quinta-feira, 5 de junho de 2014

                           OPTIMISMO


Lembrei-me hoje dos caminhos e descaminhos do optimismo nacional.


De quantos mitos nacionais, ou de quantas das tais misteriosas coisas portuguesas que segundo as mais altas autoridades do nosso optimismo, ainda tinhamos a obrigação cívica de nos orgulhar, nos poderemos continuar a orgulhar?
Toda a mediocridade tem um alibi ético. O optimismo, coisa boa e positiva, justificará eticamente a mediocridade e a irresponsabilidade que parece serem-nos atávicas. O optimismo pode até funcionar como justificação ética para procedimentos eticamente duvidosos.
E isto porque, por acaso, me calhou folhear despreocupadamente o Candide, de Voltaire. Cândido, ou o Optimismo, de seu título inteiro.. Desnecessário, talvez, dizer que Voltaire, ao escrever, não estava a pensar nos governos e nas oposições do Portugal do século XXI – embora por vezes pareça. Mas não é menos certo que, por acaso, a acção do livro passa por Lisboa, a Lisboa setecentista, a Lisboa de sempre – ou de quase sempre.

                                                                                

Está demonstrado – dizia o filósofo Pangloss, perceptor de Cândido - que o que existe não pode ser diferente, porque, tendo tudo sido criado para um fim, tudo é necessariamente para o melhor dos fins. E assim os narizes foram feitos para segurar os óculos e portanto nós temos óculos. E assim as pernas foram instituídas para serem calçadas e é por isso que usamos calçado. E assim os porcos foram criados para serem comidos e nós comemos porco todo o ano.

Quem afirma que tudo está bem, diz uma asneira. É preciso afirmar que tudo vai pelo melhor – inclusive a lesão do Cristiano Ronaldo e os tristes pontas-de-lança da selecção nacional, como diria Voltaire.

Voltaire escreve o Cândido como refutação a Leibniz, todos o sabemos - e se não sabemos também não interessa. Esse Leibniz que invocava a “razão suficiente” que tudo explicaria, que tudo justificaria.
Vamos é ver se nos safamos. Troika, TC, milhões em falta, falências, bancos, desemprego… não há-de ser nada. E cá está: quem diz que a nossa tragédia do século XXI irá continuar e durar per omnia secula seculorum está a apresentar os sintomas do nosso real e dolorido pessimismo que paradoxalmente é o motor do nosso falso optimismo.   


E olha, por pessimismo, invoco hoje também, para além de Voltaire, o espanhol D. Miguel de Unamuno.


Passeando por Lisboa nos começos do século XX, o grande escritor espanhol está nas ruínas do Convento do Carmo, arrasado por um terramoto do século XVIII, e pensa na espécie de terramoto íntimo e moral que ainda então – ou já então - ameaçava o povo português.


Por falar na coisa péssima que são os terramotos, e recuando a 1755, vemos a personagem de Voltaire, Cândido, mais o seu mestre Pangloss, a caminho de Lisboa, corridos de um castelo da Westfália. Encontram um anabaptista caridoso. O anabaptista crê que os homens corromperam a natureza: não tinham os homens nascido lobos, mas tinham-se tornado lobos. Deus não lhes tinha dado canhões de 24, nem baionetas, e eles tinham inventado isso tudo para irem dando cabo uns dos outros. Mas Pangloss persiste em que tudo isso era indispensável. E porquê? Porque as desgraças particulares são o que realiza o bem geral. De forma que, quanto mais desgraças particulares houver, mais tudo irá bem. E aqui está uma sentença que parece feita como uma luva para a nossa actualidade nacional.
À vista de Lisboa o navio onde vai Cândido e Pangloss é fustigado por violenta tempestade.


Em Lisboa, Cândido assiste ao pavoroso terramoto. Segundo Pangloss, aquele terramoto era inevitável, as coisas não se podiam ter passado de maneira diferente. Tudo isto é o que há de melhor, diz, porque se existe um vulcão em Lisboa é porque não podia estar noutra parte. É impossível que as coisas não estejam onde estão. Porque tudo está bem.


E com Pangloss diria eu: era impensável tanto optimismo a justificar uma ética de insânia, incompetência, mentira e mediocridade noutra parte senão neste nosso Portugal. É impossível que as coisas não estejam onde estão. E é no melhor e mais optimista dos mundos que se fortalece o pessimismo e acontecem as coisas desgraçadas. Ou vice-versa. Vai dar no mesmo, isto é, as coisas desgraçadas acontecem na mesma.


E a seguir ao tremor de terra que destruira três quartos de Lisboa, fora decidido pelos sábios da Universidade de Coimbra que o espectáculo de uns quantos autos-de-fé, de umas quantas pessoas queimadas a fogo lento e com grande cerimonial era segredo infalível para impedir a terra de tremer. Falou Voltaire.


E na verdade, à época, a Universidade de Coimbra era considerada pela intelectualidade europeia uma instituição retrógrada face às novas teorias filosóficas, às Luzes. Era o nosso “progresso” científico, social e politico. Que vem de longe, como se vê. Era Portugal. Era o seculo XVIII, mas era Portugal. É impossível que as coisas não estejam onde estão.


O optimismo, o ver as coisas pela positiva. Atitude excelente em si mesma, e muito necessária à vida pessoal e colectiva, mas que pode neste singular país transformar-se numa espécie de droga que serve de escapatória a toda desresponsabilização, a toda a dita insânia, a toda a incompetência, a toda a má fé, a todo o delinquente desleixo, a toda a impunidade, a toda a engravatada vigarice, afinal de contas, a toda a mediocridade da nossa vidinha.
Todo o português sabe que muito dificilmente, em Portugal, se arranjam responsáveis… a justiça, a injustiça, os juízes, os advogados, os jornalistas, os segredos, os arguidos, os argutos, os agressores, os deputados, os ministros, as vítimas, o ministério público, a Relação, o Supremo, o Constitucional, já tudo está confundido para que o cidadão deixe de o ser, isto é, deixe de compreender o que de facto se passa na polis… ninguém denuncia claramente, ninguém se acusa e ninguém acusa inequivocamente, ninguém se demite, não há responsáveis, tudo está bem, é impossível que as coisas não estejam onde estão…
Uma granja e um banco: aí temos Portugal”. Não, não é Voltaire. É Oliveira Martins. De um lado, o campo português, o doce vegetar; do outro, Lisboa, a cidade cosmopolita cheia de beócios, materialistas sem fé alguma em nada que seja duradouro. Oliveira Martins. Que sabia das coisas. No século XIX. E, mutatis mutandis, neste século XXI.
Estranho é o contraponto entre os angustiados apelos ao optimismo social e político feito pelos mais notáveis de um país naturalmente, atavicamente, pessimista – ou a quem os notáveis de todos os tempos só deram motivos para ser pessimista, fadista. Ou para ser até, como pensava D. Miguel de Unamuno, um país e um povo de suicidas.
Um optimismo postiço, desesperado e injustificado, por amor, desampor, ciúmes ou negócios, pode ser uma forma de suicídio.
Um optimismo português resulta, só pode!, da mediocridade nacional. Que não é um motor de acção e desenvolvimento; que é antes uma balela para iludir o atraso e a incapacidade das elites e enganar os tolos. E os tolos somos nós. Os da rua. Eu.
E com o optimismo como medicamento milagroso para nos tirar as dores do pessimismo ancestral, muitos vão governando menos mal a vidinha.
Um amigo português de Unamuno escreve-lhe uma carta: Chegou-se em Portugal a este princípio de filosofia desesperada: o suicídio é um recurso nobre e uma espécie de redenção moral. Tudo o que é pobre se suicida neste malfadado país; tudo o que é canalha triunfa.
O nosso mal, continua esse amigo de Unamuno, é uma espécie de cansaço moral, de tédio moral: o cansaço e o tédio de todos aqueles que se fartaram de crer.
Como estarão os actuais níveis de suicídio em Portugal?


Optimismo e passividade. Não são sinónimos, eu sei, nem consequências um do outro. Eu sei. Bem pelo contrário. Mas o optimismo, aqui, institui-se como intimação oficial à apatia e ao silêncio.
Pensando no original pessimismo português que os nossos actuais mentores pretendem ocultar e contrariar, Unamuno refere-se a essa apatia, uma apatia que pode mesmo desencadear ataques de fúria – assassínio, suicídio. Mas sempre num quadro de submissão. Submissos, os portugueses, submissos mesmo quando se revoltam. Porque se formos interventores teremos de chamar às coisas e às acções pelos seus nomes e podemos prejudicar-nos na vida. A começar pelo empregozinho. Portanto, o melhor é deixar andar, armar um sorriso beatífico, virar a cara para o lado, assobiar, não ter opinião, piedosamente não reparar nos responsáveis por tudo o que, desde logo no nosso local de trabalho, funciona mal, ou nem sequer funciona. E já está: teremos um país pronto para a maior produtividade, para a mais gloriosa competitividade. Competitividade que não passa sem optimismo, é muito certo, mas que também não vive dele. E o que eu digo é que, pelos vistos, para os nossos dirigentes, o optimismo é uma espécie de saída eticamente airosa, imediatista, de emergência, para o seu próprio fracasso e para a nossa mediocridade. E quem vier atrás de mim que feche a porta…
O optimista não é, à primeira vista, e de uma maneira geral, um crítico. E a quem é crítico e realista costuma-se chamar por estas plagas de pessimista, de derrotista. De populista! – último epíteto inventado pelos políticos instalados para atirar a quem tiver a lata de, em democracia, os criticar. Populista! Mais dia menos dia, o pessimista será um marginal, um anti-social.
A mansidão portuguesa só se encontra á superfície; raspai-a e logo haveis de encontrar uma violência plebeia que chegará a assustar-nos. Miguel de Unamuno dixit. É só lermos os jornais para aquilatarmos da propriedade destas palavras.


Mas também, actualmente, por cá, não vale de muito a crítica. A mediocridade é uma instituição nacional, ai de quem atente contra ela; a mediocridade portuguesa é imbatível – começa e acaba no optimismo. Crítica? Para quê? Nada, ou pouco, acontece. O relatório é inconclusivo. O chefe de secção que se demita. Não é possível responsabilizar ninguém mais acima.
Mas pedir-se optimismo a um país secularmente pessimista, o país do fado? Não lembrava ao diabo.
E de novo a carta do amigo português de Miguel de Unamuno – provavelmente Manuel Laranjeira: A Europa despreza-nos; a Europa civilizada ignora-nos; a Europa medíocre, burguesa, prática e egoísta detesta-nos como se detesta gente sem vergonha e sobretudo sem dinheiro. Apesar de tudo, ainda há em Portugal muita nobreza moral, pelo menos há nobreza moral bastante para morrer
Isto nos primeiros anos do século XX.
E continua: Sou português e filho de um povo que atravessa uma hora incerta, crepuscular, do seu destino. O meu espírito sofre intermitências de abatimento e entusiasmo, fé e desânimo, crença e desespero. Tratar-se-á do crepúsculo que precede o dia e a vida, ou do crepúsculo que antecede a noite e a morte? Não sei.
Estava-se naquele tempo a viver, parece-me, o estertor da monarquia, posto que o amigo de Unamuno escreve: ainda há meses, quando Portugal atravessava os dias terríveis da ditadura de João Franco, julgava eu que iamos ressurgir. Publiquei artigos fervorosos de optimismo e crença, e hoje sinto uma tranquilidade pútrida. Não falta por aí quem diga que isto já nem é povo, antes o cadáver de um povo.
(Ou o tal sítio mal frequentado – diria o Eça.)
A paisagem da, em tempos, tão esperançosa democracia portuguesa é neste momento assustadora. E quem atente contra o optimismo e a mediocridade, dizem eles, é da extrema direita ou da extrema esquerda populistas, e está a atentar contra a democracia civilizada. No tempo do Salazar eram os comunistas. Mas a lógica medíocre é a mesma. Já estamos habituados.
As coisas mais desgraçadas que nos acontecem podem ser consequências da nossa mediocridade optimista - ou optimizada pelos nossos chefes.


Cândido cai nas mãos dos canibais. Compreende que no melhor dos mundos os homens se comem uns aos outros. Ele próprio está para ser devorado mas salva-se. Os canibais apuram que ele matou um jesuíta inimigo deles e resolvem não o comer. Cheio de optimismo, Cândido quer ir-se embora do Novo Mundo. Mas não sabe para onde ir. Se volto para o meu país, encontro os búlgaros e os árabes que cortam a garganta a toda a gente. Se volto para Portugal sou queimado. Se fico nestas terras arrisco-me a ser enfiado num espeto, assado e comido.
Optimismo. Pensamento positivo. Alimentação racional. Abstinência e água do Luso. Vegetais. Anti-tabagismo. Naturismo. Piedade para com os animais e fim às corridas de toiros. Tolerância para com os homossexuais e todos os outros alternativos. Brincos nas orelhas dos homens e igualdade para as mulheres. Facilidades no ensino. Auto-estima. Correcção política acima de tudo - dogmas do nosso presente nacional minado pela delinquência e pela vigarice a todos os níveis, mas que se pretende racional, moderno, progressista, tolerante, alinhado lá por fora.
O optimismo português também é filho da nossa ancestral e nacional hipocrisia. É o que é…
E eu tenho que me mentalizar de que sou um bonito rapaz, que ainda estou jovem, que o bilhete de identidade não dá informação fiável a meu respeito. Eu tenho que afirmar a mim próprio que sou um sujeito com muito boas qualidades de carácter, que sou muito boa pessoa. Eu vejo-me obrigado a pensar, neste mundo competitivo, que sou um fulano inteligente. Eu tenho que estar convencido de que sou um profissional exemplar, competitivo.
É. O radiante optimismo nacional pode fazer de mim um tipo ridículo e risível.
E se uso o optimismo é para não começar a exercitar a desconfiança. Sobre os outros. Sobre mim. Sobre tudo.
E reparo num insignificante e estranho exemplo: se por acaso algumas pessoas olham para mim e constatam em tom de censura, “ah, você fuma… faz tão mal, quantos maços fuma por dia?”, e se eu respondo “é verdade, sou um proscrito da sociedade da correcção, dos bons e salutares costumes, da droga, dos assaltos, da violência doméstica galopante, do assassínio do meu vizinho, do suicídio, da depressão e dos violentos desastres de automóvel… sou um desgraçado, fumo, confesso, mas vou deixar de fumar ainda este ano… aliás… já ando a deixar de fumar… estou cheio de força de vontade”… se respondo assim gozo de algum movimento de amnistia no coração das pessoas, e mesmo que nunca me tenha passado pela cabeça deixar de fumar, ou mesmo porque sei que não tenho força de vontade para tanto – ou vontade de fazer essa força. Mas mesmo assim as pessoas, é comovedor e hipócrita reconhecê-lo, ficam contentes por mim, o semblante delas suaviza-se imediatamente quando digo que vou… que já estou a deixar de fumar, “faz muito bem, assim é que é, força amigo!”, e mesmo que eu minta elas irradiam simpatia e humanidade para comigo. Apostam em mim, sem me conhecer de lado nenhum. Fizeram a sua boa acção acção, salvaram uma alma dos infernos do Marlboro. Optimismo,em suma.
Mas se respondo que não tenho intenção alguma de deixar de fumar, a cara das pessoas fecha-se sobre mim, olham-me como se o meu nome figurasse na agenda dos talibãs. Porque eu não lhes dei lugar a qualquer optimismo, mesmo num assunto que me diz respeito só a mim. Não lhes dei esperança alguma de ficarem optimistas por estarem em vias de salvar uma alma das neblinas tabágicas. E a pior coisa que se pode fazer a um cidadão nacional hoje em dia é abrir-lhe um caminho realista, é não lhe mostrar nem uma insignificante via para as quimeras do optimismo.


Ainda no Novo Mundo, no Perú, Cândido espanta-se: O quê? Não existem por aqui frades que ensinam, que discutem, que governam, que intrigam, que fazem queimar as pessoas de opinião contrária? Um velho sábio peruano responde-lhe: “Só se fossemos doidos.Não, amigo, aqui somos todos da mesma opinião:”
 “Ó Pangloss!, exclama a certa altura Cândido. Tu não tinhas imaginado tais abominações. Decididamente, terei por fim que renunciar ao teu optimismo.
O criado Cacambo pergunta a Cândido o que vem a ser isso de optimismo. Cândido replica-lhe: Ó homem, é o furor de insistir em que tudo está bem quando tudo está mal!
“Deixa lá, pode ser que não seja nada”.
“Vais ver que vai correr tudo bem.”
 “Não há-de ser nada.”
“Vais ver que ainda vais dar a volta por cima.”
E se por acaso, puro acaso, e por um golpe de sorte, conseguimos em qualquer coisa da nossa vida dar uma volta por cima, ah, “vês?, eu sabia, eu bem te disse que ias dar a volta por cima, eu bem te disse que não havia de ser nada e que havia de correr tudo bem. Eu sabia.”
Todos nós passámos a saber.


Roubado em terras do Suriname, Cândido vai ter com um juíz a dar parte do mestre de uma embarcação holandesa que lhe levou os haveres. Descreve os factos. Mas fá-lo num tom de voz um pouco elevado e o juíz logo à cabeça aplica-lhe uma multa de 10.000 piastras por ter falado alto demais, fazendo-o pagar outras 10.000 pelas custas do processo. Quanto ao roubo em si, bem, quando o mercador holandês regressasse ao Suriname logo se veria.
Os desgostos secretos são mais cruéis do que as misérias públicas – diz a Cândido um velho maniqueu
E torno a citar Unamuno: Um povo triste na trivialidade das suas manifestações exteriores. Um povo triste mesmo quando sorri; uma literatura triste mesmo quando é jocosa ou cómica.
Estarmos optimistas é confiarmos em que o nosso país está em boas mãos, em que os nossos comandantes aos diversos escalões, do Estado ao local de trabalho, saberão enfrentar os problemas e resolvê-los. O que significa, para a nossa mentalidade, ficarmos sossegados e mantermo-nos apáticos e sem opinião crítica e sem intervenção activa, para não prejudicarmos os nossos legítimos interesses, para não andarmos contra a corrente, para não sermos considerados pessimistas, destrutivos, reaccionários, política e socialmente incorrectos. Populistas!


É de suicidas o povo de Portugal. Talvez seja um povo suicida. Para ele a vida não tem um sentido transcendente. Viver? Para quê? Mais vale não viver.
D. Miguel de Unamuno menciona o pessimismo suicida de Antero de Quental, de Soares dos Reis, de Camilo, ou mesmo de Alexandre Herculano (que segundo ele se suicidou como os monges, de isolamento).
Lord Byron, outro frequentador destas paragens, escreveu num poema a nosso respeito: Poor paltry slaves!” – escravos miseráveis apesar de nascidos entre as mais nobres cenas. Why, Nature, waste thy wanders on such men” – com tal gente, ó Natureza, porque desperdiçaste os favores?
“Não há-de ser nada, tudo vai correr bem, deixa por minha conta”, “e se se descobre?”, “se se descobre o quê?, há para aí tanta coisa para descobrir que não se descobre”, “mas se se descobre?”, “mas quem é que descobre? Quem é que tem moral neste país para descobrir alguma coisa, isto é só cá entre a malta”.
Os jornais, a televisão, “desculpe, mas eu nada tenho a ver com isso,” “não, está enganado, não é da minha competência”, “não comento”, “claro que declino toda e qualquer responsabilidade”, “não quero prejudicar o andamento da justiça”, “o senhor tinha conhecimento de que…”, “eu?, que ideia!”, “a justiça está a funcionar!”,  “mas o senhor não é presidente disto e director daquilo e  comandante daqueloutro?”, “eu?, que disparate, eu não sou nada… “; ou então: “sou sim, presidente disto, director daquilo e comandante daqueloutro, e depois?, já lhe disse não tive conhecimento de nada, e ouça… o que se passa é normal, faz parte da…”, “ah, faz parte?”, “claro que faz parte…”, “digo e repito: não fiz nada de ilegal, não estou arrependido de nada, voltaria a fazer o que fiz”, “mas, senhor presidente”, “começo a estar cansado da má fama de que goza a classe política, a minha classe, enfim!”, “ouça, amigo, isso faz parte…”.
Em Portugal hoje em dia tudo há-de correr bem, porque tudo é normal, porque tudo faz parte.
         Em Constantinopla, Cândido encontra-se com um célebre dervixe, homem com fama de ser o maior filósofo da Turquia.


Mestre, porque foi criado um animal tão exótico como o Homem?, pergunta ele ao dervixe.
Que tens tu com isso?, responde-lhe o sábio.
Mas, mestre, que devo então fazer?
Estares calado.
É que eu gostaria, mestre, de discutir um pouco convosco os efeitos e as causas do melhor dos mundos, da origem do mal, da natureza, da alma e da harmonia estabelecida.”
E ao ouvir isto, o dervixe, sem cerimónias, fecha-lhe a porta na cara.
Que razão nos dão os nossos maiores para acreditar, para sermos optimistas - para não sermos esses execrandos populistas resingões? Que valor têm as ilusões de legalidade, transparência e prosperidade que nos têm criado? 


Porque, muitas das vezes, conhecermos a verdade de nós mesmos pode significar a depressão, a auto-aniquilação. E pelo que dizem as estatísticas hospitalares, os portugueses do século XXI andam a oscilar muito entre serem optimistas sem razão, ou serem depressivos. E esses infelizmente com toda a razão.
O optimismo português do século XXI é um desespero. Pode ser um grito de vida ou de morte.
E restam-me poucas dúvidas de que para o nosso ridículo índice de produtividade, entre outras e desvairadas coisas, muito tem contribuído o optimismo televisivo dos nossos dirigentes. Dirigentes que talvez não nos falem toda a verdade quanto à nossa realidade. A nossa realidade depende muito dos altos e baixos das sondagens eleitorais. E elas são optimistas, hoje para uns amanhã para outros, quando não são optimistas para os dois lados no mesmo dia.

 “Sim, sim, o treino de ontem deu indicações bastante positivas”.
“Foi uma reunião muito produtiva.”
“Sabe, tirei ilacções bastante úteis daquilo que vi”.
“Pareceu-me uma decisão muito correcta.”
Ou como quando no ano passado o Sporting acabava de perder um de muitos outros jogos e o seu guarda-redes declarava às televisões: “A equipa está de parabéns”.
Não acontece nada neste país que não seja correcto, que não dê indicações positivas e não há reunião que não seja produtiva nem ilacções tiradas que não apontem para boas perspectivas. E contudo…


Mas - e isto também é queiroseano - como povo religioso e temente (a Deus ou ao que for preciso) que sempre fomos, sempre preferimos a mentira piedosa à crueza da nossa verdade.



terça-feira, 27 de maio de 2014

          SEGUNDA VARIAÇÃO IMPERFEITA SOBRE  
                         OS  PEQUENOS PODERES
                                              

Vamos distinguir devidamente as coisas. Ou falamos de poder ou falamos de autoridade.

   
    
                                                              

 Não, claro que não são necessariamente a mesma coisa.
O poder, dizia Jacques Maritain, é uma força que permite obrigar outros. Diferente, já se vê, da autoridade. Uma autoridade é um direito que se tem de mandar. Só a autoridade é instância moral de poder.

                                           
                                                                   


            O poder político é o que é reclamado por quem tem as condições de impor coercivamente a sua vontade. Mas o poder político não foi outorgado, caro leitor, ao seu chefe de secção ou ao seu directorzinho de serviço. Nem um nem outro fazem parte dos eleitos. Esses foram nomeados. Nomeados sabe Deus à custa de quantas pequenas manigâncias ou insignificantes competências técnicas. Só o poder legitimado por uma eleição, quer dizer por uma virtude reconhecida, ainda que eventualmente falsa, parece-me, pode permitir a um sujeito obrigar o comportamento de outros seres livres.


Mas a esse poder deveria ser acrescentada outra categoria que se chama prestígio. O prestígio pessoal significa mais do que uma autoridade, ou seja, significa que no sujeito poderoso existe uma qualidade pessoal real. Não há nenhuma espécie de poder que seja indiscutivelmente moral, ou inegavelmente suportado por uma base moral. O que é moral não é o poder, é a autoridade. A autoridade não só é moral como tem na moral a sua finalidade. Não se fala de uma autoridade meramente técnica, ou de perícia. Fala-se, como é evidente, de moral. Se uma autoridade não guardar em si a ética, pode descambar em poder, em acidente. Autoridade e poder podem ser uma contradição. E por falar em acidente, nenhum poder, a nenhum escalão, é natural, é irrefragável. Todo o poder é um acidente. O poder é uma delegação de outros poderes, e, no caso da política, uma delegação de um povo. Que povo entronizou "poderíos" no prepotente, autoritário e mal criado do meu chefe de serviços?
Mas o meu chefe de serviços recebeu o seu poderzinho por acidente. E o poder dele, tal como o do rei, carece urgentemente, do consentimento, pois só pelo consentimento de outros o acidente que é o poder tem condições para ser exercido.
A autoridade é outra coisa.
A autoridade é um aperfeiçoamento de qualidades humanas intrínsecas. Reconhece-se e consente-se com mais naturalidade do que um poder. A autoridade pode ser independente do reconhecimento e do consentimento de outros, visto que no alcance da autoridade reside o mérito. A autoridade pessoal é criação. Pode mesmo ser segunda natureza.
Alguns pensadores arriscaram dizer que no poder “está-se”, enquanto que autoridade é coisa que se “tem” – ou que se “é”. Não há nada de mais pessoal do que uma autoridade.
Na velha Grécia houve tempo em que o designado cidadão se transformou em súbdito. Mas é a partir da categoria Homem que as sociedades nascem.


No meio disto entra uma figura que por largo tempo me mereceu alguma intelectual simpatia: o déspota esclarecido – não confundir com o seu chefe de vendas.
Pois é. Ele arranjar déspotas ainda se arranja com facilidade. O pior é o esclarecido. Esclarecidos é o que custa mais a arranjar
Não fui só eu a simpatizar com a fórmula de poder do déspota esclarecido. Aristóteles e Platão não iam fora disso. Esse déspota esclarecido atenderia às liberdades civis e seria ele o corpo visível e operacional do Estado.
Existirá liberdade no momento em que o Homem não participa no poder do Estado?

                                                                     

Alguns espíritos defenderam a intervenção, directa ou indirecta, dos cidadãos no poder do Estado, gente como Locke, Spinoza, Montesquieu, Kant ou Rousseau; outros, lá entenderam que só a alguns extractos sociais competia a intervenção no poder do Estado – temos Aristóteles, Marx, Lenine.


Mas houve quem teorizasse que o poder só seria poder se independente da vontade e da intervenção dos destinatários dele, poder.


Max Weber seleccionou três modos históricos de poder. Um - o poder tradicional; dois – o poder carismático; três - o poder racional. Denominador comum e imprescritível: a legitimidade.
Sem legitimidade nenhum poder obtém obediência sem ter que recorrer à força. Sem confiança ou sem autoridade nenhum poder é outra coisa senão força.
Outra questão é o reconhecimento de uma legitimidade de poder. Aliás,uma questão eternamente pendente nas encruzilhadas da História.
O poder tradicional. Era o poder do costume, a violência dos hábitos. Coisa do passado, esse poder é patriarcal, sacerdotal, feudal. Porém, ainda coisa do presente em certas regiões distantes da nossa consciência de empregados urbanos.


O poder carismático. Um poder acrescentado por um estado de graça. Acreditava-se que um homem pudesse ser dotado de clarividências extra-humanas, de dons excepcionais, de uma cintilação pessoal própria que impusesse e induzisse à obediência. Se eu for a ver, o meu chefinho está secretamente convencido que possui esses dons…


Bom, mas isso era no tempo em que os homens se dedicavam inteiramente às causas em que acreditavam. Ou, mais próximo, quando ainda havia o homem providencial para a administração de uma instituição, o homem que tinha uma ideia, um projecto para aquela instituição e que não chegava à instituição para lá cumprir os três anos da ordem e depois seguir para outra freguesia e continuar a sua carreira até ao dia ditoso da sua reforma dourada.
O poder legal, o poder racional. É o poder da burocracia. É o poder que dispara quase sem ser preciso accioná-lo, automático. É o poder dos estados modernos, das empresas modernas. Há regras legais previamente articuladas. Elas funcionam por si, acriticamente. Há apenas que tomar conta delas e não permitir rupturas ou cortes epistemológicos…
Para este tipo de poder o que é pedido é racionalização funcional. E tanto faz que lá esteja este como aquele. O mecanismo jurídico-funcional está montado. E pronto. É preferível estar quieto, não mexer no sistema. Não há ideias. Não há estilo. Não há golpes de asa. Não há chama criativa. Recebe-se o salário, deixam-se passar os três anos, é-se nomeado a seguir para tomar conta do automatismo burocrático de outra instituição e assim sucessivamente. E é-se feliz.


        Claro que horas e horas de conversa poderíamos ter a respeito de cada um destes poderes e respectivos enfoques históricos, e quando por vezes, por acidente, as três categorias se podem fundir num único estilo de mando.
Estilo? Pois estilo, emanação de personalidade é coisa hoje em dia a evitar a todo o custo. Alguns administradores mais parecem robots, indivíduos anestesiados, incapazes de proferir uma palavra a mais ou de tomar uma decisão, nem que ela seja justa e aconselhável.


E aprecie-se a realidade: administradores de empresas industriais que sobem a ministros da Educação, ministros da Saúde que descem a presidentes de conselho de administração de bancos. E por aí fora. Acaba por haver uma unificação no círculo dos poderes de um país, de uma sociedade. Porquê?


Ainda se pergunta? Porque existe uma coincidência de interesses concretos que unificam as prestações de poder, coincidência que circula da instituição militar à política, aos bancos, à indústria. Há coincidência de orígens sociais dos membros do grupo. Há grande afinidade psicológica entre os indivíduos do grupo. Daqui o caso de um administrador do Hospital Júlio de Matos poder continuar descansadamente a sua carreira e o seu currículum como presidente de uma companhia de bailado, ou de um ex-vice-presidente da Galp poder vir a continuar a sua carreira à frente de uma estação de televisão.
Desgraçadamente, a nossa experiência quotidiana dos tempos mais presentes pouco consegue, por muito que se esforce, desencantar uma instância superior de saber no íntimo de uma instância de poder.
Uma pulsão de poder só muito a custo decorre de uma serenidade de saber.  
E não se duvide que o nosso chefe exerce mais ou menos a sua descricionaridade quanto mais for sabedor. Ou seja: quanta mais informação tiver. O que também pode ser entendido por… quanto mais informadores ele tiver na secção.
Não há poder que dure sem informação. É sabido. E da maneira como as coisas estão já não importa muito que essa pretensa informação não passe de boato ou de má língua. Uma mentira dita 50 vezes é uma verdade inquestionável. De forma que se os informadores do meu chefe lhe segredarem aos ouvidos qualquer negativa coisa a meu respeito, mesmo que seja redonda mentira, o meu chefe – se não for de boa qualidade humana - vai passar a olhar para mim e para o meu trabalho em função do que lhe segredarem os informadores que ele teve. Não tenho a mais pequena dúvida sobre isso. E o mais aborrecido é que as minhas possibilidades de defesa contra o falso segredo que o meu chefe guarda a meu respeito são poucas. São nenhumas. Faça eu o que fizer.
Quem poderá traduzir eficazmente para o entendimento do vulgo o sentido da linguagem do poder?
E quando arrepelo os cabelos ao descobrir que o meu pequeno chefe é um tatebitate que não diz uma para a caixa, que não produz um discurso claro e convincente, porque é ignorante e desajeitado na palavra e na relação humana, não há nada a fazer. Se eu ainda pensar à antiga, que poder é linguagem…
É verdade. Houve tempo em que a palavra falada era instrumento de poder, alavanca de domínio. Pelo discurso se chegava ao poder. Pelo discurso se mantinha um poder. Pedia-se: autenticidade (real ou fingida, já se vê) na fala; rigor na demonstração das ideias, clareza nas motivações. Por aí se dominavam os homens.
Hoje? Hoje nada disso serve ao poder. Ou antes: quanto menos disso melhor, porque os poderes já não precisam muito da razão verbalizável para se execerem.
Eu tenho uma parcela, ainda que ínfima, de poder. Porque tenho o direito de poder mudar o homem que exerce o poder político nacional e que é a expressão de um sistema político. Através do meu voto periódico. É pouco, mas é o que se pode arranjar. Não tenho é a mais pequena hipótese de participar na mudança do homem ou homens a quem, no mais concreto da minha vida prática, devo obediência profissional. O meu chefezinho. O meu directorzinho. Ou mesmo o meu presidente ou director-geral. Aí, a minha opinião não conta para nada. Nem ma pedem. Eles não são sujeitos a escrutínio. São técnicos. Em grande parte dos casos não fazem a mínima ideia dos modos de conduzir homens e mulheres, de gerir conflitos, de estimular e congregar vontades criativas. Em certos casos e actividades, a estes chamam-se capatazes.
E além do mais, a democracia ou a democraticidade é coisa que se atenuou, ou deixou mesmo de existir nos locais de trabalho.
Ao correr da História foi de direito mudar violentamente o homem no poder. O chamado tiranicídio. Era legítimo o assassínio se não fosse possível arredá-lo por outros meios da sua tirania. E é claro que hoje não é fácil antever-me a assassinar o tiranete que é o meu chefe de serviço, esse dono e senhor da maior parte do meu tempo acordado e senhor do mais pequeno de todos os poderes absolutos.     


                                                     

Na sua Summa Theologica, o bom do S. Tomás de Aquino até disse: Um governo tirânico não é justo por orientado não para o bem comum, mas para o interesse privado do governante. Não há sedição quando se ataca um governo desta espécie, salvo no caso de a revolta ser tão desordenada que os súbditos sofram maior dano do que o causado pelo governo do tirano.


Mas melhor do que o vulgar tiranicídio era a tomada do poder pela revolução.O tiranicídio afastava o homem do poder, verdade, todavia mantinha desse poder o sistema de governo. E também o tiranicídio, as mais das vezes, era incidente passado em bastidores, entre a cúria dos notáveis que invejava do tirano a tirania e a prosseguia sob o mesmo sistema de valores.


Se no tempo da ditadura a classe dirigente era limitada ao único partido existente e os bons eram mesmo bons (ainda que poucos), os maus estavam de uma maneira ou de outra circunscritos, e era sempre à obediência ao regime que se devia, achavamos nós, a sua qualidade de chefes ou directores de alguma coisa.


Com a democracia – e a níveis de função pública ou empresas do Estado - começou a haver escassez de pessoal que, não sendo desde logo de considerar político, é pessoal que faz falta às encomendas do mando, faz falta aos partidos para nomeações quando chega a vez desses partidos estarem no poder e proceder ao controlo dos aparelhos do Estado.
E está claro que a margem de escolha dos melhores em democracia -ainda por cima portuguesa – encolheu substancialmente.
Todos sabemos que Portugal ocupa um lugar cimeiro no concerto dos países que, por mediocridade generalizada e falta de ofertas aliciantes, deixam fugir os seus melhores para o estrangeiro.
Depois há os que são mesmo bons. Têm que entrar para um partido dos de poder, senão nada feito…
Depois há os mesmo bons que não estão para se incomodar. Não aparecem e por isso não são facilmente nomeáveis.
Depois há os mesmo bons que desprezam os caciques dos partidos e a sua lógica. Não podem ser nomeados para nada.
Depois há os mesmo bons que correm para o sector privado.
Depois há os mesmo bons que se dispõem a tornar-se medíocres por pura e irreprimível ambição. Podem ser nomeados, sob certas condições.
A maioria são de dar vontade de rir de mediocridade, ignorância e avidez pelo dinheiro e pelo mando – nem que seja pouco. Imediatamente nomeados seja para o que for.
Acho que o crescimento louco da massa dos ambiciosos deu cabo da virtual qualidade da nossa democracia. Querem ganhar dinheiro, muito dinheiro, depressa, querem ter um estatuto depressa, querem fazer carreira depressa. São pessoas manuseáveis, manobráveis, obedecem cegamente a quem manda se lhes acenam com um naco de carne ou um torrão de açúcar. Nunca levantam problemas. Os partidos deitam-lhes a mão muito depressa. São nomeados para chefes e directores disto e daquilo muito depressa. E a gente que os ature. E a gente que lhes sofra as consequências da incompetência ou da impreparação para o comando, da vaidade da ambição, e… quantas vezes, da idiotia.
Ele há fartos candidatos aos poderes, grandes e pequenos, tantos que aquele que o ambicione verdadeiramente para si não se pode prender com picuínhas, tem de ser implacável, competitivo, impiedoso, seguro, senhor do seu tempo e do seu gesto. E assim, quer nas manobras necessárias à obtenção do poder como nos processos indispensáveis para o perpetuar. 
Outro acicate não possuo para os flancos picar de meu intento senão esta ambição – um tirada do Macbeth.
Mas o poder do nosso chefe de secção –nem que seja o maior déspota – não sofre das usuras que costumam sofrer os poderes superiores de Estado e de governação, os poderes dos eleitos. Todo o poder destes está, desde o primeiro dia da sua vigência – e pelo menos teoricamente - ameaçado. Lá está: faz parte. É o segmento de consentimento de que cada poder precisa, o vírus devastador que o começa a minar desde o primeiro dia de expectativas.
Os poderes de Estado, de governo, têm a obrigação de curar dos seus sustentáculos, a chamada base social de apoio. Mas esses sustentáculos são frágeis. O poder do meu chefe de secção, como depende do arbítrio de um director, de um administrador, e tem nele o seu sustentáculo, não é tão frágil como foi o poder do general De Gaulle em 1958, ou em 1968. Por exemplo.
Só se o meu chefe  de secção entrar em conflito aberto com os seus maiores. Situação em que, no geral, eles não caem – a menos que sejam pessoas excepcionais. Que no geral não são.
Só se o chefe de secção entrar em perda de prestígio aos olhos do director que o protege. Mas também só se ele for parvo – e for justo, simpático e dialogante com o pessoal – é que desgasta o seu pequeno poder e a sua graciosa imagem junto da administração.
Mas não se pense que o noso antipático chefe de serviços vai dar de mão do seu pequeno estatuto de poder, ou sequer mudar de atitude, só porque os subordinados não gostam dele, ou porque algum subordinado até já se queixou dele com razão ao nível hierárquico superior.
A propósito, alguém deu saída àquela minha queixa, tive alguma resposta? Alguém me deu alguma explicação ou satisfação? Ora aí está. O poderzinho que os chefinhos exercem na nossa democracia é olímpico. Mas se ninguém deu saída à minha reclamação sobre os actos do meu chefe, bom, isso quer dizer que eu tinha razão na minha queixa. Foi esse o meu erro: ter razão perante os meus chefes.
A democracia portuguesa dos empregos não perdoa a quem tem razão e não seja chefe de alguma coisa. Oxalá que não venha eu a pagar a razão que tive com língua de palmo…
Se há animal político nesta vida é o animal que detém um poder. Por pequeno que seja. Uma questão de instinto. Porque nestas matérias os instintos são dois, e entrecruzáveis e complementares um do outro, e o primeiro deles é o instinto que o meu pequeno chefe tem de mandar, sendo o segundo instinto aquele que eu tenho de lhe obedecer. E é, entre outras coisas, por instinto, que o poder tende a fortalecer-se e a reproduzir-se.
Dizia Montesquieu: o poder chega até onde o detêm. E não serei eu, que sou homem comum e simples, a ter o poder de deter o poder do meu pequeno chefe.
Fala-se aqui de pequenos chefes – e não de chefes tout court – porque estamos em Portugal e em Portugal, infelizmente, está-se em pequeno e tudo se torna cada dia mais pequeno ao ponto de ser mais o chefinho ou o directorzeco quem mais directamente perturba a vida de cada um de nós do que o ministro ou o chefe de Estado – ou a hierarquia de Bruxelas, claro.
Pequenino, pequenino, meu querido Portugal. Small is beautiful. É o que nos tem valido.


Porque o nosso problema de gente comum, relativamente aos poderzinhos que nos amargam a vida, é eles estarem livres de fiscalização a sério. Desde logo porque quem deu o poderzinho ao meu chefinho foi o directorzinho por quem ele bebe os ares e de quem ele conhece as fragilidades.
Embora, teoricamente, todo o poder em democracia esteja sujeito a fiscalização… a gente sabe como é. Teoricamente. Virtualmente. E restaria saber a qualidade de quem fiscalizava quem.
Não quero com isto dizer que não haja bons e grandes chefes no nosso pequeno mundo do trabalho, mas foi por estas e por outras que se fizeram revoluções. Foi quando os poderes, em certo sentido tirânicos, se fortaleceram e se multiplicaram a tal ponto que reclamaram a intervenção de outros poderes ainda mais tirânicos.
O que por vezes esquecemos no nosso figadal conflito com o nosso chefe de secção, ou director de serviços, ou administrador de pelouro, é que o poder de todos eles é um elo da mesma cadeia. Eles são solidários nos interesses. Integram o mesmo grupo de interesses. Um grupo a que se ouviu chamar em tempos mais contestatários de classe dirigente.


Quando de normal escriturário o meu colega Lopes é nomeado chefe de sector, não tenho dúvidas, eternamente subordinado que sou, que ao acolher o pobre do Lopes no seu novo gabinete alguém lhe disse: “Bom dia Lopes, bem vindo à classe dirigente desta casa”. A partir daqui não lhe vale a pena fingir-me o grande amigo que nunca fui do Lopes, não vale a pena falar-lhe do seu Sporting, não vale a pena aconselhar paternalmente o Lopes sobre o serviço enquanto tomo a bica com ele…
Nem vale a pena, por mais razão que tenha, queixar-me superiormente das decisões do meu chefe e ex-colega Lopes. Tudo o que ele faz passa a estar bem feito e é encoberto e apadrinhado pelo grupo a que passou a pertencer, a classe dirigente. Não tardará muito e o pobre do Lopes começará ridiculamente a jogar golfe e a ir à ópera com a feiosa da mulher dele – da qual, aliás, se divorciará em breve para se enrolar com a secretária.
Toda a classe dirigente, seja no seu pequeno escritório de loja de ferragens, seja no armazém de secos e molhados, seja na General Motors ou na  Microsoft, tem por objectivo primeiro, além de auto-aumentar o seu vencimento, proteger-se das críticas e das queixas seja de quem for, e sobretudo das dos subordinados.
Todo o real poder é exercido não por pessoas singulares mas por um grupo dirigente. O indivíduo poderoso é só a ponta de um iceberg director. Não vale a pena dizer mal dele. Ele passou a ser um dos da elite.
Quem detém afinal o poder real nas sociedades modernas?, apetece perguntar.


Uma tese elitista: o poder só pode pertencer a um escol de indivíduos, a tal elite; um escol muito homogéneo, muito unido, quase impossível de arredar. Outros falarão de uma tese mais plural. Nâo há uma classe dirigente como nos tempos arcaicos e sacerdotais. Há diversas categorias dirigentes que tanto podem colaborar como combater-se, mas que, também por isso, acabam por se equilibrar. Só os malandros dos marxistas é que continuam a pensar que existe uma classe de sacerdotes ungidos para o mando e falam de uma classe dirigente emanada de uma classe dominante burguesa e capitalista.


Nos tempos recentes assistimos à chegada à instituição onde trabalhamos de um novo gestor. Acreditamos que agora sim, as coisas vão de facto entrar nos eixos, que é aquele o homem que vem trazer à instituição ideias novas, processos modernos, justiça laboral, força de endireitar o que há muito anda torto na casa. Deixemos passar um mês, dois, três…


Ao cabo de uns meses de acção – mais frequentemente inacção – concluímos que esse novo dirigente não era messias nenhum, não trazia na manga qualquer solução, não tinha na mente a mais pequena ideia, nova ou velha, e que foi para ali por acaso, nomeado por alguém para preencher o seu currículum e prosseguir a sua carreira até que alguém, alguma entidade, o coloque noutro sítio, onde ele continuará por acaso, sem fazer ondas, o seu curriculum, onde prosseguirá a sua carreira.


Uma vez perguntei a alguém muito tido e achado nas gestões e administrações e que chegou a ser gestor: qual é a primeira coisa que um administrador faz ou pretende saber no primeiro dia em que toma contacto com uma empresa. Responderam-me: discutir a marca e o modelo do carro a que o lugar lhe dá direito.


Uma das inevitabilidades do poder é que esse mesmo poder se define e se afirma pela possibilidade dada a quem o detém de abusar dele.
Abusos do poder, corrupção do poder (ou pelo poder), e outras coisas que tais. Por princípio eram práticas que nos quiseram convencer estar confinadas aos regimes políticos ditatoriais, autocráticos, fascistóides. O desenvolvimento da nossa democracia permitiu-nos perceber, e em certos casos experimentar na pele, que não era totalmente assim e que na democracia os nichos de poder abusivo e as práticas abusivas dos poderes grandes e pequenos podiam ser uma praga que acabasse por corroer a credibilidade desse sistema perfeitíssimo que nos convenceram de ser a democracia parlamentar representativa.
Nenhum sistema político tem, porém, o exclusivo do abuso de poder.


Na democracia capitalista, o príncipe é o partido - e o respectivo aparelho. E o esmagador poder económico engendrou outros poderes, reforçou-os, tornou-os influentes, decisivos, desorientou a balança dos equilíbrios e criou a confusão entre o que seja um poder real e efectivo e um poder apenas aparente.


Ora uma das preocupações magnas dos teóricos da democracia deveria, a meu ver, residir no apuramento cada vez mais efectivo de mecanismos atenuadores do abuso de poderes, seja da parte de instâncias do Estado e instituições ou empresas, seja da parte de individualidades ou pequenos funcionários. Mas não. Parece que quem influencia e goza de algum estatuto se dá muito bem no reino da arbitrariedade e minimiza o problema. E já se percebe que um primeiríssimo pontapé de saida para obviar à questão dos abusos de poder seria o convite à melhorada e mais ampla participação das possíveis vítimas dos abusos de poder nas decisões desse poder.


E já se percebe que outro pontapé de saída seria o da fiscalização constante e efectiva - e penalizadora! - dos actos do poder, mesmo pequeno. Porque nenhum poder, de esquerda, de direita, de presidente, de ministro, ou de chefe de serviços deve deixar de ser efectiva e imparcialmente fiscalizado.
Bom, mas isso já significaria a entrada num estádio superior de cidadania e de democracia política que cada vez parece mais distante. Para não dizer utópico.
Muitos dos que já foram por alguma razão postos fora desta problemática, provavelmente nem sonham o quanto, hoje, a empresa, as instituições públicas, enfim, o local de trabalho, é factor de fundas angústias existênciais, causas de suicídio, ou, enfim, agravos da saúde mental de tantos cidadãos trabalhadores. Muitos – a maioria? - dos problemas pessoais de quem trabalha são gerados no emprego e são reflectidos e desenvolvidos posteriormente em casa, no segredo do casal, na privacidade da família, na aspiração quase dolorosa de uma aposentação antecipada, ou com os resultados drásticos, ou bastas vezes trágicos, que se lêem nos jornais.
A grande neurose da descrença e da improdutividade nacionais fortalece-se nos locais de trabalho e tem por causadores muitos pequenos chefes e directores que, sem prejuízo das capacidades e competências técnicas que tenham, não possuem a mínima sensibilidade para a direcção de seres humanos. É o problema ingente, colossal, do poder.
E o problema do poder não é para ser exclusivamente posto ao nível do Estado e das instâncias oficiais mais visíveis e mais intocáveis. Também deveria pôr-se no plano da apreciação dos pequenos actos e critérios arbitrários, injustos e algumas vezes incompetentes dos chefezinhos e directorzinhos de muita instituição. Inclusivé das que vivem do dinheiro do Estado democrático, sim...
E enfim, todos nós temos as nossas experiências. Se fossemos a falar de todo o tipo de experiências e de todas as implicações delas… nunca mais acabávamos…