou a ir ao cinema pelo menos duas vezes por semana para ver indiscriminadamente filmes, os da acção e os da melancolia, os bons, os bestiais e os barretes, sem exigências, sem preconceitos. Ver, ver. Viver idealmente por hora e meia/duas horas as histórias que lhe apresentassem, sem cuidar de minudências, de estéticas, de nomes de realizadores (ou até sem saber ao certo o que eram realizadores), apenas simpatizando mais ou menos com actores e actrizes.
E cá está: Woody Allen chegou a ser o cinéfilo quase perfeito. Eu cresci a ir ao cinema – é o que ele diz -, cresci com a paixão do cinema. Mas, infelizmente, nos tempos recentes já não se pode dizer que existe uma cultura cinematográfica – continua ele a dizer. Já ninguém espera ansiosamente pelo último Bergman, pelo último Truffaut. Esse cinema é um fenómeno que deixou de existir. Os excelentes realizadores que vão aparecendo têm que lutar muito, tanto que que podem vir a desistir de fazer filmes.
Foi quando se meteu às livralhadas que o pobre cinéfilo apaixonado, honesto e desprevenido – e sincero – evoluiu para a cultura cinematográfica. Tornou-se culto, foi o que eu disse. Começou a erigir barreiras ao seu vício, arriscando-se a perder o vício do cinema e a contraír outro, o de pensar – como disse alguém, já não me lembro quem. Começou a discernir diferenças, o que era nouvelle vague francesa, o que era o free cinema inglês – ou novas histórias, ou simplesmente as mesmas, apanhadas de outros pontos de vista, ditas por outras e mais lentas e abundantes palavras e imagens – o expressionismo, o realismo, o neo-realismo, cinema velho (Eram Duzentos Irmãos, Pão Amor e Totobola, Sarilhos de Fraldas, Rapazes de Táxis, A Última Pega, O Homem do Ribatejo), cinema novo (Verdes Anos, Domingo à Tarde, Belarmino, Mudar de Vida, Abelha na Chuva), aturar os russos, incorrer nos japoneses, abrir a boca ao Eisenstein, ao Kurosawa, ao Mizoguchi, deixar de chamar cobóiadas aos filmes do John Ford, levar em cheio com um Bergman difícil, com um complicativo Antonioni, babar-se de estética com as visões do Fellini, dormitar sobre o historicismo materialista-dialéctico do Visconti (e por causa disso ver jeitos de aderir qualquer dia ao marxismo), apreciar aquilo em que nunca tinha reparado mas que as leituras lhe disseram ser um enquadramento, fazer por gostar das cinematografias marginais, exóticas, georgianas ou iranianas, ser habitué da Cinemateca no tempo de ver filmes checos, falados em polaco e legendados em húngaro...
Ah, mas no centro operacional do seu instinto cinéfilo nunca poderia deixar de estar o encantamento de uma sala escura, o gozo de uma história com pessoas de luz a conviver com ele num grande écran que o fazem rir, que o comovem às lágrimas e que o conservam puro.
Está mais que visto que todo este meu arrazoado fica ferido de credibilidade pelos circunstancialismos geracionais. Um gosto pelo que já não existe. Espero que se perceba. Saudosista sim. Antigamente é que era bom. Não tenham dúvidas. Falo de cinema. E o Woody Allen também fala: não existe mais uma atmosfera cinéfila como aquela que nos levava a sair do cinema e a querer continuar a falar do filme por uns dias.
Ir ao cinema era um dos maiores prazeres da vida do Woody Allen muito jovem. Começava por adorar o ritual, olhar para as bonitas mulheres, ouvir as conversas, sentir as expectativas que cresciam até ao apagar das luzes e ao começar do filme, Se eu gostava muito do filme ficava impaciente e ansioso por regressar a casa e comunicar aos amigos o que tinha visto e o prazer que me tinha dado ver aquilo. Hoje é tudo diferente. As pessoas compram ou alugam um vídeo, um DVD, e vivem o cinema de outra maneira. Uma maneira de viver o cinema que, devo dizer, não me interessa muito.
Woody Allen chora lágrimas de sangue pela perda dos seus ídolos de juventude. Bergman morto, Buñuel morto, Kurosawa morto, Fellini morto, De Sica morto. E recorda deliciado os tempos em que sonhava vir a ser um deles, um daqueles.
(Antigamente é que era bom, digo-vos eu.)
O cinéfilo que na minha parvoíce delirante acusarei de menos sincero é um cinéfilo de fresca data, ou um tipo culto de outras culturas (literárias, principalmente), oriundo de outros pensares e de outros viveres. Se me apetecesse poderia chamar-lhe cinéfilo académico. Ou amador de rótulos, de escolas, de catálogos e de carimbos. Científico e aparentemente sério, seriíssimo. E com dificuldade em deixar-se levar no gratuito e no porque sim de uma gargalhada, ou naquela emoção cuja raiz sócio-cultural não descortinou às primeiras, sentido profundo, mensagem ideológica, momento histórico, recorte estético. É, deve ser, esse o cinéfilo renitente com o Woody Allen. É esse o cinéfilo que só vai ao cinema na condição de poder assistir a grandes filmes. Ou que vai ao cinema para passar o tempo, como poderia ir ao Jardim Zoológico ou ao Museu da Água.
Grandes filmes? Esses grandes filmes que Woody Allen não conseguiu fazer nem um. É o que ele diz. Não quer dizer que eu concorde com ele.
Mas é mesmo aqui que eu quero chegar ao falar de Woody Allen – já tardava. Woody Allen, cineasta algo menosprezado na sua terra (eventualmente por nunca ter feito o que ele considera um grande filme), ao mesmo tempo que cultuado na Europa; o cineasta que confessa a sua pena por isso mesmo: nunca ter conseguido fazer o chamado grande filme.
E cá voltamos à mesma das perguntas estúpidas. Que é isso de um grande filme?
Woody Allen não passava de um monologuista cómico de cabaret, um vulgar inventor de piadas, antes de entrar (impetuosamente) nos meios cinematográficos. Subiu a seguir um furo, para o estatuto de autor-actor de comédias da Broadway, relativamente poucas, subindo outro furo e atingindo o estatuto de autor-realizador-actor de comédias inteligentes (o adjectivo é por minha conta) para o cinema que corria à margem das veredas de Hollywood. Subindo finalmente outro furo como autor-realizador de umas quantas comédias dramáticas – e de pelo menos um filme a que poderei chamar de drama retinto, o bergmaniano Interiors.

Foi – e é – um artista que ao longo da carreira teve as mais variadas oportunidades e os meios e condições de diversa ordem mais do que razoáveis para fazer um grande filme. E nunca o fez. Por falta de talento? Não, certamente. Então porquê? Por ser preguiçoso. 
Diz lá, Woody, diz lá aqui à rapaziada pelas tuas próprias palavras como é isso. O que eu quero é realizar um filme reduzindo ao mínimo os tempos de espera. Tínhamos uma câmara manual e usávamos essa câmara. Eu mandava cortar quando me dava na cabeça mandava cortar e montava os bocados de fita como calhava – morde aqui a ver se eu deixo, como se eu acreditasse nessa, Woody -, sim, sempre sem demasiadas preocupações estéticas, é o que eu quero dizer. Realizei filmes sem qualquer consideração pelos manuais do bom realizador. Fiz tudo rapidamente, sem esforço. A minha prioridade era chegar cedo a casa para ter tempo de praticar no meu instrumento, ver o futebol na televisão, estar um bocado com os miúdos e jantar.
Conclui ele que o único obstáculo que se interpôs entre o trabalho e a grandeza cinematográfica foi ele próprio. Por muitos anos lhe ofereceram os meios e a liberdade de realizar o tipo de filme que entendesse, musical, policial, comédia, drama. Não havia desculpas nem justificativas para nunca ter feito um grande filme, o grande filme. Ninguém lhe exigiu que tratasse este ou aquele tema. Ninguém exigiu ler previamente um script dele. Ninguém nunca lhe quis fiscalizar os rushes ou a montagem. Ninguém alguma vez o proibiu de contratar este ou aquele actor.
Vai para trinta e cinco anos que tenho carta branca e nunca rodei um grande filme. Parece indiscutível que não é esse o meu registo. Diz que lhe faltava a profundidade (aí está, sei lá, porque alguns cinéfilos, ou cultos, ou daqueles que vão ao cinema de vez em quando ver não importa o quê, embirram com ele), aquela profundidade visionária que é precisa para fazer um grande filme. 
Eu não sou daqueles que dizem para si mesmos quero fazer um grande filme custe o que custar, nem que seja preciso trabalhar de noite, nem que seja preciso viajar até ao fim do mundo. Não, não é para o meu feitio. Nada tenho contra o fazer o grande filme, desde o momento em que isso não venha interferir com a marcação de mesa que fiz no restaurante.
E levantam-se ainda outros impedimentos, quais sejam o de em 90% dos casos o que ele concebeu na fase de escrita ser muito melhor do que o que ele consegue realizar no plateau. Assim que do papel passa à realização a preguiça e os erros por negligência tomam conta das operações e arruínam-lhe um material cheio de possibilidades teóricas.
Quantas vezes não ouviu ele a um assistente ou a um chefe operador dizerem olha, com outro realizador esta cena levava pelo menos dois dias a filmar, quantas vezes? E o que lhe acudia prontamente à ideia era não lhe apetecer nada levar horas esquecidas a rodar a tal cena com os três ou quatro actores que nela entrassem, fazer uns quantos enquadramentos a dois, outros tantos a três, um grande plano, um contracampo, o que significaria ficar no set aquele mesmo dia inteiro, o outro, e talvez ainda o outro.
Não tenho paciência nem capacidade de concentração para tanto. Não consigo estar a ouvir horas e horas as mesmas deixas ditas pelos mesmos actores. Antes quero fazer a cena com relativamente poucos movimentos da máquina e meter neles todas as informações que quero fornecer aos espectadores, acabar depressa e passar à próxima cena.

 E foi isso que ele diz ter-lhe conservou a saúde mental ao cabo de tantos anos de cinema. E é por isso que ao cabo de tantos anos de cinema ainda não lhe sobreveio aquela grande sensação de aborrecimento.
E ainda há, dito por ele, outras coisas, outras circunstâncias impeditivas da realização do grande filme de Woody Allen. Uma delas é o facto de fazer comédias. Embora a comédia seja um género difícil, mais difícil, de fazer do que o sério, também tem um menor impacto e é menos valorizada do que o drama. Porque quando a comédia aborda um assunto o deixa irresoluto; enquanto o drama vai ao fundo do assunto de forma mais satisfatória no plano emotivo.
Não, amigos, a comédia nunca será valorizada ao nível que o pode ser A Morte de Um Caixeiro Viajante, ou Um Eléctrico Chamado Desejo, ou A Longa Jornada Para a Noite, ou o Sétimo Selo, ou o Potemkin. Estás a realizar uma comédia e dá-te vontade de tratar como deve ser da fotografia, e é quando sentes nas tuas costas o monstro do ritmo que precisas aguentar para teres piada…
Woody navega pelas águas em que mergulhei não sei quantos parágrafos atrás. A civilização do cinema, como outras, presentemente, caiu no descrédito, agoniza; essa civilização do cinema que era alimentada, cultivada, pelo público dos cinemas de bairro. Woody chegou a ter vontade de fazer um filme sobre esses antigos cinemas de bairro que frequentava em pequeno e em adolescente, os cinemas de Brooklyn, os cinemas em que vivia grande parte da sua vida desses verdes anos, levando miúdas, conhecendo miúdas, engatando miúdas. Porque nesses anos só coisas bonitas eram associáveis ao cinema e à vontade de lá ir. O cinema era o mundo, um outro mundo. Em certo sentido dava a sensação de se entrar num templo. Ou no paraíso mesmo. Chegava-se a pé pelas ruas que confluíam para a Avenida J, desembolsavam-se os vinte cêntimos, entrava-se, e de repente estava-se defronte de um écran enorme onde apareciam James Cagney e Betty Grable…
Antigamente? Oh, antigamente! Antigamente é que era bom. E Woody Allen está comigo. Hoje ainda, ou amanhã, ou depois de amanhã o mais tardar, os rapazes, ao frequentarem a sua relativa nostalgia pelos tempos de juventude e pela civilização do cinema dirão é pá, era tão bom, encontrávamo-nos à sexta-feira, vestíamo-nos à maneira, comprávamos umas cervejas, alugávamos um DVD…  
Desculpem o mau jeito mas tenho de me repetir: antigamente é que era bom.
Falo de cinema.
Mas talvez pudesse falar de outras coisas possíveis de desembocar no cinema…

Ou vice-versa.