sexta-feira, 4 de abril de 2014

                  O ESTADO COMO MODELO
                     DE VIOLÊNCIA SOCIAL

      Ou sou eu que estou redondamente confundido, ou houve uma das chamadas agências de gestão de risco que que incluiu para este ano Portugal (e pela primeira vez) no mapa de risco político e de latente violência pública, e assim em consequência da conjuntura crítica em que o país vive.
        Até hoje não dei por nada.
      
      
      Mas ao colocar Portugal num grupo de risco de violência pública, de violência social, dir-se-ia que essa agência internacional tem em vista, e fundamenta-se, num princípio de ritualização da violência pública em si mesma, prevendo a sujeição dos actos a um conjunto de normas operativas aceites e ritualizadas.
Num primeiro passo do ritual, o Estado implementaria medidas desequilibradas ou injustas sobre a população, e num segundo tempo cerimonial a população revoltar-se-ia contra essas medidas e praticaria uma quantidade de distúrbios públicos. E seria ritual porque seria, além de simbólico, lógico, e normativo, acção e reacção, causa e consequência óbvia. E tudo isso no quadro de uma civilização de violência, tendente a devassar os limites burgueses do bem-estar e a passar de uma revolta metafísica aos alvores de uma revolução social.


    Pois a mim impressionaram-me sempre aqueles que cassandramente vêm profetizando a próxima eclosão das violências sociais no brando e resignado Portugal. Desde a chegada da primeira delegação troikista que se lê e ouve a mesma profecia. E dita não pelas agências internacionais, nem por uns quaisquer zés-ninguém, mas prevista por gente de inquestionável estatura intelectual e política.
       É facto que se têm visto pela televisão os tremendos movimentos insurrectos que correm esse mundo, Atenas, Madrid, Barcelona, Istambul, Brasil (upa, upa), Ucrânia...


E, sempre no respeito da ordenança ritual, esperou-se qualquer coisa do género por cá. Seria simbólico, lógico, normativo. Mas por cá, por enquanto, algumas manifs empolgantes e cordatas, sim, e devidamente enquadradas pelos poderes sindicais. No máximo, soube-se de pequenas escaramuças nos arrabaldes de S. Bento a correrem por fora dos eixos de uma Intersindical de horas marcadas, sempre atenta ao severo mandamento de que uma violência sem tensão revolucionária descambará facilmente em violência reaccionária.


        Mas talvez não seja erro notável dizer que as revoltas populares de Atenas, Madrid, Istambul e Brasil pouco, que se perceba, terão alterado a implacável ordem das coisas instituída nesses países.Os governos, e respectivos sistemas de actuação, como é evidente, estão, neste momento histórico, em perfeitíssimas condições de absorver sem pestanejar os protestos, ou mesmo de integrar esses protestos no seu próprio modo de funcionamento e na mesma implacável ordem das coisas.


    O sistema global da economia sempre percebeu muito da psicologia e dos dados motivacionais das massas. No nosso caso, percebeu muito do jogo dinâmico disputado entre a probabilidade de mobilização e o formidável impulso da desmobilização que palpita no mais íntimo do ser português. Daqui a própria dinâmica de revolta popular passar a fazer parte do arsenal auto-defensivo do governo financeiro global, no momento em que a violência popular poderia ser o elemento contrapontístico da correspondente violência de uma autoridade – neste caso económico-financeira. E isto assim a fingir que acreditamos que existe mesmo uma violência popular espontânea e desenquadrada e nunca por nunca arrebanhada e paga por gente muito estranha às massas populares de cada Estado.
    A eclosão de uma violência política e social na sociedade portuguesa, se determinada pela causalidade concreta que é a insuportável devastação das condições de vida de tanta gente, seria uma violência de claros objectivos e de límpidas motivações. Simplesmente, aquilo a que de actos violentos doravante se assiste na terra dos brandos costumes remete para uma violência meramente individual, passional, familiar. Ou uma violência pela violência, sem finalidades nem objectivos precisos ou relevantes – e muito menos políticos. Possivelmente a tal violência incompreensível segregada por uma sociedade metida à obsessão do bem-estar e da segurança.


     É corrente supormos que ao vivermos em sociedade de abundância os riscos de erupção das violências políticas e sociais estão afastados de nós, e visto que eles são inerentes à vida numa sociedade de penúria. Errado. Numa como noutra das sociedades as violências espreitam. Será talvez a sociedade da abundância a que tende a produzir mais episódios públicos violentos sem finalidade aparente, uma qualidade de violência, por assim dizer, diversa de uma violência política e economicamente objectivada, justamente a que se espera seja segregada pela sociedade de penúria.
     Sim, claro, a abundância acarreta a suas fundamentais contradições produtoras de violência. Ainda mais quando se vive numa sociedade dita da abundância e se descobrem nela as pegadas fundas e frescas da penúria, e quando se conclui que se viveu foi na sociedade da ilusão…
        Posso é perguntar-me cinicamente quem é que em Portugal pode ser a vanguarda de uma violência social a explodir um destes dias nas ruas.


        A Intersindical nunca. E bem. E nunca porque fidelíssima cumpridora dos rituais; e porque a tais violências de rua seguramente faltariam as tensões revolucionárias e logo as arruaças se transformariam em acções de violência reaccionária que em nada poderiam favorecer a justa luta dos trabalhadores. A Intersindical faz parte de uma ordem das coisas e assegura com escrúpulo o regular funcionamento dessa ordem, em funções protestativas toleráveis, a começar às seis e a acabar às dez, adstritas ao razoável e sem deslizes para a margem dessa ordem das coisas onde se integra a sua função institucional.


        Então, quem? Serão os estudantes a dar vigor à justa revolta popular – todos nos lembramos, como é óbvio, do Maio de 68. Mas por mim duvido. A menos que essa violência esteja já contida no outro ritual violento e gratuito que pode ser o das praxes académicas. E porque, ora adeus, estudantes com visão social e política eram aqueles grávidos de ideologia dos anos 60 e 70. Chão que deu uvas. 


     Talvez até porque os universitários de hoje em dia, com a democratização dos ensinos, já não sejam filhos de tão boas e abastadas famílias e não tenham quem lhes financie as rapaziadas ou as cavalarias altas da subversão, e por isso pensem primeiro que tudo em tirar o cursozinho de Economia e Gestão (ou de uma das muitas engenharias que agora há), e depois… ou Samsonite aviada para a Suíça ou para a Inglaterra (se ainda forem a tempo), ou chegarem-se ao sopé do conselho de  administração de uma empresa de topo, serem absorvidos pela ordem geral das coisas e curtirem a vidinha na sociedade da abundância.


        Será a classe operária a liderar a insurreição pública? Noutro tempo não lhe competiria menos do que isso. E hoje talvez continuasse a ter excelentes razões para o fazer. O que pode acontecer é a classe operária não ter já tanta consciência de si enquanto classe, em comparação com os outros tempos, e depois de operária a classe ter sonhado ser pequeno-burguesa e tratado de se integrar na ordem das coisas da sociedade da abundância, do bem-estar e da segurança.


      Então só podem ser os desempregados a agitar a bandeira da revolta popular.


        A questão é que grande parte dos não sei quantos milhares deles estão desesperados e nem por nada lhes passa pela cabeça agravar a situação em que já estão pegando em cocktails Molotov, dando por paus e por pedras, estilhaçando montras, invadindo S. Bento, insultando a reformada presidente lá daquilo, pilhando bancos, e o diabo a sete.
       Além dos desesperados, temos os de longa duração. E por de tão longa duração ser o calvário desse desemprego já eles esqueceram a condição de desempregados, quer dizer, já só são revoltados, potencialmente violentos, sim, mas canalizando as violências para outros territórios mais chegados, mais privados – bater na mulher; ou, se for caso disso, matá-la mesmo, alegadamente por ciúmes.


      Deixando os desempregados, e passando por alto os empregados, os profissionalmente activos que não têm tempo para revoltas e se limitam a cumprir os horários cada dia mais leoninos e a trabalhar nos dias santos que estavam habituados a guardar, restam os mais afectados pela tal conjuntura de crise e pelas medidas do governo: os velhos, os reformados.


      Quem havia de ser? Quem havia de dizer?


    Os mais velhos e os menos bem reformados, digo, porque ele reformados há muitos. Os menos bem reformados, no vigor dos seus 60, 70 ou 80 anos, teriam as mais fortes motivações para partir para o desacato público, para marchar contra a polícia de choque, para invadir o Parlamento armados de catanas, a darem também eles por paus e por pedras, a partirem tudo, a insultarem a colega reformada presidente lá daquilo.


Pois sim, a acontecer a profetizada violência civil derivada da conjuntura de crise só consigo ver na vanguarda dela os reformados, os pensionistas, os mais velhos, os mais mal reformados.


        Enfim, simplificando, a mais forte motivação para a violência pública será a fome. Quem, na conjuntura de crise, se arrisca a passar mais fome?


        Até apetece meter aqui a citação de um desusado Wladimir Ilitch Ulianov – mais conhecido pela alcunha de Lenine: a liberdade na sociedade capitalista é sensivelmente sempre como o foi na Grécia antiga, uma liberdade para os proprietários de escravos. E em consequência da exploração capitalista, os escravos assalariados de hoje vivem tão oprimidos pela necessidade que se desinteressaram da democracia e da política (…) e no decurso normal dos acontecimentos a maioria da população acha-se apartada da vida política.
Será a fome a levar os portugueses, por mais reconciliados com a ordem das coisas na sociedade da abundância, para a revolta social. Mas só se me esquecer dos records de levantamentos no multibanco batidos todos os anos pelos portugueses por alturas do Natal; só se me esquecer dos tantos que continuam a ir de férias (Natal, Carnaval, Páscoa, verão) para o Brasil e para as Caraíbas -  os destinos de férias da Páscoa já esgotados este ano (dos jornais); só se me esquecer dos portugueses da sociedade da abundância que continuam a ir todos os dias de carro para o trabalho e a engarrafar monstruosamente o trânsito das manhãs e do fim das tardes.


      Serão uma minoria estes que acabo de mencionar? Não sei. Estou em crer que sim. Mas a maioria, que é dela? Continua silenciosa, como sempre. Está em casa, recolhida, a pedir a todos os santinhos da corte do céu que o Estado, através do seu braço armado que é o governo, não exerça mais violência sobre eles.


      Quem tem exercido (e continuará a exercer) mais violência social no país da conjuntura de crise do que o Estado mesmo?

           

A violência social, bem se pode dizer, tem sido monopólio do Estado. E nem estou a ver no espectro sócio-institucional quem possa ter mais competência do que o Estado para cumprir as profecias da violência cívica – a pública e a privada.
        Ao cobrar impostos – e isto é dos mais velhos livros -, e sem ter de recorrer à força policial, a chanfalhos, cargas de água ou gases que fazem do mais teso dos revoltados um chato choramingas, o Estado exerce a sua fundamental violência sobre a sociedade. E mais violência, e mais brutal ainda, quando a infâmia fiscal se abate privilegiadamente sobre os mais velhos, os menos bem reformados e mais vulneráveis dos seus governados.
As contribuições de compulsiva solidariedade lançadas sobre os que evidentemente vivem da solidariedade social mais não são do que os chanfalhos, as cargas de água, os gases e as balas (por enquanto) de borracha.


Contribuição de solidariedade. Solidariedade em benefício de quem? Sem dúvida que em benefício dos detentores de cargos públicos e das respectivas e imutáveis mordomias. Sem dúvida que em benefício dos jovens introduzidos à pendura no aparelho de Estado para assegurarem as mais caninas lealdades ao seu partido. Sem dúvida que em benefício dos banqueiros. Sem dúvida que em benefício dos parasitários deputados, esses sim, os  grandes falsificadores da democracia que compõem as leis mais conformes aos seus interesses privados, que estão todos serenamente de acordo numa feliz unidade esquerda-direita quando aumentam os próprios salários e as próprias benesses, que acumulam a deputação com posições em escritórios de advocacia milionariamente pagos para fornecem pareceres ao governo…


Sim, senhores, é aos mais desprotegidos, nomeadamente aos reformados, que cabe o duro encargo moral de salvar o país da bancarrota para onde o atiraram aqueles em que temos alegremente votado de há 40 anos para cá. Cabe aos mais desprotegidos e carecidos de solidariedade solidarizarem-se com quem os tem enganado e contribuírem que nem uns heróis para o funcionamento da gigantesca máquina agressora que é o Estado.


E só não se poderiam considerar como violência (e porque não terrorismo?) de Estado as imposições de solidariedade aos mais pobres em benefício dos mais favorecidos se se reduzisse o conceito de violência pública a comoventes gases, a refrescantes cargas de água, a suaves cassetetadas e macios impactos de balas de borracha. Se toda a violência do Estado se resumisse a repressão física. Ou seja, a tudo aquilo que nos cardápios da violência da sociedade do bem-estar e da segurança passa a estar definitivamente ultrapassado, em comparação com a imposição da fome a uns para a fartura de outros.

 

Sim, sim, demagogia, pois, mas também coisas que irritariam um santo…
E nem é preciso ir buscar o Kropotkin para dizer que o Estado, de uma maneira ou de outra, é a forma política do privilégio, e que a existência dele assenta sobre a força – que já foi militarmente violenta, e que hoje lhe basta ser económico-financeira, embora nem por isso menos violenta; ou até pelo contrário, hoje muito mais eficaz.


Nem é preciso dizer anarquisticamente o que já se sabe e já se sente no corpo e no estômago: que o Estado é opressão organizada e moralmente legitimada para proveito de uma minoria de privilégio – minoria bem grandinha, vamos lá com Deus...


Poder-se-ia então concluir apressadamente nos tempos que por aqui correm pela efectiva realidade de um excesso de Estado em contra-mão das convicções liberais que nos dizem que o Estado intervém e protege por demais. Excesso de Estado, digo eu, não por aquilo em que ele intervém como regulação das vidas e dos mercados, mas por aquilo em que ele não intervém nessa mesma regulação, e numa dita conjuntura de crise.
Nada existe mais do que aquilo que não existe, como dizia o outro, e há entidades e instituições (tal como pessoas singulares ou mitologias) que se afirmam muito mais eficazmente pela ausência do que pela presença.


A faceta tendencialmente liberal e não-interventiva do Estado apático na economia favorece as injustiças, já se sabe, e criará uma constante virtualidade de desordem pública pelo escavar do que de crise social decorre da ausência do Estado em solidariedade e regulação.


Será questão de uma ponderação moral entre o lícito e o ilícito, considerando a matriz injusta e ilícita da violência pública indiscriminada. Mas pense-se na natureza injusta, moralmente ilícita e muito mais socialmente gravosa que o Estado impõe de penalização sobre os estratos menos favorecidos da população, premiando uma pequena parte dos seus cidadãos com a manutenção intocada de alevantados rendimentos, e condenando mais larga parte desses cidadãos à miséria e à fome pela sua posição de recuo enquanto moderador de ganâncias económicas.


A acontecer por estes reinos essa objectiva violência popular, os agentes dela estariam a tomar uma atitude moral. Mas o mais certo é não vir a acontecer, claro, porque na civilização da abundância, da segurança e da violência haverá sempre quem recuse a moral do confronto aberto e sadio e adira de corpo e alma à outra moral, a do compromisso. A bem da decrepitude democrática, é certo. A bem da resignação social e da perpetuação do estado das coisas, também é certo.




sexta-feira, 28 de março de 2014


     OS IRMÃOS MARX AFINAL ERAM SEIS


O cinéfilo que só se preocupe com a História do Cinema nem sabe disto.


O Groucho, o Harpo, o Chico, o Gummo e o Zeppo. Cinco. O Gummo e o Zeppo foram desaparecendo da cena já não me lembro porquê, se é que alguma vez o soube. E também não conto com o que morreu ainda miúdo, o Manfred. Mas vou contar com um outro menos conhecido, ou pelo menos pouco conhecido no ramo a que os outros cinco genialmente se dedicaram.


Claro, amigos, estou a referir-me ao Carlos, o dialéctico.
Às portas de Abril lembro-me sempre dos Marx, e em especial do Carlos, e ainda mais depois de ter lido não sei onde o mea culpa de Otelo Saraiva de Carvalho quanto à reforma agrária…


Bem gostaria eu de poder falar sobre os outros, o Groucho, o Chico, o Harpo, e até o Gummo e o Zeppo. Mas não tenho elementos. E por isso tenho de me contentar com o Carlos, com a loucura, o humor ou o non sense do Carlos, que alguns opinadores ainda consideram o mais sério e ajuizado dos irmãos Marx, enquanto outros, mesmo assim lhe acham pilhas, o dizem um estouvanado, e acham uma pena ele não ter feito filmes cómicos como os outros. E eu diria: sisudo, está bem, mas, apesar de doente crónico da dialéctica, não menos provido de loucura, humor, non sense… e irreverência, sobretudo. Embora sempre de palavras sérias e desencantadas, barbaçana respeitável e expressão façanhuda. O Carlos Marx. Ao tempo que não sei nada dele.  Pergunto-me, eu e alguns amigos: se ele ainda contasse alguma coisa no mundo destes anos 2000, que diria?
Talvez ele, Carlos Marx, apesar do aspecto e do que deixou dito, não fosse substancialmente um filósofo. O que não significa que não fizesse a sua perninha no pensar mais alto. Talvez fosse mais um economista, um sociólogo – ou, no fundo, um cómico que se entretinha e divertia mais pelas filosofias e pelas economias do que pelas pilhérias.

                                                                                            

Hoje, pelo menos nós, os mais antigos, os que ainda vimos os flmes dos irmãos, quando falamos dele pensamos logo num revolucionário de faca na liga e bomba aparelhada e fumegante na mão. Mas o bom Marx, o impagável Carlos, cismava muito. Era mesmo um pensador. E pensando, perguntava-se: que diacho de leis presidem ao comportamento humano? Como será possível mudar a vida dos homens sem infringir por demais essas leis?


E numa teoria geral do Homem, seu comportamento e suas leis, o Carlos, englobava filosofia, economia e sociologia. Uma totalidade que ele queria deslindar. E começava por filosofar, ele e o amigalhaço, o Frederico, o Engels, Friedrich Engels, outro barbaças, um metafísico que ria até chorar com a cena do camarote do navio em Uma Noite na Ópera e com o médico de Um Dia nas Corridas, quando às vezes acontecia falarem dos irmãos do Carlos, e porque o Frederico, afinal de contas, era um dialéctico em último grau e já desenganado pelos médicos – por isso é que eles se davam tão bem.

                                                                                           

Atribuem a um deles, já não sei se ao Carlos, se ao Frederico, ou aos dois, a expressão materialismo dialéctico – uma degenerescência grave dessa doença, a dialéctica. Está mal. É falso. Eles podiam sofrer disso, mas não falaram disso nesses termos. Pois não. O primeiro que falou em materialismo dialéctico foi um célebre paciente russo que deve ter apanhado dialéctica numa viagem ao Cáucaso, aos Urais, à Sibéria, não sei, e se chamou Plekhanov.
Marx, o Carlos, não ia à bola com a filosofia. Preferia Uma Noite em Casablanca. Por entender que não havia interesse nem proveito nenhum em estudar as ideias em si mesmas, só por si mesmas. As ideias eram uma parte da actividade humana. Uma parte. Só se nelas se contivesse a tal totalidade dessa actividade humana, fosse a do indivíduo isolado, fosse do grupo de indivíduos.


E lá vem então a dialéctica. Às vezes, O Carlos descuidava-se com os medicamentos e tinha ataques de dialéctica, pois. E lá vinha os sintomas dolorosos mas aliciantes da teoria e da prática. A teoria não vale um chavo por si mesma. E a prática pode não ser grande coisa sem o fundamento teórico. Logo, as ideias, as teorias não podem ser separáveis da prática, do concreto dos actos humanos. E os actos humanos, regra geral, não se regem pela madura reflexão, nada têm de reflexão teórica, as mais das vezes. Apenas acontecem. E quem diz actos humanos diz as humaníssimas fezadas, as crenças.


As coisas que existem acontecem e são só porque sim. Ele ainda falou disso ao Groucho, a ver se ele pegava na ideia para um filme, mas o Groucho não foi nisso.
Todos nós, os antigos amigos – e até alguns discípulos - do Carlos, sabíamos disso: não se pode isolar um facto, uma actividade, isolá-los para um exame sério, sem termos de considerar a posição desse facto ou dessa actividade em toda a evolução do conhecimento dos factos e das actividades humanas. Exacto: essa praga terrível e muito contagiosa a que se chama História.
Um facto e uma actividade são avaliáveis, estudáveis, no tal contexto, a contextualização de que se fala muito na televisão. Contexto histórico; evolução histórica. Se assim não for, estaremos a falar de abstracções, ou ilusões sociais, patologias que também afectam muito a sociedade.
Porque o Homem é capaz de inventar. É verdade, amigos. E ai, como o Carlos sabia disso ao dar-se com os irmãos. O Homem é danado para inventar instrumentos – e para os tocar, como o Harpo e o Chico. Eles inventavam instrumentos para intervir a cada momento no processo de formação da realidade deles, que era a fantasia deles passada ao celulóide. Inventavam esses instrumentos e não se ficavam feitos parvos a olhar para eles. Inventavam-nos e utilizavam-nos. Eram homens.


E o Homem desata a inventar instrumentos para quê, não me dizem? E utiliza os instrumentos que inventa exactamente em quê? Para satisfazer necessidades. E logo à cabeça necessidades do mais básico que se possa imaginar: comer, beber, abrigar-se, aquecer-se, sentir prazer, multiplicar-se (procriar). E foi essa capacidade de inventar instrumentos que pôs o Homem em conflito com a mãe-natureza. Os instrumentos permitiram-lhe relacionar-se com ela, natureza, conviver com ela, e depois, evoluindo, evoluindo, rivalizar em criação com ela, abusar da paciência dela, conflituar com ela, violentá-la a ela, natureza – o tal problema da violência doméstica. E até substituir-se a ela. Porque é que eu já posso comer cerejas todo o ano? Porque é que eu posso estar até cheio de calores dentro de casa se na rua, na natureza, estão não sei quantos graus abaixo de zero? Porque é que eu já posso ter vida sexual activa aos 75 anos?


E do Homem insatisfeito e curioso do que o rodeia e de si mesmo só pode esperar-se aperfeiçoamentos, e que uma invenção leve a outra e a outra (o Groucho, o Chico e o Harpo bem o ouviram), e sendo que cada invenção lhe sugere uma nova necessidade, que para ser satisfeita exige uma nova invenção. E quem diz o Homem está a dizer as sociedades que o Homem cria, os grupos, os clãs, as nações, os estados. E quem diz novas necessidades diz novos prazeres, novos gostos - lembrem-se de Duck Soup (não me lembro do título português)..
Disse-nos o Carlos (a nós, aos antigos, aos que o frequentámos) que a capacidade técnica do Homem é maravilhosa. E é única, como se sabe, em todo o reino animal.


Na opinião do Carlos constitui mesmo essa capacidade técnica a natureza humana fundamental. E é dessa capacidade técnica que derivam as mudanças, as profundas, as lentas ou as súbitas. A História, em suma.
A capacidade técnica do Homem para inventar instrumentos que acorram a necessidades, a criação de novas necessidades que implicam a invenção de novos instrumentos de onde decorrem outras necessidades, e mais a consciência que ele, Homem, vai ganhando de tudo isso chama-se o quê? Pois claro, chama-se História.
Ladino este Carlos, não acham? Se pensarem bem vão ver que é assim mesmo, que ele tinha razão. Pelo menos neste ponto. Foi uma pena não ter acompanhado os irmãos na vida de cinema…
E de tudo isso resulta o método chamado científico. Se formos a ver, desse método dito científico de avaliação, de crítica e de vida, já se começara a falar no séc. XVIII. Ciência igual a entendimento de uma matéria. Certo? Materialidade. O Homem do séc. XVIII, no caminho da sua evolutiva precisão de instrumentos, e na trabalheira de os inventar sempre novos para prover às sempre novas necessidades que os novos instrumentos lhe impunham, desata a desespiritualizar-se, a desmitificar-se (ou a desmistificar-se) e desata a chamar-se a si mesmo de materialista.
E, materialista, começa a reparar no seu passado de inventor de instrumentos e de necessidades. E no seu passado o Homem do séc. XVIII detectou uma quantidade de disparates, de loucuras mesmo, de ilusões e de alguns actos tresloucados nascidos do âmago desses disparates, dessas loucuras, e fundamentalmente dessas ilusões que ele julgara serem  necessidades básicas e para as quais inventou instrumentos, e necessidades que afinal nem eram básicas e nem eram sequer necessidades. (E disso falou o Carlos aos irmãos e eles bem se aproveitaram das ideias dele.)
                                                            
                                                    

E era preciso que alguém inventasse um novo instrumento para interpretar a razão de ser dos instrumentos inventados no passado e respectivas consequências. A esse novo instrumento chamaram os homens do séc. XVIII método.
Método que era observar, experimentar primeiro o funcionamento dos instrumentos e dos actos deles decorrentes – método empírico, disseram. Método que era os irmãos ensaiarem primeiro muito bem uma cena antes de a filmarem. Método que era observar rigorosamente, sem paixão ou preconceito, a materialidade dos instrumentos, dos factos e dos actos – método científico. Científico, sistemático, empírico, juntar dois mais dois, raciocinar, quer dizer, método rigoroso. E a partir dele interrogar-se, pôr-se questões quanto ao conjunto do instrumental humano até aí usado para prover necessidades e satisfazer gostos.
E o que o Homem do séc. XVIII viu do instrumental humano que a História contava para trás de si era uma quantidade de superstições e de crenças sem qualquer base de realidade e que os mais proeminentes do rebanho humano, cabeças coroadas, chefes militares, sacerdotes, tinham aproveitado para submeter os demais. Parece simples – só o Carlos para dizer destas. Parece simples mas para o Carlos não era nada simples.
Não havia afinal verdades eternas, verdades sem tempo. Não há sentenças universais válidas para todo o tempo e para todo o lugar. Cada passo novo na capacidade técnica do Homem implicará novas fronteiras, mais alargados campos de observação e acção. E não só no que à materialidade possa dizer respeito. Também ao espírito. Ao intelecto. À moral, ora aí está…


Nenhuma ideia pode nascer separada de um conjunto. Os irmãos perceberam. Cada gag haveria de ter um contexto e proporcionar novos gags. As ideias são instrumentos, podem determinar novas invenções e novos instrumentos, como podem impor outros e novos comportamentos sociais.

                                                             

Oh, quantas ideias e quantos instrumentos na História humana para satisfazer necessidades!
Os exércitos (excelente instrumento) e com ele e para ele, a pólvora (excelente invenção). A agricultura (olha que excelente ideia!). A escravatura (no contexto de uma dada época e no paradigma moral dela uma excelente ideia, certamente). O feudalismo: excelente instrumento, no quadro do tempo e da cena que se está a filmar, sempre no quadro do tempo próprio de cada piada, relativo, dinâmico e nunca absoluto e estático esse tempo.
Se a capacidade técnica, dom exclusivamente humano, determina as ideias e invenções humanas, e as formas de vida humana não são, por outro lado, nem as ideias nem as formas de vida a determinar a capacidade técnica do Homem, então são as necessidades que suscitam as ideias e não as ideias que determinam as necessidades.
As ideias. Não mais do que a parte superior da vivência humana. E não é pouco. Não é pouco nem é muito. É o que é. As ideias são a fonte do que o Carlos chama de super-estrutura, a estrutura do topo que é suportada pela estrutura da base. A cena filmada e montada pelos irmãos sobre a base de uma tomada de vistas, tomada essa assente num script  básico previamente escrito. É boa não é? E a estrutura da base das sociedades humanas é a forma económica que reveste um grupo humano.


A arquitectura da base ou a forma económica adoptada pelo grupo humano é condicionada pelo tipo e quantidade de instrumentos que lhe permitam manter essa forma económica, e igualmente pelos indivíduos que sejam donos ou controlem tais instrumentos – caso dos produtores de Hollywood nas actividades dos irmãos dele.
E às ideias, ao conjunto delas, produto da super-estrutura da organização humana, o Carlos chamava ideologia – do que ele se ia lembrar, diacho do rapaz…
E também há que ver que tais ou tais condições sociais podem não propiciar o aparecimento de tais ou tais ideias. E quem diz ideias diz mesmo invenções ou descobertas materiais, instrumentais. E algumas, já inventadas enquanto  apenas ideias, poderão esperar os momentos históricos mais propícios para assumirem materialidade e serem postas a uso – a dependência do Groucho, do Harpo, do Zeppo e do Chico da política dos estúdios, At The Circus, a propósito.
Leio que a máquina a vapor foi inventada, foi ideia, em Alexandria – e séculos e séculos foram passados antes que fosse materializada em instrumento para suprir necessidades básicas – o Carlos lembrou-se disto, vejam lá. Ou o submarino, ao que dizem inventado pelo Leonardo, o da Vinci, outro cómico impagável do nosso imaginário…
É o moinho movido pelo vento que vai engendrar o regime feudal. (E esta? Pena o Groucho não a ter aproveitado.)
É o tear mecanizado que origina a realidade de um mundo industrial.
Moinho, invenção que leva a um tipo específico de organização da sociedade. Organização da sociedade derivada da invenção do moinho de vento que origina pareceres, opiniões, comportamentos e vidas em conformidade. Opiniões, comportamentos e vidas que pretendem conservar esse tipo de sociedade, esse modo específico de aquisição e distribuição do poder.


Então e o espírito, grande Carlos? Isso não é vida humana?
É. O espírito manifesta-se materialmente em obras, obras de arte, por exemplo, obras do Direito, do pensamento. Os filmes dos irmãos, os Marx Brothers, também, claro. Obras e instituições. Instituições que podem até ser morais, como as instituições filantrópicas. Que podem também ser jurídicas, religiosas. E que são modo de vida global de uma sociedade humana. E que são necessidades.



Invenções e ideias transformam as necessidades – quer dizer as formas de viver. Transformam as necessidades que lhes deram origem. E segredam ao Homem um novo desejo/necessidade. E provocam no Homem novas invenções, novos instrumentos para suprir novas necessidades. E criam por isso novas formas de sociedade.
São as formas assumidas na luta pela sobrevivência – a primeira de todas as necessidades - ou pelo poder, e sua identificação,  o segredo da compreensão da vida social.
E com o Carlos Marx – e já antes dele com os chamados empiristas de Setecentos – passa a ser-nos proibido pensar e dizer de alguma verdade que é intemporal, ou atemporal. Depois do que o Carlos nos disse e do que os filmes dos irmãos dele nos mostraram, isso passará a ser um absurdo - vejam lá se se lembram do Go West, de 1940...
A verdade é uma relação.
A verdade é uma relação entre o pensamento humano e os objectos desse pensamento. E nem objectos nem pensamento são algo de estável, imutável. Eles mudam, olá se mudam, mudam e bem. Mudam à medida da mudança das condições históricas.


Aquele que está preso, vive e pensa na sociedade como um prisioneiro, porque alguma ele fez contra os modos de viver e a moral dessa sociedade; ele pensa-a de certa maneira e quer modificá-la. Ao passo que aquele que se sente bem numa dada sociedade, solto e em harmonia com ela, pensa de maneira diferente, e consequentemente age de maneira diferente, porque o seu ideal consiste em manter essa sociedade em que se sente tão bem tal como ela é, tal como ela está, e não quer ouvir falar em transformações. E até porque o fluxo das suas necessidades como que cessou. Enquanto, para o que está preso, o fluxo das necessidades aumentou de caudal, quer ver-se livre, e para se ver livre sabe que alguma coisa tem de mudar. Algo na sociedade – ou na circunstância - que o mantém preso terá de se transformar.
A liberdade. Que nos disse a isso o Carlos? De vez em quando é bom a gente lembrar-se do que ele nos disse há tantos anos…
Liberdade é vitória sobre os obstáculos que existem entre o Homem e as suas necessidades..
Boa!
Obstáculos que tanto faz sejam da natureza como sejam intrínsecos ao Homem, as suas paixões, a sua selvejaria auto-destrutiva…


Liberdade é controlar sábia e rigorosa e racionalmente os recursos ao dispor da sua necessidade. E liberdade tão mais risonha e compensadora quanto mais esses recursos forem abundantes, quanto mais homens possam controlar de facto esses recursos.
Lembrem-se daquela cena de Monkey Business – não me lembro do título em português – essa cena, exactamente.
Reside na História, e seu estudo, a chave do enigma humano.
Avaliar factos e verdades esquecendo ou ignorando contextos é jamais encontrar as respostas para esse enigma humano. E perder definitivamente o sentido. Quando estava nos dias dele o Carlos dizia coisas que nos deixavam de boca aberta, acreditem. Até os endiabrados irmãos pasmavam…
Liberdade individual… propriedade privada… pois, pois… é um caldinho de alto lá com ele… justiça económica… ui,pessoal!... direitos individuais… tudo expressões que podem depressa perder o sentido em certas sociedades primitivas, naquelas em que a ideia mesma de propriedade não passava pela cabeça de ninguém – isto no tempo do Carlos, já se vê. O primado da propriedade privada não é intemporal como nos quiseram, e querem, fazer crer. E muito menos universal.

                                                                                       

Mas já um amigalhaço intelectual e percursor que o Carlos  nunca chegou a conhecer pessoalmente, o Jorge, Jorge Frederico, mais conhecido pela alcunha, o Hegel, viera dizer ao mundo que um dos aspectos marcantes da História humana era o movimento das crenças, das culturas e correlativas mentalidades. E que tais coisas podem criar impulsos sociais e constituir influências decisivas, reflexos de um progresso da materialidade sobre a mente humana, e transmitindo às acções subsequentes uma mensagem de eficácia, isto é, o que mais e melhor contribuísse para uma vida social apta a satisfazer necessidades materiais.
Armas. Olá! A moral. A moral enquanto, por hipótese, juízo de valor. Bem, pode ser uma arma. Uma arma dissimulada mas eventualmente eficaz na luta pela supremacia – ou até na luta pela sobrevivência.


Cada marco na História do Homem é uma tensão entre a atitude dominante das instituições e tudo aquilo que se lhe oponha. Tensão que produz um conflito entre forças que separam a actividade humana – não esquecem os amigos dele que o Carlos era um fan do Heraclito. É o conflito constante entre os sentimentos, o pensamento e os comportamentos que determinam a mudança – ou, sublinhado por mim com sarcasmo, aquilo que é comummente designado por progresso… e quando eu, envelhecido amigo e admirador do génio do Carlos, já não sei bem se todo o progresso terá por força de consistir em mudança…
Ou sim, está bem… alguma mudança terá de haver, bem vistas as coisas…
E a questão das classes. Alguém se lembra do Carlos a falar disso? Oh, oh, os irmãos lá em casa mudavam logo de conversa…
 O Carlos falava explicitamente da burguesia, senhora dos poderes e dos instrumentos já no tempo dele. E para ele a moral podia ser um alibi, um instrumento disfarçado de uma classe preponderante para submeter outras.


Classes. Pff. Uma classe condenada pela História – estou a pensar na aristocracia dos tempos franceses pré-revolucionários, segundo o que o Carlos nos dizia, que podia não ser capaz de compreender o mundo em que se movia e que supunha dominar. Por causa dos naturais processos de defesa, processos psíquicos colectivos que lhe ofereceram o dom do optimismo e lhe concederam visões idílicas quando de derrocada iminente se tratava.
O que o Carlos nos contou a respeito deste assunto foi, se não estou em erro, que uma classe era um grupo de pessoas que se uniam por algum objectivo social que não era muito mais do que a necessidade de adquirir qualquer coisa que ampliasse a liberdade daquele que possuía essa coisa, aumentando assim a satisfação das suas necessidades.
E não será novidade para ninguém que a História da Humanidade, para o Carlos, também não era muito mais do que a História da luta de classes. Cá está. E foi a partir de uma forma primitiva de comunismo que o Homem deu início à sua fabulosa carreira sobre a terra. E essa forma de comunismo primitivo esvaiu-se à medida que a capacidade técnica do Homem inventava novos instrumentos. E instrumentos esses que os proprietários deles usavam para sacar daqueles que não os tinham uma coisa só: trabalho.
E os que inventaram e tomaram posse dos novos instrumentos passaram as passas do Algarve para conservarem os meios instrumentais que lhes permitiam explorar em seu proveito os que não os tinham.
E toma lá que já almoçaste, diria o Carlos, se fosse ainda vivo…



Simples e claro como água. Essa exploração quantificava-se através da diferença entre o custo do que era necessário para manter os outros capazes de produzir e o valor daquilo que eles produziam.
E ainda pode haver gente que fale a torto e a direito de mais-valias e não saiba o princípio simples em que ela foi calculada. E nem saiba que foi o Carlos que num dia de paródia com os irmãos definiu essa equação. 
Aquele Carlos!
E também talvez não saiba que é a essa dita mais-valia, que remonta às mais primitivas das sociedades humanas, que se usa chamar capital.
E ainda assim pode ser que muitos não saibam que é este chamado capital o fulcro daquilo a que o Carlos costumava chamar luta de classes -  e que agora todos fazemos por esquecer, porque todos somos induzidos a dizer como o outro, o socialista convicto: abaixo o capital, para a gente lhe chegar melhor…


Pois é. Moral. E classes. E Justiça. E piedade. E bondade. E liberdade. Parecem integrar o conjunto das tais categorias intemporais, valores humanistas universais.
Parecem. Para o espertalhão do Carlos não era assim. Para ele, como para os irmãos, não passavam de ficções e só a História poderia julgar tais conceitos. A História, evidentemente, quando correlatada com as necessidades humanas. E classes porque um acto que vá ao encontro dos interesses da classe que domina é considerado moral, bom, justo; e porque se o mesmo acto não for para esses mais do que um obstáculo, então passa a ser imoral, mau e injusto.

                                                                        

Quem segue na vanguarda material da posse dos instrumentos capazes de suprir as necessidades humanas mais básicas é quem determina todos os valores, toda a moral.
Toma lá que já almoçaste…



        Lembrei-me do 25 de Abril por causa do dilema do cabo apontador da metralhadora e por causa das disponibilidades do coronel Otelo para mudar de regime. E logo atrás da lembrança dessas personagens, dessa madrugada e desse dia veio a lembrança recorrente de todos os meus 25’s de Abril, o Carlos, o sexto irmão Marx, o que se dedicou ao humor de outra maneira…