sábado, 23 de novembro de 2013

         JOE, JACK, BOBBY, JOHNNY & SAM



Sam Giancana, o padrinho da Mafia de Chicago, conhecia Joe Kennedy de ginjeira. E também conhecia os filhos, Jack e Bobby, e respectivas fraquezas. E sabia que eles saíam ao pai na tendência para a pouca vergonha e para as mulheres. Se Giancana os conseguisse envolver em escusos negócios de saias e prostituição, é claro que ficaria na manga com material de primeira para eventuais futuras chantagens.
E eles caem que nem patinhos.
Antes de mais, caía Jack, ou seja o futuro presidente John Kennedy dos EUA.
E dá-se o caso inédito em toda a História americana, que é o presidente dos EUA e o chefe máximo da Mafia virem a ter a mesma amante.
Frank Sinatra passa a ser o elo de ligação entre os dois homens. Aliás, segundo alguns autores, é ele que  liga um circuito glamoroso e explosivo: Chicago-Hollywood-Washington.
E outro homem importante como oficial de ligação equidistante aos elementos em jogo, quer dizer, enquanto membro do clan Sinatra e cunhado de John Kennedy, é o actor inglês Peter Lawford - com muito bons empenhos na Mafia, aliás. Pode mesmo dizer-se que foi Peter Lawford quem pôs Sinatra na rota dos Kennedy.
John Kennedy era doido por mulheres. Declarava alegremente, se calhar já com um copito a mais, que a ambição maior da vida era deitar-se com todas as mulheres bonitas de Hollywood.
Mas sim, Jack Kennedy (ou John Kennedy) já durante os anos de guerra se deitara com algumas estrelas, June Allyson, Sonja Henie, Gene Tierney. E também, pasme-se ou não, Grace Kelly.
Durante as filmagens em Las Vegas de Os 11 do Oceano, o candidato John Kennedy (Jack) visitou o plateau, e o prestável Sinatra logo organizou um serão privado em intenção do senador. Peter Lawford, a páginas tantas desse serão, toma Sammy Davis de parte e pergunta-lhe se ele quer conhecer o aspecto que tem um milhão de dólares em notas. Se quisesse, bastar-lhe-ia abrir uma mala de couro castanho que estava em tal parte assim-assim.


Essa mala de couro castanho e tudo quanto lá estava dentro era o presente da Mafia para a campanha eleitoral de John Kennedy .


Sammy Davis recusou o privilégio de cheirar tanto dinheiro. Bastava-lhe saber que algures no Sand’s Hotel estavam quatro raparigas para entreter o senador naquela noite e que ele, Sammy, não queria ter nada a ver com o assunto e se ia embora assim que acabasse de filmar o que tinha a filmar. 


- Há coisas que eu não tenho necessidade  nenhuma de saber -  disse Sammy a Peter Lawford.
Sinatra estava a apresentar uma call-girl de luxo ao senador John Kennedy. Chamava-se ela Judy Campbell, tinha 26 anos, era por sua vez amante do actor Robert Wagner e também, como não podia deixar de ser, amante do mafioso Johnny Rosselli.
Mas esta Judy Campbell, muito antes de ser apresentada ao filho, fora amante do pai. Pelo testemunho de Marlene Dietrich, o problema do Kennedy filho era saber se as mulheres que a Mafia lhe punha à disposição já tinham ou não sido postas à disposição do pai. E muitas delas tinham. E não era por acaso. A Mafia conhecia o penchant dos Kennedy pelo belo sexo.
Kennedy e a call girl Judy Campbell tomaram o pequeno almoço na suite de Sinatra no Sands de Las Vegas e combinaram voltar a encontrar-se em Nova York. E o senador vai embora. E a call girl vai embora. E imediatamente uma equipa se apresenta para limpar todos os vestígios de pouca vergonha. E todos os negativos das fotos comprometedoras tiradas são queimados.
Em Abril de 1960, os membros do Rat Pack passam à qualidade de colectores de fundos para a campanha de Kennedy. Eles e Judy Garland, Tony Curtis, Janet Leigh, Angie Dickinson.
O Kennedy pai, ainda nesse mês de Abril, manda entregar um saco cheio de dinheiro ao padrinho mafioso Sam  Giancana. Portador? A call girl Judy Campbell.
(Pode não ter sido – e não foi - por acaso, que a personagem de Peter Lawford em Os 11 do Oceano,  a certa altura, diz: estou a pensar em comprar uns votos e em lançar-me na politica.


Nessa primavera de 1960, Sam Giancana pede ao dono do Club 500, de Atlantic City para mandar dinheiro para a zona Oeste da Virgínia e esquecer todas as dívidas de jogo de uma certa pessoa. Devem ter seguido para a Virgínia uns 50.000 dólares retirados do fundo de pensões do sindicato dos camionistas.
- Precisamos de comprar todos os eleitores desse estado -  explica Giancana ao seu pessoal.
A 10 de Maio de 1960, John Kennedy ganha as primárias do Oeste da Virgínia e dá um passo de gigante para ser ele o candidato do Partido Democrático à presidência.
E é mesmo. E ganha a Richard Nixon. E John Fitzgerald Kennedy é eleito presidente dos EUA em Novembro de 1960.
Mal é eleito presidente, John Kennedy pede à amante, Judy Campbell, que lhe arranje um encontro secreto em Miami com o chefe mafioso Sam Giancana. Meteu-se-lhe em cabeça usar a Mafia para eliminar Fidel Castro. E passa para as mãos de Campbell documentos secretíssimos relacionados com o projecto. Campbell arranja outro encontro entre o presidente e o mafioso no seu próprio apartamento, em Nova York. É então que Kennedy entrega dinheiro ao chefe da Mafia para o efeito. O terceiro encontro é no Ambassador East Hotel, de Chicago.
Mas Giancana não acreditava muito no êxito da operação. De resto, nem lhe interessava muito esse assunto do assassínio de Castro. O que lhe interessava era ir extorquindo dinheiro ao governo e ter o governo – e a democracia - dos EUA na mão.
Os   Kennedy estão quase a ser apanhados na rede que não era para eles, era para os mafiosos.
Em Dezembro do mesmo ano da eleição do irmão, 1960, Robert Kennedy (Bobby) é nomeado General Attorney, suponho eu que o equivalente a Procurador Geral. 

Sam Giancana sentiu-se então de cavalinho e à margem de todos os inquéritos ao crime organizado, graças ao pacto em tempo firmado com o pai Kennedy, Joe, quando este lhe pediu dinheiro para a campanha do filho mais velho - e ele lho deu em abundância.
J. Edgar Hoover, o manda chuva do FBI, tinha toda aquela gente sob observação e vários telefones sob escuta.  E estava de posse de gravações de conversas entre a call girl Campbell e o presidente, e entre Campbell e Giancana.
Enquanto um Kennedy procurador geral finge perseguir o crime organizado, outro Kennedy serve-se desse mesmo crime organizado para ganhar as eleições; e quer servir-se outra vez dele para montar um golpe de Estado num país estrangeiro. Hoover, como se fosse um rapazinho de mãos limpas, considerou tudo isso, toda essa hipocrisia, revoltante. E não é de modas: escreve ao procurador Robert Kennedy e dá-lhe parte de quanto sabe daquelas ligações perigosas.


Hoover e o presidente Kennedy almoçam em Março de 1961. Hoover desbobina tudo o que sabe a respeito de Giancana, da Campbell e dele próprio, Jack Kennedy, presidente. O presidente deve ter embatucado, ou metido o rabinho entre as pernas.
No verão, o velho Joe Kennedy convida Sinatra e os outros membros do clã, os Rat Pack, para a vila que tinha na Riviera francesa.
 De um momento para o outro anula o convite com a desculpa de não haver quartos para todos.
O FBI carrega sobre Giancana. Mas Giancana pode revelar, entre outros, o segredo da conspiração cubana ao próprio procurador geral. E se Bobby Kennedy quisesse encontrar-se com ele bem sabia a quem se dirigir. A Sinatra.
Sente-se perseguido, Sam Giancana. E enerva-se.
- Como é? Devo estar a viver na Alemanha nazi e devo ser eu o maior judeu do país – diz aos capangas.
Em Dezembro de 61, em Palm Beach, a jogar golfe, o velho Joe Kennedy sofre uma hemorragia cerebral.

Com o velho e mafiosamente comprometido pai desaparecido de cena, os Kennedy sentem-se de mãos livres relativamente à Mafia – não esquecer que foi o velho Joe que os meteu naquela alhada só para ver o seu mais velho presidente.
Bobby Kennedy sente-se livre para se lançar, e agora a valer, numa cruzada contra o crime organizado. E prepara-se, claro, para morder a mão que lhe deu de comer, que permitiu que o irmão fosse eleito e que por conseguinte permitiu que ele ocupasse aquele cargo.
E vão 350 gangsters constituídos arguidos em 1962. Destes, 138 são condenados.

                      

O Wall Street Journal escreve: a maior acção jamais empreendida no país contra os gangsters, os vigaristas, os senhores do vício.
- Se um dia me apanharem na estrada por excesso de velocidade, tenho a certeza de que nenhum desses Kennedy me conhece - diz Giancana ao amigalhaço Johnny Rosselli.


Não valera de nada, no final de contas, a Giancana, reunir material de chantagem. Não lhe valera de nada prestar serviços e dar dinheiro aos Kennedy com o fito de os deixar em dívida perante a Mafia. Será que os Kennedy eram tão ou mais mafiosos do que a própria Mafia?
- Então, Sam? – fala Rosselli -, está na hora de lhes mostrares o teu lado mau.
 (Isto foram conversas ouvidas e gravadas pelo FBI).   
Sam Giancana nunca chegará a ser preso. Por um triz. É Bobby Kennedy quem o evita.
Na hora em que J. Edgar Hoover dá a ordem para a prisão de Giancana, Bobby Kennedy entra-lhe gabinete dentro e manda suspender tudo.
- Então?
- Não pode ser.
- Ora essa, porquê?
- Ele sabe demais.
Em Dezembro de 62, a call girl Judy Campbell declarou-se grávida de um dos Kennedy – vamos lá agora nós saber qual. E vai ter com Sam Giancana. Giancana alvitra-lhe que se case com ele – uma sugestão um bocado a atirar para o parvo. Mas a rapariga prefere abortar e Giancana leva-a ao Grant’s Hospital de Chicago. Foi no dia 28 de Janeiro de 1963.
O FBI começa a andar em cima dela. Querem saber quem é que ela conhece, com quem se dá. Ameaçam-na de a levar a depor perante um grande júri.
Mas bruscamente deixam-na em paz. Deixam de a interrogar. Nunca mais lhe falam em depor perante o grande júri. Diz ela que o Departamento de Justiça lá entendera que ela sabia demais e resolveram deixá-la de lado para acalmar os ânimos.
E pronto, com as coisas assim, como toda a gente sabe, a 22 de Novembro de 1963, o presidente John Kennedy é assassinado em Dallas. Com tantas trapalhadas na vida da família Kennedy a meter a Mafia, pode resultar difícil afirmar que a mesma Mafia, ainda por cima, e sobretudo, depois de desonrosamente traída nos seus compromissos com o clan Kennedy, nada tivesse que ver com o atentado.
O próprio Sinatra se perguntou se Giancana não estaria metido naquilo no tempo em que, muito interessado em clubes de strip tease, se tinha tornado amigo de um certo Jack Ruby – o homem que virá a assassinar Oswald, como se sabe –, Ruby que fora criado em Chicago e que só se fora instalar em Dallas por ordem da Mafia.
Meses antes do atentado ao presidente, por acaso, tivera lugar uma reunião mafiosa justamente em Dallas, numa boite chamada Carousel Club.
Um assistente de Jack Warner era até mais explícito: quem assassinou o presidente não fora outro senão Johnny Rosselli em pessoa. Outros testemunhos declararam que sim, que Rosselli andava a constituir uma equipa para esse fim.
Uma mulher que trabalhara com Jack Ruby, veio a declarar ter sido encarregada de transportar Rosselli e outro homem, um atirador especial vindo de Miami, até uma extremidade da Dealey Plaza. Ao aproximar do carro presidencial, o sniper de Miami disparara duas vezes, entregara a espingarda a Rosselli e desaparecera no meio da confusão. Essa mulher levara depois Rosselli para longe da cena do crime.


 Johnny Rosselli viria, anos mais tarde, a gabar-se de ter tido um papel no assassinato de Kennedy, e, fosse por isso, fosse por muitas outras aventuras, Johnny Rosselli desaparece.
Um membro da comissão de assassínios que investigou a morte de Kennedy, Robert Blakey, sustentará a implicação forte da Mafia na morte do presidente, de tal maneira a posição dele a vários títulos se tornara vulnerável a uma intervenção do crime organizado.
E foi a 23 de Abril de 1976 que chamaram Johnny Rosselli a depor no quadro da suspeitada conspiração para matar o presidente Kennedy.
Rosselli não apareceu.
Chamado novamente em Julho continuou ausente.
O Senado ordena então ao FBI uma investigação sobre o desaparecimento de Rosselli. Sem resultado. Nem rasto do homem.
E porque razão, entre tanto gangster mafioso, havia de calhar logo a Rosselli ter de ser ouvido sobre a morte de Kennedy?


Justamente pelo que se disse atrás. Alguém acusou Rosselli de, juntamente com um certo Charles Chuckie Nicoletti, ter disparado sobre o carro do presidente no fatal dia 22 de Novembro de 1963, na Dealey Plaza, em Dallas.
Mas era uma acusação fundada no vazio e sem o mínimo suporte probatório. E baseada nas recordações de um chefe de família mafiosa, Bill Bonanno: quando ocasionalmente detidos na mesma cela por um crime menor, Bonanno lembrava-se de ter conversado com Rosselli sobre o atentado a Kennedy, e lembrava-se de ter ouvido Rosselli gabar-se de também ter disparado em Dallas naquele dia.
E também havia o testemunho de um piloto da CIA, chamado Plumlee. No dia 23 de Novembro de 1963, Plumlee teria ido de avião buscar Rosselli à Florida para o levar a Dallas, a fim de fazer abortar a operação de assassinato do presidente Kennedy. Abortar, isso mesmo. Não seria a primeira vez que uma tentativa de eliminação de Kennedy seria abortada no último momento.
Pois segundo encartados analistas da vida americana, o principal responsável pela morte de Kennedy teria sido o chefe mafioso Carlos Marcello, da Louisiana. Sem contudo essa culpa eximir outros que terão dado uma mãozinha à operação: Johnny Rosselli e Santo Trafficante, entre eles.
Mas será preciso dizer que nesse mês de Novembro de 1963, antes de Dallas, Kennedy visitara outras cidades: Chicago e Tampa – na Florida. E por razões desconhecidas – minhas desconhecidas, pelo menos – os atentados previstos para uma e outra dessas cidades haviam sido abortados no último minuto.
Uma inquirição do Congresso, de 1979, concluíu que os mafiosos tinham os motivos, os meios e a oportunidade para liquidar o presidente, e Marcello, nessa época, passava por ser o mais poderoso dos chefes mafiosos da América.
Stephen Fox, um historiador, nota que se o velho Joe Kennedy não tivesse sempre tão ligado a gangsters e se Bobby não se tivesse encarniçado tanto contra a Mafia, o presidente nunca teria sido assassinado. Em tom grego, invocando o fatum, este ensaísta escreveria que o irmão matou o irmão e que o pai matou os dois filhos. ´
É das tais coisas, pois claro, se o meu avô tivesse rodas era uma camioneta; se o velho Joe não tivesse empenhado a Mafia na eleição do filho talvez o filho nunca tivesse chegado á presidência e nada disto tivesse acontecido e John Kennedy tivesse morrido na cama – se não estivesse ainda vivo.


Com Mafia ou sem Mafia que tivesse acontecido o atentado de Dallas, a verdade é que a morte de Kennedy caiu que nem ginjas aos interesses dos gangsters. Morto o irmão, Bobby suspende as inquirições contra a Mafia e pede a demissão no verão de 64. Para se candidatar ele mesmo à presidência.


 E toda a gente sabe o que aconteceu. Também ele viria a ser assassinado.




sexta-feira, 22 de novembro de 2013

                                 JFK




A conjunção entre um enorme efectivo militar e uma enorme indústria de armamento é nova na experiência americana. A sua influência económica, política e até moral é sentida por cada cidadão, em cada estado, em cada departamento ou gabinete do governo federal. Devemos proteger-nos contra as influências ilegais do complexo industrial-militar. Não podemos deixar que o peso desta combinação ponha em causa as nossas liberdades ou os processos democráticos - discurso de despedida do general Eisenhower do cargo de presidente da República dos Estados Unidos, em Janeiro de 61. E Eisenhower, refira-se, era insuspeito na matéria. Por ser republicano de direita. E por ser general…


Toda a gente se lembra – e parece que há novos dados sobre o caso que ainda não conheço - faz por estes dias, hoje, calha bem, 22 de Novembro, anos, para aí cinquenta, não?, em que de seu o mais famoso assassinato da História, o do presidente John Kennedy, acontecimento que marcou incontornavelmente a moral política do mundo, uma moral que nunca mais foi o que era. E era bom que se falasse disso, e até porque os contornos enigmáticos de tal assassinato continuam – e continuarão, por mais dados novos que apareçam, tenho a certeza - na obscuridade dos segredos de Estado.
A comissão oficial encarregada de investigar, presidida pelo Procurador Geral, Earl Warren, conclui simplesmente que houve três disparos e um único atirador, Lee Harvey Oswald, a partir do 6º andar de um armazém de livros.
A comissão chamada Warren não admitiu a hipótese de conspiração e proferiu o veridicto mais conveniente, quem sabe, à própria estabilidade política da nação – porque às vezes me dá a ideia de que a estabilidade é um dos maiores inimigos da democracia (tanto quanto a instabilidade, às vezes) e porque em nome dela até é permitido atentar contra a democracia, ou seja, contra a verdade. Ou até contra a própria realidade.


No assassinato de John Kennedy – estou a lembrar-se da ópera Der Freyschütz, de Weber – nem faltou uma bala mágica. Que entra pelas costas do presidente num ângulo de 17º, faz uma curva para cima e sai pela parte anterior do pescoço de Kennedy, pára, 1,6 segundos, talvez no ar, vira à direita, vira à esquerda, e de novo à direita, e de novo à esquerda, entra sob a axila de Connally (governador do Texas, que seguia no banco da frente), desce num ângulo de 27º, vai a uma costela do mesmo Connally, sai-lhe pelo lado direito do tórax, vira à direita e volta ao corpo de Connally, desta vez pelo pulso, saindo, voltando atrás, e morrendo na coxa esquerda do governador.
Por fim, cai. A bala. E é encontrada -  intacta! - numa maca do corredor do hospital.
Foi a  bala mais mágica de toda a história das armas de fogo.
Com a teoria da bala mágica, o relatório da Comissão Warren concluiria ter havido um único atirador e três tiros, quando a hipótese mais correcta seria a de quatro tiros e dois atiradores, mínimo.
E se a hipótese de um segundo atirador é válida, juridicamente está-se perante uma conspiração. Ou aliás, duas. Uma para acabar com o presidente,  totalmente coroada de êxito; e outra para encobrir a primeira, e esta sem ter tido um grande êxito.
Mas eram coisas que não convinha nada esclarecer.
Mas alguém filmou parte substancial do atentado. Um tal Abraham Zapruder. Um homem normal. Um homem comum. Que tinha uma máquina de filmar e foi ver passar o presidente, que estava de visita à sua cidade, Dallas.
O homem vê o carro presidencial aproximar-se da objectiva e vê explodir a cabeça de Kennedy.
51 testemunhas afirmam ter ouvido disparos vindos de uma vedação na pequena colina relvada sobranceira, à frente e à direita do automóvel, no exacto momento dos disparos.
26 médicos do Parkland Hospital observaram a cabeça de Kennedy com a parte de trás rebentada para fora. Uma abertura de 7 cm. no lado direito da área occipito-parietal. Grande parte do cérebro de Kennedy tinha desaparecido. Um quarto da parte posterior da cabeça e do respectivo tecido cerebral rebentou. Um bocado do crâneo ficou pendurado pelo couro cabeludo. A abertura da saída da bala tinha um diâmetro de 120 mm. Os médicos civis que examinaram o cadáver sustentaram que o ferimento na garganta de Kennedy era devido à entrada de um projéctil.
O corpo foi ilegalmente levado para Washington para ser autopsiado. E quando se trata de uma questão de Estado – um golpe de Estado, por exemplo - , uma coisa é a autópsia feita por médicos civis e outra é ela ser feita por médicos militares, que, muito normalmente (tal qual Adolph Eichmann), obedecem a ordens e ponto final.


Segundo um estudioso deste caso, o corpo de Kennedy era a melhor prova do que pudesse ter acontecido. Mas o corpo de Kennedy é evidentemente manipulado durante o tempo que medeou entre os disparos e a hora da autópsia, nessa mesma noite.


O avião presidencial sai de Dallas com o acabadinho de empossar presidente Lyndon Johnson, e, sem ter havido ainda a mínima investigação, os passageiros do avião presidencial são informados de que o assassino é um tipo solitário, um louco carente de afectos que procurava a notoriedade.
Pela autópsia dos médicos da Marinha era possível afirmar que oito ferimentos haviam sido provocados por apenas duas balas, três no presidente, cinco no governador Connally, e nessas duas balas se incluía forçosamente a dita bala mágica.


Mas a autópsia militar não foi satisfatoriamente concluída e partes essenciais do corpo por onde tinham transitado as balas não foram dissecadas. Alguém de autoridade disse que ficava assim. Que bastava. Havia generais e almirantes a dirigir os patologistas e outra pessoa de autoridade terá dito que seria aconselhável aquele caso não ser discutido fora da sala de autópsias.


O patologista chefe não faz mais nada e queima os apontamentos que tirara. A razão de Estado! A razão de Estado!
Johnson, o novo presidente, ordena que a limousine presidencial banhada em sangue, cheia de buracos de bala e outras pistas fosse lavada e mandada consertar imediatamente.

O fato do governador Connally é mandado para a lavandaria - ordens  do presidente.
O Departamento de Justiça proíbe o acesso às fotografias da autópsia.
O que restava do cérebro de Kennedy, quando foi requerido por Jim Garrison para um novo exame, tinha desaparecido.
Momentos antes do atentado, alguém dos que esperavam para ver passar o presidente tem um ataque epiléptico providencial. Para quê? Para distrair a polícia. E eventualmente para que os atiradores se coloquem no terreno.
Mas o homem epiléptico desapareceu até hoje e não houve registo da entrada dele no hospital de Dallas.


Conjecturas. Por exemplo, o prédio do depósito de livros de onde alegadamente Lee Oswald disparou, sozinho, estava em obras no pavimento, o que facilitava entradas e saídas de desconhecidos. Uma primeira equipa de atiradores pode ter subido ao 6º andar e ter tomado sossegadamente as suas posições.
Prepara-se a emboscada e, como bem sabe quem esteve numa guerra, antes de mais há que definir a zona de morte.
                        

Uma segunda equipa, possivelmente, como as outras, coordenada por rádio e por alguém em posição para ter uma visão privilegiada sobre a área de fogo, pode ter tomado posições num andar baixo de um edifício designado por Dal-Tex.
Um terceiro grupo de atiradores pode ter sido posto atrás da vedação da pequena colina já antes mencionada.
A triangulação de tiro está assim disposta. Alguém com credenciais dos serviços secretos e de segurança afasta os populares que estão na zona da tal pequena colina relvada.
Até podiam ter alvejado Kennedy na Houston Street. Mas esperam que o carro dê a curva, de modo a ficar enfiado nas linhas de tiro dos três grupos. Elm Street. (Qualquer dia tenho que ir a Dallas.)
O automóvel abranda. Vai a 18 km/hora quando entra na zona de morte. Espera-se a ordem pelo rádio.
O primeiro tiro. Confunde-se com um rater  do escape de um carro. Esse primeiro tiro falha.
Kennedy, que vai a acenar à multidão, suspende o gesto. Ouviu qualquer coisa. Connally, no banco da frente vira-se para a direita.

             

Segundo tiro. Kennedy é atingido na garganta pela frente. Leva as mãos ao pescoço.
           
            
Terceiro tiro: Kennedy é apanhado pelas costas e o corpo flecte para a frente. Connally ainda não foi atingido.
  
                      

O quarto tiro. Falha o presidente. Apanha Connally pelas costas. Connally grita: “Vão matar-nos a todos!”
Outro tiro vai atingir de raspão alguém entre o público.
Sexto tiro. Kennedy é atingido de frente, da cabeça solta-se-lhe uma massa de sangue amarelada. O corpo é impulsionado para trás e para a esquerda. É o tiro fatal. Impossível para uma bala que fosse disparada do 6º andar do armazém de livros.
                    

Tudo se passou em segundos. Seguiu-se a gritaria, o caos geral. Obviamente.
Os atiradores desmontam rapidamente as armas e desaparecem. Apenas uma arma não é desmontada: aquela cuja posse é atribuída a Oswald.


A polícia prende 12 pessoas. Não ficou registo de tais prisões.
     Onde estava e o que fazia a essa hora Lee Harvey Oswald?


Ao meio dia e um quarto, Oswald estava no refeitório do 2º andar do edifício do depósito dos livros. Sozinho.
Mas Lee Oswald era um estranho homem. Devia trabalhar para a CIA – poucas ou nenhumas dúvidas restam sobre isso. Tinha estado nos fuzileiros, onde aprendera russo, calcule-se, russo!, aprendido na marinha americana por um vulgar soldadeco, em tempos da mais acirrada guerra fria e sem ninguém lhe ter perguntado nada.
Mas mais do que isso. Um belo dia deserta para a União Soviética. Trabalha com os russos em radares – quer dizer, aparentemente traiu a sua pátria. E está na União Soviética quando é abatido o famoso avião espião U2. E depois disso regressa aos EUA, trazendo consigo uma mulher, russa. E ninguém o chateia. É visto no verão desse mesmo ano de 63 em New Orleans a distribuir propaganda comunista.
E por acaso calhou bem: o memorandum secreto acerca das actividades de Oswald foi destruído por acidente ao ser fotocopiado.
Mas naquele dia 22 de Novembro de 1963… por volta do meio dia e meia hora, está sozinho a beber uma Coca Cola no refeitório; poderia aguardar uma chamada, um sinal de alguém. E parece que é nessa altura, mais coisa menos coisa, no refeitório, a beber a Coca Cola, que recebe a notícia de que acabam de alvejar o presidente Kennedy.
Três tiros em 5,6 segundos com uma semi-automática Carcano, do mais barato que se podia arranjar no mercado – $12,88 -, com balas em desuso desde 1947 e ainda por cima com a mira telescópica desalinhada: é a façanha que a oficial Comissão Warren atribui a Oswald.
(Uma centena de atiradores especiais do melhor que havia no FBI, com aquela mesma arma, naquele estreitíssumo período de tempo, tentaram mais tarde reproduzir a proeza de Oswald, que não passava de um atirador medianíssimo. Nenhum deles conseguiu.)
Mas os três cartuchos, muito certinhos, lá estavam.
Oswald, para além de dar os seus três tiros certeiros em 5,6 segundos, teria tido tempo para limpar as impressões digitais da arma e ir escondê-la no outro lado do armazém.
Teria tido tempo para descer cinco lanços de escada a correr, passando por duas testemunhas sem que elas o vissem. E aparecer calminho e folgado no 2º andar do prédio, onde é então visto por um polícia. Sozinho. A beber uma Coca Cola. Tudo isto em 90 segundos.
E sai pela porta da frente. Percebe então que não foi ele que matou o presidente – se calhar, ao contrário do que estava combinado. Percebe então que o seu destino na conspiração sempre teria sido o de figurar como bode expiatório. 
Oswald vai a casa. Veste um blusão. Pega no seu revólver e sai. Uma e quatro minutos da tarde. De caminho, não se sabe porquê, mata um polícia, passa por uma sapataria e vai para o cinema.
Mas uma testemunha que vê o assassínio do polícia recusa-se a identifcar Oswald como o assassino.
Apenas um quarto de hora depois do assassinato, a polícia distribui um comunicado com uma descrição que condiz com o aspecto de Oswald.
Oswald meteu-se num cinema e a polícia, bafejada por sobrenatural intuição de que ele estava justamente naquele cinema àquela hora, leva poucos minutos a cercar o cinema e a prendê-lo.
Interrogado na esquadra durante doze horas. Não há registo do interrogatório. As notas do interrogatório foram destruídas pelo próprio agente que o interrogou.
No dia seguinte logo de manhã, Lee Harvey Oswald é formalmente acusado do assassínio do presidente Kennedy.
Quando passa pelos jornalistas, Oswald grita para quem o quer ouvir que não passa de um bode expiatório.


Subornando um guarda, um tal Jack Ruby, proxeneta e próximo da Máfia, entra no edifício da polícia pela porta do cavalo.


Oswald é trazido da cela no meio de polícias. Jack Ruby, destaca-se, pronuncia-lhe o nome (à velha maneira mafiosa) e mata-o a tiro.


Mais tarde a arma de Jack Ruby, entretanto morto, é posta em leilão pelo irmão.
Depois do leilão, o irmão de Ruby diz muito secamente que ninguém morre com uma bala no estômago, que foi o que Ruby fez a Oswald, um tiro na zona do estômago. E na verdade, ninguém hoje morre com uma bala no estômago, mas o certo é que Oswald é dado como morto. E Ruby é preso e promete alto e bom som contar toda a história. Mas acaba por morrer sem nunca a contar.
A verdade oficial, governamental, está criada. O resto é com a imprensa.
O relatório da Comissão Warren sai. Com a tese do assassino louco, carente e solitário.


Mas os 26 volumes da Comissão Warren ficaram incompletos. Houve testemunhas que nunca foram chamadas. Algumas eram capitais e dessas uma morreu de uma queda, outra de ataque cardíaco, outra num quintal quando foi confundida com um veado e lhe deram um tiro.


Provas médicas? A Comissão ignora-as. Não são pedidos os dossiers da CIA e do FBI.
Na verdade, a Comissão Warren parecia manipulada por homens sob as ordens de J. Edgar Hoover, o todo poderoso patrão do FBI.
O director da CIA, Allen Dulles, em vésperas de ser exonerado do cargo por Kennedy, terá sido o homem chave das conclusões da Comissão: Oswald agira sozinho. E os media engoliram a conclusão como boa e não quiseram investigar mais nada por sua conta.
Claro, os media, não sendo governo são parte fundamental do verdadeiro poder. E mexer muito no caso podia deixar a descoberto a realidade das instituições e enfraqueceria a estabilidade política da democracia americana.

                 


E as pistas ajudadas a lançar pela imprensa americana quanto à responsabilidade do atentado passam tanto por Fidel Castro como pelos próprios anti castristas. Passam pelos russos. Passam pela máfia. Cada um deles, e cada uma das pistas, sempre por intermédio de Oswald.


Oswald dava para todos os gostos. Oswald que, por acaso, nunca chegou a ser julgado.


Seguem-se na zona de morte e na linha de tiro Robert Kennedy e Martin Luther King. E tudo leva a crer que os seus assassinos não passaram igualmente de bodes expiatórios.


O povo americano na altura não tinha ainda visto o filme amador do tal Zapruder. O filme tinha sido escondido. O povo americano nunca viu as verdadeiras radiografias e fotografias feitas ao cadáver durante as autópsias. Centenas de documentos referentes ao atentado ficaram retidos ou foram destruídos. Se alguém os exigisse, a resposta das entidades seria: segurança nacional. Mas que rica segurança.
Havia, há, um governo secreto e invisível nos Estados Unidos. E provavelmente noutros estados, ou em qualquer estado evidentemente que mais ou menos unido e com acções proporcionais à importância e dimensão que tem. E seria esse governo secreto dos Estados Unidos quem moveria, moverá, os cordelinhos da realidade política mais incompreensível e muito do lado de lá do que fazem crer as versões oficiais.


Segurança nacional.


A ocorrência de 22 de Novembro de 1963 tem todas as aparências de um golpe de Estado. Afascizado, até, por sinal. Mas o objectivo dele cumpriu-se. Kennedy estaria no momento a conceber uma retirada progressiva das tropas americanas, por enquanto ainda não demasiado engolfadas no problema do Sudeste Asiático.
Depois da morte de Kennedy, Lyndon Johnson inverteu os dados da questão e intensificou a presença militar americana no Vietnam. Porque a guerra é o maior negócio da América – 80 mil milhões de dólares/ano em 1969.
E foi o povo americano que pagou tudo isto. São os povos que pagam sempre destas e doutras – e são os que menos direito têm a saber a verdade do que pagam.
Jim Garrison considerou que o governo americano via o seu povo como um rancho de crianças a quem não podia ser revelada a realidade, para não ficarem perturbadas. Ou para não lincharem pura e simplesmente os responsáveis.
Alguém disse um dia que às vezes é preciso defender um país do seu governo.
Pergunta de Jim Garrison, promotor do Estado da Louisiana que investigou o caso por conta própria: qual o futuro de uma democracia na qual um presidente pode ser assassinado em circunstâncias suspeitas sem que a máquina legal estremeça? Quantos mais assassinatos políticos disfarçados de ataques cardíacos, suicídios, cancros ou overdoses? Quantos mais acidentes de avião ou de automóvel sem se lhes denunciarem as verdadeiras causas?

 (E depois ainda os politicamente correctos e os bem pensantes gozam com as teorias da conspiração.)
E a propósito disto, lembrou-me agora: quem terá de facto mandado assassinar o rei D. Carlos? E o presidente Sidónio Pais? Já para não falar de Sá Carneiro e Amaro da Costa…

                                                         

                                                         
E será que Salazar caiu normalmente de uma cadeira? Quem esteve lá para ver? Alguém pode ter estado. Eu não.                                                           

Salazar? O problema urgente e magno do Ultramar português pode dizer-se que era na altura (1968/69) o nosso Vietnam. E pedia soluções rápidas e incompatíveis com as ideias do velho. E alguém pode ter tentado alguma coisa. Coisa essa que não terá dado o resultado total, mas que, para os nossos brandos costumes, foi suficiente para abrir caminho a uma mudança. Mudança que na substância do problema ultramarino nessa altura não se verificou. Porque só  mudou o governo e não mudou o poder.

             

Porque, vejamos, uma coisa é o governo e quem governa, e outra coisa é o poder, o efectivo poder que só acidentalmente passa pelos governos, do qual poder os governos fazem mais ou menos parte. Os governos limitam-se a administrar o poder – quando muito. E no caso português deu para perceber que Marcelo Caetano, sendo chefe do governo, talvez não fizesse inteiramente parte do poder.
Kennedy era a cabeça do governo institucional americano. Mas se calhar não fazia completamente parte do poder. Do poder de facto. Aliás, Kennedy podia mesmo estar a revelar-se um perigo para o poder.    


(De quem é o poder que governa actualmente aqui na nossa desgraçada parvalheira? Passos Coelho? Cavaco? Tanta mediocridade? Talentos políticos de segunda e terceira categoria? Ora adeus! Brincamos?)
O poder real dos estados não se sujeita a votos nem vota nada. Mas pode decidir quem terá de morrer. (É o que diz uma testemunha do inquérito de Jim Garrison, alta patente militar.) Mais ou menos como na crucificação de Cristo.
E nestes assados não se chamam aos assassinos assassinos, mas sim mecânicos. Profissionais. Homens treinados para não falharem quando chegar a hora e obedecendo sem saberem exactamente a quê e a quem. Nunca ninguém os descobrirá. Não deixam rasto. Não se encontram com ninguém.
É o Estado secreto.
Ninguém tem o direito a saber a verdade. Nem muitos dos que participaram na construção dela.
Há quem afirme que nos tempos que correm só um louco varrido não acredita em conspirações.