sábado, 25 de janeiro de 2014

          A MENOS  QUE  A NECESSIDADE  NOS
                         OBRIGUE  A  SER BONS


Tornando ao velho Nicolò Macchiavelli. Porque acho proveitoso. Hoje. Ainda. Por isto. E por aquilo. Por tudo. E por nada. 

                                                                           


O pior que pode acontecer a um príncipe cujo povo é seu inimigo é ser abandonado por ele. Mas se os grandes lhe são contrários, deve temer que lhe caiam em cima. Gente de melhor visão e mais astúcia do que o povo, os grandes não perdem tempo. Põem-se ao fresco e só procuram cair nas graças de qualquer outro que venha a seguir.


       













       O príncipe pode ser o médico que diagnostica e trata os achaques do Estado. Isso é verdade. Mas o nosso Nicolò quer vê-lo sobretudo como um artista capaz de pensar esteticamente esse Estado que emerge da massa informe e bruta do conjunto dos seus cidadãos; capaz de inscrever os interesses antagónicos e arbitrários, feios, numa categoria do Belo; o príncipe paradigmático de Nicolò é um arquitecto que sobre sólidos alicerces sabe construir um edifício harmónico.
         O Estado pode ser uma obra de arte, um monumento ao espírito empreendedor do Homem, contando para a sua execução com as partes necessárias de instinto, força, sorte, planeamento, improviso, razão e acção.

                                                     

        Parte importante da doutrina maquiavélica, chamemos-lhe assim, é a insistência na separação do puro pensamento político do pensamento ético-filosófico. É instaurar a autonomia da arte de pensar a política relativamente a quaisquer coordenadas de natureza teológica.
         Definitivamente fora da moral haveria de estar a política.
       E não importará provavelmente tanto saber a forma melhor de um governo, ou mesmo tentar definir em rigor a essência de um poder, senão que, muito pragmaticamente, obter um fim superior, conseguir uma estabilidade e uma ordem funcionais para o Estado.
         De todo o modo, será bom acentuar na ideia de Maquiavel que o poder por si só não garante áquele que o detém nem a glória nem a virtude. Um príncipe poderá absolutamente actuar do lado de fora das normas éticas dos tradicionais e religiosíssimos códigos. O que é de aceitar como coisa natural. Ou até como coisa desejável. Porque o que mais importa são as finalidades, já se sabe. E talvez por isso tivessem acusado Nicolò de ter escrito um tratado imoral e  mais próprio para funcionar como vademecum de tiranos.
         Os fins e os meios. Cá está. E os fins que justificam os meios. Cá está. Cá está o conceito mais facilmente vulgarizado  do pensamento de Maquiavel.


       Para as acções dos homens, designadamente dos poderosos, nunca, ou raramente, na hora de delinear uma acção política, existe por perto um árbitro imparcial ou uma autoridade moral acima de toda a suspeita. Nessas condições, da humaníssima realidade, então, o único critério de aferição da bondade das acções humanas em geral e dos governantes em particular é a qualidade dos resultados obtidos. Ou o grau de adequação do resultado final de uma acção política ao conceito que lhe esteve na génese. Ou, finalmente, o grau de eficácia dessa acção na resolução do problema concreto que a determinou. E não se tratando, portanto, da pura legitimação do Mal; ou de uma justificação dos tais meios que os fins pudesse aconselhar.

Não é virtude matar os cidadãos, trair os amigos, ser desleal e pouco compassivo ou pouco religioso. Assim, será possível conquistar o poder, mas nunca a honra.

        Toda a virtude de um senhor se relaciona com a natureza dos fins a que se propõe.
                                                            
                                                             

         E se a violência é determinada pelas exigências do interesse geral, são admissíveis certas acções eventualmente condenadas pelos códigos ético-religiosos de cada tempo, questionando-se se aqueles que criticam certas acções, uma vez chamados eles próprios à responsabilidade de decisores e de actores, e tendo em mira finalidades positivas, não as teriam igualmente praticado. E assim por uma questão de moral. A moral dos meios. Por acaso, abissalmente diferente da moral dos fins, como Maquiavel no-lo demonstra.
         Um príncipe é mais do que um indivíduo – e sem embargo de o ser e de se exercer e exacerbar como tal. Um príncipe é uma instância social onde se corporizam, e concretizam, as aspirações da comunidade. É a potencialidade integradora e universal dessas aspirações.
         A saúde política de um Estado estaria então na intensidade dos seus conflitos sociais. Já na República Romana, sistema nunca por demais exaltado por Maquiavel, era o conflito entre plebeus e senadores aristocratas a dar o tom da grandeza e da liberdade do Estado. Daqui o dizer-se que a estabilidade política se basearia no equilíbrio muito dinâmico e inevitavelmente conflitual existente no pluralismo das forças vivas. Jamais na supressão ou na repressão dessas forças vivas, porque daí resultaria algo parecido com uma estabilidade laboratorial, fictícia.

As disputas entre o povo e a nobreza na antiga Roma travavam-se na argumentação e na troca de razões, enquanto em Florença tais diferenças se dirimiam em lutas violentas. Em Roma eram as leis que resolviam os conflitos; em Florença eram o exílio e o assassínio de muitos cidadãos.


As diferenças na situação da antiga Roma e da então moderna Florença poderiam resumir-se na diferença dos seus objectivos finais: o povo romano gostaria de partilhar algumas honrarias e benesses com os patrícios, sendo que, por outro lado, os populares florentinos acalentavam um furioso desejo de se governar a si próprios sem qualquer participação da nobreza no destino da cidade. Estava-se no tempo de uma Itália enfraquecida, dividida, minada por lutas intestinas entre os partidos, ou seja, entre os seus senhores. E daí a conveniência de um governo mais ou menos despótico para uma situação crítica em extremo. Mas um governo despótico que não desprezasse o uso da violência como meio de conseguir um novo e mais alto estado de civilização e unidade na Península Itálica.
         Pois bem, os fins eram excelentes. Os meios poderiam não o ser à inflexível luz de uma moral. Mas pelo menos justificavam-se. E justificar-se-iam em pleno se os objectivos fossem de alguma maneira atingidos se a Itália pudesse passar a respirar livremente como Estado moderno e não como reserva do Mal e da barbárie a ser aproveitada pelos invasores e ocupantes estrangeiros.
      A violência de uma repressão em nome do interesse geral e nacional deveria prevalecer sobre a violência gratuita dos partidos e dos senhores uns contra os outros quando perseguiam unicamente o fim dos seus interesses privados.
       Na arcaica Roma Romulo matou Remo, o irmão que com ele mamara na teta da loba. Matou Remo e fundou Roma. E nota Maquiavel acerca do gesto de Romulo que a acção acusou-o, mas o resultado dessa acção desculpou-o.

                                                                        

         Se o resultado é bom e a finalidade superior é atingida, os meios serão desculpáveis, quiçá legitimados. É esta a moral maquiavélica. Elástica e perversa, dir-se-á, mas de todo inescapável nos patamares da alta política, como a História nos ensina a cada passo.
    Maquiavel reprova a violência que tem por objecto a pura destruição – a gratuita, digamos. Porém, não pode ele deixar de aplaudir uma violência que, um tanto bizarramente, vamos lá, se poderia chamar de construtiva – ou, se preferirmos, como na medicina, de preventiva.
       Um conflito pode produzir efeitos benéficos na ordem pública, desde que no quadro de um Estado organizado e controlado por instâncias políticas estruturadas.



Os fundamentos principais de todos os estados, sejam eles novos sejam eles antigos, são as boas leis e as boas armas.
                                                                             
                                       


       E aqui Maquiavel opta nitidamente pela excelência das armas. Mas como meio e não como fim. E exactamente quando o objectivo superior e civilizacional a atingir são as leis. Se uma boa lei não achar outro meio de se impor na bárbara comunidade dos homens e dos respectivos interesses, que se usem as armas sem preconceitos nem má consciência.
     Maquiavel aceitava até a violência a escalões muito pouco aceitáveis aos nossos olhos de hoje.
         E aceitava a violência intra-muros na forma de conspirações e atentados políticos. Da mesma sorte que julgava inevitáveis as guerras entre estados soberanos.


       O conceito de herói político apontava para o príncipe desassombrado e impetuoso que não recuava na movimentação ofensiva dos seus exércitos. E deplorava os príncipes  e os estados mais tímidos na sua própria defesa, os mais contemporizadores, os que escolhiam mais depressa as políticas de compromisso e negociação do que as acções decisivas. Talvez por isso a arte da guerra lhe merecesse também vasta teorização.
       Maquiavel defendia a existência de boas armas, quer dizer, de adestrados exércitos, como força de educação dos povos. Na moral do tempo, a instituição militar instilava nas consciências jovens os mais nobres valores de cidadania. As vitórias externas dos exércitos incrementavam noções de orgulho nacional e de patriotismo. Mas, mais importante ainda: cabia à força militar organizada e disciplinada ser, em teoria, pelo menos, acho eu, um obstáculo à instalação do poder tirânico.
                                                        
                                    


                                            

Que ninguém se deixe cair na certeza de aparecer quem o levante. Só são boas e duráveis as defesas que dependem de ti e do teu valor. 

         E também:

É admirável o príncipe que se mostra amigo ou inimigo e que sem hesitações se manifesta a favor de alguém contra outro. É mais proveitoso este procedimento do que a neutralidade. Se um vizinho teu declara guerra a outro também teu vizinho, ser-te-á útil fazer jogo limpo e franco e tomar um partido. O que ganhar não quer amigos suspeitos que não o ajudem quando precisa; o que perder não te socorrerá nunca, porque tu não quiseste, pelas armas, compartilhar da sua sorte.
        
                                                            



Maquiavel, não obstante tudo, tinha inegáveis simpatias republicanas. Mas em 1513 a república é abolida em Florença e Maquiavel deixa entre parêntesis essas simpatias republicanas. Escreve rapidamente O Principe


Em 1513, o filho de Lorenzo, o Magnífico, Giovanni de Medici, é elevado à suprema dignidade de chefe da Igreja, passando a chamar-se Leão X (Maquiavel dedica-lhe um memorial versando a organização de um sistema político para Florença). 

                                                                           

Giuliano, irmão do papa, morre inesperadamente em 1516, e sucede-lhe Lorenzo de Medici, Duque de Urbino. 


E O Príncipe, que Maquiavel havia dedicado a Giuliano, passa a ser dedicado a Lorenzo, e até porque os Medici só terão que aproveitar um conjuntura política (fortuna) que lhes é favorável: tropas estrangeiras invadem a Itália; um Medici ocupa o trono de Pedro e tem poderes sobre os estados papais da Itália central; enquanto outro Medici domina Florença e toda a Toscana. Seria um primeiro esquisso de unificação política da Península, a convergir para o centro geográfico a possível aliança de interesses e principados contra o invasor.
         Maquiavel entendia a conjuntura como um desafio, a occasione, para a virtù de um novo príncipe, uma dádiva da fortuna, a deusa que no universo político poderia aparecer em lugar da providência divina.
        Só o Bórgia. Rodrigo Bórgia, o papa Alexandre VI, pudera em tempos dispor de tão afortunada conjugação de factores favoráveis, a qual Bórgia, aliado com  seu filho César, não aproveitara em cheio por motivo de falecimento.
         Maquiavel via um elo político de ligação entre as famílias Bórgia e Medici, um destino político singular, ao qual eram oferecidas semelhantes oportunidades para a realização do alto desígnio de fortalecer politicamente a terra itálica, tão cobiçada pelas potências do exterior.
         Neste dédalo de coincidências nasce a oportunidade para a obra, O Príncipe. Mas a fama devassa dos Bórgia corria mundo e daí que os adversários de Itália aproveitassem os rumores de dissipação e vício que soavam acerca dos príncipes e condottieri italianos para pôr a correr que a Itália era afinal a terra do Anti-Cristo, do ateísmo militante, da traição, da perversão e da pouca vergonha dos políticos “maquiavélicos”. Lá está.

                                                                


Será melhor ser amado que temido, ou o inverso? Preferível seria ser ambas as coisas, mas como é difícil conciliá-las mais seguro será  o ser temido do que o ser amado, se só se puder ser uma delas.  

         Dedicado ao Duque de Urbino, Lorenzo de Medici, e usando longamente como modelo o tão mal visto César Bórgia, O Príncipe daria a pior das famas ao grande Nicolò Macchiavelli.
         A cultura europeia, tanto ao nível do ensaísmo político como até ao nível, por exemplo, das dramaturgias isabelinas, Christopher Marlowe e Shakespeare inevitavelmente incluídos, integraria nos seus léxicos os termos “maquiavélico” e “maquiavelismo” como sinónimos de imoralidade, manobrismo político, expedientismo e falta de escrúpulos. Tudo isso e mais umas botas até ao século XVIII. Então, Maquiavel passa a ser olhado e entendido como um moralista, como uma percursora figura de proa da ideia italiana de independência e unificação. Afinal de contas, escrevendo um guia para o tirano, Maquiavel mais não fizera nas suas obras do que levantar as pontas do véu do Mal e revelar a natureza mais profunda dos estados, dos poderes e das tiranías mesmas.


         A família Medici encomenda a Maquiavel a redacção de uma História de Florença, mas não o promove a mais altas funções de Estado.

                                                     

         Em 1527 acontece o saque de Roma e na sequência indirecta dele a república é reinstaurada em Florença. Maquiavel ainda está vivo – será por pouco tempo – e sempre acreditara na restauração da república a seguir aos Medici, sempre esperara por ela, e mais (segundo Burckhardt), teria até sonhado mais alto ainda, e mais longe, com uma forma moderada de democracia política.
         Mas os Medici organizam em 1530 uma empresa de guerra contra a república florentina e os florentinos partidários da república defendem-se heroicamente, ainda que em inferioridade numérica. Maquiavel é que já não vive para assistir a isso.
         O pensamento de Nicolò Macchiavelli marcou culturalmente a Europa, e até para lá das matérias militares ou estratégico-políticas. Calcula-se que Maquiavel chegaria  a influenciar muitos passos das teorias relacionadas com negócios ou com a gestão das empresas, coma gestão dos recursos humanos e com as técnicas de avaliação psicológica. E, apesar de todos os preconceitos ou obsolescências, esse pensamento continua a fascinar-nos pela agudeza das conclusões acerca de nós mesmos, seres humanos, visceralmente bons ou originariamente maus que sejamos, ou as duas coisas, ou nenhuma delas.
         Quem somos nós?
         Somos o que somos. Para o bem e para o mal. Como se costuma dizer.




Os homens acabarão sempre por se revelar maus, a menos que a necessidade os obrigue a ser bons.  

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A  PERIGOSA  VONTADE  DE  FAZER 


Pela primavera de 1953, saíu em Paris o primeiro número da revista literária The Paris Review. Continha mais de duas dezenas de entrevistas com os escritores então na berra. Muitas dessas entrevistas, para lá dos aspectos relativos à arte e à técnica narrativas, incluem largo, e a meu ver interessantíssimo, material a respeito da vida, da arte, do Homem, e necessariamente, em muitas delas, a respeito de altas questões de moral. E lá vem uma entrevista com o meu escritor preferido depois de Shakespeare e dos trágicos gregos. William Faulkner.


                

O americano William Faulkner, nascido em terra de escravos negros, o Mississipi, descendente da aristocracia branca do dito profundo Sul dos EUA (the deep south), e cuja obra na quase totalidade afronta o universo sufocante desse Sul dos EUA, os escravos, os filhos de escravos e a interacção deles com a sociedade branca, fortemente reaccionária e racista.

 


Faulkner dá a entrevista em 1957, em Nova York, antes portanto de ter ganho o prémio Nobel da Literatura, o que aconteceu em 1962.
O homem detestava entrevistas e ia dizendo logo de entrada que perguntas quanto a literatura e à sua obra, tudo bem, responderia ao que fosse preciso. Mas que não lhe entrassem por terrenos de ordem pessoal. Poderia reagir com violência. Em coisas pessoais, se está bem disposto, pode até responder, o que não quer dizer que no dia seguinte, se lhe fizerem as mesmas perguntas pessoais ele não dê respostas totalmente diferentes das primeiras.
Faulkner lá entendia que as questões pessoais postas a um escritor não revestiam qualquer interesse, posto que o que essencialmente interessava da vida de um autor era a sua obra. Era importante ter acontecido Hamlet  ou o Sonho de uma Noite de Verão. Era pouco importante saber quem os teria escrito,  se um certo Shakespeare,  se qualquer outro nascido na mesma terra e no mesmo dia e que por acaso também se chamasse Shakespeare - esta, já se sabe, foi a piada que George Bernard Shaw  largou quando perguntado acerca da real paternidade das obras de Shakespeare.


Mas Faulkner diz que Shakespeare, ou Homero, ou Balzac, escreveram afinal sobre os mesmos assuntos, e se tivessem vivido mais mil ou dois mil anos os editores não precisariam de mais nada – claro, digo eu, isto no tempo em que os editores gostavam de editar grandes e importantes obras…

                                       

Declarava-se um poeta falhado. E tinha um pressentimento: todo o romancista havia querido escrever poesia antes de mais, e quando descobriu que não o podia fazer bem tentara ainda o conto – o género que Faulkner considera o mais difícil a seguir à poesia – e que não tendo ainda conseguido fazer grande coisa no género conto o escritor se dedicara então ao romance.
De mais a mais, um escritor nunca deve preocupar-se em ser melhor do que os seus contemporâneos. Basta-lhe uma única preocupação: ser ele próprio; ou, um furo acima (diria eu), ser melhor do que ele próprio. O artista só tem uma responsabilidade, e essa responsabilidade é perante a sua própria obra.  O escritor é um ser amoral. Pode roubar, pedir emprestado, mendigar ou apropriar-se seja do que for e de quem for, se tal for condição de realizar a própria obra.
       Se o artista for bom artista mesmo, será um tipo sem piedade. Terá um sonho que o angustia. O seu dever é livrar-se dele. Enquanto não o fizer não terá paz.
Para fazer bem a sua obra – continua Faulkner – o escritor, se for bom, não precisará de um ambiente especial, de específicas condições materiais. Conta ele, homem de sete ofícios,  que o melhor emprego que alguma vez lhe ofereceram na vida foi o de… gestor… de uma casa de passe. É verdade. Era o melhor ambiente que podia desejar para escrever. Na condição de gestor de um bordel gozava de liberdade económica, estava a salvo da fome, tinha um tecto e não tinha mais que fazer  do que ir uma vez por mês pagar umas contitas à esquadra de polícia local. Durante a manhã, a melhor parte do dia para criar,  o posto de trabalho estava tranquilo. À noite havia actividade que chegasse para o escritor não se aborrecer. O emprego dava-lhe alguma posição social na cidade. Alguém lhe trazia os livros de que precisava. Todas as empregadas da casa o tratavam por senhor. Todos os contrabandistas de álcool o tratavam por senhor. Ah, e também tinha estatuto para tratar os polícias por tu.
Paz e solidão e todo o prazer que possa obter a um preço não demasiado alto: eis o ambiente de que o artista precisa para criar.
E se é escritor,  enfim, e se se chama Faulkner, também precisará de alguns instrumentos, tais como lápis, papel, tabaco, comida e um pouco de whisky.
- Bourbon?, pergunta o entrevistador, a provocá-lo: Faulkner era um alcoólico de marca.
- Bourbon? Ouça, não sou esquisito. Entre scotch e nada, fico com o scotch.
Nada, a não ser a morte, poderá destruir um bom escritor.
Os realmente bons também pouco se ralam com o êxito ou a riqueza . O êxito, segundo Faulkner, é feminino, é uma mulher, se um homem se humilha faz pouco dele – isto é a pouco correcta opinião de Faulkner, sublinho…
Faulkner gostava, como toda a gente, de se sentir bem. Talvez interiormente bem, e criativo. Tinha uma receita para induzir esse bem estar interior. Ler o Velho Testamento. Ou observar um pardal.


- Se eu pudesse reencarnar, sabe você como gostaria de voltar a viver? Como um pardal. Ninguém o odeia. Ninguém o inveja. Ninguém o quer.Ninguém precisa dele. Ninguém se mete com ele. Raramente está em perigo. E sempre pode comer qualquer coisa.
(A isso diria eu que ainda há sempre quem goste de andar aos pardais.)
- Mas agora fale-nos alguma coisa da sua técnica, Mr.Faulkner.
Técnica?, admira-se Faulkner. Se um escritor está assim tão interessado na técnica, o melhor que tem a fazer será dedicar-se à cirurgia. Ou a colocar ladrilhos.
Para se escrever uma obra, Faulkner afirma não haver receita alguma nem nenhum recurso mecânico. Cada um aprende por si, com os próprios erros. Mas o bom artista deve ter a certeza de que ninguém sabe o suficiente para lhe dar conselhos. O bom artista é de uma suprema vaidade. Por mais que admire o escritor consagrado não pensa noutra coisa senão em superá-lo.
E quanto àquela velha lenda de serem as personagens a ganhar vida, a condicionarem a narrativa e a conduzirem a mão do autor, Faulkner diz sim. A certa altura as personagens erguem-se, avançam, tomam os comandos e completam a história. Isso sucedia-lhe sempre por volta da página 275.
- Só não sei o que aconteceria se o livro acabasse na página 274 -  ironiza.

 

O artista deve ter objectividade suficiente para bem avaliar o que faz. Isso somado à honradez, ao valor e à capacidade de não se enganar a seu próprio respeito.
A obra que causara mais angústia criativa e emocional a Faulkner fora o célebre e complexo  O Som e a FúriaThe Sound and the Fury. Uma genial expressão tomada de empréstimo a uma fala de Shakespeare em Macbeth. E foi essa, das suas, a que mais amou, em que mais duramente trabalhou…
- Tal como uma mãe que ama mais o filho que se tornou ladrão ou assassino do que aquele que preferiu estudar para padre.
A importância do cristianismo na obra de Faulkner?
Assim como a um carpinteiro nunca falta o martelo, nunca a ninguém faltou cristianismo. E assim no caso de se estar de acordo com o que a palavra significa. 
E significaria o quê para Faulkner?
Um código de conduta moral e individual, e quando cada um decide tornar-se um ser humano superior ao que a sua natureza mesma quer que ele seja, e ainda no caso de um indivíduo preferir obedecer apenas à sua natureza.
A  cruz pode ser para um homem a memória do seu dever enquanto membro da raça humana. As alegorias provenientes da cruz são modelos com os quais um homem se mede e aprende a conhecer-se.
Mas a alegoria não pode ensinar o Homem a ser bom da mesma forma que um compêndio ensina as matemáticas.
A alegoria ajuda um homem a descobrir-se. Ajuda-o a erigir para si um código moral, uma norma sobre a qual, segundo as suas capacidades e aspirações, lhe apresente um modelo de sacrifício e a promessa de uma esperança.
E é claro, os escritores sempre se alimentaram de alegorias, as alegorias de uma consciência moral. Todavia, as alegorias são incomparáveis. E Faulkner traz para a conversa uma obra de outro escritor, Melville. Moby Dick. Três personagens. Três tópicos de uma consciência humana: não saber nada; saber e não se preocupar; saber e preocupar-se.
Na sua própria obra ( The Fable – A Fábula) Faulkner encontra semelhanças com estas alegorias. Um jovem aviador judeu diz: isto é horrível; recuso aceitá-lo, nem que tenha de renunciar á própria vida. Um quartel-mestre francês diz: isto é horrível, mas podemos sempre chorar e suportá-lo. Um mensageiro inglês diz: isto é horrível, vou fazer alguma coisa para o remediar.
O escritor prossegue a missão de criar personagens plausíveis em situações plausíveis e comovedoras e da maneira mais comovedora que puder.
A música é o meio ideal para um artista se exprimir: opinião de Faulkner.  Pode ter sido mesmo o primeiro meio de expressão da História do Homem.  Mas se o talento de um homem é a palavra, este deve tentar exprimir torpemente, por palavras, o que a música teria comunicado melhor.
- Mr. Faulkner, há quem diga que o senhor é um obsecado pela violência.
- Pois aí está. É a mesma coisa que dizer do tal carpinteiro que vive obsecado pelo seu martelo. A violência, amigo, é simplesmente um dos utensílios do escritor. Uma ferramenta, entre outras. E note outra coisa: prefiro o silêncio ao som. A imagem que as palavras produzem acontece no silêncio.
- Mas, Mr. Faulkner, há pessoas que não conseguem entender as suas obras, mesmo depois de as terem lido duas e três vezes. Que lhes sugeriria como melhor meio de lhe compreenderem as obras?
- Sugiro que as leiam quatro vezes.
Em  jovem, antes de encontrar Sherwood Anderson, o consagrado escritor que lhe viria a reconhecer o talento e a incitá-lo à escrita, Faulkner  vivia em Nova Orleans e fazia uns biscates por aqui e por ali, sem grandes exigências, e apenas para ganhar algum dinheiro. A vida era barata em Nova Orleans e Faulkner só queria ter onde dormir, alguma coisita para mastigar e tabaco.
Ah, e  uma garrafita de whisky.
Trabalhava dois ou três dias e ganhava para andar o resto do mês à boa vida. Pilotar lanchas e aviões, pintar paredes, arranjar telhados. Sentia-se um vagabundo. O dinheiro só lhe interessava na medida em que o forçava a trabalhar para o ganhar.


Trabalho. Faulkner espanta-se com o facto de haver por esse mundo tanto trabalho para fazer. Acha até uma vergonha. Acha muito triste que a única coisa que um homem possa fazer durante oito horas seja trabalhar.
Ninguém pode estar oito horas a comer.
Ninguém aguenta oito horas a beber.
Não se pode fazer amor oito horas seguidas.
A  única coisa que um homem pode fazer em oito horas é trabalhar. Por isso o Homem é infeliz.
Livros. Faulkner, em novo, trabalhou numa estação dos correios. Foi despedido. Justa causa: lia nas horas de trabalho.
Livros. Os livros que ainda lia na idade adulta eram os que conhecera e amara quando era rapaz e a eles voltava como quem gosta de voltar a ver os velhos amigos. O Velho Testamento. Dickens. Conrad. Cervantes – Faulkner lia o Quixote todos os anos, e lia-o como alguns crentes lêem a Bíblia.  E mais Flaubert. E mais Balzac.
- Balzac criou um mundo próprio - diz – uma corrente sanguínea que flui ao longo de vinte livros.
E mais Dostoievski e Tolstoi.  Shakespeare. E Melville. E os poetas, Keats, Shelley, Donne, Marlowe.


Perguntam-lhe por Freud. Toda a gente falava de Freud quando vivia em Nova Orleans. Declara que nunca o leu. Mas Shakespeare também seguramente não leu Freud. Nem Melville  devia algum dia ter lido Freud.
- E quanto a novelas policiais, Mr. Faulkner?
- Ah, sim, Simenon.
- E porquê Simenon?
- Porque lhe acho alguma coisa de Tchekov.
E a propósito de novelas policiais, e relacionado com Faulkner, meto agora a minha colherada para dizer que quando as primeiras obras de William Faulkner foram traduzidas para francês e publicadas em França foi uma sensação no refinado mundo literário da Rive Gauche. Sartre e Gide, por exemplo, escreveram extensos artigos ensaísticos sobre Faulkner. E já não me lembro se foi Sartre se foi Gide quem disse que as histórias de Faulkner eram um genial ponto de encontro entre a tragédia grega e o romance policial negro. E em especial no que se referia ao primeiro livro comercial de Faulkner, que nem é o melhor,mas que foi o que lhe deu verdadeiramente dinheiro a ganhar e nomeada internacional e se chama Santuário.


Para os menos familiarizados com este assombroso romancista, diria eu dele outros títulos, Sartoris, O Som e a Fúria  - de que já falei – Enquanto Agonizo (As I Lay Dying), Luz de Agosto (Light in August), Palmeiras Bravas, Desce Moisés, Absalon Absalon, Os Invictos, Os Ratoneiros… e mais uma infinidade deles. Todos geniais. Ou, se não geniais, muito perto disso.
Ainda perguntado sobre livros e personagens universais da ficção, Faulkner ditou para os autos os nomes de Falstaff e do Príncipe Hal; de Quixote e de Sancho; de Lady Macbeth, de Ofélia, de Mercútio. Huckleberry Finn.
- Muito bem,  Mr. Faulkner, chega, e quanto ao futuro do romance?
O futuro do romance seria assunto para os críticos. Quem está empenhado em realizar a sua obra não tem tempo para os críticos. É o artista que desperta o crítico. Se o crítico escreve alguma coisa poderá inspirar alguém, mas não o artista.
        Os seres humanos só existem na vida. Por isso mesmo deverão dedicar todo o seu tempo a estar vivos.
A vida decorre entre o que faz mover um homem, a ambição, o poder, o prazer. O Homem está obrigado a eleger entre Bem e Mal. Há nele uma consciência moral que o exige. E doutra maneira, não poderá viver consigo mesmo o dia de amanhã.
A consciência moral pode ser uma maldição que o Homem terá de aceitar se quiser ter o direito de sonhar.
E a finalidade da existência do artista é deter o movimento da própria vida por meios artificiais, e manter fixo esse movimento, de sorte que, cem anos passados, quando alguém contemplar esse movimento que o artista fixou, imobilizou, continue a mover-se em função do que é a vida, movimento.
E se o Homem é mortal, a única imortalidade ao alcance dele é deixar atrás de si algo imortal, algo que é imortal porque continua a mover-se e a fazer mover o mundo e os vindouros.
Alguns críticos apontavam a Faulkner uma limitação curiosa: a dificuldade de criar personagens entre os vinte e os quarenta anos que fossem simpáticas.
- Mas as pessoas entre os vinte e os quarenta anos não são simpáticas, amigo.
Faulkner justifica: a criança tem capacidade de fazer, de agir, mas não sabe como; só o saberá quando não puder fazer, agir, e que é depois dos quarenta. Os grandes símbolos da angústia e do sofrimento humanos são homens entre os vinte e os quarenta. Entre os vinte e os quarenta anos é quando a vontade de fazer se torna mais forte e mais perigosa, e quando a pessoa ainda não começou a aprender a saber. A capacidade de fazer segue os trilhos do mal por entre os acidentes pessoais do seu meio.


O Homem é forte antes de ser moral.


As maiores angústias deste mundo, na opinião de Faulkner, teriam sido causadas por pessoas de idade entre os vinte e os quarenta. O problema racial nos EUA  estava então a ser impulsionado por pessoas entre os vinte e os quarenta. Os brancos que espancavam e matavam os negros: entre os vinte e os quarenta; as seitas de negros que violavam as mulheres brancas como resposta: entre os vinte e os quarenta.
Napoleão, Hitler, Lenine: entre os vinte e os quarenta.
O tempo é uma condição inexistente, fluída, só actuante sobre os momentos da pessoa individualizada. Não há foi . Só existe é.


O mundo que crê é a pedra angular do universo. Sem essa pedra, por pequena que seja, o universo ruirá.

                       

- O meu último livro será O Livro do Dia do Juízo Universal. Quando o acabar não escreverei mais.
Nunca o escreveu.