sexta-feira, 18 de outubro de 2013

        ESTÁS NA MINHA LISTA NEGRA, DIZ A ZEBRA
        PARA O MOSQUITO
       (PARTE II)


            Tempos de desassossego no cinematográfico pós-guerra americano.


           Se por um lado havia o Comité para a Primeira Emenda, que  se desdobrava em contactos, comícios, conferências, páginas de publicidade paga nos mais importantes jornais, tudo em defesa dos direitos dos Dez de Hollywood, por outro havia os anti-comunistas mais ferozes, os racistas declarados, os para-fascistas e tudo isso integrado na Legião Americana, sempre à espreita para boicotar as salas onde passassem filmes em que participasse algum dos identificados como comunistas, e contando com o inestimável apoio da cadeia jornalistica de William Randolph Hearst.
            O próprio Hearst escrevia artigos a propósito:  se está mais que visto que no meio disto tudo os produtores de Hollywood não parecem dispostos a mexer uma palha para correr com os vermelhos da indústria, então o governo federal que se meta no assunto e que imponha censura aos filmes dos comunistas. Seria uma medida útil, visto que a indústria está infestada de comunistas.
            E enfim, era um ambiente que já preparava uma nova fase de perseguições e interrogatórios.
           O Hollywood Reporter abria um título a seis colunas: a questão comunista está a dividir a Screen Writers Guild (o sindicato dos argumentistas), enquanto na Screen Actors Guild se aprova uma resolução que obriga todo o actor a assinar uma declaração de não-comunismo.
            Frank Sinatra fala na rádio e atira-se à Comissão. Quando essa Comissão tiver depurado Hollywood qual será o próximo sector? Querem assustar-nos? O meu medo é que esta Comissão venha a obter hoje o consenso dos americanos, porque então, para o ano, já não me será possível falar livremente nesta rádio. E ao lado dele estavam Judy Garland, Humphrey Bogart, Gene Kelly, Burt Lancaster, Lucille Ball e muitos outros.
            Mas os Dez continuavam activos. Ring Lardner Jr. lá recebia os seus 2.000 dólares por semana – depois das audiências até chegou a ser aumentado – Lester Cole e Dalton Trumbo continuavam nos seus postos de trabalho na MGM, e Edward Dmytryk e Adrian Scott tinham a garantia de que a casa a que pertenciam, a RKO, não lhes ia ao ordenado.   
            A quem não importava - em primeira instância, pelo menos - saber se os Dez eram ou não eram comunistas era aos produtores e aos distribuidores. Importava-lhes mais, e preocupava-os muito, verificar que esses se pareciam demasiado com comunistas. Já dizia um director geral da MGM, não vou andar por aí a querer descobrir e castigar comunistas, o que digo é que esta história dos Dez foi um violento golpe para a indústria. Mas que sejam vermelhos ou não não me faz a mais pequena diferença. Porque não era um problema político-ideológico, o que era era um problema de public relations – aparências. E foi por essa causa que os produtores se reuniram em comité  - mais um comité. À cabeça ficou Louis B. Mayer. Entre os membros estavam Dore Schary, Walter Wanger, Joseph Schenk. Entendemos promover uma publicidade favorável à indústria do cinema para temperar o mau clima instalado.

                               
                                                          
            Naqueles dias todos me exigiam uma posição a favor ou contra os Dez, e quando eu tinha resolvido não fazer nem dizer nada – viria a dizer Louis B. Mayer mais tarde.
            A 24 de Novembro, ainda de 47, a Câmara dos Representantes deliberou por larga maioria a citação dos Dez de Hollywood para responderem pela culpa de ultraje ao Congresso dos EUA. Nesse mesmo dia, no Hotel Waldorf Astoria, em Nova York, cinquenta personalidades gradas do mundo do cinema estavam reunidas para tomar decisões, no que constituíu um dos mais marcantes momentos da História de Hollywood.´


            A indústria do cinema era uma muito peculiar indústria no universo das actividades económicas americanas, e um dos pontos dessa peculiaridade era que dependia estreita e directamente da opinião pública. Trabalhava para a opinião pública, logo, era julgada pela opinião pública. E a opinião publicada na imprensa, por esses dias, tinha dado uma reviravolta e já se levantavam vozes críticas do comportamento dos Dez. Mas também vozes críticas contra a paranóia da auto-protecção reclamada pela indústria de Hollywood. E no quadro dessa, digamos, paranóia, exigia-se regulamentação e até censura. Quanto ao crucial e sensível mercado estrangeiro dos produtos hollywoodescos, os danos eram apreciáveis, em função (dizia-se) da propaganda vermelha veiculada pelas produções americanas - muitos países da América Latina tinham por via disso fechado os écrans à produção de Hollywood.
            Aos produtores e senhores dos estúdios, os capitães da indústria, cabia uma decisão sem ambiguidades: ou bem que decidiam em conjunto defender o seu direito de continuar a dar trabalho aos Dez; ou bem que, todos de acordo, despediam os elementos dos Dez    que tinham na sua folha de pagamentos – esta última medida seria o bastante para convencer o público da culpabilidade deles.
            Louis B. Mayer foi a favor do despedimento – colectivo, digamos, comum a todas as casas produtoras. Eddie Mannix, da MGM, duvidava que privar aqueles homens do seu posto de trabalho fosse legal segundo as normas vigentes na Califórnia, mas um dos colaboradores das empresas, que no passado fora juíz do Supremo, diz que a coisa se pode fazer, embora correndo riscos.
            Contra o despedimento geral dos Dez de Hollywood levantavam-se as vozes de Dore Schary, Samuel Goldwyn e Walter Wanger. Eram pelo diálogo. Todos se deveriam sentar a uma mesa e encontrar uma solução equitativa – aviso de Goldwyn, que todavia sentiu a disposição geral favorável ao despedimento e não teve vontade de se opor ao que era a opinião mais geral. Ficou Dore Schary numa posição isolada, contrária aos despedimentos, e sustentando que  o despedimento dos Dez hostis à Comissão não traria nada de novo à indústria para além de uma nova estratégia de relações públicas.
            (Muito mais tarde, em 1965, Dore Schary disse numa entrevista ter ficado muito amargurado por ter sido o único naquela reunião do Waldorf Astoria a declarar que um trabalhador deveria ser contratado na base das suas capacidades profissionais e não levando em conta as suas ideias políticas. Pensou então em demitir-se, mas adorava o seu trabalho de produtor de cinema e não gostaria de se ver fora da indústria. Fora por isso, e só por isso, que subscrevera a Declaração do Waldorf.)
         Na reunião do Waldorf Astoria não houve votação final e decisiva. No entanto, feitas bem as contas, a opinião que na verdade prevalecia era a dos maiores chefões, e esta era a favor dos despedimentos. As vozes contrárias, como Goldwyn, Schary, Mannix ou Wanger eram vozes de produtores ou independentes, ou demasiado e absolutamente dependentes das vontades dos patrões das majors.
            O que saiu foi uma declaração, a Declaração do Waldorf. Alguns passos dela:
            Não queremos prejudicar os direitos legais dos dez cineastas de Hollywood, mas, pelas as acções praticadas, estas pessoas prejudicaram seriamente os seus empregadores e comprometeram o interesse que a indústria cinematográfica tinha nas suas colaborações. De hoje em diante procederemos ao despedimento sem direito a indemnização dos dez incriminados que trabalham na nossa dependência e não os voltaremos a contratar até que sejam absolvidos da acusação de ultraje e até que possam declarar sob juramento que não são comunistas. Que fique claro: não contrataremos pessoa alguma que seja comunista ou membro de algum grupo ou partido que se proponha derrubar pela força ou por qualquer outro método ilegal e inconstitucional o governo dos Estados Unidos. A este propósito, apelamos às organizações sindicais de Hollywood para que colaborem connosco a fim de eliminar os subversivos que se acoitam entre nós. Etc.
            Daí para a frente os estúdios exigiam a cada seu contratado uma carta em que jurasse não ser comunista, não frequentar extremistas, e arrepender-se e jurar não tornar a cometer semelhantes erros se no passado tivesse colaborado com alguma destas organizações – ajudas aos refugiados espanhóis, aos comités anti-fascistas e coisas assim.   
            Depois da Declaração do Waldorf, a lista negra , que se restringia àqueles dez, foi sendo alargada a muitos mais artistas.

                        



A chamada lista negra de Hollywood era a lista de artistas a excluir da indústria cinematográfica devido às suas ideias políticas. Algo que, elaborado pelas maiores produtoras cinematográficas, nunca existiu. Por ser ilegal a elaboração de qualquer lista negra.
Algo que nunca existiu, dizia, mas que existiu – porque, lá está aquilo que eu (plagiando o camarada Will Shakespeare) costumo dizer: nada existe mais do que aquilo que não existe.
Na verdade, nenhuma das majors alguma vez admitiu a existência de listas negras discriminatórias com base nas ideias políticas, nem nenhum tribunal alguma vez as reconheceu. E no entanto, os resultados delas foram evidentes.
No seu pleno direito, as grandes companhias cinematográficas recusaram trabalho a certos argumentistas, realizadores e actores. Pura e simplesmente. Mas tal não poderia interpretar-se como uma sistemática segregação por razões ideológicas.
Haveria doravante duas razões imediatas, oficialmente instituídas, para o despedimento de um artista. Uma era o ter-se recusado a responder cordatamente às perguntas da Comissão para as Actividades Anti-Americanas; e outra era ter sido apontado por testemunhas como estando, ou tendo estado, filiado no Partido Comunista Americano.


Mas também será preciso ver as coisas mais de perto. E o certo é que a indústria hollywoodesca do espectáculo sempre tivera as suas listas negras. Podiam mudar os tempos, as motivações e as dimensões do fenómeno, mas o espírito segregacionista sempre existiu contra pessoas de grande talento ou de elevada qualidade profissional que de um dia para o outro eram postas à margem da nata da indústria, e nalguns casos para sempre. Bastava uma vingança pessoal, uma inveja, um caso de sexo. Por isso mesmo, McCarthy, e a Comissão para as Actividades Anti-Americanas que ele inspirou, não inventaram nada quanto a princípios subreptícios de repressão e segregação no meio cinematográfico. Só que, se nos anos 20 os proscritos de Hollywood podiam sê-lo devido a comportamentos de moralidade inaceitável, nos anos 40 e 50 a tonalidade da música repressiva mudava da moral sexual e dos costumes para quesitos de moral política.
Os Dez não esperaram muito pelas consequências práticas da Declaração do Waldorf. Quem tinha um contrato foi prontamente despedido sem levar um tusto, e com base num artigo do respectivo contrato… o artista comportar-se-á com o devido respeito pelas convenções sociais e pela moral comum e não se envolverá em acções que o degradem ou exponham publicamente ao descrédito ou ao ridículo, que escandalizem, ofendam ou irritem a comunidade ou a moralidade e a decência comuns, ou ainda que possam causar dano à empresa ou à indústria cinematográfica no seu conjunto.
E os dez listados de negro levam a tribunal os seus ex-patrões produtores. Por ruptura injustificada de contrato, por despedimento ilegal, pela criação de uma verdadeira lista negra. Cinco tiveram ganho de causa – ruptura injustificada de contrato. Os outros perderam todas as causas.
E entra o ano de 1948. Tribunal de Washington. Ultraje e vilipêndio à Comissão, ou não? Sim. Lawson declarado culpado. Trumbo declarado culpado. Recursos para o Supremo. Acordo entre os advogados destes dois com o governo: a sentença sobre estes dois casos valeria para todos os outros acusados.


E entra o ano de 1950. Em Abril, o Supremo Tribunal rejeita os recursos. Um ano de prisão efectiva para Lawson e Trumbo. Os outros iriam a seguir. Para a Prisão Federal de Dunbury, no Connecticut. 
A lista negra fica em banho-Maria. A Comissão, se bem que moralizada com a condenação de quem a tinha ultrajado e vilipendiado, sossegou por um tempo. Até Março de 1951. E regressou em 51 mais ameaçadora do que nunca.
Nesse interim, John Wayne é elevado a presidente da Associação para a Defesa dos Ideais Americanos. Nenhum comunista deve se tolerado na sociedade americana nem na nossa indústria. Não queremos ser confundidos com traidores. Queremos patriotismo e justiça. Não odiamos ninguém, só esperamos que aqueles que mudaram de ideias cooperem ao máximo com as autoridades. Quero eu dizer, que denunciem pessoas e locais de que tenham conhecimento e assim tornem a fazer parte da grande família americana.
O falhanço do recurso de Lawson e Trumbo alterou o quadro de defesa de quem viesse a ser interrogado e inculpado. A invocação da Primeira Emenda Constitucional perdera eficácia depois da decisão do Supremo. Desafiar a Comissão na firmeza de um argumento constitucional já não era táctica. Quem se sentasse no banco das testemunhas arcava à partida com o labéu de “culpado” de qualquer coisa. Era a exemplar democracia americana liberal a funcionar em registo fascistóide. Não é impossível para uma democracia liberal, nem pode ser olhado como contra-natura numa democracia liberal. Como de resto por aqui passámos a saber…
O ambiente em torno das audiências de 1951 foi muitíssimo mais tenso e crispado do que em 47. E muito mais hostil para aqueles que compareceram acusados de comunismo.


A circunstâncias políticas americanas e mundiais haviam mudado. Tinha sido descoberto e preso como espião soviético um alto funcionário do governo, Julius e Ethel Rosenberg tinham sido executados na cadeira eléctrica por espionagem a favor da União Soviética, o comunismo estava definitivamente instalado na China, os soviéticos tinham realizado uma primeira experiência nuclear, começava a guerra da Coreia, o senador McCarthy entrava de rompante na cena política interna com a sua cruzada de histeria anti-comunista. A coisa estava feia. A América estava com medo. E inaugura-se na exemplar democracia americana um período de forte e activa repressão política.
O cómico Don Camillo, em 1952, um dos filmes da popular saga protagonizada por Fernandel e Gino Cervi, chama as atenções do chefe da censura da Paramount, um ítalo-americano, que de imediato denuncia o filme à CIA como  um daqueles filmes comunistas, ou de certa forma favoráveis ao comunismo, que mostram (como se isso fosse possível) a convivência com os vermelhos num clima de amizade. O filme registara um enorme sucesso de público na Europa, prémios em Veneza e na Alemanha, e fora oficialmente reconhecido como um filme fundamental para o desenvolvimento do pensamento democrático. O problema para o chefe da censura da Paramount era que o filme pudesse ganhar o Óscar para o melhor filme estrangeiro desse ano. Não ganhou.
E no meio disto tudo havia 48 testemunhas a recusar responder à Comissão no item relativo ao seu credo político, enquanto 35 cederiam e a tudo responderiam e ficariam para a História deste período como odiosos delatores dos colegas.
            - Já disse que não sou comunista – repisava o actor Larry Parks. - E se estive inscrito no Partido Comunista foi por ser muito jovem, muito liberal e muito idealista. E muito sensível às necessidades dos oprimidos, dos não privilegiados.  Ser comunista respondia aos meus ideais e à minha sede de justiça e de igualdade. Julgo que ter sido comunista em 1941 e sê-lo em 1951 são assuntos distintos. Hoje sabemos que a URSS quer dominar o mundo.


            - Muito bem, senhor Parks… conhece o seu colega actor Lionel Stander?
            - Conheço, sim…
            - Encontrou-o… alguma vez… numa dessas reuniões comunistas?
            - Não, não me recordo dele em nenhuma.
            - Sabe se era filiado no Partido?
       - Não. Mas, por favor, penso não ter feito nada de mal…acho que  vou responder apenas a perguntas que me façam sobre mim mesmo. Gostaria de não ter que envolver outras pessoas…
          - Então, diga-nos… onde é que se reuniam? Em locais públicos ou nas vossas casas?
            - Em casas, sim.
            - Houve alguma reunião em sua casa?
            - Não.
            - As reuniões eram em casa de quem?
            - De pessoas como eu, gente respeitável, pequenos burgueses em nada diferentes de mim…
            - Em casa de quem?
            - Em várias casas de Hollywood.
            - Queremos os nomes dos proprietários dessas casas…
            - Bem, senhor presidente, como lhe disse há pouco, preferia…
            - Então o senhor acredita que essas pessoas de quem não nos quer dizer os nomes não são culpadas de nada?
            - Acredito, sim.
            - Então, senhor Parks, se não têm culpa de nada porque é que julga causar-lhes danos dando-nos os nomes delas… se elas não fizeram nada de mal…
            - Meus senhores, a minha carreira de actor depende do favor do público. Ser aqui chamado influencia negativamente o público, que começa a suspeitar de deslealdades para com o seu país… e não podeis constranger-me a escolher entre o ultraje ao Congresso ou arrastar-me na lama como um delator… não, não podeis obrigar-me a essa escolha… as pessoas de quem os senhores exigem os nomes são pessoas de bem, como eu…
            - Enfim, senhor Parks, faça-nos o favor de nos dizer simplesmente quem estava inscrito na célula do Partido Comunista a que o senhor pertencia entre 1941 e 1945…
            Parks deve ter respirado muito fundo, deve ter tido a visão do que seria a sua vida sem os estúdios, as câmaras, as luzes, a fama, a visão da sua carreira de actor provavelmente ainda muito em princípio a ir-se por água abaixo…
        - Morris Carnovsky… Joe Bromberg… Sam Rossen… Lee J. Cobb…
            - James Cagney também estava inscrito?
            - Que eu saiba, não.
            - Sam Jaffe?
            - Não, que eu saiba…
            - John Garfield…
            - Não me recordo de ter estado em nenhuma reunião com ele.
            - Karen Morley…
            - Sim.
            - Robert Rossen…
            - Não.
            - Richard Collins…
            - Sim.
            Está visto que o presidente da Comissão – que já não era Parnell Thomas, era um tal Taverner – conhecia de ginjeira os nomes da célula do Partido Comunista a que Parks pertencera, conhecia-os muito melhor do que o próprio Parks.
        No fim, o presidente Taverner, movido por uma íntima compaixão misturada com alguma sádica crueldade, consolou o inconsolável Larry Parks:
            - Talvez lhe sirva de consolo saber que todas as pessoas de que o senhor fez os nomes já eram conhecidas desta Comissão, já cá foram chamadas, e se algum prejuízo lhes sobrevier não será devido ao seu testemunho…
            - Não me serve de nenhum consolo, senhor presidente – murmurou o pobre Parks.
            Porque, vamos lá a ver, a delação não era brincadeira nenhuma. Um artista admitia perante a Comissão que sim senhor, que era culpado de simpatias comunistas, ou de ter de alguma maneira apoiado associações ou grupos suspeitos de simpatias pró-soviéticas. Nesse caso, a Comissão exortava-o ao arrependimento. O artista podia bater à vontade com a mão no peito e declarar estar realmente arrependido. Não bastava. O caso não ficaria assim, a Comissão não ia lá com conversa. Para provar o seu genuíno arrependimento o artista tinha a obrigação de fornecer uma lista de nomes daqueles que com ele um dia haviam compartilhado de ideias ou simpatias comunistas, ou que, como ele, apoiavam ou tinham em tempos apoiado, associações cúmplices do comunismo internacional, nomes e não só nomes, como se viu, também os locais de reunião.
            

          
            A humilhação era muita. O objectivo da Comissão nem seria tanto (ou não seria mesmo nada) o de conhecer os nomes que eles estavam carecas de conhecer. O objectivo seria mesmo o de  humilhar os delatores perante a opinião pública, de os comprometer e de os queimar definitivamente perante os companheiros de profissão e de ideal político. E nem por ter bufado alguns nomes Larry Parks se viu riscado da lista negra pelos patrões da indústria – e a verdade é que, razoavelmente informado que sou, nunca ouvi falar deste actor Larry Parks. Os patrões não quiseram arriscar-se por ele, e não o tiraram da lista negra dada a teimosia dele em querer preservar os “vermelhos”, sendo por isso de considerar personagem pouco confiável pela indústria.
            Dois anos passados de pobreza, sem alternativas de trabalho na profissão, carreira destruída, desesperado, e cá está Larry Parks a escrever uma carta à Comissão, a oferecer-se para prestar novo testemunho, desta vez com espírito mais colaborante. Não sei se deu resultado. Não deve ter dado. Nunca ouvi falar deste actor Larry Parks.
       Uma nova táctica viria a ser seguida pelas testemunhas de 1951. Uma invocação à Quinta Emenda Constitucional, a reforçar à já antes accionada Primeira Emenda, e uma e outra para evitar responder a perguntas sobre as opiniões políticas de cada um.
          A Quinta Emenda dizia mais ou menos… Ninguém será obrigado a responder por um delito que implique a pena capital ou de qualquer modo infamante, a não ser por denúncia ou acusação proferida por um grande júri (…) Ninguém pode ser processado duas vezes pelo mesmo delito (…) Ninguém pode ser obrigado, seja qual for a causa penal, a depor contra si mesmo (…) Ninguém pode ser privado da vida, da liberdade ou da propriedade a não ser por um regular processo legal.
            Mas cuidado, era arriscado. O Supremo não criara ainda doutrina sobre a validade desse tipo de recurso, embora garantisse que quem se acobertava à sombra da Quinta Emenda não seria pelo menos incriminado por ultraje, e desde o momento em que essa cobertura  não implicava uma consideração de ilegitimidade para a Comissão.
       Invocar a Quinta Emenda na sua plenitude poderia significar que a testemunha apenas abrisse a boca para declarar o nome e a morada. A Quinta Emenda “atenuada” foi invocada por Carl Foreman e Robert Rossen, disponíveis para revelar à Comissão que actualmente não pertenciam ao Partido Comunista, mas sem por isso se obrigarem a depor sobre eventuais militâncias pretéritas, ou a responder a qualquer demanda sobre as actividades do Partido. Um recurso à Quinta Emenda “muito atenuado” queria dizer que a testemunha se prontificava a uma deposição ampla sobre si mesma e sobre as suas actividades, recusando porém falar de casos terceiros. A dramaturga Lillian Hellman recorreu a este estratagema.
            A Quinta Emenda tem armadilhas. Se me perguntassem se conhecia o presidente Roosevelt devia responder que sim, porque o facto de o conhecer não me poderia prejudicar. Se me perguntassem se conhecia Charlie Chaplin ou Dashiell Hamett (que a Comissão via como comunistas) deveria recusar responder, porque esses nomes acabariam por me incriminar.  Complicado.
            Quem teve a brilhante carreira de ídolo cinematográfico de ressonância mundial destruída e passou os últimos tempos de vida na amargura, até morrer com uma trombose aos 39 anos, foi o actor John Garfield.
              Sentado no banco das testemunhas, Garfield não se mostrou nem hostil nem delator. Fez-de de lucas. Comunismo?, que é isso? Subversivos?, expliquem-me lá. Representou. De ingénuo. De simplório. “A minha vida é um livro aberto. Não tenho nada a esconder nem nada de que me envergonhar. Não sou vermelho. E também não sou pink. Sou um leal cidadão deste país.” Ignaro absoluto em matéria política, e por outro lado, e noutro lance, democrata e liberal, e admitindo o comunismo como a causa de todos os males do mundo.
            John Garfield levou três horas de interrogatório no dia 23 de Abril de 1951.
Não conhecia, nunca conhecera, nenhum comunista em Hollywood. Nem ao menos ouvira algum zum-zum sobre nenhum dos seus colegas. Apoiara a candidatura presidencial de Henry Wallace, apoiara, sim, enquanto convicto liberal, e nunca pela cabeça lhe passara que os comunistas apoiavam o mesmo candidato que ele. Não, não se lembrava de ter apresentado o cantor (negro e comunista) Paul Robeson num espectáculo a favor dos refugiados anti-fascistas unidos. E sim, concordava, então não haveria de concordar, com a ilegalização do Partido Comunista. Do que não se recordava era de ter estado num cocktail a bordo de um navio russo fundeado no porto de Los Angeles acompanhado por Charlie Chaplin, Lewis Millestone e pelo escritor russo Constantin Simonov…


Em resumo, John Garfield parecia estar a ser vítima de um surto de amnésia. O que levou o presidente da Comissão a perder a paciência.
-  E o senhor Garfield pretende que nós acreditemos que em sete anos e meio a trabalhar nos estúdios de Hollywood, num ambiente em que os grupos comunistas organizados em células desenvolviam as suas actividades subversivas, a contactar dia após dia, semana após semana, com electricistas, maquinistas, operadores, actores e realizadores…nunca conheceu nem ouviu falar de um único activista comunista… sete anos e meio, senhor Garfield…
- Exactamente, senhor presidente.
       - E se o senhor viesse a ser abordado, ou mesmo aliciado, por qualquer membro do Partido Comunista… que faria, que diria?
           - Oh, senhor presidente… se isso acontecesse eu fugiria a sete pés como se tivesse visto o diabo em pessoa!
            Num primeiro momento a táctica de John Garfield deu resultado. Não o consideraram testemunha hostil. Meses depois o caso mudaria de figura e o nome do célebre John Garfield, o parceiro de Lana Turner no mítico filme O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, aparecia escritinho e escarrado na lista negra. Ou antes, apareceria escritinho e escarrado na lista negra se houvesse uma concreta lista negra. Que não havia, como já vimos antes. Que não havia, havendo. Nada existe mais do que aquilo que não existe. Assim como a filiação comunista de Garfield parece que não existia mesmo, de verdade; a que existia era a da sua primeira mulher, Roberta Seidman. E Garfield, já afastado dos grandes écrans, vai a enterrar em Nova York acompanhado por mais de dez mil pessoas, a afluência a um funeral só ultrapassada pela do enterro de Rudolfo Valentino.
         Das cobras e dos lagartos que Edward Dmytryk dissera, em 1947, da Comissão, pedia ele, em 1949 e 1951, muitas desculpas, desunhando-se a escrever cartas, pondo-se às ordens para o que fosse preciso, isto é, para responder, em 1951, ao que não respondera em 1947, para falar, em 1951, o que calara em 1947. Também ele ultrajara o Congresso. Tambem ele experimentara as agruras do cárcere federal. Mas quebrara psicologicamente. E queria esclarecer as coisas a respeito de comunismo. Que fizessem o favor de o chamar. Estaria disposto a responder a todas as perguntas, a fornecer todos os nomes. Estará mesmo disposto a responder a todas as perguntas, senhor Dmytryk? – perguntava-lhe um tal Roy Brewer numa conversa preliminar antes que lhe fosse concedida pela Comissão a segunda oportunidade – a todas, senhor Brewer. Estará pronto a dizer-nos o que o levou a aderir a uma organização subversiva? Oh, sim, estarei com certeza.


            Novamente sentado no banco das testemunhas, Edward Dmytryk vomitou os nomes dos comunistas que conhecia (e talvez dos que não conhecia) e atraiu sobre si o desprezo dos antigos camaradas. Que lhe importava? Limpava assim o seu nome da ominosa lista e reabilitava-se como artista de Hollywood.
            25 de Abril de 1951.
            - Então porque se recusou a testemunhar amigavelmente perante esta Comissão em 47?
            - A situação mudou entretanto.
            - Que quer dizer com isso?
            - Há uma grande diferença entre o ano de 47 e este de…
            - Uma grande diferença?
            - Claro que sim, e mesmo em relação ao Partido Comunista. Em 47 ainda a guerra fria não se manifestara por completo e eu acreditava que a Rússia estivesse sinceramente interessada na paz mundial. E nem via o Partido Comunista como uma ameaça. Além de me parecer que a Comissão que me intimou a testemunhar estivesse a invadir um terreno que não lhe era permitido invadir, o da liberdade de pensamento.
            - Então e agora, o que lhe parece?
            - Houve importantes desenvolvimentos desde então. Ouvi entretanto dizer que em caso de guerra  os militantes comunistas americanos se recusariam a combater pela sua pátria mas que estariam prontos a pegar em armas pela Rússia soviética. A guerra da Coreia mostrou-me muitas realidades, sabe, senhor presidente. É fácil de compreender que a Coreia do Norte nunca teria invadido a Coreia do Sul se não contasse com apoios muito poderosos… quero eu dizer, da China comunista e da Rússia comunista. Tudo isso me perturbou. Tudo isso me fez compreender o que significa de facto a ameaça comunista e a parte que o Partido Comunista Americano pode ter nessa ameaça.

      A espionagem. Outro tema que o perturbara. Uma série de casos de espionagem, com nomes que hoje nada nos dizem, a não ser um, o de Klaus Fuchs, cientista alemão a trabalhar na América, que entre 1945 e 1947 passara segredos nucleares para a União Soviética. O que mais incomodava Dmytryk era o caso de haver espiões que não eram vulgares mercenários, muito ao contrário, era gente que espiava por motivações ideológicas, para o Partido, por amor do Partido e de uma potência estrangeira…
            - E isso para mim… sim, vejo isso como traição…
            A imprensa de esquerda, e comunista, tinha elevado Dmytryk aos cornos da lua como artista enquanto fora testemunha hostil e estivera preso, mas no momento em que Dmytryk passava a testemunha amigável e denunciava o Partido, o Partido passava a denegri-lo o mais que podia. Já se sabe como é na política, os piores inimigos a abater  para um qualquer partido são sempre os ex-membros desse partido.
            - O que esta  Comissão gostaria também de saber era a razão por que o Partido Comunista se esforça tanto para se infiltrar em Hollywood…
            - Sobre isso, compreenderá… nada posso dizer de concreto. Nunca tive acesso à direcção do Partido. Na minha ideia haverá três fundamentais razões… obter dinheiro, porque a comunidade de Hollywood é rica. Obter prestígio. Também. E, mais importante, controlando os sindicatos  poder controlar o conteúdo dos filmes. E era uma oportunidade para organizar grandes festas, jantares, reuniões sociais, onde se poderiam… não directamente para o Partido, bem entendido… mas onde se poderiam recolher donativos consideráveis. Quando a União Soviética e a América estavam alinhadas e de perfeito acordo, então sim, muito dinheiro foi angariado em Hollywood para o Partido Comunista…
            - O senhor contribuiu?
            - Não. Naquele tempo eu ganhava pouco. 25 dólares por semana era o que me disponibilizava o meu agente. Posso ter contribuído, digamos…com quê?, cinco, dez dólares…a minha carreira era controlada pelo meu agente, e os agentes artísticos são capitalistas, e eu não podia pedir-lhe que transferisse dinheiro para o Partido Comunista. E ademais…uma coisa… havia associações que eram frentes comunistas, as pessoas eram liberais mas eram efectivamente controladas por um ou dois comunistas infiltrados. E essas organizações não se metem, evidentemente, em actividades que possam parecer anti-democráticas… ou anti-patrióticas… e é assim que eles atraem muita gente incauta. Por cada comunista que lá estivesse estariam lá cem que não eram comunistas e ninguém se apercebia de que estava a ser controlado por comunistas.
            - Eram muito ingénuos!
           - Não! Não eram parvos. Os comunistas é que são suficientemente espertos para dissimular muito bem este género de operações. 
            - Mas o senhor pertencia ao Sindicato dos Realizadores,correcto?
            - Sim. Desde 1939.
            - Quantos realizadores estavam no sindicato?
            - 225. Ou 230.
           - E entre eles havia quem o senhor sabia ser filiado no Partido Comunista…
            - Pelo que eu podia saber eram sete. Talvez seis…
            - Pode dar-nos os nomes desses?
           - Frank Tuttle. Herbert Bieberman. Jack Berry… aquele que mora em King’s Road e que organizava reuniões na própria casa…
            - E sabe de quem possa ter abandonado o Partido?
            - Não. Mas é fácil pensar que muitos o tenham feito.
            (E agora vai uma insidiosa das minhas: porque não ter sido o próprio Partido a denunciá-los indirectamente à Comissão quando eles desertaram, para os desacreditar profissionalmente? Seria caso virgem? As vinganças em política são impiedosas.)
            - Disse três…
- Bernard Vorhaus.
            - Quatro…
            - Jules Dassin. E eu.
       - E pode dizer-nos o que sabe acerca das penetrações comunistas no Sindicato dos Argumentistas?
            -  Não sei muito. Alguns eram meus amigos…
            - Mas sabe alguns nomes…
            - Sei de John Howard Lawson. E de Lester Cole, que era o chefe do grupo. Gordon Kahn…
            - Mas como é que o Partido infiltrava os sindicatos?
            - Não conseguiram o que queriam. É a minha opinião.
            - E o que queriam?
      - Já o disse. Controlar os conteúdos dos filmes. Sabiam muito bem a importância de um meio de comunicação tão poderoso para usar na propaganda, como instrumento doutrinário. Lenine tinha dito que o cinema iria ser o mais importante dos meios de propaganda…
            - O senhor falou de John Howard Lawson…
            - Era o Dalai Lama do Partido Comunista nessa época.
            - Porquê?
         - Era ele que arbitrava todas as questões, tomava as decisões. E Adrian Scott. E Albert Maltz, o mais liberal do grupo. Mas tenho quase a certeza que neste momento o Partido Comunista não conta para nada em Hollywood…
   
                                           

            É muito longo o testemunho de Edward Dmytryk, e muito pormenorizado. Perguntaram-lhe pelo fascínio que o Partido Comunista exercia, nomeadamente sobre os escritores cinematográficos, e a resposta até foi um tanto didáctica. Os escritores, ou argumentistas, são a base do trabalho no cinema, e para compreenderem as pessoas (que transformarão em personagens de ficção) os argumentistas têm que estudar a sociedade em que vivem e em que condições económicas vivem. Dmytryk pensava que quem se torna escritor seja alguém com sentimentos humanitários, idealistas e e altruístas muito vivos. Por ser assim é que os escritores entravam em contacto com os comunistas mais do que o normal das pessoas. E o Partido Comunista montava muitas armadilhas e elas funcionavam em geral bastante bem.
           - Em Hollywood, se se pergunta a uma pessoa como e porquê teve sucesso, ela não dirá que foi devido à sua personalidade e porque trabalhou muito para ter sucesso. Ela dirá que foi por um golpe de sorte, e que se limitou a aproveitar uma ocasião favorável que a sorte lhe apresentou. E é claro que o trabalho e a personalidade contam muito, mas a sorte, o golpe de sorte, também. Quando eu era um anónimo projeccionista, o chefe de montagem da RKO propôs-me, a mim e a outro velho projeccionista, uma oportunidade de fazer montagem, de me tornar montador. O meu velho colega não quis. Eu quis. E ele hoje continua a ser um obscuro projeccionista e eu ganho um alto salário. A oportunidade é isto. O golpe. A sorte. E sabem os senhores uma coisa? O Partido tem uma explicação para tudo. Se alguém disser que no Partido, ou no comunismo, não há liberdade, respondem-lhe que sim, que há a liberdade de dizer a verdade. O que se passa é que o comunismo descobriu a verdade última de todas as coisas e é essa e só essa a verdade que há a dizer. Porque cada coisa que fique fora da linha ideológica e programática do Partido… é mentira. Tudo o que venha do lado do capitalismo é uma óbvia mentira, porque vem de um  sistema que consideram uma mentira já na sua raiz. Seja o que for que aconteça na União Soviética é necessária para atingir um objectivo mais elevado. Inclusive o Pacto Germano-Soviético…
            - E como explicam o trabalho escravo na Rússia?
            - Negam-no. É mentira. É a imprensa capitalista que mente.
            - Quando e´que entrou para o Partido, senhor Dmytryk?
            - Em 1944.
            - E quando saiu?
       - Em…no outono de 45. Mas estive ainda ligado ao People’s Education Center, controlado pelo Partido, até 1947. Eu era um dos Dez de Hollywood, é bom não esquecer. E por ser isso decidi não cortar de todo com eles e correr os riscos até ao fim, até que o processo fosse julgado no Supremo Tribunal. Queria saber se tínhamos ou não razão, e se tínhamos mesmo que ir presos. Podia ter dito que tinha sido membro do Partido, mas não quis fazê-lo antes de cumprir pena de prisão. Ainda assim, fiz uma declaração nesse sentido enquanto estive preso. E porque a guerra da Coreia, como disse, me perturbou muito.
            - O seu testemunho foi ditado exclusivamente pela sua consciência, senhor Dmytryk?
            - Exclusivamente pela minha consciência, senhor presidente.
            - Muito bem. Creio que o senhor, hoje, deu um grande contributo para a luta mundial contra o comunismo.
            - Muito obrigado, senhor presidente.
            O dia seguinte do pobre Edward Dmytryk foi um inferno. A começar pelo desdém directa ou indirectamente manifestado pelos Dez de Hollywood (ou seja, pelos Nove de Hollywood, depois da defecção de Dmytryk), seus ex-colegas de prisão. E jornais e revistas, o New York Daily Worker a dizer que o realizador Edward Dmytryk, ex-membro do grupo dos Dez de Hollywood, se transformara num informador do FBI, que era um homem de mão do grande capital, e agora também era unha com carne com o seu arqui-inimigo, o actor Adolphe Menjou, e como ele caçador de bruxas. A isto Dmytryk repontou que nunca na vida tinha falado com alguém do FBI, que trabalhar num filme com Menjou era diferente de ser unha com carne com Menjou, além de que não esperava quaisquer favores vindos do lado do grande capital. Menjou também levou dos seus amigos anti-comunistas por ter ajudado um comunista como Dmytryk (entrara num filme dirigido por ele, The Sniper), apesar de arrependido. “Então Adolphe, meu velho, como é isso de trabalhares com um ex-comunista?” E resposta pronta de Menjou: “é porque sou uma grande puta”.
            E se Dmytryk reentrava pela porta grande de Hollywood era caso raro, ou mesmo único, entre os Dez, quando os nove que sobraram, depois de cumprido o seu ano de prisão, mantiveram a folha manchada e ninguém (pelo menos nos primeiros tempos e às claras) lhe deu trabalho.

                       

            Dmytryk vem a realizar The Caine Mutiny e The Young Lions, os mais conhecidos dos seus filmes daquela época  (Os Revoltados do Caine  e  Os Jovens Leões), filmes que ele sublinhou serem comerciais como mandava a lei, e sem nada que ver com experimentalismos ou preocupações sociais - deliberadas, pelo menos.
       Houve gente a dizer que depois desta vaga anti-comunista, dos impedimentos de alguns dos melhores e da elaboração da lista negra as capacidades criativas da indústria americana do cinema andavam pelas ruas da amargura.
            Ronald Reagan voltava à carga. Julho de 51. Amadurecera. E, maduro, endurecera as posições políticas e a sanha anti-c0munista, relativamente ao depoimento feito em 1947.
            - Ah, senhores, no passado deixei-me levar de forma desprevenida por pessoas e actividades que se revelaram conotadas com células comunistas. E comecei a pouco e pouco a repensar certas coisas com maior discernimento e até com algum desencanto. Despertei, senhor presidente. Pois foi. Despertei, se me é permitido dizer assim. Abri os olhos à regeneração do mundo.
            E nesse pé ficou Reagan até aos anos 80, em que acabou por ser um vencedor, é preciso dizê-lo, e vencedor pelo papel determinante que foi o dele para a fragorosa queda da URSS.
             E quem está a seguir na cadeira para ser interrogado pela Comissão? Uma das mais importantes personalidades hollywoodescas da época, Elia Kazan, provavelmente o mais mundialmente celebrizado dos delatores do cinema.


            Kazan não experimentara a prisão, embora numa primeira audiência, Janeiro de 52, à porta fechada, se tenha recusado firmemente a fornecer nomes. Mas nem por isso foi acusado de ultraje fosse a quem fosse. Admitiu, sim senhor, ter estado no Partido entre 1934 e 1936. Só isso. Nada de nomes. Mesmo assim, podia ter caído na culpa de vilipêndio. Não caiu. Mas posteriormente a lista negra esvoaçou-lhe em volta da cabeça, a ele, o mais célebre e genial dos directores, e então sim, não precisou de ser intimado a aparecer e apresentou-se voluntariamente. Em Abril desse mesmo ano de 1952.  Alguém lhe segredara que tivesse juizinho, que tirasse  da cabeça a triste ilusão de poder fazer mais algum filme em Hollywood se não se chegasse à frente, quer dizer, ao banco da testemunhas, e não cantasse os nomes dos seus antigos compinchas do Partido.
            - Como disse?
            - Sim, cheguei à conclusão de que errei.
            - Errou?
            - Errei por não ter fornecido os nomes que a Comissão me solicitou.
            - E desta vez?
- Bem…
- E porque mudou de ideias?
- Pensei que o segredo é útil aos comunistas. O secretismo é mesmo tudo o que desejam antes de mais. Mas o povo americano tem o direito de saber, de ter conhecimento dos factos, todos os factos, e sobre todos os aspectos do comunismo, e depois que se tomem as providências devidas, as providências eficazes.
- O senhor Kazan, está portanto na disposição…
- É o meu dever de cidadão dizer tudo o que sei.
E disse. Os nomes de oito comunistas do Group Theatre a que pertencera nos anos 30, artistas e trabalhadores do teatro. E disse que nos filmes que fizera nunca tivera a mínima intenção de fazer crítica social ou oferecer histórias de que se pudesse fazer uma segunda leitura.


Os comissários agradeceram-lhe muito e mandaram-no em paz. E Kazan nem esperava pelo assentar das poeiras e nesse mesmo ano começava a filmar o seu ajuste de contas com a ideologia e a praxis comunistas, num filme que, como hoje se diz, se tornou icónico de uma época, de um conflito, de uma questão de moral, On the Waterfront (ou, em português, Há Lodo no Cais), e no qual o herói, o rapaz, o bom da fita, é o informador, o bufo. E logo no dia seguinte ao testemunho Kazan envia para o New York Times um longo texto a justificar a sua atitude.


(…) Se há alguma histeria em volta desta questão – e há, especialmente em Hollywood – ela é alimentada pelo mistério, pela suspeita e pelo secretismo. Mas os factos concretos podem esfriar essa histeria. (…) Há dezassete anos eu era um jovem director de cena de 24 anos que fazia umas figurações como actor e ganhava 40 dólares por semana quando trabalhava. Naquele tempo sentiamo-nos ameaçados por duas coisas: a depressão económica e o crescente poder de Hitler. E fiquei muito impressionado pelo filme Modern Times (Os Tempos Modernos - Chaplin) que representava muito bem a técnica de recrutamento e propaganda dos comunistas. Havia soluções para a crise, eles tinham-nas, tanto para a  grande depressão económica quanto para o nazismo e o fascismo.
E a seguir (o texto é interessante mas demasiado grande):
(…) Ser membro de um partido comunista significava ter gosto em viver num Estado policial. Mas pode-se deixar o Partido. E eu deixei-o. Na primavera de 36. E perguntar-me-ão porque não contei tudo isto há mais tempo. Porque me preocupei com a reputação e com o posto de trabalho de pessoas que, como eu, tivessem deixado o Partido há muitos anos. E pensei para comigo que podia odiar os comunistas mas que não devia atacá-los, ou denunciá-los, porque se o fizesse estaria a atacar os direitos de se terem opiniões impopulares e ficava ideologicamente inscrito no número daqueles que atacavam as liberdades cívicas.
Até ao dia de hoje a acrimónia contra Elia Kazan (aliás um realizador de facto, e na minha opinião, realmente genial) permanece viva. E a Academia de Hollywood foi altamente criticada quando, há anos, resolveu entregar-lhe um Óscar como prémio de carreira.
Kazan era a personalidade mais famosa e mais rica de todos os suspeitos que estavam debaixo do olho da Comissão para as Actividades Anti-Americanas. Kazan era o único que pelo prestígio alcançado podia ter desafiado a Comissão e posto em causa a instituição da lista negra. Mas também conviria dizer que Kazan se aguentara em silêncio por quatro anos, só concordando em depor em 1952, e por entender que a sua recusa em depor passaria a ser suspeita passado tanto tempo. Mas também já lá disse na altura Orson Welles: as testemunhas amigáveis  e os denunciantes falam para defender as suas piscinas.


Kazan nunca deu entrevistas (que eu saiba) a respeito daquele tempo da sua vida e daqueles problemas. Uma vez escreveu, ou disse, não sei bem, agi pelo melhor, ou por aquilo que as minhas convicções me fizeram crer que era melhor.
A seguir foi chamado a depor um dos denunciados por Kazan, um ex-membro daquele Group Theatre a que Kazan pertencera nos anos 30, um fulano chamado Tony Kraber.
            - E então faça favor de nos dizer, senhor Kraber… conhece o senhor Elia Kazan?
            - Como? Não percebi, desculpe.
            - Pergunto-lhe se conhece Elia Kazan…
            - Kazan… ah… quem? Aquele Kazan que assinou um contrato de 500.000 dólares logo no dia a seguir a ter denunciado colegas diante desta Comissão?
            (A tal história das piscinas…)
            Lillian Hellman, por seu turno, era uma rapariga liberal, burguesa, de boas famílias, considerada mulher de classe e, dramaturga com êxito, um paradigma da intelectual, ainda que militasse contra ela, no plano politico, o facto de viver das portas para dentro com um notório e perigoso comunista, qual era o escritor Dashiell Hammett – autor de O Falcão de Malta, O Homem Transparente, A Colheita Sangrenta, etc.. Quando à Hellman tocou a vez de lá ir a juízo já muitos dos seus mais próximos tinham passado pela experiência de abjurar dos velhos idealismos e das éticas ultrapassadas e tinham apontado outros a dedo, incluindo o seu particular amigo Elia Kazan. Os que não tinham feito nada disso tinham pago com a prisão a sua ousadia e a sua inteireza moral, e entre esses estava o próprio companheiro da sua vida, Hammett, preso numa penitenciária da Virginia por ser comunista e a quem fora destribuída a tarefa de limpar as retretes.
Mas Lillian Hellman nunca tinha pertencido ao Partido Comunista nem nada que se parecesse – ou talvez alguma coisa que se parecesse, veremos. O não pertencer ao Partido não contendia de modo nenhum com a sua qualidade de inimiga jurada daquela Comissão.


Lillian Hellman vai a um advogado. O advogado acha que está na hora de tomar uma posição moral perante a Comissão do Congresso e invocar a Quinta Emenda. A tal coisa: testemunharei sobre mim própria e sobre a minha própria vida, mas não direi uma palavra acerca de terceiros, sejam eles amigos ou inimigos, conhecidos ou estranhos. E porque não escrever-lhes primeiro uma carta? Tentemos. E a carta foi escrita. Dirigida ao então presidente da Comissão, John S. Wood. No dia 19 de Maio de 1952. A dizer precisamente, e em substância, o que ficou escrito atrás, e a expor os dilemas constitucionais daí decorrentes.
 O meu advogado diz-me que se respondo às perguntas que me tocam pessoalmente também deverei responder às que respeitem a outras pessoas, e que se me recuso a responder serei acusada de vilipêndio. E o meu advogado diz ainda mais, diz que se respondo às perguntas sobre mim própria estarei automaticamente a renunciar aos direitos que me são facultados pela Quinta Emenda e que por conseguinte estarei obrigada a responder a perguntas sobre outras pessoas. Compreenda que para um profano isto são matérias muito difíceis de compreender.
E em suma, se a Comissão não lhe assegurasse que podia responder só ao que pessoalmente lhe tocava sem falar de outras pessoas, sentir-se-ia coagida a apelar mesmo à Quinta Emenda.


A resposta do presidente da Comissão pouco adiantou e nada garantiu à senhora Hellman. Queira considerar, Senhora Hellman, que esta Comissão não pode permitir às testemunhas que sejam elas a estabelecer as regras e as condições sob as quais serão chamadas a depor.
 E a mais famosa escritora da América lá está vestidinha e calçada e sentadinha no banco das testemunhas logo pela fresquinha do dia 21 de Maio de 1952.
Frequentou muito pouco Hollywood. Quatro ou cinco meses em 1936. O argumento para um filme de William Wyler? Sim.  Nada de especial a dizer.
- Mas durante a estadia em Hollywood certamente conheceu Martin Berkeley.
            E pronto, estava o caldo entornado…
            - Recuso responder a uma pergunta que me poderá incriminar…
            O diabo é que o tal Martin Berkeley já tinha dito à Comissão… “nesse encontro estavam Donald Ogden Stewart, Dorothy Parker e o marido, Allen Campbell… estava o meu velho amigo Dashiell Hammett, neste momento preso… e estava aquela excelente escritora de teatro, Lillian Hellman…”.
      - Pois é, gostaria imenso de discutir esse assunto consigo, senhor presidente – responde a Hellman quando o outro acaba de lhe ler o depoimento do Berkeley -, mas nesse ponto peço-lhe o favor de se reportar à carta que escrevi a esta Comissão.
            Cópias dessa carta haviam entretanto chegado às redacções dos grandes jornais e estavam a ser publicadas. Quem distribuíra essas cópias? – é o que pergunta com severidade o presidente. O advogado da Hellman chega-se à frente e assume as culpas. Nunca pensara que o seu gesto fosse considerado despropositado. O caso é que era a primeira vez que a imprensa tinha acesso a uma declaração que fixava nos seus precisos termos o tipo de perguntas e respostas em uso naquelas audiências.
            Cópias da carta de Lillian Hellman estavam agora a ser passadas de mão em mão pelos membros da Comissão e pelos jornalistas que cobriam a sessão. Ouve-se uma voz:
            - Graças a Deus que finalmente alguém teve coragem de escrever isto!
            O presidente John S. Wood vai aos arames. Grita por silêncio. Vozeia que não seriam admitidos comentários. Ameaça: se ouvisse mais nem que fosse o zumbido de uma mosca mandaria a imprensa evacuar a sala. E a mesma descarada voz grita:
            - Então mande!
            (Não sei se mandou.)
            - Conheceu o senhor J. Jerome?
           - Recuso responder pelos mesmos motivos que anteriormente recusei…
            - Conheceu John Howard Lawson?
            - Recuso responder pelos mesmos motivos…
            - É, presentemente, membro do Partido Comunista?
            - Não.
            - Alguma vez esteve filiada no Partido Comunista?
            - Recuso responder pelos mesmos motivos…
            - A senhora diz apenas que não está inscrita no Partido Comunista neste momento… o que eu gostaria de saber é se pode estabelecer uma data, uma época do passado…
            - Recuso responder pelos mesmos motivos…
            - E ontem, era membro do Partido Comunista?
            - Não.
            - No ano passado…
            - Não.
            - Há cinco anos…
            - Recuso responder pelos mesmos motivos…
            - Há dois anos…
            - Não.
            - Era membro do Partido em meados de Julho de 1937?
            - Recuso responder pelos mesmos motivos…
            Mas é claro que Lillian Hellman podia ter dito a verdade. E a verdade é que nunca fora militante do Partido Comunista. Porém, por uma questão de moral, evidentemente, e pela força das suas convicções liberais, preferiu ser fiel aos próprios princípios.
            - E agora diga-nos, senhora Hellmam… recusa-se a responder a esta Comissão com base no privilégio constitucional, e em particular no que se refere à Quinta Emenda?
            - Sim, senhor presidente.
            E  a audiência era dada como terminada.
            O New York Times publicou um editorial sobre a audiência de Lillian Hellman festejando-lhe a coragem e a classe. Uma coragem e uma classe que lhe trouxeram dramáticas consequências e não lhe evitaram o nome cravado a fogo na lista negra; não evitaram que se sujeitasse (a maior escritora teatral da América) a ter de vender tudo o que tinha de seu, incluindo uma propriedade de família, e a ir trabalhar como caixeira para uns armazéns.
            A exemplar e perfeita democracia liberal tem destas coisas, pff, nada de especial, nem polícia política, nem torturas, nem censura, ou se diz o que é conveniente e correcto para o sistema, ou se vende tudo quanto se tem e se é obrigado a aceitar, se for caso disso, os trabalhos mais humilhantes.
E ainda a propósito de piscinas. A verdadeira razão que levou muitos famosos a dobrar a cerviz perante a Comissão, a nem sequer se defenderem invocando a Quinta Emenda, e a denunciar velhos amigos, foi uma razão meramente de tipo económico-financeiro. E foram os mais famosos e ricos, Kazan, Clifford Odets, José Ferrer, Budd Schulberg e outros, nessa altura no ápice das suas carreiras, a ter medo do poder que a Comissão tinha de lhes arruinar para sempre a vidinha e assim lhes secar as piscinas. Porque, por outro lado, entre as 48 novas testemunhas que se declararam hostis não havia um único famoso, era tudo personalidades de segundo e terceiro plano na indústria, os que arriscavam menos em fama e dinheiro.

                        

            - Em 1935 trabalhava eu como pintor, como artista. Só me tornei actor cómico em  1942. Desde então trabalhei sempre no mundo do espectáculo – declarou Zero Mostel no dia 14 de Outubro de 1955, quando, a partir de 1953, as atenções da Comissão se haviam concentrado na rádio, no teatro e na televisão.
            - De 35 a 42, então, o senhor era artista…
            - Intitulava-me como tal. Se calhar era o único…
            - Estava na Califórnia em 42?
         - Oh, sim, e fiz diversos filmes. Trabalhei para a Columbia, para a Warner, e assinei um contrato com a 20th Century Fox…ou era a 18th Century Fox…
            Cuidadinho, Zero Mostel, deixa-te de ironias finas, estás a gozar com o facto de a Fox, a 20th Century Fox, ser das majors a mais conservadora a tratar com a questão dos Dez de Hollywood…


            - O senhor também é conhecido como Zero. Certo?
            - Certíssimo. E isso deve-se à minha permanente situação financeira…
         - Quando trabalhou para aquela casa… Café Society, ou coisa parecida sabia, claro, que Ivan Black era militante do Partido Comunista…
            Zero Mostel pediu permissão para conferenciar com o seu advogado.
            - Temos aqui um problema – disse, dois minutos depois. – É que estou muito indeciso em como responder a certas perguntas que afinal pretendem saber opiniões pessoais, Há assuntos, e pessoas, que não são questões muito claras para mim… por isso agradecia muito que me fizessem perguntas que não me obrigassem a falar de outras pessoas.
        - Essa sua resposta não nos satisfaz. Pedia-lhe que respondesse à pergunta que lhe fizemos…
           - Nesse caso recuso. Não respondo. E recuso com base nos meus direitos constitucionais… por força da Quinta Emenda…
            - Conhece um tal Martin Berkeley?
        - Cá está. Devo recusar a resposta com base naquilo que acabei de dizer…
            - O senhor era membro do Partido Comunista em 1942?
     - Recuso responder nos mesmos pressupostos. Meus senhores, há liberdades e direitos constitucionais que neste país são garantidos a todos…
            - E os quais esta Comissão não discute.
            - Espero bem que não…
            - Mas, senhor Mostel, esta Comissão reuniu provas do auxílio oferecido por muitas pessoas do espectáculo ao Partido Comunista, intervindo em espectáculos patrocinados pelo Partido, emprestando a própria fama a encontros e festas que se destinavam a financiar o Partido…
            - Sim, sim, sem dúvida, e festas organizadas a favor da luta contra o cancro, também… contra as doenças cardíacas, contra os excessos de frio, etc., etc….
          - Sim, mas temos o testemunho de George Hall, por exemplo, a informar-nos de que a sua missão em Nova York era fazer espectáculos a favor do Partido Comunista…
            - O que é um conceito bem diferente da acusação que diz que a única finalidade dos comunistas é a de derrubar o governo…
            - Participou num programa da Juventude Americana… Youth Rally…e entre os nomes dos artistas cá temos…Zero Mostel – o comissário agita uma folha de jornal que passa à testemunha.
            - Não me recordo, mas deixe ver… esta organização não está na lista dos grupos subversivos?
            - Está.
            - Então recuso responder… mas um momento… leio que neste anúncio do comité anti-fascista não estou só eu… aparecem aqui grandes nomes do showbizz… Jimmy Durante, Milton Berle…
      Claro que esses artistas eram dos que aplaudiam o trabalho anti-comunista da Comissão, artistas que nada tinham sido prejudicados ou incomodados, ainda que tivessem participado em espectáculos ditos subversivos.
            Como Lillian Hellman, Zero Mostel insistiu em se reclamar da Quinta Emenda, fez isto, aquilo e aqueloutro?, recuso responder, conheceu A, B, ou C?, recuso responder, era membro do Partido em 1948?, recuso responder…
            - Era membro do Partido Comunista quando aqui entrou esta manhã?
            - Não.
            - Senhor Mostel, o senhor é um grande homem do espectáculo…
            - Às vezes…
         - Porque não se liberta dessas recordações culposas e de ter alinhado tantas vezes com subversivos…
            - Peço muita desculpa, meus senhores, mas eu acredito na ideia antiquada de que um homem deve ser avaliado pelo seu trabalho e pelo seu talento profissional e não pelas opiniões políticas que tenha ou não tenha. E eu não tenho muito fortes convicções políticas, mas das que tenho não falaria delas a ninguém, a menos que fosse um bom amigo e estivéssemos lá em minha casa à conversa e a petiscar qualquer coisa…
            - Não lhe estamos a pedir…
       - E tenha cuidado, senhor presidente, eu faço um detestável café solúvel… estou a avisá-lo…
            A História do macarthismo registou o que se chamou de “defesa da borboleta” feito por Zero Mostel na audiência. Acusavam-no de ter participado em manifestações junto com outros nomes de intelectuais e artistas subversivos, e, no entender da Comissão, se participou foi porque acalentava ideias comunistas…
            - E se eu tivesse aparecido nessas manifestações e tivesse imitado uma borboleta? Uma borboleta já cansada de tanto voar que resolve descansar por uns minutos? Oh, meus caros senhores, não creio que seja crime fazer rir as pessoas. E nem me incomoda que os senhores se riam de mim…
            - Mas se a sua imitação da borboleta que descansa levou dinheiro aos cofres do Partido Comunista, o senhor contribuiu para a propaganda desse partido…
            - E suponhamos que eu imite uma borboleta que resolva descansar onde calha, onde lhe der na cabeça?
            - Pois faça-a descansar onde ela quiser, mas, por favor, não em nenhum sítio que permita fazer entrar dinheiro nos cofres do Partido Comunista. Da próxima ponha a borboleta a descansar em qualquer outro sítio. Mas, muito bem, a testemunha está dispensada. Obrigado, senhor Mostel. E lembre-se daquilo que eu lhe disse…
       - Obrigado. E lembre-se também o senhor presidente daquilo que eu lhe disse.
            Nem é preciso dizer que Zero Mostel foi parar à lista negra.
            Fechava-se uma outra fase de audiências. E bem dissera o presidente Eisenhower quando os procedimentos da Comissão  suscitaram críticas. O insuspeito e republicaníssimo presidente Eisenhower afrontou McCarthy, é certo, mas só o fez quando a carreira e o poder do senador se aproximavam do fim. De qualquer modo, foi ousada a intervenção do presidente da República ao dizer: Se os processos utilizados contra os comunistas são os mesmos que são imputados aos comunistas, a nação começará a não saber quem são efectivamente os comunistas.
O actor Lionel Stander apresentou-se de cabeça baixa perante a Comissão no dia 6 de Maio de 1953, e teve o desplante de, cabeça baixa, olhos no chão, acusar a própria Comissão: eram eles os verdadeiros subversivos da vida americana. Quinze anos de lista negra ninguém lhe tirou. 


CONTINUA



         ESTÁS NA MINHA LISTA NEGRA, DIZ A ZEBRA
         PARA O MOSQUITO
                  (PARTE III)

            - Compreendo, senhor presidente, a filosofia que está na orígem da sua pergunta, mas gostaria que o senhor compreendesse a minha – disse Arthur Miller no dia 21 de Junho de 1956.
            - Estamos-lhe muito agradecidos pelo seu testemunho desses encontros que teve com escritores comunistas, mas só gostaríamos de saber quem participava neles, além de si, senhor Miller…
            

       
        Sim, um dos mais famosos e importantes dramaturgos americanos e mundiais também não escapou aos interrogatórios da Comissão para as Actividades Anti-Americanas.
            Joseph McCarthy caíra entretanto em desgraça mais a sua histérica campanha, que atingira os suspeitos de anti-americanismo aos mais altos escalões do exército, e que foi uma bomba na imprensa americana e mundial. Mas ainda que o mentor da campanha anti-comunista estivesse a ser desacreditado, a Comissão tinha agendado novas e numerosas audiências. E assestara os holofotes em Harvard – no mundo universitário em geral, aliás -, na Broadway – onde alguns actores de Hollywood tinham encontrado guarida para escapar ao interrogatório da Comissão -, e nos ambientes da dança e do bailado.
            E quem faltava aparecer na liça do macarthismo e da lista negra? Albert Einstein. E Einstein apareceu. Pequenos políticos reaccionários conseguiram insinuar no público a suspeita sobre os intelectuais, aterrorizando esse público com perigos inexistentes. Obtiveram sucesso e agora aprestam-se para suprimir a liberdade de ensino e despedem e condenam à fome os que não se lhes submetem. Que deve fazer a minoria dos intelectuais perante esta vergonha? Uma revolução passiva, no sentido gandhiano. Mas a recusa de testemunhar não deve escudar-se na Quinte Emenda e sim na ideia de que é vergonhoso que cidadãos sem culpas sejam sujeitos a tão inconstitucional inquisição. Se um bom número de pessoas estiverem dispostas a dar este duro passo acabarão por vencer. Em caso contrário, não merecerão outra coisa a não ser o estado de escravidão em que se procura colocá-las – New York Times, 12 de Junho de 1953. Era uma carta confidencial a um professor de liceu.
            Saíra a público o relatório dos trabalhos da Comissão para as Actividades Anti-Americanas referente aos anos 1951/52. 58 testemunhas denunciaram um total de 902 dos seus amigos e conhecidos; destes 902 nomes, 700 já haviam sido detectados pela Comissão antes mesmo das denúncias. O recordista dos mais vezes denunciados era o argumentista John Howard Lawson, 27 vezes citado como comunista. Segundo estimativas do próprio Lawson, no momento mais alto da sua expansão a lista negra compreendia cerca de 300 artistas. Adrian Scott, outro dos Dez de Hollywood, era mais preciso: 214 artistas e outros profissionais estavam votados ao ostracismo pelos estúdios, e entre eles 106 argumentistas, 36 actores, 3 bailarinos, 11 realizadores, 4 produtores (independentes, depreende-se), 6 músicos, 4 desenhadores e mais outros 41 profissionais diversos.
      Aumentara desmedidamente o interesse das organizações políticas americanas pelo “comunismo” de Hollywood. À frente dessas organizações perfilava-se a mais influente, a American Legion, que aventava a séria possibilidade de boicotar em toda a América os filmes em que tivessem colaborado algumas das testemunhas hostis à Comissão para as Actividades Anti-Americanas. A Legião Americana tinha em vista um programa de informação pública sobre as estruturas comunistas na indústria do espectáculo. E a Legião Americana não sossegaria enquanto a “limpeza” dos vermelhos de Hollywood não fosse total e completa, e feita segundo as promessas contidas na Declaração do Waldorf de 1947, porque ainda havia em 1951, e a trabalhar em Hollywood, 66 notórios comunistas.


          Sem dúvida que os produtores punham as mãos na cabeça ante a desgraçada perspectiva de um boicote da Legião aos seus produtos. Não era brincadeira – 2.880.000 militantes declarados e um milhão de simpatizantes. Seria a ruína das bilheteiras. E para mais quando no início das audiências de 51 a crise da indústria do cinema começava a preocupar, com uma queda de 40% em número de espectadores e com um número crescente de salas a fechar portas por toda a América. E aí está porque os produtores, ou os presidentes e vice-presidentes das majors, pedem um encontro com os homens da Legião Americana.
            Pedia-se à Legião que fornecesse às casas produtoras de Hollywood todas as informações que arranjasse sobre alguns dos contratados pela indústria envolvidos com o comunismo.
            Os produtores redigem então uma adenda à Declaração do Waldorf de 1947: não tencionavam contratar nenhum reconhecido comunista, mas nos últimos anos ficara difícil distinguir quem era comunista e quem não era, uma vez que muitíssimo poucos dos chamados a depor na Comissão admitiram a sua qualidade de comunistas militantes. E tudo porquê? Por causa da Quinta Emenda. A Quinta Emenda, que lhes dava a faculdade constitucional inescapável de não responder claramente quando indagados sobre as suas filiações políticas, estava a estragar tudo, quer dizer, todos os planos de erradicação do comunismo do mundo do cinema. Daqui decorre, e como recurso dos produtores para aquietar a Legião Americana nas suas tenções de boicote, que todos os interrogados na Comissão que se tivessem escudado na Quinta Emenda passariam, para efeitos de Hollywood, a ser considerados comunistas, ou seja, postos numa lista negra e despedidos sem apelo nem agravo.
            Não se pode esquecer, repito, que a crise na indústria era de meter medo. Basta ver que em 1945 os principais estúdios tinham sob contrato 804 actores, número reduzido, dez anos passados, para 209. Os realizadores  contratados eram 152 em 1945 e 72 em 1955. O mesmo para os argumentistas, que foi o grupo profissional do cinema que mais gente forneceu à lista negra – 490 contratados em 45; 67 contratados em 55.
            A crise. A crise que logo a seguir à guerra afectou seriamente o cinema americano. E se a Fox e a MGM e a Warner e a Paramount produziam os seus filmes e os distribuíam e os projectavam em cinemas de sua propriedade, em 1949 a ordem governamental foi para que as grandes casas produtoras vendessem as suas salas de cinema. Era a regra anti-trust. E como deixava de haver garantias respeitantes a quantas e quais salas iriam exibir os filmes produzidos, a quantidade de filmes produzidos começou a decaír – e, por consequência, o emprego na indústria a escassear.


            A Legião ficou satisfeita com os resultados da chantagem que fizera e rapidamente elaborou para consulta das majors um elenco negro de 300 pessoas ligadas a associações tidas como para-comunistas a trabalhar em Hollywood.
     A Legião funcionaria desde então como agência de censura nos estúdios.
            Mas não faltava muito para a lista negra se alargar e bem aos que, não sendo comunistas nem figurando nela, ajudavam a viver os que a indústria pusera à margem e condenara ao desemprego. O guionista Ring Lardner Jr., por exemplo, trabalhou no argumento de um filme a ser dirigido por Joseph Losey. Losey pagou-lhe o trabalho do próprio bolso e em dinheiro contado, o que lhe valeu ver o seu nome na lista negra. Alvah Bessie, outro dos Dez, trabalh0u num filme de Robert Rossen, o que deu como resultado Rossen ser chamado à Comissão, apelar para a Quinta Emenda, e acabar na lista negra. Desde aí, obviamente, nenhum dos Dez encontrou em Hollywood alguém que o ajudasse a viver.
            Particularidades engraçadas da perfeita democracia liberal- (fascista) americana.
Esperava-se o rebentar de uma guerra com a União Soviética e havia já destinados campos de detenção para os suspeitos de comunismo e subversão.

            
           Ser associado ao comunismo significava, entre outras coisas, perder o direito a ser cumprimentado pelos vizinhos, ter as janelas da casa constantemente estilhaçadas pelas pedras atiradas durante a noite, encontrar no jardim cruzes em chamas (marca do Ku Klux Klan), ter de consolar os filhos que eram humilhados na escola pelos companheiros, quando não pelos próprios professores – fragmento da autobiografia de Lester Cole, argumentista, um dos Dez.

                                                       

            To be a commy– ser comuna – era uma nódoa na reputação e extensiva a toda a família. E amizades velhas se desfizeram naquela época, e já não por diferenças ideológicas, muito mais por medo de se ser amigo de certa pessoa, se ver envolvido com comunistas e assim arriscar o emprego e a sobrevivência. Sentia-me a cair no mais fundo, passava na rua pelas pessoas que conhecia e baixava a cabeça - contou o guionista comunista arrependido Guy Endore.


            Mas tem graça que uma das acusações da Comissão aos chamados comunistas de Hollywood era de nepotismo. O que, por sinal, era verdade. Numa indústria em que a procura de trabalho qualificado era grande o nepotismo era prática comum. Quem quisesse trabalhar como argumentista (e provavelmente como outra coisa qualquer) em Hollywood não se podia apresentar assim, de mãos a abanar de recomendações. Era absolutamente indispensável ter uma connection na indústria. E podia até nem ter a ver com afinidades políticas ou ideológicas. Para ser admitido na indústria quem não tivesse as convenientes connections estava feito. Cada argumentista mais conhecido tinha um círculo (ou uma corte) de amizades e todos estavam permanentemente em contacto. E se um encargo era conferido a um famoso que não o podia ou não o queria fazer o encargo era passado imediatamente a outro membro do círculo (da seita) do famoso. Uma espécie de máfia, vamos lá…
            E também é bom que se diga que o Partido Comunista usou técnicas de isolamento social contra os os antigos militantes delatores e emitiu directivas sobre o tratamento a dar a um delator. A um delator e à respectiva mulher e respectivos filhos. Todos eles deveriam ser alvos do boicote do Partido e deveriam sentir-se miseráveis a cada instante das suas vidas. Era de organizar piquetes à porta das lojas ou dos armazéns onde as mulheres dos delatores faziam as compras. Era de recomendar aos filhos dos militantes que na escola fizessem pouco e maltratassem psicologicamente os filhos dos traidores ou quaisquer outros alunos que pertencessem à família de um delator, marginalizando-os, não falando com eles, ou chamando-lhes espiões e bufos. Era de escrever a giz nas portas das casas do delatores “o gajo que mora aqui é um espião”.
Mas adiante. Alguns argumentistas trabalhavam clandestinamente, anonimamente, com recurso a testas de ferro que lhes assinavam os trabalhos. Esperavam por tempos melhores.
Realizadores e argumentistas, vá lá, ainda podiam contar com algumas saídas para o seu problema, o que não acontecia, ou mais dificilmente acontecia, com os actores, os que tinham que dar a cara, evidentemente. Realizadores e argumentistas podiam ir trabalhar para o estrangeiro; podiam trabalhar em negro (como disse, escrever para outros assinarem), trabalhar para a televisão enquanto a Comissão não virasse os holofotes para aí, trabalhar por salários irrisórios para produtores independentes, off-Hollywood, por assim dizer. Ou viver e trabalhar num combinado destas situações.
            Mas vamos lá a ver as coisas como deve ser, Hollywood fechara-lhes as portas, falo dos argumentistas, mas algumas alternativas de trabalho ainda havia para eles em aberto e desvinculadas de qualquer servidão contratual a uma empresa. O teatro – casos de Lester Cole, Ring Lardner Jr., Dalton Trumbo. A ficção romanesca - caso de Albert Maltz.  O ensaísmo – para Samuel Ornitz, a trabalhar num estudo sobre as causas do anti-semitismo; ou para John Howard Lawson, que tinha finalmente tempo para acabar um livro sobre a escrita cinematográfica.
            Depois de averbar um considerável êxito na Broadway com a comédia The Biggest Thief in Town, em tom de bravata, Dalton Trumbo declarou (em nome dos Dez): a Comissão fez o maior favor que se podia fazer a cada um de nós, os Dez de Hollywood, levando-nos a escrever romances e comédias e obter grandes sucessos.
            Parece que, de uma maneira geral, o sucesso deles na América não foi nada do outro mundo. Um dos Dez, Alvah Bessie, caído na lista negra caíra também em funda depressão, dias e dias a olhar fixamente um ponto para lá da janela de sua  casa e sem saber o que fazer à vida.
            Alguns partiram para o estrangeiro. Estavam convencidos de que na América estava a despontar uma nova modalidade de fascismo, que a lista negra não seria mera manobra propagandística, e que era, sim, o começo de mais fortes acções repressivas. Um novo totalitarismo, ensaiado e derrotado na Alemanha e na Itália, mas a caminho de se transferir para os EUA.
Edward Dmytryk conta que quando estava preso recebera a visita do escritor Howard Fast e que este lhe dissera em segredo que dentro de pouco tempo eles seriam mudados da prisão para um dos campos de concentração que se estavam a construir em Montana…
Corria também o boato de que até as mulheres dos presos estariam em perigo e que os bens dos Dez de Hollywood iriam em breve ser confiscados pelo governo – daí eles se terem apressado a pôr esses bens em nome de pessoas que nada tinham com Hollywood. E na verdade, no condado reaccionário de Los Angeles saía uma lei que obrigava os inscritos no Partido Comunista a comunicar à policia sempre que quisessem viajar para fora da cidade.
Joseph Losey foi a figura que concentrou à sua volta os novos emigrantes do cinema americano que escolheram a Inglaterra para continuar a trabalhar.


As dificuldades de Joseph Losey na América, acusado na Comissão por uma única testemunha, em 1951, tinham começado ainda nos anos 40, concretamente em 1948. Rodava ele o seu filme mais relevante desse período, O Rapaz dos Cabelos Verdes, quando o seu produtor, Adrian Scott (mais tarde um dos Dez) foi parar a uma lista negra, e quando o milionário Howard Hughes pôs em acção uma violenta campanha para enxotar dos quadros da RKO os suspeitos de comunismo. Ou quando Hughes quis que Losey dirigisse um filme intitulado qualquer coisa como Casei com um Comunista. Losey recusara. Ele e outros treze realizadores. E Losey ficou marcado – o cutelo estava a caír mesmo ao meu lado e eu tinha a certeza de que não faltava muito para ser atingido. E como estava chapada no contrato dele uma cláusula a dizer que se ele estivesse de algum modo envolvido politicamente aquele contrato resultaria nulo para todos os efeitos, uma vez Losey denunciado os contratos que tinha estavam automaticamente caducados. E Losey começa a trabalhar sob diversos pseudónimos, Andrea Forzano, Victor Hanbury, Joseph Walton. Virá a estabelecer-se em Londres em 1957. É considerado pelos ingleses um mestre. Pode trabalhar com o verdadeiro nome. Pode empregar argumentistas listados de negro na América. E tem grande sucesso na  Europa.
Sucesso fora dos EUA também o conheceram Edward Dmytryk e Jules Dassin.
Foi no seguimento da primeira audiênca a que se apresentou, em 47, quando se portou mal perante a Comissão, não bufou nomes e foi parar à lista negra, que Dmytryk se viu obrigado a emigrar. Londres. Give Us This Day e Obsession. Mas um belo dia recebeu um aviso do Departamento de Estado dos EUA: devia voltar à América para renovar o passaporte – sem o passaporte em ordem os ingleses não o deixavam lá ficar a trabalhar. Dmytryk não viu outro jeito senão o de cumprir a ordem e assim que pôs os pés em solo americano os homens do FBI deitaram-lhe a luva e enfiaram-no na pildra. Seis meses. Ultraje ao Congresso. Quando sai da prisão, já o sabemos, o homem pensa duas vezes, para que é que eu me ando a armar em revolucionário, o que eu quero é governar a minha vidinha, e implora à Comissão  nova audiência, e testemunha amigavelmente, e dá uns nomes, e volta a trabalhar tranquilamente nos EUA – já vimos isso na Parte II.
Mas essa do bloqueio dos passaportes foi uma invenção de génio das autoridades americanas na luta contra os subversivos. E a mesma sorte de Dmytryk tocou a Adrian Scott e a Ring Lardner Jr., um a trabalhar em França e outro instalado na Suíça a escrever um argumento. Não é do interesse dos EUA que certas pessoas vivam no estrangeiro, era a sentença das autoridades.
Um dos nomes de comunistas que Dmytryk passa à Comissão é o do seu aluno de realização Jules Dassin. Dassin era uma das mais risonhas promessas de Hollywood (Brute Force e Naked City) antes de ser denunciado pelo seu mestre. Ao ser denunciado pelo seu mestre, Jules Dassin arranjou maneira de desandar para o estrangeiro antes que chovesse, e antes que tivesse de seguir as pisadas do seu mestre e o pusessem a dizer se era comunista ou não, e antes que também tivesse que pôr a boca no trombone a acusar os seus amigos se quisesse continuar a trabalhar em Hollywood.


Dassin vai para Londres. The Night and the City. Depois vai até Itália. Mas aí a notícia a dizer que ele tinha sido incluido na lista negra em Hollywood prejudica-o, não consegue trabalho. E vai para Paris. Em Paris começa a escrever para o teatro.  Mas é em Paris, em 1955, que Jules Dassin filma o thriller de grande êxito Du Rififi Chez Les Hommes – Palma de Ouro em Cannes. Filma na Grécia, Celui qui Doit Mourir, em 1957, também com sucesso. E recebe ofertas de trabalho nos EUA. Curioso, não é? É. Where the Hot Wind Blows (em português Nunca ao Domingo) – Palma de Ouro em Cannes outra vez, para a actriz principal, Melina Mercouri, com quem Dassin se casaria. E era a fama mundial. Dassin deve ter dado muitas gracinhas a Deus e à canalhice do seu mentor Edward Dmytryk.  

O México também foi um dos destinos de emigração dos homens da lista negra – Mexico City e Cuernavaca principalmente. Ajeitavam-se no espanhol, estavam relativamente perto de Hollywood, a vida era barata.
Bom, ajeitavam-se no espanhol é como quem diz. O espanhol deles não chegava para as encomendas. Eles só se ajeitavam. O obstáculo da língua era impeditivo, ou quase impeditivo, de algum destino reservado para eles no cinema mexicano. Mas como estavam perto de Hollywood faziam trabalhos em negro, para o mercado negro do cinema americano.
No México tinham a vantagem de não ser preciso terem passaporte em dia para lá viverem. Renovava-se a licença de estadia a cada seis meses e estava a andar. Por lá passaram Dalton Trumbo, Ring Lardner Jr., Robert Rossen, Hugo Butler.
Dalton Trumbo era um dos mais ansiosos por regressar a casa e um dos que mais sentia a injustiça de que fora vítima. Escrevia cartas a torto e direito, a toda a gente, influente ou não, e uma delas, em Janeiro de 1957, ao presidente Eisenhower… condenado, multado, preso, de honra manchada como mentiroso, subversivo e traidor, e imediatamente despedido da indústria cinematográfica, a não ser que volte a comparecer perante a Comissão e a responder a todas as perguntas inconstitucionais que me entendam fazer…senhor presidente, o senhor presidente, que tem mais influência do que ninguém sobre os seus compatriotas, se acha que o que escrevi na presente é verdade, bastará que diga publicamente uma palavra para que a indústria do cinema abandone para sempre una prática que é odiosa aos olhos do mundo inteiro… e nenhuma resposta assinada pelo punho do presidente Eisenhower… terá respondido um conselheiro da presidência, a dizer que o presidente não tinha comentários a fazer sobre aquela matéria, e a que Trumbo, eu diria poeticamente, contra-respondeu…não tendo o presidente comentários a fazer, é minha obrigação moral convidar os intelectuais e artistas da Europa ocidental a resistirem com todas as forças às políticas inquisitoriais, às prisões, ao ostracismo e à recusa de passaportes que na América está a destruir centenas de artistas que vivem no medo…
            - E queria deixar bem claro a todos os presentes que não tenciono dar cobertura ou protecção a quem é comunista, ou ao Partido Comunista Americano – continuava Arthur Miller em 1956. – A única coisa que quero aqui proteger é uma certa ideia que tenho de mim próprio. Não poderei dizer aqui nomes de ninguém. Se o fizesse causaria grandes problemas às pessoas que mencionasse. Por isso lhe digo, senhor presidente, que nestes encontros de que falei participaram escritores e poetas… e olhe, tanto quanto sei, a vida de um escritor, apesar das aparências, é já de si suficientemente dura… e eu não tenho nenhuma intenção de a tornar mais dura ainda do que ela já é. É por isso que lhe peço que não me pergunte nada que diga respeito a outras pessoas.
            Era a linha de defesa de Lillian Hellman – e de outros. No entanto, os contextos políticos, o de 1951 e o de 1956, não eram comparáveis. Para dar uma nega à Comissão nos tempos de 1951 era preciso ser-se muito mais corajoso do que em 1956. Isso não tira, como é óbvio, a que os homens que interrogavam Miller não estivessem ameaçadores e não lhe mostrassem má cara.
            Claro que não aceitaram as razões invocadas por Arthur Miller para não lhes fornecer nomes. Se ele continuasse a recusar responder  às perguntas ficaria marcado por ultraje ao Congresso. Era um aviso que lhe faziam.
            - Veja lá bem, senhor Miller… veja se se lembra se nesses encontros não estaria um homem chamado Arnaud d’Usseau… era ele que presidia  a essas reuniões de escritores, muito próximas do Partido Comunista, vamos lá…. reuniões em que o senhor mesmo, senhor Miller, tomou parte em 47…
            -  Tudo o que lhe posso dizer, senhor presidente, é que a minha consciência não me permite citar o nome de qualquer outra pessoa…
            Já para o fim da sessão, um dos comissários sacou de uma folha fotocopiada, uma página do jornal Daily Worker – órgão do Partido Comunista Americano – com publicidade a uma peça dele, You’re Next, um texto de 1946 que o próprio partido Comunista patrocinara e fizera encenar. Tratava-se da representação de um ritual de interrogatórios feito por uma certa Comissão, talvez aquela mesma que lhe apertava agora os calos. Os comissários agitam a folha como prova inequívoca da proximidade de Arthur Miller ao Partido Comunista.
            - Oh, meus senhores, os senhores não podem acusar-me disso! Os meus trabalhos têm corrido o mundo inteiro. Fui representado em quase todos os países, e até o governo franquista financiou uma montagem da Morte de um Caixeiro Viajante num dos principais teatros do centro de Madrid. Bem vêem que não posso ser responsável por quem leva ao palco as minhas peças, tanto quanto a General Motors não é responsável por quem conduz um dos seus Chevrolet.
                   Ficou nos anais culturais e jurídicos americanos esta tirada.
                Não me recordo de ter lido que Arthur Miller tenha sido preso ou coisa parecida.
            Mas mesmo assim havia formas de sair da lista negra: ou por prestar declarações adicionais satisfatórias para a Comissão depois de se terem prestado as insatisfatórias, casos de Edward Dmytryk ou Robert Rossen; ou pagar uma soma a uma das agências meio mafiosas que tratavam disso. Já para o fim da instituição das listas negras bastava escrever uma declaração ajuramentada dirigida ao empregador. Só ficariam na lista negra pelos séculos dos séculos os que não arredassem das posições entrincheiradas na Quinta Emenda.
            Em 1956, um certo John Cogley publicou um livro Report on Blacklisting, denunciando desde logo a existência de uma real lista negra, e depois a existência de uma indústria dentro da indústria propriamente dita do cinema que tornava possível a alguns limpar o nome dessa lista negra – um processo a que chamaram clearance. O autor, Cogley, foi chamado ao Congresso para se explicar e recusou divulgar as suas fontes de informação. Fosse por isso, também não conseguiu demonstrar à evidência o facto de alguns artistas não trabalharem há anos apenas por motivos de ordem política; nem conseguiu convencer os congressistas de que por meio de pagamento de certa soma (admissivelmente elevada) era possível limpar o nome da lista negra e voltar a ser contratado pelos estúdios.
            O homem pode não ter convencido os congressistas, mas estava a falar verdade. Isto é, havia agências que tratavam da limpeza das folhas, agências que eram indivíduos de menos escrúpulos e aproveitadores dos dramas daqueles que se viam impedidos de ganhar a vida.
            American Business Consultants – propriedade de três ex-agentes do FBI; publicava uma revista que denunciava suspeitos e em contrapartida isentava de suspeitas os que pagavam uma taxa; publicou uma “bíblia” das listas cinzentas em que compareciam 151 artistas apontados como envolvidos em actividades para-comunistas.
            Wage Earners Commitee – publicava um jornal National Wage Earner que todos os meses denunciava novos subversivos e limpava a folha aos antigos que entrassem com dinheiro.
              E havia mais…
            A Declaração do Waldorf, enfim, tomava sentido nos perigos, nos riscos e nos medos. Palavra de ordem: eliminar os subversivos e proteger os inocentes.
          Porque sabiam haver inocentes na lista negra, gente que nunca na vida pensara ser comunista e que tinha o nome marcado. E os inocentes podiam dividir-se em dois tipos: pessoas que eram confundidas com outras; ou pessoas que pertencendo embora a alguma das chamadas associações para-comunistas não estavam inscritas no Partido Comunista. Inocentes havia que não encontravam trabalho, como inocentes havia (os das listas cinzentas) a quem muitos dos estúdios não davam trabalho só por prudência. E acabava tudo por desaguar na mesma dúvida essencial, e existencial: que entidade se poderia arrogar o direito de estabelecer quem era comunista e quem não era?
            Pretendia-se criar um sistema preciso, ou uma fórmula, por onde fosse possível detectar quem era e quem não era comunista. Difícil. Impossível. Que funcionassem então os boatos, os mexericos, as invejas caluniosas. Se muita gente tinha famas, ou de alcoólico, ou de pederasta, ou de ninfomaníaca, ou de cocainómano, também podiam correr as famas de comunista. Procurava-se era não despedir ninguém na base de um mexerico.
             O mercado negro.
        É bem que se diga que foi calculado em 15% o total dos guiões que em Hollywood foram escritos por gente da lista negra e chegados às produtoras sob o nome de testas de ferro não integrantes da lista negra. Mas não há a certeza desta percentagem. O segredo era  muito espesso e guardado sob juramento solene. Já Dalton Trumbo escrevia um artigo em 1957, revelando que os produtores, respeitando embora a lista negra, não deixavam de comprar histórias e guiões da autoria dos listados de negro. A reserva consistia em ocultar os nomes dos verdadeiros autores.


            Correu mesmo o boato de ter sido Dalton Trumbo a escrever grande parte das melhores produções de Hollywood desse período – e admitindo o próprio ter escrito uns trinta e cinco argumentos durante a fase negra.
            Trumbo veio-se embora do México em 1954. Fez uma sociedade com outro da lista negra, Michael Wilson. Um inventava a história e delineava o enredo e o outro encarregava-se dos diálogos. Conseguiam fornecer a um produtor um guião completo em cinco semanas. E por isso os investigadores de cinema teimaram em atribuír a Dalton Trumbo ( a coberto de outros nomes) filmes, por exemplo, de Howard Hawks (Air Force), de Irving Rapper (The Brave One – com Óscar incluido), de Robert Aldrich (The Last Sunset), e de muitos outros de menor importância, e sendo o título mais famoso de todos o do filme de  William Wyler Roman Hollyday (Férias em Roma), com direito a Óscar a entregar a Ian McLellan Hunter, o testa de ferro de serviço àquele trabalho.


A questão dos testas de ferro tinha que se lhe dissesse. Era difícil para um homem da lista negra encontrar quem lhe assinasse os trabalhos. Os produtores recebiam o texto original escrito, e depois seguiam-se infindáveis reuniões com distribuidor, produtor, realizador, director de fotografia, ou até com actores, e onde era naturalmente forçoso aparecer também o autor do argumento. Alguém teria então de aparecer a essas reuniões fazendo as vezes do guionista e já se vê que era um problema levado de seiscentos diabos achar alguém que se prestasse a arriscar tanto. O escritor de ficção científica Ray Bradbury foi, dos conhecidos, um dos que quis ajudar alguns amigos da lista negra, assumindo-se como autor -  o que não deu resultado não sei porquê, talvez tenha sido desmascarado. E houve Leo Townsend, testemunha amigável da Comissão e delator, que como favor pessoal assinou argumentos escritos por outros, Lester Cole, ou mesmo Dalton Trumbo.
É no tocante filme The Front (na versão portuguesa O Testa de Ferro),  de 1976, que Hollywood toca na questão da lista negra. É um filme magnífico, protagonizado por Woody Allen e Zero Mostel, e realizado por Martin Ritt, e nele intervieram muitos dos homens em tempos listados de negro pela indústria, incluindo Zero Mostel, que faz o seu próprio papel, e o realizador Martin Ritt.
Outro item difícil de ultrapassar nesta coisa do mercado negro dos argumentistas era a parte financeira. O negro, ou testa de ferro, ficava de costume com 10% do cachet. Mas houve casos em que o testa de ferro mais ganancioso exigiu 50%. Para piorar as coisas, diga-se que os argumentos em circulação no mercado negro eram pagos muito abaixo do preço do argumento normalmente apresentado pelo seu verdadeiro autor. E quando digo abaixo do preço digo menos de metade. O caso do mais famoso argumentista, Dalton Trumbo (sempre ele) é bem ilustrativo, pois vendeu o seu primeiro argumento “em negro” por 3.750 dólares, enquanto o preço dele antes de ir parar à lista negra era de 75.000 dólares por cada guião. É obra! E ainda quando ele, digamos, começou a emergir do seu sono negro, em 1960, sob o seu verdadeiro nome, e escreveu para Otto Preminger o filme Exodus, só recebeu 50.000 dólares, dois terços, portanto, da tarifa habitual. Não era muito em comparação com os mais altos estipêndios hollywoodeanos, era fabuloso relativamente ao que ele poderia ganhar através da intermediação de um testa de ferro.


John Howard Lawson, o recordista dos denunciados, ganhava 2.500 dólares à semana quando trabalhava às claras. Depois de metido na lista negra, a trabalhar em negro, o rendimento dele não passou dos 50 dólares por semana.
Os produtores independentes, os que poderiam pretender trabalhar fora do anel de fogo das majors, eram poucos e dificilmente arriscavam desafiar o estatuto dos grandalhões, por exemplo, utilizando os serviços de um dos inscritos na lista negra. Se tal viesse a lume era certo e sabido que a carreira desse produtor poderia passar a não valer um tostão furado e ninguém lhe financiaria a produção do próximo filme que produzisse, e esse filme só apanharia com críticas desfavoráveis. Mas se por acaso esse produtor tivesse artes de ultrapassar todos os ditos inconvenientes, ah, sim, seria certamente boicotado nos cinemas pelo pessoal da Legião Americana. Foi esta a essencial razão pela qual nenhum famoso produtor se arriscou a contratar alguém posto na lista negra.

                                                          

            O entrar do ano de 1960 abre boas perspectivas para o fim da instituição da lista negra. Alguns dos intransigentes que se tinham mostrado hostis ao trabalho da Comissão reapareceram de repente à luz do dia. Michael Wilson, Dalton Trumbo e Albert Maltz são reabilitados em Hollywood. Publicamente reabilitados. Um Óscar é entregue a um nome da lista negra e o público começa a perceber que a lista negra e o mercado negro eram pesadelos de noites já passadas.
            Facto interessante que alguns comentadores assinalaram: os artistas que figuravam na lista negra acusados de comunismo eram os que até então tinham conseguido os maiores êxitos em Hollywood. Bastava comparar a quantidade de óscars e nomeações para óscars que lhes foram atribuídos entre 1940 e 1959. Trumbo, Butler, Bessie, Endore, Lillian Hellman, Ring Lardner Jr., Maltz, Abraham Polonsky, Foreman, Michael Wilson… entre muitos outros.

                                          

            A Academia dos óscares andou por algum tempo de calças na mão sem saber o que decidir. Levou críticas ferozes quando Michael Wilson (lista negra por apelo à Quinta Emenda) ganhou um Óscar pelo guião de A Place in the Sun. E calha que em 1957 o mesmo Michael Wilson é nomeado para outro Óscar por Friendly Persuasion, de William Wyler. E se em 52 a Academia não podia fazer nada, a partir de 54 já havia um acordo firmado para a possibilidade de se omitir o nome do argumentista do genérico do filme. Em 57 não era permitido premiar com um Óscar alguém que estivesse na lista negra. Pois não. Quer dizer, o Óscar de Michael Wilson em 57 não lhe poderia ser entregue. E não foi. Quem o ganhou foi um certo senhor Robert Rich, que, não se soube porquê, nem se apresentou para receber a estatueta.
            Depois correram insistentes boatos de que os verdadeiros autores do filme A Ponte do Rio Kwai, de David Lean (Óscar para o melhor argumento), eram os “listas negras” Carl Foreman e Michael Wilson.


            Enfim, uma longa série de episódios do género marcaram o ano de 1959. Até um radialista de Los Angeles vai ao ponto de comentar que a lista negra tinha acabado, não porque os sentimentos anti-comunistas da indústria tivessem mudado ou as acusações de anti-americanismo fossem infundadas, mas simplesmente porque Hollywood precisava como pão para a boca de bons argumentos para serem filmados.
            A Legião Americana é que ainda intensificava a luta contra os subversivos de Hollywood. E atirava-se à Academia por ter ignorado a proibição de dar óscares a gente indesejável e inscrita na lista negra.
            Tocava à Academia e à associação dos produtores aplacar as iras da Legião, tal como os senhores, continuamos a querer os subversivos fora de Hollywood  - dizem os produtores à Legião -, mas a maior parte deles trabalha para pequenas companhias produtoras independentes…sim, portanto façam o favor de não nos maçar e irem disparar as vossas balas contra os produtores independentes e não contra a indústria de cinema no seu todo. E assim foi. A Legião Americana  passou a elogiar as grandes companhias e a condenar os pequenos produtores independentes que empregavam comunistas.


            Mas… quem é que chega a Hollywood em 1959 como convidado de grande honra? O maior comunista do mundo de então: Nikita Krutchev, premier soviético. Um grande jantar de gala a homenagear  Krutchev com a presença de 400 das mais importantes personalidades do espectáculo.
            Então como era?
          Os grandes magnates da indústria queriam expulsar os comunistazinhos que ganhavam o seu pãozinho em Hollywood e recebiam de braços escancarados o maior chefe comunista do mundo numa cerimónia de boas-vindas como há muitos anos não se via por ali? Como era?
            Sim, como era quando o governo dos EUA assinava um acordo de intercâmbio cultural com o governo da URSS com particular incidência na produção cinematográfica?
            Como era quando o público americano estava a acolher tão bem os filmes produzidos na Rússia comunista?
            Como era e que moral era quando na América se criticava duramente o ostracismo a que o escritor Boris Pasternak fora votado na URSS por culpas de anti-sovietismo e em Hollywood se perseguiam e ostracisavam os escritores americanos culpados de anti-americanismo, como era?
            Paradoxos e contradições a raiar o ridículo que apareciam claramente aos olhos de todos.
            Otto Preminger será o primeiro dos realizadores de alta nomeada a provocar frontalmente a Comissão e a instituição da lista negra quando anuncia no Variety que Dalton Trumbo será o argumentista do seu próximo filme, Exodus. Não quero andar a mentir ao público. Esconder o nome de um autor é uma maneira de enganar o público. A única maneira honesta de trabalhar nestes tempos é dizer a verdade. O New York Times aplaude. E acrescenta: toda a gente já sabia que tinha sido Trumbo a escrever o argumento de Spartacus (de Stanley Kubrick)  e de Férias em Roma.
Mas mesmo assim as majors fizeram finca-pé nas suas disposições de discriminar os suspeitos de comunismo. E a inevitável Legião Americana deu por paus e por pedras com a decisão de Preminger e declarou guerra de informação contra a imposição disfarçada dos filmes feitos por homens doutrinados pelos soviéticos.
No dia 21 de Março de 1960, um dos maiores ídolos da América identifica-se como produtor cinematográfico independente e desafia a lista negra: Frank Sinatra. Quer produzir um filme sobre o único soldado fuzilado por deserção durante a II Guerra e chama Albert Maltz para lhe escrever o guião. O New York Times torna a aplaudir: a contratação de Albert Maltz por Sinatra minava os fundamentos lógicos da lista negra.
Mas Sinatra já está metido na política. Em 1960 manifesta publicamente o seu apoio à candidatura à presidência de John Kennedy.
A Catholic War Veterans anuncia o boicote que fará ao filme de Sinatra, ter contratado Maltz é uma afronta a todos os americanos. Não queremos que americano algum vá ver o filme e pedimos ao senhor Sinatra para repensar a sua atitude como verdadeiro americano.
E naquele tempo (não sei se ainda hoje) se uma liga americana dizia “mata” outra liga americana dizia logo “esfola”, e a secção da Califórnia de outra liga de veteranos de guerra os AmVets apoiou o boicote ao filme, sim senhor, mas ainda foi mais longe, propôs um boicote a todas as actividades de Frank Sinatra.


E Sinatra devolve os golpes: compra espaço nos jornais, páginas inteiras, e assume as suas responsabilidades declarando que o filme que pretende produzir está perfeitamente em linha com os valores americanos, e até os exalta; dizendo ainda que o melhor seria que não se fizessem juízos precipitados antes de se poder ver o filme. E diz mais, ou insinua mais: talvez o estivessem a atacar a ele quando o verdadeiro alvo dos ataques devia ser o senador e candidato John Fitzgerald Kennedy que ele publicamente apoiava. Mas a verdade era que nem ele ensinava a Kennedy como votar no Senado, nem Kennedy lhe recomendava quem devia ou não devia contratar para lhe escrever o filme. Estou pronto a defender os meus princípios e a esperar o veridicto do público americano depois de ter visto The Execution of Private Slovik.
Foi uma batalha de duas semanas. Sinatra acaba por ceder e despedir Albert Maltz. Por respeito ao povo americano, argumenta. Defendi o trabalho de Maltz porque o entendi consoante com os valores americanos. Mas uma vez que o público americano pensa que o despedimento de Maltz é uma crucial questão de moral, aceito a opinião da maioria.
E Maltz sai-se a público a declarar: para fazer mudar de ideias um homem tão teimoso como Sinatra as pressões sobre ele devem ter sido realmente muito fortes.


Pois parece evidente que valores mais altos se levantaram e que Kennedy, por mais que estimasse o apoio de Sinatra, não ia na conversa de poder perder votos por uma questão de moral americana.
Hedda Hopper vem a dizer que o exército e o Departamento de Defesa se tinham recusado à colaboração que lhes tinha sido solicitada para fazer o filme. E a jornalista Dorothy Kilgallen adiantava, confirmando as mais óbvias suposições, que o próprio Kennedy acabara por convencer Sinatra a desistir da ideia, pensando que aquela dura campanha contra o cantor comprometeria as suas aspirações na corrida à Casa Branca.


O grande sucesso da estreia em Nova York de Exodus (escrito, como disse, por Dalton Trumbo) interpelou fortemente o público americano quanto à questão da lista negra. Pelos vistos, resultava a bem da arte cinematográfica americana pôr a trabalhar gente que apelara à Quinta Emenda, mesmo que fosse, ou só tivesse sido, comunista, e até porque essa condição já nem tinha reflexos no box office.
Mas atenção que mesmo nos dias seguintes à estreia de Exodus houve piquetes à porta dos cinemas a protestar contra o nome de Dalton Trumbo no cartaz; ao mesmo tempo que no interior dos cinemas quando o nome de Trumbo aparecia no genérico rebentavam os aplausos. E na recepção que se seguiu à primeira exibição do filme, no luxuoso restaurante Romanoff, Otto Preminger aparece de braço dado com Trumbo e é ovacionado pelos presentes, Frank Sinatra e Peter Lawford (cunhado de Kennedy) entre eles. E além deles, também, a aplaudir calorosamente, um fervoroso anti-comunista,  uma das primeiras testemunhas amigáveis e favoráveis à expulsão dos comunistas de Hollywood e à ilegalização do Partido Comunista Americano – Gary Cooper.
Em 1961 principiava o regresso à ribalta do espectáculo dos marcados pela lista negra. Lillian Hellman e Guy Endore vêem os seus nomes nos genéricos. Em 62 é Morris Carnovsky, é Howard da Silva, é Howard Koch. Hugo Butler em 63. Ring Lardner Jr. e Lionel Stander em 65. Abraham Polonsky em 67.

A lista negra estava definitivamente rasgada - a chegada de Kennedy à presidência começara a mudar mentalidades e com essa mudança mudariam os pressupostos que a tinham feito aparecer. 

                                                  THE END

sábado, 12 de outubro de 2013

                           CARPE DIEM 6


   

                                                   

       Oh, pois, os antigos, mais conhecidos por idosos, claro, vivem rodeados e influenciados pelas gerações do optimismo, vai correr bem, caga nisso, vais ficar bom, tampões impregnados de bebida introduzidos no ânus ou na vagina para acelerar o efeito do álcool (já ninguém está interessado nas causas, já só se espera ansiosamente pelos efeitos), Portugal é o país que mais, há que levantar a cabeça, sabes que isso pode potenciar quadros de depressão?, deixá lá, tá-se bem, sabes que isso pode levar ao suicídio, deixa lá, não há crise, a facilidade, saudinha é que é preciso, e mais as raparigas do que os rapazes, diz que sim, a esperança é a última a morrer, a irresponsabilidade, as pessoas querem lá saber disso!, a impunidade, que mania a tua de estares sempre a armar ao dramático, tudo ao molho e fé em Deus. A festa! Já ninguém pode viver sem a festa. Há palmas e risos ao mais pequeno pretexto, e silvos de júbilo, e uaus!, e gritinhos pelos mais pueris dos motivos. Não é permitido falar de dificuldades, de problemas, de dramas, de complexidades – quando as coisas, muitas coisas, as vidas, a vida, estão cada dia mais difíceis, mais dramáticas, mais problemáticas e mais complexas. Gerações impregnadas do álcool de uma opulência falsa; gerações impreparadas para o tempo sóbrio da dura realidade, diz-se. E muitos culpam os pais. E muitos culpam o Sócrates. E muitos culpam os sindicatos. E muitos culpam os comunistas. E muitos culpam o tempo do Cavaco. E muitos culpam o 25 de Abril. E é: a culpa é do 25 de Abril e da vaga de facilidades que se seguiu, ocupar casas, passar de ano administrativamente, correr com os fascistas (nem todos, vamos lá, ou quase nenhum), sanear os administradores, expulsar os patrões, desacatar os pais.  Pois é. E se assim não acontecesse como era? O 25 de Abril revolucionário ia obrigar as pessoas a viver miseravelmente, pobremente, remediadamente, porque o país não dava para mais, como no tempo do Salazar? Então, onde estaria a razão de ser da chamada revolução do 25 de Abril. O que seria se o 25 de Abril não começasse depressa a inventar a nossa felicidade/prosperidade?