quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

E DAQUELA VEZ, NOS LOUCOS ANOS 20 EM  QUE O CUNHADO ARRUINADO DE STRAVINSKI SE FEZ À VIDA    GRAÇAS A UMA IDEIA DE                            RUBINSTEIN?



Bem, já agora vá lá mais esta com Rubinstein e Stravinski e os loucos anos 20.
É assim: um dia, em Nova York, Rubinstein regressa de uma tournée a Cincinnati, chega à recepção do seu Biltmore Hotel e tem uma encomenda à espera dele.
Não, a encomenda não era a amante, a Gabriella Besanzoni acabada de chegar para lhe fazer uma surpresa. A encomenda era uma partitura musical. Uma nova composição. O remetente morava na Suiça. Chamava-se Igor Stravinski.
Há que tempos que Stravinski prometera a Rubinstein escrever uma peça de piano em homenagem a ele, dedicada a ele. E aí estava ela. Piano Rag Music. Enviava-lhe o manuscrito. Era a “primeira peça realmente para piano” de Stravinski. Rubinstein ficou desvanecido.
Aproveitando a partida da Besanzoni, e agora com mais tempo para dedicar a si próprio, Rubinstein vai para o piano e começa a ler a partitura.
E pronto. Sabendo que era uma peça especificamente escrita para piano, Rubinstein não deixou por isso de experimentar as sólitas sensações que a música de Stravinski de hábito lhe transmitiam, ainda que usando a escrita pianistica.


Bom, mas aquilo era mais um exercício de percussão; nada tinha a ver com alguma rag music nem com nenhuma outra música, de acordo com as concepções provavelmente passadistas e empedernidamente pianisticas que eram as de Rubinstein. Arthur sentia-se lisonjeado, ufano, com a distinção, mas também ficava decepcionado.
Daí a tempos, Rubinstein regressa a Paris. Vai para o Hotel Régina. Abre a janela do quarto de dá de caras com uma estátua de Joana d’Arc em tons dourados. Paris. Loucos anos 20.


E encontra, evidentemente, Stravinski. Stravinski está-lhe grato. Quando andara muito nas lonas financeiramente, Rubinstein organizara na América uma subscrição para valer ao grande génio da música com problemas de tesouraria e conseguira uns trocos muito jeitosos a que Stravinski chamou um figo. Talvez derivasse daí a dedicatória do Piano Rag Music.


Também Stravinski estava de novo em Paris. E de novo tesinho que nem um carapau. Deixara a família na Suiça e andava outra vez com uma mão atrás e outra adiante, à procura de Diaghilev.
- Então, conta-me lá, chegaste a incluir nos teus concertos a minha Piano Rag Music?
- Meu caro Igor, vou ser muito franco contigo… sinto-me muito honrado e orgulhoso com a tua atitude de me dedicares a peça. Mas não te podes esquecer de uma coisa, rapaz: eu ainda sou um pianista à moda antiga, um pianista da velha guarda…
- Que é que tu queres dizer
- A tua peça está escrita para percussão, ouviste?, e não para o meu estilo de pianismo.
Stravinski não gostou da conversa de Rubinstein.
- A verdade é que não compreendeste aquela música. Foi isso e mais nada. Não percebeste patavina do que eu te mandei. Mas olha, eu vou-ta tocar agora mesmo e vais ver se não começas a perceber tudo com clareza.
E Stravinski vai para o piano.Vai para o piano e desata a martelar no teclado. E quanto mais ele martelava mais Rubinstein detestava aquela música. E perante o desconsolo do amigo, Stravinski foi mesmo aos arames.
- Mas ouve lá, ó Arthur, tu ainda andas convencido, nos tempos que correm, que és capaz de fazer cantar o piano? É uma ilusão que te meteram na cabeça. Andas enganado, filho! O piano não passa de um instrumento utilitário que a mim só soa como um instrumento de percussão.
- Julgo que não sabes, ou ainda não percebeste, Igor, que o grande público não só não compreende como não gosta… an?… não gosta da tua música nem com molho de escabeche. Ainda não topaste isso? As tuas orquestrações são demasiado pesadas, demasiado ruidosas para o público. Já não te lembras do que se passou na estreia do teu Sacre du Printemps? E olha, por alguma razão, misteriosa, aliás, quando toquei a tua música ao piano ela ficou clara para o público e público até parecia que começava a gostar dela.
Stravinski desata a rir.
- O que tu estás a dizer é um disparate pegado!
Rubinstein levanta-se, vai para o piano e começa a tocar um fragmento de Petrushka.
- Ouve, achas que isto soa a percussão? Ou soa apenas como música?
Stravinski (agora apaziguado e profissional) reflectiu:
- Mas como é que tu consegues fazer soar assim os graves? Tens alguma maneira especial de usar o pedal?
- Claro, homem, o meu pé encontra rapidamente a vibração precisa das notas graves, o que me deixa livre para para modelar as harmonias no registo agudo. Sabes, Igor, o piano que tu tanto odeias, pode fazer coisas que nem te passam pela cabeça.
Stravinski começou a entusiasmar-se.
- Está dito! - grita Stravinski. - Vou escrever para ti uma sonata a partir do material de Petrushka.
E depois abraçaram-se e beijaram-se os dois com muita amizade e alegria.
E foram jantar. À pala de Rubinstein, já se vê. 


E conversaram toda a noite acerca da forma como cada um tinha vivido e passado os terrores do tempo da guerra, a 1ª Guerra.
- Tenho a impressão de que vais gostar de uma coisa que eu fiz de sociedade com um escritor suiço chamado Ramuz…


-Como é que se chama?
- A História do Soldado. Mas também fiz outra coisa, uma espécie de música para o ritual russo do casamento. As Bodas. Acompanhada por pianos…
- Oh diabo… faço ideia…
- Exactamente. Em forma de percussão! E olha lá… e tu… com respeito a papel?
- Bem, nas minhas tournées pelas américas, fiz na verdade muito dinheiro…
- Pois é. Vocês, pianistas são uns chupistas do piorio…
- Uns chupistas do piorio? Ora essa!
- Então não são? Ficam milionários de um dia para o outro à custa das músicas que escreveram para vocês um… um Mozart e um Schubert sem vintém…um Schumann meio louco, um Chopin tuberculoso… um Beethoven que sofria do fígado…
- Nessa parte tens razão, Igor. Os pianistas são uma espécie de vampiros que sugam o sangue de gigantes geniais.
E de facto, a sonata composta por Stravinski sobre a música de Petrushka viu a luz do dia.
Rubinstein está com a partitura aberta em frente dos olhos. Ao meu amigo e grande artista, Arthur, com toda a amizade, Igor Stravinski.
Três movimentos: Dança Russa; Em Casa de Petrushka; A Semana Gorda.
Brilhante transcrição, segundo Rubinstein. Podia ouvir-se uma orquestra inteira naquelas duas linhas de música para piano extremamente difíceis de executar.
Nesse entremeio, chega a Paris um cunhado de Stravinski, um certo senhor Bieliankin. Vinha também completamente liso com respeito a dinheiro. Precisava desesperadamente de começar vida em Paris, dado que os seus bens haviam sido confiscados pelas novas autoridades comunistas.
Rubinstein faz certos reparos a Stravinski acerca da escrita pianistica de Petrushka. Certas passagens que, na opinião pianistica dele retardavam por demais os efeitos de progressão dinâmica da obra.
- Está bem, pronto, Arthur, mas agora não me chateies mais com as tuas críticas e com as tuas esquisitices pianísticas. Olha, podes tocar isso da maneira que entenderes que para mim é igual ao quilómetro. Não tenho nada a ver com isso. A partir daqui é com o intérprete.
- Ai é?
- Sim, rapaz, dou-te carta branca. E já agora, também  gostava que falasses com aquele meu cunhado que chegou há dias da Polónia com aquele problema da falta de dinheiro. Talvez tu pudesses fazer alguma coisa por ele...


E já que tinha a carta branca do autor para interpretar pianisticamente o Petrushka, Rubinstein tirou partido disso. Com um senão. Nunca haveria de gravar a peça em disco. Diz que conhecia de ginjeira o seu amigo Igor. Por conseguinte, sabia muito bem que, apenas gravasse a peça para a posteridade, mais tarde ou mais cedo Stravinki haveria de se sair com alguma, ou, por exemplo, proclamar ao mundo: Rubinstein, ao tocar a minha Sonata Petrushka mais não fez do que uma traição às intenções do autor.


O Sr. Biliankin, o dito cunhado de Stravinski, homem de longas barbas grisalhas, pareceu a Rubinstein um velho pope da igreja ortodoxa russa.
Era preciso encontrar um meio com que o sr. Bieliankin pudesse governar a vida em Paris. Rubinstein tinha bons conhecimentos no mundo das artes e do espectáculo, mas… bom, com aquele aspecto, pensou, dificilmente poderia pensar em empregá-lo como dançarino nalgum night club. Mas enfim, teria o cunhado de Stravinski algum talento, ainda que pequeno, ou alguma relação com a actividade musical? Não.
- Nesse caso, amigo, Bieliankin, torna-se muito difícil ajudá-lo, sabe? A vida está muito má…
Pois não, o sr, Bieliankin não tinha o menor interesse por coisas artísticas.
- Ó Igor, não sei o que é que hei-de fazer ao teu cunhado. Oiça lá, amigo, Bieliankin, diga-me cá uma coisa, o que é que mais gosta de fazer na vida por si abaixo? Alguma profissão, alguma ocupação em particular?
- Sabe, sr. Arthur, eu sou um filho da terra, toda a vida tive terras, sempre vivi das minhas terras, nunca tive profissão propriamente, isto é…
- Ó homem, mas não há nada que você tenho gosto em fazer… nada que saiba fazer realmente bem…
- Eu? Bem, eu adoro cozinhar. Só se for isso…
- E oiça lá, você seria menino para abrir um restaurante e explorá-lo?
- Eu? Toda a vida sonhei ser dono de um restaurante!
- Então porque é que o amigo não abre um restaurante russo?
- Aqui, em Paris?
- Não, homem, aqui não. Já cá há vários.
- Então não sei.
- Estou cá a pensar em Biarritz. Sabe você que Biarritz está assim  de gente podre de rica e de gourmets. A questão é conseguir um bom sítio, com boas vistas e abrir um restaurante típico. Comida genuinamente russa. Valeu? E que possa estar aberto até às quinhentas. Com música ao vivo para acompanhar a refeição, acordeão, balalaika e essas coisas. Olhe, esta ideia é a melhor ajuda que lhe possa dar.
O sr. Bieliankin começou a sentir suores frios, tal era a satisfação.
- Mas ó sr. Arthur, e onde é que eu vou desencantar o papel para arrancar com esse empreendimento?
- Faça-se à vida, homem, desenrasque-se…
Rubinstein conhecia em Paris dois ou três russos que tinham casado com mulheres riquíssimas…
E não foram precisos muitos dias para se arranjarem uns quantos investidores.
Quando tudo estivesse arranjado, Rubinstein aconselhava um grande jantar de inauguração, uma coisa à séria e em grande.
- Trago-lhe os meus amigos de Biarritz e de San Sebastian. Trago-lhe alguns dos meus amigos de Paris que conhecem os restaurantes russos da Rue Pigalle. Arranjo-lhe uns vinte convidados, a nata da sociedade parisiense e mais uns quantos senhores aristocratas espanhóis que adoram estas coisas… e ainda uma quantidade de gourmets profissionais. O que é preciso, amigo Bieliankin é que a comida seja boa e autenticamente russa. E já agora, peço-lhe licença para colaborar na feitura do menú para essa noite de inauguração. Estas coisas são muito sérias, amigo Bieliankin.
- Pois acredito, sr. Arthur. Mas então, o que é que há-de ser para o jantar do dia da inauguração?



- Vamos lá ver… entrar com blinis. E com caviar. Mas quero o caviar comprimido, à pressão.Os verdadeiros connoiseurs preferem-no ao caviar fresco, que por vezes vem demasiado salgado

                                                 
                               
                                    

- Acompanha com vodka, não, sr. Arthur?
- Claro.
- Smirnovska! Smirnovska!

                                           


- Borscht! Autêntico borscht russo...

 

                                                                              

- E o vinho?
- Um Bordeaux de uma interessante colheita não ficará mal.
- Oh, Bordeaux
- Não concordo com uma coisa…
- Qual?
- Para mim, a entrada ideal seria um shaslik do Cáucaso, apresentado num espeto em brasa com o competente arrozinho à russa.



- Se quer que lhe diga, amigo Arthur, a úncia entrada digna de um jantar deste calibre seria o belo leitão assado… e o resto é conversa…

                                                       

- Odeio esse prato.
- Não me diga!
- Ainda me lembro na Rússia e na Polónia… os talhos põem na montra, nuns grandes pratos, as cabeças dos pobres leitões. Sempre que passava por um desses talhos fechava os olhos para não ter essa visão bárbara, amigo Bieliankin
- Não, sr. Arthur, temos que ter leitão… temos que ter. Temos que ter! Eu sou um verdadeiro mestre a prepará-los, amigo Arthur.


- Shaslik, amigo Bieliankin, shaslik…
- Olhe, para já, isso nem é bem russo…
- Então o que é?
- É caucasiano.
- Ora…
- Um prato do Cáucaso, e digo-lhe, ainda por cima de muito mau gosto…
E como o cozinheiro era o cunhado do Stravinski, Rubinstein achou que era como o outro e deixou cair a ideia dele. Mas falou dos queijos. Como iria ser a tábua dos queijos. O outro pôs-se a rir.
   
                                                                    

- De que é que você se está a rir?
- Amigo e senhor Arthur… na nossa boa mesa genuinamente russa não costumamos pôr nada que cheire mal. Mas olhe, proponho uma sobremesa. Um preparado gelado à base de rum. Uma especialidade russa.
- Rum? Uma especialidade russa? Não me faça rir que eu estou cheio de cieiro, amigo Bieliankin… rum, uma especialidade russa…
Já se viu que o próprio Stravinski não é mencionado nestas cenas por Rubinstein. Devia estar para lá a compor as suas músicas e a ver se sacava algum de alguém e a borrifar-se para o restaurante do cunhado.
- Oiça, essa do rum e do ice-cream, sr. Bieliankin, estou farto de comer disso nos restaurantes franceses  mais chauvinistas…
E ainda por cima, era uma sobremesa que o russo insistia fosse acompanhada por um champanhe de boa marca.


Chega o dia da inauguração. Nesse dia, à hora do requintadíssimo jantar russo, apresentou-se à mesa o tout  Paris,  o tout Biarritz,  o tout San Sebastian, o tout Madrid,  o tout tudo o que Rubisntein esgravatou nas suas mundaníssimas relações.

                                                    
                                                                     



Um sucesso. Um sucesso que Rubinstein declara ter ultrapassado de largo as suas melhores expectativas. A gente era tanta que o cunhado de Stravinski se viu forçado a servir doses mais pequenas do que as previstas, quando não, a comida não chegava para tantas bocas. Mas Rubinstein ficou especialmente contente com uma coisa: metade dos convidados recusaram comer o leitão, com a elegante desculpa de já terem enchido a malvada de caviar, blinis e borschts.
Lá se arranjou um acordeonista baratucho e um homenzito de cabeça rapada que tocava umas músicas russas aciganadas com um ar tão triste que arrancava lancinantes bravos aos mais macambúzios dos bebedores de vodka.
Stravinski não estava na festa.
Diz Rubinstein, não sei com quanta verdade, que Stravinski não apareceu por uma única razão: ao autor do Sacre du Printemps não interessava ser cumprimentado entre leitões. Assados pelo seu próprio cunhado, ainda por cima.
No dia seguinte, uma surpresa pouco agradável aguardava Rubinstein.
O sr. Bieliankin não foi de modas e apresentou a Rubinstein a conta do jantar daquela rapaziada toda. Conta cujo montante, não era nada, ultrapassava todo o dinheiro que Rubinstein tinha consigo (não esquecer pormenor importante: não havia multibanco). Para pagar, Rubinstein teve que vender à pressa alguns dos títulos argentinos que tinha, o que demandou complicadas operações bancárias entre Biarritz, Paris e Buenos Aires. E não esquecer outro pormenor importante: não havia telemóveis nem internetes.
Vá lá que o Bieliankin lhe cobrasse os custos simples dos jantares, ao preço de fábrica, vamos dizer assim. Mas não. O sr. Bieliankin, cunhado de Stravinski, que, como digo, acabava de se fazer à vida numa época e num lugar difíceis com o apoio de Rubinstein e respectivos amigos, apresentava-lhe uma conta na base dos preços que o próprio Rubinstein, inocentemente, o aconselhara a sobrecarregar quando tivesse uma clientela de ricos. Ora isto para um judeu, meus amigos… devem ser facadas.


E para ajudar o pai que é velho, metade do preço cobrado pelo Bieliankin a Rubinstein era dos leitões que Rubinstein tanto odiava.
- Ah pois é, amigo Arthur, pois apresento-lhe a conta. Se você soubesse o trabalhão que eu tive com tudo isto! -  grita-lhe o Bieliankin.
- Os leitões é que eu…
- Os leitões? Se você soubesse a estafa que me deu arranjar estes leitões todos… tive que ir a Bordeaux… tive que ir a Toulouse… por um pouco não os encomendava directamente de Paris, veja lá bem, sr. Arthur…

Arthur sabia era que tinha ali uma conta calada para pagar.
- O sr. Arthur sabe lá o dinheirão que eu gastei em telefonemas! E ainda me diz que a brincadeira lhe saíu cara… com franqueza, sr. Arthur…
O que é que eu hei-de fazer à minha vida, suspirou o bom do Arthur, se me vim meter com um cínico, com um ingrato… ainda por cima adepto de leitões assados…
La Boîte Russe. Foi como se ficou a chamar a casa.


Daí a uns tempos o Bieliankin instalou-lhe um salão de baile no andar de cima. Mas Rubinstein nunca contou a Stravinski como é que tudo tinha acabado. Stravinski só ouviu contar uma parte da história, e então aí ficou muito orgulhoso das façanhas culinárias e do talento financeiro do seu inefável cunhado.
Foi por essa altura que Rubinstein frequentou muito o atelier do seu amigo Picasso, que passava o tempo a fazer-lhe queixas da mulher, Olga Kochlova, porque ela lhe fazia a vida num inferno. Sim, esse, Picasso, que num dia desses levou um milionário americano lá ao atelier e lhe mostrou algumas das suas obras-primas. O americano fixou-se numa das telas, olhou, interessou-se, tornou a olhar, e perguntou ao mestre:
- Mestre, diga-me lá, o que é que esta tela representa?
Picasso, muito sério, também muito concentrado na obra e muito intelectualmente, responde:
- Duzentos mil dólares.
Stravinski, ao contrário do cunhado, continuava a tinir, sem cheta. Continuava a encontrar-se com Rubinstein.
- Tu é que a levas direita, Arthur. Tocas meia dúziazita de números ao piano e fartas-te de ganhar dinheiro…
- Ó homem, vê se te calas que eu já não tenho paciência para ouvir essa conversa, an? Eu tenho alguma culpa de que tu toques piano tão abominavelmente? Sou eu que tenho culpa, querem ver… mas porque é que tu não compões uma coisa fácil, um concerto para piano e orquestra ou qualquer coisa assim que esteja ao teu alcance e não te pões a tocá-lo em público por esse mundo fora?


Um conselho precioso que não caíu em saco roto. Em poucas semanas, Stravinski tinha pronto o seu Concerto para Piano e Instrumentos de Sopro.
E ganhou bom dinheiro com ele. Com ele e com a sua nova carreira de pianista que corre mundo a tocar exclusivamente as próprias obras – as únicas que sabia tocar.
Mais tarde, seria chefe de orquestra. Que só dirigia as próprias obras. Mas que ganhava bom dinheiro.




terça-feira, 24 de dezembro de 2013

E AQUELE DIA DOS LOUCOS ANOS 20,                                    EM PARIS, 
QUANDO RUBINSTEIN LEVOU STRAVINSKI              A UMA CASA DE MENINAS?



Arthur Rubinstein, o grande pianista (quem leu um dos posts anteriores já o sabe), era amante da famosíssima e explosiva contralto italiana, uma das grandes carmens do tempo, Gabriella Besanzoni. Mas nesta história (aliás real) entram mais duas artísticas personagens. E essas duas personagens são Igor Stravinski e Karol Szymanovski.
Stravinski é Stravinski. Não é preciso pôr mais na carta. E Szymanovski é um compositor polaco amigo (e compatriota, claro) de Rubinstein.

                 
  
Conta Rubinstein que um dia, em Taormina, na Sicília, Szymanovski viu um grupo de jovens sicilianos a tomar banho, e de tal maneira belos que poderia pensar-se neles como modelos de um escultor grego, Antínoo, por exemplo. “De tal maneira belos, Arthur, que eu não conseguia tirar os olhos de cima deles!” Isto foi só para introduzir a personagem e o respectivo calibre em certas matérias. Claro. Está-se mesmo a ver. Mas há mais, já agora…
Mas deixem—me alargar-me só um pouco mais sobre as particularidades sexuais do compositor polaco em plenos e loucos anos 20, uma época em que, para os lados lá mais da Europa oriental, na plena barafunda revolucionária, os camponeses esfomeados, enfurecidos e iletrados  se podiam dar  ao horrível acto de mutilar os homossexuais - houve um príncipe polaco a quem isso aconteceu. Pois Szymanovski desfalecia de terror só de pensar nisso.
Agora está ele a falar com Rubinstein…
- Acreditas, Arthur, que em Kiev vivi os dias da minha maior felicidade? Um rapaz de deslumbrante beleza. Um poeta, cuja voz era música pura, Arthur. E que me amava, Arthur. E que me amava! E foi só por esse nosso amor que eu consegui escrever a música que escrevi até hoje. Nunca mais soube nada dele.


Mas enfim. Guerra acabada. Anos 20. Paris. Gerações perdidas. Gerações achadas. Loucura. Gosto destemperado de viver. 
Ah… mas também, já agora… já agora, deixem-me que lhes conte mais um pouco desta outra história que mete Szymanovski…


Em poucas palavras… Rubinstein metera em cabeça interessar Diaghilev – o célebre empresário dos Ballets Russes e de Nijinski, como é sabido – pela música do seu compatriota e amigo Szymanovski. 


Pois bem. Um jantar. Diaghilev convida Rubinstein e Szymanovski para irem jantar com ele ao Continental. Rubinstein e Szymanovski chegam e esperam pelo importante Diaghilev. Diaghilev aparece daí a pouco. Vem acompanhado de um jovem. Szymanovski, que até aí tinha estado um tanto apático à espera do grande homem, fica subitamente petrificado, à beira de um fanico. Mas recompõe-se depressa. Apresentações. Diaghilev apresenta aos outros dois o jovem assombrosamente belo, um seu novo colaborador.


Sentam-se para jantar.
Num repente, Rubinstein realiza o sentido da situação, apercebe-se do que está a acontecer. Já adivinhou quem é aquele belíssimo jovem que acompanha Diaghilev na qualidade de colaborador. Diaghilev parece aperceber-se de que alguma coisa anda no ar. O tal jovem lindo faz trinta por uma linha para dar a entender que nada sabe de Szymanovski, que nunca o viu em dias de vida. Szymanovski vivia aquela hora numa tortura inaudita, temeroso de, de alguma maneira, trair o seu segredo. Aquele era a beleza de rapaz de Kiev por quem se apaixonara, por quem fora capaz de compor e de quem perdera o rasto. Estava com medo de se traír, de irritar Diaghilev, e de arranjar um trinta e um que fizesse o moço perder o emprego.
A conversa flui. Chega Stravinski. O mal estar dissipa-se um pouco. Stravinski arrasta Diaghilev para os seus assuntos pessoais, para os negócios que ambos têm entre mãos, e Szymanovski e o rapaz podem trocar alguns olhares de entendimento. Mas moita carrasco. Segredo absoluto. Tudo fica por aí.
Mas o principal da minha história de hoje tem não Szymanovski mas Stravinski como figura central, como motor da acção, digamos assim.
É preciso dizer que, estando Rubinstein em Paris, a sua amante dessa época, a já conhecida Gabriella Besanzoni, estava em Roma, a cumprir contrato. E estando Rubinstein em Paris, palavras não eram ditas quando ele recebe uma carta de Gabriella. Daí a três dias, Gabriella chegaria a Paris acompanhada da irmã. Umas curtas férias para te ver, meu amor, depois de uma tão longa separação.
Surpresa muito agradável para Arthur.
Arthur estava evidentemente na gostosa disposição de servir de guia às irmãs Besanzoni e desvendar-lhes os encantos da cidade-luz. Mas, bem vistas as coisas, talvez elas não tivessem grandes interesses intelectuais e não lhes apetecesse assim muito ir passar um bocado da tarde no estúdio do amigo Picasso, ou encontrar Cocteau num bistrot de Montmartre, ou ouvir o Grupo dos Seis discorrer interminavelmente sobre as composições de cada um deles – eram logo seis, digo eu, se um só, já de si, sabe Deus… agora seis… que rica seca…


                                                                             

Depois de ter chegado a estas conclusões, Arthur acha que, na verdade, nada de melhor para atraír as irmãs italianas na capital do mundo do que uma jantarada no Maxim’s e a seguir uma saltada às variedades das Folies Bergères.


                                                                

Pronto. Rubinstein está de banho tomado, aperaltado, perfumado, para ir à Gare de Lyon buscar as manas e irem cumprir o programa. Nisto, toca o telefone. Quem é que me vem chatear a molécula logo numa altura destas?
Era Stravinski.

- Arthur, preciso urgentemente de ti. Vem aqui ao  meu hotel tão depressa quanto puderes. Urgente. É muito urgente!
- Igor, meu velho, tem lá santa paciência, mas esta noite não tens sorte nenhuma. Esta noite é impossível…
         - Ouve, Arthur…
- Completamente impossível
E Rubinstein conta rapidamente a Stravinski a situação, o seu caso com a Besanzoni, etc. E Stravinski está-se nas tintas para a história. Tem que ver Rubinstein nessa noite dê lá por onde der.     
- Arre que é chato! Ó homem, ó Igor, eu já te disse o que tinha a dizer, gaita!
- Arthur! É um caso de vida ou de morte. Estás a ouvir? De vida ou de morte. A vida ou a morte de um amigo teu, an?
Um caso de vida ou de morte? Mas que diabo de coisa poderia ser? A brincar a brincar, Rubinstein fica alarmado. Será que Stravinski está ameaçado de grave perigo e conta com ele para o salvar?
Rubinstein tira-se das suas tamanquinhas e vai ter com Szymanovski.
Na opinião muito refinada de Szymanovski, Stravinski era um casca-grossa insuportável.
- Olha, sabes que mais, Arthur, esse Stravinski não passa de um mal criado e de um indiscreto de alto lá com o charuto para exigir isso de ti…
Rubinstein implora a Szymanovski:
- Karol, Karolinhos da minha alma, eu peço-te, eu imploro-te, faz alguma coisa hoje, tu, por mim, desengoma-te, filho, faz uma coisa que eu sei muito bem que tu odeias fazer entre todas as coisas, mas que eu te peço que faças esta noite, em honra da nossa amizade. És tu a única pessoa que conheço que me pode salvar a face perante Madame Besanzoni e a irmã. De contrário, estou feito ao bife. Elas nunca me perdoarão.
Rubinstein já tinha reservado mesa no Maxim’s para jantar com as Besanzonis antes de as levar ás variedades. E vai disto, puxa de uma carteira recheada de notas e passa-a para a mão do pobre Szymanovski que, evidentemente, o que mais odiava fazer na vida era passar noites com mulheres - mesmo que fosse só nas variedades.
Szymanovski fica parvo com a carteira na mão, a olhar para Rubinstein.
- Mas olha a minha vida, an? Que mal fiz eu a Deus para me sair este na rifa. E logo hoje? E logo com gajas!
Rubinstein recomenda-lhe:
- Dás-lhes a melhor comida que lá houver no Maxim’s… nada de carapaus, nem de escabeches, nem de orelha de porco, nem pataniscas, nem chicharro frito, nem cá bacalhaus à Narcisa, nem nada disso. Tudo o que houver de mais fino. Dá-lhes o melhor champanhe que eles tiverem. Quero tudo do bom e do melhor, an? Tudo. E todo o champanhe que elas quiserem enxugar. Depois, acompanhas as senhoras ao respectivo camarote nas Folies… já mandei reservar… pega lá os bilhetes… não os percas, ouviste? Deixa que se sentem na frente, encostadas ao parapeito e tu sentas-te atrás… assim podes dormir mais à vontade. Karol amigo, vou fazer os possíveis e impossíveis para ir lá ter com as irmãs um pouco mais tarde. Faz isso por mim, Karol, não estejas com essa cara, juro-te que nunca esquecerei o que fizeste por mim esta noite. Ah… e conta-lhes! Ouviste? Conta-lhes a verdade, an? Diz-lhes… diz à Madame Besanzoni o quão infeliz eu fiquei… an?… por não poder ir buscá-las à estação e ir levá-las a jantar e às Follies. Conta-lhes. Não te esqueças.


Rubinstein sabia que mais alegremente Szymanovski se deixaria levar para a prisão do que passar uma noite ao pé de mulheres. E logo duas. E logo italianas. E logo uma delas uma fatal cantora lírica, e daquelas de voz grossa, contralto, com toda a certeza uma devoradora de homens.


E Rubinstein põe-se a caminho até ao hotel de Stravinski – na volta não era hotal era pensão, se calhar uma espécie da A Tabuense da Rive Gauche… não sei…
Quando chegou, Stravinski nem bom dia nem boa tarde e entrou logo no que lhe interessava, o caso de vida ou de morte que o consumia.
- Vamos mas é a um lado qualquer onde possamos estar sossegados e conversar à nossa vontade – disse ele.
Foram para um restaurante nas docas do Sena chamado Laperouse. Era onde Rubinstein de vez em quando levava a jantar uma ou outra galdéria. Um restaurante daqueles que havia então, com compartimentos fechados.
Apareceu o chefe de mesa. Stravinski estava sem pachorra, vira-se para o homem e diz-lhe:
- Você só aparece aqui quando a gente tocar a campainha a chamá-lo, ouviu?


Mas então o que é que se passava?
Fala Stravinski:
- Sabes lá da minha vida. Se soubesses da minha vida ias roubar para me dar. Desde o princípio da guerra que eu vivo num medo constante de não ganhar dinheiro para sustentar a minha família. As nossas propriedades na Rússia, adeus ó vindima, foi tudo confiscado. E nós vivíamos do dinheiro que vinha de lá. Esse sacola desse Diaghilev… com respeito a pagar-me… está quieto ó mau. Não paga o que deve. Ainda me deve uma quantidade de coisas que compus para ele. Esse também está praticamente falido. O auxílio que tu me mandaste da América tão generosamente, já se foi à viola. Neste momento, meu caro Arthur, sabes de que é que vive este teu amigo? Não sabes. Vive de promessas. Promessas para o futuro. Graças a Monsieur Lyon da Casa Pleyel, ainda tenho um sítio onde trabalhar. E trabalho sim, trabalho numa encomenda do Diaghilev. Uma ópera-ballet. Devo acabá-la no verão. Já viste a minha situação, rapaz. Tesinho que nem um carapau.
- Estou a ver estou. Ó homem, tu...
- Mas ouve lá, julgas que isto me tira a coragem? Não. Não me tira esta força de carácter que sempre tive. E que sempre terei. O meu maior pavor, o que me deixa fora de mim e me faz saltar a tampinha ainda é outra coisa… pois é… é ter contraído uma doença incurável. Nem tu sabes…
- Ó homem, uma doença incurável? Mas que raio de doença incurável é que tu apanhaste?


Stravinski baixa a voz e murmura:
- Apaixonei-me recentemente por uma mulher e descobri, para maior desespero de vida, que estou completamente impotente.
Rubinstein desata a rir às gargalhadas.
- Tu estás é gaseado, filho. Isso de que tu falas já me aconteceu uma quantidade de vezes. Sabes lá. Parece que não estás habituado a essas coisas, aos nervos que a gente apanha quando é das primeiras vezes, com uma nova pessoa. Tu não percebes é nada do funcionamento desta gigajoga que a gente aqui tem, pois não?
- Ouve, Arthur, não sejas parvo, esta manhã eu tinha chegado a um ponto em que pensei que o melhor, enfim, o que o bom senso me aconselhava, era que pusesse um fim à minha vida.
- Cala-te com isso, Igor, tu é que pareces parvo!
- Não sou nada parvo. Foi o instinto que me disse que só a tua presença amiga me podia impedir de perder a cabeça e fazer um disparate. E só o contar-te estas desgraças já me fez sentir melhor.

                            

Rubinstein, todo sorrisos, fez soar a campainha e o chefe de mesa apresentou-se.
Um jantar para dois com o que de melhor houvesse na casa. E uma garrafa de vodka, se faz favor.
- Vamos lá a ver, Igor, a dama Misia Sert é uma mulher de recursos, estou-te eu a dizer. E não me resta a mais pequena dúvida de que quando eu falar com ela ela vai-te desenrascar. Vai-te arranjar um subsídio, uma subvenção, umas coroas, uma coisa que se veja. Basta dizer que o Diaghilev e a companhia dele nunca poderiam ter sobrevivido à guerra se não fosse a dama Misia Sert ajudá-los. Bom, e quanto à tua saúde… olha, não terias a mínima vontade de trabalhar, nem esse apetite que eu estou a ver daqui, nem a tua proverbial vitalidade… nada disso… se houvesse alguma coisa com a tua saúde. Vai por mim. Vai por mim, Igor, vai por mim!
A garrafa de vodka marchou quase toda.
Depois vieram duas grandes malgas de café.
Por fim, pediram a conta e pagaram – Rubinstein pagou, foi o mais certo.
- E  agora, a seguir, Igorzinho da minha alma, ainda vais tu fazer alguma coisa por mim.


Igor Stravinski e Arthur Rubinstein entram a correr nas Follies Bergères e voam até ao camarote onde era suposto estarem as manas Besanzoni e o pobre Karol Szymanovski morto de tédio com as variedades e de desconsolo com as companhias. O show estava quase a acabar.
As manas Besanzoni, quando eles entraram muito festivos no camarote, nem para eles olharam. Szymanovski parecia um aluno de escola primária que o mestre tivesse posto de castigo.        
    

Gabriella Besanzoni só disse com uma voz de gelo:
- É o sr. Szymanovski que nos vai acompanhar ao hotel. Mais ninguém.
O show terminava. As manas italianas saíam do camarote em passo imperial. Rubinstein e Stravinski estavam feitos parvos encostados à parede. Szymanovski olhou-os como quem pede socorro e seguiu com as damas e saíu com elas do teatro.
- E para onde é que nós vamos agora, não me dizes? -  pergunta Rubinstein.
Rubinstein e Stravinski chegam ao número 12 da Rue Chabanais. Entram o portal. Sobem dois lanços de escada.


É a sub-madame que os atende. Conhecia de gingeira aquele pianista polaco que alegrava os salões das melhores famílias ao tocar umas espanholadas, uns tangos, e até umas coisas estranhas chamadas sambas que aprendera nas suas viagens pelas sete partidas do mundo. Não conhecia era o outro.
- Como está, minha senhora, está bem? Todos os seus, bem? - antigamente era assim. – E agora, Madame, faça-me a fineza de chamar a menina Madeleine.
A bela Madeleine aparece. Rubinstein, sempre muito mesureiro, cumprimenta-a e diz:
- Madeleine, mon ange, fazes-me o favor de tomar conta deste cavalheiro?
E Stravinski, interdito, deixa-se levar pela bela Madeleine. Rubinstein acena-lhes com dois dedos e senta-se na sala.


Pega num jornal.
O tempo passa, passa.
Estava demorado. Ainda bem. Rubinstein podia pensar na sua música.
Caramba, nunca mais!
Além da música, Rubinstein começa a pensar na vida, no ressentimento de Gabriella. Mas quer afastar de si os maus pensamentos. Com o tempo, as coisas iriam ao seu lugar.


E nunca mais. E nunca mais era sábado.
Dois jornais lidos de ponta a ponta.
Entram e saem meninas acompanhadas de clientes.


Rubinstein, esquadrinhando o salão à procura de outras leituras. Clientes a ir e vir. As meninas a chilrear pelo salão.

                               

Era a primeira vez que se achava num lugar daqueles sem participar activamente nos trabalhos. Como são as coisas. Como é a vida. Pela primeira vez a sua missão num lugar daqueles era esperar. Nunca lhe passara pela cabeça que tal pudesse acontecer.


Ainda não é desta?
Até que lá aparece Stravinski.
Vem radiante. A desmanchar-se a rir sozinho, como um maluco.
- Ó homem vê lá se tens termos.
E nem uma palavra acerca de íntimas hostilidades.
Stravinski só disse (já estavam na rua):
- Arthur, meu amigo, meu grande amigo… aquela Madeleine… uff… é genial.
E assim terminava para Rubinstein um dia absolutamente para esquecer – só que ele lembrou-se desse dia nas memórias que escreveu muitos anos depois.
Stravinski foi à vida, satisfeito que nem um perú, e Rubinstein foi tristemente para casa. Em branco.
Manhã seguinte. Casa de Rubinstein. Um boy traz uma mensagem para Monsieur Arthur Rubinstein. O que era? Um bilhete de Gabriella.
Arturo, ho capito tutto, começava o bilhete. Arturo, percebi finalmente tudo, escrevia Gabriella Besanzoni, a grande contralto. Percebi finalmente que tu não passas de um nojento pederasta. Por acaso, cá por umas coisas, já me tinha passado isso pela cabeça, uma vez, em Nova York. Mas não liguei. Agora tenho a certeza. O teu amante, aquele polaco, aquele Szymanovski, bem nos deu a entender o frete que fazia em acompanhar-nos, o quanto odiou a noite que passou na minha companhia e de minha irmã. Ele o que queria era ter passado a noite contigo. Espero nunca mais tornar a ver-te. Gabriella.
An? Vejam lá bem como é a moral destas coisas; como um homem pode levar roda de mariconço sem ter culpa nenhuma no cartório – que se saiba, bem entendido. E bem sei que se estava na loucura dos anos 20. Mas mesmo assim.

E não. Tão  cedo não se tornaram  a ver. Gabriella voltou para Roma no dia seguinte, e ela e Rubinstein só voltaram a ver-se anos e anos depois, estava ela casada com um multimilionário brasileiro, Henrique Lage; estava ele casado com Nela Mlynarska.  

                                         
     

Por esse casamento, a Besanzoni chegou a ser proprietária de uma ilha inteira na baía de Guanabara e dona da maior frota mercantil da América do Sul, com direito a ter o nome numa rua de São Paulo – Rua Gabriela Besanzoni Lage.


No que toca a Stravinski, saiba-se que o homem recuperou totalmente a confiança. Foi contemplado de facto com umas massas jeitosas pela tal senhora e famosa mecenas, Misia Sert, e foi de tal monta que Stravinski, com esse dinheiro, e eventualmente com energias sexuais renovadas, pôs os pés ao caminho e passou o verão que nem um senhor, em Biarritz. E acabou a encomenda para Diaghilev, que veio a ser a opera-ballet Mavra.


Szymanovski foi à sua vida dele, para Londres, foi lá ter com uns amigos polacos, os Kochanski’s…
E Rubinstein foi dar concertos para Espanha.
Mas Rubinstein e Stravinski continuaram a encontrar-se com frequência ao longo dos loucos anos 20 parisienses. Não sei se no mesmo restaurante – que ainda existe, como se viu pela gravura acima – nem sei se na casa onde a menina Madeleine dava consultas de impotência viril a cavalheiros geniais.


Rubinstein e Stravinski continuaram a encontrar-se e a discutir duramente a respeito de música, estética, concepções. E mais do que tudo – pelo menos da parte de Stravinski – a respeito de dinheiro. Dinheiro: eis a grande questão de moral de Stravinski.
E ainda há uma outra história verdadeira e levada dos diabos passada com o cunhado, que um dia apareceu a Stravinski em Paris com uma mão atrás e outra adiante e se fez à vida em Biarritz graças aos empenhos do amigo Arthur… uma história engraçada…