sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

               DE MAL COM OS MERCADOS
                      POR MOR DO DIREITO
               

      Ou parafraseando os tempos e os modos quando o dilema nacional atingir o gravíssimo: de mal com a democracia por mor dos credores; de mal com os credores por mor da democracia. Ou vice-versa, tanto faz, como dizia o outro no dilema da escolha entre os homens e El-Rey.

    
      Pode pensar-se num quadro hamleteano, porque não? Como pode pensar-se numa cena de tragédia grega – e quando os gregos também navegam por águas semelhantes.


         A ser verdade o que dizem, o trágico conflito português já se desencadeou há muito. A tragédia da viabilidade. A tragédia da existência. Tragédia aprofundada pelas exigências dos credores internacionais e dos mercados representados pelos três implacáveis anjos da visitação (troika).


         Um conflito trágico igual a um conflito identitário. Portugal é Portugal, e existe mais ou menos, desde que alguém estrangeirado lhe queira emprestar dinheiro para existir.
Contraindo dívidas, Portugal vai existindo mais, porque melhor paramentado de símbolos de modernidade e de prosperidade.
Não contraindo dívidas, Portugal existirá menos, porque cada vez mais desataviado dos ditos símbolos e remetido aos orgulhos de uma solidão neo-salazarista, modestinho, pobretanas, cinzentinho, tristonho, sombrio, pacífico, temente a Deus, oprimido. Mas honrado.
E por três (ou quatro?) vezes o cutelo jurídico do Constitucional se abate sobre o ambicioso sonho de um Portugal disposto a pagar as suas dívidas, desenxovalhado, nas vias do desenvolvimento económico, moderno, próspero e promissor, consumista. Cá está a quadratura impossível do círculo de fogo para o meio do qual Portugal foi atirado pelo brilhantismo, pela ambição e pela equívoca honestidade financeira dos seus governantes democraticamente eleitos.
De mal com os credores por mor da democracia; de mal com a democracia por mor dos credores.
Se for verdade o que dizem, a solvência nacional só será efectiva à custa do rasgar das normas que fazem de Portugal um país democrático, um Estado de Direito. E normas essas que não são mais do que pontos cardeais de dignidade e honradez moral.
A confiança! A confiança dos homens no ser e no existir das instituições.
Os mercados financeiros sustentam-nos desde que Portugal se lhes prosterne aos pés, e lhes pague os juros que eles impõem, e nem que esse pagar lhe custe os olhos da cara e a condição de ser e existir. Nem que seja preciso desprezar os seus velhos (idosos), os seus trabalhadores, os seus homens e as suas mulheres, justamente os agentes que realizam o que chamamos Portugal, aqueles que não têm alternativa senão confiar naquilo a que chamam Portugal e em tudo o que sejam normas de ser e de existir daquilo a que chamam Estado de Direito.


E o governo ficará de mal com os homens, com o seu povo, por mor dos interesses dos mercados e dos credores internacionais; e o governo ficará de mal com os interesses dos mercados e dos credores internacionais por mor dos seus homens, do seu povo. O círculo irremediável de fogo. E sendo que nesta tragédia nacional moderna a moral dos homens aparece figurada nos juízes do Constitucional, e os interesses dos credores são representados pelas misericordiosas senhoras visitadoras da troika.
A ser verdade o que dizem, e a cumprir-se o exigido pelas instâncias internacionais do crédito, já ninguém poderá confiar nem a primeira camisa que vestiu ao Estado de Direito, porque o Estado de Direito se apropriou dos sacrifícios que os homens lhe confiaram de empréstimo, fê-los render na promessa de os devolver, majorados, a quem lhe confiou esses sacrifícios, e quando chegou a hora de os devolver fez-se desentendido, estraçalhou as regras de si próprio, e traiu as promessas, e violou as leis que lhe permitiam ser chamado Estado de Direito.

A ser verdade o que dizem, e a não se cumprirem as exigências das instâncias internacionais do crédito porque o Estado de Direito quis ser pessoa jurídica de bem e honrar os compromissos que assumiu com os seus homens, as tais instâncias credoras recusam os seus empréstimos, o Estado continua a ser de Direito, mas os homens que o constituem cairão progressivamente na miséria, porque esse Estado de Direito não dispõe de haveres que bastem para alimentar todos os homens que o constituem, tratar-lhes da precária saúde e dos sossegos da velhice - e ainda menos para os fazer prosperar às alturas do Audi A5, do condomínio privado com piscina, das férias no Brasil, dos fatos do Rosa &Teixeira.



De mal com o Estado de Direito (os homens) por mor dos credores; de mal com os credores (El-Rey) por mor do Estado de Direito.

                       

E então, a ser verdade o que dizem, Portugal só será viável quando não se pretender como Estado de Direito; quando optar pelo regresso ao ascetismo pobre e salazarista que dispensa perfeitamente os luxos de ser Estado de Direito?


Portugal e os seus homens não trabalham nem produzem suficientemente para se afirmar como Estado de Direito em prosperidade económica e sem ajudas externas?
Portugal e os seus homens não trabalham nem produzem suficientemente para sustentar uma democracia constitucional?
No dilema entre democracia e constitucionalidade por um lado, e imposição dos mercados (e investidores e credores) por outro, qual a escolha política e socialmente desejável? A democracia e a constitucionalidade, naturalmente.
E dentro do mesmo dilema, qual a escolha económica e financeiramente desejável? Os mercados, os investidores, naturalmente.
E não será então possível quadrar o aparentemente impossível círculo de fogo, de forma à coexistência do desejável político-social com o desejável económico-financeiro? É capaz de ser.


A preferência pela satisfação dos mercados o que é que impõe realmente na prática? O empobrecimento gradual – dez ou quinze anos, segundo dizem - dos homens; um redimensionamento da economia nacional; uma regressão da eventual qualidade de vida a que o pós-25 de Abril nos habituou, com diminuição de salários, corte de pensões, restrições ao consumo, e assim até a parâmetros parecidos com os da economia da sociedade salazarista
A preferência pela democracia e pela efectiva realidade de um Estado de Direito o que é que impõe na prática? Impõe uma independência económico-financeira que só os credores internacionais, ou os mercados, nos poderão outorgar. Mas que não outorgam antes que sejam consagrados procedimentos económico-financeiros que o Estado de Direito, na figura dos juízes do Constitucional, recusam por uma questão que é técnica, mas que também é de moral social e jurídica.


Quem sairá vencedor do temível confronto? Sem dúvida: os mercados, os credores, os investidores internacionais.
De mal com os mercados por mor da democracia e do Estado de Direito; de mal com a democracia e com o Estado de Direito por mor dos mercados.

                   

E que significará ainda a vitória dos mercados, dos credores e de toda essa ilustre gente anónima no trágico combate com o nosso Estado de Direito? Significará (não nos iludamos) a derrota da democracia. Porque a democracia não é muito mais do que um Estado de Direito. E se desse Estado de Direito se fizer letra morta e tábua rasa, far-se-á letra morta e tábua rasa da democracia mesma.
E que significará a derrota da democracia? Evidentemente: a vitória de uma ditadura. Mas que será pelo menos uma ditadura nova e pouco prevista formalmente pela História.
A nova ditadura que se avizinha – ou que já vai funcionando informalmente – é uma ditadura natural. Tão natural como as leis do mercado, como as leis da selva. É, ou já está a ser, a do século XXI.  
         A nova ditadura não será como as outras e será até muito bem aceite pelos homens do dinheiro, pelos investidores, e mesmo por algum do populacho mais miúdo. Não será como a outra que alguns conheceram e de que outros ouviram falar sem acreditar piamente que tivesse existido. Essa era uma ditadura política, uma ditadura imposta por imperativos ideológicos.
A nova ditadura não será concretizada à custa de opressão, e até permitirá gostosamente eleições de quatro em quatro anos. Não precisará de comissões de censura, nem de polícias secretas, nem de tribunais plenários. A nova ditadura, posto que eminentemente pragmática ao primar pelas eficácias do dinheiro, veste-se relativamente bem de democracia.


A nova ditadura será a ditadura do consumo, da abundância, porque é pela abundância e pelo consequente consumo que uma economia moderna sobrevive, ou vive melhoradamente. É a probabilidade do consumo o que motiva os homens que votam, os homens que para consumirem a contento desprezarão, loucos de alegria, todo e qualquer princípio de um Estado de Direito e se vergarão a todos e quaisquer ditames de credores, de mercados e de investidores.
A ditadura do consumo é contrária à ditadura que muitos dos agentes da praga grisalha (velhos) conheceram, a salazarista, fundada na parcimónia, nas economiazinhas, nas poupançazinhas, na restrição natural e obrigatória do consumo, mas também na orgulhosa solidão de uma pobreza limpinha e honrada.


Se é verdade o que dizem, e a menos que aconteça um milagre – que na velha vida portuguesa não seria originalidade por aí além -, já devemos estar preparados para a ditadura da abundância que nos fará mais pobres ainda do que já somos. 
        A ditadura da abundância, e paradoxalmente, não tenhamos dúvidas, vai implicar uma vida de penúrias para os que, por mor dos investidores, dos mercados e dos credores, serão excluídos da parte da abundância e serão plenamente incluídos na parte da ditadura. Falo dos mitificados jovens que procuram emprego; falo dos velhos (idosos) que já não prestam para nada e que só andam cá a empatar o funcionamento dos mercados, e depois de roubados pelo Estado que vai perdendo a sua qualidade de ser de Direito; falo dos empregados e dos trabalhadores menos prendados de qualificações e de rendimentos; falo de todos.
         Ou quase.
De mal com os homens por mor d’El-Rey; de mal com El-Rey por mor dos homens.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

      IL GRAN VEGLIARDO



Para os fins de 1888, um jornal de Milão, com a secreta influência do editor Giulio Ricordi, pretendeu promover grandes homenagens a Verdi por ocasião do cinquentenário da estreia da sua primeira ópera, Oberto, Conte di San Bonifaccio. Mas Verdi protestou a Ricordi o seu total desacordo.
 Entre as tantas coisas inúteis que se fazem nesta vida esta é a mais inútil de todas. E eu, como sabe, detesto a inutilidade. Porque não propõe você um jubileu cinquenta dias depois da minha morte? Já se sabe que bastam três dias para cobrir de esquecimento os homens e as coisas. Lembre-se, meu caro Ricordi, do que dizia o grande poeta… “Céus! Morto há dois meses e ainda não esquecido?” Pois no meu caso, com respeito ao esquecimento, confio nos três dias…


Confiança defraudada. Em Fevereiro de 1893 o Falstaff acaba de estrear com grande estrondo nacional. Vinham longe ainda os dias do esquecimento – vêm longe ainda, hoje, 2013, os dias do esquecimento…
Boito sabia das intenções antigas de Verdi: uma ópera cómica, quiçá tomando como partida uma outra personagem shakespeariana, Falstaff, o safado bonacheirão gozado pelos companheiros de estúrdia e depois humilhado pelo que fora o seu melhor amigo, Henry, entretanto elevado ao trono de Inglaterra, o quarto desse nome.
E uma coisa a reter (entre tantas coisas interessantes que haveria a dizer), a questão prosaica, de novo, os direitos do libreto agora referentes ao Falstaff, as verdianas qualidades de nobreza de carácter e rigor de critério, de novo; uma proposta: terminado o seu trabalho na elaboração do libreto, Você, Boito, vender-me-ia os direitos por uma soma a combinar. E se por acaso, ou por muita idade, ou por muitos achaques, ou por qualquer outro motivo, eu não pudesse acabar o trabalho de composição,Você recuperaria o seu libreto de Falstaff, que eu lhe ofereceria como lembrança e de que Você faria o uso que muito bem entendesse.
As homenagens sucedem-se. Verdi incomoda-se com o interesse, a seu ver excessivo, que as pessoas lhe manifestam. Não pela sua obra. Pela sua pessoa. Fica com a sensação de que o Falstaff não fora bem compreendido pelo público. E aborrecem-no com perguntas. “Então, mestre, qual será a próxima ópera? Certamente o mestre já terá a composição bem adiantada. Será finalmente o Rei Lear?”.
Apetece falar mais da intrínseca humanidade de Verdi do que do herói da cena lírica, do que da grande personalidade musical. E quem diz a humanidade de Verdi diz a fragilidade, os medos, as dúvidas, as incomodidades, e, oh, as incertezas certíssimas da velhice. Ou as debilidades físicas e a agudeza mental daquele que foi o indiscutível campeão da música italiana do seculo XIX, exaltado não wagnerianamente como um deus, mas exaltado precisamente como um alto expoente de homem.
Punha a si mesmo alguma perguntas ingratas. Nunca levara muito a sério a esplêndida ilusão a que é costume chamar de glória artística. Considerava-a uma banalíssima questão de vaidade.


Mas então, porque trabalhara tanto e tão denodadamente toda a sua longa vida?
A sorte, depois dos começos problemáticos, artísticos e pessoais, acabara por bafejá-lo, trouxera-lhe dinheiro, fama, honrarias. Para que serviria tudo isso quando era chegado o tempo da velhice, do fim, das tristezas do declínio?
Não tem herdeiros directos. Sempre se compadecera daqueles a quem a sorte não sorrira como lhe sorrira a ele e que caíram numa velhice desamparada e solitária. Gostaria de lhes aliviar as penas da vida, porque, com o fim à vista, sentia-se muito mais como simples e frágil ser humano do que como grande artista.


Compra um terreno em Milão, perto da Porta Magenta. Chama a si o arquitecto Camillo Boito, irmão de Arrigo, e dá-lhe conta do seu projecto. Não quereria deixar de prestar o auxílio possível a tantos dos que, companheiros de arte de toda a vida, cantores, músicos, coristas, o ajudaram a conquistar fama e proventos. Ideia simples e grandiosa: fazer construir uma casa de repouso para para artistas na cidade que dera fama e fortuna a tantos compositores, instrumentistas e cantores e onde ele próprio e o seu génio haviam levantado voo até as mais gloriosas alturas.    

Este é o Verdi do último tempo, do tempo da decadência física, das maleitas, das nostalgias, das banalidades próprias da velhice – a dele como a de quase todos nós – e também de uma hiper-lúcida indiferença perante elogios e homenagens. Um homem que, por meio da sua música, tinha por vezes tocado as esferas mais rarefeitas da alma humana, mas sempre – e em flagrante contradição com o seu émulo Wagner - com a atitude de um grande artesão, um prático, um profissional que realiza paciente e competentemente o seu trabalho e que chega ao fim da jornada sem desmedidas vaidades nem presunções de transcendência, ciente de que o seu trabalho foi feito, foi reconhecido, foi apreciado, e de que a sua missão na terra foi satisfatoriamente cumprida.


A vocação dele era a que era. O destino dele foi o que foi. Cumpriu-se tudo. Nada de mais. Não poderia ter sido de outra maneira.
E pronto, amigos, chega a hora da doença e da decadência. Que se pague nobre e altivamente o tributo de humanidade e de transitório que a posteridade pode conter, que a memória pode conter, e em algumas pequenas e humaníssimas coisas e pessoas, ressentimentos, gratidões, frustrações, relíquias, afectos, aquilo, enfim, que faz a vida de toda a gente, por notável que tenha sido a sua grandeza.
Poderia até dizer en passant que esta bruta prosa é dedicada aos simples como eu, aos menos musicalmente aristocratas para quem Verdi foi a primeira paixão musical.

                                       

               
                                                                         
                                                            

Também ainda hoje não sei medir como deve ser a importância que o sentimento e o ambiente dramático da música de Verdi tiveram na minha vida pessoal. Nem sou capaz de calcular o quanto Verdi e a música dele me acompanharam em cada passo da minha vida tão real - e sempre mais estúpida sem a companhia dele/dela - em cada amargura, desilusão, ternura; nem sei o quanto ele me ajudou a perspectivar tantos passos do meu próprio quotidiano, em sentimento, em humanidade, em nobreza…
A decadência física de Verdi por aqueles anos finais parece que faz prever tempos também de decadência para o melodrama italiano.

Acabado de estrear o Falstaff, Verdi, como todos os velhos, não vê com optimismo o tempo que lhe vai ser posterior. Não vê com optimismo a vida musical e teatral do seu país. Nada seria seguro doravante. Só o Scala ainda seria governável, mesmo que não se pudesse dizer que de um dia para o outro não fechasse as portas – como de facto fechou, pouco tempo depois, e por um ano inteiro.
E também calha que no ano seguinte ao da estreia do Falstaff o Scala é dado de concessão à empresa do editor Sonzogno. O que significaria, evidentemente, que todas as óperas editadas pela Ricordi seriam banidas do cartaz, incluindo as de Verdi. O que significaria que o Scala de Milão iria passar alguns anos da sua vida sem levar um Verdi à cena, algo que, ainda hoje, é custoso de conceber.
Mais ou menos por essa época, Verdi pede superior autorização para fazer construir duas sepulturas particulares na capela de sua casa em Sant’Agata. E é autorizado. E nunca as chegará a construir.


Ouvindo-lhe a música, pode conjecturar-se que Verdi fora desde sempre um homem afectado por lôbregos pensamentos de morte – ouvindo-lhe a música e sabendo-lhe, já se vê, dos inícios de vida. Desde novo, Verdi muito na morte deve ter meditado, com as mortes familiares em catadupa, irmã, filhos e mulher, e em muito breve espaço de tempo. A música de Verdi é a música de um homem que cedo aprendeu a conviver com a morte e nela profundamente pensou. E só quem pensou profunda e prolongadamente a morte a pode encarar com a naturalidade que lhe permita extrair a estética e conceber a música.


No tempo seguinte ao Falstaff - o último dos seus tempos - Verdi está muito preocupado com a companheira, Giuseppina. Dizia aos amigos que ela não estava propriamente mal, só não comia, só emagrecia a olhos vistos. E em 1896 Giuseppina adoece mesmo.
Mas nos primeiros dias de Janeiro de 1897 é Giuseppina quem entra no quarto do marido e dá com ele na cama, acordado, mas imóvel, de olhos arregalados.
Perdeu a fala. Alarme.
Por sinais, diz que quer escrever. Dão-lhe um pedaço de papel e ele garatuja uma palavra: café.
Servem-lhe café. Bebe abundantemente. E recupera.
Não é a primeira vez que o encontram desfalecido na cama, mas esse facto foi sempre abafado. Verdi não admitia a mínima publicidade aos seus assuntos privados.
O projecto caríssimo à alma de Verdi e que lhe aviventa a velhice é a que em princípio se chamava Casa de Repouso Para Velhos Artistas. Em princípio, porque ele recusa a designação. Os artistas em questão não devem sentir demasiado a desventura de serem velhos e inactivos. Os artistas a receber na casa não serão velhos nem novos. Serão hóspedes de Verdi. E a casa chamar-se-á tão somente Casa de Repouso.
Verdi embrenha-se na construção e até alguns palpites arquitectónicos a Camillo Boito.
Em Outubro de 1897, Verdi declara que apesar dos mil achaques que o afligem não se sente muito doente. Acha-se um bocadinho fraco, só. E já não pode passar muito tempo a ler. E o ouvido começa a ficar-lhe um pouco duro.
Na primavera desse ano de 97 Giuseppina piora. Sofrera uma operação ao estômago e Verdi sentia-se muito triste porque Giuseppina nunca recuperara como devia ser da operação e perdera toda a confiança.
No verão vão a Montecatini.
Giuseppina caminha, curvada, apoiada no braço do marido, alto e direito, ainda, nos seus 84 anos; lúcido de memórias e de ideias, ainda.
 E a Giuseppina sobrevém uma forte bronquite. Tosse convulsivamente. Sente-se debilitada.
Em Novembro Giuseppina vai à cama com febre. Diagnóstico: pneumonia.
Na tarde de 14 desse Novembro de 1897, Giuseppina Strepponi, a companheira de toda a vida de Verdi, morre.


Giuseppina jaz na mesma cama e no mesmo quarto onde, em tantos anos, ouvira o companheiro trabalhar até às tantas da noite no gabinete contíguo, interrompendo-lhe muitas vezes o sono, chamando-a para o pé dele, tocando para ela o que acabara de compor, ouve lá isto, vê se gostas, mas ouve com atenção…
Pode ter-se lembrado das palavras da grande amiga Clara Maffei pr ocasião da morte de um amigo comum: é doloroso o desaparecimento daqueles com quem se trocaram pensamentos, com quem se acalentaram esperanças comuns, trabalhos, vida. É muita a solidão que sentimos em volta de nós.
Sim, Verdi está só. Só e desfeito. Crises de choro, muitas, ao deambular pela casa deserta de Sant’Agata. Padece ainda de mil maleitas, come pouco, dorme pouco, mas está menos mal de saúde. Dá grandes passeios de carruagem e tem quase sempre convivas para jantar. O dia em que a Casa de Repouso estiver pronta será o dia mais feliz da  vida dele.

                                                                           

Em Novembro de 1899 Verdi assina o acto da fundação da Casa e respectivos estatutos. No útimo dia desse ano – e desse século – um decreto régio estabelece a Casa de Repouso como entidade moral e de beneficência.


Arrigo Boito escreve a um amigo: o acto da minha vida de que verdadeiramente me orgulho é a servidão voluntária que dediquei ao homem justo e nobre e realmente grande entre todos os homens.
Sem Giuseppina a seu lado, e como seria previsível, a vida de Verdi perde muito sentido. Sente-se cada dia mais só. Fica muitas vezes acordado noite dentro. Às vezes abre o piano…
Em Sant'Agata, Verdi recorda com crescente nitidez a sua juventude. Chora os filhos perdidos. Outros envelhecem como ele mas têm o consolo dos filhos. E ele está só. E na solidão costuma abrir um precioso cofre com as relíquias familiares mais antigas e mais queridas, os anéis de noivado que trocou com Margherita, uma mecha dos loiros cabelos dela, uma mecha dos cabelos brancos do sogro Antonio Barezzi, mais do que um pai para ele – ricordi della mia povera famiglia…


O novo século vai entrar de rompante.
Nos primeiros meses de 1900 é pedida autorização a Verdi para dar o seu nome ao Conservatório de Milão como devida homenagem ao grande músico – que nunca lá foi aluno. Verdi responde com firmeza. Não pode aceitar. Diz aos amigos: não me quiseram em novo… não me hão-de ter em velho…
Mas o Conservatório acabará por ficar com o nome dele.
Ai amigos… aos oitenta e sete anos estou como Deus quer…
As pernas já não o levam a lado nenhum. Duas vezes por dia vem um massagista. Mas ele sabe que aquelas massagens de pouco ou nada servem. 
1901.
        Todos, incluindo os médicos, dizem que não estou doente, que não estou nada doente… mas a verdade é que tudo me dá uma tremenda canseira. Já não leio. Já não escrevo. Vejo pouco. Ouço mal. Sim, mas o pior ainda são as pernas. Já não me obedecem. E tenho muito medo do frio. Enfim, senhores, deixei de viver. Vegeto. Que diabo ando eu a fazer neste mundo?
No dia 21 de Janeiro, Verdi está instalado na sua suite de hotel em Génova.


Um dia, ao vestir-se, cai de costas. Um ataque. E hemiplegia – o lado direito do corpo não responde.
Debaixo das janelas do hotel de Génova junta-se multidão. Todos querem saber novas do ilustre doente. A notícia da crise de hemiplegia correu por toda a Itália. Há altas personalidades a quererem visitá-lo.
Na rua do hotel chega-se ao ponto de colocar palha no pavimento para que o ruído da circulação das carruagens não incomode o doente.
A 24 de Janeiro, Verdi recebe a extrema unção.
E melhora.


O padre volta no dia 26. É o mesmo padre que assistiu aos últmos momentos de Alessandro Manzoni. E recordará mais tarde os últimos alentos de Verdi: o olhar dele era profundamente expressivo. Não podia falar. Eram os olhos que falavam. Foi o aperto da mão dele que falou. Tive dele um último olhar às 2,50 do dia 27 de Janeiro de 1901.
Chegou a pôr-se a questão: será que Verdi fora alguma vez verdadeiramente um crente? E respondeu-se que Verdi acreditava em Deus, sim, e na fé cristã, sim, mas… quanto à religião católica propriamente dita, era de ficar na dúvida…
Afirmaram alguns que entre 1886 e 1890 (já bem envelhecido, portanto), ao criar as suas Quattro Pezzi Sacri, chegara a frequentar em Génova a loja maçónica da Via Davide Chiossone.
Também se disse que ao ler uma História dos papas não morreu de admiração pela maior parte deles. Pode compreender-se: sempre movido por sentimentos patrióticos, pretenderia Verdi salientar o quanto o papismo fora nocivo à nação italiana – um tema, de resto, já com ressaibos maçónicos, e já que a maçonaria apregoava isso mesmo, que o Vaticano era o pior inimigo de Itália.


E no entanto era amigo de padres. E no entanto, Verdi, já velho, quando estava em Génova, entrava algumas vezes na Igreja da Anunciada e aí meditava por momentos. Os mais próximos diziam que o sentimento religioso lhe fora instilado por Giuseppina.
Lembrei-me agora do filme de Bernardo Bertolucci que deu brado em Portugal pouco depois do 25 de Abril. 1900 (Novecento). Na sequência de abertura via-se, primeiro, uma festa campestre  e logo a seguir o plano abria num panorâmica muito larga sobre a planície. Lá muito ao fundo enxergava-se uma pequena figura que corria. Corria, corria, corria na direcção da objectiva. (Estou a escrever de memória.) E alternavam-se os planos de festa de aldeia com o plano distante da figurinha que no meio dos trigais se ia aproximando. Até que a figura, realmente muito pequena, chega ao terreiro da festa, ofegante, a soluçar. É um anão corcunda, mascarado de Rigoletto. O anão manda calar a festa, a música pára, os presentes suspendem as danças e o corcunda desata a gritar, em pranto: È morto Giuseppe Verdi! É morto Giuseppe Verdi!
Com essa sequência quereria Bertolucci dizer que o século XIX italiano terminava, em termos sentimentais, em termos morais, digamos, com o desparecimento de uma figura maior, muito popular e muito querida da vida italiana.
A morte de Verdi marcaria, para os italianos, a saída de um tempo e a entrada noutro, a charneira entre um mundo a desaparecer e já saudoso e as incógnitas de um próximo e incerto século, um próximo e incerto mundo.


Verdi crente. Verdi ateu. De qualquer das maneiras, é a de  um livre pensador e de um homem visceralmente moral e íntegro a silhueta que dele ficava. Era a rectidão, o espírito de justiça e a inquebrantável vontade de acudir aos seus semelhantes que dele ficava, no apoio a tantas obras caridosas, e sabendo-se que antes de toda a fé e de toda a prática, para ele a religião era um princípio de ordem moral no mundo.


O Scala de Milão fecha as portas em luto pelo mestre.
O povo reclama o direito de ver pela última vez aquele a que chamavam il gran vegliardo – o grande velho.
Que os meus funerais sejam modestíssimos e se realizem ao despontar do dia, ou à hora das ave-marias, sem cânticos nem qualquer espécie de música. Bastarão dois padres, dois candelabros e uma cruz.


Às 6,30 da manhã do dia 30 de Janeiro – por acaso, segundo as crónicas, uma manhã enevoada – sai o carro fúnebre. No cemitério não há discursos. O caixão é rapidamente descido e às 8,30 a terra cobre os restos mortais de Verdi.

O Senado e a Câmara dos Deputados de Itália aprovam um decreto: os restos de Giuseppe e Giuseppina Verdi serão trasladados do Cemitério Monumental de Milão para a cripta da Casa de Repouso, e a  casa onde Verdi nasceu, em Roncole, é declarada monumento nacional.
No dia 1 de Fevereiro, o Scala abre portas para um acto solene de homenagem.
Cantam Tamagno, Caruso, Borgatti, a Carelli e o Magini-Coletti. Toscanini dirige a orquestra.


A 27 de Fevereiro, uma multidão estimada em 300.000 pessoas de todos os extractos sociais, incluindo um príncipe real, acompanha a última viagem de Verdi, do Cemitério Monumental de Milão para a Casa de Repouso. A certo ponto do percurso, sobre uma enorme escadaria, 800 músicos e cantores executam o célebre coro Va pensiero sull’alli dorate…


  Deixo aos asilos centrais de Génova a quantia de 200.000 liras. Deixo o albergue dos surdo-mudos de Génova a quantia de 10.000 liras. 


Deixo ao hospital dos raquíticos de Génova a quantia de 10.000 liras. 


Deixo a Guerrino Balestrieri, que há muitos anos está ao meu serviço, a quantia de 10.000 liras. 


Deixo aos empregados domésticos que estão a meu serviço há mais de dez anos a quantia de 4.000 liras a cada um, e aos outros a quantia de 1.000 liras a cada um.


 Deixo…