quinta-feira, 12 de junho de 2014

        ROBERTO ROSSELLINI, OU A                  MORAL DA TERNURA


 
                                         

Sim, claro. Até aos cabelos de cavacos, portas e coelhos. Um pouco de ternura, vamos lá. E um pouco de cultura, também – o que é capaz de ir dar no mesmo.


Bom, foi uma entrevista cheia de tópicos morais a que Roberto Rosselllini deu há uns poucos de anos aos Cahiers du Cinéma, então representado por Erich Rohmer.


Certamente que Roberto Rossellini é hoje – como tantos outros grandes do passado - um artista esquecido do grande público. Por acaso, devo confessar, nunca foi cineasta da minha especial predilecção, mas foi sem dúvida um dos grandes do cinema italiano do pós-guerra, e para alguns mesmo o criador do neo-realismo.
Neo realismo?, pergunta ele. É preciso saber o que se entende por essa palavra.


O neo-realismo, quer no cinema quer nas letras, não foi uma designação que merecesse consensos largos. Podiam também chamar-lhe realismo crítico, realismo socialista, ou talvez mais uma ou outra expressão, e iria sempre bater à mesma porta, quer dizer, a uma estética específica determinada pelo pós-segunda guerra e por todos os seus problemas sociais e políticos, uma estética que sobrelevava o realismo tout court ou o naturalismo. Não se tratava simplesmente de contar histórias desgraçadas de gente desgraçada, de misérias e de miseráveis. Para se ser neo-realista de boa escola era necessário adoptar narrativamente um ponto de vista, o ponto de vista da esperança, a esperança de que as desigualdades sociais, a pobreza, a fome, não aconteciam porque sim e de que não havia solução para elas porque sempre teriam de existir num mundo onde sempre existiriam ricos e pobres.


A esperança.
Mas esperança em quê?
Claro. A esperança num sistema político-ideológico que amaciaria as diferenças de classe através de uma mais justa distribuição das riquezas nacionais.
Pois é. Já lá vão décadas, mas, socialmente, pouco se saiu desta encruzilhada. Esteticamente sim, saiu-se. O neo-realismo ou tomou outros nomes, ou ficou simplesmente fora de moda, porque os públicos começaram a viver melhorzinho e não havia mais paciência para ir ao cinema ver desgraças, ouvir choradinhos e só ter esperança. Com o tempo passou a aspirar-se às certezas.

                                


É uma entrevista de 1963. Ui! Onde é que isso já vai! A quem é que essas coisas podem interessar hoje por hoje? Nunca se sabe. Os pontos de vista antigos podem guardar ainda uma autenticidade e um valor inesperados, além do sabor que possam ter, e o neo-realismo, para Rossellini, era, evidentemente, uma atitude moral anterior a uma posição estética.  


Filmes de Rossellini (para quem possa não estar dentro do assunto): Roma Cidade Aberta – o mais celebrizado; Alemanha Ano Zero, Europa 51, S. Francisco de Assis, Stromboli, Paisà, Joana D’Arc na Fogueira, Viagem em Itália, O General Della Rovere, Era Noite em Roma, A Tomada do Poder por Luis XIV.  E mais umas dezenas deles.


Não sou um pessimista – diz ele. - Quanto a mim, ver também o mal é uma forma de optimismo. Sou um pai de família, logo, a vida de todos os dias tem de me interessar. Censuraram-me por não ter apresentado uma solução, mas isso é um sinal de humildade. Se fosse capaz de encontrar uma solução para os problemas que pus em cinema, claro, não teria feito filmes, teria feito outra coisa…


Houve, na crítica, a certa altura, alguma hostilidade contra Rossellini. Ele diz que tal se deve a ter posto em cinema assuntos em que o cinema não tocava, ou então porque utilizava um estilo que os críticos consideravam pouco cinematográfico.

                                                                                         

Rossellini era um cineasta católico. Abordou temas católicos. Os críticos incomodaram-se por ver um cineasta expôr tão abertamente o seu catolicismo. Os próprios católicos foram contra…
Rossellini a falar:
- Há um camponês que vai para o trabalho com o filho de dois anos e um cão, que se chamava Bonino. O homem deixa a criança e o cão debaixo de um carvalho e vai à sua lida. Quando volta encontra a criança degolada, com marcas de dentes na garganta. Na sua dor de pai, mata o cão, e no momento seguinte avista uma grande serpente. E compreende o seu erro. Consciente da injustiça, enterra  cão entre uns rochedos próximos e grava na pedra uma inscrição: aqui jaz Bonino a quem a ferocidade dos homens matou. E decorreram vários séculos. Uma estrada foi aberta junto do túmulo. Os viajantes que passavam pela estrada, descansavam junto do carvalho e liam a inscrição. Um dia, alguns puseram-se a rezar, a pedir a intercessão do infeliz ali sepultado, morto pela ferocidade dos homens. E vieram milagres. E as pessoas da região construíram uma bela igreja e um túmulo condigno de forma a transferirem para lá o corpo desse Bonino. Só então se deram conta de que se tratava de um cão.


É evidente (falo eu) que a hierarquia da igreja não podia admitir um filme que contava uma história destas. Mas Rossellini teve também dificuldades a nível de público.
Sempre que faço uma projecção particular dos meus filmes para uma pequena audiência de 20 ou 30 pessoas, essas pessoas saem perturbadas, desfeitas em lágrimas… as mesmas pessoas vão ver o filme ao cinema e odeiam-no. Isso aconteceu-me mil vezes.
Dizem-lhe “senhor Rossellini, esperamos de si um grande filme. Mas não mostre coisas tão horríveis. Faça um filme longo e belo”.
A luta política tornou-se tão febril que as pessoas já não julgam livremente -  comenta ele. As pessoas não reagem senão às suas próprias ideias políticas. O mundo está à beira de uma grande transformação…


E estava. Uma entrevista de 1963, como digo. Mal sabia Rossellini a transformação que vinha por aí.
Cineasta cristão. Cineasta católico. A força que Rossellini encontrava no cristianismo era a força de uma liberdade absoluta. (Não percebo como e onde, mas está bem.) Lá entendia ele que os homens pretendiam ser livres de acreditar numa verdade que lhes era imposta. Nenhum homem teria coragem para procurar a sua própria verdade. E Rossellini achava tal coisa um paradoxo. O Homem faz seja o que for para acreditar na verdade que lhe é imposta, mas não mexe uma palha para descobrir por si essa verdade. 



Outro caso da vida real contado por Rossellini: durante a guerra, um mercador da Piazza Venezia vendia panos no mercado negro. Um dia, quando a mulher aviava uma cliente, ele chega-se e diz à cliente: minha senhora ofereço-lhe este tecido, não quero participar num crime, a guerra já é uma coisa horrível. Assim que a cliente saíu, o homem e a mulher discutiram e a mulher passou a fazer-lhe a vida negra em casa. O problema moral subsistia. A mulher continuava a vender no mercado negro, isto é, a praticar crimes contra a moral do marido. E o marido não faz mais nada: vai denunciar-se à polícia: fiz este e este e aquele crime de mercado negro, preciso de me libertar destas coisas. A polícia ouviu-o e mandou-o para um hospital psiquiátrico. O psiquiatra que examinou o homem era conhecido de Rossellini. E é ele que lhe conta esta história. Depois de examinar o homem, o psiquiatra confessa a Rossellini: apercebi-me de que aquele homem tinha somente um problema moral. Mas eu tinha de o julgar como cientista, não como homem. Como cientista só tenho que ver se este homem se comporta como a média dos homens, e por isso tive que o internar no hospital dos loucos.


Rossellini discutiu muito com aquele médico. E aquele médico o que dizia era da sua obrigação de dissociar nele o ser humano do cientista. Assim: a ciência tem os seus limites; a ciência calcula, mede, vê e regula-se com base no que conhece, e é preciso que esqueça tudo quanto está fora dos seus limites.
O grande dramaturgo napolitano Edoardo De Filippo conta a Rossellini este outro caso magnífico. Estava a escrever a sua peça Nápoles Milionária e passeava pelas ruas da sua cidade para se inspirar e documentar. Vem a saber de uma família napolitana que expunha em casa uma criança negra nascida de um casal branco. Era um espectáculo. O marido estava à porta e cobrava 5 liras. Entrava-se, via-se a mulher com o filho pretinho nos braços. De Filippo viu o espectáculo, saíu e foi ter com o marido: “ouve lá ó meu grandessíssimo tratante, tu não tens vergonha de, por 5 liras, mostrar a toda a cidade que és corno com o preto?” O marido chama De Filippo de parte e diz-lhe: “Don Edoardo, fica aqui entre nós… nós lavamos a criança à noite.”

                                                        

Se a lógica na Nápoles do pós-guerra era a corrupção, o comportamento normal, dentro da média, seria a corrupção. Uma família paupérrima tinha de continuar a viver. E para continuar a viver teria de se actualizar.
A Nápoles do pós-guerra. Um mundo fascinante, belo, pobre, perverso, imoral, que o cinema italiano, nomeadamente através de De Sica e de Rossellini, não deixou de explorar artisticamente.


Numa certa cave habitava uma família de 16 pessoas. Crianças e adolescentes eram 14. O mais pequeno tinha três anos.O mais velhinho tinha 18. Todos faziam mercado negro. Todos andavam com as algibeiras cheias de dinheiro. E o que, além de comida, compravam eles com todo esse dinheiro? Roupas, fatos? Não. Sapatos? Não. Compravam caixões enfeitados com bonitas fitas de prata.
Qual era o sentido daquilo?, pergunta Rossellini.
O sentido era uma gente que vivia vidas sub-humanas, que tinha como certeza mais próxima uma morte pelo bombardeamento ou pela fome e que, comprando uma bela urna, se apresentaria em breve muito mais dignamente perante Deus.


E Rossellini pergunta: isto era paganismo? E dá a resposta: não era de modo nenhum paganismo; tinha um sentido infinitamente mais profundo.
É preciso ver que Nápoles é a única cidade do mundo em que há um milagre com data fixa. O milagre de San Gennaro. A 19 de Setembro. E se a 19 de Setembro, diz Rossellini, San Gennaro não fizer um milagre, o povo vai á igreja descompô-lo.


Roberto Rossellini protagonizou uma situação pessoal escandalosa para a época. Sendo casado, apaixonou-se por uma célebre actriz sueca, também casada, e ela por ele, claro, Ingrid Bergman. Acabaram por se casar e ter filhas, uma delas a hoje famosa Isabella Rossellini. E Ingrid Bergman, à medida que ia vivendo em Itália e aprendendo o italiano, fazia notar ao marido “tem graça que vocês, italianos, dizem que tudo é bonito ou feio, bello ou brutto. Nunca dizem se é bom ou mau.” Rossellini confirma. Dizemos um belo prato de spaghetti e não um bom prato; um belo carro e não um bom carro. E se é assim na linguagem, assim fatalmente será na concepção da vida.


Naquele modo de falar Rossellini dizia espelhar-se toda a Itália.
A certa altura da História do cinema, pôs-se a questão estético-moral do cinema-verdade, do cinéma-verité. Filmar a vida não trabalhando esteticamente o resultado, não o manipulando tecnicamente com montagens para alindar a realidade e fazer desaparecer tempos mortos. (Enfim, seria isso e mais alguma coisa que agora não me ocorre.) O que é preciso dizer é que os defensores desse cinema reivindicavam para si uma verdadeira posição moral. E como Rossellini fazia o oposto e se reclamava do mesmo, de uma posição moral, Erich Rohmer, na qualidade de entrevistador dos Cahiers pergunta-lhe a que chamava ele afinal de posição moral. Pois bem, era uma posição de amor. Amor, tolerância, compreensão. Logo, participação.

                                                                        

Desde que os homens do cinema-verdade filmavam e afastavam da obrigação deles um juízo sobre o filmado, uma participação, uma simpatia, uma tolerância, e diziam “sejam as coisas tal como são, estamo-nos nas tintas”, deixariam, segundo Rossellini, de ter uma atitude moral e passavam a ter uma atitude cínica.
Não acredito num facto artístico acabado se não houver ternura. Podemos tratá-lo de uma maneira muito cruel até. A ternura é a verdadeira posição moral. Não sei reconhecer como forma artística alguma coisa que não comporte ternura. Podemos ridicularizar alguém e ao mesmo tempo sentir ternura. 
E numa obra do cinema-verdade não havia ternura. Era o acaso das imagens que conduzia tudo.
Acredito que a crueldade é sempre uma manifestação de infantilismo. Sempre. A arte de hoje torna-se de dia para dia mais infantil. Cada um tem o seu desejo louco de ser o mais infantil possível. Não estou a dizer ingénuo, notem bem. Estou a dizer infantil. E por causa do infantilismo caímos no mais baixo da escala humana. Passámos ao macaco antropomórfico. Em breve estaremos na rã e na enguia. É isso que me irrita. É essa falta de pudor.


Mal sabia Rossellini para que pontos de infantilismo e macaquice antropomórfica estaria guardada a arte e a cultura dos anos 2000…
Mas continua Rossellini, quanto à questão do infantilismo: chegámos à vaidade total, ao doentio. E isso num mundo que se torna todos os dias mais sério, mais complexo.

                                                                          

Pois por isso mesmo – palavras minhas agora; opinião barata, agora, a minha -, porque o mundo se torna mais complexo, se estarão a tornar mais prementes a ignorância e a incompreensão humanas, a perplexidade, a angústia perante o complexo da vida, da vida quotidiana, diria. O ir para a universidade, o tirar licenciaturas, o fazer mestrados, e  chegar ao mundo do trabalho e não ter emprego, e viver doutor e mestre longos dias sem conseguir assegurar a digna subsistência, sim. Apenas um exemplo entre mil de complexidade, de perplexidade humana. Recurso? Talvez o infantillismo da heroína e do ecstasy, do cultivo doentio do protagonismo e da auto-estima imbecil, que produzem efeitos enganosos de plenitude e felicidade no meio do real alucinante; talvez as bebedeiras de fim de semana, ou as corridas a 300 à hora, ou a condução em sentido contrário numa auto-estrada,a infantilidade, a perplexidade, a loucura. Talvez o êxtase. Disse.


E agora diz Rossellini: Visto que este mundo é feito pelos homens, tenho de o aceitar sempre, apesar das queixas do género… caminhamos para a destruição total, para a tragédia nuclear, etc…. hoje a arte ou é queixa ou é crueldade.
Era. Digo eu. Talvez em 1963. Queixa ou crueldade. Era. Hoje, a arte feita hoje, talvez seja mais exactamente infantilismo, irresponsabilidade, culto do feio, auto-indulgência. O mundo é feito pelos homens, diz ele, tenho de o aceitar sempre…
Nas problemáticas artísticas, literárias, cinematográficas ou filosóficas daqueles inícios dos anos 60, havia a alienação e a incomunicação (ou incomunicabilidade). Rossellini não achava nesses termos nem na maneira como eram tratados restea alguma daquela ternura que postulava como atitude moral. Só via nisso complacência.

                                                                      

Hoje sentimo-nos na vanguarda, a partir do momento em que nos queixamos. Mas queixar-se não é criticar. E criticar já é uma posição moral.
Estou-me nas tintas para o facto de fazer arte. Isso quer dizer renunciar a muito. É uma posição moral – e, se me permitem empregar esta palavra – uma posição heróica. O que todo o homem instintivamente procura é tornar-se ilustre. Eu procuro não tornar-me ilustre, mas tornar-me útil.

Pergunta o entrevistador: em geral, os artistas dos quais faz parte conceberam o seu dever de uma maneira diferente; para eles a arte não tem qualquer utilidade imediata, prática. Resposta: para que uma arte se torne uma arte importa que possua uma linguagem, que exprima coisas que sejam compreensíveis à média dos indivíduos. Sem isso torna-se uma abstracção. Não estou a dizer, cuidado com os mal entendidos, que para tanto seja preciso fazer filmes comerciais…
Pois não. Não se tratava de transformar a arte. Tratava-se de reencontrar a arte. E para reencontrar uma arte que se tinha corrompido e volatilizado na abstracção, que fizera perder o hábito e o gosto da linguagem, Rossellini entendia que era preciso restabelecer precisamente a linguagem, que cada palavra tornasse a encontrar a sua significação e o seu valor e fosse o fruto de um pensamento profundo.   


Mas você não pensa que a evolução da arte é irreversível?
Julgam que no mundo não houve períodos de obscuridade e de desmoronamento de civilizações? É um facto histórico. Sempre se deu. E se há desmoronamento de uma civilização, há desmoronamento da arte, da linguagem.
Palavras actuais as de Rossellini, na minha maneira de ver. Sim, nós, cidadãos banais, todavia ainda de alguma memória, conhecemos esse desmoronar da linguagem na nossa vida de todos os dias, e sobretudo no nosso fadário televisivo de todas as noites. Não é preciso mais para me aperceber do grau de desmoronamento e transformação civilizacional que estou a viver.


Uma civilização traz sempre como fruto a sua arte – diz Rossellini. - As obras dos poetas tinham um papel mínimo no interior das civilizações que eles mesmos tornaram ilustres. Quando uma civilização já não existe, ou quando está em crise, a arte morre ao mesmo tempo. Ou mesmo antes.
Então… o que será preciso fazer?
Para existir, uma civilização precisa de arte. E para existir, a  arte precisa de ideias claras. Olhamos com desprezo esse mundo da técnica, da ciência, e pensamos que é algo de funesto que traz a ruína ao mundo inteiro. Mas que esforço fazemos para compreender, do ponto de vista moral, esse fenómeno, que mesmo assim ainda pertence ao nosso tempo, à nossa civilização?
Para ele seria imperioso penetrar e participar no fenómeno científico e tecnológico e encontrar nele as fontes de emoção necessárias à criação de uma arte.

                                                                

Se o artista não for o fecundador das coisas, falta ao seu dever.
Aponta o Renascimento, nascido no momento em que os artistas tomavam consciência do transcendente passo que a Humanidade dera no domínio da técnica e da ciência. E que fizeram? Tornaram-se sábios. Ficaram com uma preparação científica, mas fortemente ligados à sua natureza. O entusiasmo era factor importantíssimo, também. E deram-nos obras primas - conclui.
O Renascimento foi um facto imenso na História do Homem. A razão? Os artistas souberam mergulhar numa realidade científica, apropriaram-se dela, repensaram-na, e elevaram-na à posição de arte superior.
A arte era para ele a própria vida. Uma maneira de perpetuar a vida e dar uma razão às coisas, exaltando o entusiasmo,provocando emoções.
Quando uma arte se compraz em matar as emoções, em privar de vida o que é vital, já não é uma arte. 


A função do artista: vencer as coisas, encontrar uma nova linguagem.
Se um fenómeno humano existe, e se o olharmos com ternura, é impossível não descobrir nele alguma coisa de vital. Pelo simples facto de ser humano já é vital.
Outra fala de Rossellini: no ano passado, em Spoleto, fiz uma encenação teatral. Precisava de três minutos de música. Na véspera do ensaio geral ainda não a tinha. Então, pus-me diante de um gravador e com um garfo fiz pan-pan, com um piano fiz pim-pim, mandei vir um tipo com um violino e ele fez dzin-dzin. Assim gravei os meus três minutos de música e as pessoas levaram-nos muito a sério. Pus no cartaz: Música de Jean Pach.
É inacreditável que se possam fazer falcatruas desta maneira, remata Rossellini.





quinta-feira, 5 de junho de 2014

                           OPTIMISMO


Lembrei-me hoje dos caminhos e descaminhos do optimismo nacional.


De quantos mitos nacionais, ou de quantas das tais misteriosas coisas portuguesas que segundo as mais altas autoridades do nosso optimismo, ainda tinhamos a obrigação cívica de nos orgulhar, nos poderemos continuar a orgulhar?
Toda a mediocridade tem um alibi ético. O optimismo, coisa boa e positiva, justificará eticamente a mediocridade e a irresponsabilidade que parece serem-nos atávicas. O optimismo pode até funcionar como justificação ética para procedimentos eticamente duvidosos.
E isto porque, por acaso, me calhou folhear despreocupadamente o Candide, de Voltaire. Cândido, ou o Optimismo, de seu título inteiro.. Desnecessário, talvez, dizer que Voltaire, ao escrever, não estava a pensar nos governos e nas oposições do Portugal do século XXI – embora por vezes pareça. Mas não é menos certo que, por acaso, a acção do livro passa por Lisboa, a Lisboa setecentista, a Lisboa de sempre – ou de quase sempre.

                                                                                

Está demonstrado – dizia o filósofo Pangloss, perceptor de Cândido - que o que existe não pode ser diferente, porque, tendo tudo sido criado para um fim, tudo é necessariamente para o melhor dos fins. E assim os narizes foram feitos para segurar os óculos e portanto nós temos óculos. E assim as pernas foram instituídas para serem calçadas e é por isso que usamos calçado. E assim os porcos foram criados para serem comidos e nós comemos porco todo o ano.

Quem afirma que tudo está bem, diz uma asneira. É preciso afirmar que tudo vai pelo melhor – inclusive a lesão do Cristiano Ronaldo e os tristes pontas-de-lança da selecção nacional, como diria Voltaire.

Voltaire escreve o Cândido como refutação a Leibniz, todos o sabemos - e se não sabemos também não interessa. Esse Leibniz que invocava a “razão suficiente” que tudo explicaria, que tudo justificaria.
Vamos é ver se nos safamos. Troika, TC, milhões em falta, falências, bancos, desemprego… não há-de ser nada. E cá está: quem diz que a nossa tragédia do século XXI irá continuar e durar per omnia secula seculorum está a apresentar os sintomas do nosso real e dolorido pessimismo que paradoxalmente é o motor do nosso falso optimismo.   


E olha, por pessimismo, invoco hoje também, para além de Voltaire, o espanhol D. Miguel de Unamuno.


Passeando por Lisboa nos começos do século XX, o grande escritor espanhol está nas ruínas do Convento do Carmo, arrasado por um terramoto do século XVIII, e pensa na espécie de terramoto íntimo e moral que ainda então – ou já então - ameaçava o povo português.


Por falar na coisa péssima que são os terramotos, e recuando a 1755, vemos a personagem de Voltaire, Cândido, mais o seu mestre Pangloss, a caminho de Lisboa, corridos de um castelo da Westfália. Encontram um anabaptista caridoso. O anabaptista crê que os homens corromperam a natureza: não tinham os homens nascido lobos, mas tinham-se tornado lobos. Deus não lhes tinha dado canhões de 24, nem baionetas, e eles tinham inventado isso tudo para irem dando cabo uns dos outros. Mas Pangloss persiste em que tudo isso era indispensável. E porquê? Porque as desgraças particulares são o que realiza o bem geral. De forma que, quanto mais desgraças particulares houver, mais tudo irá bem. E aqui está uma sentença que parece feita como uma luva para a nossa actualidade nacional.
À vista de Lisboa o navio onde vai Cândido e Pangloss é fustigado por violenta tempestade.


Em Lisboa, Cândido assiste ao pavoroso terramoto. Segundo Pangloss, aquele terramoto era inevitável, as coisas não se podiam ter passado de maneira diferente. Tudo isto é o que há de melhor, diz, porque se existe um vulcão em Lisboa é porque não podia estar noutra parte. É impossível que as coisas não estejam onde estão. Porque tudo está bem.


E com Pangloss diria eu: era impensável tanto optimismo a justificar uma ética de insânia, incompetência, mentira e mediocridade noutra parte senão neste nosso Portugal. É impossível que as coisas não estejam onde estão. E é no melhor e mais optimista dos mundos que se fortalece o pessimismo e acontecem as coisas desgraçadas. Ou vice-versa. Vai dar no mesmo, isto é, as coisas desgraçadas acontecem na mesma.


E a seguir ao tremor de terra que destruira três quartos de Lisboa, fora decidido pelos sábios da Universidade de Coimbra que o espectáculo de uns quantos autos-de-fé, de umas quantas pessoas queimadas a fogo lento e com grande cerimonial era segredo infalível para impedir a terra de tremer. Falou Voltaire.


E na verdade, à época, a Universidade de Coimbra era considerada pela intelectualidade europeia uma instituição retrógrada face às novas teorias filosóficas, às Luzes. Era o nosso “progresso” científico, social e politico. Que vem de longe, como se vê. Era Portugal. Era o seculo XVIII, mas era Portugal. É impossível que as coisas não estejam onde estão.


O optimismo, o ver as coisas pela positiva. Atitude excelente em si mesma, e muito necessária à vida pessoal e colectiva, mas que pode neste singular país transformar-se numa espécie de droga que serve de escapatória a toda desresponsabilização, a toda a dita insânia, a toda a incompetência, a toda a má fé, a todo o delinquente desleixo, a toda a impunidade, a toda a engravatada vigarice, afinal de contas, a toda a mediocridade da nossa vidinha.
Todo o português sabe que muito dificilmente, em Portugal, se arranjam responsáveis… a justiça, a injustiça, os juízes, os advogados, os jornalistas, os segredos, os arguidos, os argutos, os agressores, os deputados, os ministros, as vítimas, o ministério público, a Relação, o Supremo, o Constitucional, já tudo está confundido para que o cidadão deixe de o ser, isto é, deixe de compreender o que de facto se passa na polis… ninguém denuncia claramente, ninguém se acusa e ninguém acusa inequivocamente, ninguém se demite, não há responsáveis, tudo está bem, é impossível que as coisas não estejam onde estão…
Uma granja e um banco: aí temos Portugal”. Não, não é Voltaire. É Oliveira Martins. De um lado, o campo português, o doce vegetar; do outro, Lisboa, a cidade cosmopolita cheia de beócios, materialistas sem fé alguma em nada que seja duradouro. Oliveira Martins. Que sabia das coisas. No século XIX. E, mutatis mutandis, neste século XXI.
Estranho é o contraponto entre os angustiados apelos ao optimismo social e político feito pelos mais notáveis de um país naturalmente, atavicamente, pessimista – ou a quem os notáveis de todos os tempos só deram motivos para ser pessimista, fadista. Ou para ser até, como pensava D. Miguel de Unamuno, um país e um povo de suicidas.
Um optimismo postiço, desesperado e injustificado, por amor, desampor, ciúmes ou negócios, pode ser uma forma de suicídio.
Um optimismo português resulta, só pode!, da mediocridade nacional. Que não é um motor de acção e desenvolvimento; que é antes uma balela para iludir o atraso e a incapacidade das elites e enganar os tolos. E os tolos somos nós. Os da rua. Eu.
E com o optimismo como medicamento milagroso para nos tirar as dores do pessimismo ancestral, muitos vão governando menos mal a vidinha.
Um amigo português de Unamuno escreve-lhe uma carta: Chegou-se em Portugal a este princípio de filosofia desesperada: o suicídio é um recurso nobre e uma espécie de redenção moral. Tudo o que é pobre se suicida neste malfadado país; tudo o que é canalha triunfa.
O nosso mal, continua esse amigo de Unamuno, é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral: o cansaço e o tédio de todos aqueles que se fartaram de crer.
Como estarão os actuais níveis de suicídio em Portugal?


Optimismo e passividade. Não são sinónimos, eu sei, nem consequências um do outro. Eu sei. Bem pelo contrário. Mas o optimismo, aqui, institui-se como intimação oficial à apatia e ao silêncio.
Pensando no original pessimismo português que os nossos actuais mentores pretendem ocultar e contrariar, Unamuno refere-se a essa apatia, uma apatia que pode mesmo desencadear ataques de fúria – assassínio, suicídio. Mas sempre num quadro de submissão. Submissos, os portugueses, submissos mesmo quando se revoltam. Porque se formos interventores teremos de chamar às coisas e às acções pelos seus nomes e podemos prejudicar-nos na vida. A começar pelo empregozinho. Portanto, o melhor é deixar andar, armar um sorriso beatífico, virar a cara para o lado, assobiar, não ter opinião, piedosamente não reparar nos responsáveis por tudo o que, desde logo no nosso local de trabalho, funciona mal, ou nem sequer funciona. E já está: teremos um país pronto para a maior produtividade, para a mais gloriosa competitividade. Competitividade que não passa sem optimismo, é muito certo, mas que também não vive dele. E o que eu digo é que, pelos vistos, para os nossos dirigentes, o optimismo é uma espécie de saída eticamente airosa, imediatista, de emergência, para o seu próprio fracasso e para a nossa mediocridade. E quem vier atrás de mim que feche a porta…
O optimista não é, à primeira vista, e de uma maneira geral, um crítico. E a quem é crítico e realista costuma-se chamar por estas plagas de pessimista, de derrotista. De populista! – último epíteto inventado pelos políticos instalados para atirar a quem tiver a lata de, em democracia, os criticar. Populista! Mais dia menos dia, o pessimista será um marginal, um anti-social.
A mansidão portuguesa só se encontra á superfície; raspai-a e logo haveis de encontrar uma violência plebeia que chegará a assustar-nos. Miguel de Unamuno dixit. É só lermos os jornais para aquilatarmos da propriedade destas palavras.


Mas também, actualmente, por cá, não vale de muito a crítica. A mediocridade é uma instituição nacional, ai de quem atente contra ela; a mediocridade portuguesa é imbatível – começa e acaba no optimismo. Crítica? Para quê? Nada, ou pouco, acontece. O relatório é inconclusivo. O chefe de secção que se demita. Não é possível responsabilizar ninguém mais acima.
Mas pedir-se optimismo a um país secularmente pessimista, o país do fado? Não lembrava ao diabo.
E de novo a carta do amigo português de Miguel de Unamuno – provavelmente Manuel Laranjeira: A Europa despreza-nos; a Europa civilizada ignora-nos; a Europa medíocre, burguesa, prática e egoísta detesta-nos como se detesta gente sem vergonha e sobretudo sem dinheiro. Apesar de tudo, ainda há em Portugal muita nobreza moral, pelo menos há nobreza moral bastante para morrer
Isto nos primeiros anos do século XX.
E continua: Sou português e filho de um povo que atravessa uma hora incerta, crepuscular, do seu destino. O meu espírito sofre intermitências de abatimento e entusiasmo, fé e desânimo, crença e desespero. Tratar-se-á do crepúsculo que precede o dia e a vida, ou do crepúsculo que antecede a noite e a morte? Não sei.
Estava-se naquele tempo a viver, parece-me, o estertor da monarquia, posto que o amigo de Unamuno escreve: ainda há meses, quando Portugal atravessava os dias terríveis da ditadura de João Franco, julgava eu que iamos ressurgir. Publiquei artigos fervorosos de optimismo e crença, e hoje sinto uma tranquilidade pútrida. Não falta por aí quem diga que isto já nem é povo, antes o cadáver de um povo.
(Ou o tal sítio mal frequentado – diria o Eça.)
A paisagem da, em tempos, tão esperançosa democracia portuguesa é neste momento assustadora. E quem atente contra o optimismo e a mediocridade, dizem eles, é da extrema direita ou da extrema esquerda populistas, e está a atentar contra a democracia civilizada. No tempo do Salazar eram os comunistas. Mas a lógica medíocre é a mesma. Já estamos habituados.
As coisas mais desgraçadas que nos acontecem podem ser consequências da nossa mediocridade optimista - ou optimizada pelos nossos chefes.


Cândido cai nas mãos dos canibais. Compreende que no melhor dos mundos os homens se comem uns aos outros. Ele próprio está para ser devorado mas salva-se. Os canibais apuram que ele matou um jesuíta inimigo deles e resolvem não o comer. Cheio de optimismo, Cândido quer ir-se embora do Novo Mundo. Mas não sabe para onde ir. Se volto para o meu país, encontro os búlgaros e os árabes que cortam a garganta a toda a gente. Se volto para Portugal sou queimado. Se fico nestas terras arrisco-me a ser enfiado num espeto, assado e comido.
Optimismo. Pensamento positivo. Alimentação racional. Abstinência e água do Luso. Vegetais. Anti-tabagismo. Naturismo. Piedade para com os animais e fim às corridas de toiros. Tolerância para com os homossexuais e todos os outros alternativos. Brincos nas orelhas dos homens e igualdade para as mulheres. Facilidades no ensino. Auto-estima. Correcção política acima de tudo - dogmas do nosso presente nacional minado pela delinquência e pela vigarice a todos os níveis, mas que se pretende racional, moderno, progressista, tolerante, alinhado lá por fora.
O optimismo português também é filho da nossa ancestral e nacional hipocrisia. É o que é…
E eu tenho que me mentalizar de que sou um bonito rapaz, que ainda estou jovem, que o bilhete de identidade não dá informação fiável a meu respeito. Eu tenho que afirmar a mim próprio que sou um sujeito com muito boas qualidades de carácter, que sou muito boa pessoa. Eu vejo-me obrigado a pensar, neste mundo competitivo, que sou um fulano inteligente. Eu tenho que estar convencido de que sou um profissional exemplar, competitivo.
É. O radiante optimismo nacional pode fazer de mim um tipo ridículo e risível.
E se uso o optimismo é para não começar a exercitar a desconfiança. Sobre os outros. Sobre mim. Sobre tudo.
E reparo num insignificante e estranho exemplo: se por acaso algumas pessoas olham para mim e constatam em tom de censura, “ah, você fuma… faz tão mal, quantos maços fuma por dia?”, e se eu respondo “é verdade, sou um proscrito da sociedade da correcção, dos bons e salutares costumes, da droga, dos assaltos, da violência doméstica galopante, do assassínio do meu vizinho, do suicídio, da depressão e dos violentos desastres de automóvel… sou um desgraçado, fumo, confesso, mas vou deixar de fumar ainda este ano… aliás… já ando a deixar de fumar… estou cheio de força de vontade”… se respondo assim gozo de algum movimento de amnistia no coração das pessoas, e mesmo que nunca me tenha passado pela cabeça deixar de fumar, ou mesmo porque sei que não tenho força de vontade para tanto – ou vontade de fazer essa força. Mas mesmo assim as pessoas, é comovedor e hipócrita reconhecê-lo, ficam contentes por mim, o semblante delas suaviza-se imediatamente quando digo que vou… que já estou a deixar de fumar, “faz muito bem, assim é que é, força amigo!”, e mesmo que eu minta elas irradiam simpatia e humanidade para comigo. Apostam em mim, sem me conhecer de lado nenhum. Fizeram a sua boa acção acção, salvaram uma alma dos infernos do Marlboro. Optimismo,em suma.
Mas se respondo que não tenho intenção alguma de deixar de fumar, a cara das pessoas fecha-se sobre mim, olham-me como se o meu nome figurasse na agenda dos talibãs. Porque eu não lhes dei lugar a qualquer optimismo, mesmo num assunto que me diz respeito só a mim. Não lhes dei esperança alguma de ficarem optimistas por estarem em vias de salvar uma alma das neblinas tabágicas. E a pior coisa que se pode fazer a um cidadão nacional hoje em dia é abrir-lhe um caminho realista, é não lhe mostrar nem uma insignificante via para as quimeras do optimismo.


Ainda no Novo Mundo, no Perú, Cândido espanta-se: O quê? Não existem por aqui frades que ensinam, que discutem, que governam, que intrigam, que fazem queimar as pessoas de opinião contrária? Um velho sábio peruano responde-lhe: “Só se fossemos doidos.Não, amigo, aqui somos todos da mesma opinião:”
 “Ó Pangloss!, exclama a certa altura Cândido. Tu não tinhas imaginado tais abominações. Decididamente, terei por fim que renunciar ao teu optimismo.
O criado Cacambo pergunta a Cândido o que vem a ser isso de optimismo. Cândido replica-lhe: Ó homem, é o furor de insistir em que tudo está bem quando tudo está mal!
“Deixa lá, pode ser que não seja nada”.
“Vais ver que vai correr tudo bem.”
 “Não há-de ser nada.”
“Vais ver que ainda vais dar a volta por cima.”
E se por acaso, puro acaso, e por um golpe de sorte, conseguimos em qualquer coisa da nossa vida dar uma volta por cima, ah, “vês?, eu sabia, eu bem te disse que ias dar a volta por cima, eu bem te disse que não havia de ser nada e que havia de correr tudo bem. Eu sabia.”
Todos nós passámos a saber.


Roubado em terras do Suriname, Cândido vai ter com um juíz a dar parte do mestre de uma embarcação holandesa que lhe levou os haveres. Descreve os factos. Mas fá-lo num tom de voz um pouco elevado e o juíz logo à cabeça aplica-lhe uma multa de 10.000 piastras por ter falado alto demais, fazendo-o pagar outras 10.000 pelas custas do processo. Quanto ao roubo em si, bem, quando o mercador holandês regressasse ao Suriname logo se veria.
Os desgostos secretos são mais cruéis do que as misérias públicas – diz a Cândido um velho maniqueu
E torno a citar Unamuno: Um povo triste na trivialidade das suas manifestações exteriores. Um povo triste mesmo quando sorri; uma literatura triste mesmo quando é jocosa ou cómica.
Estarmos optimistas é confiarmos em que o nosso país está em boas mãos, em que os nossos comandantes aos diversos escalões, do Estado ao local de trabalho, saberão enfrentar os problemas e resolvê-los. O que significa, para a nossa mentalidade, ficarmos sossegados e mantermo-nos apáticos e sem opinião crítica e sem intervenção activa, para não prejudicarmos os nossos legítimos interesses, para não andarmos contra a corrente, para não sermos considerados pessimistas, destrutivos, reaccionários, política e socialmente incorrectos. Populistas!


É de suicidas o povo de Portugal. Talvez seja um povo suicida. Para ele a vida não tem um sentido transcendente. Viver? Para quê? Mais vale não viver.
D. Miguel de Unamuno menciona o pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Camilo, ou mesmo de Alexandre Herculano (que segundo ele se suicidou como os monges, de isolamento).
Lord Byron, outro frequentador destas paragens, escreveu num poema a nosso respeito: Poor paltry slaves!” – escravos miseráveis apesar de nascidos entre as mais nobres cenas. Why, Nature, waste thy wanders on such men” – com tal gente, ó Natureza, porque desperdiçaste os favores?
“Não há-de ser nada, tudo vai correr bem, deixa por minha conta”, “e se se descobre?”, “se se descobre o quê?, há para aí tanta coisa para descobrir que não se descobre”, “mas se se descobre?”, “mas quem é que descobre? Quem é que tem moral neste país para descobrir alguma coisa, isto é só cá entre a malta”.
Os jornais, a televisão, “desculpe, mas eu nada tenho a ver com isso,” “não, está enganado, não é da minha competência”, “não comento”, “claro que declino toda e qualquer responsabilidade”, “não quero prejudicar o andamento da justiça”, “o senhor tinha conhecimento de que…”, “eu?, que ideia!”, “a justiça está a funcionar!”,  “mas o senhor não é presidente disto e director daquilo e  comandante daqueloutro?”, “eu?, que disparate, eu não sou nada… “; ou então: “sou sim, presidente disto, director daquilo e comandante daqueloutro, e depois?, já lhe disse não tive conhecimento de nada, e ouça… o que se passa é normal, faz parte da…”, “ah, faz parte?”, “claro que faz parte…”, “digo e repito: não fiz nada de ilegal, não estou arrependido de nada, voltaria a fazer o que fiz”, “mas, senhor presidente”, “começo a estar cansado da má fama de que goza a classe política, a minha classe, enfim!”, “ouça, amigo, isso faz parte…”.
Em Portugal hoje em dia tudo há-de correr bem, porque tudo é normal, porque tudo faz parte.
         Em Constantinopla, Cândido encontra-se com um célebre dervixe, homem com fama de ser o maior filósofo da Turquia.


Mestre, porque foi criado um animal tão exótico como o Homem?, pergunta ele ao dervixe.
Que tens tu com isso?, responde-lhe o sábio.
Mas, mestre, que devo então fazer?
Estares calado.
É que eu gostaria, mestre, de discutir um pouco convosco os efeitos e as causas do melhor dos mundos, da origem do mal, da natureza, da alma e da harmonia estabelecida.”
E ao ouvir isto, o dervixe, sem cerimónias, fecha-lhe a porta na cara.
Que razão nos dão os nossos maiores para acreditar, para sermos optimistas - para não sermos esses execrandos populistas resingões? Que valor têm as ilusões de legalidade, transparência e prosperidade que nos têm criado? 


Porque, muitas das vezes, conhecermos a verdade de nós mesmos pode significar a depressão, a auto-aniquilação. E pelo que dizem as estatísticas hospitalares, os portugueses do século XXI andam a oscilar muito entre serem optimistas sem razão, ou serem depressivos. E esses infelizmente com toda a razão.
O optimismo português do século XXI é um desespero. Pode ser um grito de vida ou de morte.
E restam-me poucas dúvidas de que para o nosso ridículo índice de produtividade, entre outras e desvairadas coisas, muito tem contribuído o optimismo televisivo dos nossos dirigentes. Dirigentes que talvez não nos falem toda a verdade quanto à nossa realidade. A nossa realidade depende muito dos altos e baixos das sondagens eleitorais. E elas são optimistas, hoje para uns amanhã para outros, quando não são optimistas para os dois lados no mesmo dia.

 “Sim, sim, o treino de ontem deu indicações bastante positivas”.
“Foi uma reunião muito produtiva.”
“Sabe, tirei ilacções bastante úteis daquilo que vi”.
“Pareceu-me uma decisão muito correcta.”
Ou como quando no ano passado o Sporting acabava de perder um de muitos outros jogos e o seu guarda-redes declarava às televisões: “A equipa está de parabéns”.
Não acontece nada neste país que não seja correcto, que não dê indicações positivas e não há reunião que não seja produtiva nem ilacções tiradas que não apontem para boas perspectivas. E contudo…


Mas - e isto também é queiroseano - como povo religioso e temente (a Deus ou ao que for preciso) que sempre fomos, sempre preferimos a mentira piedosa à crueza da nossa verdade.