sexta-feira, 18 de outubro de 2013

         ESTÁS NA MINHA LISTA NEGRA, DIZ A ZEBRA
         PARA O MOSQUITO
                  (PARTE III)

            - Compreendo, senhor presidente, a filosofia que está na orígem da sua pergunta, mas gostaria que o senhor compreendesse a minha – disse Arthur Miller no dia 21 de Junho de 1956.
            - Estamos-lhe muito agradecidos pelo seu testemunho desses encontros que teve com escritores comunistas, mas só gostaríamos de saber quem participava neles, além de si, senhor Miller…
            

       
        Sim, um dos mais famosos e importantes dramaturgos americanos e mundiais também não escapou aos interrogatórios da Comissão para as Actividades Anti-Americanas.
            Joseph McCarthy caíra entretanto em desgraça mais a sua histérica campanha, que atingira os suspeitos de anti-americanismo aos mais altos escalões do exército, e que foi uma bomba na imprensa americana e mundial. Mas ainda que o mentor da campanha anti-comunista estivesse a ser desacreditado, a Comissão tinha agendado novas e numerosas audiências. E assestara os holofotes em Harvard – no mundo universitário em geral, aliás -, na Broadway – onde alguns actores de Hollywood tinham encontrado guarida para escapar ao interrogatório da Comissão -, e nos ambientes da dança e do bailado.
            E quem faltava aparecer na liça do macarthismo e da lista negra? Albert Einstein. E Einstein apareceu. Pequenos políticos reaccionários conseguiram insinuar no público a suspeita sobre os intelectuais, aterrorizando esse público com perigos inexistentes. Obtiveram sucesso e agora aprestam-se para suprimir a liberdade de ensino e despedem e condenam à fome os que não se lhes submetem. Que deve fazer a minoria dos intelectuais perante esta vergonha? Uma revolução passiva, no sentido gandhiano. Mas a recusa de testemunhar não deve escudar-se na Quinte Emenda e sim na ideia de que é vergonhoso que cidadãos sem culpas sejam sujeitos a tão inconstitucional inquisição. Se um bom número de pessoas estiverem dispostas a dar este duro passo acabarão por vencer. Em caso contrário, não merecerão outra coisa a não ser o estado de escravidão em que se procura colocá-las – New York Times, 12 de Junho de 1953. Era uma carta confidencial a um professor de liceu.
            Saíra a público o relatório dos trabalhos da Comissão para as Actividades Anti-Americanas referente aos anos 1951/52. 58 testemunhas denunciaram um total de 902 dos seus amigos e conhecidos; destes 902 nomes, 700 já haviam sido detectados pela Comissão antes mesmo das denúncias. O recordista dos mais vezes denunciados era o argumentista John Howard Lawson, 27 vezes citado como comunista. Segundo estimativas do próprio Lawson, no momento mais alto da sua expansão a lista negra compreendia cerca de 300 artistas. Adrian Scott, outro dos Dez de Hollywood, era mais preciso: 214 artistas e outros profissionais estavam votados ao ostracismo pelos estúdios, e entre eles 106 argumentistas, 36 actores, 3 bailarinos, 11 realizadores, 4 produtores (independentes, depreende-se), 6 músicos, 4 desenhadores e mais outros 41 profissionais diversos.
      Aumentara desmedidamente o interesse das organizações políticas americanas pelo “comunismo” de Hollywood. À frente dessas organizações perfilava-se a mais influente, a American Legion, que aventava a séria possibilidade de boicotar em toda a América os filmes em que tivessem colaborado algumas das testemunhas hostis à Comissão para as Actividades Anti-Americanas. A Legião Americana tinha em vista um programa de informação pública sobre as estruturas comunistas na indústria do espectáculo. E a Legião Americana não sossegaria enquanto a “limpeza” dos vermelhos de Hollywood não fosse total e completa, e feita segundo as promessas contidas na Declaração do Waldorf de 1947, porque ainda havia em 1951, e a trabalhar em Hollywood, 66 notórios comunistas.


          Sem dúvida que os produtores punham as mãos na cabeça ante a desgraçada perspectiva de um boicote da Legião aos seus produtos. Não era brincadeira – 2.880.000 militantes declarados e um milhão de simpatizantes. Seria a ruína das bilheteiras. E para mais quando no início das audiências de 51 a crise da indústria do cinema começava a preocupar, com uma queda de 40% em número de espectadores e com um número crescente de salas a fechar portas por toda a América. E aí está porque os produtores, ou os presidentes e vice-presidentes das majors, pedem um encontro com os homens da Legião Americana.
            Pedia-se à Legião que fornecesse às casas produtoras de Hollywood todas as informações que arranjasse sobre alguns dos contratados pela indústria envolvidos com o comunismo.
            Os produtores redigem então uma adenda à Declaração do Waldorf de 1947: não tencionavam contratar nenhum reconhecido comunista, mas nos últimos anos ficara difícil distinguir quem era comunista e quem não era, uma vez que muitíssimo poucos dos chamados a depor na Comissão admitiram a sua qualidade de comunistas militantes. E tudo porquê? Por causa da Quinta Emenda. A Quinta Emenda, que lhes dava a faculdade constitucional inescapável de não responder claramente quando indagados sobre as suas filiações políticas, estava a estragar tudo, quer dizer, todos os planos de erradicação do comunismo do mundo do cinema. Daqui decorre, e como recurso dos produtores para aquietar a Legião Americana nas suas tenções de boicote, que todos os interrogados na Comissão que se tivessem escudado na Quinta Emenda passariam, para efeitos de Hollywood, a ser considerados comunistas, ou seja, postos numa lista negra e despedidos sem apelo nem agravo.
            Não se pode esquecer, repito, que a crise na indústria era de meter medo. Basta ver que em 1945 os principais estúdios tinham sob contrato 804 actores, número reduzido, dez anos passados, para 209. Os realizadores  contratados eram 152 em 1945 e 72 em 1955. O mesmo para os argumentistas, que foi o grupo profissional do cinema que mais gente forneceu à lista negra – 490 contratados em 45; 67 contratados em 55.
            A crise. A crise que logo a seguir à guerra afectou seriamente o cinema americano. E se a Fox e a MGM e a Warner e a Paramount produziam os seus filmes e os distribuíam e os projectavam em cinemas de sua propriedade, em 1949 a ordem governamental foi para que as grandes casas produtoras vendessem as suas salas de cinema. Era a regra anti-trust. E como deixava de haver garantias respeitantes a quantas e quais salas iriam exibir os filmes produzidos, a quantidade de filmes produzidos começou a decaír – e, por consequência, o emprego na indústria a escassear.


            A Legião ficou satisfeita com os resultados da chantagem que fizera e rapidamente elaborou para consulta das majors um elenco negro de 300 pessoas ligadas a associações tidas como para-comunistas a trabalhar em Hollywood.
     A Legião funcionaria desde então como agência de censura nos estúdios.
            Mas não faltava muito para a lista negra se alargar e bem aos que, não sendo comunistas nem figurando nela, ajudavam a viver os que a indústria pusera à margem e condenara ao desemprego. O guionista Ring Lardner Jr., por exemplo, trabalhou no argumento de um filme a ser dirigido por Joseph Losey. Losey pagou-lhe o trabalho do próprio bolso e em dinheiro contado, o que lhe valeu ver o seu nome na lista negra. Alvah Bessie, outro dos Dez, trabalh0u num filme de Robert Rossen, o que deu como resultado Rossen ser chamado à Comissão, apelar para a Quinta Emenda, e acabar na lista negra. Desde aí, obviamente, nenhum dos Dez encontrou em Hollywood alguém que o ajudasse a viver.
            Particularidades engraçadas da perfeita democracia liberal- (fascista) americana.
Esperava-se o rebentar de uma guerra com a União Soviética e havia já destinados campos de detenção para os suspeitos de comunismo e subversão.

            
           Ser associado ao comunismo significava, entre outras coisas, perder o direito a ser cumprimentado pelos vizinhos, ter as janelas da casa constantemente estilhaçadas pelas pedras atiradas durante a noite, encontrar no jardim cruzes em chamas (marca do Ku Klux Klan), ter de consolar os filhos que eram humilhados na escola pelos companheiros, quando não pelos próprios professores – fragmento da autobiografia de Lester Cole, argumentista, um dos Dez.

                                                       

            To be a commy– ser comuna – era uma nódoa na reputação e extensiva a toda a família. E amizades velhas se desfizeram naquela época, e já não por diferenças ideológicas, muito mais por medo de se ser amigo de certa pessoa, se ver envolvido com comunistas e assim arriscar o emprego e a sobrevivência. Sentia-me a cair no mais fundo, passava na rua pelas pessoas que conhecia e baixava a cabeça - contou o guionista comunista arrependido Guy Endore.


            Mas tem graça que uma das acusações da Comissão aos chamados comunistas de Hollywood era de nepotismo. O que, por sinal, era verdade. Numa indústria em que a procura de trabalho qualificado era grande o nepotismo era prática comum. Quem quisesse trabalhar como argumentista (e provavelmente como outra coisa qualquer) em Hollywood não se podia apresentar assim, de mãos a abanar de recomendações. Era absolutamente indispensável ter uma connection na indústria. E podia até nem ter a ver com afinidades políticas ou ideológicas. Para ser admitido na indústria quem não tivesse as convenientes connections estava feito. Cada argumentista mais conhecido tinha um círculo (ou uma corte) de amizades e todos estavam permanentemente em contacto. E se um encargo era conferido a um famoso que não o podia ou não o queria fazer o encargo era passado imediatamente a outro membro do círculo (da seita) do famoso. Uma espécie de máfia, vamos lá…
            E também é bom que se diga que o Partido Comunista usou técnicas de isolamento social contra os os antigos militantes delatores e emitiu directivas sobre o tratamento a dar a um delator. A um delator e à respectiva mulher e respectivos filhos. Todos eles deveriam ser alvos do boicote do Partido e deveriam sentir-se miseráveis a cada instante das suas vidas. Era de organizar piquetes à porta das lojas ou dos armazéns onde as mulheres dos delatores faziam as compras. Era de recomendar aos filhos dos militantes que na escola fizessem pouco e maltratassem psicologicamente os filhos dos traidores ou quaisquer outros alunos que pertencessem à família de um delator, marginalizando-os, não falando com eles, ou chamando-lhes espiões e bufos. Era de escrever a giz nas portas das casas do delatores “o gajo que mora aqui é um espião”.
Mas adiante. Alguns argumentistas trabalhavam clandestinamente, anonimamente, com recurso a testas de ferro que lhes assinavam os trabalhos. Esperavam por tempos melhores.
Realizadores e argumentistas, vá lá, ainda podiam contar com algumas saídas para o seu problema, o que não acontecia, ou mais dificilmente acontecia, com os actores, os que tinham que dar a cara, evidentemente. Realizadores e argumentistas podiam ir trabalhar para o estrangeiro; podiam trabalhar em negro (como disse, escrever para outros assinarem), trabalhar para a televisão enquanto a Comissão não virasse os holofotes para aí, trabalhar por salários irrisórios para produtores independentes, off-Hollywood, por assim dizer. Ou viver e trabalhar num combinado destas situações.
            Mas vamos lá a ver as coisas como deve ser, Hollywood fechara-lhes as portas, falo dos argumentistas, mas algumas alternativas de trabalho ainda havia para eles em aberto e desvinculadas de qualquer servidão contratual a uma empresa. O teatro – casos de Lester Cole, Ring Lardner Jr., Dalton Trumbo. A ficção romanesca - caso de Albert Maltz.  O ensaísmo – para Samuel Ornitz, a trabalhar num estudo sobre as causas do anti-semitismo; ou para John Howard Lawson, que tinha finalmente tempo para acabar um livro sobre a escrita cinematográfica.
            Depois de averbar um considerável êxito na Broadway com a comédia The Biggest Thief in Town, em tom de bravata, Dalton Trumbo declarou (em nome dos Dez): a Comissão fez o maior favor que se podia fazer a cada um de nós, os Dez de Hollywood, levando-nos a escrever romances e comédias e obter grandes sucessos.
            Parece que, de uma maneira geral, o sucesso deles na América não foi nada do outro mundo. Um dos Dez, Alvah Bessie, caído na lista negra caíra também em funda depressão, dias e dias a olhar fixamente um ponto para lá da janela de sua  casa e sem saber o que fazer à vida.
            Alguns partiram para o estrangeiro. Estavam convencidos de que na América estava a despontar uma nova modalidade de fascismo, que a lista negra não seria mera manobra propagandística, e que era, sim, o começo de mais fortes acções repressivas. Um novo totalitarismo, ensaiado e derrotado na Alemanha e na Itália, mas a caminho de se transferir para os EUA.
Edward Dmytryk conta que quando estava preso recebera a visita do escritor Howard Fast e que este lhe dissera em segredo que dentro de pouco tempo eles seriam mudados da prisão para um dos campos de concentração que se estavam a construir em Montana…
Corria também o boato de que até as mulheres dos presos estariam em perigo e que os bens dos Dez de Hollywood iriam em breve ser confiscados pelo governo – daí eles se terem apressado a pôr esses bens em nome de pessoas que nada tinham com Hollywood. E na verdade, no condado reaccionário de Los Angeles saía uma lei que obrigava os inscritos no Partido Comunista a comunicar à policia sempre que quisessem viajar para fora da cidade.
Joseph Losey foi a figura que concentrou à sua volta os novos emigrantes do cinema americano que escolheram a Inglaterra para continuar a trabalhar.


As dificuldades de Joseph Losey na América, acusado na Comissão por uma única testemunha, em 1951, tinham começado ainda nos anos 40, concretamente em 1948. Rodava ele o seu filme mais relevante desse período, O Rapaz dos Cabelos Verdes, quando o seu produtor, Adrian Scott (mais tarde um dos Dez) foi parar a uma lista negra, e quando o milionário Howard Hughes pôs em acção uma violenta campanha para enxotar dos quadros da RKO os suspeitos de comunismo. Ou quando Hughes quis que Losey dirigisse um filme intitulado qualquer coisa como Casei com um Comunista. Losey recusara. Ele e outros treze realizadores. E Losey ficou marcado – o cutelo estava a caír mesmo ao meu lado e eu tinha a certeza de que não faltava muito para ser atingido. E como estava chapada no contrato dele uma cláusula a dizer que se ele estivesse de algum modo envolvido politicamente aquele contrato resultaria nulo para todos os efeitos, uma vez Losey denunciado os contratos que tinha estavam automaticamente caducados. E Losey começa a trabalhar sob diversos pseudónimos, Andrea Forzano, Victor Hanbury, Joseph Walton. Virá a estabelecer-se em Londres em 1957. É considerado pelos ingleses um mestre. Pode trabalhar com o verdadeiro nome. Pode empregar argumentistas listados de negro na América. E tem grande sucesso na  Europa.
Sucesso fora dos EUA também o conheceram Edward Dmytryk e Jules Dassin.
Foi no seguimento da primeira audiênca a que se apresentou, em 47, quando se portou mal perante a Comissão, não bufou nomes e foi parar à lista negra, que Dmytryk se viu obrigado a emigrar. Londres. Give Us This Day e Obsession. Mas um belo dia recebeu um aviso do Departamento de Estado dos EUA: devia voltar à América para renovar o passaporte – sem o passaporte em ordem os ingleses não o deixavam lá ficar a trabalhar. Dmytryk não viu outro jeito senão o de cumprir a ordem e assim que pôs os pés em solo americano os homens do FBI deitaram-lhe a luva e enfiaram-no na pildra. Seis meses. Ultraje ao Congresso. Quando sai da prisão, já o sabemos, o homem pensa duas vezes, para que é que eu me ando a armar em revolucionário, o que eu quero é governar a minha vidinha, e implora à Comissão  nova audiência, e testemunha amigavelmente, e dá uns nomes, e volta a trabalhar tranquilamente nos EUA – já vimos isso na Parte II.
Mas essa do bloqueio dos passaportes foi uma invenção de génio das autoridades americanas na luta contra os subversivos. E a mesma sorte de Dmytryk tocou a Adrian Scott e a Ring Lardner Jr., um a trabalhar em França e outro instalado na Suíça a escrever um argumento. Não é do interesse dos EUA que certas pessoas vivam no estrangeiro, era a sentença das autoridades.
Um dos nomes de comunistas que Dmytryk passa à Comissão é o do seu aluno de realização Jules Dassin. Dassin era uma das mais risonhas promessas de Hollywood (Brute Force e Naked City) antes de ser denunciado pelo seu mestre. Ao ser denunciado pelo seu mestre, Jules Dassin arranjou maneira de desandar para o estrangeiro antes que chovesse, e antes que tivesse de seguir as pisadas do seu mestre e o pusessem a dizer se era comunista ou não, e antes que também tivesse que pôr a boca no trombone a acusar os seus amigos se quisesse continuar a trabalhar em Hollywood.


Dassin vai para Londres. The Night and the City. Depois vai até Itália. Mas aí a notícia a dizer que ele tinha sido incluido na lista negra em Hollywood prejudica-o, não consegue trabalho. E vai para Paris. Em Paris começa a escrever para o teatro.  Mas é em Paris, em 1955, que Jules Dassin filma o thriller de grande êxito Du Rififi Chez Les Hommes – Palma de Ouro em Cannes. Filma na Grécia, Celui qui Doit Mourir, em 1957, também com sucesso. E recebe ofertas de trabalho nos EUA. Curioso, não é? É. Where the Hot Wind Blows (em português Nunca ao Domingo) – Palma de Ouro em Cannes outra vez, para a actriz principal, Melina Mercouri, com quem Dassin se casaria. E era a fama mundial. Dassin deve ter dado muitas gracinhas a Deus e à canalhice do seu mentor Edward Dmytryk.  

O México também foi um dos destinos de emigração dos homens da lista negra – Mexico City e Cuernavaca principalmente. Ajeitavam-se no espanhol, estavam relativamente perto de Hollywood, a vida era barata.
Bom, ajeitavam-se no espanhol é como quem diz. O espanhol deles não chegava para as encomendas. Eles só se ajeitavam. O obstáculo da língua era impeditivo, ou quase impeditivo, de algum destino reservado para eles no cinema mexicano. Mas como estavam perto de Hollywood faziam trabalhos em negro, para o mercado negro do cinema americano.
No México tinham a vantagem de não ser preciso terem passaporte em dia para lá viverem. Renovava-se a licença de estadia a cada seis meses e estava a andar. Por lá passaram Dalton Trumbo, Ring Lardner Jr., Robert Rossen, Hugo Butler.
Dalton Trumbo era um dos mais ansiosos por regressar a casa e um dos que mais sentia a injustiça de que fora vítima. Escrevia cartas a torto e direito, a toda a gente, influente ou não, e uma delas, em Janeiro de 1957, ao presidente Eisenhower… condenado, multado, preso, de honra manchada como mentiroso, subversivo e traidor, e imediatamente despedido da indústria cinematográfica, a não ser que volte a comparecer perante a Comissão e a responder a todas as perguntas inconstitucionais que me entendam fazer…senhor presidente, o senhor presidente, que tem mais influência do que ninguém sobre os seus compatriotas, se acha que o que escrevi na presente é verdade, bastará que diga publicamente uma palavra para que a indústria do cinema abandone para sempre una prática que é odiosa aos olhos do mundo inteiro… e nenhuma resposta assinada pelo punho do presidente Eisenhower… terá respondido um conselheiro da presidência, a dizer que o presidente não tinha comentários a fazer sobre aquela matéria, e a que Trumbo, eu diria poeticamente, contra-respondeu…não tendo o presidente comentários a fazer, é minha obrigação moral convidar os intelectuais e artistas da Europa ocidental a resistirem com todas as forças às políticas inquisitoriais, às prisões, ao ostracismo e à recusa de passaportes que na América está a destruir centenas de artistas que vivem no medo…
            - E queria deixar bem claro a todos os presentes que não tenciono dar cobertura ou protecção a quem é comunista, ou ao Partido Comunista Americano – continuava Arthur Miller em 1956. – A única coisa que quero aqui proteger é uma certa ideia que tenho de mim próprio. Não poderei dizer aqui nomes de ninguém. Se o fizesse causaria grandes problemas às pessoas que mencionasse. Por isso lhe digo, senhor presidente, que nestes encontros de que falei participaram escritores e poetas… e olhe, tanto quanto sei, a vida de um escritor, apesar das aparências, é já de si suficientemente dura… e eu não tenho nenhuma intenção de a tornar mais dura ainda do que ela já é. É por isso que lhe peço que não me pergunte nada que diga respeito a outras pessoas.
            Era a linha de defesa de Lillian Hellman – e de outros. No entanto, os contextos políticos, o de 1951 e o de 1956, não eram comparáveis. Para dar uma nega à Comissão nos tempos de 1951 era preciso ser-se muito mais corajoso do que em 1956. Isso não tira, como é óbvio, a que os homens que interrogavam Miller não estivessem ameaçadores e não lhe mostrassem má cara.
            Claro que não aceitaram as razões invocadas por Arthur Miller para não lhes fornecer nomes. Se ele continuasse a recusar responder  às perguntas ficaria marcado por ultraje ao Congresso. Era um aviso que lhe faziam.
            - Veja lá bem, senhor Miller… veja se se lembra se nesses encontros não estaria um homem chamado Arnaud d’Usseau… era ele que presidia  a essas reuniões de escritores, muito próximas do Partido Comunista, vamos lá…. reuniões em que o senhor mesmo, senhor Miller, tomou parte em 47…
            -  Tudo o que lhe posso dizer, senhor presidente, é que a minha consciência não me permite citar o nome de qualquer outra pessoa…
            Já para o fim da sessão, um dos comissários sacou de uma folha fotocopiada, uma página do jornal Daily Worker – órgão do Partido Comunista Americano – com publicidade a uma peça dele, You’re Next, um texto de 1946 que o próprio partido Comunista patrocinara e fizera encenar. Tratava-se da representação de um ritual de interrogatórios feito por uma certa Comissão, talvez aquela mesma que lhe apertava agora os calos. Os comissários agitam a folha como prova inequívoca da proximidade de Arthur Miller ao Partido Comunista.
            - Oh, meus senhores, os senhores não podem acusar-me disso! Os meus trabalhos têm corrido o mundo inteiro. Fui representado em quase todos os países, e até o governo franquista financiou uma montagem da Morte de um Caixeiro Viajante num dos principais teatros do centro de Madrid. Bem vêem que não posso ser responsável por quem leva ao palco as minhas peças, tanto quanto a General Motors não é responsável por quem conduz um dos seus Chevrolet.
                   Ficou nos anais culturais e jurídicos americanos esta tirada.
                Não me recordo de ter lido que Arthur Miller tenha sido preso ou coisa parecida.
            Mas mesmo assim havia formas de sair da lista negra: ou por prestar declarações adicionais satisfatórias para a Comissão depois de se terem prestado as insatisfatórias, casos de Edward Dmytryk ou Robert Rossen; ou pagar uma soma a uma das agências meio mafiosas que tratavam disso. Já para o fim da instituição das listas negras bastava escrever uma declaração ajuramentada dirigida ao empregador. Só ficariam na lista negra pelos séculos dos séculos os que não arredassem das posições entrincheiradas na Quinta Emenda.
            Em 1956, um certo John Cogley publicou um livro Report on Blacklisting, denunciando desde logo a existência de uma real lista negra, e depois a existência de uma indústria dentro da indústria propriamente dita do cinema que tornava possível a alguns limpar o nome dessa lista negra – um processo a que chamaram clearance. O autor, Cogley, foi chamado ao Congresso para se explicar e recusou divulgar as suas fontes de informação. Fosse por isso, também não conseguiu demonstrar à evidência o facto de alguns artistas não trabalharem há anos apenas por motivos de ordem política; nem conseguiu convencer os congressistas de que por meio de pagamento de certa soma (admissivelmente elevada) era possível limpar o nome da lista negra e voltar a ser contratado pelos estúdios.
            O homem pode não ter convencido os congressistas, mas estava a falar verdade. Isto é, havia agências que tratavam da limpeza das folhas, agências que eram indivíduos de menos escrúpulos e aproveitadores dos dramas daqueles que se viam impedidos de ganhar a vida.
            American Business Consultants – propriedade de três ex-agentes do FBI; publicava uma revista que denunciava suspeitos e em contrapartida isentava de suspeitas os que pagavam uma taxa; publicou uma “bíblia” das listas cinzentas em que compareciam 151 artistas apontados como envolvidos em actividades para-comunistas.
            Wage Earners Commitee – publicava um jornal National Wage Earner que todos os meses denunciava novos subversivos e limpava a folha aos antigos que entrassem com dinheiro.
              E havia mais…
            A Declaração do Waldorf, enfim, tomava sentido nos perigos, nos riscos e nos medos. Palavra de ordem: eliminar os subversivos e proteger os inocentes.
          Porque sabiam haver inocentes na lista negra, gente que nunca na vida pensara ser comunista e que tinha o nome marcado. E os inocentes podiam dividir-se em dois tipos: pessoas que eram confundidas com outras; ou pessoas que pertencendo embora a alguma das chamadas associações para-comunistas não estavam inscritas no Partido Comunista. Inocentes havia que não encontravam trabalho, como inocentes havia (os das listas cinzentas) a quem muitos dos estúdios não davam trabalho só por prudência. E acabava tudo por desaguar na mesma dúvida essencial, e existencial: que entidade se poderia arrogar o direito de estabelecer quem era comunista e quem não era?
            Pretendia-se criar um sistema preciso, ou uma fórmula, por onde fosse possível detectar quem era e quem não era comunista. Difícil. Impossível. Que funcionassem então os boatos, os mexericos, as invejas caluniosas. Se muita gente tinha famas, ou de alcoólico, ou de pederasta, ou de ninfomaníaca, ou de cocainómano, também podiam correr as famas de comunista. Procurava-se era não despedir ninguém na base de um mexerico.
             O mercado negro.
        É bem que se diga que foi calculado em 15% o total dos guiões que em Hollywood foram escritos por gente da lista negra e chegados às produtoras sob o nome de testas de ferro não integrantes da lista negra. Mas não há a certeza desta percentagem. O segredo era  muito espesso e guardado sob juramento solene. Já Dalton Trumbo escrevia um artigo em 1957, revelando que os produtores, respeitando embora a lista negra, não deixavam de comprar histórias e guiões da autoria dos listados de negro. A reserva consistia em ocultar os nomes dos verdadeiros autores.


            Correu mesmo o boato de ter sido Dalton Trumbo a escrever grande parte das melhores produções de Hollywood desse período – e admitindo o próprio ter escrito uns trinta e cinco argumentos durante a fase negra.
            Trumbo veio-se embora do México em 1954. Fez uma sociedade com outro da lista negra, Michael Wilson. Um inventava a história e delineava o enredo e o outro encarregava-se dos diálogos. Conseguiam fornecer a um produtor um guião completo em cinco semanas. E por isso os investigadores de cinema teimaram em atribuír a Dalton Trumbo ( a coberto de outros nomes) filmes, por exemplo, de Howard Hawks (Air Force), de Irving Rapper (The Brave One – com Óscar incluido), de Robert Aldrich (The Last Sunset), e de muitos outros de menor importância, e sendo o título mais famoso de todos o do filme de  William Wyler Roman Hollyday (Férias em Roma), com direito a Óscar a entregar a Ian McLellan Hunter, o testa de ferro de serviço àquele trabalho.


A questão dos testas de ferro tinha que se lhe dissesse. Era difícil para um homem da lista negra encontrar quem lhe assinasse os trabalhos. Os produtores recebiam o texto original escrito, e depois seguiam-se infindáveis reuniões com distribuidor, produtor, realizador, director de fotografia, ou até com actores, e onde era naturalmente forçoso aparecer também o autor do argumento. Alguém teria então de aparecer a essas reuniões fazendo as vezes do guionista e já se vê que era um problema levado de seiscentos diabos achar alguém que se prestasse a arriscar tanto. O escritor de ficção científica Ray Bradbury foi, dos conhecidos, um dos que quis ajudar alguns amigos da lista negra, assumindo-se como autor -  o que não deu resultado não sei porquê, talvez tenha sido desmascarado. E houve Leo Townsend, testemunha amigável da Comissão e delator, que como favor pessoal assinou argumentos escritos por outros, Lester Cole, ou mesmo Dalton Trumbo.
É no tocante filme The Front (na versão portuguesa O Testa de Ferro),  de 1976, que Hollywood toca na questão da lista negra. É um filme magnífico, protagonizado por Woody Allen e Zero Mostel, e realizado por Martin Ritt, e nele intervieram muitos dos homens em tempos listados de negro pela indústria, incluindo Zero Mostel, que faz o seu próprio papel, e o realizador Martin Ritt.
Outro item difícil de ultrapassar nesta coisa do mercado negro dos argumentistas era a parte financeira. O negro, ou testa de ferro, ficava de costume com 10% do cachet. Mas houve casos em que o testa de ferro mais ganancioso exigiu 50%. Para piorar as coisas, diga-se que os argumentos em circulação no mercado negro eram pagos muito abaixo do preço do argumento normalmente apresentado pelo seu verdadeiro autor. E quando digo abaixo do preço digo menos de metade. O caso do mais famoso argumentista, Dalton Trumbo (sempre ele) é bem ilustrativo, pois vendeu o seu primeiro argumento “em negro” por 3.750 dólares, enquanto o preço dele antes de ir parar à lista negra era de 75.000 dólares por cada guião. É obra! E ainda quando ele, digamos, começou a emergir do seu sono negro, em 1960, sob o seu verdadeiro nome, e escreveu para Otto Preminger o filme Exodus, só recebeu 50.000 dólares, dois terços, portanto, da tarifa habitual. Não era muito em comparação com os mais altos estipêndios hollywoodeanos, era fabuloso relativamente ao que ele poderia ganhar através da intermediação de um testa de ferro.


John Howard Lawson, o recordista dos denunciados, ganhava 2.500 dólares à semana quando trabalhava às claras. Depois de metido na lista negra, a trabalhar em negro, o rendimento dele não passou dos 50 dólares por semana.
Os produtores independentes, os que poderiam pretender trabalhar fora do anel de fogo das majors, eram poucos e dificilmente arriscavam desafiar o estatuto dos grandalhões, por exemplo, utilizando os serviços de um dos inscritos na lista negra. Se tal viesse a lume era certo e sabido que a carreira desse produtor poderia passar a não valer um tostão furado e ninguém lhe financiaria a produção do próximo filme que produzisse, e esse filme só apanharia com críticas desfavoráveis. Mas se por acaso esse produtor tivesse artes de ultrapassar todos os ditos inconvenientes, ah, sim, seria certamente boicotado nos cinemas pelo pessoal da Legião Americana. Foi esta a essencial razão pela qual nenhum famoso produtor se arriscou a contratar alguém posto na lista negra.

                                                          

            O entrar do ano de 1960 abre boas perspectivas para o fim da instituição da lista negra. Alguns dos intransigentes que se tinham mostrado hostis ao trabalho da Comissão reapareceram de repente à luz do dia. Michael Wilson, Dalton Trumbo e Albert Maltz são reabilitados em Hollywood. Publicamente reabilitados. Um Óscar é entregue a um nome da lista negra e o público começa a perceber que a lista negra e o mercado negro eram pesadelos de noites já passadas.
            Facto interessante que alguns comentadores assinalaram: os artistas que figuravam na lista negra acusados de comunismo eram os que até então tinham conseguido os maiores êxitos em Hollywood. Bastava comparar a quantidade de óscars e nomeações para óscars que lhes foram atribuídos entre 1940 e 1959. Trumbo, Butler, Bessie, Endore, Lillian Hellman, Ring Lardner Jr., Maltz, Abraham Polonsky, Foreman, Michael Wilson… entre muitos outros.

                                          

            A Academia dos óscares andou por algum tempo de calças na mão sem saber o que decidir. Levou críticas ferozes quando Michael Wilson (lista negra por apelo à Quinta Emenda) ganhou um Óscar pelo guião de A Place in the Sun. E calha que em 1957 o mesmo Michael Wilson é nomeado para outro Óscar por Friendly Persuasion, de William Wyler. E se em 52 a Academia não podia fazer nada, a partir de 54 já havia um acordo firmado para a possibilidade de se omitir o nome do argumentista do genérico do filme. Em 57 não era permitido premiar com um Óscar alguém que estivesse na lista negra. Pois não. Quer dizer, o Óscar de Michael Wilson em 57 não lhe poderia ser entregue. E não foi. Quem o ganhou foi um certo senhor Robert Rich, que, não se soube porquê, nem se apresentou para receber a estatueta.
            Depois correram insistentes boatos de que os verdadeiros autores do filme A Ponte do Rio Kwai, de David Lean (Óscar para o melhor argumento), eram os “listas negras” Carl Foreman e Michael Wilson.


            Enfim, uma longa série de episódios do género marcaram o ano de 1959. Até um radialista de Los Angeles vai ao ponto de comentar que a lista negra tinha acabado, não porque os sentimentos anti-comunistas da indústria tivessem mudado ou as acusações de anti-americanismo fossem infundadas, mas simplesmente porque Hollywood precisava como pão para a boca de bons argumentos para serem filmados.
            A Legião Americana é que ainda intensificava a luta contra os subversivos de Hollywood. E atirava-se à Academia por ter ignorado a proibição de dar óscares a gente indesejável e inscrita na lista negra.
            Tocava à Academia e à associação dos produtores aplacar as iras da Legião, tal como os senhores, continuamos a querer os subversivos fora de Hollywood  - dizem os produtores à Legião -, mas a maior parte deles trabalha para pequenas companhias produtoras independentes…sim, portanto façam o favor de não nos maçar e irem disparar as vossas balas contra os produtores independentes e não contra a indústria de cinema no seu todo. E assim foi. A Legião Americana  passou a elogiar as grandes companhias e a condenar os pequenos produtores independentes que empregavam comunistas.


            Mas… quem é que chega a Hollywood em 1959 como convidado de grande honra? O maior comunista do mundo de então: Nikita Krutchev, premier soviético. Um grande jantar de gala a homenagear  Krutchev com a presença de 400 das mais importantes personalidades do espectáculo.
            Então como era?
          Os grandes magnates da indústria queriam expulsar os comunistazinhos que ganhavam o seu pãozinho em Hollywood e recebiam de braços escancarados o maior chefe comunista do mundo numa cerimónia de boas-vindas como há muitos anos não se via por ali? Como era?
            Sim, como era quando o governo dos EUA assinava um acordo de intercâmbio cultural com o governo da URSS com particular incidência na produção cinematográfica?
            Como era quando o público americano estava a acolher tão bem os filmes produzidos na Rússia comunista?
            Como era e que moral era quando na América se criticava duramente o ostracismo a que o escritor Boris Pasternak fora votado na URSS por culpas de anti-sovietismo e em Hollywood se perseguiam e ostracisavam os escritores americanos culpados de anti-americanismo, como era?
            Paradoxos e contradições a raiar o ridículo que apareciam claramente aos olhos de todos.
            Otto Preminger será o primeiro dos realizadores de alta nomeada a provocar frontalmente a Comissão e a instituição da lista negra quando anuncia no Variety que Dalton Trumbo será o argumentista do seu próximo filme, Exodus. Não quero andar a mentir ao público. Esconder o nome de um autor é uma maneira de enganar o público. A única maneira honesta de trabalhar nestes tempos é dizer a verdade. O New York Times aplaude. E acrescenta: toda a gente já sabia que tinha sido Trumbo a escrever o argumento de Spartacus (de Stanley Kubrick)  e de Férias em Roma.
Mas mesmo assim as majors fizeram finca-pé nas suas disposições de discriminar os suspeitos de comunismo. E a inevitável Legião Americana deu por paus e por pedras com a decisão de Preminger e declarou guerra de informação contra a imposição disfarçada dos filmes feitos por homens doutrinados pelos soviéticos.
No dia 21 de Março de 1960, um dos maiores ídolos da América identifica-se como produtor cinematográfico independente e desafia a lista negra: Frank Sinatra. Quer produzir um filme sobre o único soldado fuzilado por deserção durante a II Guerra e chama Albert Maltz para lhe escrever o guião. O New York Times torna a aplaudir: a contratação de Albert Maltz por Sinatra minava os fundamentos lógicos da lista negra.
Mas Sinatra já está metido na política. Em 1960 manifesta publicamente o seu apoio à candidatura à presidência de John Kennedy.
A Catholic War Veterans anuncia o boicote que fará ao filme de Sinatra, ter contratado Maltz é uma afronta a todos os americanos. Não queremos que americano algum vá ver o filme e pedimos ao senhor Sinatra para repensar a sua atitude como verdadeiro americano.
E naquele tempo (não sei se ainda hoje) se uma liga americana dizia “mata” outra liga americana dizia logo “esfola”, e a secção da Califórnia de outra liga de veteranos de guerra os AmVets apoiou o boicote ao filme, sim senhor, mas ainda foi mais longe, propôs um boicote a todas as actividades de Frank Sinatra.


E Sinatra devolve os golpes: compra espaço nos jornais, páginas inteiras, e assume as suas responsabilidades declarando que o filme que pretende produzir está perfeitamente em linha com os valores americanos, e até os exalta; dizendo ainda que o melhor seria que não se fizessem juízos precipitados antes de se poder ver o filme. E diz mais, ou insinua mais: talvez o estivessem a atacar a ele quando o verdadeiro alvo dos ataques devia ser o senador e candidato John Fitzgerald Kennedy que ele publicamente apoiava. Mas a verdade era que nem ele ensinava a Kennedy como votar no Senado, nem Kennedy lhe recomendava quem devia ou não devia contratar para lhe escrever o filme. Estou pronto a defender os meus princípios e a esperar o veridicto do público americano depois de ter visto The Execution of Private Slovik.
Foi uma batalha de duas semanas. Sinatra acaba por ceder e despedir Albert Maltz. Por respeito ao povo americano, argumenta. Defendi o trabalho de Maltz porque o entendi consoante com os valores americanos. Mas uma vez que o público americano pensa que o despedimento de Maltz é uma crucial questão de moral, aceito a opinião da maioria.
E Maltz sai-se a público a declarar: para fazer mudar de ideias um homem tão teimoso como Sinatra as pressões sobre ele devem ter sido realmente muito fortes.


Pois parece evidente que valores mais altos se levantaram e que Kennedy, por mais que estimasse o apoio de Sinatra, não ia na conversa de poder perder votos por uma questão de moral americana.
Hedda Hopper vem a dizer que o exército e o Departamento de Defesa se tinham recusado à colaboração que lhes tinha sido solicitada para fazer o filme. E a jornalista Dorothy Kilgallen adiantava, confirmando as mais óbvias suposições, que o próprio Kennedy acabara por convencer Sinatra a desistir da ideia, pensando que aquela dura campanha contra o cantor comprometeria as suas aspirações na corrida à Casa Branca.


O grande sucesso da estreia em Nova York de Exodus (escrito, como disse, por Dalton Trumbo) interpelou fortemente o público americano quanto à questão da lista negra. Pelos vistos, resultava a bem da arte cinematográfica americana pôr a trabalhar gente que apelara à Quinta Emenda, mesmo que fosse, ou só tivesse sido, comunista, e até porque essa condição já nem tinha reflexos no box office.
Mas atenção que mesmo nos dias seguintes à estreia de Exodus houve piquetes à porta dos cinemas a protestar contra o nome de Dalton Trumbo no cartaz; ao mesmo tempo que no interior dos cinemas quando o nome de Trumbo aparecia no genérico rebentavam os aplausos. E na recepção que se seguiu à primeira exibição do filme, no luxuoso restaurante Romanoff, Otto Preminger aparece de braço dado com Trumbo e é ovacionado pelos presentes, Frank Sinatra e Peter Lawford (cunhado de Kennedy) entre eles. E além deles, também, a aplaudir calorosamente, um fervoroso anti-comunista,  uma das primeiras testemunhas amigáveis e favoráveis à expulsão dos comunistas de Hollywood e à ilegalização do Partido Comunista Americano – Gary Cooper.
Em 1961 principiava o regresso à ribalta do espectáculo dos marcados pela lista negra. Lillian Hellman e Guy Endore vêem os seus nomes nos genéricos. Em 62 é Morris Carnovsky, é Howard da Silva, é Howard Koch. Hugo Butler em 63. Ring Lardner Jr. e Lionel Stander em 65. Abraham Polonsky em 67.

A lista negra estava definitivamente rasgada - a chegada de Kennedy à presidência começara a mudar mentalidades e com essa mudança mudariam os pressupostos que a tinham feito aparecer. 

                                                  THE END

sábado, 12 de outubro de 2013

                           CARPE DIEM 6


   

                                                   

       Oh, pois, os antigos, mais conhecidos por idosos, claro, vivem rodeados e influenciados pelas gerações do optimismo, vai correr bem, caga nisso, vais ficar bom, tampões impregnados de bebida introduzidos no ânus ou na vagina para acelerar o efeito do álcool (já ninguém está interessado nas causas, já só se espera ansiosamente pelos efeitos), Portugal é o país que mais, há que levantar a cabeça, sabes que isso pode potenciar quadros de depressão?, deixá lá, tá-se bem, sabes que isso pode levar ao suicídio, deixa lá, não há crise, a facilidade, saudinha é que é preciso, e mais as raparigas do que os rapazes, diz que sim, a esperança é a última a morrer, a irresponsabilidade, as pessoas querem lá saber disso!, a impunidade, que mania a tua de estares sempre a armar ao dramático, tudo ao molho e fé em Deus. A festa! Já ninguém pode viver sem a festa. Há palmas e risos ao mais pequeno pretexto, e silvos de júbilo, e uaus!, e gritinhos pelos mais pueris dos motivos. Não é permitido falar de dificuldades, de problemas, de dramas, de complexidades – quando as coisas, muitas coisas, as vidas, a vida, estão cada dia mais difíceis, mais dramáticas, mais problemáticas e mais complexas. Gerações impregnadas do álcool de uma opulência falsa; gerações impreparadas para o tempo sóbrio da dura realidade, diz-se. E muitos culpam os pais. E muitos culpam o Sócrates. E muitos culpam os sindicatos. E muitos culpam os comunistas. E muitos culpam o tempo do Cavaco. E muitos culpam o 25 de Abril. E é: a culpa é do 25 de Abril e da vaga de facilidades que se seguiu, ocupar casas, passar de ano administrativamente, correr com os fascistas (nem todos, vamos lá, ou quase nenhum), sanear os administradores, expulsar os patrões, desacatar os pais.  Pois é. E se assim não acontecesse como era? O 25 de Abril revolucionário ia obrigar as pessoas a viver miseravelmente, pobremente, remediadamente, porque o país não dava para mais, como no tempo do Salazar? Então, onde estaria a razão de ser da chamada revolução do 25 de Abril. O que seria se o 25 de Abril não começasse depressa a inventar a nossa felicidade/prosperidade?
     



sábado, 5 de outubro de 2013

                               O ESPELHO


Almas sentidas, noites perdidas, sombras bizarras…
Passa hoje, ou talvez amanhã, mais um ano sobre a morte da Amália.


Porque morreu? Sim, porque morreu. Diziam-na imortal? Pois por isso. Tinha que morrer. É imortal e morre? Pois, imortal, e por isso mesmo a ter de morrer um dia. Para se saber ao certo que era imortal. E porque nenhum artista é imortal enquanto estiver vivo. Enquanto vivo, um artista ou é novo ou é velho. Imortal nunca. Para se ser imortal como deve ser tem de haver a prova decisiva, a morte física.
Mas não é disso que quero falar.
Ouvi-a a cantar há bocado num rádio aqui da vizinhança. 
Só se é pela luz cansada de todos os outubros de Lisboa que o caso da Amália se torna actual e algum povo torna a cantar a imortalidade daquela que morreu. É sempre tempo de falar de uma eternidade. O povo cantou no funeral, o povo cantou-a ontem, o povo canta-a hoje. É o que dá a medida certa de uma eternidade.


No funeral? Sim. Lembro-me. Eram ex-salazaristas. Eram ex-comunistas. Eram actuais democratas. Eram antigos democratas. Eram até actuais comunistas. Eram eternos coisas-nenhumas. O povo – fala-se tanto dele quando não há nada de glorioso de que falar, e pouco se fala dele quando ele reassume a sua memória e canta nas ruas o seu destino.
Maravilhado e temeroso com o canto do seu destino, o povo de Lisboa comemorou-a espontaneamente nas ruas. Cantou uma artista. A artista que o tinha cantado a ele. Troca por troca, sim. O povo das ruas não podia ter feito outra coisa. Não há como o povo mesmo povo para compreender, e o povo compreendeu que desaparecendo fisicamente a Amália começávamos todos a fazer menos sentido. Como deixámos de ter quem nos cantasse o destino, interrogamo-nos ainda hoje muito justamente: será que vamos continuar a ter um destino?
Com a morte da Amália partiu-se-nos o espelho.
Será que precisamos de um espelho para o nosso espírito de nacionalidade fremente e encoberta?
De nacionalidade? Ou de universalidade?
Todo o homem, como todo o grupo, precisa de espelhos, espelhos continuamente vivos de si. Só com espelhos vivos se adestram identidades.
A identidade? Algo que é, e que, paradoxo, não se limita a ser. Não é uma estátua finita. Pode ser imagem reflectida. Pode ser movimento renovado, embora perplexo ou imponderável. Imagem que se propaga e que incessantemente se repropõe à consciência.
E ela era, sim, a Amália, a voz, a figura, o estro, o cabelo, o nariz, o hálito, um espelho de certa condição de ser; espelho de um ser colectivo que existe porque sim. Sim, mais nada. Só porque sim. É o nosso ser de portugueses, porque sim.
E partiu-se-nos esse espelho. Mau agoiro.
Um espelho é um alarme. Quantas angústias me não são acrescentadas pelo espelho que sou eu mesmo sem ser? E quantas satisfações de ser eu mesmo sem ser não me são dadas por um espelho?
Partiu-se-nos o destino. Partiu-se-nos o sonoro espelho de nós mesmos. E comprometeu-se-nos grande parte da nacionalidade – quero eu dizer: da universalidade.
Se ela gostava do Salazar não sei. Sei que o som dela foi um acto de resistência a todas as pequenas tiranias que vivemos, porque era um som transversal à consciência. Mesmo com o Salazar, ela advertia-nos do Eterno que estava em nós, logo, cantou a negação do próprio tempo contingente que construiu o Salazar, esse tempo contingente que se quis ideologia nacional.
Faço-me entender?
Já calculava que não.
Digo que o som dela era a História. O som dela era a reminiscência de uma nacionalidade espiritual a sobrepujar a miserável circunstância de um regime político ou de uma casualidade económica.
O som dela eram as cavidades e os pináculos da nossa insensata razão de ser. De ser a nossa alta civilização, de ser a nossa particular barbárie.
Agora, com esta burocracia euro-comunitária, precisávamos mais dela do que nunca.
Precisávamos-lhe do som que brotava da nossa memória e corria para o nosso esquecimento.
Precisávamos-lhe hoje – mais do que nunca, não sei -  do som que errava por claustros monacais, por renques meridionais perfumados de laranjeiras, por brancas frontarias ao sol, por palácios de grandeza envergonhada, por palmares silenciosos de escravos e por quenturas indianas, por certas vielas da nossa ruína senhorial, por todos os números cabalísticos, pela nossa nostalgia de um cheiro de mar, pelo suor e pelo sangue das nossas batalhas perdidas, pelos nossos mais altos tronos ora apeados, pelos altares da nossa velha ansiedade de não ser…
Ela era todos. Ela era a nossa altitude e a nossa atitude. Ela era o curso brutal do nosso rio subterrâneo.


Almas sentidas, noites perdidas. Mais do que isso: sombras bizarras: nós, de nós mesmos, e da nossa soberania de sonâmbulos que cantaram nas ruas a melopeia que nas ruas havia para cantar e que só ela foi sapiente para compreender.
Não era uma artista. Não era uma cantora. Não era uma fadista - a menos que o fado seja o inventário de uma fé, o relatório de um desespero. Ela éramos nós, nem que cantasse o exótico Inch’allah, ou o negro Summertime.
Ela era o espelho. Naquele espelho identificávamos o nosso sangue mesclado, o secreto nome árabe que escondemos, a sonegada negritude, os traços célticos que nos são mais íntimos, o judaísmo. Ela era toda a condição de sermos nós, almas sentidas, noites perdidas, sombras bizarras…

Não se sobrevive bem sem um espelho, caraças.

                                  

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

                        CARPE DIEM 5

                Não sei se algum dos candidatos a presidente da minha junta de freguesia já telefonou ao Woody Allen e pedir-lhe para fazer um filme passado aqui na zona da Penha de França, Alto de S. João, Alto do Pina.
         O meu país cada vez dá mais vontade de rir ao mundo. Até está capaz de dar vontade de rir ao próprio Woody Allen. Ou até a sugerir ao Woody Allen a linha principal do argumento de um filme. A linha saloia. A começar pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, que em Nova York não teve estatuto para falar pessoalmente com o próprio Woody Allen e contentou-se com a telefonista da “equipa de produção”. 

       
       Mas o candidato Menezes ao Porto, que não é nenhum provinciano, e não fosse o Woody Allen pensar que o Porto ficava atrás de Lisboa, também já entrou em contacto, porque seria interessantíssimo (transpirava glamour e fazia falta à cultura ocidental) fazer um filme sobre o FCP, os títulos em série, as namoradas do presidente, os lances épicos do Apito Dourado…


         O quê, o Oliveira e Costa desapareceu? A polícia não sabe dele? Onde é que ele está?


Ora bolas, onde é que ele há-de estar? Em Nova York, a contactar com o Woody Allen para um filme sobre…

         Pois é. Tenho que telefonar – e não passa de hoje – aos candidatos a presidente da minha junta de freguesia a avisar que só votarei naquele que tiver telefonado nem que seja à cunhada do Woody Allen. Penha de França, Alto de S. João, Alto do Pina. Até pelos nomes se percebe que estão mesmo a pedir um filme.  


quarta-feira, 25 de setembro de 2013


                         O SILÊNCIO E AS ELITES


Kant pensava no Homem e nas comunidades, claro, bastante ao arrepio das categorias da vida comunitária e política de hoje.
Um primeiro preceito kanteano era o de cada um pensar por si mesmo e assim obter o estatuto moral de ser livre, uma vez que liberto das conivências e dos preguiçosos abandonos mentais ao pensar mais comum das massas onde está inserido.
O pensar reflectindo a opinião geral falsifica a verdade da convivência, é mais uma achega a uma falsa universalidade de parecer, integra-se no movimento geral do pensamento, privilegia a superstição em lugar da verificação.
A tendência do pensamento humano talvez seja a de ser dirigido por outrem ou condicionado pelo geral.
A razão pode ser passiva, mas o homem esclarecido pode e deve ultrapassar-lhe a passividade.
Bom, mas no mesmo âmbito desse pensar kanteano por si próprio haveria que defender-se de um natural egoísmo de mentalidade  e ensaiar um pensar pluralista. É possível pensar por si próprio e todavia em comum com os semelhantes, com aqueles que nos transmitem os seus pensares próprios e aos quais possamos transmitir os nossos.
(Parecendo que não, é de democracia que estou a falar.) 
O pensar por si próprio. Logo: a opinião. No acaso mais ou menos previsto das minhas leituras caiu-me sob os olhos o lucidíssimo ensaio do pensador politico francês Alain Minc sobre a democracia. É, como digo, um pensamento lúcido e como tal nada agradável para os olhos sensíveis dos contentinhos e/ou mais democraticamente deslumbrados.
Começa ele por dizer que com o desaparecimento do optimismo histórico termina uma época que nos foi aberta pelo Século das Luzes. Ou seja, está a terminar um ciclo para a democracia política.


A democracia tem dois séculos – é uma criança ao pé da longuíssima experiência humana das tiranías – e passou esses dois séculos de metamorfose em metamorfose. Quando teve acirrados adversários esteve à altura e entre as suas fragilidades desencantou forças. Agora, que não tem inimigos, deu-lhe para a autofagia e vira essa força contra si mesma.
Rende-se o comunismo, desaparecem as ditaduras militares, é a universal vitória da democracia.


Mas o mal estar desencadeia-se. Uma deserção civil, como alguém disse. Fica-se tão assombrado perante o triunfo democrático que parece que nos recusamos a habitar a democracia.
A democracia e seus optimistas dizem que vivemos numa democracia de opinião porque governada quase apenas em função dos media e das sondagens eleitorais; a democracia e seus pessimistas dirão que dela, democracia, apenas restam alguns símbolos tradicionais.  
A democracia de opinião. É a democracia que presta culto ao imediato. E qual será o primeiro agente de imediatismo nas nossas vidas quotidianas? A televisão. Nem é preciso pensar muito.
    A televisão ou o totalitarismo do instantâneo. A televisão ou a entidade detentora da emoção quotidiana da nossa vida. Captar o sentir da opinião e satisfazê-la. E já está. E acontece a nova metamorfose da democracia.


Fala-se na importância da televisão (mais do que da queda do Muro de Berlim) no movimento da sensibilidade política das massas e no novo fôlego que o sistema democrático representativo quis tomar.




A opinião e as sondagens. A pesporrência e o descricionarismo de um chefe político só poderão ser temperados pelas sondagens. As sondagens que enfraqueceram em tempos Margareth Thatcher, John Major, Helmut Kohl, e as sondagens que evidenciaram os descontentamentos.
Na América, já se sabe, a peleja é entre o presidente e o congresso. E se a cota de popularidade do presidente sobe, os congressistas conformam-se, se ela desce, eis os congressistas desenfreados no ataque ao presidente.

A França elege todos os sete anos um monarca que põe uma equipa de técnicos a governar e só tem que se preocupar com a sua performance nas sondagens.
E os cidadãos parecem gostar do jogo de espelhos das sondagens e dos prestígios e capacidades políticas que são melhores ou piores ao sabor da sondagem do dia. É mesmo. A sondagem evita muitas chatices ao cidadão, dispensa-o da militância política, dispensa-o das manifs. Dispensa-o de pensar. A sondagem faz regredir ao primário a evolução política das sociedades. Os políticos profissionais tornam-se obedientes servos do número. Dão voltas à cabeça quanto à maneira de ganhar pontos percentuais na próxima sondagem. Os discursos procuram antes de mais, antes de tudo, o impacto possível nas sondagens.
Há até quem fale cinicamente das eleições legislativas como uma sondagem em tamanho natural. A democracia de opinião gera tão magníficos simulacros que pode bem dispensar a realidade. 
Todos continuamos a crer que a opinião pública seja igual à soma das opiniões individuais. Vale a dizer que a opinião individual transfere responsabilidades para a opinião pública. O que dá com que vivamos e nos movimentemos alegremente entre memórias e amnésias e às aranhas no torvelinho dos comportamentos sociais.
O homem político, ou o partido, que conjunturalmente vá em primeiro lugar nas sondagens julga-se desde aí detentor de uma legitimidade. Porém de uma legitimidade que não passa de ser imaginária.
Ou então, à força de repetidos, os resultados das sondagens legitimam-se a si mesmos. Como diz Alain Minc: à força de pretender existir essa opinião acaba por consegui-lo. E os homens políticos vergam-se a ela. E se se vergam a ela, obviamente, justificam-na. Se actuarem como se a opinião fosse realidade não correm riscos; mas se não actuarem, multiplicam os riscos.
Equação: opinião igual a sondagem mais jornalistas.


François Mauriac chamou de escroquerie intelectual à autoridade dos media. E, enfim, Mauriac declarava altissonante aos media: Para vós, a opinião pública não se distingue daqueles que ao mesmo tempo a exprimem e a encarnam -  os jornalistas.
Ou como ainda disse Tocqueville: quando um grande número de órgãos de imprensa caminha na mesma direcção, a sua influência, a prazo, torna-se irresistível e a opinião pública, flagelada sempre do mesmo lado, acaba por ceder  aos seus golpes.


Em sociedades complexas como a democrática, o jornalista é o único que é ao mesmo tempo espectador e actor. Nunca está sujeito à sua própria crítica. Penso, logo: sou a opinião pública.
Estaremos perante uma das últimas – ou, quem sabe, a última – das metamorfoses da democracia representativa?
Ou estamos na revolução que fará nascer a nova forma: a democracia de opinião.
Quem o poderá saber?
E como valorizar o voto do cidadão se ele representa um estado cada vez mais fluído e momentâneo de opinião e a ele se segue um interregno de anos até às eleições seguintes, e sendo que o sentido desse primeiro voto, a meio do interregno pode já não exprimir a real opinião dos eleitores?
Que a política já nada tem de convicção ideológica  era sabido. A política passou a ser uma competição do tipo desportivo, e o poder, bem vistas as coisas, pode não passar de uma faculdade de domínio da técnica de combate às tão mutáveis inclinações da opinião. 

                                
São extremamente custosas, como se compreende, as reformas numa democracia pautada por uma opinião que flui rapidamente. Era preciso que um país inteiro se consciencializasse quanto ao momento. Era preciso que cada poder político gozasse de uma credibilidade inconcebível para operar uma reforma violenta sem consultar parceiros sociais nem querer agradar aos seus clientes tradicionais.
Porque, na verdade, não é muito difícil burlar um cidadão. Nem com o conto do vigário. Nem com o truque do bilhete premiado. Uma vez, ali para os lados de Belém, houve até quem vendesse um carro eléctrico a um saloio. E estou a falar de coisas palpáveis, materiais. Agora imagine-se como é doce vender a imagem de um governo a funcionar maravilhosamente. Ou vender a ideia de um simples voto, que não custa dinheiro a quem vota mas que pode render milhões  a outros…

                                                      

Como será agradável publicitar o infinitamente imaterial!
Falando sério, o que quererá dizer a expressão opinião pública – e concretamente em democracia?
Será que a dita opinião pública exprime o sentir da maioria do povo? Não creio eu e julgo que ninguém bem intencionado crê numa balela democrática dessas. A opinião pública pode ser… pode ser… a opinião dos jornalistas. Pode até nem ser a opinião sincera desses jornalistas, porque pode bem ser a opinião que os donos dos jornais queiram que o povo tenha.
Os donos de uma opinião pública nacional são dois ou três proprietários de jornais ou de televisões – ou das duas coisas. E os proprietários de jornais não são propriamente gente comum, nem pobres, nem assalariados, e geralmente não são fascistas nem comunistas. Nem nada. São donos de jornais. Capitalistas que querem vender o seu papel e com o papel vender ao público as ideias que lhes façam vender mais e mais e cada vez mais do seu papel.Claro como água.


Donos de jornais, directores e editores de jornais que insinuam uma opinião e por isso também têm a sua parte na governação da democracia. São até governantes invisíveis. E invencíveis. Nunca perdem porque nunca jogam, e não jogando não correm riscos. E os muitos do eleitorado votam conforme lhes é indirectamente sugerido pelos poucos que lhes fazem a opinião.


A opinião pública é a opinião dos cronistas e comentadores ditos independentes a que os jornais e televisões dão tempo e espaço e que não se podem afastar muito da mediania suportável em democracia, ou dos interesses de quem lhes dá a palavra.

                                                                                           
    
   Avaliando bem, quase sempre os cronistas e comentaristas políticos, não tergiversando das baias do conveniente, acabam por representar, mais até do que a sua opinião pessoal, a opinião de alguns grupos de interesse, ou políticos, ou religiosos, ou partidários, ou económicos, ou cívicos, e que, sem declararem os interesses e opiniões a que dão voz, tentam inculcar – muitas das vezes impingir – uma verdade aos leitores e espectadores – na realidade, todos eles eleitores.    


                                                                                                                                                       
Há até quem diga que as notícias falsas ou deturpadas e os comentários ilusoriamente sinceros convencem mais do que a realidade – realidade que com o correr do tempo já ninguém sabe ao certo qual seja.

                                                                              

Já no primeiro quartel do século XIX o grande Tocqueville tinha falado nestas coisas da opinião, no império soberano da opinião pública. E a expressão dele, opinião pública, tornou-se um mito, um dogma. E Tocqueville não podia sonhar com os apuros a que a política poderia chegar na consideração do que fosse opinião pública e do modo de a manipular.


Mas Tocqueville disse mais. Frases dele a respeito da opinião pública, algumas: a imensa pressão do espírito do todo sobre a inteligência de cada um – uma;  o indivíduo está pronto a reconhecer que não tem razão quando o maior número o afirma – outra;  a maioria não tem necessidade de obrigar o indivíduo, a maioria convence-o – outra. E outra ainda: a opinião comum é o único guia que resta à razão individual nos povos democráticos, ela tem um grande peso no espírito de cada indivíduo.                                                                          
Volto a dizer: o conceito de opinião de Tocqueville dificilmente tem que ver com a opinião que a sociedade actual sabe fabricar.
Quem pode hoje, cidadão comum, ajuizar quanto à verdade, ou verdades, da vida pública, quando a verdade mediática a cada momento procura sobrepor-se à verdade dita pura? Às vezes coincidem. O que é bom para o sistema.  Mas se não coincidirem, que será feito do tal tão badalado Estado de direito?
Na democracia de opinião haverá como que uma novelização da vida. A emoção compensa. A razão está em decadência. O directo. O espectáculo. O zapping em busca de sensações. A guerra em directo. As imagens eventualmente chocantes. O efeito CNN. As audiências. As audiências!
A informação já nada tem de solene ou de sagrado. A informação não passa de um produto. A informação é mercadoria, porque há vasto e compensador mercado para a informação. A informação mais rápida é mercadoria mais rentável. Informação rápida e/ou infinitamente repetida. A rapidez da sobreposição da informação gera a amnésia do público – da opinião – superficializa a História, a moral, o bom senso.
A acção esbate-se. A reacção é soberana… ainda não há reacção do partido tal aos acontecimentos… o clube tal já reagiu ás declarações…
Quem governará as sociedades serão os media. Já não são precisos nem partidos nem governos totalitários.
O totalitarismo… cá está. Travestido. Bela frase de Régis Debray, esta: É o espectáculo do Estado que faz o Estado, tal como o monumento faz a memória.


A tríade decisiva para o funcionamento da democracia de opinião que se prefigura no horizonte passa pelo Juiz, pelos media e pela opinião propriamente dita que aos dois primeiros compete produzir. Este trio parecia anteriormente ser o contrapoder das sociedades democráticas. Mas se parecia, ou era mesmo, deixou de ser, porque também gritantemente deixou de parecer. O poder judicial passará a ser o verdadeiro poder. Os media passarão a ser o verdadeiro poder. O mais imediato e verdadeiro poder estará na opinião. São os media os grandes actores. Eles tanto constroem como reflectem a opinião. Todos os dias vemos isso à hora do telejornal.
Todos serão postos perante o juízo da opinião. Quer dizer: todos serão sujeitos à ditadura da transparência. E será que a maior transparência significa mais ou maior democracia? Atenção que a opinião é em si mesma instável, não o sendo menos certamente o grau de democracia que possa engendrar.  
E bem se afadigou o Estado a querer controlar tanto juízes como comunicadores e fazedores de opinião, quando o centralismo era palavra de ordem, quando o poder público se sentia com condições de garantir o interesse da comunidade - e mesmo com leis democráticas.
Na opinião de Alain Minc, os novos magistrados e os novos jornalistas assemelham-se. E como tanto se assemelham, entendem-se numa cumplicidade eventualmente natural. Aqui em Portugal fomos percebendo isso muitíssimo bem ao correr destes últimos anos. Os media e a justiça alimentam-se mutuamente. O juiz de instrução detém um poder inusitado ao usar a imprensa como caixa de ressonância. Um cidadão publicamente declarado como arguido por um juiz de instrução já é na prática um culpado. A presunção de inocência é, para o juízo da opinião pública, uma figura de estilo.


O julgamento de primeira instância de um indivíduo que chame as atenções da imprensa é quase um veridicto. Para a opinião pública, claro está. Um processo de opinião é já mais que meia condenação. Um juiz de instrução torna pública uma acusação e cria um facto irreversível. O juiz pode ir instrumentalizando a opinião através dos media durante todo o processo de instrução e assim desencadeia uma dinâmica impossível de conter. Todos temos percebido isso nos últimos tempos.
Um testemunho acusatório tornado público pode acabar com qualquer presunção de inocência e o exame desse testemunho já, para a opinião, faz parte do processo condenatório.


Um juiz é um gestor de suspeições colectivas na democracia de opinião.


Até que, descontentes com a sua subalternidade de caixas de ressonância, os media começam a querer comprometer os próprios poderes policiais e judiciais e a desenvolver a sua própria e autónoma investigação. E tudo isto se passa em nome da igualdade – é preciso sublinhar – para que não haja privilégio de classe ou de fortuna no tratamento dos negócios da justiça.


E a opinião que juízes e media produzem inibem o político na sua acção. A grande vítima da democracia da opinião será o homem político. A opinião vitimizará o político. Por isso talvez os políticos sejam cada vez mais medíocres e burocratas. Andam tolhidos de medo e contratam a peso de ouro o homem que passou a ser o mais importante membro de um gabinete ministerial: o assessor de imprensa.
Os homens carismáticos deixarão de ter peso e espaço na política. A democracia de opinião acabará por criar um novo homem político. Um homem angustiado pela sua imagem, pelo que podem dizer dele os jornais de amanhã. Um homem feito gato-sapato pela opinião. Na democracia da opinião.
Uma das traves mestras da opinião pública, engraçado, é o silêncio. É esse o genial parecer de uma socióloga alemã chamada Noelle Neumann.
A espiral do silêncio. Isto é: o silêncio é o segredo da opinião, porque só a apatia de muitos garante a influência de outros, as elites. Se se conseguir dar a sensação de que a opinião geral mudou, ela muda mesmo.
Já se deixa ver, mesmo à vista desarmada, que democracia de opinião e sociedade de mercado são comadres muito chegadas. Tão chegadas quanto indissociáveis. Tão chegadas que, como na história do ovo e da galinha, às vezes duvida-se sobre qual delas existiu primeiro. Quer dizer, assim, a olho nu, deve ter sido a sociedade de mercado. Há mercado – e que mercado! – para a opinião. A economia esmaga-nos. Tanto como a opinião.


A democracia representativa, aliás, não será muito mais do que um mercado político. E o mercado precisa de estudos de opinião quando quer saber  como e o quê e quando e onde pode comprar e vender.


Mas, pelo menos, em democracia de opinião o homem político já escusa de se impor por métodos brutais. Isso era antigamente. Na actualidade estamos no domínio do político sedutor. É a sedução a grande arma política numa democracia de opinião. E a democracia de opinião é tão sedutora, tão real, tão efectiva, tão livre, tão indiferente e tão tolerante que me permite, a mim, que não sou ninguém, vir para aqui botá-la. À opinião.
Mas enfim, tem-se dito e escrito, e praticado, tantas coisas, ou uma coisa e o seu contrário, sob o pavilhão da democracia, que eu não posso deixar de pensar que hoje por hoje, essa gloriosa, invencível, antiga, seríissima e venerável democracia deixou de ser o que quer que tenha sido, porque já poucos a levam a sério enquanto princípio, e reduziu o seu ser a uma singela palavra, embora de bela ressonância histórica e moral.
A democracia não será, hoje, muito mais do que uma palavra, uma das várias palavras para designar a existência num mesmo corpo político-legislativo de várias pequenas e parcelares - mas muito efectivas – ditaduras. Pequenas e parcelares ditaduras que, somadas, e paradoxalmente, não dão uma grande ditadura, só dão uma pequena democracia.