quarta-feira, 6 de novembro de 2013

     UM BILHETE, UM RETRATO E UM ANEL


      
        Há horas nesta vida  que são mesmo sei lá o quê – do diabo? Horas, coincidências, azares, predestinações…


       No dia 24 de Abril de 1864, Meyerbeer, o rei da ópera parisiense, o judeu mais odiado por Wagner, cai à cama gravemente doente. Ainda assim, no seu apartamento da Avenue Montaigne – dizem que modesto, apesar de ele ser um dos mais populares, e certamente dos mais bem pagos compositores do tempo – superintende uma equipa de assistentes que copiam as partes cavas da sua última partitura, L’Africaine


       E no dia 2 de Maio desse 1864, Meyerbeer solta o último dos seus melhores suspiros e apaga-se, morre.


       E no dia 2 de Maio desse 1864, depois de ter corrido a meia Europa de Viena, de Zurich, de Milão, de Basileia, Herr Pfistermeister (Franz Seraph von Pfistermeister), o secretário particular do rei solitário, sonhador e sentimental chegado dois meses antes ao trono da Baviera, encontra finalmente, em Sttutgart, o homem que procura, Richard Wagner, o eterno fugitivo dos credores.


       Herr Pfistermeister entrega a Richard Wagner, da parte do seu rei, um bilhete, um retrato e um anel. Ou dizendo de outra maneira, Pfistermeister oferece a Wagner a protecção pessoal do novo rei da Baviera, o que equivale a dizer que oferece a Wagner a redenção de vida, o que ainda equivale a dizer que oferece a Wagner os meios de se livrar para sempre dos seus algozes credores, e os meios de realizar todas as suas mais caras e improváveis fantasias artísticas.
       Não, Wagner nunca julgara possível que tal prodígio pudesse algum dia acontecer. E deve ter ficado especado, paralizado, de boca aberta, a olhar para Herr Pfistermeister, sabe-se lá se desconfiado. Aquilo seria alguma partida que algum dos seus amigos lhe estava a pregar? Seria uma cilada? Seria um truque abjecto de algum dos seus (muitos) credores?
     Não era. Não era nada disso. Era verdade. Era real. Wagner estava a olhar para o homem sem pinga de sangue. Acho eu que devia estar – como eu estaria. E mesmo os seus mais próximos, ao saberem da novidade a custo se refizeram da estupefacção. E porque se lembravam de o ter ouvido dizer num dia em que a vida lhe andava para trás, muito para trás, vocês verão que um dia, de repente, os véus do destino se abrirão para mostrar ao mundo a minha mais indescritível felicidade.


       E para que essa felicidade fosse ainda mais indescritível e inominável, no preciso dia em que o emissário do rei lhe traz a protecção régia e o convite para o palácio, outro emissário lhe chega com mais novas de alegria ao comunicar-lhe o falecimento nesse  mesmo dia do seu maior inimigo – de raça e de arte – Meyerbeer.


     Wagner confessa a Cosima que por outro lado, e pensando bem, a morte do detestado Meyerbeer naquele preciso dia foi uma pena. Foi uma pena e foi um golpe de sorte para Meyerbeer. E foi golpe de sorte porque assim, morto, a providência poupava Meyerbeer de assistir, sem dúvida cinzento de raiva, ao triunfo final do seu inimigo Richard Wagner.
       E mais nada. Como disse, a protecção régia vai libertar Wagner de todas as atribulações de tipo material que lhe envenenavam a alma, libertando-lhe por consequência o estro para os mais altos vôos de arte.

       Naquele dia 2 de Maio de 1864 Wagner tinha cinquenta e um anos. Os mesmos que Verdi.

                                                                               
                                                                     


terça-feira, 5 de novembro de 2013

                             SER E NÃO SER JUDEU




Por falar noutro dia em judeus... e na fluidez do apreender, do verificar à vista desarmada essa racial condição de ser ou não ser judeu... lembrei-me de um  livro lido há pouco tempo e fiquei a pensar em Charlie Chaplin... judeu... 
Mas vamos com calma...

José Luis de Vilallonga foi (acho que já faleceu) um aristocrata espanhol de quem alguns dos mais empedernidos cinéfilos podem estar lembrados de umas canastronas e secundárias interpretações, a mais notória delas, julgo eu, no filme de Blake Edwards sobre uma história de Truman Capote, Breakfast at TiffanysBoneca de Luxo na vaporosa versão portuguesa – com Audrey Hepburn num dos papéis mais inesquecíveis da carreira. Vilallonga, curioso, fazia no filme o papel de um milionário brasileiro chamado José Pereira que estava para casar com a protagonista. Mas não é a história da vida, de resto interessante, deste marquês espanhol metido a actor de cinema que me proponho contar hoje. Ficará para outra ocasião, certamente.

Vilallonga, considerado fascista, marquês, conde, barão, disto e daquilo, com infinitamente mais jeito para escritor – a avaliar pelas suas Memórias Não Autorizadas - do que para actor de cinema (deve tê-lo sido seguramente graças ao físico), play boy, chulo de luxo, marido e amante de mulheres riquíssimas, amante de actrizes famosas, amigo de cabeças coroadas… uff… teve, em jovem, uma passagem pelo jornalismo internacional. No Paris Match
E foi logo investido pela direcção da revista em empreendimento jornalístico de vulto para alguém sem experiência. 
Graças aos contactos que tinha no jet set desse mundo e às relações de amizade com grande número de celebridades mundiais, a agenda do Paris Match destinou-lhe o considerável encargo de entrevistar a nata do who’s who mundial. Nem mais nem menos do que Orson Welles, Jeanne Moreau. Sophia Loren. Brigitte Bardot, Indira Gandhi, Herbert von Karajan, Federico Fellini, Umberto de Itália, Onassis, De Gaulle. E Charlie Chaplin.

         


E claro que José Luis de Vilallonga, não obstante todo o traquejo social que tinha, assustou-se. Eram míticas figuras que muito dificilmente concederiam uma entrevista a um jovem jornalista sem nome feito, por mais marquês-conde-barão espanhol que ele fosse. E era trabalho para anos. Mas ao Paris Match interessava exactamente um repórter pouco batido que pudesse oferecer aos leitores uma visão refrescada e menos convencional de personagens já mil vezes entrevistadas.


Não me deterei nas diligências (engraçadas algumas) feitas por Vilallonga para se saír da incumbência fica para uma próxima oportunidade. Começarei por dizer, só, que o primeiro a ser entrevistado viria precisamente a ser aquele que Vilallonga considerava um dos mais difíceis de abordar. Charlie Chaplin. Mas através de uma amiga italiana, visita da casa dos Chaplin na Suíça, Vilallonga conseguiu o que queria com relativa facilidade.


Estava num hotel de Vevey à espera de que a amiga italiana dos Chaplin lhe desse um sinal, um sim ou um não à entrevista, quando, na mesma noite de chegada, a amiga lhe telefona: Vilallonga estava convidado para jantar no Manoir de Ban. Chaplin era amigo do marido da amiga italiana, e esta, por meias palavras e subentendidos, fizera crer a Chaplin que o homem que o queria entrevistar era seu amante, e sabendo que Chaplin se pelava por aquele tipo de enredos.


Chaplin estava então com 83 anos. Estava gordinho e rosado, os cabelos alvos de neve, um penalty de gin tónico a cintilar-lhe permanentemente na mão.
E, vamos lá a dizer, não é que Vilallonga homem de muitas afinidades com a extrema direita espanhola - admirasse por aí além Charlie Chaplin. Criticava-lhe a postura ideológica, é claro, a demagogia, o maniqueísmo, ricos de um lado, pobres de outro, maus como as cobras os ricos, bonzinhos até ao vómito os pobres.
A grande impressão de Vilallonga, a primeira, naquele jantar, foi a figura de Oona, a mulher de Chaplin, a filha do celebérrimo dramaturgo americano Eugene ONeill, a mãe da actriz Geraldine Chaplin; uma fronte límpida e serena, um olhar inocente e limpo das terríveis tragédias familiares.
Verduras, fruta e queijos suíços – a ementa do jantar.
- Estou de acordo com a entrevistadisse Chaplin. – Proponho então que amanhã tomemos juntos o pequeno- almoço para prepararmos o nosso trabalho. Não sei se está de acordo. Ah e o senhor marquês não vai nada dormir ao hotel. Mandarei preparar-lhe um quarto ao lado do da sua amiga.

Às seis e meia da manhã do dia seguinte toca o telefone da cabeceira de Vilallonga e uma voz anuncia-lhe que Mr. Chaplin o esperava para o pequeno-almoço no terraço às sete e meia em ponto.  
- E agasalhe-se porque está frio.
Às sete e meia da manhã já Chaplin tinha jogado meia hora de ténis com um vizinho, já tinha feito vinte minutos de natação na piscina e já tinha lido a imprensa do dia.
O aristocrata espanhol metido a jornalista refere que tomar o pequeno-almoço às sete e meia da manhã, ao ar livre, morto de frio, em tête-a-tête com Charlie Chaplin não acontecia todos os dias.
- Daqui deste terraço, quando a neblina do lago levanta, lá para as dez, posso ver distintamente os telhados do Crédit Suisse – dissera Chaplin.
Vilallonga palpitou para os seus botões que era lá que ele guardava o seu dinheiro e que não havia maneira mais simples e subtil de o dizer.
- E já que se fala nisso, Mr. Chaplin, qual é para si a importância do dinheiro?
- Tenho pelo dinheiro um infinito respeito, porque sei o que significa não o ter.
Em tempos, na América, o afamado banqueiro J.P.Morgan tinha-lhe dito; Charlie, o dinheiro só tem importância enquanto permite que nos esqueçamos dele. E Chaplin replicara a Morgan que o dinheiro também era bom para nos lembrarmos sempre dele.
- Eu nessa altura valia só 5 milhões de dólares. Mas Morgan nunca me poderia compreender porque tinha nascido rico. E eu tinha nascido pobre. Mesmo muito pobre. Mas também se escreveram muitos disparates sobre as minhas relações com o dinheiro e com a minha própria e desgraçada infância.
Somerset Maugham escrevera um dia que as ruas do sul de Londres eram para Chaplin o cenário de mil aventuras alegres e extraordinárias, e estava convencido de que Chaplin, já depois de riquíssimo, sofreria de ataques de nostalgia ao recordar os bairros pobres de Londres onde nascera. Chaplin considerava essa tirada do seu amigo Maugham uma rematada estupidez. Embora, por outro lado, e num certo sentido, ele tivesse alguma razão. Chaplin nunca poderia esquecer dos bairros pobres de Londres a fealdade, a miséria, o horror.
- Essa mania que os ricos têm… porque Maugham também nasceu rico… de que a pobreza pode ser fascinante, chega a ser um insulto. Nunca na vida encontrei um ex-pobre que sentisse saudades da sua miséria de outros tempos. Não, meu caro marquês, a miséria não é sedutora, nem é fonte de criatividade, nem de alegria. A miséria, a mim, nunca me ensinou nada. E é claro também tomei gosto pelo dinheiro. Mas repare o marquês numa coisa o meu gosto pelo dinheiro não significa que tenha gostado de o acumular, nada disso, gosto de dinheiro para o gastar, comer os melhores queijos, beber os melhores vinhos, fazer-me rodear de obras de arte. Caro marquês Chaplin soltou uma das suas risadas de cinema -, acredite no que lhe diz este velho capitalista: o dinheiro e a beleza dão-se muito bem um com o outro o que Chaplin não levava à paciência no respeitante ao dinheiro era gastá-lo mal. - Daí a dizerem que sou avarento vai um pequeno passo. E tudo isso também dá ao mundo o direito de pensar que a avareza é uma qualidade minha natural, atávica, visto que sou judeu.


Sobre este momento do diálogo terá caído um silêncio. E durante esse silêncio Chaplin ter-se-ia concentrado na paisagem, o sol a romper lentamente a bruma que se levantava do lago, olhando subitamente o seu interlocutor nos olhos. Dizendo:
- A questão está nisto: é que, na verdade, eu não sou judeu.


Vilallonga disfarçou o espanto. Pareceu-lhe mal, enquanto aristocrata espanhol, acusar uma imediata surpresa.
Mas foi dizendo:
- Como, Mr. Chaplin o senhor não é judeu?
Chaplin esclareceu: descendia de irlandeses e de ciganos; na sua árvore genealógica não havia um único judeu. E lastimava-se por isso. Sabia que os críticos de cinema do mundo inteiro o consideravam um mito vivo, o expoente máximo do que tinham carimbado de humor judeu…
- E, senhor marquês, não me diga que não tem piada. Só a um irlandês poderia passar pela cabeça vir a ser o primeiro dos humoristas judeus. E esse irlandês é este seu amigo.
Mas, perguntaríamos nós, mortais comuns, o que teria acontecido para que a fama de judeu tivesse corrido mundo colada ao nome, à figura, ao humor e ao estilo de Charlie Chaplin?
O mesmo Chaplin não nos deixa sem explicação: assim que chegou a Hollywood percebeu que dava muito jeito à sua ambição fazer-se passar por judeu, e porque era mais fácil a um judeu fazer carreira no mundo do cinema quando todos os estúdios eram propriedade ou eram dominados por judeus. E o primeiro produtor que se ocupou dele deu por assente que ele era tão judeu como os outros que o haviam precedido na indústria. Chaplin não o contrariou. Viu o furo e calou-se.
- Sabe, marquês, vindo das classes mais pobres de Inglaterra, sem nome, sem brasões, nem castelos, nem antepassados que pudesse desonrar… ora adeus, não era agora eu que iria complicar a vida a mim mesmo com esse tipo de preconceitos. Querem-me judeu? Pois ter-me-ão judeu.            Chaplin considerar-se ia a si mesmo uma mentira viva. De todo o modo, mentira viva que fosse, sempre era uma mentira alegre.
A seguir, e relacionado com o fascínio que a mulher dele, Oona, exercia sobre José Luis de Vilallonga, o marquês jornalista, surgiu o tema do sogro de Chaplin, Eugene O’Neill, o dramaturgo, um tema que de certo modo se imbricava com o tema da pobreza.
O’Neill, filho de um medíocre actor inglês, fora um rebelde profissional que deixara a casa paterna para levar uma vida de estroinice e marginalidade, sempre acompanhado por bêbedos, ladrões, mulheres da vida e drogados. Uma vida aventurosa que lhe proporcionou inúmeras histórias desgraçadas, até ficar tuberculoso, em Buenos Aires, ser internado num sanatório de Londres, entretendo o tempo a contar aos seus confrades enfermos algumas das suas muitas aventuras. Calhou que um desses companheiros de doença fosse um actor da companhia dos Provincetown Players, sendo esse a convencê-lo a passar a escrito as histórias que tinha vivido.
Chaplin irritava-se ao pensar que a celebridade do sogro era vista pelos entendidos como resultante de ter saído de uma família conflituosa e pobre em extremo. Porque havia um certo paralelo entre a vida de Eugene O’Neill e a do mesmo Chaplin. E o paralelo era esse, esse, o da pobreza dos princípios de vida. 


Chaplin recusava a ideia de uma celebridade baseada, e inspirada, e motivada, na luta pela sobrevivência e não por cada um deles ter sabido usar o talento com que nascera.
- Nem o meu sogro nem eu devemos o que quer que seja à pobreza. Devemos o que fomos ao nosso trabalho e ao nosso talento. E saberá por acaso o meu caro marquês como e quando falei pela primeira vez com o meu próprio pai? È claro que não sabe. Mas eu digo-lhe. Foi na rua. Andava eu pelos meus dez anos. Eu parei a olhar para ele. Eu sabia que o meu pai era aquele homem. Ele fez-me sinal para eu ir ter com ele, eu fui e ele perguntou-me como me chamava. Charles Chaplin, respondi. Sorriu. Deu-me meia coroa, uma palmadinha no ombro e desandou. Nunca mais o vi. Morreu alcoólico aos 37 anos.
A mãe era cantora de um music-hall de segunda. Governava-se mais ou menos até perder por completo a voz, deixar de ter trabalho, e enlouquecer na miséria. Estava-se na era vitoriana. Inglaterra era o império, o império britânico. E quanto a classes sociais no vitoriano império britânico havia duas, os muito ricos e os muito pobres – exactamente, agora falo eu, no sentido que parecem tomar as tendências da vida económico-financeira global e da ferocidade capitalista que hoje governa o mundo. E na Londres desse tempo, abaixo da classe dos muito pobres, havia ainda a dos mais pobres do que os muito pobres, a classe de onde Chaplin provinha.
- Por tudo isso compreenderá agora que eu não suporte que na minha presença se fale de dinheiro em tom frívolo.
- É verdade que foi comunista, Mr. Chaplin?
- Não. Nunca, não, nunca fui comunista.
- Mas olhe que na América toda a gente o tomou por comunista.
- Claro que sim. Eles são tão primários! Um comunista a viver aqui entre todo este luxo… isso cabe na cabeça de alguém?
Sim, Chaplin tomara o partido da União Soviética durante a II Guerra. Estava de acordo com Stalin. Era preciso que os aliados abrissem uma nova frente ocidental de guerra para aliviar a pressão alemã na frente russa e dividir as tropas nazis. A guerra seria ou ganha ou perdida nos campos de batalha russos. E depois desta posição tomada, a cada estreia de um filme seu, Chaplin veria manifestações à porta dos cinemas a exigir a sua expulsão dos EUA.
Oona, a mulher, começara a odiar Hollywood e a América e queria partir para a Europa, pôr os filhos em bons colégios europeus, afastar-se do ódio e do racismo americanos. Passaram temporadas em Londres e Paris até decidirem fixar-se na Suíça.
- Foi certamente muito triste para si, Mr. Chaplin, ser obrigado a abandonar o país onde tinha triunfado profissionalmente…
- Está enganado, meu caro marquês, o que mais me entristeceu foi exactamente o não ter pena nenhuma de abandonar o país em que tinha triunfado profissionalmente…
Que tipo de futuro teria Chaplin previsto para os filhos que Oona lhe dera?
- Oh, não, para o melhor como para o pior já não são os pais a decidir o futuro dos filhos. O futuro dos filhos caberá aos próprios filhos decidi-lo.
Chaplin não pedia mundos e fundos aos seus, nem que eles fossem mais ambiciosos nem mais inteligentes dos que os filhos dos outros. Mas também não gostaria que eles o fossem menos. Ele e os filhos eram produtos de épocas muito diferentes e a experiência de Chaplin, segundo ele, fora construída sobre uma quantidade de erros que a geração dos filhos já não cometeria. Cometeriam outros. Outros que ele mesmo talvez não soubesse evitar.
As filhas de Chaplin entusiasmavam-se cívica e politicamente com Cuba, e com o que chamavam de milagre cubano. Chaplin não ia por aí. Não acreditava em milagres daqueles. Milagres havia ele conseguido.
- E sabe o meu caro marquês qual foi o meu maior milagre? Olhe, foi ter conseguido que a minha mãe não morresse num asilo miserável dessa cinzenta Inglaterra e viesse a morrer numa clínica de luxo da Califórnia, rodeada de limoeiros e laranjeiras, com limousine e chauffeur à porta e três enfermeiras a cuidar permanentemente dela.

E diz o marquês que Chaplin, quiçá para se convencer a si mesmo de que não se transformara num odioso burguês esquecido das suas origens, fazia muitas vezes de palhaço para os filhos, entrando por exemplo na sala de jantar apoiado nas palmas das mãos e de pés para o ar. Aos 83 anos. 83 anos e ainda se sentia capaz de continuar a ser um acrobata.
Chaplin não suportava o contacto concreto, directo, com o dinheiro. Não tocava em dinheiro. Era Oona que tratava de tudo lá em casa, na luxuosíssima casa de Vevey, toda ela arte e bom gosto e porcelanas inglesas, Wedgwoods, Derbys, Staffordshires, Chelseas…



José Luis de Vilallonga regressa a Paris e passa uns dias a transcrever a entrevista que gravara com Charlie Chaplin, antes de entregá-la, pronta, ao editor do Paris Match.
Quando a entregou, o editor felicitou-o muito pela qualidade do material e convocou-o para o dia seguinte de manhã. Podia haver alguma coisa a corrigir ou a retocar.
Vilallonga apresentou-se na manhã seguinte na redacção do Paris Match e foi recebido com ares graves pelo editor, que se chamava Gaston Bonheur. Bonheur felicitou-o uma vez mais pela magnífica entrevista, mas tinha a comunicar-lhe que o Paris Match não a publicaria. O proprietário da revista estava de acordo com esta decisão editorial.
- Não a vão publicar?
- Não.
- Mas porquê, se gostam tanto dela
O editor coloca-lhe a questão:
- Suponho que você gravou toda a entrevista com Chaplin - evidentemente que sim, que tinha gravado. - E tem consigo as fitas gravadas? - claro que tinha. - Incluindo aquela passagem em que Chaplin garante que não é judeu?
- Sim, sem dúvida. Mas que diabo se está a passar?
Que aconteceria se o Paris Match publicasse a entrevista onde Chaplin declarava sensacionalmente que, afinal de contas, não era judeu?
- Não sei. Aconteceria que…
Aconteceria que os judeus do mundo inteiro cairiam em cima do Paris Match acusando a revista de manipulação da verdade histórica.
- Mas como, se a voz do próprio Charlie Chaplin lá está gravada?
Os judeus negariam que fosse a verdadeira voz do verdadeiro Chaplin. Haveria protestos. Haveria desmentidos. Haveria polémicas, controvérsias, acusações de anti-semitismo. E processos sem fim nos tribunais.
José Luis de Vilallonga, marquês espanhol e jornalista sem tarimba, estava para a vida dele, a cabeça em água, cheia de confusões.
- Mas ouça… foi o próprio Chaplin que mo disse, conforme provam as gravações! Não pode haver polémica. Ninguém poderá atacar o Paris Match. O próprio Chaplin poderá confirmar tudo o que me disse!


Ele, Vilallonga, que não estivesse tão certo disso. O editor conhecia bem a gente da laia do Chaplin, sempre preparados para emudecer ou para se esconder logo que lhes cheirasse a problemas e polémicas.
Aos proprietários do Paris Match sempre tinham agradado as grandes e sensacionais revelações dadas por eles em primeira mão. Todavia, eram muito refractários a alguma notícia ou revelação que desse escândalo. E aquela era uma das revelações que seguramente provocaria um escândalo mundial de todo o tamanho.
- Bom, mas então, como é que vamos resolver este assunto?
         O assunto seria resolvido do seguinte modo: Vilallonga seria pago pela entrevista, conforme o contratado, e tal como se o Paris Match a tivesse publicado, reservando entretanto a revista o direito de destruir as fitas gravadas – primeira proposta.
Segunda proposta: o Paris Match não pagaria a Vilallonga nem um tostão (nem sequer as despesas de viagem), e Vilallonga ficaria proprietário das fitas gravadas e faria com elas o que muito bem entendesse.
E foi mesmo da redacção do Paris Match que Vilallonga telefonou ao seu agente, pedindo encarecidamente um conselho quanto à decisão a tomar: ser pago pelo trabalho mesmo sem o ver publicado e ficar sem as gravações; ficar com as gravações e não ver um cêntimo pelo trabalho – continuando embora a fazer entrevistas para a revista.
O agente de Vilallonga aconselha-o de imediato a aceitar a segunda proposta antes que esfrie: não receber nada e ficar com as fitas sensacionais.
E ele assim fez, para grande alívio do editor do Paris Match .



Logo no dia seguinte, ainda o aristocrata jornalista não tinha acabado o pequeno-almoço quando alguém lhe telefona da parte da revista Lui - revista de luxo para o homem moderno, segundo a publicidade.
Era assim: a revista estava disposta a ficar-lhe com a escandalosa entrevista feita a Charlie Chaplin e por um cachet muito mais alto do que o Paris Match lhe oferecia.
- Mas como é possível se os homens da Lui nem leram o material?
- Não é preciso. Basta-lhes saber que Chaplin declarara não ser judeu.
A revista Lui – revista de luxo para o homem moderno da época – publicou a entrevista no número seguinte. E com as revistas apareceram nos quiosques de toda a Paris uns posters anunciando a publicação a letras enormes e vermelhas e com o chamariz das palavras de Charlot em discurso directo: Não, eu não sou judeu.
E tudo o que o editor do Paris Match havia previsto não foi nada em comparação com o charivari que se armou.
Lui vendeu mais exemplares nessa semana do que no ano inteiro.

A revista, e o próprio Vilallonga, foram arrasados pela opinião pública – ou pela opinião publicada - e acusados de falsear, manipular, estropiar as palavras de Chaplin.
A imprensa de esquerda pôs em causa a veracidade da própria entrevista. Chaplin nunca teria concedido aquela entrevista. Tudo aquilo era forjado. Aquilo fazia parte de uma monstruosa conspiração para manchar o prestígio de um dos maiores artistas do nosso tempo.
O Nouvel Observateur escreveu: não podemos esquecer que José Luis de Vilallonga é um conhecido fascista que na guerra civil de Espanha combateu ao lado dos franquistas – o que realmente não era mentira nenhuma.


Vilallonga recebe ameaças de morte, por um lado, e por outro recebe propostas milionárias para ampliar a entrevista e desenvolver mais as declarações de Chaplin naquele capítulo do ser ou não ser judeu – ou do ser e não se judeu…
O editor do Paris Match esfrega as mãos de contente por terem sido outros a correr os riscos e ele ter o jornalista em causa sob contrato. Apressa-se a telefonar a Vilallonga perguntando para quando e com quem seria a próxima entrevista. Orson Welles? Herbert von Karajan? De Gaulle? Fellini?




E agora, vamos a saber: qual foi a reacção de Charlie Chaplin a tanto alvoroço?
Nenhuma.
Pois não, Chaplin nunca confirmou nem desmentiu os dizeres da entrevista concedida a José Luis de Vilallonga. O que levaria o mesmo Vilallonga a escrever nas suas memórias (“não autorizadas”) que Chaplin, de facto um dos maiores artistas do nosso tempo, além de ser e não ser judeu… era um cobarde.



 


domingo, 3 de novembro de 2013

        TRISTÃO E ISOLDA PASSEIAM
   PELO
   GRANDE CANAL


       Não me tinha dito já numa carta que conhecia Veneza? Pois bem: o palácio onde estou agora e mais ou menos a meio caminho entre a piazzetta e o Rialto, onde o canal faz um cotovelo. É aí o Palazzo Foscari (agora feito quartel), que fica muito perto do meu. Em frente, tenho o Palazzo Grassi, que o proprietário, signor Sina, está a restaurar.
       Instalado no Palácio Giustiniani-Brandolin, Wagner escreve a uma cara e venerada amiga, Elisa Wille, a 30 de Setembro de 1858.
       Viera fugido de Zurich, a 17 de Agosto de 1858, estivera até 25 desse mês em Genéve, e depois partira para Veneza. Não era a primeira vez que estava em Itália. Já tinha ido anos antes a Turim e a Génova – onde por sinal adoecera.
     Em Veneza, em 1858, começa por alugar um quarto na Riva degli Schiavoni, a meias com um amigo, Carlo Ritter, mas foi depois viver sozinho para um apartamento nesse Palácio Giustiniani-Brandolin, no Grande Canal.
      A saúde é que nem sempre o vai favorecer na estadia veneziana. Cólicas intestinais e diarreias, problemas gastro-nervosos, furúnculos nas pernas…
Na tarde de 29 de Agosto desse ano de 1858, Wagner chegava a Veneza. Subia o Canal. Chegava à piazzetta e todo ele eram impressões melancólicas e mau humor meditabundo. Grandeza, beleza, decadência, tudo isso a um tempo, é o que os seus olhos podem contemplar. Por outro lado, alegra-se: não há o mais pequeno sinal da próspera modernidade que ele odeia, nenhuma vulgaridade que lhe sugira o mundo dos negócios (que deixara para trás na Suíça).
   A Praça de S. Marcos causa-lhe uma impressão de fábula, fala-lhe de um mundo antigo, muito distante, e pensa que a paisagem se vai harmonizando excelentemente com o desejo de solidão que o levara a Veneza. Nada ali lhe lembrava a dura vida real e tudo se figurava para ele com se estivesse habitando uma obra de arte.  
O silêncio típico do Canal iria influir muito agradavelmente no espírito de Wagner e o Palácio Giustiniani era qualquer coisa de majestoso. Altas e vastas salas. Podia movimentar-se à larga e isso satisfazia-o. O apartamento era para fazer as vezes de invólucro para o mecanismo criativo que ele era. Esperava o seu Erard – o piano – que naquela imponente sala haveria de soar magnificamente.
       Sobre a mesa de trabalho colocava um retrato do pai, um rosto nobre e sofredor, de traços delicados. Gostava muito daquele retrato.
Às cinco saía para comer alguma coisa. Depois, passeio pelo jardim público. Desemboca em S. Marcos. A praça produz nele um efeito teatral. A multidão que o rodeia é–lhe indiferente, não conhece ninguém na cidade, incomoda-o um tanto, mas também lhe excita a imaginação. Por volta das nove apanha uma gôndola e regressa a casa. Há uma lâmpada acesa. Lê um pouco antes de se deitar.
Mas a sua presença na cidade já é notícia nas gazetas.

                                                                            
Viver da arte para te agradar, para te consolar: eis o meu desígnio, que corresponde absolutamente à minha natureza, ao meu destino, à minha vontade, ao meu amor. Aqui terminarei o meu Tristão, e com ele regressarei a ti, se tal me for permitido, para te ver, para te fazer feliz. É esse o mais belo e o mais sagrado dos meus desejos. Ânimo, pois! Herói Tristão! Heroína Isolda! Ajudem-me!

                                                 

       Pelo texto das notícias que saíam dava-se a entender que a chegada de Richard Wagner a Veneza decorria de motivações políticas, e que Veneza seria a cidade ideal para ele se poder escapulir mais ou menos em segurança para a Alemanha, com escala em Viena. Liszt avisara-o. Que tivesse cuidadinho. E que não contasse muito com o sucesso das óperas dele em Itália. Itália não era terreno adequado para ele.
Pouco depois de chegar, a polícia tinha-o visitado e tinha-lhe pedido o passaporte. Passaporte que ficara retido e fora examinado pelas autoridades…eu a pensar no conjunto de medidas desagradáveis que seriam impostas…e lhe fora devolvido com a garantia de que nenhum óbice seria colocado à sua estadia na cidade.


É a Áustria que me concede decididamente asilo, e isto é digno de nota.
       Há um profundo silêncio, e do âmago desse silêncio nasce música. Wagner vai à janela. Profanando o silêncio, uma gôndola toda iluminada de cores variegadas aparece no Canal, carregada de cantores e músicos populares. Atrás dessa outras gôndolas aparecem com gente a ouvir e a aplaudir. Ocupam o Canal a toda a largura e deslizam muito suavemente à flor das águas. Cantam canções. Belas vozes, instrumentos sofríveis. Chegam à curva e desaparecem.
       As cartas para Matilde Wesendonck estavam a chegar, devolvidas, intactas. A comunicação entre os amantes era feita através da amiga Elisa Wille.
       Ontem  vi-te em sonhos; estavas no terraço, vestida com roupas de homem e com um chapéu de viagem na cabeça. Olhavas na direcção que eu seguira ao ir-me embora, eu vinha pelo lado oposto, direito a ti. Procurava uma maneira de te dar um sinal da minha presença e comecei a chamar-te baixinho… Matilde… Matilde…
    Era o único hóspede do Palácio Giustiniani-Brandolin. Não encontrara nada de mais económico para morar. Nem nada de mais cómodo. Encantara-se com o grande salão, o enorme salão. O tecto de afrescos era passável. Mas o chão era de mosaico, esplêndido. Apercebia-se entretanto do que ali havia que lhe parecia menos acolhedor, e por isso mandou tirar as portas que do imponente quarto de dormir deitavam para um gabinetezinho contíguo. Nas cores predominava o vermelho, excepto no quarto de dormir, decorado em verdes. Um corredor bastante longo para o convidar a um passeio matutino,abrindo de um lado para uma varanda sobre o Grande Canal, e do outro para o jardim interior muito bem cuidado.
       Todo o dia fui assaltado por violenta nostalgia, por um tédio doloroso de vida…
       Claras estrelas na noite do Canal. A lua no seu último quarto. Uma gôndola. O grito distante e cantado dos gondoleiros a chamarem-se jnspira-o.
Vai à varanda. Não tem sono. A noite no Canal é bela e pura.
       Quando, pelo fim  das tardes ,deslizo sobre as águas numa gôndola e observo a superfície do mar, liso e imóvel como um espelho, a casar-se no horizonte com  o céu, tenho diante de mim o quadro da minha vida presente: o que para mim é presente, passado e futuro pouco se pode distinguir, ou poderá distinguir-se tanto quanto no horizonte do fim das tardes se pode distinguir o que é mar e o que é céu.


Será pelo halo fabuloso da cidade, o certo é que Wagner se sente envolvido por um círculo de encantamento melancólico-cordial que muito lhe melhora a disposição. A passear de gôndola, indo até ao Lido, sentia no ar ressonâncias e vibrações de violino.
       Fugira de Zurich acossado pelos credores. Não conseguindo deitar-lhe a mão, os credores mandaram apreender o Erard, o piano, como penhor. Foi preciso portanto que alguém, não sei quem, regularizasse os contenciosos em Zurich (talvez o músico Ignazio Heim) para que o piano pudesse ser despachado para Veneza.
E eis que no dia 6 de Outubro chega finalmente o piano. Apressara-se a soltá-lo da embalagem, a colocá-lo no lugar que lhe destinara e a experimentar-lhe a doce sonoridade, leve e algo melancólica. E de novo se sente atraído para a música. Como se chamasse o Cisne para reconduzir à sua terra o pobre Lohengrin.


       E começa nesse mesmo dia a composição do 2º acto de Tristão. Aquela atmosfera onírica de Veneza proporcionava-lhe um feliz reencontro com a música, a que ele chama a existência. 
O Tristão ainda me custará muita canseira. Mas dá-me a impressão de que quando estiver acabado um período maravilhoso da minha vida será concluído e eu poderei admirar o mundo com calma clareza e espírito avisado, e através do mundo admirar-te a ti.
       Se a fantasia dele estivesse em actividade tudo lhe pareceria bem. O trabalho espiritual, quando se pode desenvolver sem obstáculos, é alta compensação para os espíritos atribulados. E tais intelectuais fervores, entendia ele, tiravam seu alimento do coração. Tudo o resto, o mundo em redor, era para ele um deserto, estranho, frio. Não tenho um olhar, uma voz carinhosa. Jurei a mim mesmo não procurar ter nem um cãozinho ao pé de mim. Não tenho junto de mim nenhum  ente querido.
Faz agora um ano acabei o poema do Tristão e dei-te o último acto. Tu vieste comigo até a poltrona em frente ao divã, abraçaste-me e disseste: “depois disto não desejo mais nada”. E naquele dia 18 de Setembro de 1857, àquela hora, eu nasci verdadeiramente para uma nova vida.
    Meditava muito durante suas passeatas pela cidade. Uma ideia recorrente era a do casamento consumado em idade muito juvenil. Salvo raras exepções não tinha conhecimento de nenhum casamento contratado na primeira juventude que não se tivesse revelado um enorme erro.


       Que interesse pode ter uma união?, pergunta-se nos diários. O que é que une um casal por toda a vida, uma vida para que o casal foi empurrado na fase da sua mais tumultuosa juventude? E havia o caso estranho dos pais, que mesmo depois de passados da miséria de vida ao obtuso bem-estar da maturidade esquecem tudo quanto passaram e sem a mínima preocupação de espírito deixam que os filhos se precipitem no mesmo erro.
       Ontem senti-me miserável. Para quê viver? Porquê viver? Será cobardia minha, ou será coragem?
       Das nossas canções eu só tinha comigo alguns esboços a lápis e um tanto difíceis de decifrar, o que me fez temer não poder apreender-lhes devidamente o conteúdo se a memória não viesse em meu socorro. Executei-os então ao piano. Transcrevi-os com cuidado. E foi esse o meu primeiro trabalho neste 2º acto de Tristão.
Era bom que experimentasse as asas antes de tentar voar.
Wagner continuava a pensar que nunca até aí tinha composto alguma coisa que superasse as canções que dedicara a Matilde. E até quanto ao futuro, nesse Outubro veneziano ainda duvidava que pudesse vir a fazer melhor, ou sequer a igualar o que fizera com aquelas canções.
       Andava a ler pouco. Raros livros o atraíam naquela fase da vida, e acabava sempre por recorrer ao seu Schopenhauer, o que lhe dava um impulso quase sobrenatural no tocante ao concatenar das ideias.
    Lia as cartas de Humboldt. Quem conhecesse bem Humboldt acharia por certo que aquele notável cientista era pessoa simpática e muito agradável. Um homem como ele aqui ser-me-ia de muita utilidade. Para os espíritos criativos e produtivos era necessário estabelecer amáveis relacionamentos com naturezas receptivas, nem que fosse só para alimentar a necessidade que se tem de alguma expansão intelectual. E quando se avaliam os resultados de tais relacionamentos regozijamo-nos a pensar que a nossa ilusão de sermos plenamente compreendidos não era senão isso mesmo, ilusão.


   Recordava muitas vezes as conversas havidas com o seu amigo Schopenhauer. Recordava tê-lo ouvido dizer que era mais fácil destacar os erros, os defeitos e as inexactidões contidos na obra de um grande espírito do que expor nitidamente, completamente, o valor dessa obra. As imperfeições são nesse caso acidentes, e em geral apareciam bem definidos, o que dava azo a serem mais facilmente detectáveis na sua inteireza. Mas o que faria inesgotável, ou mesmo insondável, a excelência de uma grande obra seria a marca pessoal que o génio criador lhe imprimia.
      Da criatura comum, à qual ofereço a minha compaixão, sinto-me obrigado a fugir logo que ela exija de mim uma comunhão de alegria. Foi esse o motivo da minha última desavença com minha mulher. A pobre interpretou à maneira dela a minha decisão de não franquear nunca mais o limiar da vossa porta e imaginava que eu tivesse tomado essa decisão na sequência de uma ruptura entre nós.
       Sentia na solidão veneziana que ninguém se ocupava dele, ninguém queria saber dele a sério, fervorosamente. Pensava então mais uma vez no amigo Schopenhauer e começava a concordar com ele, e consequentemente a duvidar da real possibilidade de uma verdadeira amizade entre as pessoas. Tudo aquilo a que era atribuído o nome de amizade seria de relegar para o reino fabuloso da fantasia. 
   Sentado ao piano, entre hesitações, dúvidas, demoras, descreve por música as fugazes delícias do reencontro dos dois enamorados, Tristão e Isolda.

                                        

Acontecia-lhe, ao instrumentar, abandonar-se com alguma complacência ao gozo do seu próprio trabalho, da sua criação, enquanto ao mesmo tempo se deixava levar por memórias e pensamentos de toda a ordem,desencontrados, desirmanados, provavelmente evocando a natureza peculiar do poeta, ou, enfim, do artista, que ele julgava eternamente vedada à compreensão do mundo circundante no estridente contraste entre o maravilhoso e o vulgar da vida. Enquanto esta última categoria, o vulgar da vida, provinha exclusivamente da experiência dessa mesma vida, a visão poética recolhia e assimilava de tudo quanto desse sentido e significação aos frutos dessa experiência de vida. Estaríamos então a lidar com o fenómeno pelo qual é concedido ao homem, de forma apriorística, adquirir consciência e conhecimento das coisas.

                       

Explico-me: o mecanismo do espaço, do tempo e da causalidade através do qual o mundo se nos apresenta sensível já pré-existe no nosso cérebro e é propriedade da nossa mente antes de ser conhecimento experimentado. Se assim não fosse, nunca poderíamos reconhecer as coisas.
Pois sim, mas havia coisas, estados, situações que transcendiam os condicionamentos causais, espaciais ou temporais, e cuja consciência deles era efectiva, ainda que sem os subsídios oferecido por qualquer meio auxiliar. Seria uma qualquer coisa, estado, situação, que Schiller classificava  como verdadeira, e justamente por nunca ter acontecido. Um qualquer coisa, estado, situação que só ao poeta seria dado reconhecer, e assim devido à sua natureza de poeta e ao correspondente dom de poder pressentir e acrescentar uma forma ao pressentido.

                             

E esta configuração do poeta confirmava-a Wagner na sua própria pessoa e no seu trabalho. As concepções poéticas que lograva precediam sempre, e de largo, as experiências pessoais, ou os conhecimentos objectivados… a minha educação moral pode dizer-se nascida nas minhas concepções apriorísticas. O Holandês ( do Navio Fantasma), o Tannhäuser, o Lohengrin,  os Nibelungos, Wotan, estiveram-lhe na mente antes de deles ter a experiência. E seria nesse momento o caso do Tristão, e das relações dele, criador, com Tristão, a criatura, poética e musical. E digo com firmeza que nunca uma ideia penetrou tão fundo e com tanta determinação na minha experiência.

                        
       Vai dar a um ponto de venda de criação e aprecia a mercadoria exposta, que lhe parece higiénica e apetitosa. Olha para um lado e vê um homem a depenar um frango. Olha para o outro lado e vê outro homem a tirar uma galinha da capoeira e depois a torcer-lhe o pescoço… o grito agudo do animal, primeiro, e depois os lamentos pouco a pouco mais débeis ao morrer trespassam-me a alma…
       Tomaram-me por alguém que experimenta maior compaixão pelas naturezas inferiores do que pelos seres superiores. Porque o ser superior o é por saber elevar-se através dos próprios infortúnios às alturas da resignação, ou porque tem em si as faculdades necessárias para atingir as alturas. O ser superior está próximo de mim. É meu igual. Com ele me posso irmanar em alegre comunhão. Aí está porque nutro menos compaixão pelos homens do que pelos animais. Aos animais foi negada a capacidade de superação da dor e a resignação e a calma que dela deriva. É por isso que digo que o Homem recolhe a existência falhada do animal, reconhece o erro da existência, torna-se redentor do mundo – mas tudo isto será por mim esclarecido no terceiro acto do meu  Parsifal, na manhã de Sexta-Feira Santa.
       Sim, já pensava no Parsifal. E já esboçara alguns versos que seriam a base de um futuro, e por enquanto impreciso, Parsifal. Ocorria-lhe uma figura de mulher. Singular mulher, fascinante e demoníaca. Se algum dia chegasse a concluir aquele poema teria conseguido alguma coisa de verdadeiramente original.
      Pois bem, agora que Sawitri (Parsifal) encheu o meu espírito grávido de pressentimentos e tende a assumir a forma poética… e agora que na fase final do meu trabalho artístico me inclino com plástica calma contemplativa sobre o meu Tristão,  agora, sim, que tal prodígio me invade, sinto-me cada dia mais longe do mundo, como se o mundo tivesse desaparecido da minha experiência de vida comum e objectiva.

                                           
      
      Interessava-se pelo budismo e lia sobre o assunto. Aprendia que Buda não estivera de acordo com a admissão de mulheres na comunidade dos eleitos. As mulheres, por força da sua própria natureza, seriam demasiado dominadas pela sensualidade e pelo capricho para poderem atingir um alto grau de recolhimento e contemplação, única via individual para redenção. Mas por fim o mestre, por influência de alguém, contemporizou, e as mulheres tiveram acesso ao círculo santificado.


  O apartamento no Palácio Giustiniani era muito belo, indiscutivelmente, muito belo e terrivelmente frio. Nunca em dias de vida Wagner sentira o corpo a inteiriçar-se de frio, não, nunca como naqueles dias de Itália, na bela Veneza e no céu claro e límpido.


       As gôndolas passariam a funcionar para ele apenas como meio de transporte. Passear nelas era impossível. Gelava-se dentro delas por via do vento norte que soprava constantemente. E sentia muito a falta desses passeios de gôndola. Estava reduzido à piazzetta,  ao jardim público, ao caminho de meia horita pela Riva degli Schiavoni, acotovelando aquela multidão indescritível de todas as horas.


       Veneza era uma maravilha. Mas só isso: uma maravilha.


       E a escrita do Tristão vai avançando.
Isto sim, é música!
       Poderei levar toda a vida a trabalhar unicamente dedicado a esta música. Aquela música ia-se tornando bela e profunda e os mais sublimes momentos musicais fundiam-se perfeitamente com a Ideia. Sentia igualmente que aquela música o poderia esgotar. Nunca compusera nada que se assemelhasse àquele 2º acto de Tristão. Jogava tudo naquela partitura, e quando a obra estivesse pronta talvez não quisesse mais ouvir falar dela.

                                             
  
  Eu vivo, eterno, nesta música…
       Tentei tocá-la ao piano. Não consegui o que queria. Fiquei penalizado. Não conseguia avançar. Mas o Espírito bateu à minha porta. Fui abrir, e diante de mim apareceu a Musa suavemente benéfica. Sentei-me novamente ao piano e pude transcrever rapidamente o que antes me parecera impossível, como se já soubesse aquela música de memória há muito tempo.
Mas não, não te arrependas daquelas carícias com que enfeitaste a minha pobre vida. Pelo teu coração, pelos teus olhos, pela tua boca fui eu resgatado às servis obrigações do mundo.


       Pensava em Matilde, e pensava no seu Tristão. E pensava exprimir no seu Tristão a profunda arte musical do silêncio. A isso o convidava a solidão e a privacidade em que estava a viver, e que o fariam readquirir, e reunir, as forças vitais que julgara despedaçadas, dispersas. Já andava dormir melhor e estava certo de poder conservar essa graça preciosa do sono tranquilo e profundo até acabar o trabalho. Sempre quero ver, depois, que cara me apresentará o mundo.
       Dia 1 de Novembro. Dia dos mortos. Estava à minha varanda a fixar a vista no imperceptível movimento das águas enegrecidas do Canal. Soprava um vento raivoso, prenúncio de tempestade. Ergui a mão e apoiei-a na balaustrada de modo a subir para o parapeito e saltar. Se saltasse ficaria liberto de todos os meus sofrimentos.
       Até por volta das cinco da tarde costumava deixar-se estar por casa a trabalhar, a trastejar - era ele que preparava o chá da manhã. Às cinco é chamado o gondoleiro… porque estou num sítio que quem quiser vir ver-me terá de percorrer um longo caminho de água... e ia de gôndola até ao restaurante, na Praça de S. Marcos, e aí se encontrava com o amigo Ritter. Jantava. Davam um passeio e abancavam no Caffè della Rotonda para comer um gelado. Às oito estava em casa.


       O maravilhoso contraste entre a melancólica austeridade do meu apartamento e o constante bulício da praça, o flutuar da multidão, os gondoleiros barulhentos, e o regresso, ao longo do Canal, pelo crepúsculo, tudo isto me concede uma impressão de bem-estar e de paz.
       Àquela norma de vida nos primeiros tempos venezianos Wagner se limitava. Ainda não sentira desejo de visitar as grandes obras de arte que a cidade guardava. Poderia fazê-lo apenas entrado o inverno. Por enquanto, comprazia-se com a agradável rotina do nascer e do morrer de cada um dos seus dias.
Não poderia ter escolhido melhor lugar de estadia e mais adequado às minhas necessidades. Este incessante espectáculo teatral que é a vida desta cidade, o espectáculo que quotidianamente se renova e mantém vivo e fresco cada contraste não deixa nascer em mim o desejo de desempenhar nele algum papel pessoal.
       Aos domingos, na praça, tocava a banda militar, e misturado nos ajuntamentos Wagner ouvia trechos de Tannhäuser e de Lohengrin como se aquelas músicas nada tivessem a ver com ele.
 Mas já era uma figura conhecida. Os oficiais austríacos cumprimentavam-no com grande deferência – o que o surpreendia, aliás.


       Se a saúde não o satisfazia em pleno, tentava pelo menos não o perder o humor, ou de o manter, como dizia, límpido. Era preciso sorrir quando o Espírito, a Musa, se fazia presente.
       Sei que como homem não poderei mudar muito. Conservo as minhas pequenas fraquezas, gosto de viver em ambientes confortáveis, gosto de tapetes e de belos móveis, gosto de me vestir de sedas e veludos… e gosto de manter em dia a minha correspondência…
       No dia 1 de Dezembro estava de cama. Aliás, recolhera à cama oito dias antes e nesse dia levantara-se e aguentara-se de pé até o sentarem numa poltrona, de onde foi levado outra vez para a cama à força de braços. Chamava àquilo doença externa. E paradoxalmente considerava-a benéfica para a saúde.
       Por doente que estivesse, o intelecto mantinha-se activo, muito activo, congeminando planos, esboços musicais, situações poéticas. E problemas filosóficos. Relia o sacramental Schopenhauer. Pensava possível ampliar o sistema schopenhaueriano de pensamento. Pensava no meio de placar a vontade por meio do amor. Não um amor abstracto, provavelmente filantrópico, não. Pensava no amor que brotava do desejo sexual mesmo, o amor que se esboça na recíproca inclinação entre homem e mulher. É interessante que eu, aqui como filósofo e não como poeta, possa valer-me do material conceptual que Schopenhauer me oferece.
   Mas nas reflexões da convalescença entende que as representações filosóficas que faz o conduzem em profundidade e em amplitude muito mais longe. Indagava sobre a determinação precisa do estado no qual uma pessoa estaria pronto a reconhecer uma ideia, reconhecer sobretudo o estado de genialidade em si, que ele não concebia como uma condição automática do intelecto, da vontade. Seria uma elevação do intelecto do indivíduo como órgão de reconhecimento da espécie; expressão da vontade mesma, sim, mas da vontade como coisa em si. E só esse reconhecimento poderia identificar a felicidade, o entusiasmo, os supremos momentos de genial intuição onde Schopenhauer apenas conhecia o silêncio dos impulsos individuais.


       No dia 8 de Dezembro respirava enfim um pouco de ar fresco. Levantava-se. Aquele seu último episódio doentio deixara-o na dependência de toda a gente, visto que não se podia mexer sem ajuda. Servia-lhe como experiência que ia adquirindo de si mesmo. Fora os médicos e os criados não tinha a quem dirigir a palavra. E, o que era mais estranho, não sentira necessidade de companhia. Um certo príncipe russo visitara-o. Homem inteligentíssimo e de apurado sentido musical, sem dúvida. Todavia, quando o príncipe se despediu ele sentiu-se bastante feliz, extraordinariamente feliz… a partida dele, muito sinceramente o digo, deu-me muito mais prazer do que a chegada. Entreter-se com uma companhia custava-lhe sempre algum esforço. Um esforço que de resto reputava de inútil e sem finalidade. Mas gostava de ver o movimento dos criados, de lhes ouvir os ditos.  Em cada um deles fala o homem simples com todas as qualidades e todos os defeitos.


E foi à cidade. Meteram-no numa gôndola e ele foi ver o movimento incessante da multidão na piazzetta. Jantou num restaurante e regressou ao severo palácio que lhe servia de morada. Silêncio e austeridade. Uma lâmpada deixada a arder para ele. No meu íntimo há a segura e não ambígua sensação de que é aqui o meu mundo e que deste meu mundo não poderei daqui em diante separar-me sem dor. Sinto-me feliz aqui.


Mas alguma coisa, uma resistência, um fatalismo, estava nele a opor-se ao acabamento do Tristão. Foi por alturas do Natal. Sentia não dever apressar o trabalho por causa disso. Antes pelo contrário, talvez. Compunha o Tristão como se pelo resto da sua vida não quisesse trabalhar noutro projecto. Mas como compensação a essa resistência e a esse fatalismo tinha a certeza de que o que estava a criar era o que de mais belo alguma vez na vida criara.
Na passagem de ano recebe a visita do amigo Carlo Ritter, de regresso a Veneza, e que daí em diante passa a visitá-lo todos os dias por volta das oito. Ritter dá-lhe notícias de Minna, a mulher, cuja saúde mental piorara, mas que o amigo achara com melhor aspecto, apesar de tudo. Não gostaria que nada faltasse ao bem-estar dela, e pela minha parte tudo farei para isso.
Estava preparado para renunciar à Alemanha, com o coração calmo e frio, sei que  o devo fazer. Mas nada resolvo quanto ao meu futuro. Salvo uma coisa: acabar o meu Tristão.
De Dresden recebe uma espécie de proposta que é também uma intimação… de lá me deslocar com um salvo-conduto, apresentar-me ao juiz, e deixar que organizem um processo contra mim, de forma que, quando fosse condenado, pudesse estar seguro de contar com a clemência do rei. Tudo isso pareceria extremamente sedutor a quem acreditasse poder tirar vantagens submetendo-se a audiências no tribunal, sofrendo com os inevitáveis e capciosos sofismas jurídicos. E que ganharia ele com isso? Exasperações, angústias, tudo o que sempre o perturbara E em troca de quê? De uma ou outra representação das suas óperas…
Não dá seguimento à proposta de Dresden. Mas está ciente de que a sua vida e trabalhos estariam suspensos sabia-se lá por quanto tempo, e dado que nenhuma das suas óperas poderia subir à cena sem a sua presença nas fases preparatórias.

                        

O único príncipe que demonstrava firme benevolência para com ele era o Grão-Duque de Baden. E o Grão-Duque já lhe fizera saber com toda a certeza que poderia contar com uma estreia da nova ópera, o Tristão, em Karlsruhe, ensaiada e dirigida por ele. Possivelmente a 6 de Setembro do ano que acabava de entrar, 1859, a coincidir com o onomástico do Grão-Duque. Da parte dele, tudo bem, nada contra. Seria mais questão de saber se o príncipe estaria em condições de manter a promessa e se o Tristão iria estar pronto a tempo.
Basta. O que mais importa é que o Tristão tenha sucesso. E terá. Terá até mais sucesso do que qualquer outra das minhas óperas.
9 de Março de 1859. Acaba de compor o 2º acto de Tristão. Está naturalmente de óptimo humor. O trabalho correra-lhe a contento. Pensa começar a esboçar ainda em Veneza o 3º acto, para depois o instrumentar quando estiver de regresso à Suíça.
Para o amigo Ritter e para um visitante e admirador, Winterberger, trazido por Ritter, concorda em tocar ao piano as passagens principais do que acabara de compor e sente reforçada a convicção de ter escrito alguma coisa de muito belo.


Todos os meus trabalhos anteriores se reduzem a quase nada, pobres deles, em confronto com este segundo acto. E assim é como se estivesse a matar todos os meus filhos, menos um, este. Só conhece a palma, o galardão, aquele que sofreu a coroa de espinhos, e essa palma pousa, suave, na minha mão e assentará depois na minha cabeça como a mais pura e aérea asa de um anjo portador da mais alta consolação.


E no dia 25 de Março de 1859…
E assim, minha boa amiga, disse adeus em seu nome à minha Veneza de sonho. Como se atravessasse um outro mundo envolvo-me nos estrépitos, nas estradas, nas poeiras, na aridez…
Vai a Milão, a Verona. Depois atravessa os Alpes. Pára em Lucerne.
…Veneza já me fica longe, como uma cidade fantástica e inexistente, apenas entrevista na minha imaginação. Um dia, Veneza poderá ouvir o sonho que nela converti em sons.
Ele ainda não o sabe, mas voltará. 
Voltará a Veneza para morrer.