sábado, 3 de maio de 2014

             COESÃO NACIONAL


   O Benfica.
        Claro.
       Não vejo nada nem ninguém que de forma mais imediata e eficaz possa, nas vitórias como nas derrotas, aglutinar sensibilidades, seja em termos interclubistas seja em termos de transversalidade partidária.
       Porque se não for o Benfica…


     Se não são as instituições que falam mais fundo à consciência colectiva, não nos resta senão a irrelevância das más palavras (aliás merecidas) lançadas sobre esse rapazito, o Passos Coelho (é para o lado que ele se deita melhor, e também, se não fosse, ele não tinha ido lá), ou o som do rancor (justificado) projectado sobre a figura risível e tutelar do Cavaco Silva – que também dorme profundamente para qualquer dos lados.
     Nem os gastos capitães de Abril conseguem ter um papel integrador na sociedade (portuguesa). Não os deixam falar. Ou pelo menos não deixaram na solene sessão de S. Bento.
     E porque haveriam os ex-capitães do ex-Abril de falar em S. Bento se o papel deles foi apenas operacional no deitar abaixo da ditadura e com a promessa de, seguidamente, deixarem o campo livre às forças político-partidárias?
 O que não aconteceu, como bem sabem os que se lembram, porque, tirando uma, não havia mais nenhuma força político-partidária em cena.

     Uma vez consumada a operação, e 40 anos passados, porque razão formal deveriam eles ir falar na solenidade parlamentar, ou no cóio legislativo dos actores da chamada democracia a quem a operação deles deu voz?
      Só se fosse por uma questão de moral.
      Mas como não falaram, ou melhor, como não os deixaram falar, a tarefa moral dos capitães que já são coronéis, ou que já não são, perdeu oportunidade. Ou perdeu sentido. Era esse mesmo, a perda de sentido da existência dos capitães, o simbolismo que os parlamentares da maioria pretendiam transmitir ao país.
Conseguiram-no. E ficaram mal vistos. Mas só por uma questão de moral.
     A maioria parlamentar não se pode sujeitar ao risco de ouvir falar mal de si, e por isso não dá confiança a um simples coronel, ex-capitão, para ir à casa da democracia dizer sinceramente o que pensa.
Falar mal da maioria é falar mal da democracia e é minar o bem valioso do optimismo nacional.
Então… bolas!, a democracia é frágil. É. Sem dúvida. E o optimismo nacional também. Sim. Sem dúvida.  E o caso do mutismo forçado dos coronéis que foram capitães na casa da democracia é a prova disso. Como é prova disso a inenarrável senhora reformada que manda na casa da democracia (logo, na democracia mesma), quando compara os manifestantes irrequietos e populares das galerias às forças nazis ocupantes da França durante a II Guerra.
Fragilidade? Da democracia?
Evidente. E comprova-o cada discurso em que um presidente da república se assume como o técnico de contas ambicioso atirado pelas contingências da fragilidade democrática para a missão de ser símbolo e garante da nacionalidade, da identidade nacional, da História portuguesa, e o que faz é atrapalhar-se na confusão dos balancetes…
Só pasmo é pelo seguinte: como é possível dizer-se ainda por aí que vivemos em democracia só porque mais ou menos metade de nós se dá à maçada de ir votar de quatro em quatro anos?
E compreende-se o desespero egolátrico dos capitães que já chegaram a coronéis quando se apercebem, não só de que já poucos (e velhos que não contam para nada) se lembram do feito deles, como de que os que se lembram, deixaram de conceder a esse feito significados grandiosos.


E se os outros, os que se lembram do feito dos capitães, fazem trinta por uma linha para se esquecerem dele… ó diabo, por alguma razão será…


Os partidos.
Nem é bom falar deles. Dão azar. Dão azar até à democracia.
E porque todos lhes atiram à cara com o ónus da culpa. Da culpa da crise económico-financeira. Da culpa da crise política. Da culpa da crise moral que trespassa como lâmina esse valor fingido e incontornável que é o optimismo nacional.
Porque é verdade.
E serem os partidos os grandes causadores de todas as crises nacionais quer dizer alguma coisa a respeito da nossa democracia – ou daquilo que por falta de termo mais adequado ou por conveniência própria alguns ainda chamam democracia.
Mas não há democracia sem partidos. Ora toma!
Mas de certeza que há partidos mesmo sem ser preciso haver democracia. E esta?
E o problema da nossa democracia pode não ser o de não haver partidos, mas sim de haver os partidos que há.
É daquelas coisas (como tantas na nossa santa terrinha) que nunca terão uma solução condigna.  A “simples” mudança destes partidos por outros imediatamente levantaria o clamor grego de que estávamos outra vez nas vésperas da ditadura e do fascismo.


O mal foi dizerem aos partidos que a democracia portuguesa não passava sem eles.


Ai é? Então, já que a democracia tem que nos gramar, estamos de mãos livres para promover devidamente as nossas mais brilhantes mediocridades, para contentar os nossos mais insaciáveis gananciosos, para dar pulso livre aos nossos mais sinistros mafiosos, para abrir caminho aos nossos mais ilustres trapaceiros e vigaristas. E desta forma os partidos portugueses nos dão (e não de borla) a grande lição sobre o que é, ou o que pode também ser, uma democracia moderna. E bem à portuguesa – como o socialismo e o cozido.
E todos os estratagemas serão permitidos aos nossos partidos para se manterem vivos.


Pergunto eu: o que poderia levar os partidos, que nos asseguram para efeitos oficiais a existência de uma democracia, a regenerar os seus processos, a reformular o seu funcionamento? Nada. Pela ordem natural das coisas, nada.
Quais seriam os engraçadinhos a ter a lata de tentar fundar um ou dois partidos de massas para concorrer com os que estão?
Quem, fundando um novo partido sério e honesto, enquadraria a sufocada voz do eleitorado? Ninguém. Porque esse seria gozado, enxovalhado, aniquilado pelos actuais partidos donos e senhores da nossa vida institucional, os tais do pomposamente chamado “arco da governabilidade”. Brincamos?
Além de que não se divisa assim a olho nú ninguém com carisma, e sobretudo moral, para tanto. Mas, se houver, só poderá ser uma carantonha conhecida e reconhecida pelos media, e nesse caso já estará identificada – e marcada para ser destruída, pelo menos moralmente, pelos comunicadores de mão às ordens dos do “arco da governabilidade”.
Ah, Benfica, Benfica… se não fores tu a dar alguma alegria, nem que seja gratuita e passageira, à democracia portuguesa, não sei quem mais possa ser…


E quem, em transparência e ética, financiaria o novo ou novos partidos porventura surgidos, ou sugeridos, na sequência de uma utópica reforma do sistema eleitoral-partidário, ou até, e por consequência, por uma reformulação da democracia mesma? Ninguém. Em toda a transparência e legalidade? Ninguém.
Noutro tempo, para se reformularem coisas e formas de governo, ainda havia o recurso fatal ao golpe de Estado. Geralmente militar. E porque os militares passavam por ser uma casta acima dos partidários vendilhões do Templo, acima das correntías e democráticas corrupções, dos correntíos e democráticos manobrismos partidários. Noutro tempo. Mas hoje…onde estarão esses militarões puríssimos? Só os coronéis de Abril. Que nem falar podem no areópago da democracia. Que nem reconhecidos são como heróis da democracia. Que constituem hoje a novíssima brigada do reumático que noutro tempo eles tanto gozavam.
E onde caberia na cabeça de alguém no seu juízo pensar possível uma bernarda que não implicasse a ruptura com a  U.E. e com o respectivo euro?
Impossível. E até improvável.
Quem terá talento, coragem, sensibilidade, honestidade e credibilidade moral, já não digo para rupturas, mas pelo menos para promover uma reforma da democracia portuguesa sem a bênção dos partidos (e partidários) que estão?
Será o revisor oficial de contas do governo que habita o mal empregado palácio de Belém às voltas com os seus balancetes?
Ah, Benfica, Benfica...
Claro.


E claro que resulta óbvio que nos tempos mais próximos não haverá ruptura alguma no sistema partidário, nem reformulação alguma dos caminhos da insistentemente chamada democracia portuguesa.
Claro que não haverá real e séria reforma de coisíssima nenhuma que cheire ao perigo de um reavivamento da democracia portuguesa desacreditada por quase metade do eleitorado.
Não. Tudo continuará como está. Tudo será evidentemente renovado, mas só por força da corrupção do tempo. E não tenhamos dúvidas de que tudo será renovado nos tristíssimos parâmetros do atraso mental produzido pelas juventudes partidárias, vulgarmente chamadas jotas.


Ah, mas tudo depende de nós!, grita-se nas redes sociais. Tudo depende de nós!
Nós, quem?
Ai que parvo… nós, o povo.
Mais um problema. O povo é o Benfica. Enquanto o Jorge Jesus e o Vieira continuarem a ganhar nem no Benfica será mudado um cortinado na sala da direcção, quanto mais no país, quanto mais na democracia portuguesa.
Seja o que for que dependa deste povo benfiquista, estará condenado ao não-ser, à não-existência.
N
Não me venham para cá dizer que foi o povo que fez o 25 de Abril. Foram os velhos coronéis artríticos de hoje quando eram novos. O povo foi atrás. E bem.
Tudo depende de nós! De nós quem? Do povo unido. Do povo soberano!
Povo soberano. Povo unido. Patranhas. Todos ao Marquês de Pombal para reformar a democracia portuguesa que tanto precisa, coitadinha!


Só se for. Quando é que este povo do Marquês de Pombal benfiquista foi soberano cara-a-cara com os seus supostos representantes – ou dos que, em bom rigor aritmético, representam menos de metade dele, povo soberano? Não sei. 1383? Não sei.
Se os alegados representantes políticos do povo soberano português não são sequer soberanos no seu próprio alvedrío, como é que o povo que eles dizem representar o poderá ser?
Soberania, só se for por mais não sei quantos anos debaixo do olho húmido dos nossos credores, dos nossos estrangeiros e económicos numes tutelares. E nós sem termos a mais vaporosa hipótese de algum dia podermos solver as nossas dívidas – e podermos sobreviver enquanto povo soberano sem elas…
Capitães de Abril, oh, sim, a esperança. A mensagem de Abril. Está viva? Está morta?
As conquistas de Abril! Vivas? Mortas e enterradas? Quem as matou? Quem as enterrou?
Que haverá mais a esperar do 25 de Abril, passados 40 anos, e quando esse mesmo 25 de Abril foi feito com 30 anos de atraso?
Só se viesse outro parecido. Se fosse possível, claro. E mesmo assim…


Tudo o mais é irrelevância, são queixas do governo, deste, daquele, do outro e do outro, do Guterres, do Barroso, do Santana, do Sócrates, e já agora do gonçalvismo, do sá carneirsmo, do soarismo, do cunhalismo, do marcelismo, do salazarismo (oh, sim!), da república, da monarquia…
Perda de tempo e de energia com insultos a desvalidos política e intelectualmente, e todavia eleitos pelo povo soberano, e quando o nosso mal vem de tão longe e é infinitamente mais profundo do que tudo o que os últimos políticos de miserável porte nos tenham feito de mal.


Ou então, vamos lá a ver, o mal deve ser nosso. É o nosso ser. É a fatalidade geo-política que nos fez ser, que nos envenenou a alma e o corpo. E é o fado. E é o Benfica. E é Fátima. E é o contrário de tudo isso, se possível É tudo o que de inconsciente trazemos em nós. É o que avistamos na distância da nossa improvável e infeliz soberania sempre ilusória, Inquisição, expulsão dos judeus, Alcácer Quibir, Filipes, Terramoto, invasões francesas, fuga do rei, ultimato inglês, rotatividade da monarquia, regicídio, 5 de Outubro, La Lys, 28 de Maio, guerra colonial, perda do império...


Mas o mais grave dos nossos desastres históricos é bem capaz de estar a acontecer hoje. Ou mais do que hoje, é o que viveremos nos próximos vinte anos, trinta anos, se o mundo não se esquecer de dar aquela grande volta com que nos ameaçam, e se nós ainda existirmos, nem que seja só formalmente, como hoje, enquanto país livre e soberano.
O Benfica.
Claro.



 

          
        
        

         

domingo, 27 de abril de 2014

            A SOCIEDADE DOS OBESOS ÓBVIOS





- Não sei o que é que o teu pai e a tua mãe te dão a comer… sei é que estás a engordar de dia para dia…
- Este é da qualidade dos que nem precisam de comer para andarem gordos…
- E com respeito a trabalho, vida, bulir… futuro?
- Ando a pedir.
-Vê se tens cuidado ao dizer isso…
-Andas a pedir?
- Ao tempo, tio!
- Mas espera, não é para ele, coitadinho. Meteu-se numa associação… cívica…
- A Sociedade dos Obesos Óbvios…
- Obesos óbvios?

                                            

- Há os Alccólicos Anónimos, não há, tio? Qualquer alcoólico pode ser anónimo… um infeliz tabagista, como o tio, podia ser mais ou menos anónimo… só fumar em casa, às escondidas…
- Até os carteiristas do Metro são anónimos…
- Até muitos heroínomanos e cocaínomanos…
- São anónimos…
- Pois são… e os dealers são completamente anónimos…
- Ele até há gestores públicos anónimos…
- Só um obeso não pode ser anónimo…
- Exactamente.


- Todo o obeso é um óbvio. A obesidade também é uma obviosidade. E uma obviosidade pode ser uma obesidade.
- Obesidade… obviosidade…
- É o  problema deles, coitados.
- Quem olha para nós, tio, está logo a ver tudo…
-Não se podem dar ao luxo do anonimato, coitados…qual é o obeso que pode esconder a sua condição?
-Nenhum, pai, nenhum!
-Uma dieta não seria o melhor?
-Não chegava. Na figura deles estão chapados uma quantidade de hábitos condenados pela sociedade contemporânea, coitadinho, meu pobre menino… gula, intemperança de toda qualidade, vício, vadiagem, avidez, ansiedade, preguicite, cheiro de suor, hipertensão, gulodice, lambarice, diabetes, incontinência alimentar, pouco trabalho, despreocupação, sedentarismo, ausência total de culpa…


-Assim é, tio. A sociedade aponta-nos o dedo e denuncia a nossa maneira escandalosa de encarar a vida. Por isso decidimos associar-nos para a solidariedade…

                                          

-Têm mesmo uma associação?
-Sociedade Portuguesa dos Obesos Óbvios.
-Mas espera… então… então também o nome da sociedade é óbvio… como é que se diz… é uma redundância… já se sabe que todo o obeso…
- Ora bem… é o que eu digo…
- Um pleonasmo que não nos preocupa… eles, os fundadores, quiseram dar mais força ao nome da sociedade… mais dramatismo…
- E é à pala disso, desse dramatismo todo, que andas a pedir?
- É.
- Trabalhar… está quieto…
- Não arranja, coitadinho. Não tem figura para trabalhar…
- Vês algum? Sim… dos peditórios que fazes…
- É tudo solidariedade. Ainda tenho o meu pai para me sustentar. Há outros que não. O peditório é para ajudar os nossos associados obesos a custear as  dietas…
- Que saem caríssimas, nem inaginas… e quando, coitados, estendem a mão na rua toda gente pergunta para onde vai o dinheiro. O mundo está assim.
- Eu não dava esmola a um calmeirão destes, a um gajo anafado como o teu filho… com franqueza!
- Experimente o tio cumprir uma dieta à risca, à séria…
-Este não precisa. Conheço-o há mais de 30 anos e sempre um carga de ossos, magro que nem um cão…


-Legumes, cereais, saladinhas, arrozes integrais, massas integrais, pães inegrais, aves integrais, peixes cozidos, carnes grelhadas, natações, aeróbicas, saunas, massagens, ginásticas, plásticas, manutenção…
- Manutenção da gordura!
- Constante renovação de guarda-roupas, os fatos de treino para aqueles nosssos circuitos de jogging…
- Tudo isso é um dinheirão! Outros frequentam cursos de … como é, Fábio? Budismo. Budismo Zé. A ver se…
- Mas também temos os obesos conformados…
- Esses…
- Desistiram.
- E continuam a ser sócios…
- Desistiram de deixar de ser obesos. Temos que praticar a solidariedade também para com esses…
- Pois é, têm que ter de seu para continuarem a comer que nem umas frieiras. Se emagrecem, são expulsos da associação…

                                                                       

- Achamos que a sociedade tem obrigações para os que preferiram conservar uma obesidade majestosa… cozidos à portuguesa, feijoadas à brasileira, massas à italiana, crepes à francesa, molhos americanos, caris à indiana, porco à chinesa, tartes variadas, cervejame, batatame frito a toda a hora, Haagen Dazs, magnuns a meio da noite, coca cola sempre, bacalhauzadas, whiskies, gins, vodkas, sumos, chocolates, sumóis, tintóis…


-E tem que ser tudo à barba longa. Para os manter gordíssimos, coitados.
- Acima de tudo, evitar o exercício físico. Não mexer uma palha. Conservar este aspecto repugnante. E assistência psicológica com vista a uma ausência total de vergonha quanto à condição física e ao aspecto.
- Também sai caro… parecendo que não…
- Por acaso até me parece que sim! E quem é que os financia?
- Peditórios. É o que o rapaz te está a dizer. Meu pobre filho, que leva os dias de mão estendida, cafés, restaurantes, transportes, clínicas, vias públicas…
-Empresas…
-Mas também temos contribuições particulares…
-Os obesos ricos…
-Executivos gordíssimos…
-Que há cada vez menos… não é filho? Não sei onde é que este mundo vai parar…
- Gestores públicos… deputados… cada vez mais gordos, estou a ver…
- Não, esses agora andam magros como cães, andam cheios de dinheiro para as dietas e para o squash. Mas também há magros a contribuir, uma loucura!, nem imaginas...
                                                                       
                                                                    

- Escanifobéticos escanzelados e caritativos…
- Havias de ver… paus-de-virar-tripas esclarecidos!
- Oferecem dinheiro, jóias de família, coisas de muito valor. Só por exorcismo…


- Cada vez ando a perceber menos esta vida, isso é que eu sei. Porque é que Deus não me leva? Antes que eu comece a dar em doido varrido! 
- E quem te garante que já não deste?
- Os magríssimos dão… só para ver se Deus não os castiga um dia fazendo-os engordar. As senhoras mais esticadinhas do jet set ajudam-nos muito…


- Má consciência!
- Pois é…
- Quando lhes apetece o seu bolito. Quando se excedem numa daquelas festas…
- O grande problema é todos quererem saber para onde vai o dinheiro quando contribuem. Essa é que é essa…
- Já ninguém pratica a caridade desinteressada. Não sei para onde vai o mundo…
- Para onde vai mas é o dinheiro…
- Parece que todos têm medo de estar a financiar a boa vida dos nossos corpos gerentes.
- Vêem o mal em tudo!

                                                           

- Eu estendo a mão, primeiro que nada, aos meus irmãos de condição, os baixotes com mais de 100 quilos. Mas até esses desconfiam.
-Calcula tu… os gordos… antes uns tipos tão pacholas… agora até eles andam desconfiados. Não se lhes pode falar em dinheiro.
-Só dizem que vai para aí muita pouca vergonha.
- E não vai?
- Não sei, tio… sei é que primeiro que se desfaçam de uma mísera nota querem saber quanto ganham os nossos corpos gerentes, quanto ganha o presidente, quanto ganha o secretário…
- O tesoureiro, antes de mais nada. Não é, filho?
- É.
- E quanto ganham?
- Não são cargos remunerados.
- Mas ninguém acredita nisso! Diz-me cá… em que mundo vivemos, amigo?
 - Em que mundo vivemos, tio ?
- Quem é que vai acreditar que alguém se dedique a uma causa humanitária sem olhar a dinheiro? Vocês não queiram fazer de mim mais parvo ainda do que eu já sou…
- Em que mundo estamos, tio ?
- Também tu ? Será que já ninguém acredita no amor ao próximo?
- Evidentemente que não!
- Mas ó tio, ali ninguém recebe ordenado. O nosso presidente apenas tem direito a um subsídiozito de três mil euros mensais. Para acorrer às pequenas despesas dele, os transportes, e assim. Mais nada.
- Um subsídiozito?
- É uma ridicularia, tio, não esteja com essa cara!
- Dois mil por mês? Uma ridicularia?
- Da maneira como a vida está tens que que admitir que é.
- Temos que ser compreensivos.
-Estou a ver que vocês são mesmo muito compreensivos…
- Fora disso, não recebe um tostão.
- Em que mundo vivemos, meu Deus!
- E mais ninguém recebe. A não ser os subsídios de alimentação, o subsídios de residência para quem não é de cá, as ajudas de custo nas viagens que tiverem de fazer ao serviço da sociedade. O normal.


- É preciso ver o tempo que as pessoas perdem com a sua dedicação à causa…
- E esses?
- E esses o quê?
- Quanto recebem?
- O secretário e o tesoureiro? Um bocadinho menos. Oitocentos e mil euros, respectivamente.
- Por mês?
- Mensais, sim. O nosso orçamento não dá para mais. Coitados, eles já perdem muito do seu tempo com a sociedade, vão lá todos os 15 dias.
-E  tudo livre de impostos…
- Naturalmente, tio, tudo livre de impostos. A sociedade não tem fins lucrativos.
- E tu Aduzindo, não queres ajudar aqui o meu Fábio Diogo?
 - Eu?
- Não tens ninguém lá dos teus conhecimentos aí com 130 quilos?

                                                    

- Por acaso até conheço alguém…
- Podia fazer-se sócio.
- E se não quisesse fazer-se sócio, por uma questão de solidariedade, visto o mundo estar como está, podia dispensar-nos um pequeno óbulo…
- É uma questão de falar…
- Não há nada como a gente falar…
- E isto é a gente a falar, tio. O tio sabe por acaso se essa pessoa não terá para lá esquecido entre os trastes velhos do seu avôzinho assim um… um Miró… qualquer insignificância assim, sem importância… que queira doar?
- Um Miró?
- Ó homem, quem diz um Miró, diz um…
- Vocês devem estar a mangar comigo…
- Chagall… Monet… Dali… a gente agradece infinitamente…
- Já agora… um Picasso…
- Pode ser mesmo um Van Gogh. Também serve. Não interessa a cor. Todos dão abatimentos  ao IRS. Mas o melhor era o Miró…
- Agora pergunto eu, quem é esse Miró?


- Não interessa para agora… combinamos um encontro no belíssimo palacete que nos foi cedido pelo Estado e onde funciona a nossa sede provisória e lá tratamos de todos os pormenores legais de tão generosa doação.
- Agora que me estão a falar nisso de pinturas… há uma senhora ainda aparentada com os sogros do meu Ferdinando que herdou há tempos um quadrito autêntico do… sei lá agora o nome dele…
- Goya!
- Velasquez!
- Miró!
- Dali!
- Um daqui serve…
- Gris!
- Deve ser Renoir!
- É capaz de ser Gauguin!
- Calem-se! Será um desses…
- Hurra!
- Já ganhaste o dia, meu filho, os meus parabéns. Hurra!


- Um momento, tio… combinamos já uma data…
- Ó rapaz, mas eu não sei…
- É só ver aqui a minha agenda.
- Não te preocupes, o Fábio vai falar com essa tal senhora gorda…
- Ela não é gorda…
- Então?
- Pesa uns 40 quilos, mas é muito vaidosa e tem uma crise de coração de cada vez que pensa que pode engordar…
- Essas são a especialidade do Fábio. O Fábio convence-a em duas penadas!


- Esta semana já não pode ser, tio, vou amanhã para Paris… trocar experiências com a comunidade gorda de lá. Na outra semana também é mau. Tenho que ir a Nova York trocar experiências. Os executivos de lá estão a ir de cana, parece que afinal… o mundo está assim.
- Mas que grande berbicacho que vocês me estão a arranjar…

                                               

- E para o mês que vem… para o mês que vem vou visitar os nossos irmãos balofos brasileiros, os que vivem naquelas pobres favelas de Búzios e de Angra dos Reis… as coisas por lá não andam bem…
- Há quem diga que é das caipirinhas falsificadas.
- Para o outro mês são as minhas férias.
- Vai até às Bahamas, coitadinho. Que é que queres, ele também tem que se distraír…

- Bahamas! Calcule o tio que eu, já há tanto tempo a pedir, e ainda não conheço as Bahamas…