quarta-feira, 21 de maio de 2014

    VARIAÇÃO IMPERFEITA SOBRE OS                PEQUENOS  PODERES



Escrevo a pensar naqueles que, como eu, sempre foram na vida mandados, subordinados, sempre estiveram na vida profissional sob a alçada descricionária de outros.
A palavra poder pode incomodar-nos. Há tendência para olhar de través qualquer tema que possa implicar a existência ou o exercício de um poder, mesmo de um poderzinho, o poderzinho que sai dos pequenos poderosos e ataca os pequenos subordinados.
Poder. Poder. Qualquer um que ele seja, nem que só o do chefe de secção, do chefe de repartição, parece demasiadas vezes de direito divino, digo, um poder nem que seja somente delegado, subdelegado. E sempre que um desses “poderíos” nos incomoda ou interfere com o nosso bem estar ou equilíbrio emocional, podemos sempre dizer que foi um poder que “subiu à cabeça” do seu detentor, que o seu detentor se embebedou de poder, que engravidou de poder – nem que seja o pobre chefezinho de um escritório ou repartição de meia dúzia de gatos.
Olhamos muitas vezes os nossos chefes como ambiciosos, sequiosos também eles de um poder, mesmo que seja pequeno. E olhamos o colega mais preparado, mais competente ou inteligente do que nós na presunção de que se ele é tão preparado, competente e inteligente o é por uma motivação única: a ambição do poder, “o que ele quer é poder, o que ele é é um mandão”. 
E concluímos, e cada vez mais, que muitos dos que detêm um poder sobre outras pessoas, na verdade, não têm mais objectivo na vida do que esse: ter um poderzinho sobre os outros. E que até, na maior parte dos casos, não estão preparados para esse poder, não foram preparados para ter qualquer poder sobre outros seres vivos.
Noutros casos não é questão de preparação mental, é mesmo questão de falta de qualidade humana interior, essa que é, na minha opinião, a primeira das condições para se outorgar um poder a alguém. Qualidade humana, sentido de justiça, integridade pessoal em primeiro lugar. Só depois deveriam vir as qualificações técnicas e profissionais.
Mas, tristemente, nos tempos que correm, a qualidade pessoal – e mesmo intelectual – dos que têm poder sobre nós é lamentável. E continuo a pensar que essa é uma das razões para o atraso português a vários títulos, a vários níveis, especialmente no caso dos que têm um pequeno poder intermédio e que grande parte das vezes, nas instituições, são mais parte de cada problema do que da sua solução.
Fica bem uma tirada da Electra, de Sófocles: Se bem que a justiça não está no que eu digo mas no que tu pensas.Todavia, se devo viver em liberdade importa-me obedecer em tudo a quem manda.
É uma gravíssima encruzilhada na nossa vida pessoal, e sobretudo profissional… exercer uma liberdade e obedecer em tudo a quem nos manda… quando poder e liberdade se oprimem, se desencontram continuamente e frequentemente se anulam.
O saber, em tempos de antanho, foi  matéria sujeita a alta reserva e confidencialidade e posto fora do alcance dos simples, do vulgo. Porquê? Porque os antigos, os medievos, sabiam-na toda. E como a sabiam toda, sabiam que o saber proporcionava o poder. E o poder não era coisa para entregar ao primeiro bicho-careta ambicioso que aparecesse. E se não se lhe podia entregar o poder era porque não se lhe podia facultar o saber. E vice-versa, claro está.
Na Antiguidade, e nas mentalidades mais esotéricas, o poder era realmente coisa reservada aos eleitos, a bem dizer, aos iniciados. A alguns poderia ser facultada a aprendizagem, o saber, o que faria deles iniciados, o que os tornaria eleitos, e a esses, pela sua qualidade e sabedoria humanas, poderia ser concedido o poder, na certeza de que o vulgo, por uma consciência ancestral de vida, tendia a obedecer cegamente àquele que mostrasse mais sabedoria. E daqui decorrem algumas coisas eventualmente desagradáveis, como o messianismo, de cujas reflorescências tardias milhões sofreram as consequências entre 1933 e 1945.
Mas já nos antigos a elite do saber e do poder aspirava ao domínio total dos corpos e das consciências. E para esse domínio ser mais total, o que convinha era manter as massas na mais perfeita das ignorâncias. O saber era guardado em segredo. Quem o detinha ascendia à dominância. Podia à sua vontade condenar os povos à escravidão.
Ou então criavam-se escolas. Escolas em torno de um iluminado. E lá se preparavam os espíritos para conter os saberes mais reservados – cultura é isto: preparação do espírito para receber o conhecimento. Esses iriam ser os chefes.
O saber dos chefes inevitavelmente haverá de conduzi-los a convicções malsãs, entre elas a da sua superioridade face ao comum dos que lhe obedecem. Mas enfim, não é preciso ir à Idade Média. Isso é o que se vê hoje todos os dias nos locais de trabalho. A superioridade arrogante e avassaladora de muitos dos que nos chefiam, as suas certezas absolutas, a sua infalibilidade na gestão do pessoal, enfim, uma série de condições que criam no subordinado um espírito de rebelião - muitas vezes ódio. O que não aproveita a ninguém.
Os homens acabam sempre por se revelar maus, se a necessidade não os obriga a ser bons, lá dizia o velho Maquiavel.
Bem entendido que, acerca destas coisas do poder, quer do grande quer do mais pequeno, o velho Maquiavel é uma fonte inexaurível, e basta lê-lo com atenção para perceber… das duas, uma: ou a qualidade de um tecnicamente bom chefe – o que não significa exactamente a boa qualidade da pessoa dele; ou a deficiente qualidade técnica e operacional de um chefe quando não cumpre determinados preceitos do mando – o que até poderá querer dizer que ele nem é má pessoa, sendo por isso mesmo mau chefe.
Ah, sim, estou convencido de que a verdadeira natureza de um homem vem ao de cima em muitas situações limite, e uma delas é porem-no a mandar noutros homens. É difícil resistir à revelação da verdade sobre si próprio quando se tem algum mando. É o que diz o povo: se queres ver o vilão põe-lhe o pau na mão.
Os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento que quem engana encontra sempre quem se deixe enganar - outra das patetices do velho Maquiavel.  

O poder pode… segundo um senhor chamado Talcott Parsons, ser um subsistema económico, na medida em que se levantam paralelos óbvios entre uma ciência política e uma ciência económica. O poder seria então qualquer coisa igual a moeda. O modelo definidor de um poder pode ser a moeda. Donde, o poder não ser mais do que um instrumento de troca nos subsistemas políticos.
(Compreende-se, não? Basta ler os jornais e ver a televisão.)
Como a moeda, o poder circula, é móvel, é activo, desloca-se incessantemente, aumenta e diminui. Pode criar-se um crédito político. Podem-se acrescentar parcelas à quantidade de um poder. A vitória numas eleições coloca os políticos eleitos na posição de um banqueiro. A vitória numa eleições é uma concessão feita de poder, um depósito feito pelos eleitores que será a todo o momento revogável. O crédito que é o poder sujeita-se, como o crédito monetário, às variações. Há inflacção e deflacção no poder.
Pois é. O poder é simbólico. Como o dinheiro.
Tal como uma moeda, o poder tem valor de troca mas não tem valor de uso. O poder vale pelo que permite obter - e nunca nos esqueçamos disto nestes dias conturbados e nos que estarão para vir.
Como intermediário simbólico generalizado e reconhecido instrumento de troca, como o dinheiro, o poder é, por isso… legítimo.
Estive há dias, por acaso, a ler um livro de Luis Nandim de Carvalho. Teoria e Prática da Maçonaria. (Maçonaria não podia faltar a uma conversa sobre o poder). Fiquei a saber que é o entendimento e o aprofundamento da percepção de Deus, a Sua relação com o universo e com os seres humanos o que constitui a essência  da organização maçónica. É bonito. E julguei ter percebido que é a posse desse entendimento que constitui em si mesma uma fonte de poder. Sim, mas um poder que não é laico, racional. Um poder que não é temporal. Um poder que é espiritual, e que todavia subordina, define, ajuíza e legitima todo o poder temporal.
Segundo Nandim de Carvalho, todo o poder material será sujeito à aferição racional da sua legitimidade e da sua justiça pelo poder espiritual – e o cidadão comum perguntar-se-à a que poder espiritual reportam os abusos e as arbitrariedades dos seus chefes e directores, que são os primeiros poderes a que o cidadão, para ganhar a sua vida honradamente, está sujeito a obedecer.
Segundo os maçons (quais deles?), o poder, na sua essência, é ético. O poder é ético por sujeito a regras intemporais e universais muito anteriores à própria estrutura humana de vida. Um poder que se exime a toda a contestação profana, temporal. A outorga desse poder espiritual e ético seria feita somente após uma iniciação que conduzisse os candidatos ao poder a uma interiorização espiritual e a uma vivência profunda. 
Em termos esotéricos, seria um poder que dimanasse de uma prévia experiência de morte e de renascimento; uma purificação vivida pelo homem comum. Só por esses meios o candidato a um poder ascenderia aos mistérios sagrados do universo. E este seria o poder do Ser, oposto ao poder do Ter. O Ser poder como qualidade espiritualmente oposta ao mero Ter poder.
Ao poder deveria corresponder uma proporção de responsabilidade. Deveria. Mas a quantos actos arbitrários, incompetentes ou disparatados de um poder, mesmo pequeno, corresponde alguma consequência castigatória?
Quer dizer que o poder, mesmo o do chefe de secção de uma chafarica (é desses que preferencialmente falo), configura alguma sacralização, algum do tal direito divino, sou chefe porque sim, sou chefe porque sou eu, e enganar-se qualquer um se engana, e errar é humano, desde que seja eu a errar, sou chefe, sou inamovível, sei coisas a respeito dos que me nomearam chefe que me permitem ser chefe impunemente por muito e muito tempo, e mesmo porque aqueles que me conferiram este poder não são melhores do que eu e nem serão muito capazes de reconhecer os meus erros e as minhas insuficiências, e nem eles têm moral para me tirar o poder que me deram a não ser para me alcandorarem a outro poder maior, posto que eu sei de sobra as razões por que eles chegaram ao poder que têm…
E nestes considerandos subjectivos estará também alguma da razão do atraso da democracia portuguesa.
Claro que conforme o escalão do poder a responsabilidade vai apertando. Formalmente, digamos. Porque também a impunidade é mais presente. E no topo, está a dita responsabilidade política, e sobre essa, estamos conversados…

Nos escalões baixos e intermédios do poder é onde talvez se pratiquem mais os abusos, e até porque esses poderzinhos são cobertos por outros poderzinhos ligeiramente maiores que se solidarizam com os pequenos poderzinhos num esquema magistral e diabolicamente montado de encobrimentos, de abusos, culpas e responsabilidades – e impunidades.
Divertimento sem consequências para quem comete os abusos do pequeno poder, mas coisas por vezes humilhantes para quem sofre e atura as consequências desse pequeno poder devastador e impune.
Do que eu gostei mesmo, por exemplo, no 25 de Abril, foi que de um dia para o outro, literalmente de um dia para o outro, deixou de haver chefes. E ainda mais, deixou de haver chefes tirânicos, prepotentes. De um dia para o outro todos os nossos chefes de serviços e de secção se reclamaram de democratas, de muito humanos e nos recordaram aquela vez no passado, em que estivemos doentes, em que chegámos sistematicamente atrasados ao serviço e as boas maneiras (mentira) com que sempre nos trataram.
Ninguém pode obrigar um pobre chefe de repartição a ter uma coluna vertebral saudável.
E quando começaram a ser saneados, foi o bom e o bonito. Eram todos comunistas. Todos amigos do povo. Todos – mesmo os que pacoviamente haviam antes usado brasão - tinham ascendência operária.
Mas é claro, tudo isso tinha que acabar. E acabou. Nem os pequeníssimos poderes dos mais insignificantes chefes podiam cair na rua da amargura dos eternos e mentalmente destituídos subordinados.
É velha esta, mas é imbatível, e é inevitável em quaisquer variações retóricas, mesmo imperfeitas, que se ensaiem em torno do poder. Trata-se da famosa carta de Platão.
Vi que o género humano não mais será libertado do mal se não forem ligados ao poder os verdadeiros filósofos, ou se os hierarcas do Estado não forem tornados, por favor divino, verdadeiros filósofos.
Alguma vez o hipotético leitor descobriu no seu directorzeco de serviços uma vocação filosófica, um ritmo filosofal de pensamento, palavra e acção?
Haverá algum sentido mágico-teológico no poder? Ah, claro que sim. Eu acredito nisso. Por isso se diz que o poder sobe à cabeça. E sobe à cabeça como o poder mágico de uma droga, e como uma droga pode bem o poder provocar alterações de consciência.

Mas será que a própria sacralidade do lugar de poder desencadeia sintomas de terror e pânico nos que obedecem ao ponto de nem para si mesmos o questionarem?
Interroga-se Carl Gustav Jung, se uma aspiração à autoridade – ou ao poder, acrescentaria eu – é algo de não específico em colisão com o reverso da alma, um sintoma de regressão; ou se a mesma aspiração à autoridade é de carácter secundário. O poder do Eu. A aspiração à autoridade, diz Jung, é um demónio tão grande como Eros, e é tão velha e tão original como esse mesmo Eros.


Evidente, senhores. O poder é uma erótica. Claro que é. Olhemos bem para o nosso chefe ou director, distingamos-lhe no suor frio os traços da sensualidade irreprimível quando nos dá pressa  a  um determinado serviço.
Amor e perfeição de comportamento: meios excelentes para alcançar uma autoridade, para se ascender a um poder. E a vontade? A vontade, ainda segundo Jung, é a alavanca que força o reconhecimento dos outros.
É bem inquietante o que diz Jung sobre a autoridade – eu chamar-lhe-ia poder, se quisesse manter a tensão dicotómica entre uma coisa e outra, autoridade versus poder. E note-se a autoridade, ou o poder, exercido pela criança sobre os pais…
O poder da criança sobre os pais leva-nos ao comportamento daquele nosso colega de escritório engraxador e manteigueiro dos chefes por tão ambicioso em lhes ocupar o lugar. Eis a criança: atenciosa e obediente para os pais se tiver na ideia uma benesse que deles dependa. E essa é uma sofisticadíssima forma de poder.
A criança pode manobrar os poderes de pai e de mãe e usá-los em seu benefício, pondo-os um contra o outro nesta ou naquela coisa que deseja para si. A manifestação do amor pode ser a maneira óptima de atingir uma posição. E fica sempre bem. E é interpretada em geral como positiva quando afinal foi um acto inflexível de poder.
Aliás, deixemo-nos de coisas, o amor contém em si mesmo finalidades. Finalidades que uma vez obtidas fazem decrescer a quantidade e a qualidade de amor, ou a exuberância da manifestação desse amor. Talvez aí um dos sentidos do actual desgaste do casamento e da célula familiar, observadas as coisas de certa e ímpia maneira. O amor e as suas mais evidentes demonstrações podem não ser a música celestial que lhes costumamos associar. O amor pode ser – acho que geralmente é – uma categoria, ou uma das manifestações do poder humano.
Mas o poder é uma neurose.
No diagnóstico de Jung, não há melhor numa casa de família – eu diria mesmo num local de trabalho – do que uma neurose manifesta para a obtenção de acréscimos de poder sobre os outros. E os neuróticos sabem-no bem. Tenho conhecido alguns neuróticos que à pala das crises neuróticas e de temperamento com que flagelam os superiores acabam por conseguir o que querem mesmo que a isso tenham menos direito do que os outros, os menos neuróticos.
A neurose é também um belo meio de tiranizar uma casa de família, um atelier, uma oficina, um escritório ou um grupo profissional. A neurose, através das suas crises visíveis, reais ou simuladas, gera a compaixão, compaixão que pode ser usada também como alavanca de poder. Uma crise neurótica bem administrada no tempo, no modo e no espaço convenientes, confere ao neurótico um poder tirânico sobre os que lhe estão próximos.
Apanhados numa posição moralmente cimeira de autoridade no seio da família ou no local de trabalho, um neurótico não tem contemplações e exerce um verdadeiro poder, e mais nefasto por não ser um poder de direito, operacional, oficial, por ser apenas um poder psicológico, moral, que desencadeia obrigações e sujeições por parte dos outros.
Emmanuel Mounier entendia que o poder de um tirano engendrava uma ordem que era falsa.
De um autoritarismo nasce uma falsa ordem de vida e de funções.
Um individualismo exacerbado no exercício de um poder tende para a criação de uma anarquia.
     Há séculos que o poder deixou de ser concentrado, monolítico, monocéfalo – como diria Foucault. Cada vez mais o poder é parcelar. Difuso. Exacto: é nessa balbúrdia que jogam os nossos chefinhos para se aguentarem no balanço.
Os poderes são erigidos sobre continuidades e descontinuidades de consenso. E certos centros de poder conjunturalmente se agigantam por sobre o consentimento ou a debilidade de outros poderes.
Até há pouco tempo era impensável conceber sequer que um chefe de qualquer sector ou instituição pudesse ser um idiota. Mas ainda um destes dias, olhando para a montra de uma livraria, surpreendi um título. Não me lembro já bem, mas era mais ou menos “como lidar com um idiota”. Um livro que era um daqueles manuais à americana, rápidos, para ensinar a fazer qualquer coisa de prático. E logo na capa se colocava a eventualidade de o nosso chefe – ou patrão - poder ser um idiota e nós termos toda a vantagem de aprender a lidar com ele.
Em certa época de vida tive um chefe que não era exactamente um idiota – não era nem deixava de ser, porque era um tipo importante. E se eu lhe apresentava, por hipótese, um texto destinado a ser cortado e eu me inclinava para uma dada passagem que poderia ser suprimida, ele discordava automaticamente – ele era o chefe. Quando, pelo contrário, eu entendia que certo parágrafo era essencial, pois logo ele repontava que não, que se havia alguma coisa a cortar deveria ser aquele parágrafo que eu achava indispensável. É que não se tratava de saber se era eu ou ele quem tinha razão. Tratava-se de marcar que ali o chefe era ele. Nada havia então a fazer para além de albardar o burro à vontade do dono. Até ao momento em que, a contra-gosto, comecei a entrar-lhe no jogo idiota e a dizer desnecessárias algumas passagens que considerava importantes. Só para ele discordar e as manter. E ele discordava e mantinha-as.
Este é um episódio clássico do tipo mais comezinho do chefe inseguro de si e dos seus poderes, sobretudo os intelectuais.
Pois. Diz-se com toda a facilidade mal do chefe ou do director, ou de seja quem for que tenha uma migalhinha de poder descricionário, mas ninguém fala do calvário das invejas que esse pobre desgraçado do chefe que não foi contemplado com o carisma, com o talento, com a iniciática, ou com o favor dos deuses, terá de aguentar ao longo da sua vida profissional da parte daqueles que afinal apenas o invejam, que afinal o que querem é o lugar que ele ocupa. Mas também, cuidado com a inveja de um chefe por um subordinado. Amigos, é fogo!
Porém… no fundo das nossas justificadíssimas razões de queixa do nosso chefezinho de serviço, lá mesmo bem no fundo, não poderemos negar uma fugaz e vesga sombra de inveja pelo lugar que ele ocupa. E não é só por causa do vencimento melhorado. É por coisas mais profundas. Ou mais incompreensíveis.
Se eu mandasse fazia, se eu mandasse acontecia, eu é que havia de mandar naquilo… então é que tu ias ver como era…
Cada um de nós, no âmago da nossa falsa modéstia, oculta no seio a vibração de um tirano, não tenhamos ilusões. Cada um de nós abriga no seu gesto o fulgor de um regenerador, muitas vezes de um salvador. Porque é que os chefes não vêem as coisas com a clarividência com que nós as vimos, e quando a nossa visão é a melhor, é a única possível?
Livremo-nos, torno a dizer, de, pelos nossos talentos naturais, despertarmos a inveja de um chefe…
Falas de uma peça de Sartre, As Moscas. Júpiter fala com Egisto e diz-lhe: Odeias-me, mas somos aparentados; foi à minha imagem que te criei: um rei é um deus sobre a terra, nobre e sinistro como um deus. Ambos fazemos reinar a ordem. Tu em Argos e eu no mundo: o mesmo segredo nos pesa no coração, o doloroso segredo dos deuses e dos reis: os homens são livres, Egisto, tu sabe-lo. Eles, homens, é que não sabem.


E Egisto replica: é verdade; há 15 anos que represento esta comédia para esconder dos homens o seu próprio poder.
    E na mesma peça de Sartre, Júpiter, o deus dos deuses, sintetizando o princípio do poder, dirá que há 100 mil anos que dança diante dos homens. É preciso que os homens me olhem. Enquanto tiverem os olhos pregados em mim esquecem-se de olhar para si próprios.
Não olhemos demasiado para o nosso chefe. Não nos esqueçamos de nós mesmos.
A menos que aspiremos um dia a ser chefes, evitemos copiar o padrão de gravatas e o estilo dos fatos do nosso chefe. 
O chefe, mesmo que seja só de escritório, também existe para isso, para ser olhado, e acha a sua lógica de ser no mísero facto de os seus pobres subordinados o procurarem imitar.




domingo, 18 de maio de 2014

                            ESQUIZOFRENIA


Atenuados os efeitos benéficos da retumbante vitória moral do Benfica na Liga Europa, eis que ficamos de novo entregues à vida que somos coagidos a viver sobre a realidade também das derrotas morais num país bipartido, ou tripartido, ou até quadripartido. Sei lá bem. Dois, três ou quatro países distintos vividos num só, num mesmo espaço e num mesmo esforço, em idênticas perspectivas vitais.
Há quem diga que a realidade é una, bem sei, como há quem diga que a realidade é múltipla. Vou na segunda hipótese.


Vamos lá a ver uma coisa. Vivemos num primeiro país que nos é apresentado pelos poderes públicos, pelos senhores ministros, com estoiros de champanhe comemorativos da treta da saída limpinha, limpinha, limpinha, quer-se dizer, da nossa derrota moral e material às mãos da troika, facto que para eles significa uma auspiciosa reinauguração da esperança (tantas vezes inaugurada nos últimos 40 anos), do vá-lá-é-uma-merda-mas-podia-ter-sido-pior, ou do vamos-a-ver-o-que-é-que-isto-dá-e-como-é-que-a-malta-se-safa-desta.



                                                                           

Os nossos poderes constituídos têm em nós um país artilhado para proveitos próprios, e do qual muito se orgulham, e pelo qual festejam símbolos nacionais como o sol, a praia, o bacalhau, as sardinhas, o fado, a selecção, o Benfica, o turismo; e mais os feitos universais das nossas artes, das nossas ciências, e mais a História, os Descobrimentos, o 25 de Abril…
Se lhes falamos das nossas dúvidas (e dívidas), eles riem-se, dizem que o país está finalmente no caminho certo, naquela fase de viragem histórica de tesos para endinheirados, e no primeiro trimestre deste ano, meus queridos, crescemos e aparecemos na ordem dos 1,2% e batemos a média europeia, ahn, seus toleirões, viva o luxo, e mais o PIB, 1,2% no primeiro trimestre, que tal, seus cabrões mal agradecidos?
Ah, mas um momentinho, senhores ministros, esse PIB caiu fragorosamente 0,7% no segundo trimestre. Como diz? Não dizemos nós, diz o INE. Então e as nossas exportações? O que há com as nossas exportações? Só 2% menos do que os senhores ministros gostariam Tomem lá atenção, tudo isso, esses percalços, são devidos aos efeitos meramente pontuais, as paragens para limpezas da GALP, da Auto-Europa, da refinaria de Sines…
A verdade é que o país, numa das suas primeiras realidades, a realidade ministerial, vê a queda do PIB com tranquilidade, sem insónia nem os sobressaltos oníricos dos mais críticos. Essa queda do PIB é para ser levada à conta de factores extraordinários e irrepetíveis. O que importa, senhores duvidosos, é a continuação do nosso crescimento económico e o alinhamento com o previsto no OE para 2014.
E avança em simultâneo o nosso segundo país – a ordem dos factores continua a ser como sempre foi desde a antiga 4ª classe, arbitrária – as fortunas de Amorins, Belmiros e Alexandres, que era, em 2011, 6,47 milhões dele, é hoje de 7,7 milhões dele.

                                                                                     

           


Que tal, senhores duvidosos do bom caminho da nossa economia?


Ai isto não é crescimento económico? Essa é boa. Como? Com os nossos quatro maiores bancos privados a acusarem prejuízos de 192,7 milhões no tão cantado primeiro trimestre? Pois. Aí é que está. Aí é que está o quê, senhores ministros? É assim mesmo. Agravamento de 29,4 milhões se compararmos com o mesmo período do ano passado? É assim mesmo. E não é esse obscuro detalhe que nos vai entravar a formidável caminhada para o sucesso.
Ou para o sucesso ou para o stress colectivo. Questão de ponto de vista.
Três anos de troika, austeridade, desemprego em barda, cortes de salários e de pensões em barda, cortes de subsídios, de abonos de família. Em barda. O nosso terceiro país. O que coabita com os dois primeiros. A vergonha que os estudiosos da sociedade detectaram no espírito do país – qual deles?
Vergonha? Sim, senhores, vergonha e desconfiança. Em quê, de quê, porquê? Por exemplo, do nosso sistema político, da nossa economia. A consciência cada vez mais aguda e mais comprometedora da falta de líderes. Vergonha? Sim, uma sondagem. Ah, pff, sondagens, valem o que valem. Exactamente, valem o que valem, muito. Vergonha e desconfiança que vão grassando, também, ai de nós!, quanto ao próprio sistema democrático, outrora a luz dos nossos olhos.


O país do stress a coexistir com o país dos senhores ministros, dos bancos falidos, e das maravilhosas fortunas dos Belmiros Amorins e Alexandres.
As situações de stress e esgotamento a crescerem mais do que a economia nacional, senhores! É o que diz a Associação Portuguesa de Psicologia Ocupacional. 83% dos inquiridos a dizerem-se esgotados após os regeneradores três anos de troika, austeridade, desemprego, cortes… e 78% pedindo a todos os santinhos a possibilidade de uma mudança de emprego o mais tardar daqui a cinco anos.
E por falar em cinco anos… pois há cinco anos 32% dos funcionários públicos aparentavam sinais de stress evidentes. Pouco, quase nada, comparado com os 59% do ano passado. Um crescimento maior ainda do que o da economia nacional, não? E no sector privado dessa mesma economia, o stress entre o pessoal deu um salto mas um senhor salto, de 24% para 43%. Porquê, senhores? Fadiga. Só. Sim, à mistura com a perda de horizontes profissionais, de rendimentos, de salários, na perspectiva de desemprego que sobre eles paira como núvem maligna, como espada de Damocles…


Três anos de troika e de regeneração pela austeridade, pelo desemprego, pelos cortes de salários e de pensões… e é quando o crédito fica ainda mais mal parado, as poupanças diminuem (pudera!), e para cima de 18.534 famílias que no primeiro trimestre dos auspícios da nossa felicidade económica, das nossas esperanças e das certezas das contas bancárias dos Belmiros, Amorins e Alexandres, deixaram de pagar o que deviam, entraram em incumprimentos. E só falando no primeiro trimestre deste ano, porque ao todo são 133.563 famílias que não podem pagar contas que subam para cima dos 1.000 euros.


No grande país que são três (pelo menos), feliz, rico, progressivo, esperançoso, próspero, desesperado, caloteiro, alegre e deprimido, o mal-estar nas instituições dá como consequência a intenção do pessoal de mudar de emprego quanto antes. E isso quer dizer o quê? Quer dizer que esta má vontade deprimida e stressada vai incidir perversamente na produtividade nacional. Já em 2008 35% dos empregados queria à viva força dizer adeus àquele patrão e procurar outro. Mas hoje já não são 35%, são 78%, e com incidência maior no sector público.
E se se fala em stress, depressão, má vontade e impulsos de fuga para a frente, registe-se que no país da felicidade, do crescimento económico e da melhorada fortuna dos milionários, no ano passado, 75% faltava ao trabalho com uma limpeza que só visto.
Incremento da produtividade, não é?
Está mesmo assim garantida pelos senhores ministros a sustentabilidade dos índices regeneradores acrescentados por três anos de troika, desemprego, austeridade, cortes, e mais umas botas. E o perverso e descrente povo pergunta às paredes da sua rua que sustentabilidade económica pode ser essa quando duas ou três empresas que ficam cinco dias paradas para limpezas chegam por si só para fazer cair o PIB.


Ou como será possível aos senhores ministros equilibrarem-se na corda bamba de uma feliz política orçamental em austeridade, quando empurrados pela ventania de uma política de competitividade e crescimento…



À hora em que escrevo isto (domingo, 18 de Maio, por volta de uma da tarde) ainda não sei se o Benfica sempre ganhará a Taça. Deus queira que sim. Porquê? Ora… por tudo. E mais umas botas. 


sábado, 3 de maio de 2014

             COESÃO NACIONAL


   O Benfica.
        Claro.
       Não vejo nada nem ninguém que de forma mais imediata e eficaz possa, nas vitórias como nas derrotas, aglutinar sensibilidades, seja em termos interclubistas seja em termos de transversalidade partidária.
       Porque se não for o Benfica…


     Se não são as instituições que falam mais fundo à consciência colectiva, não nos resta senão a irrelevância das más palavras (aliás merecidas) lançadas sobre esse rapazito, o Passos Coelho (é para o lado que ele se deita melhor, e também, se não fosse, ele não tinha ido lá), ou o som do rancor (justificado) projectado sobre a figura risível e tutelar do Cavaco Silva – que também dorme profundamente para qualquer dos lados.
     Nem os gastos capitães de Abril conseguem ter um papel integrador na sociedade (portuguesa). Não os deixam falar. Ou pelo menos não deixaram na solene sessão de S. Bento.
     E porque haveriam os ex-capitães do ex-Abril de falar em S. Bento se o papel deles foi apenas operacional no deitar abaixo da ditadura e com a promessa de, seguidamente, deixarem o campo livre às forças político-partidárias?
 O que não aconteceu, como bem sabem os que se lembram, porque, tirando uma, não havia mais nenhuma força político-partidária em cena.

     Uma vez consumada a operação, e 40 anos passados, porque razão formal deveriam eles ir falar na solenidade parlamentar, ou no cóio legislativo dos actores da chamada democracia a quem a operação deles deu voz?
      Só se fosse por uma questão de moral.
      Mas como não falaram, ou melhor, como não os deixaram falar, a tarefa moral dos capitães que já são coronéis, ou que já não são, perdeu oportunidade. Ou perdeu sentido. Era esse mesmo, a perda de sentido da existência dos capitães, o simbolismo que os parlamentares da maioria pretendiam transmitir ao país.
Conseguiram-no. E ficaram mal vistos. Mas só por uma questão de moral.
     A maioria parlamentar não se pode sujeitar ao risco de ouvir falar mal de si, e por isso não dá confiança a um simples coronel, ex-capitão, para ir à casa da democracia dizer sinceramente o que pensa.
Falar mal da maioria é falar mal da democracia e é minar o bem valioso do optimismo nacional.
Então… bolas!, a democracia é frágil. É. Sem dúvida. E o optimismo nacional também. Sim. Sem dúvida.  E o caso do mutismo forçado dos coronéis que foram capitães na casa da democracia é a prova disso. Como é prova disso a inenarrável senhora reformada que manda na casa da democracia (logo, na democracia mesma), quando compara os manifestantes irrequietos e populares das galerias às forças nazis ocupantes da França durante a II Guerra.
Fragilidade? Da democracia?
Evidente. E comprova-o cada discurso em que um presidente da república se assume como o técnico de contas ambicioso atirado pelas contingências da fragilidade democrática para a missão de ser símbolo e garante da nacionalidade, da identidade nacional, da História portuguesa, e o que faz é atrapalhar-se na confusão dos balancetes…
Só pasmo é pelo seguinte: como é possível dizer-se ainda por aí que vivemos em democracia só porque mais ou menos metade de nós se dá à maçada de ir votar de quatro em quatro anos?
E compreende-se o desespero egolátrico dos capitães que já chegaram a coronéis quando se apercebem, não só de que já poucos (e velhos que não contam para nada) se lembram do feito deles, como de que os que se lembram, deixaram de conceder a esse feito significados grandiosos.


E se os outros, os que se lembram do feito dos capitães, fazem trinta por uma linha para se esquecerem dele… ó diabo, por alguma razão será…


Os partidos.
Nem é bom falar deles. Dão azar. Dão azar até à democracia.
E porque todos lhes atiram à cara com o ónus da culpa. Da culpa da crise económico-financeira. Da culpa da crise política. Da culpa da crise moral que trespassa como lâmina esse valor fingido e incontornável que é o optimismo nacional.
Porque é verdade.
E serem os partidos os grandes causadores de todas as crises nacionais quer dizer alguma coisa a respeito da nossa democracia – ou daquilo que por falta de termo mais adequado ou por conveniência própria alguns ainda chamam democracia.
Mas não há democracia sem partidos. Ora toma!
Mas de certeza que há partidos mesmo sem ser preciso haver democracia. E esta?
E o problema da nossa democracia pode não ser o de não haver partidos, mas sim de haver os partidos que há.
É daquelas coisas (como tantas na nossa santa terrinha) que nunca terão uma solução condigna.  A “simples” mudança destes partidos por outros imediatamente levantaria o clamor grego de que estávamos outra vez nas vésperas da ditadura e do fascismo.


O mal foi dizerem aos partidos que a democracia portuguesa não passava sem eles.


Ai é? Então, já que a democracia tem que nos gramar, estamos de mãos livres para promover devidamente as nossas mais brilhantes mediocridades, para contentar os nossos mais insaciáveis gananciosos, para dar pulso livre aos nossos mais sinistros mafiosos, para abrir caminho aos nossos mais ilustres trapaceiros e vigaristas. E desta forma os partidos portugueses nos dão (e não de borla) a grande lição sobre o que é, ou o que pode também ser, uma democracia moderna. E bem à portuguesa – como o socialismo e o cozido.
E todos os estratagemas serão permitidos aos nossos partidos para se manterem vivos.


Pergunto eu: o que poderia levar os partidos, que nos asseguram para efeitos oficiais a existência de uma democracia, a regenerar os seus processos, a reformular o seu funcionamento? Nada. Pela ordem natural das coisas, nada.
Quais seriam os engraçadinhos a ter a lata de tentar fundar um ou dois partidos de massas para concorrer com os que estão?
Quem, fundando um novo partido sério e honesto, enquadraria a sufocada voz do eleitorado? Ninguém. Porque esse seria gozado, enxovalhado, aniquilado pelos actuais partidos donos e senhores da nossa vida institucional, os tais do pomposamente chamado “arco da governabilidade”. Brincamos?
Além de que não se divisa assim a olho nú ninguém com carisma, e sobretudo moral, para tanto. Mas, se houver, só poderá ser uma carantonha conhecida e reconhecida pelos media, e nesse caso já estará identificada – e marcada para ser destruída, pelo menos moralmente, pelos comunicadores de mão às ordens dos do “arco da governabilidade”.
Ah, Benfica, Benfica… se não fores tu a dar alguma alegria, nem que seja gratuita e passageira, à democracia portuguesa, não sei quem mais possa ser…


E quem, em transparência e ética, financiaria o novo ou novos partidos porventura surgidos, ou sugeridos, na sequência de uma utópica reforma do sistema eleitoral-partidário, ou até, e por consequência, por uma reformulação da democracia mesma? Ninguém. Em toda a transparência e legalidade? Ninguém.
Noutro tempo, para se reformularem coisas e formas de governo, ainda havia o recurso fatal ao golpe de Estado. Geralmente militar. E porque os militares passavam por ser uma casta acima dos partidários vendilhões do Templo, acima das correntías e democráticas corrupções, dos correntíos e democráticos manobrismos partidários. Noutro tempo. Mas hoje…onde estarão esses militarões puríssimos? Só os coronéis de Abril. Que nem falar podem no areópago da democracia. Que nem reconhecidos são como heróis da democracia. Que constituem hoje a novíssima brigada do reumático que noutro tempo eles tanto gozavam.
E onde caberia na cabeça de alguém no seu juízo pensar possível uma bernarda que não implicasse a ruptura com a  U.E. e com o respectivo euro?
Impossível. E até improvável.
Quem terá talento, coragem, sensibilidade, honestidade e credibilidade moral, já não digo para rupturas, mas pelo menos para promover uma reforma da democracia portuguesa sem a bênção dos partidos (e partidários) que estão?
Será o revisor oficial de contas do governo que habita o mal empregado palácio de Belém às voltas com os seus balancetes?
Ah, Benfica, Benfica...
Claro.


E claro que resulta óbvio que nos tempos mais próximos não haverá ruptura alguma no sistema partidário, nem reformulação alguma dos caminhos da insistentemente chamada democracia portuguesa.
Claro que não haverá real e séria reforma de coisíssima nenhuma que cheire ao perigo de um reavivamento da democracia portuguesa desacreditada por quase metade do eleitorado.
Não. Tudo continuará como está. Tudo será evidentemente renovado, mas só por força da corrupção do tempo. E não tenhamos dúvidas de que tudo será renovado nos tristíssimos parâmetros do atraso mental produzido pelas juventudes partidárias, vulgarmente chamadas jotas.


Ah, mas tudo depende de nós!, grita-se nas redes sociais. Tudo depende de nós!
Nós, quem?
Ai que parvo… nós, o povo.
Mais um problema. O povo é o Benfica. Enquanto o Jorge Jesus e o Vieira continuarem a ganhar nem no Benfica será mudado um cortinado na sala da direcção, quanto mais no país, quanto mais na democracia portuguesa.
Seja o que for que dependa deste povo benfiquista, estará condenado ao não-ser, à não-existência.
N
Não me venham para cá dizer que foi o povo que fez o 25 de Abril. Foram os velhos coronéis artríticos de hoje quando eram novos. O povo foi atrás. E bem.
Tudo depende de nós! De nós quem? Do povo unido. Do povo soberano!
Povo soberano. Povo unido. Patranhas. Todos ao Marquês de Pombal para reformar a democracia portuguesa que tanto precisa, coitadinha!


Só se for. Quando é que este povo do Marquês de Pombal benfiquista foi soberano cara-a-cara com os seus supostos representantes – ou dos que, em bom rigor aritmético, representam menos de metade dele, povo soberano? Não sei. 1383? Não sei.
Se os alegados representantes políticos do povo soberano português não são sequer soberanos no seu próprio alvedrío, como é que o povo que eles dizem representar o poderá ser?
Soberania, só se for por mais não sei quantos anos debaixo do olho húmido dos nossos credores, dos nossos estrangeiros e económicos numes tutelares. E nós sem termos a mais vaporosa hipótese de algum dia podermos solver as nossas dívidas – e podermos sobreviver enquanto povo soberano sem elas…
Capitães de Abril, oh, sim, a esperança. A mensagem de Abril. Está viva? Está morta?
As conquistas de Abril! Vivas? Mortas e enterradas? Quem as matou? Quem as enterrou?
Que haverá mais a esperar do 25 de Abril, passados 40 anos, e quando esse mesmo 25 de Abril foi feito com 30 anos de atraso?
Só se viesse outro parecido. Se fosse possível, claro. E mesmo assim…


Tudo o mais é irrelevância, são queixas do governo, deste, daquele, do outro e do outro, do Guterres, do Barroso, do Santana, do Sócrates, e já agora do gonçalvismo, do sá carneirsmo, do soarismo, do cunhalismo, do marcelismo, do salazarismo (oh, sim!), da república, da monarquia…
Perda de tempo e de energia com insultos a desvalidos política e intelectualmente, e todavia eleitos pelo povo soberano, e quando o nosso mal vem de tão longe e é infinitamente mais profundo do que tudo o que os últimos políticos de miserável porte nos tenham feito de mal.


Ou então, vamos lá a ver, o mal deve ser nosso. É o nosso ser. É a fatalidade geo-política que nos fez ser, que nos envenenou a alma e o corpo. E é o fado. E é o Benfica. E é Fátima. E é o contrário de tudo isso, se possível É tudo o que de inconsciente trazemos em nós. É o que avistamos na distância da nossa improvável e infeliz soberania sempre ilusória, Inquisição, expulsão dos judeus, Alcácer Quibir, Filipes, Terramoto, invasões francesas, fuga do rei, ultimato inglês, rotatividade da monarquia, regicídio, 5 de Outubro, La Lys, 28 de Maio, guerra colonial, perda do império...


Mas o mais grave dos nossos desastres históricos é bem capaz de estar a acontecer hoje. Ou mais do que hoje, é o que viveremos nos próximos vinte anos, trinta anos, se o mundo não se esquecer de dar aquela grande volta com que nos ameaçam, e se nós ainda existirmos, nem que seja só formalmente, como hoje, enquanto país livre e soberano.
O Benfica.
Claro.