terça-feira, 17 de dezembro de 2013

      IL GRAN VEGLIARDO



Para os fins de 1888, um jornal de Milão, com a secreta influência do editor Giulio Ricordi, pretendeu promover grandes homenagens a Verdi por ocasião do cinquentenário da estreia da sua primeira ópera, Oberto, Conte di San Bonifaccio. Mas Verdi protestou a Ricordi o seu total desacordo.
 Entre as tantas coisas inúteis que se fazem nesta vida esta é a mais inútil de todas. E eu, como sabe, detesto a inutilidade. Porque não propõe você um jubileu cinquenta dias depois da minha morte? Já se sabe que bastam três dias para cobrir de esquecimento os homens e as coisas. Lembre-se, meu caro Ricordi, do que dizia o grande poeta… “Céus! Morto há dois meses e ainda não esquecido?” Pois no meu caso, com respeito ao esquecimento, confio nos três dias…


Confiança defraudada. Em Fevereiro de 1893 o Falstaff acaba de estrear com grande estrondo nacional. Vinham longe ainda os dias do esquecimento – vêm longe ainda, hoje, 2013, os dias do esquecimento…
Boito sabia das intenções antigas de Verdi: uma ópera cómica, quiçá tomando como partida uma outra personagem shakespeariana, Falstaff, o safado bonacheirão gozado pelos companheiros de estúrdia e depois humilhado pelo que fora o seu melhor amigo, Henry, entretanto elevado ao trono de Inglaterra, o quarto desse nome.
E uma coisa a reter (entre tantas coisas interessantes que haveria a dizer), a questão prosaica, de novo, os direitos do libreto agora referentes ao Falstaff, as verdianas qualidades de nobreza de carácter e rigor de critério, de novo; uma proposta: terminado o seu trabalho na elaboração do libreto, Você, Boito, vender-me-ia os direitos por uma soma a combinar. E se por acaso, ou por muita idade, ou por muitos achaques, ou por qualquer outro motivo, eu não pudesse acabar o trabalho de composição,Você recuperaria o seu libreto de Falstaff, que eu lhe ofereceria como lembrança e de que Você faria o uso que muito bem entendesse.
As homenagens sucedem-se. Verdi incomoda-se com o interesse, a seu ver excessivo, que as pessoas lhe manifestam. Não pela sua obra. Pela sua pessoa. Fica com a sensação de que o Falstaff não fora bem compreendido pelo público. E aborrecem-no com perguntas. “Então, mestre, qual será a próxima ópera? Certamente o mestre já terá a composição bem adiantada. Será finalmente o Rei Lear?”.
Apetece falar mais da intrínseca humanidade de Verdi do que do herói da cena lírica, do que da grande personalidade musical. E quem diz a humanidade de Verdi diz a fragilidade, os medos, as dúvidas, as incomodidades, e, oh, as incertezas certíssimas da velhice. Ou as debilidades físicas e a agudeza mental daquele que foi o indiscutível campeão da música italiana do seculo XIX, exaltado não wagnerianamente como um deus, mas exaltado precisamente como um alto expoente de homem.
Punha a si mesmo alguma perguntas ingratas. Nunca levara muito a sério a esplêndida ilusão a que é costume chamar de glória artística. Considerava-a uma banalíssima questão de vaidade.


Mas então, porque trabalhara tanto e tão denodadamente toda a sua longa vida?
A sorte, depois dos começos problemáticos, artísticos e pessoais, acabara por bafejá-lo, trouxera-lhe dinheiro, fama, honrarias. Para que serviria tudo isso quando era chegado o tempo da velhice, do fim, das tristezas do declínio?
Não tem herdeiros directos. Sempre se compadecera daqueles a quem a sorte não sorrira como lhe sorrira a ele e que caíram numa velhice desamparada e solitária. Gostaria de lhes aliviar as penas da vida, porque, com o fim à vista, sentia-se muito mais como simples e frágil ser humano do que como grande artista.


Compra um terreno em Milão, perto da Porta Magenta. Chama a si o arquitecto Camillo Boito, irmão de Arrigo, e dá-lhe conta do seu projecto. Não quereria deixar de prestar o auxílio possível a tantos dos que, companheiros de arte de toda a vida, cantores, músicos, coristas, o ajudaram a conquistar fama e proventos. Ideia simples e grandiosa: fazer construir uma casa de repouso para para artistas na cidade que dera fama e fortuna a tantos compositores, instrumentistas e cantores e onde ele próprio e o seu génio haviam levantado voo até as mais gloriosas alturas.    

Este é o Verdi do último tempo, do tempo da decadência física, das maleitas, das nostalgias, das banalidades próprias da velhice – a dele como a de quase todos nós – e também de uma hiper-lúcida indiferença perante elogios e homenagens. Um homem que, por meio da sua música, tinha por vezes tocado as esferas mais rarefeitas da alma humana, mas sempre – e em flagrante contradição com o seu émulo Wagner - com a atitude de um grande artesão, um prático, um profissional que realiza paciente e competentemente o seu trabalho e que chega ao fim da jornada sem desmedidas vaidades nem presunções de transcendência, ciente de que o seu trabalho foi feito, foi reconhecido, foi apreciado, e de que a sua missão na terra foi satisfatoriamente cumprida.


A vocação dele era a que era. O destino dele foi o que foi. Cumpriu-se tudo. Nada de mais. Não poderia ter sido de outra maneira.
E pronto, amigos, chega a hora da doença e da decadência. Que se pague nobre e altivamente o tributo de humanidade e de transitório que a posteridade pode conter, que a memória pode conter, e em algumas pequenas e humaníssimas coisas e pessoas, ressentimentos, gratidões, frustrações, relíquias, afectos, aquilo, enfim, que faz a vida de toda a gente, por notável que tenha sido a sua grandeza.
Poderia até dizer en passant que esta bruta prosa é dedicada aos simples como eu, aos menos musicalmente aristocratas para quem Verdi foi a primeira paixão musical.

                                       

               
                                                                         
                                                            

Também ainda hoje não sei medir como deve ser a importância que o sentimento e o ambiente dramático da música de Verdi tiveram na minha vida pessoal. Nem sou capaz de calcular o quanto Verdi e a música dele me acompanharam em cada passo da minha vida tão real - e sempre mais estúpida sem a companhia dele/dela - em cada amargura, desilusão, ternura; nem sei o quanto ele me ajudou a perspectivar tantos passos do meu próprio quotidiano, em sentimento, em humanidade, em nobreza…
A decadência física de Verdi por aqueles anos finais parece que faz prever tempos também de decadência para o melodrama italiano.

Acabado de estrear o Falstaff, Verdi, como todos os velhos, não vê com optimismo o tempo que lhe vai ser posterior. Não vê com optimismo a vida musical e teatral do seu país. Nada seria seguro doravante. Só o Scala ainda seria governável, mesmo que não se pudesse dizer que de um dia para o outro não fechasse as portas – como de facto fechou, pouco tempo depois, e por um ano inteiro.
E também calha que no ano seguinte ao da estreia do Falstaff o Scala é dado de concessão à empresa do editor Sonzogno. O que significaria, evidentemente, que todas as óperas editadas pela Ricordi seriam banidas do cartaz, incluindo as de Verdi. O que significaria que o Scala de Milão iria passar alguns anos da sua vida sem levar um Verdi à cena, algo que, ainda hoje, é custoso de conceber.
Mais ou menos por essa época, Verdi pede superior autorização para fazer construir duas sepulturas particulares na capela de sua casa em Sant’Agata. E é autorizado. E nunca as chegará a construir.


Ouvindo-lhe a música, pode conjecturar-se que Verdi fora desde sempre um homem afectado por lôbregos pensamentos de morte – ouvindo-lhe a música e sabendo-lhe, já se vê, dos inícios de vida. Desde novo, Verdi muito na morte deve ter meditado, com as mortes familiares em catadupa, irmã, filhos e mulher, e em muito breve espaço de tempo. A música de Verdi é a música de um homem que cedo aprendeu a conviver com a morte e nela profundamente pensou. E só quem pensou profunda e prolongadamente a morte a pode encarar com a naturalidade que lhe permita extrair a estética e conceber a música.


No tempo seguinte ao Falstaff - o último dos seus tempos - Verdi está muito preocupado com a companheira, Giuseppina. Dizia aos amigos que ela não estava propriamente mal, só não comia, só emagrecia a olhos vistos. E em 1896 Giuseppina adoece mesmo.
Mas nos primeiros dias de Janeiro de 1897 é Giuseppina quem entra no quarto do marido e dá com ele na cama, acordado, mas imóvel, de olhos arregalados.
Perdeu a fala. Alarme.
Por sinais, diz que quer escrever. Dão-lhe um pedaço de papel e ele garatuja uma palavra: café.
Servem-lhe café. Bebe abundantemente. E recupera.
Não é a primeira vez que o encontram desfalecido na cama, mas esse facto foi sempre abafado. Verdi não admitia a mínima publicidade aos seus assuntos privados.
O projecto caríssimo à alma de Verdi e que lhe aviventa a velhice é a que em princípio se chamava Casa de Repouso Para Velhos Artistas. Em princípio, porque ele recusa a designação. Os artistas em questão não devem sentir demasiado a desventura de serem velhos e inactivos. Os artistas a receber na casa não serão velhos nem novos. Serão hóspedes de Verdi. E a casa chamar-se-á tão somente Casa de Repouso.
Verdi embrenha-se na construção e até alguns palpites arquitectónicos a Camillo Boito.
Em Outubro de 1897, Verdi declara que apesar dos mil achaques que o afligem não se sente muito doente. Acha-se um bocadinho fraco, só. E já não pode passar muito tempo a ler. E o ouvido começa a ficar-lhe um pouco duro.
Na primavera desse ano de 97 Giuseppina piora. Sofrera uma operação ao estômago e Verdi sentia-se muito triste porque Giuseppina nunca recuperara como devia ser da operação e perdera toda a confiança.
No verão vão a Montecatini.
Giuseppina caminha, curvada, apoiada no braço do marido, alto e direito, ainda, nos seus 84 anos; lúcido de memórias e de ideias, ainda.
 E a Giuseppina sobrevém uma forte bronquite. Tosse convulsivamente. Sente-se debilitada.
Em Novembro Giuseppina vai à cama com febre. Diagnóstico: pneumonia.
Na tarde de 14 desse Novembro de 1897, Giuseppina Strepponi, a companheira de toda a vida de Verdi, morre.


Giuseppina jaz na mesma cama e no mesmo quarto onde, em tantos anos, ouvira o companheiro trabalhar até às tantas da noite no gabinete contíguo, interrompendo-lhe muitas vezes o sono, chamando-a para o pé dele, tocando para ela o que acabara de compor, ouve lá isto, vê se gostas, mas ouve com atenção…
Pode ter-se lembrado das palavras da grande amiga Clara Maffei pr ocasião da morte de um amigo comum: é doloroso o desaparecimento daqueles com quem se trocaram pensamentos, com quem se acalentaram esperanças comuns, trabalhos, vida. É muita a solidão que sentimos em volta de nós.
Sim, Verdi está só. Só e desfeito. Crises de choro, muitas, ao deambular pela casa deserta de Sant’Agata. Padece ainda de mil maleitas, come pouco, dorme pouco, mas está menos mal de saúde. Dá grandes passeios de carruagem e tem quase sempre convivas para jantar. O dia em que a Casa de Repouso estiver pronta será o dia mais feliz da  vida dele.

                                                                           

Em Novembro de 1899 Verdi assina o acto da fundação da Casa e respectivos estatutos. No útimo dia desse ano – e desse século – um decreto régio estabelece a Casa de Repouso como entidade moral e de beneficência.


Arrigo Boito escreve a um amigo: o acto da minha vida de que verdadeiramente me orgulho é a servidão voluntária que dediquei ao homem justo e nobre e realmente grande entre todos os homens.
Sem Giuseppina a seu lado, e como seria previsível, a vida de Verdi perde muito sentido. Sente-se cada dia mais só. Fica muitas vezes acordado noite dentro. Às vezes abre o piano…
Em Sant'Agata, Verdi recorda com crescente nitidez a sua juventude. Chora os filhos perdidos. Outros envelhecem como ele mas têm o consolo dos filhos. E ele está só. E na solidão costuma abrir um precioso cofre com as relíquias familiares mais antigas e mais queridas, os anéis de noivado que trocou com Margherita, uma mecha dos loiros cabelos dela, uma mecha dos cabelos brancos do sogro Antonio Barezzi, mais do que um pai para ele – ricordi della mia povera famiglia…


O novo século vai entrar de rompante.
Nos primeiros meses de 1900 é pedida autorização a Verdi para dar o seu nome ao Conservatório de Milão como devida homenagem ao grande músico – que nunca lá foi aluno. Verdi responde com firmeza. Não pode aceitar. Diz aos amigos: não me quiseram em novo… não me hão-de ter em velho…
Mas o Conservatório acabará por ficar com o nome dele.
Ai amigos… aos oitenta e sete anos estou como Deus quer…
As pernas já não o levam a lado nenhum. Duas vezes por dia vem um massagista. Mas ele sabe que aquelas massagens de pouco ou nada servem. 
1901.
        Todos, incluindo os médicos, dizem que não estou doente, que não estou nada doente… mas a verdade é que tudo me dá uma tremenda canseira. Já não leio. Já não escrevo. Vejo pouco. Ouço mal. Sim, mas o pior ainda são as pernas. Já não me obedecem. E tenho muito medo do frio. Enfim, senhores, deixei de viver. Vegeto. Que diabo ando eu a fazer neste mundo?
No dia 21 de Janeiro, Verdi está instalado na sua suite de hotel em Génova.


Um dia, ao vestir-se, cai de costas. Um ataque. E hemiplegia – o lado direito do corpo não responde.
Debaixo das janelas do hotel de Génova junta-se multidão. Todos querem saber novas do ilustre doente. A notícia da crise de hemiplegia correu por toda a Itália. Há altas personalidades a quererem visitá-lo.
Na rua do hotel chega-se ao ponto de colocar palha no pavimento para que o ruído da circulação das carruagens não incomode o doente.
A 24 de Janeiro, Verdi recebe a extrema unção.
E melhora.


O padre volta no dia 26. É o mesmo padre que assistiu aos últmos momentos de Alessandro Manzoni. E recordará mais tarde os últimos alentos de Verdi: o olhar dele era profundamente expressivo. Não podia falar. Eram os olhos que falavam. Foi o aperto da mão dele que falou. Tive dele um último olhar às 2,50 do dia 27 de Janeiro de 1901.
Chegou a pôr-se a questão: será que Verdi fora alguma vez verdadeiramente um crente? E respondeu-se que Verdi acreditava em Deus, sim, e na fé cristã, sim, mas… quanto à religião católica propriamente dita, era de ficar na dúvida…
Afirmaram alguns que entre 1886 e 1890 (já bem envelhecido, portanto), ao criar as suas Quattro Pezzi Sacri, chegara a frequentar em Génova a loja maçónica da Via Davide Chiossone.
Também se disse que ao ler uma História dos papas não morreu de admiração pela maior parte deles. Pode compreender-se: sempre movido por sentimentos patrióticos, pretenderia Verdi salientar o quanto o papismo fora nocivo à nação italiana – um tema, de resto, já com ressaibos maçónicos, e já que a maçonaria apregoava isso mesmo, que o Vaticano era o pior inimigo de Itália.


E no entanto era amigo de padres. E no entanto, Verdi, já velho, quando estava em Génova, entrava algumas vezes na Igreja da Anunciada e aí meditava por momentos. Os mais próximos diziam que o sentimento religioso lhe fora instilado por Giuseppina.
Lembrei-me agora do filme de Bernardo Bertolucci que deu brado em Portugal pouco depois do 25 de Abril. 1900 (Novecento). Na sequência de abertura via-se, primeiro, uma festa campestre  e logo a seguir o plano abria num panorâmica muito larga sobre a planície. Lá muito ao fundo enxergava-se uma pequena figura que corria. Corria, corria, corria na direcção da objectiva. (Estou a escrever de memória.) E alternavam-se os planos de festa de aldeia com o plano distante da figurinha que no meio dos trigais se ia aproximando. Até que a figura, realmente muito pequena, chega ao terreiro da festa, ofegante, a soluçar. É um anão corcunda, mascarado de Rigoletto. O anão manda calar a festa, a música pára, os presentes suspendem as danças e o corcunda desata a gritar, em pranto: È morto Giuseppe Verdi! É morto Giuseppe Verdi!
Com essa sequência quereria Bertolucci dizer que o século XIX italiano terminava, em termos sentimentais, em termos morais, digamos, com o desparecimento de uma figura maior, muito popular e muito querida da vida italiana.
A morte de Verdi marcaria, para os italianos, a saída de um tempo e a entrada noutro, a charneira entre um mundo a desaparecer e já saudoso e as incógnitas de um próximo e incerto século, um próximo e incerto mundo.


Verdi crente. Verdi ateu. De qualquer das maneiras, é a de  um livre pensador e de um homem visceralmente moral e íntegro a silhueta que dele ficava. Era a rectidão, o espírito de justiça e a inquebrantável vontade de acudir aos seus semelhantes que dele ficava, no apoio a tantas obras caridosas, e sabendo-se que antes de toda a fé e de toda a prática, para ele a religião era um princípio de ordem moral no mundo.


O Scala de Milão fecha as portas em luto pelo mestre.
O povo reclama o direito de ver pela última vez aquele a que chamavam il gran vegliardo – o grande velho.
Que os meus funerais sejam modestíssimos e se realizem ao despontar do dia, ou à hora das ave-marias, sem cânticos nem qualquer espécie de música. Bastarão dois padres, dois candelabros e uma cruz.


Às 6,30 da manhã do dia 30 de Janeiro – por acaso, segundo as crónicas, uma manhã enevoada – sai o carro fúnebre. No cemitério não há discursos. O caixão é rapidamente descido e às 8,30 a terra cobre os restos mortais de Verdi.

O Senado e a Câmara dos Deputados de Itália aprovam um decreto: os restos de Giuseppe e Giuseppina Verdi serão trasladados do Cemitério Monumental de Milão para a cripta da Casa de Repouso, e a  casa onde Verdi nasceu, em Roncole, é declarada monumento nacional.
No dia 1 de Fevereiro, o Scala abre portas para um acto solene de homenagem.
Cantam Tamagno, Caruso, Borgatti, a Carelli e o Magini-Coletti. Toscanini dirige a orquestra.


A 27 de Fevereiro, uma multidão estimada em 300.000 pessoas de todos os extractos sociais, incluindo um príncipe real, acompanha a última viagem de Verdi, do Cemitério Monumental de Milão para a Casa de Repouso. A certo ponto do percurso, sobre uma enorme escadaria, 800 músicos e cantores executam o célebre coro Va pensiero sull’alli dorate…


  Deixo aos asilos centrais de Génova a quantia de 200.000 liras. Deixo o albergue dos surdo-mudos de Génova a quantia de 10.000 liras. 


Deixo ao hospital dos raquíticos de Génova a quantia de 10.000 liras. 


Deixo a Guerrino Balestrieri, que há muitos anos está ao meu serviço, a quantia de 10.000 liras. 


Deixo aos empregados domésticos que estão a meu serviço há mais de dez anos a quantia de 4.000 liras a cada um, e aos outros a quantia de 1.000 liras a cada um.


 Deixo…







  

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

           NOS BRAÇOS DA VERDADEIRA CARMEN

 

E então, de forma triste e injusta, coitado, o grande pianista Arthur Rubinstein viu-se desprezado pela amante, a famosa contralto Gabriella Besanzoni. E ainda por cima levando o labéu de maricas. E tudo por mor de ajudar um (célebre) amigo em hora de aflição.

                                                                             

Mas disso trataremos depois, um dia destes…
       Por agora, vejamos como tudo começou – e continuou – no romance entre o célebre pianista – aliás, na altura ainda não tão célebre – e a já célebre cantora: ou seja, entre o pequeno, feioso e delicado Arthur e a poderosa, imponente, opulenta e capitosa Gabriella, mulheraça ardentemente cobiçada pelos homens com quem se cruzava, uma das grandes carmens do seu tempo, tempo esse que são os primeiros decénios do século XX.  
Segundo o afamado tenor Lauri Volpi, a Bezanzoni era  a última grande e verdadeira contralto do canto italiano; segundo o poeta D’Annunzio era da Bensanzoni a verdadeira voz do Arcanjo Gabriel.


E sim, claro que ela e o pequeno Arthur pareciam desajustados. Assim à primeira vista, pelo menos. Mas as coisas são como são e foram assim mesmo como eu vou contar – ou melhor: como as contou em memórias o próprio Arthur Rubinstein.
Uma bela noite, no Teatro Real de Madrid, mais ou menos  por volta de 1916, 1917, ribombava ainda pela Europa a I Guerra Mundial, tinha Arthur Rubinstein 30 anos e cantava-se a Carmen.
A grande sensação era a protagonista. Para Rubinstein era ela a maior Carmen que ouviu  em toda a sua vida. Um registo grave – é ele que a descreve – que pedia meças ao barítono mais pintado, registo ao qual correspondia uma estonteante facilidade nos agudos. E depois, a composição da personagem. Uma selvejaria, uma sensualidade animal que deixava um homem confuso. Não era o que se dissesse uma beleza – opina Rubinstein -, não,  parece que não era. Era só a encarnação ideal de um certo tipo fatal de mulher. A Carmen.


No final daquelas récitas do Teatro Real de Madrid, como se costuma dizer, vinha a casa abaixo com aplausos.
E agora entra aqui o Faustino da Rosa.  Quem diacho era esse? 
Pois o Faustino da Rosa era um empresário. Talvez argentino, talvez uruguaio, talvez mexicano - quem sabe se mesmo espanhol. Um empresário de espectáculos que estava em Madrid com o fito de contratar artistas para a temporada do Colón de Buenos Aires. Entre esses artistas estavam Rubinstein e a Besanzoni.
Faustino da Rosa costumava tomar café a seguir ao almoço no bar do Palace de Madrid com a Gabriella Besanzoni e com outra senhora. Uma vez, Rubinstein aproximou-se.  Queria trocar impressões com o empresário e, já agora, protestar as suas homenagens à grande contralto.
Aproximou-se da mesa e esperou do Faustino da Rosa as respectivas apresentações. Mas o Faustino, ao vê-lo, levanta-se, pede desculpa às senhoras e atende-o à parte, sem o deixar aproximar-se da mesa.
O que Faustino da Rosa não pôde impedir foi que a Besanzoni lançasse alguns olhares prometedores àquele pequeno e delicadíssimo pianista.
E então, uma noite…


Sim, uma noite, num corredor deserto do Palace Hotel, Arthur Rubinstein  vê a majestosa Besanzoni caminhar direita a ele. E cora de excitação – é ele quem o diz. Ao passarem um pelo outro, quando Rubinstein, todo mesuras, ia a fazer um salamaleque para se apresentar e cumprimen… zás! A Bensanzoni pára de repente,  agarra-o pela cabeça, e pespega-lhe um beijão  na boca com violência tão inaudita que Rubinstein sentia o sangue fugir-lhe dos lábios.
E isto sem trocarem uma palavra.
Era carnaval.


Quando recuperou, Arthur Rubinstein não achou proposta melhor para fazer àquela calmeirona que o beijava assim sem mais nem ontem do que convidá-la para a carruagem dele e descerem juntos a Castellana durante uma batalha de flores. A Besanzoni bateu literalmente as palmas de contente e aceitou.
E assim foi. Batalharam os dois entre flores, e, furtivamente, de caminho, trocaram uns poucos de beijos arrebatados.
E depois regressaram ao hotel.
“Olha, querido… e se fossemos os dois ali para o meu quarto descansar um bocadinho ? Que tal, an? “
Era o mesmo que perguntar a um cego se queria vista.
E três horas depois… deixemo-lo falar, ainda está ofegante…
“Ui, amigos, três horas depois, saí do quarto dela, cansado, mas exuberante e feliz. E orgulhoso da aventura. Tinha tido nos meus braços a verdadeira Carmen."
Bom,  julgava Rubinstein que aquilo não tinha passado de uma cena sensual, um improviso passageiro e sem consequências. E estava muito enganado. Gabriella passou a comportar-se com ele como se comportam as mulheres apaixonadas.
Um dia,  Gabriella confessa-se: tem um affaire com o tal empresário, o tal Faustino da Rosa.
“Tem que ser, filho.”
“Tem que ser? Ora essa! Mas tem que ser porquê?”
“Não vês tu que é preciso acautelar a carreira?”
“Ah. Sim. “
Passa a a chamar a Rubinstein Tutullo, pet name  que Rubinstein detesta.
“Ma ti giuro, Tutullo, que ando com ele só por causa da minha carreira…. ah, noi… povere donne…”
Gabriella partiria dentro de dias para a Argentina para cumprir um contrato para o Faustino no Teatro Colón de Buenos Aires, e Rubinstein, também contratado para o mesmo teatro,  ainda tinha uns concertos para dar em Valência e Barcelona antes de partir.
Gabriella estava em lágrimas.
“Deixa lá, mulher… não chore isso… muito em breve, vais ver, lá estarei, a tocar para ti e tu a cantares para mim e então é que será a felicidade completa.”
Mas Gabriella atrasa a partida por causa dele.
Aparece-lhe de surpresa em Valência. Quer fazer a viagem com ele. Mas o Faustino  já andava desconfiado. E eles podiam-se prejudicar.
E ela lá vai para a Argentina sozinha, como sempre, lavada em lágrimas.
O Faustino anda tão desconfiado do esquema que adia a estreia da Besanzoni no Colón.
    “Mas eu mesmo assim amo-te hoje mais do que nunca, meu queridoTutullo!”
Naquela época, as viagens eram longas e cansativas. Uma tournée de concertos podia ser uma verdadeira aventura. Estávamos, vamos lá a ver, numa guerra mundial.
E depois do reencontro em Buenos Aires e dos concertos,  o pianista  parte para o Brasil,  e a Besanzoni fica por um tempo fora da cena de Rubinstein.


Rubinstein apaixona-se pelo Rio de Janeiro,  e depois de uma série de sucessos estrondosos e aventuras interessantes no Brasil, vai procurar vida em Cuba. Tem contratos para Havana. Mete-se num barco. Passa pelo Chile. Está em Valparaíso. Recebe um telefonema. Gabriella está agora no Rio de Janeiro a cantar. Mas apanhou a gripe espanhola, epidemia então muito em moda. Sente-se só e sonha com o regresso a Itália para o pé da mãe. Feliz e eterno amor para ti, meu querido Tutullo.
Daí a dias um telegrama. Completamente restabelecida da gripe, vou ter contigo ao Panamá. Gabriella.
Rubinstein não tem a mínima intenção de se casar com a  Besanzoni,  é claro. E pela-se de medo só de pensar que a intenção dela seja mesmo essa.
Arranjar naqueles tempos uma passagem de barco era uma complicação dos diabos. Grande parte dos navios estavam afectados ao transporte de tropas. Mas Rubinstein e Gabriella reencontram-se no Panamá.
         “Tutu, Tutullo, Tutullino!” -  berra Gabriella.
E vão, saltitantes, até ao hotel, danadinhos para a brincadeira e para matar saudades.
Sobem.
Rubinstein acompanha a senhora ao quarto dela.
E entra com ela. Fecham a porta. No momento em que fecham a porta ouvem uma voz muito áspera em espanhol:
        “O cavalheiro deve deixar imediatamente o aposento da senhora e dirigir-se ao seu próprio quarto. “
Mas que era aquilo? Abrem a porta. No corredor está um militar de má catadura. Gabriella e Rubinstein, após uma tão longa separação, estavam naturalmente com a água na boca para se encontrarem a sós e ficam estarrecidos com a moralidade dos hoteis panameanos.
“Ma come? Sono matti questi qui?”  -  grita  Gabriella. -
“Esta gente está toda doida, ou quê? Desde quando é permitido impedir que um homem e uma mulher sejam felizes?”
E ficam condenados a verem-se às refeições, ou nos corredores do hotel. Nunca num quarto com uma cama.

                                  

Rubinstein vai ter com o governador.
O governador, depois de estudar minuciosamente o estranho passaporte espanhol de um judeu polaco em tempo de guerra, e depois de várias peripécias lá lhes arranja passagens para Havana num barco da Grace Fruit Company, com escala na Colômbia e em Nova Orleães.
Passam as passas do Algarve nesse pequeno barco. Gabriella, exuberante mulher de beleza latina, era a única mulher a bordo e muito assediada por passageiros solitários e pelos próprios marinheiros.
O barco tinha poucas cabines e foi o cabo dos trabalhos para se alojarem, Rubinstein e o seu criado pessoal numa única cabine, e Gabriella, sozinha, noutra, cedida pelo médico de bordo.
Um calor de morrer, cachos e cachos de bananas e respectivos parasitas por  todos os lados. E de manhã à noite os olhos famélicos dos homens da tripulação sobre o corpo dela. E Rubinstein sem saber como protegê-la.
E lá foram. Que remédio…
Problemas em Nova Orleães com o famoso passaporte espanhol de um judeu polaco em plena guerra, judeu polaco que os americanos tomaram por um espião russo. O cabo dos trabalhos, mais uma vez.
Mas  lá chegaram a Havana.


Contratos. Concertos. Récitas de ópera. Negócios com o famoso empresário das américas António Bracale.
A Besanzoni fica apalavrada para uma Aída, e logo ao lado de Caruso.  E quando Rubinstein, ao cabo de  semanas de viagens e aventuras, sem estudar, vai a pôr as mãos num piano para começar a cumprir os seus contratos, os dedos não lhe obedecem e ele fica hirto de pânico. Tem que praticar horas e horas todos os dias, o que deixa Gabriella fula porque aquilo são horas roubadas ao amor.
Chopin e música espanhola fazem a glória de Rubinstein em Cuba. A Aída, com Caruso, é um triunfo para a Besanzoni.


Mas rebenta uma bernarda no teatro na noite de estreia. Caruso ia ganhar $1.000. Em Cuba a miséria é muita. Revolta. Na cena do triunfo alguém faz estoirar um petardo.
Caruso não faz mais nada e foge do teatro mesmo vestido de Radamés. Põe os pés ao caminho e vai para o hotel.
Há outras versões a dizer que o celebérrimo Caruso foi preso, apanhado na rua vestido à egípcia, de saias, a cara empoada para o palco, os lábios pintados. E que o levaram para a esquadra por atentado à moral e mariquice pública - é o que conta o romancista cubano Alejo Carpentier.


E acrescente-se que os empresários do teatro de Havana, tomados de pavor porque Caruso era a maior celebridade artistica da época e eles não sabiam dele, e que se ele desaparecesse seria o maior dos escândalos, um escândalo mundial e o maior dos prejuízos para o país,  correram toda a cidade antes de darem com ele na esquadra, todo contente, a fumar um charuto e a cavaquear com os guardas.
Rubinstein vai para a América. E volta a separar-se da Besanzoni. Mas recomenda-a a um certo baixo peruano da companhia de ópera,  ele que tomasse conta dela e que a ajudasse no que fosse preciso.
Rubinstein faz um grande sucesso na América, obviamente. E passado tempos recebe uma carta enviada de Cienfuegos. Cuba.
 Lembras-te, Tutullo, do baixo peruano a quem tu pediste para tomar conta de mim? Pois assim que tu viraste costas começou o malandro com os avanços e as propostas nojentas, numa linguagem do mais obsceno que tu, Tutullo, possas imaginar. Deixei de lhe falar. Enxotei-o e escorracei-o conforme pude, mas o quê, ele… oh, rai’s partissem o homem que parece que tem o diabo no corpo. Tornou-se violento. Quis-me arrombar  a porta do quarto aos berros e aos palavrões, uma coisa que só vista. Até ao dia em que puxou de uma navalha para mim. Estou mortinha de medo, Tutullo. Tu é que me podes valer. Pede aí ao embaixador de Cuba que faça qualquer coisa. O raio do homem está maluco, é doido varrido…
Bom judeu, Rubinstein culpa-se amargamente a si próprio de ter tido aquela maldita ideia de pôr o peruano a tomar conta da moça…
O consulado de Cuba em Nova York. Contacto com a polícia de Cienfuegos. O peruano era de facto um elemento perigoso. Atacara a própria polícia. Jurava a pés juntos que havia de matar a Besanzoni. Foi preso. Gabriella escreve a Rubinstein outra carta em lágrimas. Mas agora toda ela era gratidão e felicidade.
Entretanto a I Guerra Mundial acabava.
Rubinstein está hospedado no Biltmore Hotel, cujo pessoal já tinha dado provas de puritanismo considerável naquela questão de estarem homem e mulher metidos no mesmo quarto. De maneira que, quando Gabriella telegrafa de Cuba a dizer que vai ter com o seu Tutullo a Nova York, Rubinstein fica apreensivo. Lembra-se dos dias horríveis de jejum que tinham passado no Panamá por causa do puritanismo dos militares.
Toda a Nova York estava possessa da euforia de vitória.
                                                                                               
Gabriella chega a Nova York e, por causa das moscas, Tutullo reserva-lhe aposentos no 1º andar do hotel – estando ele aposentado no 12º. E tem que lhe explicar porquê.  Gabriella ouve-o e diz entre dentes:
“America non mi piace.”


A presença da Besanzoni em Nova York faz logo movimentar o mundo da ópera. Rubinstein faz as vezes de agente da Besanzoni  nas negociações com  Gatti Casazza, o todo-poderoso manager do Met, e descobre que até gosta daquilo. Sim, daquilo de ser empresário.
A Besanzoni não quer assinar contrato algum que não inclua a Carmen no repertório - tinha um repertório curto.  Mas o Met tinha uma estrela intocável que era a Carmen ajuramentada da casa, uma espécie de proprietária daquele papel,  Geraldine Farrar.
E discos! Discos era o que estava a dar, ou iria dar dentro em breve…
Como digo, metido a agente de Gabriella, Rubinstein vai-se entender com o patrão da RCA Victor. Eles estavam interessados em ter a Besanzoni na lista de artistas em que figurava Caruso.
     “E ouça lá… ela sabe alguma coisa de gravação de discos?”
   “Parece-me bem que não” – responde Rubinstein.
“Temos que ensiná-la.”
       “Muito bem. Mas vamos lá ao que interessa” – começa Rubinstein armado em duro. – Qual é a vossa oferta?”
          “Que é que você quer dizer com isso de oferta? Ela leva 10% das vendas, como os outros, e é um pau. E não diga que vai daqui…”
          “Nem pensar nisso é bom” – replica Rubinstein no papel de  difícil negociador.
      “Pois olhe, amigo Arthur, pode apostar a sua vida em como ela aceita e torna a aceitar. E ainda lhe digo mais: se você, amigo Arthur, conseguir que ela venha trabalhar connosco ainda lhe damos a si uma abébia… duas ou três peçazitas lá do piano de lambugem para você gravar… e não seria nada mau para a sua carreira…”
    “Não, não vou nisso. Vocês que negoceiem directamente com madame Besanzoni… eu cá por mim… o quê? Tenham juízo. O som do piano nas vossas máquinas fica parecido com um banjo…”
E a Besanzoni, de facto, ainda lhe dá uma descasca por ele não ter aceite os 10% logo à cabeça.
      E foi o fim da carreira de Rubinstein como empresário.
Cidade do México. 1920.


Revoluções. Guerra civil.
      
                     

 Átrio do Hotel Vitória. Rubinstein está sentado à espera de Gabriella.
Gabriella chega. Novidades. O empresário faliu. Tita Ruffo, o barítono, o divo máximo da companhia, tinha-lhe roído a corda. Pode ser que um consórcio bancário lhe valha.
Rubinstein estava de concertos marcados, mas nada com respeito a publicidade, o empresário estava sem cheta.
Ainda assim, o primeiro concerto de Rubinstein realiza-se. Na sala, o público não chegava a cem pessoas. Era quando Rubinstein tocava melhor. Quanto menos gente quanto mais ele tocava bem. Aqueles que ali estavam eram a elite de uma casa cheia.
Foi-se a ver, e o empresário da temporada de ópera e concertos era um empresário de touradas que não percebia népia de música clássica.
Afastado esse empresário, os novos responsáveis pelo teatro garantem a Rubinstein dois meses seguidos de concertos, com 85% de lucros de bilheteira para ele.
         “Como? 85%? “ 
Rubinstein desconfiou da fartura. Os novos empresários ainda por cima se responsabilizavam pela publicidade. Como era? E onde ia ele desencantar repertório para dois meses de concertos?


         “Ouça lá, ó amigo, eu não sou nenhum show-man!” 
        “Esteja descansado, sr. Arthur, o público daqui quando gosta de um artista, oh, meu amigo…”
        “Mas ouça, eu só tive cem pessoas no outro dia…”
        “Essas cem pessoas vão transformar-se em milhares se você tocar à terça, à quinta, ao sábado e ao domingo à matinée.”
E foi mesmo verdade. 26 concertos para casas esgotadas, incluindo cinemas nos arredores da Cidade do México. Por cada peça que repetia, Rubinstein dizia à assistência:
         “E agora, a pedido do público!”
E assim  o repertório já lhe chegava e sobrava.
Gabriella triunfava na Carmen, evidentemente. Mandavam-lhe flores e perseguiam-na nas ruas. A Rubinstein chegam a levá-lo em triunfo do teatro ao hotel.
E entretanto, a guerra civil. Os bancos começavam a ser atacados por guardas disfarçados de bandidos e agindo às ordens do ditador Venustiano Carranza. Havia generais de vinte anos. Toda a gente andava armada de revólveres. Nos bares e restaurantes mais finos chegava-se a fazer tiro ao alvo aos lustres e candeeiros. Os artistas eram pagos em barras de ouro que amontoavam em pilhas nos quartos de hotel.


Um dia, Gabriella põe os pés à parede e declarou que nessa noite não cantava. Não cantava, não cantava e não cantava. Queixava-se de uma intriga que corria no teatro contra ela. Rubinstein tenta chamá-la à razão.
      “Também você está contra mim?  Toda a gente está  contra mim.”
Do teatro chegam os avisos. A senhora conhece as nossas leis. A senhora Besanzoni vai cantar esta noite quer queira quer não.


A Besanzoni faz ouvidos de mercador.
       “Está bem abelha, o meu público há-de defender-me, e ai de alguém que tente fazer-me mal. Pode cair morto no momento - Gabriella vai, atira-se para cima da cama e declara: “Estou doente, não posso cantar.”
Aparece o médico do teatro. Declara sob palavra de honra: Madame Besanzoni está de perfeita saúde.
Arthur aconselha-a a vestir-se e a pôr-se a andar para o teatro. Gabriella trata-o como um traidor. Aparecem dois polícias no quarto,  
         “Vamos embora, Madame, toca a vestir e toca a andar à
nossa frente para o teatro, já. Se não obedecer vai dentro.”
Bom, Gabriella lá se foi vestindo. A resmungar. Quando fica pronta vira-se para o amante e diz:  
         “Arturo, se eles me tentarem matar, tens que me  defender.”
E lá vai ela.
Arthur também se vai arranjar, também vai para o teatro. Senta-se numa frisa e assiste ao espectáculo. Tudo corre à maravilha. Até à entrada de Carmen.
Quando Carmen aparece, qual não é o espanto  de Rubinstein ao ver a Besanzoni entrar em cena com a roupa da rua, de chapelinho e tudo. O pandemónio. O público desata a gritar. Antes de atacar a Habanera, a Besanzoni  levanta as mãos, manda calar o público…
A Bensanzoni fala. Metade em italiano, metade em espanhol. Acusações contra as leis mexicanas, contra a injustiça e contra o cruel sadismo da direcção do teatro. Mas voz dela depressa é silenciada pela vozearia do pagode. Os mesmos dois polícias que a tinham arrastado do hotel para o teatro entram em cena  e voltam a arrastá-la, desta vez para fora do palco. Rubinstein sentado na sua frisa todo ele são suores frios. Corre para os bastidores. Confusão.
Gabriella estava desfeita, em  estado de choque, meio desmaiada.
Mas de súbito levanta-se e começa a vestir-se de Carmen.
Regressa à cena.
Ataca a Habanera. O público perdoa-lhe tudo e a Besanzoni averba um triunfo.


  No fim da récita Rubinstein está cheio de fraqueza. Tinha passado todo o santo dia quase sem comer nada devido aos caprichos e conflitos da sua Carmen, a verdadeira Carmen. Alguns amigos convidam-nos para uma ceia. Mas qual quê… Gabriella não admite cá ceias.
       “Agora, Arturo vamos a todos os jornais da Cidade do México contar a verdadeira história desta noite.”
E isto foram facadas para o estômago esfomeado do Arturo.
Meteram-se num táxi e correram os jornais da cidade – que se estiveram efectivamente nas tintas para os problemas de uma diva italiana no meio de uma guerra civil. Eram quatro da matina quando entraram num restaurante para jantar.
A comida era bastante boa. Havia uma salada especialmente gostosa. A  Besanzoni pede a receita para levar para a mãe.  
          “Como é que vocês cozinham isto?”
Os mexicanos disseram como era, e também disseram que aquele gostinho tão bom era dado por uns vermes que lhe deitavam e que se chamavam gusanos. A Besanzoni ouve isto e desata num berreiro a chamar assassinos aos cozinheiros.
No quarto do hotel não parou de vomitar até alta manhã. Com Rubinstein a amparar-lhe a cabeça e sem achar tempo para preparar como devia os seus próprios programas de concerto.
E pronto. Rubinstein parte de novo para a América. E depois para Londres. E depois para Espanha. A Bensanzoni fica no México para umas récitas ao lado de Caruso, oportunidade que não queria perder nem por nada desta vida.
Depois decorre um longo silêncio entre os dois.
Até que se encontram em Nova York.
Abraços e beijos. Gabriella acaba de se estrear no Met. E também no Met encontrara um ambiente hostil, uma cabala contra ela. A culpada era a contralto alemã (aliás, húngara) Margaret Matzenauer,
          “Arturo, aquilo é a criatura mais venenosa que existe ao cimo da terra" - chegada ao Met da Besanzoni não era boa coisa para a carreira da Matzenauer. - "Chegou a pôr a correr, calcula tu, Arturo, que o meu sucesso na América do Sul com a Carmen era falso e nem era por causa da minha voz nem da minha maneira de cantar… era por causa dos gestos indecentes que eu fazia para o público e que excitavam muito os homens, calcula tu, Tutullo…”
Caruso era o maior amigo, o único com que podia contar naquele malvado teatro de Nova York.
Estreara-se na Aída. Mas a Matzenauer tinha pago à claque para patear a grande Besanzoni. Caruso ficara indignado. O director, Gatti Casazza, disse que o público do Met a apreciava muito. Mas nada de lhe renovar o contrato. E em casa, a mãe da Besanzoni, em vez de a confortar passava o dia a gritar vingança!, vingança!
Quando Gabriella volta para Itália, Rubinstein sente que recuperou por fim a sua total liberdade de movimentos e que com toda a tranquilidade poderia agora, em Nova York, dedicar-se à sua própria carreira.
E Rubinstein volta ao Brasil. E passa pelo Uruguai, por Buenos Aires. E depois, Paris.
Paris, onde um belo dia recebe carta da Besanzoni a dizer que chegaria em breve para ver as vistas. Paris onde se dará o desagradável quiproquo que contarei um dia destes e devido ao qual terminaram, ingloriamente, as relações entre o grande pianista e a grande contralto, e pelo qual o grande pianista, por uma questão de moral pessoal, fica com fama de invertido só porque correu a ajudar um amigo numa noite de aflição.
Bom, pelo menos é o que o próprio Rubinstein conta. Se quanto a esse particular alguma coisa havia por detrás, já não sei. Nunca me constou nada que desabonasse a virilidade de Rubinstein.
E aquilo também, na volta, foi um pretexto que a Besanzoni arranjou para o pôr com dono. Talvez já tivesse arranjado outro. Se calhar o brasileiro riquíssimo dos navios mercantes com quem veio a casar.
Mas, assim como assim, e não obstante ter pago por isso o seu preço - como sempre acontece nestas coisas -  Rubinstein também tinha passado os seus bons bocados nos braços da verdadeira Carmen.