sábado, 16 de novembro de 2013

     WAGNER,O GNÓSTICO


                                     O seu poder é tal que qualquer homem,
                                Por infeliz que se sinta em seu estado,
                                Se contempla esta pedra,
                                Em vez de morrer como os outros
                                Deixa de conhecer idade,
                                Seja no rosto, no corpo ou na cor
                                E seja homem ou mulher
                                Gozará da dita inefável
                                De contemplar a Pedra por mais de duzentos anos.

                          WOLFRAM VON ESCHENBACH - Parzival                            
       

       
       Montsalvat situava-se no norte visigótico de Espanha. Era lá o castelo-santuário do Graal. E rezavam as velhíssimas crónicas que quando a mouraria infiel ocupava o que é hoje a Península Ibérica se dera o caso prodigioso de uma legião de anjos ter descido dos céus e ter visitado o mais pio dos heróis, Titurel, para lhe confiar o sagrado cálice, símbolo do último sangue do Salvador, e a Lança com que Longinus, o soldado romano, lhe trespassara o lado. É depois disso que o piedoso Titurel faz construir um castelo-templo dedicado à custódia das relíquias e pronto a acolher todo o cavaleiro que se apresentasse sem pecado.

                                                                                     
   


E nasce o dia em que Titurel, já muito entrado em anos e cansado, renuncia ao senhorio do Graal e abdica em seu filho Amfortas. Amfortas auto-investe-se de uma principal missão, a de libertar as proximidades do castelo da maléfica presença de Klingsor e dos poderes mágicos e pecaminosos que já tantos cavaleiros puros haviam corrompido.
Klingsor habitava o vale ocupado pelos infiéis. Pecara gravemente. Tentava expiar o seu pecado. Sem sucesso. E então vá de demandar o castelo do Graal, de bater aos portões e de impetrar guarida entre os cavaleiros da compaixão. Não é aceite por Titurel. Klingsor conhecera a impureza e o pecado. Não tinha condições para se deter na roda dos justos e dos puros, em comunhão com a irmandade. Derivou então para os caminhos da magia. E então sim, foi bem sucedido ao invocar os poderes tenebrosos. E de tal sorte foi bem sucedido que os campos escalvados por onde deambulava se transformaram em jardins luxuriantes, um paraíso povoado por mulheres-flores de suma beleza e cuja missão seria tentar os puros cavaleiros do Graal.
Noutros tempos contava-se que Klingsor cobiçara a Pedra Iniciática e quisera apoderar-se dela. Rechaçaram-no os cavaleiros mestres da Compaixão. Foi então que Klingsor, tornado Senhor das Trevas, começou a odiar o sexo. Ou, por outras e gnósticas palavras, Klingsor sofrera tormentos causados pela própria luxúria sexual e para pôr um fim a essa paixão animal que o consumia não viu outro meio que não fosse pegar numa adaga e capar-se a si mesmo, e correr de mãos ainda ensanguentadas em busca do Santo Graal e ser expulso pelos cavaleiros.
Contava-se que a entidade Prometeu/Lúcifer havia roubado o fogo ao céu e o trouxera para a terra e com ele tinha guiado Klingsor pelas veredas da insurreição espiritual, porque o fogo arrancado ao céu por Prometeu/Lúcifer não teria por si a qualidade de ser bom ou mau, senão que seria bom ou mau conforme o que com ele se fizesse de pecado ou de redenção.


        Klingsor tomava a forma de Ego Lunar – disseram os gnósticos. O Papapurusha. Klingsor é o Mefistófeles clássico. E conta-se que os velhos eremitas das margens do Ganges fitavam mentalmente o lado esquerdo da cavidade do estômago e alcançavam uma figura de olhos rebrilhantes e barba vermelha, cenho enrugado, armado de espada e escudo: era o ponto da reunião simbólica de todos os defeitos psicológicos de um homem. E os anacoretas orientais começaram a cantar antífonas sacras quando imóveis e concentrados no lugar do umbigo.
        Amfortas toma a Lança de Deus, a Lança gnóstica relacionada com a Lança dos Pactos do deus Wotan – na cosmogonia wagneriana as duas lanças são a mesma, são o falo transcendente, são o instrumento símbolo da energia sexual masculina- e parte para a refrega contra as forças de Klingsor. Pouco antes de chegar sai-lhe ao caminho uma mulher de encantos irresistíveis. Amfortas cai nos braços da mulher, abandona a Lança, e um grito de morte ecoa por todo o vale. Era Klingsor que surgia diante de Amfortas, empunhava a Lança sagrada e com ela varava o lado do senhor do Graal. Os cavaleiros que escoltavam Amfortas acorreram, mas só a tempo de ouvirem a gargalhada satânica de Klingsor. A ferida do lado de Amfortas nunca mais seria cicatrizada. A menos que algum outro prodígio acontecesse.
        Amfortas rojava-se dia e noite perante o Cálice divino implorando a Graça. Via uma luz a desprender-se do Graal. Ouvia umas palavras murmuradas: espera pelo puro, pelo inocente, por aquele que foi eleito por mim…
Passa muito tempo. Amfortas somente achava algum lenitivo no banho que tomava nas águas santas de um lago próximo das muralhas do castelo. O lago iniciático. A água, elemento feminino da terra, base da vida, contraponto do sol e do fogo, ens seminis da alquimia medieva.


Gurnemanz, o mais velho e mais sábio dos monges-cavaleiros, aproxima-se da liteira em que Amfortas é levado para o banho. Pergunta-lhe pelas melhoras da ferida e da dor que o mantém pálido de morte, fraco e tresnoitado. Um dos do séquito responde-lhe:
        - Como podes pensar que Amfortas esteja melhor, tu, Gurnemanz, que tudo sabes? A dor do nosso rei é mais cruel a cada dia que passa…
        - Sim, somos loucos se pensarmos que alguma coisa o possa curar. De nada lhe valem as ervas e as beberagens. Só vejo um remédio… um único remédio…
        - Qual?
     Gurnemanz não o diz. Manda que apressem o banho do senhor do Graal.


        Nisto, aparece entre os arvoredos uma estranha figura de mulher com aspecto selvagem, cabeleira negra hirsuta, olhas também negros, fuzilantes. Gurnemanz reconhece-a. É Kundry. Que lhe estende um frasco de bálsamo.
        - De onde vem esta medicina? – quer saber Gurnemanz.
        - De uma terra mais distante daqui do que tudo o que possas imaginar – diz a mulher. – Se este bálsamo não sarar a ferida de Amfortas, a Arábia nada mais tem como remédio para ele.
       O bálsamo foi aplicado na ferida. Sem resultado. Entretanto, a mulher, Kundry, presa de algum tipo de epilepsia entra em convulsões e dá um grito, não, aquele bálsamo era inútil, não servia, não!
       Os cavaleiros desconfiaram. Kundry podia ser uma bruxa, podia estar a querer embruxar o rei até à morte. O sábio Gurnemanz não era desse parecer. Kundry era uma mulher muito prestável que nunca tinha feito mal a ninguém, que os ajudava no que podia, que lhes trazia novas dos reinos mais distantes, e tudo isso sem lhes pedir nada em troca…
    - Ela odeia-nos – diz um dos cavaleiros. – Repara, Gurnemanz, como ela nos olha…
        - É uma mulher pagã – diz outro.
        Gurnemanz meneia a cabeça. Kundry poderia ser mesmo uma mulher amaldiçoada. De momento andava por ali, mas talvez andasse por ali a expiar as más acções que cometera numa outra vida.
        - Já a conheço há bastante tempo. E Titurel já a conhecia desde muito antes da minha chegada. Um dia deu com ela na mata, corpo rígido, como morta. Depois eu mesmo fui dar com ela meio morta. Foi no desgraçado dia em que Amfortas foi ferido por Klingsor e perdeu a Lança sagrada – de repente, Gurnemanz vira-se para Kundry caída no chão, imóvel. – E agora diz-me lá tu, Kundry… onde estavas no dia em que Klingsor feriu Amfortas e se apoderou da Lança sagrada? Porque é que nesse dia não apareceste para mos ajudar?
      Kundry primeiro gritou. Depois foi um longo silêncio. A seguir levantou-se de um salto e gritou na cara do velho e sábio Gurnemanz:
        - Eu nunca vos ajudei!
        É quando um cisne selvagem trespassado por uma seta aparece nos braços de um cavaleiro.
        - Quem matou esse cisne? – pergunta Gurnemanz, aflito.
        - Estavamos com Amfortas a vê-lo voar em círculos sobre as águas do lago. Amfortas disse que aquele vôo do cisne era um presságio esperançoso. E de repente, uma flecha corta os ares e atinge o cisne…
        Um formoso adolescente aparece então na clareira, corpo coberto de peles, um arco na mão, um saco de flechas às costas – flechas iguais à que tinha atingido o cisne. Os cavaleiros bradaram: era aquele o matador do cisne. Gurnemanz interroga o jovem. Foste tu? Sim, tinha sido ele, tinha artes de conseguir caçar qualquer ave em pleno vôo. E não estaria ele arrependido da má acção praticada? Não, não parecia estar nada arrependido, antes parecia contentíssimo.
        - Como te atreveste a matar um ser vivo neste bosque sagrado onde só a paz tem lugar? Os animais fizeram-te mal? O cisne voava sobre o lago em busca da companheira e para consagrar o banho do nosso rei…
    O jovem pareceu comovido. Tanto que quebrou o arco, arremessou para longe o saco das setas e cobriu a cara com as mãos, murmurando que nunca tinha pensado em nada do que Gurnemanz lhe contava.
        - De onde vens tu?
        - Não sei.
        - Quem é teu pai?
        - Não sei
        - Quem te ensinou o caminho para aqui?
        - Não sei.
        - Como te chamas?
- Não sei.
- Não sabes?
- Tive muitos nomes, mas não recordo nenhum…
- Então… não sabes nada de nada… mas… se não sabes nada do que te perguntei, diz-me o que sabes, porque alguma coisa deves saber…
- Tenho mãe. Chama-se Herzeleide. Vivíamos nos bosques.
- Quem te deu o arco?
- Ninguém. Foi feito por mim. Para espantar as águias.
Parsifal tudo ignorava de si por ter eliminado de si o Eu, desse modo obtendo uma inocência edénica. Era necessário morrer na própria pessoa, na carne, no que significa o Eu, se se tem algum urgente e inalterável propósito de encarnar em si o poder de Deus.
Gurnemanz mirava o moço com atenção. As feições dele eram regulares. Parecia-lhe alguém de nobre estirpe.


Kundry, que continuava por ali, aproximou-se do grupo. E respondeu pelo jovem.
- Ele chama-se Parsifal - Parsifal, o filho de Herzeleide e Gamuret entrara sem luxúria nos territórios de Montsalvat e com uma flecha atingira alegremente o cisne sagrado do Kalahamsa. - Quando a mãe o deu à luz, o pai, Gamuret, acabava de morrer em combate. Herzeleide, para salvar o filho da mesma sorte do pai fugiu com ele para longe, para um bosque desabitado…
Parsifal acorrre vivamente:
- Sim, um dia passaram por lá uns cavaleiros de armaduras esplêndidas e mantos brancos… eu quis acompanhá-los, eles riram-se de mim, disseram que iam ao castelo do Graal… fui atrás deles mas não os pude alcançar..e depois atravessei montanhas, corri vales e bosques e desertos e caminhei sem parar e tive de usar o meu arco para me defender das feras e dos homens…
Kundry já segredava a Gurnemanz:
- O que ele diz é verdade. Até venceu gigantes. Era temido por todos este rapaz… ouve, a tua mãe já não chora…
- Não? Que bom!
- Não. A tua mãe morreu
Parsifal agitou-se. Como? A minha mãe morreu? Sim, morreu. Kundry estava ao pé dela quando ela morreu. Parsifal não quer acreditar, quer castigar Kundry. É Gurnemanz que os separa. Se Kundry o disse é porque é verdade, assegurou o velho. Kundry não mentia.
- Nunca faço o Bem – balbuciou Kundry. – Desejo a paz e o repouso mas sempre me sinto fatigada. Queria dormir. Dormir? Não, nunca. Tenho medo.
E soltando um dos seus terríveis gritos Kundry desaparece no bosque. Quando no bosque adormecer, hipnotizada, Kundry ouvirá uma voz a perguntar-lhe: que terrível ideia assalta os teus sonhos? Qual é o acto que não o querendo praticar o praticaste?
Amfortas regressava do banho. Era meio-dia. Gurnemanz encarou com o jovem Parsifal. Reflectiu uns momentos e falou:
- Vem comigo, rapaz. Vou levar-te ao Ágape Sagrado. Se fores o puro e o inocente, o Graal te alimentará.
- Quem é o Graal?
- Não se pode dizer. Fosses tu o eleito do Graal e não perderias a Graça. E já agora te digo, meu jovem, uma vez que me parece reconhecer-te… não há caminho algum que te leve ao Graal… o Graal mesmo te servirá de guia.
- Mas diz-me tu, velho, que se passa? Ainda agora começámos a caminhar e parece que já andámos muitas milhas…
- Neste lugar, meu filho, espaço e tempo são uma e a mesma coisa…
- Que dizes, velho? Não te compreendo…
- Saberás, meu jovem, que na Eternidade não há tempo. É a dimensão zero. Estás no Espírito puro…


Parsifal era um dos tantos que peregrinavam pela terra sem compreender. Nesse momento, Parsifal figurava-se na categoria maçónica oculta do Aprendiz, tendo por guru, ou guia, o velho Gurnemanz
Chegados à vasta sala abobadada, os pagens a acender as lanternas, Gurnemanz fitou o jovem.
- Presta atenção ao que vires e depois mostra-me claramente se és ou não és o puro, o inocente, o louco, o eleito como depositário da sabedoria…
(O Wagner esoterista, o Wagner iniciado, gnóstico, estará mais efectivamente presente no Parsifal do que noutra das suas obras, em ortodoxias, em sugestões filosóficas, em vestígios de culto católico tradicional embrulhados em rituais pagãos, em nigromância, em orientalismos, ascetismo, amor puro, piedade, redenção…)
Os cavaleiros guardiões do Graal eram chamados Mestres de Compaixão. Eram os oficiantes da religião-síntese, a primeira de todas as religiões.Como os dos Templários, os mantos dos cavaleiros da Compaixão, os defensores do Graal, são brancos. A diferença está na cruz (Tau) vermelha, substituída por uma pomba.
Seguiu-se a cerimónia da trans-substanciaçãodo pão e do vinho sacrificiais.Ouviu-se a voz de Titurel, o que jazia no túmulo, porém ainda vivo por uma Graça especial de Deus. Titurel pede ao filho, Amfortas, que presida à cerimónia, que desvele o Santo Graal para que ele o possa contemplar, e assim renove o merecimento da Graça e continue a viver depois de ter morrido. Amfortas grita de dor. Ai dele, desgraçado, melhor seria que o pai vivesse e que fosse ele a morrer.
- Mostrem o Graal – ordena a voz cava e distante de Titurel.
- Não! - grita Amfortas.
Tornava a ouvira voz de sonho que lhe falara em certa noite… um sapiente… um iluminado pela compaixão… um casto inocente… espera por ele… é e ele o meu eleito.


Amfortas desfia a sua tortura moral e física e a sua impotência dolorida ao contemplar o Graal, a nascente de todo o Bem, obrigado a implorar o favor dos puros quando era ele, culpado, que estava à margem de toda a Graça. Amfortas, o Venerável, o Senhor do Graal, estivera nos pecaminosos braços de Kundry, e neles derramara o Mercúrio do Conhecimento Secreto. E assim caíra fulminado pelo Arcano 16 da Kabbalah.
Kundry, Gundriggia, Herodias, a figuração universal e intemporal da prostituta, a Eva da Tentação, a desbocada que riu na cara do Salvador; Kundry, um compósito de diversas personagens com orígem em fontes medievais, simbolo também da transmigração das almas; Kundry a alusão que reporta ao mito do Judeu Errante, porque condenada pelos séculos e só redimida por um homem com força de carácter que lhe resista aos poderes tentadores; Kundry, que em função de tal destino só deseja ardentemente a morte.
O Graal, a taça significante e receptora do aparelho sexual da mulher. A taça que já Abraão possuíra; que Malquisedec possuíra, transportando-a à fecunda terra de Canaã e levando-a com ele no tempo nos fundamentos primeiros da cidade de Jerusalém,,,
- Será possível que ninguém deu o justo valor esta tortura que me trespassa quando contemplo o que a todos vós deleita?
O Taça Sagrada que navegara na arca de Noé…
- Que significa este meu ferimento? Porquê o rigor de tantas dores, e a angústia, e o suplício infernal de me sentir condenado a uma missão atroz?
O Cálice que terá sido levado para o Egipto, aí sendo tomado por Moisés. O Cálice com que a rainha de Sabá experimentara Salomão…
- Cruel herança me foi confiada… eu, o único delinquente entre todos… eu, o guardião da Santa relíquia…
Amfortas, amparado pelos pagens, consegue por fim levantar-se da liteira e erguer indignamente o Cálice por onde o Salvador sorvera o último vinho e que agora ele consagrava com o pão.
Parsifal observava. Sentia-se em maravilhoso êxtase e não compreendia o que via.
José de Arimateia recolhera nesse Cálice as gotas do sangue que escorrera da cruz e que escondera, junto com a lança de Longinus, das buscas dos soldados romanos, dirigindo-se a Roma com as relíquias, tencionando confiá-las aos cristãos da cidade, e, vendo as perseguições de que eles eram vítimas, fugindo com as relíquias de Roma direito às margens do Mediterrâneo…


Graal, o Cálice, a Taça, ou a maravilhosa pedra que um anjo deixara cair sobre a terra, o que não a impediu de assumir forma de taça, a taça por onde o Salvador bebera… ou a pedra cúbica de Jesod, o ponto que a Kabbalah situava nos órgãos sexuais…
Terminada a cerimónia todos saíram. Parsifal ficou. Só. A olhar. A sentir o que não compreendia.
Daí a pouco Gurnemanz reapareceu.
- Ainda aqui estás? – disse ele ao jovem. – Compreendeste o que viste? – negou com um movimento de cabeça. – Então é porque não passas de um louco. Vai-te daqui. Depressa. Segue o teu caminho e deixa os cisnes em paz. Mata antes as feras.



- Onde estiveste? – perguntou Klingsor, executando um passe de mágica e fazendo comparecer Kundry no jardim paradisíaco.- Estiveste com o Graal. Trataram-te como uma fera e tu continuas a pensar neles, a chegar-te a eles. Porque não ficas aqui comigo? Porque me fugiste depois de me teres trazido Amfortas, o mais puro dos cavaleiros guardiões do Graal? – Kundry tremia e gemia sem responder. – Queres mesmo servir os castos? Ou é para os compensar da tua traição? Não esperes nada deles. Todos são corruptíveis e eu mesmo podia destruí-los com a Lança que apanhei ao rei deles… mas hoje a nossa tarefa é mais difícil. Temos de vencer um homem perigoso que usa como escudo a simplicidade de espírito.
- Não quero – resmungou Kundry.
- Ai queres queres. Terás de me obedecer. Sou eu o teu amo e o teu encantamento nada pode contra mim. E sabes que aquele que conseguir vencer a tua maldição te libertará…


E Parsifal chega ao jardim de Klingsor. Parsifal desce ao Nono dos infernos dantescos. Venceria as sacerdotisas da tentação. Começava a ser o Companheiro. É recebido pelas mulheres-flores, desnudas, estonteantes de beleza provocatória, instrumentos infernais de tentação carnal governadas por Klingsor. Rodeiam o jovem. Prometem-lhe alegria, amor e prazeres sem igual. Parsifal resiste.
        - Meu único amor… porque me desprezas?
        - As minhas mãos esqueceram-te. Mas os meus olhos viram-te...
        - A tua imagem está viva dentro do meu corpo…
- As lágrimas da tua memória são as que lavam os meus olhos…
Parsifal não sucumbe à tentação das ninfas desnudas. Mas falta-lhe a prova definitiva, o encontro com Kundry. Ouve a voz dela ordenando às ninfas:
- Afastai-vos dele, mulheres vulgares, frívolas raparigas, fascinantes flores de umas horas que depressa murcharão.
E as mulheres-flores regressam ao castelo mágico de Klingsor.
E Kundry aparece, e agora sob uma forma escultural, uma mulher de impressionante beleza. Kundry é a esposa e é a fêmea demoníaca que precipita a queda e a perdição dos homens, e a quem o Senhor do Graal, Amfortas, não resistiu.


- Foste tu, sublime formosura de mulher aquela que me chamou, a mim, o ser que nunca teve nome?
Fora ela, sim.
- Foi a ti que chamei, o inocente, o puro, o louco, Fal-Parsi…
Kundry conhece o poder da predestinação daquele mancebo, teme a probabilidade de o vencer, mas está segura do poder do sortilégio de que Klingsor a investiu.
Fala-lhe do pai, Gamuret, morto a combater o infiel para irreparável dor de sua mãe, Herzeleide. Fala-lhe da mãe, do terror da mãe pela perspectiva de o ver morrer como o pai, ele, o único amparo que a Herzeleide restava.
- Até este momento desconheceste a dor. Até este momento ignoraste as doçuras do prazer da carne. O saber transformará a tua inconsciência em conhecimento – e pode ter dito a Parsifal as palavras de Hermes Trimegisto: dou-te o amor que contém a súmula de toda a sabedoria. - Procura conhecer em mim o amor, o mesmo amor que inundou o coração de Gamuret, teu pai, quando sucumbiu de paixão por tua mãe, Herzeleide. Esse amor que um dia te deu corpo e vida. O amor que afugentará de ti a morte e a baixeza humana. O amor e este primeiro beijo de paixão que hoje te ofereço como última bênção de tua mãe.
Porque o mandamento não é eliminar o sexo, é superá-lo, absorvendo-lhe a sabedoria mística, a essência da religião-síntese e primeva.
        Parsifal recorda uma história ouvida em qualquer tempo, em qualquer lugar. Amfortas! A ferida que não cessa de sangrar! A ferida!
        - Eu vi essa ferida num lugar e num tempo, e essa ferida sangra agora dentro de mim…
     - Não, não é a ferida que te queima, é o incêndio do meu corpo apertado contra o teu…
       E com a remota memória da ferida vem a cerimónia do pão e do vinho a que assistira sem compreender, o pão e o vinho que celebravam o sangue vertido no acto pecaminoso.
    E Parsifal afasta de si a mulher, Kundry, a prostituta universal, a tentação, Magdala wagneriana reclinada em leito de flores, acometida pela mais ardente luxúria.


       Parsifal não derrama em Kundry o seu Vaso de Hermes.
       Na medula e no sémen está a chave da salvação do Homem.
    A Mãe Divina, serpente ígnea, administradora dos poderes mágicos, Kundalini encerra e completa os símbolos iniciáticos de S e do T –a Serpente e a Cruz (Tau). É a força do universo. É o poder eléctrico oculto que preside à matéria orgânica e inorgânica. Kundalini, a Serpente, é a curva inefável que desce e que sobe, a exaltação e a humilhação, a nona esfera do sexo, sublimação e desastre. Tudo o que deseja subir terá primeiro que descer, porque a exaltação será sempre precedida de humilhação.
        Kundalini inicia a penetração e a subida no corpo do iniciado e permite-lhe as experiências transcendentes: a plenitude espiritual; a hiper-sensibilidade psíquica; o aumento da consciência objectiva; os mais intensos desejos místicos; o estado de lassidão; o estado de sonho, que combinado com a meditação resulta em êxtase.
        Quando Kundalini atinge o lótus das mil pétalas que está na parte superior do cérebro encontra-se com Shiva, o Terceiro Lugar, o Espírito Santo.
        A transmutação do sémen em energia cósmica criadora é axioma de uma sabedoria hermética. Assim o estudaram os colégios iniciáticos do Egipto, da Grécia, da Índia e do México. Nunca derrames a Taça de Hermes no decurso do transe sexual - ensinavam. É nessa substância que se contém a virtude celeste do fogo, a energia seminal que deverá ascender, subir ao cérebro através dos cordões enervados, esplêndidos e etéreos dispostos em 8 que se desenvolvem de um lado e do outro da espinha dorsal – Idá e Pingalá na poética dos Vedas, relacionados com a fossa nasal esquerda e direita.
        Já nos velhíssimos textos se escrevia que o orifício inferior do canal medular no homem comum está hermeticamente fechado e que são os vapores seminais que o abrem com o objectivo essencial de permitir a passagem da serpente sagrada. A serpente sagrada, Kundalini, não realiza um movimento mecânico, só desperta no verdadeiro amor entre homem e mulher, nunca no encontro dos adúlteros e dos perversos. E a milagrosa subida de Kundalini pelos canais próprios produz-se muito lentamente, emitindo o misterioso som da víbora acossada por um pau, e sempre em acordo com os méritos do coração.
No derramar do Vaso de Hermes (sémen) dá-se a perda dos graus esotéricos, a Kundalini baixa e desce várias vértebras.
E Parsifal não o derramou. Ao contrário do sucedido com Amfortas quando tentado pela mesma Kundry transfigurada em instrumento de Klingsor. E por isso Amfortas caíra, perdera a predestinação esotérica e se deixara ferir pela sua própria lança, condenado à eterna ignomínia, à eterna indignidade sacral.
        Kundry, envolvida no esplendor de uma predestinação sagrada que o espírito do grande Mal perverteu, grita:
        - Débeis sois todos vós! E todos caem comigo… e todos caem atingidos pela minha maldição!
        Kundry, perturbada, chama pelo mago Klingsor em seu socorro. Klingsor aparece empunhando a Lança roubada ao Senhor do Graal e atira-a contra Parsifal, procurando feri-lo como ferira Amfortas. Mas Parsifal, o louco, o inocente, o herói, está puro, não derramou o Vaso de Heermes, e a sua pureza torna-o invulnerável. A Lança suspende a trajectória por cima da cabeça de Parsifal. Em êxtase, Parsifal recolhe a Lança e com ela traça o sinal da cruz. Nesse momento, o castelo de Klingsor, o jardim das delícias e das tentações (que Richard Strauss julgou ter descoberto ao visitar Sintra nos anos 40, mas que Wagner tinha muito antes descoberto nos jardins do Palácio Rufolo, em Ravello), desmorona-se, as mulheres-flores fenecem e são levadas pelo vento. Kundry solta um grito terrível e cai ferida de morte.


E Parsifal afasta-se sob uma luz difusa de ouro e violeta. Vai munido da Lança Sagrada, a lança de Amfortas, que é a mesma lança com que Longinus, o soldado romano, feriu o lado do Salvador no Monte do Calvário. Gnosticamente tornar-se-á símbolo de salvação, de libertação - e por muito tempo correu fama de que Hitler a possuiu e a conservou no seu gabinete de trabalho na Chancelaria.

                                                                

Parsifal terá tido existência na vida a que chamamos de real?
        Os gnósticos admitem que sim, que foi um grande cavaleiro, epítome da pureza de coração, da castidade e do amor consciente. Pode ser. Se eles o dizem…

   

                  
      

     
       Amanhece nas cercanias de Montsalvat. É Sexta-Feira Santa.


       Gurnemanz, ao sair da cabana de eremita onde vivia, ouve um gemido. Atravessa o riacho que bordejava um prado florido pela primavera e na orla da mata mais adiante dá com um corpo desfalecido. É Kundry. Coberta de farrapos. Meia morta. Corpo gelado. Gurnemanz tenta reanimá-la. Diz-lhe que doravante poderia ver a luz, o inverno passara. Junto de um manancial,Gurnemanz recolhe a água com que lhe salpica a fronte até a reanimar. Kundry abre os olhos e fita Gurnemanz com rancor. Depois levanta-se. Com um andar mecânico atravessa o riacho e vai à cabana de Gurnemanz. Sempre em gestos automáticos começa a ordenar alguns objectos, uma gamela, um cântaro, um bordão.
        - Nada tens para me dizer, Kundry? Estás louca? Nem me agradeces por te ter livrado do pesadelo que te levaria à morte?
        Kundry replicou-lhe sombriamente:
        - Servir. Só quero servir.
        - Terás pouco que fazer então…
Kundry levanta bruscamente a cabeça e diz:
        - Vem aí alguém.
        Do bosque saía a estranha figura de um cavaleiro: armadura negra, completa, espada à cinta e escudo na mão esquerda, rosto oculto pela viseira. Na mão direita uma lança com a ponta virada para baixo. A figura dirigiu-se à nascente das águas límpidas e santas e sentou-se.
        - Salvé viajante – saudou Gurnemanz. – Se te perdeste… talvez eu possa encaminhar os teus passos, - o desconhecido manteve-se em enigmático silêncio. – Se fizeste um voto de silêncio, muito bem, respeitá-lo-ei. Mas serei eu a ver-me obrigado a falar. Estás num lugar santo e aqui ninguém pode estar armado, lança em punho e rosto escondido. E menos ainda no dia de hoje. Saberás tu, viajante, que hoje é dia santo? – o desconhecido continuava a guardar silêncio. – Com que raça de pagãos tu andaste por esse mundo para não saberes que hoje é Sexta-Feira Santa? Deixa as armas, homem. Não ofendas a Deus num dia como o de hoje.
       É então que o misterioso cavaleiro da armadura negra se põe de pé, crava a lança na terra, ajoelha aos pés de Gurnemanz, coloca no chão a espada e o escudo e sobe a viseira. Gurnemanz olha-o com muita atenção. Já vira aquela cara, aquela cabeça, aqueles traços nobres, aquele rosto puro. Reconhece-o. É Parsifal. E recua para junto de Kundry.
       - Lembras-te dele? O que matou o cisne… aquele que eu mandei embora… ah – a Lança! – Conheço aquela lança… é a Lança Sagrada! Oh, bendito seja este dia para todo o sempre…
        - Bendito seja – repetiu Parsifal. – Porque foi neste dia que voltei a encontrar-te.
        - Também me reconheces?
        Passara muito tempo. Parsifal era agora o Mestre que sofrera.


  Parsifal correra o mundo e não encontrara os caminhos do Bem. Passara provações sem conta, suportara sofrimentos indizíveis, travara lutas ominosas, deixara-se ferir sem se defender para não macular de violências a Lança Sagrada. Estivera a pontos de perder a esperança de encontrar o templo do Graal e assim poder devolver a Lança.
        E chegava a vez de Gurnemanz narrar os infaustos acontecimentos ocorridos no castelo do Graal. Amfortas desde aquela vez que Parsifal presenciara nunca mais celebrara os ofícios da trans-substanciação que lhe competiam. Amfortas, exausto pelas dores da ferida que continuava a sangrar e pelas torturas íntimas da sua culpa só implorava a morte. Os cavaleiros não recebiam mensagens a mobilizá-los para qualquer guerra santa e por isso se davam a vaguear, macambúzios, tristes e solitários pelos bosques das redondezas, desesperançados, miseráveis, sem um chefe. Alguns tinham desaparecido na floresta. Outros tinham morrido em desespero místico. Ele, Gurnemanz, sobrevivera para assistir à impotência de Amfortas. Titurel, o velho herói, sem poder gratificar-se com a visão do Graal que lhe acrescentava a vida, acabara por morrer em definitiva, morrer como morrem todos os homens.
        - Poderás tu levar-me ao lugar onde está agora Amfortas? – sugere Parsifal.
        Certamente que sim, Amfortas estava no templo. Prometera para aquele dia santo, finalmente, o magno gesto revelador do Graal, o ofício, a oração em memória do pai.
        Kundry aparecia com um frasco de óleos perfumados que retirara do seio e com uma ânfora cheia de água da fonte bendita. Propunha-se lavar os pés e ungir o jovem Parsifal, porque era a hora de cumprir a regra da hospitalidade.
        - Queres lavar-me os pés? – disse Parsifal.- Também gostaria que tu Gurnemanz derramasses a água bendita sobre a minha cabeça…
        Era a cerimónia do baptismo.
       A Parsifal é despida a intimidante armadura negra da dor e do combate e é-lhe vestida a túnica branca do Neófito, a pureza, a libertação do instinto velho do pecado. Kundry lava os pés de Parsifal e enxuga-os com os próprios cabelos
        - Bendito sejas - disse Gurnemanz, espargindo-lhe a água sobre a cabeça. – Que por esta água abençoada fiques purificado de todo o pecado, e que a angústia se afaste de ti.
        - Queres ungir-me os pés? Pois bem, também gostaria que a minha cabeça fosse ungida pelos santos óleos derramados pelo companheiro de Titurel e que hoje mesmo ele me saúde como se saúda um rei.
        Gurnemanz verteu o vidro dos óleos perfumados sobre a cabeça de Parsifal, dizendo:
        - Consagro a tua cabeça e saúdo-te como um rei, como um Sapiente da Compaixão, porque tu és o mais puro.
        Ao levantar-se, brilhava uma luz diáfana nos olhos do herói puro. Kundry arrojou-se-lhe aos pés e o herói mais puro verteu a água bendita sobre a cabeça da mulher.
        - Começa hoje a minha missão. Recebe o baptismo e crê naquele que te salvará.
   Gurnemanz cobriu os ombros de Parsifal com o seu manto e encaminharam-se para a cerimónia. O encanto de Sexta-Feira Santa fazia-se sentir por toda a natureza.


        Quatro cavaleiros de branco ataviados entraram conduzindo o ataúde de ferro onde jazia o corpo de Titurel. Os pagens colocaram no altar o estojo onde se guardava o Graal. Entoaram-se os cânticos. Quatro outros pagens carregaram a liteira de Amfortas até ao centro do recinto.
Os cavaleiros intimam-no: seria a última vez que lhe exigiam o cumprimento das suas obrigações.
   Amfortas levantava-se e avançava, sempre amparado pelos pagens. A tampa da urna de ferro era levantada e o cadáver amortalhado de Titurel ficava visível para todos.
        - Meu pai! – gritou Amfortas. – Tu, o mais puro, aquele a quem os anjos confiaram o tesouro divino… a ti, herói sagrado te trago a morte… e a ti suplico que dirijas a Deus esta prece… “tem piedade, Senhor… e concede a meu filho a paz”…
       Amfortas, nas vascas da agonia, rasga as vestes. Ao verem o sangue jorrar da ferida do seu rei os cavaleiros recuam horrorizados. Amfortas sabe que o levantar do véu e o descobrir do Cálice (Graal) lhe prolongará a vida e lhe renovará a agonia, a ele, vítima da tentação de Kundry e do feitiço de Klingsor que só anseia pela morte.
       Parsifal entra na grande sala, seguido por Gurnemanz e Kundry. Todos se afastam para ele passar porque uma altaneira e indizível majestade emanava dele.


        Parsifal ergue a Lança e com ela toca o peito de Amfortas. Dizendo:
        - Só uma arma pode operar o milagre. A Lança cicatrizará a ferida que ela mesma abriu. Estás curado. A salvação está a descer sobre ti – volvendo o corpo para os presentes, Parsifal torna a erguer a Lança. – Esta Lança Sagrada… este tesouro divino… eu o devolvo. Abram o Santo Graal. Que ele seja revelado a todos.
        E Parsifal cai diante do Cálice Sagrado, e o Espírito, na forma de uma pomba branca, desce sobre o cavaleiro banhado por um raio de luz, pousando-lhe na cabeça.



        Wagner sobreviveu pouco tempo à estreia de Parsifal, sete meses. O Parsifal estreia em Julho de 1882, Wagner morre em Fevereiro de 1883. O Parsifal, enquanto Bühnenweihfestspiel (festival sacro), era assunto demasiado sério para entrar no circuito comercial do repertório profano de ópera.  Bayreuth e o respectivo festival, segundo o círculo mais fechado dos wagnerianos, estavam destinados a ser o centro de uma nova religião. Eis porque Wagner nunca autorizou nenhuma representação de Parsifal fora do santuário de Bayreuth, e por isso a mulher, Cosima, ao que se diz, pretendeu modificar as leis do direito de autor de forma a limitar a exclusividade de Parsifal a Bayreuth. Não conseguiu o intento. O prazo de exclusividade expiraria em 1913.

                                                                     
    Não obstante tudo isso, Parsifal é cantado, por assim dizer clandestinamente, em 1903, no Met de Nova York, suponho que em inglês, e ignorando quaisquer disposições legais eventualmente existentes e em vigor, e acarretando o anátema lançado pela família Wagner e pela maçonaria de Bayreuth sobre a direcção do teatro e sobre os cantores que o interpretaram – nunca mais poriam os pés num palco alemão.Certo que também ainda antes de 1913, em Amsterdão (1905, 1906, 1908) ele terá sido executado – execuções reservadas aos membros da Sociedade Wagner. Zurich também já o tinha querido levar à cena, no que foi impedido pelas tais diligências da viúva e do filho do mestre. E se Monte Carlo chega a apresentar Parsifal é a título privado e por convites.
     Mas por fim, chega o ano de 1913, os direitos de propriedade intelectual prescrevem, e dá-se a estreia oficial extra-Bayreuth, em Londres, no Covent Garden, a 2 de Fevereiro de 1914.
Estreia legalmente o Parsifal e rebenta a I Grande Guerra.
Há quem fale de uma relação entre as duas coisas, uma conexão espiritual, por assim dizer… não sei, não sou gnóstico...


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

     UM BILHETE, UM RETRATO E UM ANEL


      
        Há horas nesta vida  que são mesmo sei lá o quê – do diabo? Horas, coincidências, azares, predestinações…


       No dia 24 de Abril de 1864, Meyerbeer, o rei da ópera parisiense, o judeu mais odiado por Wagner, cai à cama gravemente doente. Ainda assim, no seu apartamento da Avenue Montaigne – dizem que modesto, apesar de ele ser um dos mais populares, e certamente dos mais bem pagos compositores do tempo – superintende uma equipa de assistentes que copiam as partes cavas da sua última partitura, L’Africaine


       E no dia 2 de Maio desse 1864, Meyerbeer solta o último dos seus melhores suspiros e apaga-se, morre.


       E no dia 2 de Maio desse 1864, depois de ter corrido a meia Europa de Viena, de Zurich, de Milão, de Basileia, Herr Pfistermeister (Franz Seraph von Pfistermeister), o secretário particular do rei solitário, sonhador e sentimental chegado dois meses antes ao trono da Baviera, encontra finalmente, em Sttutgart, o homem que procura, Richard Wagner, o eterno fugitivo dos credores.


       Herr Pfistermeister entrega a Richard Wagner, da parte do seu rei, um bilhete, um retrato e um anel. Ou dizendo de outra maneira, Pfistermeister oferece a Wagner a protecção pessoal do novo rei da Baviera, o que equivale a dizer que oferece a Wagner a redenção de vida, o que ainda equivale a dizer que oferece a Wagner os meios de se livrar para sempre dos seus algozes credores, e os meios de realizar todas as suas mais caras e improváveis fantasias artísticas.
       Não, Wagner nunca julgara possível que tal prodígio pudesse algum dia acontecer. E deve ter ficado especado, paralizado, de boca aberta, a olhar para Herr Pfistermeister, sabe-se lá se desconfiado. Aquilo seria alguma partida que algum dos seus amigos lhe estava a pregar? Seria uma cilada? Seria um truque abjecto de algum dos seus (muitos) credores?
     Não era. Não era nada disso. Era verdade. Era real. Wagner estava a olhar para o homem sem pinga de sangue. Acho eu que devia estar – como eu estaria. E mesmo os seus mais próximos, ao saberem da novidade a custo se refizeram da estupefacção. E porque se lembravam de o ter ouvido dizer num dia em que a vida lhe andava para trás, muito para trás, vocês verão que um dia, de repente, os véus do destino se abrirão para mostrar ao mundo a minha mais indescritível felicidade.


       E para que essa felicidade fosse ainda mais indescritível e inominável, no preciso dia em que o emissário do rei lhe traz a protecção régia e o convite para o palácio, outro emissário lhe chega com mais novas de alegria ao comunicar-lhe o falecimento nesse  mesmo dia do seu maior inimigo – de raça e de arte – Meyerbeer.


     Wagner confessa a Cosima que por outro lado, e pensando bem, a morte do detestado Meyerbeer naquele preciso dia foi uma pena. Foi uma pena e foi um golpe de sorte para Meyerbeer. E foi golpe de sorte porque assim, morto, a providência poupava Meyerbeer de assistir, sem dúvida cinzento de raiva, ao triunfo final do seu inimigo Richard Wagner.
       E mais nada. Como disse, a protecção régia vai libertar Wagner de todas as atribulações de tipo material que lhe envenenavam a alma, libertando-lhe por consequência o estro para os mais altos vôos de arte.

       Naquele dia 2 de Maio de 1864 Wagner tinha cinquenta e um anos. Os mesmos que Verdi.

                                                                               
                                                                     


terça-feira, 5 de novembro de 2013

                             SER E NÃO SER JUDEU




Por falar noutro dia em judeus... e na fluidez do apreender, do verificar à vista desarmada essa racial condição de ser ou não ser judeu... lembrei-me de um  livro lido há pouco tempo e fiquei a pensar em Charlie Chaplin... judeu... 
Mas vamos com calma...

José Luis de Vilallonga foi (acho que já faleceu) um aristocrata espanhol de quem alguns dos mais empedernidos cinéfilos podem estar lembrados de umas canastronas e secundárias interpretações, a mais notória delas, julgo eu, no filme de Blake Edwards sobre uma história de Truman Capote, Breakfast at TiffanysBoneca de Luxo na vaporosa versão portuguesa – com Audrey Hepburn num dos papéis mais inesquecíveis da carreira. Vilallonga, curioso, fazia no filme o papel de um milionário brasileiro chamado José Pereira que estava para casar com a protagonista. Mas não é a história da vida, de resto interessante, deste marquês espanhol metido a actor de cinema que me proponho contar hoje. Ficará para outra ocasião, certamente.

Vilallonga, considerado fascista, marquês, conde, barão, disto e daquilo, com infinitamente mais jeito para escritor – a avaliar pelas suas Memórias Não Autorizadas - do que para actor de cinema (deve tê-lo sido seguramente graças ao físico), play boy, chulo de luxo, marido e amante de mulheres riquíssimas, amante de actrizes famosas, amigo de cabeças coroadas… uff… teve, em jovem, uma passagem pelo jornalismo internacional. No Paris Match
E foi logo investido pela direcção da revista em empreendimento jornalístico de vulto para alguém sem experiência. 
Graças aos contactos que tinha no jet set desse mundo e às relações de amizade com grande número de celebridades mundiais, a agenda do Paris Match destinou-lhe o considerável encargo de entrevistar a nata do who’s who mundial. Nem mais nem menos do que Orson Welles, Jeanne Moreau. Sophia Loren. Brigitte Bardot, Indira Gandhi, Herbert von Karajan, Federico Fellini, Umberto de Itália, Onassis, De Gaulle. E Charlie Chaplin.

         


E claro que José Luis de Vilallonga, não obstante todo o traquejo social que tinha, assustou-se. Eram míticas figuras que muito dificilmente concederiam uma entrevista a um jovem jornalista sem nome feito, por mais marquês-conde-barão espanhol que ele fosse. E era trabalho para anos. Mas ao Paris Match interessava exactamente um repórter pouco batido que pudesse oferecer aos leitores uma visão refrescada e menos convencional de personagens já mil vezes entrevistadas.


Não me deterei nas diligências (engraçadas algumas) feitas por Vilallonga para se saír da incumbência fica para uma próxima oportunidade. Começarei por dizer, só, que o primeiro a ser entrevistado viria precisamente a ser aquele que Vilallonga considerava um dos mais difíceis de abordar. Charlie Chaplin. Mas através de uma amiga italiana, visita da casa dos Chaplin na Suíça, Vilallonga conseguiu o que queria com relativa facilidade.


Estava num hotel de Vevey à espera de que a amiga italiana dos Chaplin lhe desse um sinal, um sim ou um não à entrevista, quando, na mesma noite de chegada, a amiga lhe telefona: Vilallonga estava convidado para jantar no Manoir de Ban. Chaplin era amigo do marido da amiga italiana, e esta, por meias palavras e subentendidos, fizera crer a Chaplin que o homem que o queria entrevistar era seu amante, e sabendo que Chaplin se pelava por aquele tipo de enredos.


Chaplin estava então com 83 anos. Estava gordinho e rosado, os cabelos alvos de neve, um penalty de gin tónico a cintilar-lhe permanentemente na mão.
E, vamos lá a dizer, não é que Vilallonga homem de muitas afinidades com a extrema direita espanhola - admirasse por aí além Charlie Chaplin. Criticava-lhe a postura ideológica, é claro, a demagogia, o maniqueísmo, ricos de um lado, pobres de outro, maus como as cobras os ricos, bonzinhos até ao vómito os pobres.
A grande impressão de Vilallonga, a primeira, naquele jantar, foi a figura de Oona, a mulher de Chaplin, a filha do celebérrimo dramaturgo americano Eugene ONeill, a mãe da actriz Geraldine Chaplin; uma fronte límpida e serena, um olhar inocente e limpo das terríveis tragédias familiares.
Verduras, fruta e queijos suíços – a ementa do jantar.
- Estou de acordo com a entrevistadisse Chaplin. – Proponho então que amanhã tomemos juntos o pequeno- almoço para prepararmos o nosso trabalho. Não sei se está de acordo. Ah e o senhor marquês não vai nada dormir ao hotel. Mandarei preparar-lhe um quarto ao lado do da sua amiga.

Às seis e meia da manhã do dia seguinte toca o telefone da cabeceira de Vilallonga e uma voz anuncia-lhe que Mr. Chaplin o esperava para o pequeno-almoço no terraço às sete e meia em ponto.  
- E agasalhe-se porque está frio.
Às sete e meia da manhã já Chaplin tinha jogado meia hora de ténis com um vizinho, já tinha feito vinte minutos de natação na piscina e já tinha lido a imprensa do dia.
O aristocrata espanhol metido a jornalista refere que tomar o pequeno-almoço às sete e meia da manhã, ao ar livre, morto de frio, em tête-a-tête com Charlie Chaplin não acontecia todos os dias.
- Daqui deste terraço, quando a neblina do lago levanta, lá para as dez, posso ver distintamente os telhados do Crédit Suisse – dissera Chaplin.
Vilallonga palpitou para os seus botões que era lá que ele guardava o seu dinheiro e que não havia maneira mais simples e subtil de o dizer.
- E já que se fala nisso, Mr. Chaplin, qual é para si a importância do dinheiro?
- Tenho pelo dinheiro um infinito respeito, porque sei o que significa não o ter.
Em tempos, na América, o afamado banqueiro J.P.Morgan tinha-lhe dito; Charlie, o dinheiro só tem importância enquanto permite que nos esqueçamos dele. E Chaplin replicara a Morgan que o dinheiro também era bom para nos lembrarmos sempre dele.
- Eu nessa altura valia só 5 milhões de dólares. Mas Morgan nunca me poderia compreender porque tinha nascido rico. E eu tinha nascido pobre. Mesmo muito pobre. Mas também se escreveram muitos disparates sobre as minhas relações com o dinheiro e com a minha própria e desgraçada infância.
Somerset Maugham escrevera um dia que as ruas do sul de Londres eram para Chaplin o cenário de mil aventuras alegres e extraordinárias, e estava convencido de que Chaplin, já depois de riquíssimo, sofreria de ataques de nostalgia ao recordar os bairros pobres de Londres onde nascera. Chaplin considerava essa tirada do seu amigo Maugham uma rematada estupidez. Embora, por outro lado, e num certo sentido, ele tivesse alguma razão. Chaplin nunca poderia esquecer dos bairros pobres de Londres a fealdade, a miséria, o horror.
- Essa mania que os ricos têm… porque Maugham também nasceu rico… de que a pobreza pode ser fascinante, chega a ser um insulto. Nunca na vida encontrei um ex-pobre que sentisse saudades da sua miséria de outros tempos. Não, meu caro marquês, a miséria não é sedutora, nem é fonte de criatividade, nem de alegria. A miséria, a mim, nunca me ensinou nada. E é claro também tomei gosto pelo dinheiro. Mas repare o marquês numa coisa o meu gosto pelo dinheiro não significa que tenha gostado de o acumular, nada disso, gosto de dinheiro para o gastar, comer os melhores queijos, beber os melhores vinhos, fazer-me rodear de obras de arte. Caro marquês Chaplin soltou uma das suas risadas de cinema -, acredite no que lhe diz este velho capitalista: o dinheiro e a beleza dão-se muito bem um com o outro o que Chaplin não levava à paciência no respeitante ao dinheiro era gastá-lo mal. - Daí a dizerem que sou avarento vai um pequeno passo. E tudo isso também dá ao mundo o direito de pensar que a avareza é uma qualidade minha natural, atávica, visto que sou judeu.


Sobre este momento do diálogo terá caído um silêncio. E durante esse silêncio Chaplin ter-se-ia concentrado na paisagem, o sol a romper lentamente a bruma que se levantava do lago, olhando subitamente o seu interlocutor nos olhos. Dizendo:
- A questão está nisto: é que, na verdade, eu não sou judeu.


Vilallonga disfarçou o espanto. Pareceu-lhe mal, enquanto aristocrata espanhol, acusar uma imediata surpresa.
Mas foi dizendo:
- Como, Mr. Chaplin o senhor não é judeu?
Chaplin esclareceu: descendia de irlandeses e de ciganos; na sua árvore genealógica não havia um único judeu. E lastimava-se por isso. Sabia que os críticos de cinema do mundo inteiro o consideravam um mito vivo, o expoente máximo do que tinham carimbado de humor judeu…
- E, senhor marquês, não me diga que não tem piada. Só a um irlandês poderia passar pela cabeça vir a ser o primeiro dos humoristas judeus. E esse irlandês é este seu amigo.
Mas, perguntaríamos nós, mortais comuns, o que teria acontecido para que a fama de judeu tivesse corrido mundo colada ao nome, à figura, ao humor e ao estilo de Charlie Chaplin?
O mesmo Chaplin não nos deixa sem explicação: assim que chegou a Hollywood percebeu que dava muito jeito à sua ambição fazer-se passar por judeu, e porque era mais fácil a um judeu fazer carreira no mundo do cinema quando todos os estúdios eram propriedade ou eram dominados por judeus. E o primeiro produtor que se ocupou dele deu por assente que ele era tão judeu como os outros que o haviam precedido na indústria. Chaplin não o contrariou. Viu o furo e calou-se.
- Sabe, marquês, vindo das classes mais pobres de Inglaterra, sem nome, sem brasões, nem castelos, nem antepassados que pudesse desonrar… ora adeus, não era agora eu que iria complicar a vida a mim mesmo com esse tipo de preconceitos. Querem-me judeu? Pois ter-me-ão judeu.            Chaplin considerar-se ia a si mesmo uma mentira viva. De todo o modo, mentira viva que fosse, sempre era uma mentira alegre.
A seguir, e relacionado com o fascínio que a mulher dele, Oona, exercia sobre José Luis de Vilallonga, o marquês jornalista, surgiu o tema do sogro de Chaplin, Eugene O’Neill, o dramaturgo, um tema que de certo modo se imbricava com o tema da pobreza.
O’Neill, filho de um medíocre actor inglês, fora um rebelde profissional que deixara a casa paterna para levar uma vida de estroinice e marginalidade, sempre acompanhado por bêbedos, ladrões, mulheres da vida e drogados. Uma vida aventurosa que lhe proporcionou inúmeras histórias desgraçadas, até ficar tuberculoso, em Buenos Aires, ser internado num sanatório de Londres, entretendo o tempo a contar aos seus confrades enfermos algumas das suas muitas aventuras. Calhou que um desses companheiros de doença fosse um actor da companhia dos Provincetown Players, sendo esse a convencê-lo a passar a escrito as histórias que tinha vivido.
Chaplin irritava-se ao pensar que a celebridade do sogro era vista pelos entendidos como resultante de ter saído de uma família conflituosa e pobre em extremo. Porque havia um certo paralelo entre a vida de Eugene O’Neill e a do mesmo Chaplin. E o paralelo era esse, esse, o da pobreza dos princípios de vida. 


Chaplin recusava a ideia de uma celebridade baseada, e inspirada, e motivada, na luta pela sobrevivência e não por cada um deles ter sabido usar o talento com que nascera.
- Nem o meu sogro nem eu devemos o que quer que seja à pobreza. Devemos o que fomos ao nosso trabalho e ao nosso talento. E saberá por acaso o meu caro marquês como e quando falei pela primeira vez com o meu próprio pai? È claro que não sabe. Mas eu digo-lhe. Foi na rua. Andava eu pelos meus dez anos. Eu parei a olhar para ele. Eu sabia que o meu pai era aquele homem. Ele fez-me sinal para eu ir ter com ele, eu fui e ele perguntou-me como me chamava. Charles Chaplin, respondi. Sorriu. Deu-me meia coroa, uma palmadinha no ombro e desandou. Nunca mais o vi. Morreu alcoólico aos 37 anos.
A mãe era cantora de um music-hall de segunda. Governava-se mais ou menos até perder por completo a voz, deixar de ter trabalho, e enlouquecer na miséria. Estava-se na era vitoriana. Inglaterra era o império, o império britânico. E quanto a classes sociais no vitoriano império britânico havia duas, os muito ricos e os muito pobres – exactamente, agora falo eu, no sentido que parecem tomar as tendências da vida económico-financeira global e da ferocidade capitalista que hoje governa o mundo. E na Londres desse tempo, abaixo da classe dos muito pobres, havia ainda a dos mais pobres do que os muito pobres, a classe de onde Chaplin provinha.
- Por tudo isso compreenderá agora que eu não suporte que na minha presença se fale de dinheiro em tom frívolo.
- É verdade que foi comunista, Mr. Chaplin?
- Não. Nunca, não, nunca fui comunista.
- Mas olhe que na América toda a gente o tomou por comunista.
- Claro que sim. Eles são tão primários! Um comunista a viver aqui entre todo este luxo… isso cabe na cabeça de alguém?
Sim, Chaplin tomara o partido da União Soviética durante a II Guerra. Estava de acordo com Stalin. Era preciso que os aliados abrissem uma nova frente ocidental de guerra para aliviar a pressão alemã na frente russa e dividir as tropas nazis. A guerra seria ou ganha ou perdida nos campos de batalha russos. E depois desta posição tomada, a cada estreia de um filme seu, Chaplin veria manifestações à porta dos cinemas a exigir a sua expulsão dos EUA.
Oona, a mulher, começara a odiar Hollywood e a América e queria partir para a Europa, pôr os filhos em bons colégios europeus, afastar-se do ódio e do racismo americanos. Passaram temporadas em Londres e Paris até decidirem fixar-se na Suíça.
- Foi certamente muito triste para si, Mr. Chaplin, ser obrigado a abandonar o país onde tinha triunfado profissionalmente…
- Está enganado, meu caro marquês, o que mais me entristeceu foi exactamente o não ter pena nenhuma de abandonar o país em que tinha triunfado profissionalmente…
Que tipo de futuro teria Chaplin previsto para os filhos que Oona lhe dera?
- Oh, não, para o melhor como para o pior já não são os pais a decidir o futuro dos filhos. O futuro dos filhos caberá aos próprios filhos decidi-lo.
Chaplin não pedia mundos e fundos aos seus, nem que eles fossem mais ambiciosos nem mais inteligentes dos que os filhos dos outros. Mas também não gostaria que eles o fossem menos. Ele e os filhos eram produtos de épocas muito diferentes e a experiência de Chaplin, segundo ele, fora construída sobre uma quantidade de erros que a geração dos filhos já não cometeria. Cometeriam outros. Outros que ele mesmo talvez não soubesse evitar.
As filhas de Chaplin entusiasmavam-se cívica e politicamente com Cuba, e com o que chamavam de milagre cubano. Chaplin não ia por aí. Não acreditava em milagres daqueles. Milagres havia ele conseguido.
- E sabe o meu caro marquês qual foi o meu maior milagre? Olhe, foi ter conseguido que a minha mãe não morresse num asilo miserável dessa cinzenta Inglaterra e viesse a morrer numa clínica de luxo da Califórnia, rodeada de limoeiros e laranjeiras, com limousine e chauffeur à porta e três enfermeiras a cuidar permanentemente dela.

E diz o marquês que Chaplin, quiçá para se convencer a si mesmo de que não se transformara num odioso burguês esquecido das suas origens, fazia muitas vezes de palhaço para os filhos, entrando por exemplo na sala de jantar apoiado nas palmas das mãos e de pés para o ar. Aos 83 anos. 83 anos e ainda se sentia capaz de continuar a ser um acrobata.
Chaplin não suportava o contacto concreto, directo, com o dinheiro. Não tocava em dinheiro. Era Oona que tratava de tudo lá em casa, na luxuosíssima casa de Vevey, toda ela arte e bom gosto e porcelanas inglesas, Wedgwoods, Derbys, Staffordshires, Chelseas…



José Luis de Vilallonga regressa a Paris e passa uns dias a transcrever a entrevista que gravara com Charlie Chaplin, antes de entregá-la, pronta, ao editor do Paris Match.
Quando a entregou, o editor felicitou-o muito pela qualidade do material e convocou-o para o dia seguinte de manhã. Podia haver alguma coisa a corrigir ou a retocar.
Vilallonga apresentou-se na manhã seguinte na redacção do Paris Match e foi recebido com ares graves pelo editor, que se chamava Gaston Bonheur. Bonheur felicitou-o uma vez mais pela magnífica entrevista, mas tinha a comunicar-lhe que o Paris Match não a publicaria. O proprietário da revista estava de acordo com esta decisão editorial.
- Não a vão publicar?
- Não.
- Mas porquê, se gostam tanto dela
O editor coloca-lhe a questão:
- Suponho que você gravou toda a entrevista com Chaplin - evidentemente que sim, que tinha gravado. - E tem consigo as fitas gravadas? - claro que tinha. - Incluindo aquela passagem em que Chaplin garante que não é judeu?
- Sim, sem dúvida. Mas que diabo se está a passar?
Que aconteceria se o Paris Match publicasse a entrevista onde Chaplin declarava sensacionalmente que, afinal de contas, não era judeu?
- Não sei. Aconteceria que…
Aconteceria que os judeus do mundo inteiro cairiam em cima do Paris Match acusando a revista de manipulação da verdade histórica.
- Mas como, se a voz do próprio Charlie Chaplin lá está gravada?
Os judeus negariam que fosse a verdadeira voz do verdadeiro Chaplin. Haveria protestos. Haveria desmentidos. Haveria polémicas, controvérsias, acusações de anti-semitismo. E processos sem fim nos tribunais.
José Luis de Vilallonga, marquês espanhol e jornalista sem tarimba, estava para a vida dele, a cabeça em água, cheia de confusões.
- Mas ouça… foi o próprio Chaplin que mo disse, conforme provam as gravações! Não pode haver polémica. Ninguém poderá atacar o Paris Match. O próprio Chaplin poderá confirmar tudo o que me disse!


Ele, Vilallonga, que não estivesse tão certo disso. O editor conhecia bem a gente da laia do Chaplin, sempre preparados para emudecer ou para se esconder logo que lhes cheirasse a problemas e polémicas.
Aos proprietários do Paris Match sempre tinham agradado as grandes e sensacionais revelações dadas por eles em primeira mão. Todavia, eram muito refractários a alguma notícia ou revelação que desse escândalo. E aquela era uma das revelações que seguramente provocaria um escândalo mundial de todo o tamanho.
- Bom, mas então, como é que vamos resolver este assunto?
         O assunto seria resolvido do seguinte modo: Vilallonga seria pago pela entrevista, conforme o contratado, e tal como se o Paris Match a tivesse publicado, reservando entretanto a revista o direito de destruir as fitas gravadas – primeira proposta.
Segunda proposta: o Paris Match não pagaria a Vilallonga nem um tostão (nem sequer as despesas de viagem), e Vilallonga ficaria proprietário das fitas gravadas e faria com elas o que muito bem entendesse.
E foi mesmo da redacção do Paris Match que Vilallonga telefonou ao seu agente, pedindo encarecidamente um conselho quanto à decisão a tomar: ser pago pelo trabalho mesmo sem o ver publicado e ficar sem as gravações; ficar com as gravações e não ver um cêntimo pelo trabalho – continuando embora a fazer entrevistas para a revista.
O agente de Vilallonga aconselha-o de imediato a aceitar a segunda proposta antes que esfrie: não receber nada e ficar com as fitas sensacionais.
E ele assim fez, para grande alívio do editor do Paris Match .



Logo no dia seguinte, ainda o aristocrata jornalista não tinha acabado o pequeno-almoço quando alguém lhe telefona da parte da revista Lui - revista de luxo para o homem moderno, segundo a publicidade.
Era assim: a revista estava disposta a ficar-lhe com a escandalosa entrevista feita a Charlie Chaplin e por um cachet muito mais alto do que o Paris Match lhe oferecia.
- Mas como é possível se os homens da Lui nem leram o material?
- Não é preciso. Basta-lhes saber que Chaplin declarara não ser judeu.
A revista Lui – revista de luxo para o homem moderno da época – publicou a entrevista no número seguinte. E com as revistas apareceram nos quiosques de toda a Paris uns posters anunciando a publicação a letras enormes e vermelhas e com o chamariz das palavras de Charlot em discurso directo: Não, eu não sou judeu.
E tudo o que o editor do Paris Match havia previsto não foi nada em comparação com o charivari que se armou.
Lui vendeu mais exemplares nessa semana do que no ano inteiro.

A revista, e o próprio Vilallonga, foram arrasados pela opinião pública – ou pela opinião publicada - e acusados de falsear, manipular, estropiar as palavras de Chaplin.
A imprensa de esquerda pôs em causa a veracidade da própria entrevista. Chaplin nunca teria concedido aquela entrevista. Tudo aquilo era forjado. Aquilo fazia parte de uma monstruosa conspiração para manchar o prestígio de um dos maiores artistas do nosso tempo.
O Nouvel Observateur escreveu: não podemos esquecer que José Luis de Vilallonga é um conhecido fascista que na guerra civil de Espanha combateu ao lado dos franquistas – o que realmente não era mentira nenhuma.


Vilallonga recebe ameaças de morte, por um lado, e por outro recebe propostas milionárias para ampliar a entrevista e desenvolver mais as declarações de Chaplin naquele capítulo do ser ou não ser judeu – ou do ser e não se judeu…
O editor do Paris Match esfrega as mãos de contente por terem sido outros a correr os riscos e ele ter o jornalista em causa sob contrato. Apressa-se a telefonar a Vilallonga perguntando para quando e com quem seria a próxima entrevista. Orson Welles? Herbert von Karajan? De Gaulle? Fellini?




E agora, vamos a saber: qual foi a reacção de Charlie Chaplin a tanto alvoroço?
Nenhuma.
Pois não, Chaplin nunca confirmou nem desmentiu os dizeres da entrevista concedida a José Luis de Vilallonga. O que levaria o mesmo Vilallonga a escrever nas suas memórias (“não autorizadas”) que Chaplin, de facto um dos maiores artistas do nosso tempo, além de ser e não ser judeu… era um cobarde.