terça-feira, 18 de março de 2014

              O ESTADO DA RAZÃO



Um Estado da Razão era o que seria suposto ser o estado de uma sociedade democrática. Ou, de outra maneira, o Estado que resultasse de um regime democrático. O pior podem ser as razões que uma razão de Estado comporta…
     

       Mas quem quiser levar os homens a agir racionalmente terá de aceitar levá-los de forma irracional, diz uma personagem, Mr. Scogan, de um romance de Aldous Huxley Férias em Crome (tradução portuguesa), que por acaso me apareceu entre mãos e a que não resisti chamar a esta descabelada prosa.
Resolvi aproveitar, com a competente vénia a Mr. Aldous Huxley, já falecido, apenas um diálogo entre duas das personagens, um jovem literato chamado Denis, e um mais velho e sabido que se pretende profeta, chamado Scogan.
Tudo o que se tem feito no mundo e na vida tem sido feito por loucos. Diz o tal Scogan a Denis durante um passeio por uma alameda de teixos.
        Scogan admite que o bom senso tem sido o principal defeito da sua existência, tal como virá a ser o defeito da existência do jovem Denis quando chegar à idade dele, e porque na idade dele ou se é ajuizado ou se é louco.
- Você sabe que… num mundo atilado eu seria um grande homem, mas sendo o mundo tal como é, não sou nada, para todos os efeitos não existo – diz Mr. Scogan.
Homens sensatos, como Mr. Scogan, não realizaram nada de importante neste mundo. São equilibrados demais. São simplesmente sensatos. Não possuem o dom da obstinação entusiástica que impulsiona os projectos, as massas, a vida.
E continua Mr. Scogan a discorrer: as pessoas até podem escutar de muito bom grado um sábio, um filósofo, mas apenas com a finalidade de se divertirem e passarem um bom bocado, como se ouvissem um solista de violino ou as piadas de um palhaço no circo. Quando é chegado o momento de agir de acordo com as ideias de um homem sábio e racional, não, não acontece nada.



- Meu caro Denis, sempre que a escolha teve de ser feita entre um homem de razão e um maluco, o mundo seguiu imediatamente o maluco.



Ora porquê… porque o maluco apela à alma das gentes para o que é fundamental, ou seja, para a paixão, para os instintos. Enquanto o filósofo só lhes inspira o superficial e o supérfluo. Isto é: a razão.



Scogan e o jovem Denis sentam-se num banco de madeira verde do jardim no meio de um maciço de alfazema.


                           

Lutero e Erasmo. Dois casos típicos.                 Erasmo é um homem de razão. As pessoas ouvem-no, em princípio. Scogan diz que ele aparecera como o virtuoso que tocava um sublime instrumento que era o intelecto. As pessoas admiram Erasmo, veneram-no. Mas Erasmo não consegue levar essas pesoas que o veneram a comportarem-se socialmente como ele entendia racional que se comportassem. Martinho Lutero, ao invés, um pregador exaltado, aparece então na vida dos povos. Lutero é um impetuoso, um apaixonado, um tipo mesmo violento. E Lutero, auto-convencido de coisas sobre as quais nem sequer pode haver certeza alguma, grita ao povo. E os homens seguem-no. Já ninguém se importa com a sensatez e a razão imaculada de Erasmo. 



      Lutero era real. Tão real e sério como uma guerra. Erasmo representava a moral superior, a decência. O povo deixou de o ouvir. Injuriaram-no até quanto à razão que tinha. Erasmo era um sábio. Faltava-lhe o poder de manipular e conduzir as massas.


A Europa segue Lutero e mete-se em guerras e perseguições por um século e meio entre banhos e banhos de sangue.



      Quem quiser levar os homens a agir racionalmente terá de levá-los por meios meios irracionais – é esta a perturbante moral desta personagem de Aldous Huxley.


Todo o que fundou uma religião cobriu a sua fundação de doutrinas e justificou, quer dizer, racionalizou o mais que pôde a religião acabada de fundar. Faltava transmitir a mensagem dessa nova religião. E se os fundamentos da religião nova eram racionais tanto quanto o podiam ser, os meios de transmitir a mensagem e conquistar prosélitos teriam de ser místicos, assombrados, a roçar a charlatanice, coisa detestável para um homem de razão.
Ora bem. A razão pura é impotente. Começa e acaba em si mesma. Não vai dar a nada. Não estimula uma acção colectiva.


- Mas é frívolo queixarmo-nos das coisas por elas serem como são – diz a personagem Scogan. - O que é absolutamente precisa é uma sã e racional utilização das forças da demência. Só assim, nós, homens de razão, conquistaremos o poder.


Como? Poder? O jovem interlocutor de Mr. Scogan declara com uma risada não estar interessado no poder. Aspirava tão somente a uma carreira literária. Mr. Scogan replica-lhe:
- Toda a gente quer o poder, meu jovem.
Queria ele dizer que toda a gente aspira de uma forma ou de outra a um poder. No caso daquele jovem tratava-se de um poder literário, perseguir as palavras, torcê-las, modelá-las, torturá-las, obrigá-las à obediência.


Canalizar as loucuras para o serviço da razão: missão de todo o homem de inteligência. O mundo não poderá ser deixado à sua sorte, ao arbítrio de maníacos apaixonados por si próprios, como Lutero ou Napoleão. Mais uma grande guerra e tudo será destruído. Os homens inteligentes deveriam combinar-se e conspirar para arrebatar o poder aos loucos imbecis que governam. Era tarefa inadiável fundar o Estado da Razão. E depois de fundado o Estado da Razão a tarefa era dividir os indivíduos em categorias. Mr. Scogan sugere uma sociedade repartida em três categorias, segundo as qualidades de espírito e de temperamento de cada um. Psicólogos devidamente treinados para o objectivo em vista dividiriam as crianças acabadas de nascer e elaborariam uma classificação delas. E cada criança teria uma educação adequada à sua categoria psicológica.

Aldous Huxley retoma depois o seu estilo profético e anunciador de uma nova ordem, ou das conveniências da instauração de um mundo moderno e perfeito e admirável e novo, e coloca na boca da sua personagem a ideal divisão das criaturas para um mundo que soubesse aproveitar as faculdades tanto dos homens de razão como dos místicos iluminados e tresloucados da comunicação. Classificação subtil e complexa, acerca de cujos contornos Huxley, com fina ironia, diz não competir aos profetas entrar em pormenores.
Inteligências dirigentes. Homens de fé. E rebanho. Eis as três principais divisões da população de um Estado da Razão.
Inteligências dirigentes: todos os que fossem capazes de pensar; todos os que soubessem e pudessem atingir um grau apreciável de liberdade. Uma selecção dos que conhecessem bem os problemas da vida prática. Seriam esses os governantes do Estado da Razão.
Os homens de fé. Eis o segundo patamar das competências no Estado da Razão. Aos homens de fé também Mr. Scogan chama os loucos que acreditam apaixonadamente em coisas que não fazem qualquer sentido, os que se dispõem a morrer pelos ideais e pelas ambições. Os donos de um formidável potencial de Bem e de Mal, que não podiam ser deixados a actuar ao acaso.


Fala de Mr. Scogan:
- Não existiriam mais Césares Bórgias, Luteros ou outros que tais. O desactualizado homem de fé e de ambição, produto acidental de circunstâncias brutas capazes de levar os homens às lágrimas, ao arrependimento ou ao crime, seria  substituído por um novo tipo de homem, aparentemente igual, mas diferente do homem de fé do passado.


Pois bem, o novo homem de fé empregaria paixão, ambição e entusiasmo na difusão de ideias razoáveis. Seria ele o instrumento das inteligências superiores que governariam o Estado da Razão.



       Claro que para tanto os homens de fé, depois de passados ao crivo psicológico, ou psicotécnico, logo à nascença, e seleccionados, teriam desde o berço uma educação específica, sob a supervisão das inteligências superiores. Seriam sugestionados e calcorreariam o  mundo como missionários pregando com todo o fervor obstinado as ideias frias e extremamente racionais das inteligências superiores que governavam a sociedade.
As ideias e projectos dos dirigentes superiores seriam realizados e uma década depois deixariam de ter préstimo, e então as inteligências superiores formariam novas gerações de loucos destinados a pregar as verdades eternas que se aplicassem à década seguinte.
Os loucos homens de fé, visionários de um suposto transcendente, o que fariam era agitar as multidões e conduzi-las. As multidões, precisamente. A terceira categoria dos indivíduos habitantes do imaginário e ideal Estado da Razão.
                          

      A terceira espécie de gente seriam os milhões, o rebanho, os desprovidos de algum tipo notável de inteligência criadora ou vocação, os incapazes da fé e do entusiasmo comunicante. Seriam evangelizados pela classe dos loucos e assombrados pregadores de um qualquer credo desde que ele fosse muito simples e muito satisfatório – assunto a decidir pelos superiores inteligentes.



       Interessante notar, primeiro, a cínica e anti-democrática visão de uma realidade: a grande massa dos indivíduos é destituída de assinaláveis qualidades e é mesmo estúpida e imprestável, quando, numa visão democrática de igualdades teóricas, não se admite a realidade dos incapazes funcionais e todos os homens são inteligentes à partida, porque todos têm o mesmo direito a sê-lo e a dizer publicamente as maiores bacoradas, quando não a ocupar os mais altos cargos e a assumir as mais custosas  responsabilidades.



Segundo: a divisão classista em três é muito comum no decorrer da História humana. Uma divisão que além de socialmente classista é historicamente clássica. Inteligências superiores governantes, homens de fé e rebanho na utopia de Huxley, convertíveis no discurso da História em nobreza, clero e povo. Aqui, embora, sem o determinismo hereditário nas classes superiores dirigentes. Mas, como digo, estamos a falar de uma utopia, bem entendido.
Seria igualmente necessário formar e educar os milhões que comporiam a categoria do rebanho. Seria preciso inculcar-lhes desde muito cedo que, por exemplo, a felicidade era impossível fora do trabalho e fora da obediência.
Seria preciso convencer os milhões do rebanho de que eram felizes, de que eram até pessoas muito importantes e que delas dependia muita coisa, ou quase tudo, e que não havia nada que fizessem que não fosse nobre, inteligente, útil, significativo. Seria esta a ideal plebe do Estado da Razão. Para esses, o mundo conhecido constituiria o centro do universo e seriam convencidos de que o Homem é superior à terra e à natureza e a ambas comandaria a seu bel talante. A plebe de um Estado da Razão trabalharia as suas oito horas por dia. Obedeceria cegamente aos seus superiores inteligentes. Viveria convencida da sua importância e, depois de doutrinada pelos homens de fé, estaria certa da sua imortalidade. Seriam indivíduos felizes como nunca outra raça o fora sobre a terra. O membros do rebanho, sugestionados sempre pelos homens de fé,  levariam a vida em estado de intoxicação ou de hipnotismo e desses estados nunca seriam acordados.



        Mr. Scogan acrescenta:
- Os homens de fé seriam os copeiros deste eterno bacanal, usando o vinho entorpecedor que os superiores inteligentes e governantes, atrás de cena, em sóbria, triste e ascética solidão, preparariam para intoxicar os seus súbditos.



- E qual seria o meu lugar nesse Estado da Razão? - pergunta Denis, o jovem literato aspirante à glória das letras.
E Mr. Scogan tem dificuldade em colocá-lo.
- Não poderias fazer um trabalho manual. És demasiado independente e és muito pouco influenciável para pertencer ao grande rebanho. Por outro aldo… deixa ver… também não tens nenhuma das particularidades requeridas para seres um homem de fé. E quanto ás inteligências superiores… - oh, as inteligências superiores teriam de ser maravilhosamente lúcidas. Teriam de ser penetrantes, impiedosas. - Meu caro Denis, na verdade não vejo onde pudesses ter lugar no Estado da Razão. Talvez só numa câmara de gás.


Não sei qual o ano de escrita e de publicação deste romance de Aldous Huxley, Férias em Crome.  Mas, pela alusão às câmaras de gás, pode inferir-se a proximidade do evento a que ele se refere. Podem concluír-se uma série de coisas. Quem seriam os superiores inteligentes – ou quem possam ter sido, ou quem poderão realmente - e actualmente - ser? Pode perceber-se bastante bem quem são os homens de fé desprovidos de razão mas com o dom de conquistar e arrastar as massas para a loucura e para a guerra.



      Huxley pode ter procurado nesta fábula o compromisso entre os dois modelos políticos dos quais a Humanidade nunca pôde saír. A democracia e a tirania, a ditadura, regime escaldante e capaz de levar os povos em estado de unanimismo a realizar alegremente os projectos mais  irracionais e violentos.
Huxley pontua as debilidades funcionais de uma sociedade extremamente organizada, racionalíssima e idealmente justa, todavia impotente no motivar os povos para qualquer projecto colectivo e transfigurador.



        Porque a razão pura é impotente. Como disse Mr. Scogan.
Nesta fábula sobre o trágico destino do homem comum, Huxley aponta algumas vantagens da ditadura – e quanto mais louca a ditadura mais eficaz – em mobilizar as massas para desígnios ilusoriamente redentores, para guerras purificadoras, nas quais o rebanho – que é rigorosamente comum aos dois regimes – se envolve sem murmurar, antes pelo contrário, cheio de entusiasmo. Todavia, seriam sempre ditaduras mobilizadoras e capazes de feitos notáveis de toda a ordem e no entanto sem respaldo na razão comum, no vulgar bom senso, na justiça, ou sequer na realidade.



      Huxley resume os problemas da governação das nações e escolhe de cada uma das formas incontornáveis de governo dos povos o melhor que cada uma possa ter para oferecer.
Oferecer a quem? Ao rebanho?
Mas a fusão é obviamente uma miragem, uma utopia irrealizável.



E em suma, o rebanho: a componente social a quem se destinam as virtuosas formas de governo, as teorias e as práticas políticas, e em função de quem actuam os superiores inteligentes e ultra-racionais tanto quanto os dementes obstinados e convictos de uma verdade. Uma verdade que o é, sim, mas sempre em alternância com a profunda e torpe mentira que também é.


O rebanho é o motor, a causa e o efeito, o beneficiário e a vítima, seja da razão pura, seja da demência mística. O rebanho é o sujeito e o objecto. O rebanho é a finalidade e é o meio que executa  os projectos dos superiores inteligentes como dos insanos homens de fé.
- É reconfortante pensar - diz Mr. Scogan - que milhões levam a vida a mourejar nas terras e nas fábricas para que nós os dois  possamos divagar sobre estas coisas.
Mr. Scogan pensa que, como todas as coisas boas deste mundo, o ócio e a cultura têm de ser pagos. De facto, alguém terá de pagar, sempre, de pagar tudo. Quem. O rebanho.
- Felizmente não são os ociosos e as pessoas cultas que têm de pagar – conclui Mr. Scogan. - Devemos estar profundamente agradecidos, meu caro Denis. Profundamente agradecidos.



       Pois cá para mim, na minha douta e insubmissa ignorância, perguntaria quantas vezes um Estado de razão se confronta com as razões que o suportam. Aquilo que mais nos pode atormentar  da parte dos estados, por mais fundados na razão, não é a razão ou sem razão dele, Estado, são as diferentes razões a que ele se submete quando procura a sua própria razão. Falando do Estado ou falando de muitas outras coisas, são quase sempre as razões que ofuscam o brilho da Razão.


quinta-feira, 6 de março de 2014

     CONTOS DA MEDIOCRIDADE ACEITÁVEL

Em 1999: 4500 manuscritos de autores desconhecidos foram enviados à famosa editora francesa Gallimard; 2500 à Minuit; 3500 à Flammarion. Grasset recebe 60 textos por semana. Albin Michel 50 por dia. Mas se uns afirmaram que de há cerca de 10 anos antes as editoras francesas recebiam duas vezes menos manuscritos do que já haviam recebido, outros diriam que as remessas de originais pelo correio haviam triplicado.



                     



E tudo isto mesmo que se saiba que 99,9% dos textos de autores desconhecidos do público enviados às editoras são amavelmente recusados.

     

Em qualquer casa editora, pelo menos teoricamente, o primeiro crivo de leitura de um original de autor desconhecido elimina logo 90% dos manuscritos.


                                                    

A moral da edição. Os maduros que nunca escreveram uma linha de jeito mas que gostam do que os outros escrevem e arriscam o seu rico dinheirinho para dar a conhecer ao mundo aquilo que outros escrevem. Aquilo de que eles próprios gostam, já se vê, ou aquilo que o comércio livreiro lhes impõe como negócio.
Arriscar dinheiro a editar livros que o mais certo é não venderem o suficiente pode ser uma questão de moral. É com certeza.



Mas fala-se mais de quê? Daquilo que os editores não gostam, daquilo que eles recusam por não gostarem, ou daquilo que recusam por lhes poder ser prejudicial ao negócio.
Se calhar, a condição moral primeira de um editor que se preza é ter a coragem de recusar. Já Grasset, o famoso editor francês, no seu livro La Chose Littéraire, dizia que quase não chegava, em média, a publicar um em cada 50 manuscritos que lhe eram presentes.
       Vamos lá a ver, moral que seja o negócio, e cultural, tudo bem, mas os editores não são exactamente filantropos, nem as editoras são organizações de caridade. A finalidade delas é vender. E ganhar dinheiro. Ponto final
E já uma vez li numa entrevista do Gabriel Garcia Marquez, quando ele começou a levantar cabeça e a tornar-se uma celebridade, que enquanto ele, escritor que vendia muito bem pelo mundo inteiro, podia comprar, por hipótese, um automóvel, o editor dele poderia comprar cinco. Por mais moral e mais cultura que ande envolvida no ramo, os editores são, primeiro que nada, comerciantes, e lá governam a sua vidinha, e lá têm os seus negócios, as suas razões para publicar ou não publicar isto ou aquilo.
E quando gosta de um manuscrito, um editor pode perguntar-se: “a quantas pessoas poderei comunicar o prazer que experimentei ao ler este manuscrito? Qual é o meu interesse em vender este texto?”

           

Uma obra de estreia poderá não interessar pessoalmente o editor. Poderá entretanto interessar à casa editora, poderá interessar comercialmente. Grasset assevera com respeito à obra literária: é questão de admiração ou de desprezo. Não existem sentimentos intermédios. Mas também sabe que não é possível a um editor publicar apenas as obras que lhe interessam pessoalmente. Sabe que um compromisso é fatalmente necessário na selecção, porque uma coisa é a natureza absoluta do seu julgamento e outra muito diversa são os interesses comerciais da sua casa editora – e os gostos do público comprador, já se vê.

             

Mas pode perguntar-se: porquê tanto e tão intenso desejo de publicar uma prosa, sabendo-se da enorme dificuldade, da enorme concorrência?
E será que qualquer um pode ser escritor?
Pelo que se vê hoje em dia… pode.

                    

A literatura ensina a quem a pratica e ver-se a si próprio e a ver o mundo de uma maneira mais precisa e completa: frase do intelectual francês Jean Paulhan. E nem importará muito a qualidade de literatura que cada um possa fazer. Seja essa qualidade o que for, representa um esforço para observar o mundo como se o próprio lá não estivesse. Ou talvez seja mesmo esse o fim último de toda a literatura.
As pessoas escrevem, antes de mais, porque se sentem sós, isoladas no mundo, a bem dizer inexistentes – opinião de um leitor de uma grande casa editora francesa - , confissões, confidências, traumatismos, sonhos…

                 

                                                

Mas será que somos todos assim à partida escritores potenciais? Quero crer que não. Porém, ao contrário da música ou da pintura, todos nós, mais ou menos, dominamos o utensílio básico da literatura, sabemos escrever, sabemos os rudimentos, pelo menos, da nossa língua. Todos escrevemos cartas. E todos, por exemplo, na escrita de cartas, somos assaltados por um primeiro pensamento técnico-literário: “qual será a melhor maneira de interessar, de tocar o coração do destinatário da minha carta?” Muitos de nós mantêm, ou mantiveram, um diário pessoal e íntimo, que serviu muitas vezes de memorial e de guia de vida, e de vidas, acontecidas e por acontecer, e quase inconscientemente também para esse diário procurámos uma forma, uma eficácia, ainda que ele tivesse vocação de ser lido só por nós. Diz um editor francês contemporâneo que a prática da escrita, parecendo que não, é uma prática de massa, quase como o desporto de massa. A escrita é, portanto, património de todos. Todos aspiramos à narração, todos gostamos de contar, todos queremos contar, contar…


Ou será que publicar é um direito tão incontestável como o direito de escrever e de contar o que nos apetece? Claro que não é.


Publicar uma prosa ou umas versalhadas é, para muita gente, o ápice da realização pessoal, é o ser-se considerado e reconhecido pelo mundo, é ter um estatuto e uma respeitabilidade de ordem incomum. Ser um escritor.
Mas publicar pode não ser a parte mais difícil desta gigajoga de ser escritor. Pode não ser. Pode ser incomparavelmente mais difícil, depois de ser publicado, ser lido. Quero eu dizer, ser vendido. Ser muito lido significa vender bem aquilo que se escreveu. E ser escritor é merecer ver publicada uma segunda obra.

                                                    

Haverá que escolher nesta coisa da escrita, parece-me a mim, uma de duas frustrações: ou ser sistematicamente recusado pelas editoras; ou ser aceite por uma e não ser lido, não vender, não merecer uma segunda chance, ir para o rol dos embrechados, ter estatuto de mono editorial.


Porque também há que contar com a promoção do objecto, sim, do objecto indefeso que é um livro. Um livro que o vendedor pode pôr a venda na montra da loja, no principal escaparate da casa, ou numa prateleira tão baixa que logo à partida nos convida a não curvarmos a espinha, ou numa prateleira tão alta que o livro fica ali só por ficar, sabendo-se que ninguém lhe conseguirá ler distintamente o título.
E porque é que o livreiro pôs o livro acabado de receber da editora na montra, com grafismos e chamadas de atenção para ele, e não o pôs na prateleira do fundo ou na prateleira do alto? Porque alguém lhe pagou percentagem para ele o pôr na montra e não o esconder numa prateleira. E quem pagou? E pagou quanto?  E quem lhe pagou a publicidade nos jornais e nas televisões? Bom, será melhor não avançarmos muito por este caminho…


Claro que hoje já se pode ser escritor de Internet. A Internet é uma nova modalidade de glória literária, outro meio de auto-edição, ou de edição de autor – aquela edição a que, salvo raríssimas excepções (Miguel Torga), e fora dos círculo dos amigos, ninguém passa cartão, porque não é publicitada, porque não está nas montras nem nos melhores escaparates, porque não é promovida. Porque, se calhar, não foi bem distribuída. Mas mesmo na Internet o problema de encontrar leitores e de os interessar persiste. É preciso criar um site, um blog (como este) torná-lo apetecível. Também há meios e círculos a que pertencer no ambiente cibernético.
O autor desconhecido que se dirige a uma editora, se não o envia pelo correio, traz consigo o seu manuscrito e insiste em avistar-se pessoalmente com o dono da casa, o nome famoso da edição. Quer ter a certeza de que será ele a ler o seu romance, pondo muitas vezes  esse detalhe como condição de entregar o manuscrito àquele editor.

                                



Mas muitos dos originais – os que mais nos interessam agora para o caso - chegam às editoras pelo correio. Alguns chegam a aparecer acompanhados de caixas de whisky. Outros levam cartas extensas do próprio autor a explicar o que quis dizer  verdadeiramente na sua obra. Outros ainda proclamam a originalidade da sua história, porque são pessoas pouco lidas e podem afiançar que nunca ninguém tratou aquele assunto e que nunca ninguém contou aquela história, porque a candura dos jovens autores desconhecidos, dizem,  é muita.


Mas, claro está, cerca de metade – estou a reportar-me ao universo francês – dos manuscritos avaliados nas editoras, são recomendados. Não há maneira melhor de publicar nem que seja a maior das mediocridades e das xaropadas do que ser-se recomendado. Por quem? Ora por quem… por escritores, por jornalistas, por livreiros. Ou por amigos influentes. Amigos de uns e de outros. Mas também acontece um pouco em França os grandes prémios literários adorarem consagrar desconhecidos.


Suponho que uma das grandes preocupações de um estreante que manda um manuscrito a uma editora é a convicção de que vai ser realmente lido de princípio a fim e de que o seu manuscrito, por falta de recomendação ou de cunha, não é passado em branco, posto de lado como coisa que, se não foi recomendada é porque não interessa. E é evidentemente isso mesmo que acontece. Ninguém lhe vai ler o original porque ninguém o recomendou. Por isso muita gente perguntava a Bernard Grasset se lia de facto, pessoalmente, todos os manuscritos que lhe enviavam e se era ele a tomar todas as decisões de recusa ou de publicação. E o mesmo Grasset assegura que em muitos casos, quase a maior parte, o processo desencadeava-se pelo conhecimento pessoal. E diz mais, diz que guardou, agrafados aos relatórios de leitura de manuscritos insignificantes, ou mesmo intragáveis, as cartas e os  entusiásticos bilhetes de recomendação de muitos grandes nomes da literatura a insistir para que publicasse as maiores mediocridades escritas pelos amigos.
Sim, pois, o amiguismo. Já em 1929 o amiguismo literário estava por todo o lado e conduzia a tudo. Nem que fosse na literatíssima França.
Bernard Grasset assegura que é ele em pessoa a cortar os cordéis da encomenda de um manuscrito de autor desconhecido acabada de chegar ao seu escritório. Bernard Grasset abre o pacote. Detém-se na primeira página. A importância que pode ter uma primeira página…

                                                             

     
      E a primeira página é decisiva para Grasset. Grasset lê a primeira página. E como é um romântico impenitente fica invariavelmente na expectativa de se deparar com uma obra-prima, espera sempre de uma primeira página uma espécie de revelação. Enfim, espera a obra prima mas, cuidado, está sempre com a alma pronta para a decepção, porque as obras medíocres são indiscutivelmente mais numerosas do que as obras de talento.
Mas pergunto se será de exigir que todas as potencialidades de um livro  se revelem logo na primeira página.


Parece que não. Grasset, não espera ficar maravilhado numa primeira página. Isso seria uma excepção, um milagre. Mas uma primeira página pode dizer muita coisa sobre tudo o resto, pode prender ou desinteressar – eu por mim nem diria uma primeira página, diria uma página, uma qualquer página; numa livraria, ao ler uma página (quantas vezes um parágrafo) de um livro de ficção, percebo logo até que ponto vai a minha consonância com o autor, até que ponto a obra me interessa e porquê. Uma questão de instinto, de treino, e de se saber o que se pretende de um livro, um livro que se queira dar a conhecer ao mundo, ou um livro que se queira simplesmente comprar.

                     

Bom, Bernard Grasset vai lendo, passa a primeira página, a segunda, leva o manuscrito para casa, recolhe-se com ele, vai lendo. Vai lendo até que se choque com a falta de qualidade, com a mediocridade do manuscrito. Nesse caso devolve-o imediatamente ao autor. Mas quando o original logrou interessá-lo, Grasset faz dele a sua tarefa pessoal.


Paul Otchakovsky-Laurens, da editora Albin Michel, também faz muita questão de ser ele a abrir os embrulhos de manuscritos que chegam, e diz que é um trabalho excitante, abrir, folhear, ler linha aqui parágrafo ali, sensibilidade desperta à espera de alguma coisa que o provoque no manuscrito de um desconhecido.
Reparem em três opiniões de editores quanto a critérios de publicação:
Um escritor reconhece-se logo quando se lê, quando temos vontade de virar a página, quando se está perante um universo pessoal, perante a força de uma personalidade.


       Quero reconhecer os textos que farão avançar o mundo e cintilar uma época.
  
                                                                     

       O que procuramos é o nunca lido, uma determinada espécie de de escrita, de encenação literária.


O tema do manuscrito do escritor desconhecido: será apaixonante? Instrutivo? Actual? De acordo com a moda? Ultrapassado? Trágico? Heróico? Regional? Humorístico? A que público se dirige, homens, mulheres, infantil, especializado?
Sinceridade de escrita, no critério de Bernard Grasset. Nada de efeitos fabricados. Uma obra que responda forte e sinceramente a um profundo desejo de a escrever e de a publicar, a uma necessidade forte de se “dizer” aos outros. O contrário da mentira literária do principiante que apenas pretende fazer figura de escritor e que gosta de ser olhado pelo mundo e pelos amigos como um escritor.

                   

Mas por alma de quem, perguntar-se-à, e em nome de quê, se recusa a esmagadora maioria dos manuscritos primeiros apresentados a uma editora?
Grasset responde: em nome do gosto, do bom gosto, vamos lá. “Mas será você o juiz perfeito do gosto? Será você a última e decisiva palavra quanto a gosto literário? Não será pretensão a mais?”
É que se um editor não acreditar que possui um sentido do gosto e da coisa literária suficientemente seguro para estar certo de que uma obra de valor nunca por nunca poderá escapar à sua clarividência, deve imediatamente mudar de profissão. Mas a questão também se joga muito no chamado conselho de leitura de uma casa editora, uns senhores assalariados, escritores, críticos, professores, que podem recomendar ou desaconselhar o original de um desconhecido. Os conselhos de leitura das editoras podem fazer de um manuscrito inteiro de autor desconhecido uma primeira leitura rápida - entre três e dez minutos por cada original, calculem. A maior parte deles são imediatamente eliminados, postos à disposição do autor – ou recuperá-los, ou deixá-los ir para o lixo: as editoras têm uma carta previamente escrita, impessoal, a recusar o manuscrito e a deixá-lo à disposição do autor desconhecido. Uma carta que é enviada ao autor passado cerca de um mês. Um mês, ou dois, por uma questão de boas maneiras, para dar a ideia de que o seu manuscrito levou um mês ou dois a analisar pelo conselho de leitura, quando pode ter levado uns breves dez minutos.


Bernard Grasset manda ao seu conselho de leitura os livros que numa primeira vista de olhos não o desiludiram por completo. Pede um relatório. A decisão deixa de depender unicamente do seu critério. Passa a depender de uma espécie de média tirada entre as opiniões dos membros do seu conselho de leitura.
Em geral, ainda segundo Bernard Grasset, cabe aos conselhos de leitura o papel de advogados da mediocridade, por serem eles os indispensáveis curadores dos valores médios de quanto se publica.

                            

Eu não sabia, mas pelo que li num número já antigo da revista francesa Lire, a primeira coisa que os membros dos conselhos de leitura se perguntam quando pegam num original desconhecido é “que idade tem o autor?” – e se for uma autora, mais perguntam. E também lhes interessa eventualmente a qualidade da carteira de contactos do autor ou autora desconhecidos. É melhor que essa carteira seja apreciável. E, diz quem sabe, vale mais ser jovem e bonita do que velha e frasco, se se quer ter hipóteses com um manuscrito de estreia. E fiquem sabendo que se dá atenção máxima aos assuntos que estão em voga no momento. As confidências de um serial killer ou de um pedófilo têm edição garantida, hoje em dia, acho eu, e podem ser mesmo disputadas por vários editores.

     

(Ou será por isso mesmo, a voga, os temas e as personalidades do momento, que a prosa portuguesa do presente é em muito dominada pelos apresentadores de televisão, pelas modelos mais faladas nas revistas, pelas actrizes de telenovela ou pelos simples locutores de telejornais, finamente designados por pivots… )

                                   

Umberto Eco pôs-se uma vez na pele de um membro de conselho de leitura de uma editora e depois publicou os seus relatórios de leitura fictícios. A Bíblia tinha sido presente ao seu critério de edição e Eco, no seu relatório, desaconselhava vivamente a publicação, a publicação da Bíblia, sublinhe-se: não passava de  uma salsada monstruosa que de certeza não iria agradar ao público.
  
                                                            

Sobre o D. Quixote, ficava a sensação de que o autor tinha acabado de sair da penitenciária e que andava mal de vida. E quanto a Proust, sim, talvez, mas era urgente rever toda a pontuação.
(E já que se fala de Proust, é bom não esquecer, que André Gide era um jovem leitor ajuramentado de uma casa editora – Galimard, creio - quando desaconselhou a publicação da Recherche do mesmo Proust.)


Mas vá lá que quando um editor quer mesmo publicar um autor desconhecido, está-se marimbando para o conselho de leitura. E a pergunta premiada é: quando é que um editor que mesmo publicar um autor desconhecido contra o parecer do seu conselho de leitura? Ora bem, quando ele vem bem recomendado. Quando com as recomendações ele lhe traz garantias financeiras de não perder o seu rico dinheirinho; ou seja, quando o autor conta com o apoio de um patrocinador; ou quando ele, autor, tem de seu o suficiente para comprar uma primeira (ou uma segunda, sabe-se lá) edição do seu próprio livro.
Se um editor não publicar senão as obras que se impõem, que possam trazer algo de novo e de bom às letras, aquilo a que Grasset chama as obras necessárias, terá contra si todos os escritores medíocres da vida ( que é o que mais há), exactamente aqueles que fazem a opinião.

               

Porque a opinião em geral, e a literária em especial, não é feita por alguns poucos homens de génio que atravessam uma época, mas sim pelos profissionais da literatura, incapazes de se elevar acima da concepção que na época deles vigora sobre a escrita. Essa concepção meramente temporal, limitada, digo, pela moda do tempo, é a que, segundo a crítica, terá de servir de bitola aos talentos.
Pois é, uma nova obra literária, para ser publicada, deve equilibrar-se pacificamente entre os valores médios do seu tempo. Restando saber qual o grau de mediocridade intelectual e literária que é aceitável em cada tempo, em cada moda, e qual o grau a partir do qual, em cada época e segundo cada moda, a mediocridade é impossível de tolerar.
   
                                                                   

É. A mediocridade pode ser, tem que ser, a bitola de tudo, a referência, o padrão, a partir dos quais tudo é ou não é. A mediocridade e não o génio. A vida é assim. A vida e as vidas não podem ser governadas pelo génio. Seria o caos, o apocalipse. E o bom viver só existe se pautado por uma mediocridade aceitável – diria facilmente aceitável, em cada tempo, em cada moda.
Numa casa editora é ao conselho de leitura que cabe esse papel de juiz da mediocridade aceitável, ao dizer: “pode-se publicar esta obra, porque ela não é pior do que esta, aquela e aqueloutra que esta casa já editou.”
O mundo das letras (e o da política?) pertence aos medíocres. São eles a maioria. E são eles que fazem a opinião – não sou eu, má língua, que o digo, é precisamente o famoso editor francês Bernard Grasset que o afirma.



Bom, e se no conjunto das publicações de uma editora não encontrarmos muitas obras que tragam qualquer coisa de novo e de bom ao mundo das letras, não é necessariamente defeito do editor, é questão de indulgência, da indulgência que é própria do nosso tempo.
Bernard Grasset escreveu estas coisas em 1929. E, segundo leio e segundo tenho conhecimento, tudo isto é assustadoramente actual – então no que se refere à indulgência do tempo nem vos digo nada…
       Grasset fala, em 1929, da perda do respeito pela coisa escrita. (Coitado.) O que permite dizer a muita gente, em face daquilo que se publica hoje em dia (e em 1929 parece que também),”então se aquele ou aquela publicaram, porque diabo não poderei eu publicar também as minhas redacçõezinhas, as minhas memórias, a minha vida que dava um romance tão lindo. Não terei eu o mesmo direito?”
          Pois é. Não tem. E ao mesmo tempo tem, claro que tem.

                                                          


O sucesso, é bom que se note, o sucesso em literatura e em edição, constitui uma excepção à grande regra da mediania, da banalidade. Da mediocridade. E demais, seria perigoso pretender que foi unicamente o valor literário de uma obra aquilo que a impôs ao gosto do público. “Aquilo que o público gosta”, costumava, e costuma, dizer-se. Fórmula e critério que, segundo alguns mais experimentados do que eu, não passa de uma ideia pueril e que contém em si não pouco desprezo pelo público.
E de tudo isto me lembrei anteontem a propósito do número considerável de pessoas que por carta, por telefone ou pessoalmente, ao longo dos meus anos de Antena 2, solicitaram os meus textos e me perguntaram quando me resolveria a publicá-los em livro. E eu nunca me resolvi. E nem nunca nenhum editor pareceu interessado nisso. Provavelmente por todas ou algumas das razões que eu desfiei atrás.

                

E daqui me vem a convicção: literatura universal?, oh, senhores, literatura universal foi, é e será apenas aquilo que os editores queiram que seja – recomendada, bem capitalizada, etc.. Porque aquilo que um editor escolhe passa a ser literatura. É literatura. E aquilo que um editor recusa, não é literatura. Nunca será literatura. É assim e acabou-se.
Aliás, o nosso Bernard Grasset entende mesmo que a lógica e o verdadeiro interesse da grande literatura mandam que uma obra cuja publicação não se imponha por si jamais deverá ser publicada. E… bom, não sei o que seja isso de uma obra se impor por si se não levar um empurrão dos outros, de alguém, de algum lado, se não trouxer bom dinheiro atrás dela.


Mas enfim, está bem. Eles é que sabem. E agora é que com propriedade se pode dizer que eles é que têm os livros.


                            


Ou então, esta coisa de escrever e ser editado são tudo histórias, tretas, acasos. Ou, como o próprio Bernard Grasset disse em 1929, contos da mediocridade mais ou menos aceitável.